13.717 – Neurologia – Choque na Memória


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O poema de Álvaro de Campos, um dos heterônimos mais conhecidos do escritor português Fernando Pessoa (1888-1935), remete ao conceito universal de que a memória é o que nós somos. Sem que tenhamos a possibilidade de recordar, a existência se esvazia por completo. A vida se sustenta com base nas ideias do presente, nas referências do passado e na forma como processamos e armazenamos as nossas experiências. Por isso, ninguém quer perder a memória, todos querem melhorá-la. Pois um novo e ousado procedimento médico foi capaz de impulsionar o mecanismo que forma e preserva as lembranças, um feito inédito na medicina. Eletrodos implantados em uma área específica do cérebro recuperaram 15% da memória de pacientes. A taxa equivale ao que se perde em dois anos e meio com a degeneração provocada pela doença de Alzheimer. Ou ao que se esvai naturalmente em dezoito anos de vida de uma pessoa saudável. Traduzindo: quem tem 56 anos hoje pode, em tese, voltar a ter a mesma memória que tinha aos 38 anos. Youssef Ezzyat, psicólogo da Universidade da Pensilvânia, autor principal da técnica: “O método abre um caminho de possibilidades para auxiliar as pessoas com problemas de memória”. Publicado na revista Nature Communications, o trabalho tem sido considerado por especialistas do mundo todo como um dos feitos mais promissores ocorridos na neurologia nas últimas décadas, desde a disseminação dos aparelhos de ressonância magnética que revelam o cérebro em atividade.
A dinâmica do método fascina. Dezenas de eletrodos minúsculos, de 2,3 milímetros cada um, foram implantadas no córtex lateral de 25 pacientes. O córtex lateral é a região do cérebro associada ao processamento de informações. A cirurgia para a implantação dos eletrodos dura, em média, três horas. Em seguida, os participantes foram orientados a memorizar uma lista com doze palavras aleatórias, como “bala”, “doce” e “carro”. Cada vocábulo foi exibido em uma tela durante dois segundos. Pediu-se a todos os pacientes, então, que fizessem contas matemáticas simples, tarefa cujo único objetivo era distraí-los da anterior. Na sequência, tinham de dizer aos pesquisadores de quais palavras conseguiam se lembrar. Durante todo o procedimento, a atividade cerebral dos pacientes era registrada pelos eletrodos. Com isso, os cientistas conseguiram definir dois padrões de ondas cerebrais: um para os momentos em que a memória funcionava bem, e o outro para quando ia mal. A partir daí, os eletrodos foram programados para liberar pequenos choques elétricos no cérebro do paciente (que não sente nada) sempre que sua onda cerebral não funcionasse bem. Resultado: as lembranças melhoraram em 15%.
O procedimento ainda é experimental e deverá ser realizado em um número maior de pessoas para que se verifiquem sua real segurança e eficácia. É um processo que deve demorar ainda mais uma década para ser concluído. “Mas já podemos dizer que se trata de um feito inédito para os estudos de melhora da memória”, diz o neurologista Renato Anghinah, da Universidade de São Paulo. Aqui, um parêntese importante. Todos os pacientes que se submeteram ao estudo tinham epilepsia, doença que costuma provocar deficiências de memória. No entanto, os efeitos da técnica dos eletrodos, teoricamente, poderiam ser igualmente positivos também em pessoas saudáveis.
O uso de descargas elétricas para melhorar a saúde do cérebro é coisa antiga. O médico grego Claudio Galeno (129-216) encostava peixes-elétricos no crânio dos pacientes para tratar dores de cabeça crônicas. Com seu método, Galeno intuiu o que só seria confirmado no século XVIII: que o organismo pode ser estimulado por impulsos elétricos — o princípio de ação dos eletrodos. Esses dispositivos são usados desde a década de 90 para tratar doenças neurológicas, como Parkinson e epilepsia. Atualmente são estudados para o tratamento de pacientes com depressão refratária a medicações. Implantados no cérebro, ficam ligados a uma bateria externa que libera choques em áreas que variam conforme a natureza da doença. O conceito por trás da técnica é que as pequenas descargas elétricas são capazes de interromper atividades cerebrais desreguladas, permitindo, assim, a predominância de atividades cerebrais em regiões com processamento normal. Cientistas já arriscam imaginar os próximos passos. Diz o neurocirurgião Arthur Cukiert: “No futuro, poderemos avançar a ponto de conseguir os mesmos efeitos com uma tecnologia não invasiva, que aja de fora do cérebro”.
A memória é uma das funções mais complexas do cérebro. Isso porque ela está associada a dezenas de áreas do órgão, sendo o hipocampo uma das principais. Em conjunto com o córtex, ele garante que o organismo colete, conecte e crie as lembranças a partir de experiências. É, portanto, o primeiro passo para a formação da memória. Quem quer que rememore o seu primeiro beijo possivelmente se lembrará das palpitações causadas pela ansiedade, do ambiente em que se encontrava, do perfume e das características físicas do parceiro. O fato de a experiência envolver tantos sentidos ajuda a fazer com que, mesmo alguns bons anos depois, a lembrança continue ali, armazenada. Os atores essenciais nesse processo são as conexões elétricas transmitidas pelos neurônios — as chamadas sinapses, que codificam e armazenam a memória.
Mais recentemente, a medicina identificou que o mecanismo da memória é ainda mais intrincado do que se imaginava. Ele está associado também aos hábitos de vida. Hoje, sabe-se que 30% dos casos de perda de memória grave podem ser evitados com comportamentos saudáveis. Há seis meses, a Academia Americana de Neurologia passou a recomendar exercícios físicos para prevenir a perda de memória — como 150 minutos semanais de caminhada, por exemplo.
A atividade física estimula o funcionamento do hipocampo. Já a privação de sono tende a provocar lapsos de memória — uma noite maldormida é capaz de afetar temporariamente a comunicação entre os neurônios. Ainda há controvérsia entre especialistas sobre a eficácia de atividades que pregam técnicas de memorização para retardar a perda das lembranças, como o jogo de xadrez ou sistemas de aprendizagem como o Kumon. Mas um novo estudo, publicado na revista da Sociedade Americana de Geriatria, descobriu que esses hábitos podem, sim, ajudar a memória, só que em uma situação mais específica, quando ela já está afetada por um transtorno cognitivo leve — o estágio entre o envelhecimento cerebral normal e a demência. Dificilmente, no entanto, essas atividades poderiam contribuir para reverter a perda natural de lembranças. O problema está, mais uma vez, na complexidade da formação da memória. “Não há um exercício suficientemente completo para abranger todas as variações da memória. É possível melhorá-la pontualmente”, diz Paulo Bertolucci, chefe do setor de Neurologia do Comportamento da Universidade Federal de Medicina, em São Paulo.
Esquecer é algo natural. Todo aquele que tiver uma vida longa em algum momento se queixará de ter ficado com “uma palavra na ponta da língua”. A chave de casa some, a carteira não está no lugar e o nome das pessoas desaparece repentinamente. A falta de memória saudável é um sintoma secundário de outros problemas. Antes de tudo, pode ser desatenção. Se um indivíduo não se importar com o lugar onde deixou o casaco, seu cérebro também não vai se preocupar em arquivar essa informação. Os lapsos podem ter a ver ainda com ansiedade, depressão, stress e abuso de álcool. Aos 60 anos, por causa do desgaste natural dos neurônios, mais da metade dos adultos apresenta dificuldades de memória que afetam o seu dia a dia em algum grau. Mas isso não é necessariamente sinal de problemas graves, como a doença de Alzheimer.
O mecanismo das lembranças é um tema debatido desde a Antiguidade. Sócrates, conforme relata Platão em Fedro, lamentou a popularização da escrita porque, segundo ele, a substituição do conhecimento acumulado no cérebro pela palavra desenhada tornaria a mente preguiçosa e prejudicaria a memória. “Essa descoberta provocará nas almas o esquecimento de quanto se aprende, devido à falta de exercício da memória, porque, confiadas na escrita, é do exterior, por meio de sinais estranhos, e não de dentro, graças a esforços próprios, que obterão as recordações”, disse. Bem mais adiante, o escritor português José Saramago retorquiu ao filósofo grego em seu livro de crônicas A Bagagem do Viajante, publicado originalmente em 1973: “Se passo as minhas lembranças ao papel, é mais para que não se percam (em mim) minutos de ouro, horas que resplandecem como sóis no céu tumultuoso e imenso que é a memória. Coisas que são também, com o mais, a minha vida”. Sócrates se preocupava com a influência do papel sobre a memória, mas nunca imaginaria o poder dos eletrodos sobre ela. Se pudesse fazê-lo, talvez levantasse outras questões: os implantes cerebrais poderão resultar em classes diferentes de cidadãos, os de memória aprimorada e os “normais”? E se, em algum momento, eles influenciarem pensamentos e comportamentos? Por outro lado: podemos estar subjugando a importância do esquecimento?.
Na ficção, a memória tem sido instrumento de roteiros extraordinários. Um exemplo é o filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, do diretor Michel Gondry. Lançado em 2004, o longa conta a história de Clementine, a personagem vivida por Kate Winslet que se submete a um procedimento experimental para apagar da memória o ex-namorado Joel, interpretado por Jim Carrey. Desconsolado, Joel decide fazer o mesmo. Mas, quando suas lembranças começam a se esvanecer, ele percebe que ainda ama Clementine — e tenta desesperadamente inverter o processo. A vida se faz por memórias, e, sem elas, sobra o vazio. A possibilidade de estendê-las por mais tempo é a possibilidade de prolongar o bom da vida.

A dádiva do esquecimento
Na mitologia grega, Mnemosine e Letes, os rios da memória e do esquecimento, corriam pelas planícies do Hades, a terra dos mortos, e a alma que lá chegava, conforme bebesse das águas de um ou de outro, teria o conhecimento ou a completa ignorância do que vivera sobre a terra. Outras versões do mito colocam o Letes à saída do Hades, pois a alma que retornava ao plano terreno tinha de apagar lembranças de vidas anteriores. No século XIV, Dante adaptou esses mitos da Antiguidade ao pensamento cristão em sua Divina Comédia: saindo do Purgatório, as almas que se encaminhavam para o Paraíso bebiam do Letes para esquecer os pecados, e de um rio chamado Eunoé para lembrar-se do bem que haviam feito. Essas narrativas já contemplavam uma intuição fundamental sobre o funcionamento de nossa mente: esquecimento e memória são faculdades complementares. Precisamos de ambas.
A vida seria perfeitamente infernal se nossa memória fosse irretocável. Imagine lembrar-se exatamente de tudo o que foi dito pelo apresentador de um programa dominical que você viu em um dia de 1995, ou da cor das meias que você calçou naquela ocasião. Uma pessoa que lembrasse de tais insignificâncias teria dificuldade para discernir que eventos merecem ser qualificados de memoráveis. Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Stanford e publicado em 2007 demonstrou que a capacidade do cérebro de suprimir memórias irrelevantes facilita lembrar o que realmente importa. Há razões evolutivas para que seja assim: na competição pela sobrevivência em um ambiente hostil, torna-se fundamental guardar informações essenciais. Importa mais lembrar que certo cachorro é bravo do que recordar seu nome ou a forma de sua tigela de ração.
A ciência ainda não desvendou os mecanismos do esquecimento, mas já sabe que esquecer é tão vital quanto lembrar. Pesquisas recentes sugerem que certas pessoas com incapacidade de esquecer eventos traumáticos têm maior risco de desenvolver depressão e transtorno de stress pós-traumático. Como apontou o filósofo e psicólogo americano William James, pioneiro em estudos sobre a memória: “Se nos lembrássemos de tudo, seríamos, na maioria das vezes, tão doentes quanto se não nos lembrássemos de nada”.
Admirador de William James, o argentino Jorge Luis Borges (1899-1986) talvez tenha sido o escritor de ficção que melhor compreendeu a importância do esquecimento. O francês Marcel Proust explorou os delicados processos involuntários que despertam a memória dos tempos perdidos — mas Borges aventurou-se em terreno mais perigoso: especulou como seria uma memória absoluta, no conto Funes, o Memorioso. Espécie de versão extrema da americana Jill Price — que consegue lembrar o dia exato em que determinado episódio de programa televisivo foi ao ar nos anos 80 —, Irineo Funes não consegue se esquecer de nada. Tem facilidade para línguas, mas é incapaz de pensamento consistente. “Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No mundo abarrotado de Funes, nada havia além de detalhes, quase imediatos”, ensina Borges.
Em um conto posterior, O Aleph, Borges imagina um objeto impossível: o aleph é um ponto único do espaço — localizado em um porão de Buenos Aires — em que é possível ver a totalidade do mundo em um só relance. Depois da experiência sobrenatural de olhar para o aleph, o personagem-narrador teme nunca mais vir a ter uma surpresa na vida, pois todas as pessoas com que cruza na rua já foram vistas antes. Depois de algumas noites de insônia, porém, o esquecimento faz seu trabalho. Borges tinha uma memória literária prodigiosa, conhecendo muitos textos e poemas de cor. Mas compreendia que o esquecimento é uma dádiva.

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13.709 – Alzheimer: remédio em formato de adesivo chega ao SUS


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O Sistema Único de Saúde (SUS) já está disponibilizando um adesivo transdérmico de rivastigmina, medicação utilizada para o tratamento do Alzheimer. Com o nome comercial Exelon Patch, o adesivo pode ser colocado em oito regiões da pele, permitindo a absorção do remédio ao longo do dia. Esse é o único remédio para o Alzheimer disponível em formato transdérmico.
Apesar de ter outras duas versões – em cápsula e solução oral –, em forma de adesivo, o medicamento diminui a possibilidade de efeitos colaterais que podem afetar o sistema digestivo, como náusea e vômito, se comparado às opções orais. A administração através da pele ainda garante que a dose diária seja aplicada corretamente, facilitando a tarefa dos familiares ao cuidar do paciente. Como o Alzheimer não tem cura, o remédio vai precisar ser utilizado até o fim da vida para minimizar os sintomas, por isso a versão transdérmica oferece maior comodidade.
No Brasil, além da rivastigmina, existem outras três medicações disponíveis para o tratamento do Alzheimer nas farmácias e na rede pública de saúde: donepezila, galantamina e memantina, que foi integrada ao SUS no ano passado. Com exceção do último, todos os outros podem ser utilizados na fase inicial da doença.
Alzheimer
O Alzheimer é uma doença neuro-degenerativa que provoca a diminuição das funções cognitivas uma vez que as células cerebrais degeneram e morrem, causando declínio constante na função mental. Os principais sintomas da doença são: dificuldade de memória (especialmente de acontecimentos recentes), discurso vago durante as conversações, demora em atividades rotineiras, esquecimento de pessoas e lugares conhecidos, deterioração de competências sociais e imprevisibilidade emocional.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), essa doença é responsável por 60% a 70% dos casos de demência – grupo de distúrbios cerebrais que causam a perda de habilidades intelectuais e sociais. Estima-se que 47 milhões de pessoas sofram de demência no mundo, sendo registrados 10 milhões de novos casos anualmente. No Brasil, o Alzheimer está entre as dez maiores causas de morte e é um problema que afeta 1,2 milhão de pessoas.
Por ser uma doença incurável, o diagnóstico precoce pode fazer toda diferença já que o tratamento ajuda a impedir o avanço e amenizar os sintomas.
Funcionamento da medicação
A substância ativa do Exelon Patch é a rivastigmina, que atua no aumento da quantidade de acetilcolina no cérebro, molécula neurotransmissora necessária para o bom funcionamento cognitivo. Na forma de adesivo, essa medicação possui três tamanhos: 5, 10 e 15 cm², embora apenas as duas primeiras estejam disponíveis para distribuição no SUS.
Essa diferença de tamanho/dosagem é necessária para preparar o corpo do paciente para o recebimento da quantidade mais alta do remédio – considerada a mais eficiente na redução dos sintomas -, além de minimizar qualquer possível efeito colateral. Entre as reações adversas mais comum, que atingem mais de 10% dos pacientes, estão: perda de apetite, dificuldade para dormir, incontinência urinária, reações na pele na área de aplicação, sangue no vômito ou nas fezes, desconfortos estomacais após as refeições, entre outros.
Segundo Rodrigo Rizek Schultz, presidente da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAZ), a principal vantagem do adesivo é a entrega da substância ao longo do dia, geralmente mantendo o mesmo nível da rivastigmina no organismo durante todo o período de uso. “Quando via transdérmica, os produtos são liberados ao longo de 24 horas, evitando os picos de medicação, como acontece com os comprimidos, por exemplo, que quando são ingeridos entregam doses altas, que vão caindo ao longo do dia, sendo necessário fazer a reposição”, explicou. Nas versões orais, o Exelon precisa ser tomado duas vezes ao dia.
Ele ainda comentou que pessoas idosas costumam utilizar muitas medicações orais, portanto, o Exelon Patch oferece uma alternativa para o paciente, diminuindo a quantidade de comprimidos ingeridos.
Aplicação
Segundo a indicação da bula, o Exelon Patch deve ser trocado a cada 24 horas e pode ser colocado em oito regiões do corpo:
Parte superior dos braços esquerdo ou direito;
Lado direito ou esquerdo do peito;
Parte superior das costas, do lado esquerdo ou direito; e
Parte inferior das costas, do lado esquerdo ou direito.
Especialistas recomendam que o adesivo seja posto em regiões diferentes a cada nova troca – como um tipo de ‘rodízio’ -, garantindo descanso para a pele. Outra orientação é que antes da aplicação a pele esteja limpa, seca e sem pelos, além de estar livre de hidratantes ou loções que possam interferir na aderência. Regiões da pele que tenham cortes, erupções ou irritações devem ser evitadas.
O adesivo pode ser utilizado no banho, na piscina ou na praia, mas é necessário certificar-se de que ele não tenha descolado depois. Caso isso aconteça, um novo deve ser aplicado para o restante do dia e trocado no dia seguinte, conforme o esquema habitual adotado.

 

Fonte: Veja

13.699 – Neurologia – Dormir pouco faz o cérebro destruir seus próprios neurônios


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Dormir traz diversos benefícios para os seres vivos – principalmente para nosso cérebro. Além de repor as energias que gastamos durante o dia, o sono também “limpa” os restos da atividade neural que são deixados para trás durante o dia a dia e podem ser prejudiciais. Mas agora, em uma nova pesquisa, pesquisadores descobriram algo curioso: este mesmo mecanismo de limpeza acontece também em cérebros que estão sendo privados do sono ou que têm dormido pouco. Mas com um porém: ao invés de limpar os restos das sinapses, estes cérebros começam a limpar as próprias sinapses e neurônios, em um processo que beira o canibalismo.
A equipe, liderada pela neurocientista Michele Bellesi, da Universidade Politécnica de Marche, na Itália, examinou a resposta do cérebro de mamíferos aos maus hábitos de sono e descobriu essa semelhança bizarra entre os ratos descansados ​​e sem sono. E o pior: a recuperação do sono pode não ser capaz de reverter os danos nos cérebros que passam a se alimentar de si mesmos.
Como as células em outras partes do corpo, os neurônios do cérebro estão sendo constantemente atualizados por dois tipos diferentes de células gliais, que funcionam como uma espécie de cola do sistema nervoso.
Umas delas, as células da microglia, são responsáveis ​​por limpar as células velhas e desgastadas através de um processo chamado fagocitose. Já os astrócitos removem as sinapses desnecessárias no cérebro para refrescar e remodelar sua fiação.
Sabemos que esse processo ocorre quando dormimos para limpar o desgaste neurológico do dia, mas agora parece que a mesma coisa acontece quando começamos a perder o sono. Mas ao invés de ser uma coisa boa, o cérebro começa a devorar partes saudáveis de si mesmo e se machucar.
Para descobrir isso, os pesquisadores imaginaram os cérebros de quatro grupos de ratos: um grupo foi deixado para dormir por 6 a 8 horas (bem descansado); outro foi periodicamente acordado do sono (espontaneamente acordado); um terceiro grupo foi mantido acordado por mais 8 horas (privação de sono); e um grupo final foi mantido acordado por cinco dias seguidos (cronicamente privados de sono).Quando os pesquisadores compararam a atividade dos astrócitos entre os quatro grupos, identificaram-na em 5,7% das sinapses dos cérebros de camundongos bem descansados ​​e em 7,3% dos cérebros de camundongos espontaneamente acordados.

Nos camundongos privados de sono e cronicamente privados de sono, eles notaram algo diferente: os astrócitos aumentaram sua atividade para realmente comer partes das sinapses, como as células microgliais comem resíduos – um processo conhecido como fagocitose astrocítica.
Nos cérebros de camundongos privados de sono, descobriu-se que os astrócitos estavam ativos em 8,4% das sinapses e, nos camundongos cronicamente privados de sono, 13,5% das sinapses apresentavam atividade astrocitária.

Qual o rempo ideal por faixa etária?
Você já deve ter notado que um recém-nascido dorme praticamente o dia todo, enquanto uma pessoa idosa dorme poucas horas durante a noite. Em cada fase da vida há diferentes necessidades de descanso. Qual é a sua?
Recém-nascidos (0 a 3 meses): 14 a 17 horas por dia;
Bebês (4 a 11 meses): 12 a 15 horas por dia;
Crianças pequenas (1 a 2 anos): 11 a 14 horas por dia;
Crianças em idade pré-escolar (3 a 5 anos): 10 a 13 horas por dia;
Crianças em idade escolar (6 a 13 anos): 9 a 11 horas por dia;
Adolescentes (14 a 17 anos): 8 a 10 horas por dia;
Jovens (18 a 25 anos): 7 a 9 horas por dia;
Adultos (26 a 64 anos): 7 a 9 horas por dia;
Idosos (mais de 65 anos): 7 a 8 horas por dia.
Ao ler a lista, você deve estar se perguntando o que motivou os pesquisadores a dividirem a faixa etária de 18 a 64 anos em “jovens” e “adultos”, já que as horas de sono indicadas são as mesmas. Isso foi feito porque os especialistas também avaliaram que alguns indivíduos nessas idades podem ter necessidades de sono um pouco abaixo ou acima da recomendação, mas que isso não chega a ser um problema. Para os jovens, pode ser apropriado dormir entre 6 a 11 horas, enquanto para os adultos esse tempo cai levemente para 6 a 10 horas. Aí está a diferença entre as duas fases.
Os especialistas apontam que qualquer necessidade de sono muito acima ou muito abaixo da recomendada pode ser um sintoma importante de um problema de saúde sério que precisa ser investigado. Eles também alertam que pessoas que escolhem dormir muito menos do que o recomendado para o seu grupo etário podem estar comprometendo seu bem-estar.

13.684 – Antropologia – Por que os cérebros humanos se tornaram tão grandes?


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Esse é um “mistério” que intriga os cientistas já faz um tempo: enquanto a maioria dos organismos prospera com pequenos cérebros, ou nenhum, a espécie humana optou por sacrificar seu crescimento corporal em troca de mais capacidade cerebral.

A hipótese
Os pesquisadores Mauricio Gonzalez-Forero e Andy Gardner, da Universidade de St Andrews, na Escócia, acreditam ter descoberto por que isso aconteceu.
O cérebro humano teria se expandido principalmente em resposta a estresses ambientais, que forçaram nossa espécie a encontrar soluções inovadoras para se alimentar e se abrigar, passando essas lições adiante para seus filhos.
Essa hipótese, testada pela dupla via simulações computacionais, desafia uma teoria popular de que o órgão cresceu à medida que as interações sociais entre os humanos se tornaram mais complexas.
Na verdade, o inverso pode ser verdadeiro. “As descobertas são intrigantes porque sugerem que alguns aspectos da complexidade social são mais prováveis de serem consequências do que causas de nosso grande tamanho cerebral. O grande cérebro humano mais provavelmente se originou da solução de problemas ecológicos e da cultura cumulativa do que da interação social”, disse Gonzalez-Forero ao portal Phys.org.

Causa ou consequência
De nossos ancestrais australopitecos, mais semelhantes aos símios, até o moderno Homo sapiens, o cérebro humano triplicou de tamanho.

Alimentar um cérebro tão grande vem com o custo de um crescimento lento do corpo na infância – deixando nossos filhos mais dependentes e vulneráveis por mais tempo do que os de outros animais.

Pesquisas anteriores encontraram correlações entre o tamanho do cérebro grande em espécies animais e estruturas sociais complexas, bem como vida em ambientes desafiadores e uma capacidade de aprender lições com colegas, o que também é descrito como “cultura”.

Mas nenhum estudo foi capaz de concluir se esses fatores são a causa da expansão cerebral ou o resultado disso.
Os “cérebros” utilizados como modelos foram apresentados a desafios ecológicos, como encontrar presas em condições climáticas adversas ou em terrenos difíceis, ou preservar alimentos para protegê-los contra mofo ou deterioração, ou ainda armazenar água em meio à seca.

Desafios sociais também foram introduzidos, para testar a influência da cooperação e competição entre indivíduos e grupos no crescimento do cérebro.

Curiosamente, a cooperação foi associada a uma diminuição no tamanho do cérebro, provavelmente porque permitia que os indivíduos confiassem nos recursos uns dos outros e economizassem energia. Enquanto as demandas sociais não pareciam levar a cérebros grandes, problemas ecológicos cada vez mais difíceis expandiam os órgãos.
Interação Social 0 x 1 Cultura
Mas então por que os cérebros de outros animais que vivem em ambientes desafiadores não cresceram tanto quanto o cérebro humano?

Provavelmente por causa da cultura – a habilidade de aprender com os outros, ao invés de ter que descobrir tudo sozinho.

“Nossos resultados sugerem que é a interação da ecologia e da cultura que produziu o tamanho do cérebro humano”, disse Gonzalez-Forero.

13.683 – Biologia – Veja o tamanho e peso do cérebro humano em comparação com outros animais


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O cérebro humano é incrível, e, com certeza, o que mais nos diferencia dos outros animais. Mas não é o maior cérebro do reino animal; animais maiores, como baleias e elefantes, têm cérebros maiores (a baleia- azul, com seus 10 kg de cérebro, tem o maior do reino animal).
Porém, o cérebro humano é muito grande quando comparado com o tamanho do nosso corpo. O cérebro humano pesa, em média, 1,5 kg. Em um homem de 80 kg, é quase 2% do seu peso corporal. Já a baleia-azul, com suas 200 toneladas, tem um cérebro que ocupa apenas 0,005% de seu corpo.
Mas proporção também não é tudo. Se inteligência dependesse só disso, estaríamos empatados com os ratos, que também têm um cérebro que ocupa 2% de espaço no corpo.

A chave é a complexidade desse órgão.
A maioria das criaturas vivas possui um sistema nervoso. Em algumas delas, ele é muito simples, como o da anêmona-do-mar, que tem apenas uma pequena rede de células nervosas. Nos insetos, essas células ficam lado a lado para formarem os nervos. Em criaturas mais complexas, forma-se uma coluna que possui um cérebro e uma medula espinal. Entre estes animais, os peixes possuem o cérebro mais simples, não muito maior que seu olho.
Quanto mais rugas tem um cérebro, mais neurônios ele tem. O cérebro humano tem mais pregas e rugas do que muitos outros animais. Por exemplo, o cérebro de um esquilo ou de um rato é muito liso comparado com o de um ser humano, por isso não é tão complexo. Alguns animais, como os golfinhos e as baleias, têm cérebros quase tão enrugados quanto os nossos.
Conclusão: tamanho e peso não são documento. Rugas podem ser mais decisivas – ainda que não expliquem todos os mistérios da inteligência.
Mas, por divertimento, confira o tamanho e o peso médio do cérebro de várias espécies animais:

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Primatas:
Humano (Homo sapiens): 1,176 kg
Chipanzé (Pan troglodytes): 273 g
Babuíno (Papio cynocephalus): 151 g
Mandril (Mandrillus sphinx): 123 g
Macaco (Macaca tonkeana): 110 g
Carnívoros:

Urso (Ursus arctos): 289 g
Leão (Panthera leo): 165 g
Guepardo (Acinonyx jubatus): 119 g
Cão (Canis familiaris): 95 g
Gato (Felis catus): 32 g
Artiodátilos:
Girafa (Giraffa camelopardalis): 700 g
Cudo, um antílope africano (Tragelaphus strepsiceros): 166 g
Muflão, carneiro selvagem (Ovis musimon): 118 g
Cabra do Gerês (Capra pyrenaica): 115 g
Queixada (Tayassu pecari): 41 g
Marsupiais:

Wallaby (Protemnodon rufogrisea): 28 g
Lagomorfos:

Coelho (Oryctolagus cuniculus): 5,2 g
Roedores:

Rato-preto ou ratazana (Rattus rattus): 2,6 g
Camundongo ou rato-doméstico (Mus musculus): 0,5 g
Bônus
Baleia cachalote: 7,8 kg
Vaca: 5,6 kg
Orca: 5,6 kg
Elefante: 7,5 kg
Golfinho: 1,6 kg
Abelha: 0,013 g
Beija-flor: 1 g
Hipopótamo: 500 g
Curiosamente, a proporção entre o cérebro e o corpo da abelha (15,6%) é bem maior que a do hipopótamo (0,017%), tornando-a mais esperta. Já a barata nem cérebro tem. No lugar, possui o cefalotorax, um órgão que atravessa seu corpo e só serve mesmo para mantê-la viva. Para matá-la, mal adianta arrancar sua cabeça…[NeuroscienceResearchTechniques, MundoEstranho, SuperInteressante, CerebroEMEnte]

13.658 – Nanotecnologia para Vencer o Alzheimer


nanochip
Uma equipe de pesquisadores criaram um inovador dispositivo que pode desenvolver novas células dentro do próprio corpo de um paciente, simplesmente agindo na pele. A tecnologia poderia abrir uma série de novas opções de tratamento e transformar definitivamente o paradigma dos tratamentos medicinais.
Criado pela The Ohio State University, a tecnologia é conhecida como Nanotransfection de tecido (THT) (Transfecção nano). Envolve o uso de um chip à base de nanotecnologia e a sua colocação na pele de um paciente. Pode converter uma célula adulta de um tipo para outro, fazendo simplesmente “zapping” do dispositivo utilizando uma pequena carga elétrica. O procedimento não é invasivo. Os resultados foram publicados na revista Nature Nanotechnology.
Designa-se por Transfecção o processo de introdução intencional de ácido nucleico nas células. O termo é usado sobretudo para métodos não-virais nas células eucarióticas. Pode também referir-se a outros métodos e outros tipos de células, embora sejam preferidos outros termos: transformação é usada para descrever a transferência não viral de ADN nas bactérias, células eucarióticas não-animais e nas células de plantas – uma forma particular de transformação refere-se a modificações genéticas espontâneas, como a carcinogénese. O termo transdução é normalmente usado para descrever a transferência de ADN mediada por vírus. [\box]
O dispositivo ainda não foi testado em seres humanos, mas provou ser bem-sucedido com ratos e porcos. Num rato que teve lesões nas pernas, numa semana, o nanochip causou a ocorrência de novos vasos sanguíneos ativos, e na segunda semana, a perna foi totalmente salva. Também ajudou os ratos com lesão cerebral a recuperarem-se de um acidente vascular cerebral.
Os pacientes não precisam de transportar o chip com eles, simplesmente precisam de o ter ligado à pele por alguns segundos para iniciar a reprogramação das células.
Esta nova vertente agora desenvolvida abre um gigante cenário de possibilidades. Este tipo de tecnologia poderá ajudar a reparar o tecido danificado ou mesmo restaurar a função do envelhecimento do tecido em órgãos, vasos sanguíneos e células nervosas. Também poderia desenvolver células cerebrais na pele humana sob a orientação do sistema imunológico de uma pessoa, e essas células poderiam então ser injetadas no cérebro dessa pessoa para tratar condições como a doença de Alzheimer e Parkinson.
Este é mais um meio para atingir um fim, ajudar o ser humano através do desenvolvimento da tecnologia. Estão muitos conceitos a correr lado a lado para garantir que o ser humano recebe não só uma vida mais longa mas, acima de tudo, uma vida com qualidade. Este é o novo desafio da ciência da próxima década. O facto de ser um possível tratamento da Alzheimer já abre uma esperança redobrada a esta tecnologia.

13.600 – Envelhecimento – Como Prevenir Demências


neurologia
O risco de demência aumenta com a idade. À medida que as sociedades envelhecem, a imagem de mulheres e homens alheios ao mundo que os cerca, é cada vez mais frequente no ambiente familiar.
Hoje, sabemos que as alterações cerebrais do processo demencial começam a aparecer anos antes que os sintomas se instalem. Esse longo período de latência oferece a possibilidade teórica de adoção de medidas preventivas.
Estudos epidemiológicos mais recentes sugerem que a prevalência da doença de Alzheimer e de outras demências esteja diminuindo nos países de renda per capita mais elevada. Embora as conclusões ainda sejam preliminares, começa a ganhar corpo a ideia de adotarmos estratégias preventivas que impeçam ou retardem a evolução dessas enfermidades.
Acaba de ser publicado um relatório da National Academies of Sciences, Engineering and Medicine, indicando que três intervenções oferecem “evidências inconclusivas mas encorajadoras” de que seja possível interferir com o declínio cognitivo.
São elas: treinamento cognitivo, controle da pressão arterial nos hipertensos e aumento da atividade física.
O relatório sugere que os médicos exponham aos pacientes os benefícios potenciais dessas três medidas, deixando claras as limitações do conhecimento atual. A orientação difere daquela publicada em 2010, na qual o mesmo comitê afirmava haver “evidências insuficientes para recomendar qualquer tipo de prevenção”.
A recomendação de treinamento cognitivo foi baseada principalmente no estudo Active, que apresentou resultados positivos de que o treinamento cognitivo consegue melhorar as funções como arrazoamento, resolução de problemas, memória e velocidade de processamento, por um período de pelo menos dois anos. Ganho que não se mantém por cinco a dez anos.
O relatório ressalta que o treinamento cognitivo se refere a “um largo espectro de intervenções que podem incluir o aprendizado de uma língua nova ou atividades diárias como palavras cruzadas e jogos no computador”.
As empresas que apregoam benefícios cognitivos nos jogos de computador desenvolvidos por elas, enfrentam forte oposição nos meios acadêmicos. Segundo os especialistas, os resultados apresentados não permitem chegar a essa conclusão.
As evidências de que o controle da pressão arterial (especialmente a partir dos 40 anos) é capaz de retardar a instalação das demências, foram baseadas em diversos estudos randomizados que confirmaram a associação, embora outros não tenham conseguido demonstrá-la.
No caso do aumento da atividade física, os dados são mais consistentes, mas existem publicações com resultados contraditórios.
Na verdade, o relatório está de acordo com as recomendações que os médicos devem fazer a seus pacientes mais velhos: é preciso permanecer ativo física, mental e socialmente, adotar dieta saudável para o sistema cardiovascular e controlar fatores de risco como obesidade, diabetes, hipertensão arterial e o colesterol.

13.598 – Neurologia – Nanotecnologia para tratar Alzheimer


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O neurocientista William Klein e o nanotecnólogo Vinayak Dravid, da Universidade North-western em Illinois, trabalham no desenvolvimento de estratégias de detecção e intervenção precoce do Alzheimer por meio da nanotecnologia, isto é, máquinas minúsculas, do tamanho de moléculas, capazes de agir dentro do corpo.
O Alzheimer é marcado pela formação de placas de proteína beta-amiloide no cérebro. Os pesquisadores criaram um anticorpo artificial capaz de detectar toxinas específicas e de ligar-se a partículas alteradas dessa proteína. “Podemos usá-lo, no futuro, para identificar o acúmulo de placas no cérebro logo no início e também para conduzir substâncias terapêuticas ao cérebro”, diz Klein.
Por enquanto, o anticorpo é utilizado pelos pesquisadores para diferenciar amostras de tecidos cerebrais post-mortem saudáveis de doentes. O próximo passo, previsto para o final do ano, é fazer o mesmo no cérebro de ratos vivos. Pesquisas anteriores com roedores já mostraram que sprays nasais podem realmente enviar nanopartículas para o órgão. É possível que o mesmo ocorra com humanos.

13.561 – Neurologia – Estudo de 10 anos conclui que exercício cognitivo reduz risco de demência em 30%


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Azheimer’s & Dementia: Translational Research & Clinical Interventions afirma que pessoas que participaram de treinamento de velocidade de processamento tiveram menos chances de desenvolver demência 10 anos depois. O estudo, porém, tem alguns problemas reconhecidos pelos próprios autores, mas constrói uma base para que outros trabalhos examinem melhor a hipótese.
O estudo foi feito da seguinte forma: 2.802 adultos saudáveis com média de idade entre 74 e 84 anos foram divididos em quatro grupos. Três receberam algum tipo de treinamento cognitivo: o primeiro focou na memória; o segundo, em raciocínio; o terceiro, em velocidade de processamento. Já o quarto não recebeu nenhum tipo de treinamento, e foi denominado “grupo controle”. Todos os participantes sabiam que tipo de treinamento estava recebendo e que haviam outros grupos recebendo outros tipos. Este não foi um estudo cego.
Os três primeiros grupos receberam os treinamentos em dez sessões de uma hora cada, espalhadas em várias semanas. Um grupo menor recebeu sessões extras um ano depois e também três anos depois do início do estudo.
Os participantes passaram por testes que avaliavam suas funções cognitivas depois de 6 semanas e também depois de 1, 2, 3, 5 e 10 anos. O projeto do estudo, porém, não previa este acompanhamento da marca dos 10 anos, e outros pesquisadores apontam que isso pode significar que os resultados esperados não foram observados nos primeiros 5 anos e que outra observação foi improvisada depois. O problema desta observação extra é que quanto mais tempo passa, mais provável que as observações sejam mais resultado do acaso do que como consequência do treinamento cognitivo, especialmente levando em conta que o treinamento foi de pouquíssimas horas.
Dez anos depois do início do estudo, apenas 1.220 participantes ainda faziam parte do trabalho, seja por que morreram ou por outros motivos. Deles, 260 desenvolveram demência. Os voluntários não passaram por exame clínico pelos pesquisadores, os pacientes (ou seus familiares) apenas informaram aos cientistas se tinham demência ou não.
A observação de demência entre os grupos foi a seguinte: 24,2% no que focou na memória, 24,2% no que focou no raciocínio, 22.7% no que focou na velocidade de processamento e 28,8% no grupo controle.
Demência foi menos frequente no grupo de velocidade de processamento, comparado ao grupo controle, com 4,9% de chance de que esse resultado seja observado apenas pelo acaso. É importante lembrar que um valor-p próximo de 5% não é considerado evidência de um efeito.
Outro problema foi que o estudo afirmou que quanto mais sessões foram feitas, menor o risco de demência. Isso não é necessariamente causal, já que os participantes que frequentaram mais sessões podem ter características diferentes daqueles que não frequentaram, uma vez que o número de sessões não era distribuído de forma aleatória.

Ressalvas
“Este é um estudo importante com uma amostra relativamente grande que explora a possibilidade de prevenir a demência pelo uso repetido de um tipo específico de treinamento cerebral, e 29% de redução da incidência de demência parece promissor. Porém, em minha opinião, o maior problema é que o diagnóstico de demência não foi confirmado por exames clínicos robustos”, argumenta a psiquiatra geriatra Sujoy Mukerjee, da West London Mental Health Trust (Reino Unido), em texto opinativo publicado no Science Media Centre.

13.558 – Neurociência – Como Melhorar a Capacidade Cognitiva?


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Ações e hábitos simples podem ajudar você a ser mais produtivo e a raciocinar melhor. Planejar seu dia, fazer exercícios físicos, estudar, ter mais foco e outras atitudes que normalmente ignoramos fazem muita diferença nos resultados que alcançamos com nosso trabalho. Se você deseja ser mais inteligente e produtivo em seu expediente, veja quais são as dicas dos cientistas para você.

TENHA UMA ATITUDE POSITIVA
Em um estudo feito por Rosenthal e Lenore Jacobson em 1968, os pesquisadores escolherem alguns estudantes de maneira completamente aleatória e disseram aos seus professores que eles eram alunos acima da média. Nada mais foi feito pelos estudantes. Mesmo assim, no fim do ano escolar, esses estudantes ganharam, em média, 22 pontos em seus níveis de QI. Mais tarde, esse efeito foi nomeado como “profecia da auto-realização”.

EVITE A REJEIÇÃO
A rejeição pode diminuir drasticamente a capacidade de uma pessoa de pensar racionalmente e aumentar sua agressividade, além de diminuir seu QI. Esses são os resultados obtidos pelo pesquisador Roy Baumeister e sua equipe.

CONTROLE
Procure ter o controle de sua rotina e das tarefas que realiza. Estudos da Universidade Radboud, na Holanda, revelam que a sensação de perda de controle pode comprometer a performance das pessoas, por deixá-las inseguras.

VERMELHO
Diversas pesquisas investigam os efeitos da cor vermelha no comportamento das pessoas. Pesquisas da Universidade de Chichester, apresentadas em 2010, sugerem que a cor pode ter influencias inconscientes na percepção de fracasso, fazendo com que as pessoas apresentem resultados ruins.

FALAR EM VOZ ALTA
Um estudo feito em 1998 com 30 jovens e 31 adultos revelou que falar em voz alta pode aumentar o desempenho das pessoas, principalmente as mais velhas.

SUPERSTIÇÃO
Em um estudo publicado pelo jornal Psychological Science, os pesquisadores mostraram que atitudes supersticiosas, como dizer “boa sorte”, podem aumentar o desempenho das pessoas em tarefas como praticar golf e memorização.

SUPLEMENTES NUTRITIVOS
Substâncias como a anfetamina e modafinila tornaram-se populares por aumentar a capacidade cognitiva das pessoas em atividades e ambientes que exigem esse tipo de inteligência.

ACREDITE
Estudos e profissionais indicam que pensar na inteligência como algo flexível e mutável, ao invés de fixo e estável, pode causar resultados acadêmicos mais positivos, especialmente para pessoas que possuem estereótipos negativos (internos ou não) de sua inteligência.

POSTURA CORPORAL
Os resultados de um estudo feito em 2005 revelam que a postura corporal pode influenciar diretamente na solução de problemas. Os participantes do experimento que resolveram palavras cruzadas na posição de supino, ou deitado, apresentaram resultados melhores do que os que estavam de pé.

CUMPRA AS TAREFAS
Não deixe as coisas pela metade. Se você se concentrar em uma tarefa de cada vez, aumentará suas chances de apresentar resultados melhores em menos tempo. Os cientistas dizem que, mesmo quando você deixa de fazer determinada tarefa, parte de seu cérebro continua focada nessa atividade, podendo ocupar atenção e memória de maneira prejudicial para seu desempenho.

DURMA
O pesquisador Hans Van Dongen conduziu um experimento onde os participantes foram distribuídos em grupos que dormiam quatro, seis e oito horas por noite, durante duas semanas. Aqueles que dormiram mais tempo não apresentaram nenhum lapso de atenção ou declínios cognitivos durante os 14 dias de experimento.

MULHERES BONITAS
Em um estudo publicado no Journal of Experimental Social Psychology, os pesquisadores comprovaram a hipótese de que os homens teriam suas capacidades cognitivas comprometidas ao interagir com pessoas de outro sexo. O resultado foi ainda mais perceptível quando as mulheres eram consideradas como mais atraentes.

NÃO SEJA MULTITAREFA
Cientistas da Universidade de Amsterdã comprovam por meio de seus estudos que ser multitarefa reduz de maneira significativa o desempenho das pessoas. Os pesquisadores também afirmam que esses resultados são semelhantes para ambos os sexos.

APRENDA ALGO NOVO
Pesquisadores da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, submeteram 20 jovens a um mês de treino intenso de malabares. Eles descobriram que, apenas sete dias após o início dos treinos, os participantes já apresentavam um aumento na matéria cinza do cérebro.

FAÇA EXERCÍCIOS FÍSICOS
Praticar exercícios ajuda você a pensar melhor e mais rapidamente. Pesquisadores mostram que a prática de exercícios aeróbicos melhora o desempenho em atividades cognitivas. O estudo foi publicado no jornal Aviation, Space, and Environmental Medicine, em 2009.

13.551 – Neurologia – Alcoolismo Prejudica a Memória


Nascemos programados para esquecer. Mais cedo ou mais tarde, cada um de nós apagará da lembrança informações recentes, compromissos, conceitos, habilidades. A perda da memória é gradativa e determinada geneticamente com a morte das células nervosas em diferentes áreas do cérebro, provocada por um inimigo certo e igual a todos: o envelhecimento.
Ao longo da vida, muito antes mesmo de ficarmos velhos, nossa memória é atacada de diversas formas, sem que tenhamos um controle sobre isso. Traumas, doenças, medicamentos, exposições a componentes químicos podem causar lesões irreversíveis no cérebro. Mas muitas vezes nos tornamos aliados dos nossos inimigos com atitudes que tomamos conscientemente e, algumas vezes, com muito prazer.
Um dos inimigos mais agressivos é o álcool. Nas células nervosas, essa substância toma o lugar da glicose, mas não é capaz de produzir o mesmo volume de energia.

“O álcool destrói as células nervosas. Por causa da dificuldade de absorção do intestino, devido à lesão causada pelo álcool, elas têm deficiência das vitaminas B1 e B12. E a deficiência dessas duas vitaminas vai provocar uma lesão adicional no cérebro, além da lesão que o próprio álcool produz”, esclarece Benito Damasceno.
De acordo com os especialistas, a má alimentação é o segundo grande inimigo da memória. E ela também faz parte da rotina de Henrique. Ele troca refeições por salgados fritos. Gordura e altos níveis de colesterol têm um efeito direto na degeneração das células. Comer pouco ou muito açúcar também faz mal para a memória. Deixar de ingerir vitamina B1 também prejudica o funcionamento do cérebro. E ela é encontrada principalmente nos cereais.
De acordo com especialistas, o excesso de comida, seja ela qual for, também compromete a capacidade dos neurônios, porque ingerimos mais energia do que gastamos. Mas o que pouca gente sabe é que a forma como os alimentos são processados também pode provocar a liberação de toxinas que prejudicam o aprendizado e a memória. Os cuidados devem ser redobrados principalmente na hora de preparar alimentos que tenham proteína, como carnes e queijos.

13.498 – Acredite se Quiser- Cirurgião que fará transplante de cabeça promete transplantar cérebros até 2020


transplante de crebro
Numa entrevista publicada ontem pela revista alemã Ooom, o cirurgião italiano Sergio Canavero deu mais detalhes sobre o primeiro transplante de cabeça do mundo, que deverá ser realizado nos próximos 10 meses. No entanto, Canavero também aproveitou para falar sobre seus planos para o futuro, que incluem uma iniciativa ainda mais arriscada: transplantes de cérebro.
“Estamos atualmente planejando o primeiro transplante de cérebro do mundo, e eu considero realístico dizer que estaremos prontos em três anos no máximo”, disse o cirurgião. Não se trata, segundo ele, de um próximo passo na evolução da cirurgia, mas de um desenvolvimento separado. “O processo já está encaminhado, nós estamos trabalhando nele em paralelo [ao transplante de cabeça].”
O procedimento, segundo Canavero, envolveria “transportar o seu cérebro para um crânio totalmente diferente”. Em outras palavras, o cérebro (e presumivelmente a consciência e a personalidade) do paciente seria transportado para um corpo “inteiramente novo”. O cirurgião reconhece que o processo pode ser traumático: “Isso cria uma situação nova que certamente não será fácil”.
Por outro lado, o cirurgião diz que o transplante tem “muitas vantagens”: “Primeiro, não há quase nenhuma reação imunológica, o que significa que o problema da rejeição não existe”. Num transplante de cabeça, os nervos, tendões, músculos e veias podem causar grandes problemas caso o novo corpo os rejeite, mas, com o cérebro, isso não acontece. “O cérebro é, de certa forma, um órgão neutro”, diz.

Transcendendo a morte
De certa forma, segundo Canavero, os transplantes de cérebro poderiam possibilitar que os humanos vivam para sempre. Durante a entrevista, ele fala sobre a empresa estadunidense Alcor, que congela corpos e cérebros humanos para que eles possam ser “revividos” no futuro. A ideia é que os “clientes” da empresa possam ser acordados em 100 ou 200 anos, quando a tecnologia para isso existir.
Mas o cirurgião italiano diz ter “boas notícias” para eles: assim que o primeiro transplante de cabeça for realizado com sucesso, ele e sua equipe começarão a tentar reviver os primeiros cérebros dos clientes da Alcor. Isso deve acontecer “no máximo em 2018”, segundo ele. O teste, mesmo que não dê certo, permitirá “descobrir se congelar cérebros [para reviver depois] faz sentido ou se toda essa abordagem pode ser esquecida”.
Ainda sobre o transplante de cabeça, Canavero considera que o procedimento, se funcionar, dará à humanidade um novo entendimento sobre a morte. “Nessa fase [quando a cabeça está separada do corpo], não há nenhuma atividade de vida – nem no cérebro, nem no resto do corpo. O paciente está morto, clinicamente morto. Se nós trouxermos essa pessoa de volta à vida, receberemos o primeiro relato real do que acontece após a morte”, comenta.

O sentido da vida
Com esse relato, o médico acredita que “as religiões serão exterminadas para sempre”: “Elas não serão mais necessárias, pois os humanos não precisarão mais ter medo da morte”. O paciente que sobreviver à operação poderá contar se manteve sua consciência, ou se não sentiu nada durante seu período de “morte”.
Nesse segundo caso, Canavero acredita que ficaria provado que o cérebro é que cria a consciência. “Então, começaremos a nos perguntar pelo sentido da vida: eu nasço, eu vivo, eu morro e em algum momento eu envelheço e adoeço. Qual é o propósito da minha vida?” Embora trate-se de uma perspectiva bem deprimente, o cirurgião se mostra mais otimista: “Eu sou pela vida, eu acredito na vida”.

13.398 – Neurociência – O milagre da multiplicação dos neurônios


neurociencia
Da Super para o ☻Mega

Célula difícil taí. É a estrela do organismo, complicada que só ela. Tem centenas de ligações a solicitando ao mesmo tempo. Carrega na bolsa substâncias químicas cujos sutis efeitos os cientistas ainda não entendem bem. Como sempre acontece, essa condição de prima-dona vem acompanhada de um péssimo temperamento. Ao ser afetada por qualquer mal, sua recuperação vira um drama. Por fim, como toda celebridade, ela é insubstituível.
Era. Em junho, uma equipe da Universidade Rockefeller, em Nova York, anunciou que outra célula, chamada astrócito, consegue gerar novos neurônios em pelo menos uma região do cérebro. Melhor ainda: os astrócitos são muito abundantes no sistema nervoso. Ou seja, o potencial de restauração é gigantesco (veja na página 42). A descoberta vem no rastro de uma outra, tão surpreendente quanto. Em novembro do ano passado, um sueco e um americano tornaram realidade o sonho de dez em cada dez neurologistas. Eles concluíram que neurônios de adultos se regeneram, sim. Agora, pesquisadores do mundo todo estão tentando domar as indóceis estrelas e convencê-las a voltar ao trabalho depois de uma falta de ar ou um tropeção qualquer. Como você vai ver nas próximas páginas, os resultados são promissores.

Não pode?

Este neurônio é diferente de todos os outros 10 bilhões. No sistema nervoso, ao contrário dos demais tecidos, cada um é um, com forma, função e arsenal químico únicos. Imagine a dificuldade que seria repor essa célula, caso ela morra. Não é à toa que nunca se imaginou que o cérebro conseguisse se regenerar.

Pode, sim!

Os pesquisadores descobriram que células nervosas brotam, sim, no cérebro de gente grande. Pelo menos em uma região, cuja atribuição é formar memórias. Agora, estão procurando um jeito de fazê-las nascer em outros lugares.

O cérebro tem peças de reposição

Tudo o que sempre se pensou sobre neurônios ruiu em novembro de 1998, quando Fred Gage, da Universidade da Califórnia, e Peter Eriksson, do Instituto Universitário de Gotem-burgo, Suécia, publicaram a notícia mais esperada da história da neurobiologia. Eles tinham observado cérebros de cinco cadáveres e a conclusão chacoalhou a Medicina. Todos haviam gerado neurônios antes de morrer.

É verdade que só uma pequena região do cérebro foi pesquisada, o hipocampo, e que o número de novas células era irrisório – não mais que uma dúzia. Mas, desde 1889, quando o neurônio foi descoberto, ninguém tinha documentado o nascimento de uma célula nervosa em humanos adultos. A simples comprovação dessa possibilidade abre caminhos incríveis.

Estepes na cabeça

“Eu acho que o cérebro tem um grande potencial inexplorado de regeneração”, disse à SUPER o sueco Eriksson, por telefone. “Mas precisamos pesquisar outras áreas antes de ter certeza.” O hipocampo é um local responsável pelo registro da memória. Pode ser que ele seja a única região que se multiplica, já que gravamos lembranças desde o nascimento até a morte. Como cada parte do cérebro tem células diferentes, com diferentes funções, substâncias químicas e tipos de conexões, o hipocampo não serve de nada para os pacientes de doenças degenerativas como Parkinson e Alzheimer e para as vítimas de derrames e lesões na espinha. Eles perderam células nervosas em outras áreas do sistema nervoso, que, pelo que se sabe, não se reproduzem naturalmente.

Neurônios não se dividem ao meio. São tão especializados que não têm as proteínas necessárias para se reproduzir. Os recém-nascidos encontrados por Eriksson e Gage surgiram da divisão de um outro tipo de célula, as células-tronco, uma espécie de estepe sempre à espera de um estímulo químico para se multiplicar. Acontece que, para curar aquelas doenças, precisaríamos de milhares delas. E se a quantidade não fosse suficiente?

Uma pesquisa publicada em junho tornou o sonho mais real. O mexicano Arturo Alvarez Buylla, da Universidade Rockefeller, em Nova York, achou células-tronco em outra parte do cérebro, a zona subventricular. Elas, porém, não fazem neurônios naturalmente, só quando induzidas em laboratório. Acontece que Buylla também descobriu que aquelas células-tronco eram os já conhecidos astrócitos, corpos que envolvem neurônios e que ninguém julgava capazes de produzi-los. Temos 100 bilhões de astrócitos no sistema nervoso. Não se sabe ainda se todos são possíveis pais, mas, se forem, teríamos dez vezes o necessário para substituir cada uma das nossas células nervosas. Ou seja, o potencial de regeneração do cérebro não seria apenas grande. Seria ilimitado.

“Estou esperançoso”, disse Buylla à SUPER. “Achamos as progenitoras. Agora temos que induzi-las a gerar neurônios.” “Quando a ciência sabe o que procura, geralmente encontra”, avalia otimista o neurologista Cícero Galli Coimbra, da Universidade Federal de São Paulo. As temperamentais estrelas, pela primeira vez, parecem dispostas a colaborar.

O mecanismo da cura está desligado

Embora esteja provado que os neurônios são capazes de se multiplicar, sabe-se que eles não o fazem naturalmente em quantidade suficiente. Caso contrário, danos no tecido nervoso cicatrizariam como cortes na pele. “Animais mais primitivos fazem isso”, diz o neurologista Ciro da Silva, um brasileiro da Universidade de São Paulo que está entre os principais pesquisadores da área. “Ao longo da evolução, nosso cérebro foi se tornando mais complexo e ficou tão especializado que deixou de se consertar.” Ou seja, a enorme quantidade de substâncias e a grande variedade de conexões que cada célula teve que dominar quando os humanos ficaram mais espertos tornou-as difíceis de substituir.

A boa nova é que o mecanismo de cura não foi perdido. Está só desligado, à espera de substâncias químicas que o reativem. É justamente essa a área mais promissora da pesquisa e aquela à qual se dedica Ciro – a busca dos chamados fatores de crescimento. Ou seja, as substâncias certas que vão induzir as células-tronco certas a se transformar nos neurônios certos e se ligarem aos vizinhos do jeito certo. “Já foram identificados doze diferentes fatores”, diz Ciro. “Sabemos que os remédios serão combinações entre eles.”

Da teoria à prática

Um dia, os cientistas poderão retirar células-tronco, possivelmente astrócitos, do pedaço do cérebro que quiserem repopular, portanto prontas para substituir os neurônios daquela região. Depois, bastará submetê-las a fatores de crescimento, deixar que elas se multipliquem e implantá-las de volta. Um grande passo para transformar essa teoria em uma terapia eficaz foi dado pelo russo Valery Kukekov, da Universidade do Tennessee, Estados Unidos. Em abril, ele anunciou que tinha conseguido cultivar células-tronco em laboratório.

“Quando os cirurgiões realizam uma lobotomia, que é a separação dos hemisférios cerebrais de pacientes graves de epilepsia, retiram células cerebrais”, contou Kukekov à SUPER, por telefone. “O que fizemos foi pegar esse material, estimulá-lo com fatores de crescimento e gerar novas células-tronco.” Só que, depois disso, elas tendem a continuar se multiplicando. No cérebro, esse crescimento desenfreado geraria um tumor. “Conseguimos, então, induzi-las a começar a se transformar em neurônios, perdendo a capacidade de multiplicação”, diz ele. Ou seja, reproduziram-se células do próprio cérebro, portanto sem risco de rejeição, e elas ficaram no ponto para o implante. “Acredito que esse será um tratamento corriqueiro em uma ou duas décadas”, exultou o russo.

As boas notícias não param aí. Pesquisas com ratos demonstram que neurônios imaturos sabem o que fazer quando colocadas no cérebro. A vizinhança lhes envia sinais químicos que indicam onde ficar e para que lado estender conexões. O tcheco Hynek Wichterle, da Universidade Rockefeller, injetou células em cobaias com danos cerebrais e observou que elas migravam para o lugar onde eram necessárias. “Aparentemente, elas começaram a restabelecer as conexões nervosas perdidas”, contou, animado.

Fazendo segredo

O sueco Eriksson também está tendo resultados excelentes tratando roedores com derrame, a mais complicada de todas aquelas doenças, porque mata uma quantidade enorme de neurônios diferentes em vários lugares do cérebro (veja infográfico ao lado). “Conseguimos o retorno de funções perdidas”, cochichou à SUPER. “Mas não posso dar mais detalhes porque a pesquisa não terminou.” “As coisas estão acontecendo muito rápido”, empolga-se Wichterle. Tudo converge para a cura do que sempre se julgou incurável. A teimosa estrela está cedendo.

De aborto não pode
Funciona, mas é ilegal.
Uma alternativa viável para transplante de células-tronco é retirá-las de embriões. Só que há um problema ético envolvido: os fetos usados para tal fim seriam resultado de abortos. Na maioria dos países católicos, inclusive o Brasil, essas pesquisas estão proibidas.

Paraplégicos vão voltar a andar

Antes mesmo que os cientistas consigam controlar o ajuste fino do processo de multiplicação de células e convencer nossa insubmissa celebridade a ajudar um pouquinho, muitos pacientes já começarão a se beneficiar das pesquisas. “Os fatores de crescimento serão empregados em breve, talvez nos próximos dois ou três anos”, diz Ciro da Silva. “Não para fazer neurônios novos, mas para consertar os já existentes que sofreram danos”, conta, enquanto observa ao microscópio um ratinho morto cujo nervo cortado voltou a crescer.

Uma lesão na espinha inutiliza células nervosas sem matá-las. É que, dentro do osso, passam apenas seus prolongamentos, os axônios, levando sensações do corpo todo ao cérebro e comandos de movimento no sentido inverso. Esses axônios são imensos, têm mais de 1 metro. Quando o prolongamento se rompe, o corpo celular, lá longe, pode ser poupado.

Vários pesquisadores, incluindo Ciro, estão conseguindo fazer que células nervosas danificadas de ratos se reconectem. Os axônios, banhados num gel de fatores de crescimento, voltam a crescer e retomam sua função. “O melhor é que estamos percebendo que um retorno estrutural de apenas 10% já garante a volta da sensibilidade e dos movimentos.” Ou seja, um ganho enorme para tetraplégicos e paraplégicos.

Estimulando ratos

Os pesquisadores também perceberam que os fatores de crescimento podem proteger as células. Durante um derrame, por exemplo, a morte de um grupo de neurônios acaba liberando substâncias que matam milhares de outros, ao longo de semanas. O uso dos fatores logo após a internação interrompe essa reação em cadeia.

Um outro trabalho recente e incrível, cujos resultados deverão ser sentidos logo, relaciona a criação de novos neurônios aos estímulos do meio ambiente. A neurologista americana Elizabeth Gould, da Universidade de Princeton, provou que ratos presos em jaulas mais desafiadoras, com mais brincadeiras e labirintos, produzem mais neurônios.

Aparentemente, estímulos externos acionaram o mesmo mecanismo que os pesquisadores querem ativar com injeção de substâncias. Mais uma prova da capacidade do cérebro de se autoconsertar. “Resta saber se o mesmo se aplica a humanos”, ressaltou Gould à SUPER. De qualquer forma, os tratamentos de fisioterapia e de reabilitação de vítimas de derrame deverão mudar, inspirados pelos resultados com cobaias.

É. Parece que, afinal de contas, a célula nervosa não é uma estrela tão antipática quanto insinuavam os cientistas. Faltava apenas tratá-la com mais compreensão.

Olha só, brotou um novo
Como os cientistas comprovaram que neurônios novos nascem na fase adulta.

De marcação
Cinco voluntários, em estado terminal de câncer, receberam doses de um marcador, substância que gruda no DNA da célula quando ela se multiplica. Portanto, só é absorvida quando há divisão. Assim, os pesquisadores sabem que toda célula marcada é nova.

Recém-nascidas
Depois que os pacientes morreram, os médicos abriram seu cérebro e encontraram o marcador – prova de que havia células novas.

Mistério
Para surpresa de todos, as células novas eram neurônios (foto). Só que neurônios não se dividem. Quem poderia então tê-los gerado? Descubra a seguir.

Mamãe
A única explicação possível para o surgimento de neurônios novos é que eles fossem filhos das chamadas células-tronco. Elas são corpos não especializados à espera de comandos químicos para se transformar em outras células. Ao se dividirem, elas teriam absorvido o marcador.

Obediente
O cérebro, então, enviou uma ordem química para a célula-tronco recém-dividida. Ele avisou que precisava de neurônios novos e mandou que ela se transformasse em célula nervosa. As substâncias químicas, então, fizeram com que ela se especializasse.

Pronta
No final, surgiu uma célula nervosa igualzinha às outras, encontrada depois pelos médicos no hipocampo. Até hoje, julgava-se que o cérebro era incapaz de produzir uma dessas depois da fase embrionária, mas a nova descoberta derrubou o mito.

Aprende, desaprende

Células novas para cantar.
O canário é incapaz de cantar fora da época de acasalamento, a primavera. Ninguém entendia por que até a década passada, quando se demonstrou que todo ano ele faz novos neurônios com essa função específica. E o mais incrível: os perde em seguida.

Boa notícia

A cabeça pode estar cheia de células-tronco.

Nem só de neurônios é feito o cérebro. Praticamente todo o resto do espaço é ocupado por diferentes células.

De todas as células cerebrais, as mais numerosas são os astrócitos, que podem ser os geradores de novas células nervosas, como se descobriu no mês passado.

Vamos fazer neurônios?
Assim será a técnica para refazer o tecido nervoso.
Tira
Células-tronco, possivelmente astrócitos, depois de extraídas com microcirurgia da região do cérebro que está doente, seriam cultivadas em laboratório.

Bota
As células-tronco se transformariam em neurônios ainda pouco diferenciados e seriam introduzidas na mesma área do cérebro.

Deixa ficar
Os cientistas esperam que elas saibam o que fazer daí para a frente. O ambiente as induziria a estabelecer conexões e a começar a funcionar.

Cada doença uma sentença
Que lesões poderão ser curadas quando multiplicarmos células nervosas.

Derrame
Um derrame é o rompimento ou o entupimento de uma artéria, geralmente a cerebral média. Falta oxigênio em algumas células e muitas outras morrem envenenadas pelas substâncias liberadas pelas primeiras. A quantidade e a variedade de neurônios mortos tornam difícil a cura total.

Mal de Parkinson
Essa doença, de causa desconhecida, mata apenas um tipo de célula em um lugar específico, o mesencéfalo. Para tratá-la, é preciso semear novos neurônios nesta região.

Mal de Alzheimer
Aqui as coisas ficam mais complicadas, porque os estragos são em diversos tipos de neurônios espalhados pelo córtex, a camada superficial do cérebro. O tratamento, embora possível, é mais difícil.

Lesões na espinha
A medula espinhal é bem menos complexa que o cérebro, aqui visto de baixo. Há menor quantidade de células e menos conexões. Deve ser a primeira cura a ser alcançada, ainda na próxima década.

Nossa, ele sarou!
Pesquisas conseguem reabilitar células lesionadas, mas ainda vivas.

Grandões
Neurônios que passam pela espinha têm mais de 1 metro de comprimento. Uma lesão ali pode cortar suas conexões, acabando com a transmissão de impulsos. Mas o corpo celular pode estar vivo lá no cérebro.

Condenadas
Quando os axônios são rompidos, as células param de transmitir informações e preparam-se para crescer. Como não têm as substâncias necessárias, não conseguem se consertar e podem morrer.

Se liga
A injeção de fatores de crescimento promove a recuperação do neurônio, que começa a estender de novo seu axônio. A conexão se restabelece. Voltam a sensibilidade e o movimento.

13.383 – Comportamento (anti) Social – Pessoas neuróticas vivem por mais tempo (?)


neurose
Um novo estudo da Universidade de Southampton concluiu que pessoas neuróticas vivem consideravelmente mais. Mas o que quer dizer ser é neurótico? Não pense em Woody Allen ou em Freud. Não estamos falando de doença, e sim de personalidade.
Hoje, os testes psicológicos mais respeitados descrevem a personalidade com cinco traços, chamados de Big Five: extroversão, neuroticismo, consciência, afabilidade e abertura a novas experiências. As pessoas têm diferentes graus de cada um desses traços. Quem tem um alto grau de neuroticismo, nesse caso, são pessoas que gastam um baita tempo se preocupando, são pessimistas e se irritam facilmente (como o Lula Molusco).

O que o novo estudo concluiu é que esse tipo de personalidade pode trazer benefícios, como uma vida mais longa. Os pesquisadores analisaram dados de saúde de 500 mil habitantes do Reino Unido, com 37 a 73 anos. Para cada participante, foram levados em conta os resultados do teste de personalidade, sua dieta, seus hábitos de exercício e se eles fumavam ou bebiam. Além disso, cada voluntário fez uma autoavaliação do que achava da sua própria saúde.

E aí é que fica interessante: os neuróticos tendiam a fazer autoavaliações bem piores do que a média das pessoas. Elas sentiam que a saúde delas estavam pior. Mas, olhando os dados objetivos, os pesquisadores notaram que essas mesmas pessoas vivam mais e tinham chances menores de sofrer uma morte prematura do que a população em geral.
Para entender esses dados conflitantes, os pesquisadores criaram algumas hipóteses. Será que eles, por se sentirem mal com a própria saúde, tinham hábitos mais saudáveis?

Os dados diziam o contrário: pessoas com um grau maior de neuroticismo se exercitavam menos, comiam menos frutas e vegetais e tinham mais chances de beber e fumar quase todos os dias. Então como é que elas estavam vivendo mais?
Os autores voltaram, então, ao primeiro resultado do estudo: neuróticos vivem mais, mas sentem que têm uma saúde pior. Se pessoas com personalidade neurótica se sentem doentes o tempo todo, elas provavelmente vão mais ao médico.
Faltam dados que comprovem essa hipótese, mas, segundo os pesquisadores, essa foi a melhor interpretação possível para os dados que encontraram: o pessimismo e a preocupação dos neuróticos os torna mais vigilantes com a própria saúde. Se, por causa disso, eles frequentam o médico com mais frequência, têm maiores chances de diagnosticar doenças graves precocemente. E aí as chances de tratamento e recuperação são maiores. Vida longa – literalmente – ao neuroticismo.

13.370 – CIENTISTA RUSSO EXPLICA O QUE ACONTECE COM O CÉREBRO APÓS A MORTE


morte cerebral
O neurocientista russo e doutor em filosofia Yuri Serdiukov se dedicou, por anos, à análise dos processos psíquicos e fisiológicos da morte clínica. Em uma conferência internacional sobre a neurofilosofia dada recentemente na Universidade Estatal de Moscou, Serdiukov explicou o que ocorre no cérebro após a morte e como essa experiência se relaciona com a ideia de paraíso e inferno.
Após a morte, a atividade cerebral continua ativa por um período indeterminado. O doutor explicou que, nesses estados, o sujeito perde as capacidades lógicas e verbais e mergulha em um estado onírico prolongado, criado pela atividade espontânea do cérebro.
Aparentemente, o conteúdo desses sonhos post-mortem é dado por vários fatores, como a condição psíquica de cada pessoa, as recordações acumuladas desde a fase uterina e as diversas estruturas genéticas ativadas em decorrência do estresse causado pela morte clínica. É por isso que certas experiências são relatadas como prazerosas ou paradisíacas e outras como obscuras ou infernais.
Serdiukov afirma que é possível treinar o cérebro para que ele tenha acesso a uma morte prazerosa. Além disso, ressaltou que, uma vez que não existe noção do tempo nesse estado, a experiência pode ser percebida como infinita.

13.352 – Neurociência – Mitos sobre o cérebro


neurociencia
Os mitos sobre o cérebro estão tão intrincados na nossa mente e no senso comum que, até para quem passa anos estudando neurociência, pode ser difícil desmarcará-los. Afinal, mitos tendem a ser empolgantes: quantas séries e filmes são baseados na premissa de que só usamos 10% do nosso cérebro?
Para entender o quanto os mitos sobre o cérebro estão espalhados na população, um grupo de pesquisadores da Universidade de Houston recrutou participantes no site Testmybrain.org, que hospeda uma série de testes divertidos que também ajudam em pesquisas científicas oficiais. A enquete que eles publicaram foi respondida por mais de 3,8 mil pessoas. Delas, 598 eram professores e 234 neurocientistas treinados.
A enquete incluía 32 frases sobre o cérebro. Quatorze delas eram verdadeiras, enquanto outras 18 eram mitos, inclusive o famoso “Só usamos 10% do cérebro”.
É claro que a maioria dos especialistas e professores acreditam menos nas informações falsas do que o público em geral. Mesmo assim, cinco deles eram defendidos por uma porcentagem surpreendente de neurocientistas.
Você já deve ter ouvido falar que algumas pessoas são mais visuais, outras mais auditivas.
E que, portanto, elas aprendem mais e melhor quando são ensinadas de acordo com seu estilo de aprendizado. Ainda que a preocupação dos professores com as características individuais de cada aluno seja benéfica, estudos científicos mostram que estilos de aprendizado não fazem essa diferença toda. Uma das pesquisas mais relevantes sobre o tema chegou à conclusão de que não, crianças não aprendem melhor quando o professor adapta seu estilo ao delas, pelo menos na sala de aula. Os cientistas indicam que, na verdade, o estilo depende mais do tema que está sendo ensinado do que da preferência do aluno (ou seja, mesmo alunos mais auditivos aprendem melhor geometria com aulas focadas em recursos visuais).

Público em geral: 93% acredita neste mito
Professores: 76% acredita neste mito
Neurocientistas: 78% acredita neste mito

Inverter letras é sinal de dislexia?
Confundir a ordem das letras ou ler d ao invés de b são propagandeados como os grandes “sintomas” da dislexia. Mas isso simplesmente não é verdade. Disléxicos tem dificuldades em processar linguagem escrita. Isso significa, sim, que eles cometem mais erros lendo em voz alta e identificando palavras. Eventualmente, vão inverter letras, mas isso é só uma mínuscula parte de todos os erros de português que eles cometem.
Sabe quem inverte muito as letras? Crianças com menos de 6 anos. Mas, até aí, elas também cometem milhares de outros erros. Isso não quer dizer que elas “enxergam” as letras invertidas. Só que ainda têm dificuldades de processar a escrita – assim pessoas como dislexia. Ninguém sabe exatamente qual é a raiz dessa dificuldade, mas não tem nada a ver com enxergar espelhado. A causa mais provável é a dificuldade de processar fonemas, as pequenas unidades que formam as palavras e seus sons, quando estão escritos. Se elas confundem letras, nesse caso, é porque não estão certas de que “som” um fonema escrito deveria produzir.

Público em geral: 76% acredita neste mito
Professores: 59% acredita neste mito
Neurocientistas: 50% acredita neste mito

Ouvir música clássica aumenta capacidade cerebral em crianças?
Conhecido como Efeito Mozart, é a ideia de que um bebê exposto às obras dos gênios da música clássica teriam seu desenvolvimento cognitivo turbinado. Mas, como já explicamos aqui isso é balela. O estudo que investigou isso não conseguiu explicar os resultados e novas tentativas de reproduzí-lo deram errado. Ou seja: desencane do CD de Mozart, a menos que seu bebê pareça gostar… Todo mundo merece se divertir, afinal.

Público em geral: 59% acredita neste mito
Professores: 55% acredita neste mito
Neurocientistas: 43% acredita neste mito

Crianças ficam agitadas depois de consumir muito açúcar?
Sugar high: a ideia de que exagerar na sobremesa vai deixar seu filho doidão, agitado, incontrolável. Para testar essa ideia, um estudo reuniu mães que diziam que os filhos de 5 a 7 anos eram “sensíveis” ao açúcar. Para metade do grupo, deram doce. Para outra metade, deram um placebo – mas não contaram para a mãe. As crianças não tiveram comportamentos diferentes, mas as mães do grupo placebo tinham mais chance de brigar com os filhos por qualquer coisa e classificá-los como “hiperativos” depois do lanche. Então porque as crianças ficam agitadíssimas depois de um bolo de aniversário ou do Halloween? Porque elas gostam de festa, apenas.

Público em geral: 59% acredita neste mito
Professores: 50% acredita neste mito
Neurocientistas: 39% acredita neste mito

O lado dominante do cérebro afeta sua personalidade?
Seu cérebro é destro ou canhoto? Os hemisférios cerebrais já foram usados para justificar porque algumas pessoas são mais criativas e outras mais racionais (e também para comercializar a ideia de que dá para aprender a usar mais o seu lado do cérebro mais “atrofiado”). Não é bem por aí: na maior parte das suas atividades, seja para um lado mais criativo ou mais racional, seu cérebro coordena áreas e funções de ambos os lados do cérebro. Essa coordenação é misteriosa, mas ajuda a explicar porque nosso cérebro é uma máquina tão produtiva e poderosa.

Público em geral: 64% acredita neste mito
Professores: 49% acredita neste mito
Neurocientistas: 32% acredita neste mito

Mais ou menos nessa linha vai a ideia de que usamos só parte do cérebro quando, na realidade, estamos coordenando e acionando diferentes áreas do cérebro o tempo inteiro. Não há parte dele que fique intocado durante a árdua rotina de ser um ser pensante. E, falando em ser pensante, felizmente 86% dos neurocientistas não acreditam nesse último mito. Mas os demais 14% certamente precisam usar melhor o próprio cérebro…

13.333 – Saúde – Como a falta de sono afeta seu cérebro


neuronio
Cientistas do Canadá lançaram o que promete ser o maior estudo do mundo sobre os efeitos da falta de sono no cérebro.
Eles esperam que pessoas de todo o mundo se registrem pela internet para fazer testes cognitivos e participar do experimento.
Jogos de computador testarão habilidades como raciocínio, compreensão da linguagem e tomada de decisões.
O estudo é coordenado pelo neurocientista britânico Adrian Owen, do Instituto de Cérebro e Mente da Universidade Western, no Canadá.
A equipe irá analisar o desempenho dos participantes nos testes cognitivos e avaliar os diferentes resultados a partir das horas dormidas.
A necessidade diária de sono varia de pessoa para pessoa, mas se o estudo conseguir reunir um número significativo de voluntários, permitirá aos cientistas determinar um número médio de horas necessárias para a otimização da função cerebral.
O repórter da BBC Fergus Walsh e mais quatro voluntários passaram a noite na Universidade Western, onde testaram os jogos e puderam verificar como a falta de sono afeta o desempenho cognitivo.

VOLUNTÁRIOS
Hooman Ganjavi, 42 anos, psiquiatra, acostumado a fazer plantões noturnos: “Durmo apenas de quatro a cinco horas por noite. Sei que a falta de sono aumenta o risco de doenças cardíacas e de derrame, mas, como muitos médicos, não aplico essas regras ao meu dia a dia”.
Sylvie Salewski, 31 anos, mãe de duas meninas pequenas: “Para mim uma boa noite de sono é quando elas me acordam duas ou três vezes; não consigo me lembrar do que é dormir uma noite toda sem ser incomodada; normalmente me sinto meio desnorteada no dia seguinte”.
Evan Agnew, 75 anos, vigia aposentado: “Nunca dormi mais de oito horas de sono por noite, e na minha idade não acho que preciso de mais de quatro horas. Acabo complementando meu sono durante o dia com um ou dois cochilos”.
Cecilia Kramar, 31 anos, neurocientista que faz pesquisas cognitivas com camundongos noturnos, o que significa passar noites em claro no laboratório: “Quando não durmo muito, não consigo fazer nada complicado no dia seguinte, como ler uma revista científica, porque meu cérebro não funciona bem”.
Passamos praticamente um terço das nossas vidas dormindo. Ou seja, o sono é tão vital para a nossa saúde quanto os alimentos que ingerimos e o ar que respiramos.
Mas nossa cultura de estarmos ligados durante 24 horas por dia está reduzindo nossas horas de sono.
Um estudo na revista científica “Nature Reviews Neuroscience” apontou que havia “uma compreensão notavelmente pequena” das consequências da falta de sono crônica para o cérebro.
A pesquisa dizia que mais estudos são necessários face ao que chamou de “declínio considerável da duração de sono em todas as nações industrializadas”.

13.281 – Acredite se Quiser – Pesquisadores vão usar células-tronco para tentar ressuscitar pessoas


celulas tronco ressuscita
Células-tronco são o milagre da medicina moderna e há pesquisadores explorando seu potencial para tudo quanto é problema, incluindo diabetes e esclerose lateral amiotrófica (ALS), a doença que inspirou o desafio do balde de gelo em 2013. Uma empresa, porém, quer extrapolar os limites do que vem sendo estudado para descobrir se essas células são capazes de reviver pessoas que já se foram.
A ideia partiu da Bioquark, que fica na Filadélfia. Segundo reporta o STAT, a empresa planeja lançar um estudo até o final deste ano sobre a possibilidade.
A ideia deles é injetar células-tronco na medula espinhal de gente que tenha tido a morte cerebral declarada. Isso, em conjunto com a injeção de uma mistura de proteínas, estimulações elétricas do sistema nervoso e terapia a laser no cérebro, supostamente faria com que o morto deixasse de ser morto.
Os pesquisadores esperam que o tratamento force o crescimento de novos neurônios e a sua conexão uns com os outros, fazendo o cérebro voltar a funcionar.
A Bioquark ainda sequer chegou a testar o método em animais. A empresa vinha conduzindo estudos em Rudrapur, na Índia, desde abril de 2016, mas, em novembro daquele ano, foi interrompida pelo governo, que disse não ter concedido qualquer autorização à empresa. Agora, o CEO Ira Pastor diz que eles estão de mudança para um país na América Latina.

Os vários poréns
O STAT conversou com uma série de especialistas, inclusive aqueles responsáveis por experimentos nos quais a Bioquark se apoia para o seu estudo, e nenhum deles acredita que a empresa terá sucesso. No ano passado, quando se soube das intenções, dois médicos publicaram um artigo criticando fortemente a equipe de Pastor, que acusaram de dar uma “esperança cruel e falsa de recuperação” a familiares.
Além da desconfiança, há também problemas éticos e conceituais a se levar em conta. Um deles diz respeito à declaração de morte: um estudo sobre 38 trabalhos publicados ao longo de 13 anos descobriu que, se as diretrizes da Academia Americana de Neurologia sobre morte cerebral fossem seguidas à risca, nenhum paciente jamais teria sido tratado para recuperar as funções do cérebro no país.
Há que se considerar ainda que existem drogas e venenos que imitam morte cerebral; se a Bioquark fizesse testes em pessoas assim, poderia matá-las de verdade. Além disso, como uma pessoa tecnicamente morta poderia concordar com sua participação num experimento como esse?

13.241 – Neurociência – Elon Musk: o projeto que mesclará cérebros humanos e inteligência artificial


neurociencia
Elon Musk, CEO da SpaceX e da Tesla, está no processo de desenvolvimento de uma nova empresa de interfaces cérebro-computador. Chamada Neuralink, ela será voltada à criação de dispositivos que poderão ser implantados no cérebro humano.
Sua função será unir o cérebro humano a um software, permitindo o aperfeiçoamento da memória e a criação de interfaces diretas com aparelhos informáticos.
Embora, até o momento, esse tipo de interface exista apenas na ficção científica, na medicina as matrizes de eletrodos e outros implantes já são utilizados para ajudar no alívio de sintomas do mal de Parkinson, da epilepsia e de outras doenças neurodegenerativas.
Operar o cérebro humano é bastante complexo e invasivo e, segundo os pesquisadores, temos um entendimento muito limitado sobre como os neurônios reagem no cérebro humano. Por isso, é compreensível que somente as pessoas que tenham uma condição médica muito séria e já tenham esgotado todas as outras possibilidades estejam suscetíveis à ideia de um implante cerebral – pelo menos, em uma primeira fase.

13.236 – Estudo revela por que a maconha prejudica a memória


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Um novo estudo publicado na Nature acredita que conseguiu explicar, pela primeira vez, por que é difícil lembrar das coisas para quem fuma maconha.
A cannabis afeta a memória de curto prazo, impedindo que essas lembranças sejam solidificadas no cérebro. O efeito é temporário: parando de usar, o processo de armazenamento de informações volta ao normal rapidamente. O problema é que ninguém sabia explicar exatamente o que causava esse curto-circuito.
A mais nova descoberta mostra que as mitocôndrias são as responsáveis por esse bug cerebral. Para quem precisa de um lembrete das aulas de biologia da escola, mitocôndrias são organelas que ficam dentro de todas as nossas células. Sua função é prover energia através da respiração celular.
Para conseguir causar a “brisa” e os demais efeitos da cannabis, o THC, princípio ativo da maconha, se “prende” aos receptores de canabinoides que temos nos nossos neurônios. Essa ligação vai acontecendo em todo o sistema nervoso. O que os cientistas não sabiam é que as mitocôndrias também têm receptores de THC nas suas membranas. Ou seja: mitocôndrias também ficam chapadas e isso afeta a energia produzida nos seus neurônios.
O Instituto Neurocentre Magendie, na França, desenvolveu um estudo com ratinhos para analisar esse fenômeno. Os animais foram acostumados com um labirinto até saber percorrê-lo de cor. Depois, os pesquisadores injetaram THC no hipocampo dos ratos, região responsável pela memória. Quando os ratos chapados voltaram ao labirinto, agiram como se nunca tivessem estado lá antes.
Depois, os cientistas repetiram o experimento com ratos geneticamente modificados para não ter receptores de THC em suas mitocôndrias – e o defeito na memória deles não ocorreu.
Levando essas mitocôndrias para as placas de Petri, eles notaram que o THC interrompia o sistema de transporte de elétrons, que é uma etapa essencial no processo de produção de energia que ocorre dentro das mitocôndrias. Os neurônios do hipocampo, com as mitocôndrias prejudicadas, começavam a se comunicar menos entre si e, por isso, formavam menos memórias.
A mini-amnésia causada pela maconha é como se fosse, então, um regime de racionamento de energia que os neurônios adotam para conseguir manter sua atividade normal. Então, se você for do tipo que tem certeza que descobriu o significado da vida, do Universo e tudo o mais, tenha papel e caneta em mãos – ou então nem do número 42 você vai lembrar.