14.027 – Neurociência – Como Turbinar Seu Cérebro


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Para aqueles que acreditam na máxima de que o corpo é uma máquina, faz sentido dizer que o cérebro é que comanda as engrenagens. Em última análise, tudo que fazemos depende da performance desse órgão. A boa notícia é que nunca tivemos tantos recursos para conhecê-lo, treiná-lo e, por que não, fazê-lo funcionar melhor.
Duas das descobertas mais importantes demonstram que o cérebro é plástico e pode se adaptar, como qualquer músculo, e que os neurônios, ao contrário do que se acreditava, são produzidos ao longo da vida, e essa neurogênese pode ser estimulada.
Conhecidas como nootrópicos ou smart drugs, essas substâncias prometem melhorar o desempenho mental de áreas responsáveis por memória, concentração e velocidade de raciocínio, a partir de substâncias que não exigem prescrição médica e que não teriam efeitos colaterais. Com nomes sugestivos, como OptiMind, Alpha Brain e Lumonol, os coquetéis têm substâncias como cafeína, colina e racetams, que teriam a função de estimular neurotransmissores.

Esses produtos foram moda nos anos 1980 e voltaram a circular nas startups do Vale do Silício. No Brasil, não há suplementos aprovados pela Anvisa. “O ser humano está atrás de um milagre que turbine o cérebro, e é óbvio que há medicamentos que podem aumentar o desempenho e a atividade cerebrais, mas isso não necessariamente é positivo, pois eles podem ter malefícios e efeitos colaterais a longo prazo.
O que está na moda são substâncias que seriam naturais, como aginina e L-teanina, mas não há comprovação de efeito. Muitas dessas substâncias já foram estudadas e se mostraram ineficazes”, afirma o neurologista Renato Anghinah, professor livre-docente da Faculdade de Medicina da USP. Ele cita o caso do ginkgo biloba, que foi uma febre nos anos 1990, mas até hoje não há estudos conclusivos de que a substância proteja ou melhore a performance da atividade mental.
Não se espante se ouvir falar – e muito – sobre brain food. A neuronutrição está em alta e tem como foco os ingredientes que podem melhorar a concentração e a memória e combater os efeitos do envelhecimento no cérebro. No hotel London Corinthia, na capital inglesa, a neurocientista Tara Swart desenvolveu um menu que melhora a atividade mental: “Alguns alimentos têm poder maior de turbinar o cérebro. Uma boa hidratação e boas gorduras (ovos, peixes de águas profundas, abacate, nozes, azeite e óleo de coco) melhoram a capacidade de pensar e tomar decisões”, explica. “Magnésio é importante para reduzir os níveis de cortisol, o hormônio do estresse. Boas fontes são folhas verde-escuras ou até suplementos”, explica a cientista, que toma uma colher de óleo de coco batida com a bebida do café da manhã. “Dá um gás na capacidade cognitiva 20 minutos depois de tomar”, garante.
Se quiser começar as mudanças agora, beba água. “Uma baixa de 1% a 3% na hidratação já pode afetar negativamente memória, concentração e capacidade de decisão. Invista em alimentos como pepino, melancia e alface e tente beber pelo menos meio litro de água por dia a cada 15 kg de peso corporal.” A nutricionista funcional Priscila di Ciero complementa: “Ovos têm fosfatidilcolina, uma vitamina que forma a parede de células do corpo inteiro, inclusive do cérebro”, explica. Aliás, as colinas estão em boa parte das brain drugs, mas nos ovos a absorção é melhor. Cúrcuma, que dá o amarelo do curry, tem curcumina, que melhora a oxigenação do cérebro. “A dica é usar com pimenta, que melhora sua absorção.”

As frutas vermelhas têm antocianinas, que previnem o envelhecimento, e o café continua com o posto de estimulante imbatível: duas a três xícaras por dia ajudam a turbinar a memória. “Existem vários nutrientes e fitoterápicos que atuam como calmantes e antidepressivos, como a L-teanina (aminoácido presente no chá-preto), a valerina (planta com propriedades calmantes e sedativas) e o triptofano (presente em alimentos como a banana), que ajuda a formar serotonina e tem efeito antidepressivo e de bem-estar”, diz a especialista. E passe longe do excesso de açúcar, adoçantes, cigarro e poluição. O cérebro inflama – e muito! Essa lista de substâncias neurotóxicas pode acelerar o envelhecimento do órgão.
Neurônios adestrados

A ciência finalmente reuniu provas de que atividade física altera a plasticidade do cérebro, incluindo o nascimento de novos neurônios e a capacidade de regular funções como memória e criar novas conexões no hipocampo, ligado à aprendizagem. “Os exercícios aeróbios, em sessões de no mínimo meia hora, duas ou três vezes por semana, são o mínimo para obter os benefícios”, afirma a neurocientista e professora de yoga e corrida Valéria Duarte Garcia.

Já a malhação mental tem outras diretrizes: praticar uma atividade diferente do seu cotidiano estimula partes “sedentárias” do cérebro. O neurocientista Larry Katz, autor do livro Mantenha seu Cérebro Vivo (ed. Saraiva), criou a chamada neuróbica, exercícios que oferecem novos estímulos cerebrais. Ele dá dicas para começar a explorar a malhação mental. A primeira é usar seus sentidos em um contexto diferente (vestir-se no escuro, por exemplo).

A segunda é mudar o foco da atenção: fazer uma trilha na natureza aciona sentidos diferentes daqueles usados na cidade. A terceira é mudar rotinas do cotidiano, como usar a mão esquerda para escovar os dentes se você é destro. A quarta é usar associação com alguma informação pessoal, espacial ou instigante para guardar uma informação: volte à época do cursinho, quando você usava frases engraçadinhas para lembrar uma fórmula. É o mesmo princípio.

Reset na máquina

No corpo humano, a meditação é a forma de dar um Ctrl+Alt+Del. “Um estudo realizado por pesquisadores de Harvard constatou que a meditação modifica áreas estruturais do cérebro, mais especificamente a massa cinzenta”, conta Valéria Duarte Garcia. Após apenas oito semanas de práticas meditativas com a técnica mindfullness – ou atenção plena –, pode-se detectar modificações estruturais no cérebro mapeadas por imagens de ressonância magnética, que mostram maior densidade de massa cinzenta na região do hipocampo, área importante no processamento de memória e aprendizagem.

Em grupos de pesquisa, os participantes também relataram diminuição do estresse após o mesmo período de prática, provavelmente graças à menor densidade da massa cinzenta da região da amígdala cerebral, ligada ao processo de estresse e ansiedade. “E os benefícios não dependem de uma perspectiva espiritual da meditação. Basta observar a respiração e trazer a mente de volta a ela toda vez que esta insistir em fugir”, explica Valéria.
O uso de LSD em microdoses como potencializador da mente ou mesmo como droga lícita está na mira da ciência. “Os estudos com psicodélicos seguem a todo vapor no mundo. Atualmente, estão em andamento no exterior pelo menos duas pesquisas específicas sobre a microdosagem, e o assunto já foi tema de capa de três revistas científicas de prestígio”, diz Eduardo Schoenberg, doutor em neurociências pela USP com pós-doutorado no Imperial College London, onde acontece atualmente pesquisas com lisérgicos.

Os usuários dizem que o tratamento melhora foco e criatividade no trabalho e resistência e performance na atividade física. Obviamente, há quem aponte os malefícios: “O uso de drogas para aumento de produtividade, como foi clássico com a cocaína nos anos 1990, é relativamente comum. Mas a produtividade dura pouco, e há um grande risco para a carreira e a vida, caso se desenvolva dependência”, alerta o neurologista Renato Anghinah, da Academia Brasileira de Neurociência.

Se nada der certo…
Apostas mais bizarras também têm adeptos. Os bares de oxigênio foram uma febre nos Estados Unidos nos anos 1990, e muitos ainda sobrevivem. Não há evidências científicas de que se expor às sessões, que podem durar até 20 minutos, traga uma melhor performance mental. Os fãs dos oxygen bars garantem que elas melhoram a atenção e o foco, reduzem estresse, causam efeito relaxante e até curam ressaca.
As terapias com eletrochoque, apesar de parecerem radicais, podem ser uma alternativa no futuro: um estudo de 2010 da Universidade de Oxford indicou que microchoques, combinados com treinos específicos, poderiam melhorar o desempenho em tarefas ligadas à fala em pacientes que sofreram derrame.
Lumosity
Cria um programa sob medida para dar agilidade e precisão, com diversos exercícios baseados no perfil informado. Disponível para Android e iOS.

Fit Brains
São mais de 60 jogos e exercícios para memória, linguagem e rapidez de raciocínio baseados em psicologia cognitiva e neurociência. Disponível para Android e iOS.

Memrise
Cursos de idiomas, matemática, ciências e outros assuntos, baseados em técnicas de memorização. Disponível para Android e iOS.

11.084 – Por que não usamos toda a capacidade do cérebro?


Você já deve ter ouvido falar que o cérebro humano usa apenas 10% de sua capacidade. Apesar de baseada em conceitos verdadeiros, essa afirmação não passa de uma metáfora pobre. A verdade é que 100% da massa encefálica trabalha vigorosamente. O que não se explica é por que algumas pessoas com cérebro aparentemente comum têm habilidades como memória fotográfica ou eidética (capacidade de recordar grande quantidade de imagens e dados, como um atlas geográfico) e memória-calendário (capacidade de dizer em que dia da semana caiu ou cairá uma data a séculos de distância). Um dos primeiros exemplos bem documentados desse tipo de prodígio foi Thomas Bethune, ou Blind Tom (“Tom Cego” ) – um americano nascido em 1850, que além de cego era escravo e autista. Também era capaz de escutar 20 páginas de partitura uma só vez e tocá-las no piano. Aos 16 anos, Tom havia memorizado cerca de 7 mil músicas.

10.918 – Neurociência – Tudo o que sabemos sobre cérebro pode estar errado


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A grande questão é o que se pode e o que não se pode saber sobre o funcionamento do cérebro. Estamos falando de um sistema nervoso com cerca de 600 trilhões de conexões paralelas, trabalhando de forma frenética para manter nosso corpo funcionando. O que chamamos de consciência é uma parte relativamente pequena dessa conta. Ironicamente, é onde tudo parece se complicar.
No cérebro, temos um fenômeno conhecido como plasticidade. É a capacidade de modificar as conexões cerebrais para adquirir novas habilidades. Graças a essa capacidade constante de reorganização, podemos aprender novas coisas e produzir memórias. Ou sofrer um acidente cerebral, mas recuperar movimentos na fisioterapia. Ou tocar piano muito bem – a área do cérebro responsável pelo movimento dos dedos se expande nos pianistas. A plasticidade foi confirmada e reforçada em anos recentes com técnicas que permitem ver o cérebro trabalhando em tempo real.
O novo passo é, nessa tempestade de impulsos elétricos, conseguir ver imagens. Imagens mesmo: em 2011, pesquisadores da Universidade da Califórnia em Berkeley conseguiram reconstruir imagens coloridas obtidas a partir da visão de voluntários usando ressonância magnética funcional. Os vídeos gerados não são uma perfeição, mas permitem ver vultos das imagens a que as pessoas foram expostas enquanto estavam na máquina de ressonância. Eles esperam que, no futuro, seja possível gravar sonhos para rever na televisão quando estiver acordado.
Inovações como essas fazem parecer que, finalmente, o entendimento de como funciona nosso pensamento está a apenas um passo ou dois de ser compreendida. Só que não.
Às vezes, os neurocientistas se entusiasmam tanto que começam a imaginar ter explicado coisas que estão longe de ser resolvidas. “A despeito de inferências bem informadas, o maior desafio do imageamento é que é muito difícil os cientistas olharem para um ponto ativo em uma imagem cerebral e concluírem com certeza o que está acontecendo na mente da pessoa”, dizem Satel e Lilienfeld.
Um exemplo eloquente de como eles podem escorregar na casca de banana aconteceu em 2008, quando um grupo de neurocientistas da empresa FKF Applied Research, de Washington, tentou enxergar o “posicionamento político” no cérebro de voluntários indecisos sobre sua preferência na eleição presidencial americana. Eles foram colocados em máquinas de ressonância magnética e expostos a imagens de diversos pré-candidatos democratas e republicanos. Segundo suas conclusões, publicadas em artigo no jornal The New York Times, os dois pré-candidatos mais impopulares eram John McCain e Barack Obama, meses depois indicados por seus partidos. Obama ganhou aquela eleição e é tão “impopular” que foi reeleito no ano passado.
Um dos desafios das pesquisas de neurociência é que, para correlacionar um tipo de pensamento a um padrão de atividade cerebral, é preciso que o voluntário relate o que está pensando. Aí fica fácil dizer que visualizaram “amor” ou “ódio” no cérebro. Mas é quase uma redundância. O voluntário já sabia o que estava sentindo, e não precisava de uma imagem cerebral para provar! Por outro lado, sem a informação de quem está “do lado de dentro” da mente, o padrão de atividade em si não permite mais que inferências muito gerais.

MENTES QUE MENTEM
Em seu livro A Skeptics Guide to the Mind: What Neuroscience Can and Cannot Tell Us About Ourselves (“Um guia cético para a mente: o que a neurociência pode e não pode nos dizer sobre nós mesmos”), publicado em 2013, Burton sugere que acreditar demais no poder da neurociência pode levar a situações dramáticas. Com ampla experiência médica, ele lembra os casos em que a pessoa fica em coma profundo, ou em estado vegetativo, por vários anos.
Alguns neurocientistas têm investigado o nível de atividade cerebral nesses pacientes e sugerido, a partir disso, que eles ainda estão conscientes, apesar de incomunicáveis. Burton defende que essa é uma conclusão precipitada, sem base em ciência sólida, e que pode levar ao sofrimento muitos parentes que tiveram de fazer a opção por desligar o suporte de vida a esses pacientes. Indo mais longe, Burton acredita que há uma falha essencial que impedirá os humanos de compreenderem sua própria mente.
Já se identificaram o centro de recompensa, as áreas responsáveis pela memória, pela visão, pela audição e até mesmo que região é usada na leitura (uma atividade aprendida, em que o cérebro empresta uma área associada a reconhecimento de rostos).

Experimentos em macacos iniciados pelo brasileiro Miguel Nicolelis, da Universidade Duke, mostram que é possível extrair sinais do cérebro e interpretá-los por computador de forma que o animal controle braços robóticos ou um cursor na tela. Espera-se que isso resulte em próteses cibernéticas para paraplégicos.
Estudos no Japão já mostraram que é possível interpretar sinais do córtex visual e transformá-lo em imagens muito próximas do que os voluntários estão vendo. O passo seguinte é fazer a mesma coisa com sonhos.
Uma revisão recente publicada na revista Nature Reviews Neuroscience demonstrou que os estudos de neurociência em geral têm uma confiabilidade estatística muito baixa. Como eles usam poucos voluntários, é difícil distinguir fenômenos reais de flutuações.
Embora a compreensão de fenômenos neurológicos que levam a doenças como epilepsia e mal de Alzheimer tenha aumentado, pouquíssimas drogas eficazes surgiram como resultado dos avanços recentes da neurociência.
Na Índia, em 2008, eletroencefalogramas foram usados para condenar à prisão perpétua uma estudante de 25 anos, acusada de matar o ex-noivo envenenado. Outros dois foram condenados por assassinato pelo mesmo método, até que um relatório, naquele mesmo ano, mostrou que os exames eram absolutamente inconclusivos.

8656 – Neurociência – Decifrando o Cérebro


Os dedos da mão esquerda de um violinista fazem todo tipo de movimentos. Já os da mão direita fazem só um: segurar o arco, algo importante, mas simples. Todas essas ações são coordenadas pelo córtex motor, uma fatia acima da orelha que possui um mapa de todo o corpo: um pedaço coordena o pé, outro, a perna, e assim vai até a cabeça. Quando os cientistas analisaram esse mapa em violinistas, repararam em algo curioso: a região que comanda os dedos da mão esquerda é maior do que a da direita. O cérebro se adapta ao estilo de vida do seu dono.
O mesmo acontece com todo mundo. Quem lê textos em braile desde pequeno utiliza para o tato uma parte do cérebro normalmente ocupada pela visão. Em pessoas que perdem um braço, a área que recebia sensações desse membro se liga a outras partes do corpo, como o rosto, o que às vezes gera “dores fantasmas”: um toque na bochecha é interpretado como uma lesão no braço. Aliás, não se assuste, mas, agora mesmo, este texto e tudo o mais a sua volta estão deixando marcas físicas no seu cérebro.
Está aí a revolução: segundo os cientistas, o seu cérebro é muito elástico. Há menos de 20 anos, imaginava-se que ele era como um computador, uma máquina com circuitos fixos, em que tudo o que se podia fazer era acrescentar informações. Agora se sabe que não. “O hardware também é aprendido. Caminhar, falar, mover partes do corpo envolve experiência e memória”, diz Iván Izquierdo, neurocientista da PUC gaúcha. O cérebro se reiventa, cria novos neurônios, novas conexões e novas funções para áreas pouco utilizadas.
Não é de espantar que os cientistas tenham demorado a perceber isso. Até 3 décadas atrás, tudo o que se podia fazer para estudar o cérebro humano era abrir a cabeça e olhar dentro. Alguns chegaram a fazer isso com pacientes vivos, mas o normal era esperar as pessoas morrerem e depois olhar o que sobrava. Na época, as principais descobertas vinham de pesquisas com animais ou com pessoas com lesões no cérebro – por exemplo, se alguém perdia o hipocampo e, junto com ele, a memória recente, é porque os dois deviam estar ligados.
Agora os cientistas conseguem desde entender como os genes dão origem às moléculas do cérebro até simular em computador conjuntos de neurônios. E surgiram maneiras de observar o cérebro em atividade, graças, principalmente, à ressonância magnética funcional (RMF), uma espécie de telescópio Hubble para os neurocientistas. O princípio é colocar o paciente em um campo magnético tão forte que, pendurado em um guindaste, seria capaz de levantar dois carros juntos (o que mostra por que não é uma boa idéia aproximar objetos metálicos de aparelhos como esse). Essas circunstâncias possibilitam detectar, por ondas de rádio, o fluxo de sangue oxigenado para diferentes partes do cérebro, o que indica as regiões mais ativas em cada situação.
A técnica permitiu, pela primeira vez, mapear o cérebro em funcionamento. Também enterrou aquela idéia de que só usamos 10% da nossa mente: todo o cérebro trabalha o tempo inteiro. Mas, de acordo com o que fazemos, algumas partes são mais ativadas que outras (veja quadro na página 54). Nos últimos anos, as pesquisas mostraram os sistemas que acendem em situações como se apaixonar, tomar uma decisão, sentir sono, medo, desejo de uma comida ou até schadenfreunde, palavra alemã para o prazer de ver alguém se dando mal (que, percebeu-se, é mais intenso em homens). “Estamos decifrando a linguagem com que as áreas do cérebro conversam. É possível que os sistemas que conseguimos ver sejam como um arquipélago: parecem ilhas isoladas, mas, por baixo, são parte de uma mesma montanha”, diz o radiologista do Hospital das Clínicas Edson Amaro, membro do projeto internacional Mapeamento do Cérebro Humano.
O que complica as pesquisas é que, assim como não existe pessoa igual a outra, cada cérebro é diferente. Além disso, a aparência dos neurônios não é um indicador fiel do que acontece na cabeça. “Existe quem morra com problemas de memória e, na autópsia, se percebe que o cérebro estava perfeito. E também os que não apresentaram problemas até o fim da vida, mas têm um cérebro danificado”, diz Lea Grinberg, uma das coordenadoras do banco de cérebros da USP, que reúne e tenta comparar 3 600 amostras para resolver problemas como esse. Mesmo ainda misterioso, é provável que seja esse o ponto em que o modo como você utiliza o cérebro faça a diferença.
Ao que tudo indica, exercitar o cérebro cria uma espécie de reserva. É possível que, quando necessário, os atletas mentais consigam recrutar outras áreas do cérebro mais facilmente, ou talvez compensem a perda por usarem cada área de forma mais eficiente.
Aliás, uma boa notícia: só o fato de você estar lendo este texto já é um começo. “Leitura é um exercício fantástico.
A história do seu cérebro começa pouco depois da concepção, quando o embrião humano ainda é chato como uma panqueca. Até que, com uns 17 dias, uma parte da superfície começa a dobrar até se fechar em um tubo. Esse tubo acabará se transformando no sistema nervoso inteiro. De 5 a 6 meses depois, seu crescimento cerebral atinge a velocidade máxima, espantosos 250 mil novos neurônios por minuto. Antes mesmo de você nascer, o cérebro está praticamente formado. Daí em diante, segundo o que se acreditava até há pouco tempo, ele poderia aprender coisas novas, mas não ganharia novos neurônios. Só nos restava cuidar bem dos que já temos.
Tudo isso mudou em 1998, quando os cientistas provaram que o cérebro produz, sim, novas células ao longo da vida – num processo batizado de neurogênese. Caía um dos mais arraigados mitos da ciência. Desde então, descobrir como surgem novos neurônios e para que eles servem se tornou um dos temas mais quentes da neurociência. É possível que dessas pesquisas saiam formas de curar doenças como depressão e Alzheimer, retardar o envelhecimento e até garantir um melhor funcionamento do cérebro para pessoas saudáveis.
Apesar de os cientistas terem visto sinais de novos neurônios em várias partes do cérebro, a produção está restrita a duas regiões.
Não há dúvidas de que a neurogênese é um processo importante. Sabe-se, por exemplo, que alguns tipos de derrames aumentam a produção de neurônios. A maioria deles morre, mas alguns conseguem chegar ao local da lesão e formar um remendo que não resolve os casos mais graves, mas corrige microderrames que acabam passando despercebidos. E um grande número de doenças, de uma forma ou de outra, está ligado à neurogênese. A depressão é uma delas. O mal de Alzheimer é outra: ratos modificados geneticamente para desenvolver a doença apresentam também problemas na neurogênese, prova de que alguma conexão há. E remédios capazes de estimular o nascimento de neurônios em cobaias conseguiram atenuar os sintomas de mal de Parkinson – uma abordagem que pode se revelar promissora para humanos.
O grande sonho dos cientistas agora é controlar o processo para fazer o cérebro tapar os próprios buracos – mais ou menos como uma lagartixa regenera uma perna cortada. E, possivelmente, estimular o cérebro de pessoas saudáveis a fabricar neurônios.

Ler pensamentos?
Um macaco em um laboratório da Universidade de Parma, na Itália, jamais imaginaria que faria parte de uma das maiores descobertas da ciência quando, 15 anos atrás, descansava com eletrodos implantados no cérebro. Os fios estavam conectados a neurônios que disparavam quando ele fazia movimentos. Por exemplo, se o macaco levantava um objeto, um neurônio começava a funcionar. Até que, despretensiosamente, um cientista levantou um objeto perto do simpático primata. E, para surpresa de todos, exatamente o mesmo neurônio que disparava quando o próprio macaco fazia a ação começou a funcionar. Em alguns casos, bastava o som dessa ação para acionar a célula. Ou seja, era como se a mente do macaquinho simulasse tudo o que os outros fizessem ao redor. Essa tendência para imitar tudo fez com que, em 1996, ao publicarem a descoberta, os cientistas italianos batizassem essas células de “neurônios-espelho”.
Nos anos seguintes, os cientistas descobriram que não só temos o mesmo sistema dos macacos, como em humanos ele é muito mais desenvolvido. Em humanos, os neurônios-espelho envolvem muito mais áreas e são acionados com mais freqüência. Tanto que, apesar de recém-descobertos, eles já estão sendo propostos para responder por que os bocejos são contagiosos, por que apreciamos a arte, como surgiu a cultura, a sociedade, a linguagem e a civilização e até mesmo para definir quem somos nós.
Os neurônios-espelho estão ativos desde o momento em que nascemos. Faça o teste: mostre sua língua para um recém-nascido e, provavelmente, ele tentará copiá-lo. “Parece que o único modo de perceber as coisas é usando o nosso sistema motor e o nosso corpo para imitá-las”, diz o neurologista Marco Iacoboni, da Universidade da Califórnia em Los Angeles. Com o tempo, conseguimos até prever as intenções dos outros: o sistema pode disparar mesmo que as pessoas apenas dêem sinais de que farão alguma coisa. O mesmo vale para as emoções. Cientistas em Marselha, França, mostraram que sentir um cheiro nojento ou ver pessoas fazendo cara de nojo dispara o mesmo grupo de neurônios-espelho.

Depressão não é tristeza?
A teoria tradicional diz que a depressão é uma deficiência de serotonina – um neurotransmissor relacionado a funções como o humor, o sono e o apetite – e, para combatê-la, tudo o que os antidepressivos fazem é aumentar a quantidade dessa substância no cérebro. Mas duas questões nessa teoria intrigam os cientistas há algum tempo. A primeira é que, pouco depois de tomar esses remédios, o cérebro já está cheio de serotonina e, no entanto, nada acontece. O segundo é que os efeitos esperados só vão aparecer um mês depois. Um mês é exatamente o tempo que o cérebro leva para produzir novos neurônios e fazê-los funcionar. Foi daí que se suspeitou que existe uma relação entre a depressão e a queda na produção de novas células no cérebro.
Outros indícios reforçaram a hipótese: o estresse – um dos principais fatores que desencadeiam a depressão – também inibe a neurogênese, como se o cérebro estivesse mais preocupado em sobreviver ao fator estressante que em produzir neurônios para o futuro. Mas a primeira evidência concreta veio em 2000, quando cientistas americanos mostraram que os principais tratamentos antidepressivos aumentam a neurogênese em ratos adultos. No ano seguinte, percebeu-se também que bloquear o nascimento de neurônios em ratos tornava ineficazes os antidepressivos. Agora a esperança é encontrar uma forma de estimular a neurogênese e, com isso, aliviar a depressão. Ao que indicam esses estudos, essa doença pode não ser só um estado de tristeza, mas, sim, o efeito da falta de neurônios novos e da consequente perda da habilidade de se adaptar a mudanças.
Paixão
Muita coisa muda, mas poucas relacionadas ao desejo sexual. Os sistemas mais acionados são os de motivação e recompensa, também usado quando um viciado consome drogas ou quando um apostador ganha um prêmio. Para os pesquisadores, é uma resposta parecida com a que os demais mamíferos apresentam ao buscar um parceiro adequado.
Susto
O sentimento de uma possível ameaça faz dois caminhos no cérebro. Um é direto para um estrutura chamada amígdala, responsável por lidar com fortes estímulos emocionais e capaz de dar respostas rápidas, como aumentar os batimentos cardíacos. O segundo passa pelo córtex e é mais lento, mas é onde percebemos se aquilo é mesmo algo perigoso ou apenas um susto.
Humor
Ver cartuns aciona sistemas relacionados à linguagem e ao processamento de imagens para que você entenda a graça. Mas, uma vez que você pegou a piada, muda tudo lá no cérebro. Aí acendem sistemas de recompensa, que estão ligados a vários tipos de prazer. Curiosamente, isso acontece mais em mulheres que em homens – ninguém ainda sabe explicar bem por quê.
Concentração
Segundo cientistas israelenses, em tarefas que exigem muita atenção (como identificar uma imagem em uma série rápida de figuras), o cérebro concentra os esforços em áreas sensoriais e silencia uma região associada ao sentimento de introspecção. O que significa que, diante de uma tarefa difícil, você literalmente esquece que a vida existe.

Colocando um freio no tempo
Não é muito difícil fazer minutos e segundos durar mais. Algumas drogas ilegais bastante disponíveis fazem isso. Monges em meditação, atletas no auge de sua atividade e pessoas muito concentradas em sua atividade têm a mesma impressão. E pesquisas científicas podem encontrar outras formas de fazer isso, à medida que os cientistas comecem a decifrar os mecanismos com os quais percebemos a passagem do tempo. O nosso cérebro tem 3 relógios. O primeiro determina o ritmo dos dias, os momentos de sono ou de alerta. Outro controla atividades que duram milésimos de segundo, como as que se passam no controle de atividades motoras finas. Já o terceiro fica no meio do caminho, no ritmo dos minutos e segundos, e é em grande parte aí que está nossa consciência da passagem do tempo. No ano passado, pesquisas com técnicas de imagem feitas na Universidade Duke, EUA, levaram a um modelo de como ele funciona. O segredo pode estar no corpo estriado, uma região bem na base do cérebro que monitora as ondas que os demais neurônios emitem ao produzir suas atividades. Assim como um maestro dá o ritmo de uma orquestra, essa região integra todas essas ondas em uma estimativa da passagem do tempo. No futuro, talvez seja possível manipular neurotransmissores nessa região e, dessa forma, fazer o tempo passar mais devagar sem sofrer outros efeitos colaterais. Até lá, a única forma é tentar formas mais naturais de esticar os minutos e segundos, como exercícios de meditação e concentração, ou simplesmente ficando parado: afinal, sempre que você está sem fazer nada, o tempo passa mais devagar.