14.035 – O Xis da Questão – O ‘X’ SE TRANSFORMOU NA VARIÁVEL DESCONHECIDA DA MATEMÁTICA


sinais_matematicos
Mesmo que você não seja um gênio das ciências exatas, certamente sabe que a letra “X” na matemática representa um termo utilizado para substituir outro que, geralmente, é desconhecido. Mas você sabe como é que essa letra se transformou nessa variável? A resposta a essa questão, ao contrário do que você poderia imaginar, não está relacionada a nenhum cálculo secreto, mas sim com a fonética.
O pessoal da TED — uma respeitada fundação privada sem fins lucrativos que organiza conferências em todo o mundo para disseminar conhecimento — postou um vídeo no YouTube, no qual Terry Moore, durante uma das palestras, explica por que o X foi o escolhido para representar o desconhecido.
Basicamente, quando os textos árabes sobre matemática e outras ciências começaram a chegar na Europa — mais precisamente, na Espanha — lá nos séculos 11 e 12, obviamente os sábios da época se empenharam em traduzir todo esse conhecimento para um idioma europeu comum.
No entanto, alguns sons verbalizados em árabe não possuem correspondência com os idiomas europeus, sem contar que os caracteres desse alfabeto tampouco contam com equivalentes ocidentais. Assim, uma letra árabe muito comum — ? pronunciada “shin” — tem o mesmo som que “shhh” e é utilizada para escrever a palavra “Shalam”, que em árabe significa “algo”, ou seja, ela descreve alguma coisa indefinida.
Assim, os árabes utilizavam o termo “al-shalam” para designar “o desconhecido” que, por sua vez aparecia muito nos antigos textos matemáticos. O problema, contudo, é que, como no idioma espanhol não existe o som “shhh”, os estudiosos que traduziram os antigos textos árabes tiveram que encontrar uma alternativa, adotando o som “ck”, proveniente do grego clássico, para criar uma convenção.
No grego clássico, o som “ck” é representado pela letra “Kai”, cuja grafia é “χ”. E mais tarde, quando os textos espanhóis foram transcritos para o latim — que era o idioma mais comum da época —, o caractere grego foi substituído pela letra X. Uma vez em latim, esses textos serviram de base para os livros de matemática por quase 600 anos, e o “X” acabou se tornando o que é hoje simplesmente porque os espanhóis não têm uma letra para o som “shhh”.

14.021 – História – A Guerra Mais Sangrenta da América do Sul


Combate naval do riachuelo
Tudo começou no Uruguai, com uma rebelião dos colorados (liberais) em abril de 1863, encabeçada pelo general Venâncio Flores, pela derrubada do governo dos blancos (conservadores) eleito em 1860. O conflito desencadeou a sequência dos acontecimentos que levaram à Guerra do Paraguai.
A Argentina e o Brasil apoiaram a rebelião colorada – era a primeira vez que os dois países estavam do mesmo lado num conflito uruguaio. O presidente argentino, Bartolomeu Mitre, um liberal eleito em outubro de 1862, tomou essa posição porque os colorados tinham lhe dado apoio na guerra civil de seu país em 1861 e porque os blancos constituíam um foco possível de oposição federalista residual nas províncias litorâneas à república argentina, recém-unificada. Para o Império do Brasil, a questão principal era proteger os interesses dos brasileiros que viviam e tinham propriedades no Uruguai, ameaçados pela rigidez das autoridades daquele Estado sobre o comércio da fronteira e as taxas aduaneiras. Foi nesse contexto que o governo blanco se voltou para o Paraguai como único aliado possível.
Mas o Paraguai temia e desconfiava de seus vizinhos muito maiores, muito mais povoados e potencialmente predatórios: as Províncias Unidas do Rio da Prata e o Brasil. Ambos tinham relutado em aceitar a independência paraguaia e demoraram a reconhecê-la: o Brasil em 1844, as Províncias Unidas em 1852. Ambos tinham reivindicações territoriais contra o Paraguai: o Brasil, no extremo nordeste do país, na divisa com Mato Grosso, região valiosa pela erva-mate nativa; a Argentina, no leste do Rio Paraná (Misiones), mas também a oeste do Rio Paraguai (o Chaco). E havia ainda atritos com ambos quanto à livre navegação no sistema fluvial Paraguai-Paraná.
O presidente do Paraguai, Francisco Solano López, a quem o governo uruguaio procurara para obter apoio em julho de 1863, tinha chegado ao poder em outubro de 1862, após a morte de seu pai, o ditador Carlos Antonio, que governara o país desde 1844. De início, ele hesitou em fazer uma aliança formal com os blancos, seus aliados naturais, contra os colorados no Uruguai, agora que estes tinham o apoio do Brasil e da Argentina. Mas, no segundo semestre de 1863, Solano López viu a oportunidade de mostrar sua presença na região e de desempenhar um papel compatível com o novo poder econômico e militar do Paraguai. No começo de 1864, ele começou a mobilização para uma possível guerra.
Quando o Brasil lançou um ultimato ao governo uruguaio em agosto do mesmo ano, ameaçando retaliar os supostos abusos sofridos por súditos brasileiros, Solano López reagiu com um ultimato alertando o Brasil contra a intervenção militar. Ignorando o alerta, soldados brasileiros invadiram o Uruguai em 16 de outubro. Em 12 de novembro, após a captura de um vapor mercante brasileiro que saía de Asunción para Corumbá, levando o presidente de Mato Grosso a bordo, o Brasil rompeu relações diplomáticas com o Paraguai. Em 13 de dezembro, Solano López tomou a grave decisão de declarar guerra ao Brasil e invadiu Mato Grosso. Quando a Argentina negou autorização ao Exército paraguaio para atravessar Misiones – território disputado e quase despovoado – a fim de invadir o Rio Grande do Sul, Solano López também declarou-lhe guerra, em 18 de março de 1865, e no mês seguinte invadiu a província argentina de Corrientes.
A decisão de Solano López de declarar guerra primeiro ao Brasil e depois à Argentina, e de invadir os dois territórios, mostrou-se um grave erro de cálculo, que traria consequências trágicas para o povo do Paraguai. O mínimo que se pode dizer é que Solano López fez uma tremenda aposta – e perdeu. Ele superestimou o poderio econômico e militar do Paraguai. Subestimou o poderio militar potencial, se não efetivo, do Brasil, e sua disposição de lutar. E errou ao pensar que a Argentina ficaria neutra numa guerra entre o Paraguai e o Brasil em disputa pelo Uruguai.
Os objetivos originais da guerra, tal como foram expostos no Tratado da Tríplice Aliança assinado pelo Brasil, pela Argentina e pelo Uruguai em 1o de maio de 1865, eram: a derrubada da ditadura de Solano López; livre navegação dos rios Paraguai e Paraná; anexação do território reivindicado pelo Brasil no nordeste do Paraguai e pela Argentina no leste e no oeste do Paraguai — esta última cláusula se manteve secreta até ser revelada pela Inglaterra em 1866. Com o desenrolar do conflito, tornou-se, em particular para o Brasil, uma guerra pela civilização e pela democracia contra a barbárie e a tirania: isso apesar do estranho fato de que o Brasil, após a libertação dos escravos nos Estados Unidos durante a Guerra Civil, agora era o único Estado independente de todas as Américas com a economia e a sociedade em bases escravistas, além de ser a única monarquia remanescente.
A Guerra do Paraguai não era inevitável. E nem era necessária. Mas só poderia ter sido evitada se o Brasil tivesse se mostrado menos categórico na defesa dos interesses de seus súditos no Uruguai, principalmente, se não tivesse feito uma intervenção militar em favor deles, se a Argentina tivesse se mantido neutra no conflito subsequente entre o Paraguai e o Brasil, e, sobretudo, se o Paraguai tivesse se conduzido com mais prudência, reconhecendo as realidades políticas da região e tentando defender seus interesses por meio da diplomacia, e não pelas armas. A guerra, que se estendeu por mais de cinco anos, foi a mais sangrenta da história da América Latina, e, na verdade, afora a Guerra da Crimeia (1854-1856), foi a mais sangrenta de todo o mundo entre o fim das Guerras Napoleônicas, em 1815, e a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Custou de 150.000 a 200.000 vidas (na maioria, paraguaios e brasileiros), no campo de batalha e por privações e doenças decorrentes da guerra.
Diante da enorme disparidade entre os dois lados, em termos de tamanho, riqueza e população, a Guerra do Paraguai deveria se afigurar desde o início uma luta desigual. Mas, militarmente, havia um maior equilíbrio. De fato, no início da guerra, e pelo menos durante o primeiro ano, o Paraguai provavelmente teve superioridade militar em termos numéricos. E provavelmente seu Exército era mais equipado e treinado do que os exércitos vizinhos. Além disso, como as forças paraguaias tinham sido expulsas do território argentino, a Argentina reduziu tanto sua contribuição para o esforço de guerra dos aliados que, no final da guerra, havia apenas cerca de 4.000 soldados argentinos em solo paraguaio. O Uruguai, por sua vez, teve presença apenas simbólica no teatro de operações durante todo o conflito. O Brasil, por outro lado, aumentou seu Exército regular – que tinha entre 17.000 e 20.000 – para 60.000 a 70.000 homens no primeiro ano das hostilidades, com recrutamento obrigatório, transferências da Guarda Nacional, alistamento de escravos de propriedade do Estado e alguns de propriedade particular (libertados em troca dos serviços na guerra) e a formação dos corpos de Voluntários da Pátria. Calcula-se que o Brasil mobilizou durante a guerra cerca de 140.000 homens. E, ao contrário do Paraguai, que dispunha apenas de seus próprios estaleiros e arsenais, o Brasil tinha acesso a armas, munições e navios de guerra, tanto fabricados e montados no país quanto comprados no exterior, principalmente na Europa, além de empréstimos obtidos na City de Londres para ajudar nesses pagamentos. Por fim, o Brasil tinha a Marinha mais forte e poderosa da região.
A guerra pode ser dividida em três fases. A primeira começou com as ofensivas paraguaias a Mato Grosso em dezembro de 1864 e a Corrientes em abril de 1865. Em maio de 1865, o Exército paraguaio finalmente atravessou Misiones e invadiu o Rio Grande do Sul. De início a invasão teve sucesso, mas depois foi contida pelas forças aliadas. No dia 14 de setembro, o comandante paraguaio, coronel Estigarribia, se rendeu aos aliados em Uruguaiana. O Exército paraguaio então se retirou, atravessando o Rio Paraná, e se preparou para defender a fronteira sul do país. Enquanto isso, em 11 de junho, na Batalha do Riachuelo, no Rio Paraná, a única grande batalha naval da guerra, a Marinha brasileira tinha destruído a Marinha paraguaia e criado um bloqueio cerrado ao Paraguai, que se manteve até o fim da guerra.
A segunda e principal fase do conflito começou quando os aliados finalmente invadiram o Paraguai, em abril de 1866, e instalaram seu quartel-general no Tuiuti, na confluência dos rios Paraná e Paraguai. Em 24 de maio, repeliram uma investida paraguaia e venceram a primeira grande batalha em terra. Mas os exércitos aliados demoraram mais de três meses até começarem a subir o Rio Paraguai. Em 12 de setembro, Solano López propôs concessões, inclusive territoriais, para terminar a guerra, desde que lhe fosse poupada a vida e o Paraguai não fosse totalmente desmembrado ou ocupado em caráter permanente, mas sua proposta foi rejeitada. Dez dias depois, em Curupaiti, ao sul de Humaitá, no Rio Paraguai, os aliados sofreram sua pior derrota. Não retomaram o avanço até julho de 1867, quando se iniciou uma movimentação para cercar a grande fortaleza fluvial de Humaitá, que bloqueou o acesso ao Rio Paraguai e à capital, Asunción. Mesmo assim, passou-se mais de um ano antes que os aliados ocupassem Humaitá (5 de agosto de 1868), e mais cinco meses para a derrota decisiva e praticamente a destruição do Exército paraguaio na Batalha de Lomas Valentinas, em 27 de dezembro. As tropas aliadas (na maioria brasileiras), sob o comando do marechal Luís Alves de Lima e Silva, o marquês de Caxias, comandante-chefe brasileiro desde outubro de 1866 e comandante-chefe das forças aliadas desde janeiro de 1868, finalmente entraram em Asunción em 1o de janeiro de 1869 e terminaram a guerra. Pelo menos, assim pensavam os aliados.
Mas houve uma terceira fase: Solano López formou um novo exército na Cordilheira a leste de Asunción e começou uma campanha de guerrilha. Foi derrotado e seus soldados massacrados na última grande batalha em Campo Grande ou Acosta Nu, no nordeste de Asunción, em agosto de 1869. Mesmo assim, López conseguiu escapar com vida. Com sua companheira irlandesa Eliza Alicia Lynch, ele foi perseguido no norte por tropas brasileiras por mais seis meses, até finalmente ser acuado e morto em Cerro Corá, no extremo nordeste do Paraguai, em 1o de março de 1870. Em 27 de julho, foi assinado um tratado de paz preliminar.
Por que demorou tanto até os Aliados vencerem a guerra, apesar de sua esmagadora superioridade naval e, pelo menos depois de Tuiuti, também terrestre? Passaram-se quase quatro anos antes que os aliados chegassem à capital paraguaia. E mesmo então, a guerra se arrastou por mais de um ano. Uma explicação se encontra no lado dos aliados, ou melhor, no lado brasileiro, já que o Brasil ficou praticamente sozinho na guerra após o primeiro ano. Os governos brasileiros enfrentavam enormes problemas logísticos, primeiro para organizar, depois para transportar as tropas por milhares de quilômetros por via terrestre, marítima e fluvial, e, finalmente, para abastecê-las. E vencer as excelentes defesas terrestres e fluviais do Paraguai não foi tarefa fácil. Mas também é verdade que os comandantes brasileiros demonstraram um alto grau de incompetência estratégica e tática. Por outro lado, as tropas paraguaias e, na verdade, o próprio povo paraguaio, mantiveram-se leais a Solano López, combatendo com uma tenacidade extraordinária e, no final, quando estava em jogo a sobrevivência nacional, com grande heroísmo.
Para o Paraguai, a guerra foi quase uma calamidade total. O país sobreviveu como Estado independente, mas sob a ocupação e tutela brasileira no período posterior ao fim da guerra. Somente em julho de 1876, finalmente se retiraram 2.000 soldados e seis navios de guerra brasileiros. A consequência extrema da completa derrota, que seria o desmembramento integral do país, foi evitada, mas o território paraguaio foi reduzido em 40%, e o que restou do Exército foi desarmado. Embora o número de baixas tenha sido muito exagerado – chegou-se a se falar em 50% da população do Paraguai antes do conflito –, e as estimativas recentes e mais modestas estejam na ordem de 15% a 20% da população, o que corresponde a cerca de 50.000 a 80.000 mortes no campo de batalha e por doenças (sarampo, varíola, febre amarela e cólera), os percentuais são enormes pelos critérios de qualquer guerra moderna. A economia do Paraguai ficou arruinada, a infraestrutura e a base manufatureira foram destruídas e o início de um desenvolvimento externo sofreu o retrocesso de uma geração. Por fim, os vencedores impuseram ao país uma indenização enorme, embora nunca tenham cobrado e depois tenham cancelado.
A Argentina sofreu baixas estimadas – possivelmente com exagero – em 18.000 mortes em campo de batalha, mais 5.000 em distúrbios internos desencadeados pela guerra e 12.000 em epidemias de cólera. O território anexado ficou aquém de suas pretensões. De qualquer forma, eliminou-se da política da região platina a perspectiva de um Paraguai cada vez mais forte e potencialmente expansionista. E, num balanço geral, a guerra contribuiu positivamente para a consolidação nacional do país: Buenos Aires foi aceita como capital inconteste de uma república argentina unida, e a identidade nacional se fortaleceu consideravelmente.
O Brasil, que depois do primeiro ano da guerra combateu praticamente sozinho, sofreu baixas de pelo menos 50.000 mortos em combate e muitos outros por doenças, embora num total inferior aos 100.000 às vezes citados. O custo financeiro da guerra sacrificou tremendamente as finanças públicas do país. E a guerra teve profundo impacto na sociedade e na vida política. A Guerra do Paraguai foi um divisor de águas na história do Império, ao mesmo tempo seu apogeu e o início de sua decadência.
Mas o Brasil tinha alcançado todos os seus objetivos. Pelo tratado assinado com o Paraguai em janeiro de 1872, o país obteve todo o território reivindicado entre o Rio Apa e o Rio Branco. Assegurou-se a livre navegação dos rios Paraguai e Paraná, importante para Mato Grosso e o oeste paulista. E o próprio Paraguai, ainda mais que o Uruguai, agora estava sob seu firme controle e sua influência. Assim se consolidava, por ora, a indiscutível hegemonia do Império brasileiro na região.
Leslie Bethell é professor emerito de História da América Latina na Universidade de Londres e editor da coleção Cambridge History of Latin America (12 volumes, Cambridge University Press, 1984-2008)

Jogo de interesses?
Existe um mito de que o Brasil e a Argentina, na Guerra do Paraguai ou Guerra da Tríplice Aliança, foram instrumentos do capitalismo britânico, “Estados satélites”, “neocolônias”, instigados e manipulados por uma Grã-Bretanha “imperialista”, o “indispensável quarto Aliado”, para entrarem em guerra contra o Paraguai. Este seria um sólido mito nascido nos anos 1970 e 1980, nos textos de historiadores latino-americanos tanto da esquerda marxista quando da direita nacionalista. O alegado objetivo da Inglaterra era minar e destruir o modelo de desenvolvimento econômico conduzido pelo Estado, que representava uma ameaça ao avanço de seu modelo capitalista liberal na região. Mais especificamente, seu objetivo era abrir a única economia da América Latina que continuava fechada aos produtos manufaturados e aos capitais ingleses, e assegurar à Inglaterra novas fontes de matérias-primas, em especial o algodão, já que o abastecimento dos Estados Unidos tinha sido afetado pela guerra civil.
Há pouca ou nenhuma prova concreta consistente que possa sustentar essa tese. O governo britânico não tinha praticamente nenhum interesse no Paraguai e nenhuma vontade de piorar as disputas existentes no Rio da Prata, e muito menos de promover a guerra, que iria apenas ameaçar vidas e propriedades inglesas e o comércio britânico. E, mesmo que quisesse, a Inglaterra não exercia o grau de controle sobre o Brasil ou sobre a Argentina que seria necessário para manobrá-los e levá-los à guerra contra o Paraguai. As autoridades britânicas, em sua maioria, estavam a favor dos aliados, mas a Inglaterra se manteve oficialmente neutra durante a guerra e utilizou de modo sistemático sua influência a favor da paz. É verdade que fabricantes britânicos vendiam armas e munições aos beligerantes – isto é, na prática, ao Brasil e à Argentina, visto que o Paraguai logo caiu sob bloqueio brasileiro. Mas eram negócios, oportunidades de os empresários na Inglaterra, na França e na Bélgica lucrarem com uma guerra. Também é verdade que o empréstimo de sete milhões de libras dos Rothschild ao governo brasileiro em setembro de 1865 foi utilizado para comprar navios de guerra, e neste sentido a Inglaterra deu uma contribuição importante para a vitória dos aliados sobre o Paraguai. Mas não houve qualquer outro empréstimo ao Brasil durante toda a guerra, e os empréstimos ingleses representaram apenas 15% do total de despesas do Brasil com a Guerra do Paraguai. A principal responsabilidade pela guerra coube ao Brasil, à Argentina, em menor grau ao Uruguai e, sobretudo – infelizmente –, ao próprio Paraguai.

14.016 – Novo robô pode ser chave para entender como alguns dinossauros aprenderam a voar


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Pesquisadores de universidade de Pequim fizeram demonstrações que indicam que dinossauros desenvolveram habilidade de voo ao baterem as asas quando corriam
Pesquisa publicada em (2/5/19), na revista científica PLOS Computational Biology, apresentou uma nova perspectiva para o desenvolvimento da capacidade de voo em alguns dinossauros – e criou um robô para demonstrar a teoria.
De acordo com o estudo, liderado por Jing-Shan Zhao, pesquisador do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Tsinghua, em Pequim, a origem da habilidade começou como um efeito natural da corrida dos animais, que batiam as asas rudimentares antes de serem capazes de voar. Mas o movimento realizado involuntariamente enquanto corriam pode ter servido para “treinar” alguns dinossauros, fortes o suficiente para resistir ao voo e bater as asas e voar.
A equipe de pesquisa criou um pequeno robô para demonstrar a origem da habilidade de voo. A estrutura da máquina foi baseada no dinossauro Caudipteryx, considerado o dinossauro não-voador mais primitivo. Pesava cinco quilos e não podia voar, mas era capaz de correr a uma velocidade de oito metros por segundo. O robô foi construído no tamanho natural de um Caudipteryx, com capacidade de funcionar em diferentes velocidades. Os movimentos do robô foram baseados na atividade motora do animal real, prevista por meio de cálculos matemáticos.
Para complementar os resultados, os pesquisadores equiparam um avestruz com um par de asas mecânicas. Em ambos os casos, os movimentos da corrida desencadearam uma vibração passiva das asas, o que confirma a proposta do estudo. Tanto o modelo matemático quanto a demonstração real chegaram a movimentos que, embora superficiais, se assemelham às asas das aves.
“Nosso trabalho mostra que o movimento de bater asas se desenvolveu passiva e naturalmente quando o dinossauro corria no chão”, disse Zhao em um comunicado à imprensa. “Embora este flutuar não fosse capaz de levantar o dinossauro no ar naquele momento, o movimento de asas pode ter se desenvolvido antes da capacidade de voar”.
A hipótese mostra que características físicas dos dinossauros permitiam o desenvolvimento da habilidade. Mas, devido à natureza complexa e multifacetada do voo, cientistas consideram que a demonstração não é suficiente para que a pesquisa gere conclusões por conta própria. Os pesquisadores admitiram ser provável que as forças aerodinâmicas criadas pelo movimento mecânico não possam ser comparadas às forças realmente necessárias para poder voar.
Para o paleontólogo da Universidade de Palacký, na República Checa, Dennis Voeten, uma falha do estudo foi não ter levado em conta a dinâmica do ombro e a musculatura reais do Caudipteryx para construir o robô. Em vez disso, os pesquisadores substituíram as estruturas anatômicas de grande importância por molas elásticas.
Voeten considera que isso tornou “impossível visualizar qualquer comportamento esquelético que teria acompanhado esses movimentos”. Ele afirma estar “convencido” de que as forças exercidas durante a corrida podem ter influenciado o movimento das asas, mas que a origem voo dos dinossauros permanece “hipotética”.

14.011- Mega Questões – Somos programados para acreditar em um Deus?


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Deus Netuno ou Poseidon

A religião – a crença em seres sobrenaturais, incluindo deuses e fantasmas, anjos e demônios, almas e espíritos – está presente em todas as culturas e permeia toda a História.

A discussão sobre a vida após a morte remonta a, pelo menos, 50.000 a 100.000 anos atrás.
É difícil obter dados precisos sobre o número de crentes de hoje, mas algumas pesquisas sugerem que até 84% da população do mundo são membros de grupos religiosos ou dizem que a religião é importante em suas vidas.
Vivemos em uma era de um acesso ao conhecimento científico sem precedentes, o que alguns acreditam que é incompatível com a fé religiosa. Então, por que a religião é tão difundida e persistente?
Os psicólogos, filósofos, antropólogos e até mesmo os neurocientistas sugerem possíveis explicações para a nossa disposição natural de acreditar, e para o poderoso papel que a religião parece ter em nossas vidas emocionais e sociais.

Morte, cultura e poder
Mas antes de falar das teorias atuais, é preciso entender como surgiram as religiões e o papel que elas tiveram na vida de nossos ancestrais.
As primeiras atividades religiosas foram em resposta a mudanças corporais, físicas ou materiais no ciclo da vida humana, especialmente a morte.
Os rituais de luto são uma das mais antigas formas de experiência religiosa. Muitos de nossos antepassados não acreditavam que a morte era necessariamente o fim da vida – era apenas uma transição.
Alguns acreditavam que os mortos e outros espíritos podiam ver o que estava acontecendo no mundo e ainda tinham influência sobre os eventos que estão ocorrendo.
E essa é uma noção poderosa. A ideia de que os mortos ou até mesmo os deuses estão com a gente e podem intervir em nossas vidas é reconfortante, mas também nos leva a ter muito cuidado com o que fazemos.
Os seres humanos são essencialmente sociais e, portanto, vivem em grupos. E como grupos sociais tendem à hierarquia, a religião não é exceção.
Quando há um sistema hierárquico, há um sistema de poder. E em um grupo social religioso, a hierarquia localiza seu membro mais poderoso: a divindade – Deus.
É para Deus que temos de prestar contas. Hoje em dia, a religião e o poder estão conectados. Estudos recentes mostram que lembrar de Deus nos faz mais obedientes.
Até em sociedades que reprimiram a fé, surgiu algo que tomou seu lugar, como o culto a um líder ou ao Estado.
E quanto menos estável é um país politica ou economicamente, mais provável que as pessoas busquem refúgio na religião. Os grupos religiosos podem, ao menos, oferecer o apoio que o Estado não fornece a quem se sente marginalizado.
Assim, fatores sociais ajudam a desenvolver e fortalecer a fé religiosa, assim como a forma como nos relacionamos com o mundo e com os outros.

Outras mentes
Em todas as culturas, os deuses são, essencialmente, pessoas, mesmo quando têm outras formas.
Hoje, muitos psicólogos pensam que acreditar em deuses é uma extensão do nosso reconhecimento, como animais sociais, da existência de outros. E uma demonstração da nossa tendência de ver o mundo em termos humanos.
Nós projetamos pensamentos e sentimentos humanos em outros animais e objetos, e até mesmo nas forças naturais – e essa tendência é um dos pilares da religião.
ssim argumentou-se que a crença religiosa pode ser baseada em nossos padrões de pensamento e de cultura humana. Alguns cientistas, no entanto, foram além e analisaram nossos cérebros em busca do lendário “ponto Deus”.

Deus no cérebro
Os neurocientistas têm tentado comparar os cérebros dos crentes e ao dos céticos, para ver o que acontece no nosso cérebro quando rezamos ou meditamos. Se conhece pouquíssimo sobre esse campo – mas há algumas pistas, especialmente no que diz respeito às aéreas cerebrais.
O córtex pré-frontal medial está fortemente associado com a nossa capacidade e tendência para entender os pensamentos e sentimentos dos outros. Muitos estudos têm mostrado que esta região do cérebro está especialmente ativa entre os crentes religiosos, especialmente quando estão rezando. Isso corrobora a visão de que a fé religiosa é uma forma de interação social.
Já o lobo parietal, de acordo com estudos pode estar envolvido em experiências religiosas, especialmente aquelas caracterizadas com a dissolução do ego.
Na medida em que estamos constantemente à procura de padrões, estruturas e relações de causa-efeito, a religião pode fornecer uma variedade de estratégias para que essa busca faça sentido
As crenças religiosas ajudam os seres humanos a se organizar e dar sentido a suas vidas. E em todas as culturas, e até mesmo entre ateus, os rituais podem ajudar a pontuar eventos importantes da vida.
Embora nem a neurociência, nem a antropologia e nem filosofia tenham uma resposta definitiva para a questão “Deus existe?”, todas essas disciplinas dão pistas sobre como nós respondemos às nossas mais profundas necessidades humanas.
Talvez não sejamos programados para acreditar em Deus ou em um poder sobrenatural, mas somos animais sociais com uma necessidade evolutiva de ficar conectado com o mundo e com os outros.
De repente, as religiões são apenas canais para permitir essas conexões.

14.010 – História da Guerrilha – Surgia um Revolucionário


guerrilha
O que levou uma série de grupos de esquerda, nacionalistas e revolucionários, a empreenderem insurreições armadas no Brasil? E o que levou milhares de jovens a aderirem a um projeto de transformação radical do país?
Como consequência da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a década de 1960 vai ser uma época de reconstrução das nações e das instituições de relações internacionais. O fim deste conflito ocorreu com o avanço das tropas aliadas, capitaneadas pelos Estados Unidos, e das forças nacionais ou de resistência ligadas à União Soviética. Ambas se dirigiram para a Alemanha a fim de derrotar o nazismo e seus aliados fascistas. Berlim foi simbolicamente colocada no centro do encontro dessas grandes forças vencedoras, iniciando o período histórico conhecido como Guerra Fria. A Europa, então, se dividiu entre a parte ocidental – sob a hegemonia do bloco que defendia “a democracia e a liberdade” – e a oriental – “socialista”.
O termo Guerra Fria descreve bem aquele momento: oposição entre os dois blocos, mas sem ações militares diretas. Combates armados ocorriam somente em contextos locais ou nacionais. No imaginário das democracias liberais do ocidente, o inimigo encontrava-se dentro de seus territórios, alimentado pela denominada subversão comunista. A repressão aos movimentos revolucionários tornou-se prática constante nos países ocidentais, enquanto nos socialistas impunha-se o apoio ideológico e logístico às ações que visavam derrubar o regime capitalista.
Foi nas décadas de 1950 e 1960 que eclodiram golpes militares interrompendo projetos de reformas nacional-estatistas, como ocorreu com a derrubada de governos eleitos na Argentina (Perón, em 1955), Bolívia (Paz Entessoro,em 1964) e Brasil (João Goulart, em 1964), todos apoiados pelos norte-americanos sob a justificativa de bloquear a expansão do perigo comunista. Os países alinhados ao bloco capitalista substituíram as declarações de estados de exceção por ideologias de segurança nacional. Não bastava, como em momentos anteriores, incluir aspectos autoritários no ordenamento jurídico e na política das repúblicas liberais. Tratava-se, a partir de então, de instituir ditaduras com a justificativa de proteger a Nação contra seus inimigos, que encontravam-se no interior do país e eram constituídos pelos próprios cidadãos. No Brasil, a Doutrina de Segurança Nacional, política brasileira de caça aos inimigos internos, surge nas Forças Armadas a partir dos contatos com os militares norte-americanos, iniciado durante as ações da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra. Sua elaboração e divulgação como discurso ideológico ficaram sob o comando da Escola Superior de Guerra (ESG), a instituição que mais formou militares para os principais postos de comando da ditadura. Antes do golpe de 1964, a ESG já fazia a ponte entre empresários e militares e a criação do Serviço Nacional de Informações (SNI), instituído em junho daquele ano. Assim fortalecia as estratégias de controle e repressão ao inimigo interno.
Em resposta à produção de ditaduras na América Latina, grupos de esquerda, em especial os partidos comunistas, passaram a debater sobre o melhor modo de continuar a luta política contra os regimes autoritários alinhados ao modelo político norte-americano. É quando um evento histórico tem forte impacto no imaginário daqueles grupos e de milhares de jovens: a Revolução Cubana, em 1959. Comandada pelo líder estudantil e popular Fidel Castro e pelo revolucionário itinerante argentino Che Guevara, o movimento vitorioso em Cuba instalou entre as esquerdas a discussão da alternativa da luta armada e da necessidade de organização do processo revolucionário.
Além da Revolução Cubana, os movimentos nacionalistas e de esquerda tomaram outros acontecimentos revolucionários como referência para a luta contra as ditaduras e pela revolução socialista na América Latina. Por exemplo, a conquista de independência da Argélia, em 1962, os movimentos anticolonialistas da África e do mundo árabe e a guerra do povo vietnamita contra a potência militar norte-americana.
Os anos 1950 foram tempos em que havia uma divisão forte na sociedade, um antagonismo crescente que iria estourar na década seguinte. De um lado, o Brasil vivia o otimismo de uma burguesia nacional, beneficiada pelos investimentos dos grandes países capitalistas, e de crescimento da classe operária e suas demandas por direitos. Do outro, espalhava-se pelas ruas a luta pela reforma agrária. Entre outros movimentos, surgiram as Ligas Camponesas em Pernambuco e ganhou força o Partido Comunista Brasileiro (PCB), especialmente no governo do presidente João Goulart.
Em 1964, com o apoio explícito do governo norte-americano e de parte de setores conservadores, como os partidos de direita e a Igreja Católica, além da grande imprensa, os militares associados a setores civis deram um golpe de estado derrubando João Goulart e encerrando os dezenove anos de democracia (1945-1964). A força da ideia de revolução era tamanha que mesmo o movimento golpista se autodenominou “revolucionário” [Ver RHBN nº 83]. O Ato Institucional nº 1, editado pelas Forças Armadas em 9 de abril de 1964, estabelece por decreto a relação entre o governo e a vontade da nação: “A revolução se distingue de outros movimentos armados pelo fato de que nela se traduz, não o interesse e a vontade de um grupo, mas o interesse e a vontade da Nação. A revolução vitoriosa se investe no exercício do Poder Constituinte. Este se manifesta pela eleição popular ou pela revolução. Esta é a forma mais expressiva e mais radical do Poder Constituinte. Assim, a revolução vitoriosa, como Poder Constituinte, se legitima por si mesma”.
À época já era clara a contradição entre o programa político dos partidos alinhados a Moscou, de cunho reformista – de conciliação com as burguesias nacionais e etapas democrático-capitalistas no caminho para a Revolução – e a prática dos militantes, envoltos na atmosfera revolucionária imediata. No Brasil, surgem novos agrupamentos políticos, alguns de origem marxista, outros nacionalistas, influenciados pelos ares da luta revolucionária. Diante do acirramento da repressão, que atingiria patamar inédito com a publicação do Ato Institucional nº 5, de 1968, ganha corpo a luta armada contra a ditadura.
O revolucionário comunista Carlos Marighella publica, em 1966, sua carta de rompimento com o PCB e dá o tom da opção pela luta armada: “Falta o impulso revolucionário, a consciência revolucionária, que é gerada pela luta. A saída do Brasil – a experiência atual está mostrando – só pode ser a luta armada, o caminho revolucionário, a preparação da insurreição armada do povo, com todas as consequências e implicações que daí resultarem”.
Construía-se, a partir dali, um “sujeito revolucionário”, cuja figura mais universal foi a de Che Guevara – representante daqueles que não aceitam viver sob a opressão de um regime autoritário ou diante de injustiças sociais. O que os fazia agir? O que os levou à luta armada, à revolução? Uma geração de jovens acreditou com todas as forças em um mundo igualitário e se dispôs, “com as consequências e implicações que daí resultarem”, a doar suas vidas por este imaginário. Enquanto os partidos queriam a tomada do Estado e a construção de outro regime político, o sujeito revolucionário não aceitava o papel que o mundo capitalista lhe propunha, e apostava na construção de outras formas de relação humana.
Consentir com o esquecimento dessas memórias leva à renúncia de valores que a ditadura se esforçou para destruir . O novo Estado de direito, cuja existência dependeu em boa parte daquela luta, ainda não fez o reconhecimento necessário.

14.009 – História – Catolicismo guerreiro no Brasil


igreja e guerrilha
Se Deus está do seu lado, que chances pode ter o inimigo? Esta lógica – que remete a populares versos musicais de igrejas brasileiras – marcou um importante episódio nos primórdios de nossa colonização. Quando os franceses tentaram instalar-se em terras brasileiras – na experiência conhecida como França Antártica (1555-1567) – deu-se início a uma guerra que ia muito além da disputa territorial [Ver RHBN nº 49].
No poema épico De Gestis Mendi de Saa (Dos feitos de Mem de Sá), o padre jesuíta José de Anchieta deixa claro o que estava em jogo: de um lado, o Deus, dos portugueses católicos; do outro, o Diabo, dos invasores calvinistas. Reproduzia-se, assim, o confronto entre Reforma e Contra-Reforma.
Nos três primeiros livros do De Gestis, há uma batalha incessante entre duas bandeiras: a divina, defendida pelo governador-geral Mem de Sá (1504 c.-1572), e a demoníaca, representada pelos índios pagãos. No quarto e último livro, mudam as bandeiras: de um lado, o Catolicismo; do outro, os protestantes.

(…) com o coração infeccionado pela heresia,

e com a mente opressa pelas trevas do erro,

não só todos se afastam do reto caminho da crença,

mas procuram perverter, assim dizem, com falsas doutrinas

os míseros povos índios, de todo ignorantes.
A guerra contra os franceses calvinistas é considerada justa não somente pelos tradicionais critérios políticos – os invasores apossaram-se de terras lusas – mas, sobretudo, porque durante o confronto foram anunciados os decretos do Concílio de Trento (1545-1563), importante medida da Igreja Católica em reação às heresias protestantes. A principal motivação tornou-se, portanto, uma questão de fé.
Nos versos em que descreve a morte de sete soldados franceses engolidos pelo fogo, Anchieta afirma que aqueles homens infelizes já começavam a sentir as chamas do inferno “em que os ímpios corações, manchados pela heresia, sofrerão o eterno castigo que seus crimes merecem”. Ao escolher o plural para o substantivo “crime”, Anchieta amplia o foco da guerra justa: o que estava em jogo não era apenas o caráter político de invasão do território, mas o direito de combater em nome de Deus. Entre as duas bandeiras dessa guerra, apenas uma carregava a verdadeira fé cristã, aquela que segue os dogmas reafirmados da Igreja Católica, lutando por Deus e com o apoio Dele: “Com a ajuda divina, em vão as balas cortam os ares:/ antes, a pólvora explode no paiol inimigo”.
O Concílio de Trento reafirma os dogmas da Igreja Católica como verdade religiosa indiscutível para todos os cristãos, incluindo o rito sagrado do Sacramento, instituído por Jesus Cristo para dar, confirmar ou aumentar a graça do fiel. O herói Mem de Sá, seguido por seus soldados, pratica o sacramento da penitência antes de partir para a guerra contra os franceses calvinistas, como indica o poema: “Então purifica sua alma/ das culpas e a fortifica com as armas de Cristo,/ caindo de joelhos aos pés do ministro sagrado”. Ao colocar em evidência esse rito, Anchieta não somente traduz em versos as determinações do Concílio de Trento como também sugere que, por não o praticarem, os franceses heréticos estavam fadados à derrota: “Ele incutirá forças e ajudará compassivo/ a causa do justo e do fiel (…)/ abaterá e esmagará o inimigo, castigando co´a morte/ corações ímpios, vazios de fé verdadeira”.
Mem de Sá ajoelha-se aos pés do ministro sagrado – um jesuíta da Companhia de Jesus – e quando o exército luso encontra-se na iminência de uma grande derrota, apela à intervenção divina, lançando aos céus palavras em prece: “Estende a mão bondosa e sinta teu furor justiceiro/ a raça inimiga”. Mem de Sá pede intervenção divina, não pela injustiça política praticada pelos franceses, mas porque eles são praticantes do crime “feio da heresia”, pois insultam soldados “cristãos” e “fiéis”.
O governador-geral não estava sozinho em suas preces. Os jesuítas e os povos fiéis o acompanhavam em oração. Aliavam-se, assim, com a ideia da Igreja de Roma como indispensável mediadora entre Deus e os homens. Para os protestantes, a Igreja ficava em segundo plano, bastando a fé em Deus e a livre interpretação da Bíblia para que se atingisse a salvação.
Os portugueses sentiam-se favorecidos pela intervenção divina. Acometidos de pavor inexplicável, os franceses fogem do forte Coligny, na Ilha de Villegagnon. “tão firme e tão seguro pela arte da guerra (…) tamanho era o terror que o Senhor Deus onipotente lhes metera nas mentes e corações apavorados”. Ao invadirem o local, os portugueses “fincam logo a cruz vencedora no cimo do forte e aclamam o nome santo de Cristo”. Na ação narrada por Anchieta, o “ministro alado de Deus” simboliza um anjo real que, em forma de guerreiro, alia-se ao exército para levá-lo à vitória contra os falsos cristãos.
A tomada do forte é militar. O produto da guerra é teológico. Dessa batalha entre Deus e o Diabo, os protestantes saíram derrotados por defenderem a bandeira “errada”. Pregavam uma doutrina cheia de “impiedades e erros” porque se afastaram da verdadeira e correta interpretação que a Igreja de Roma faz das Escrituras Sagradas. Os adjetivos usados contra Martinho Lutero sugerem que agira sob inspiração demoníaca ou corrompido por ela. “Enraivado”, ou seja, movido por forte paixão, cega-se diante da verdade e profere blasfêmias contra o representante de Cristo na terra e contra a própria Igreja, insultando o divino, aquilo que é sagrado.
Sobre Calvino, Anchieta iguala-o ao demônio: “a fera que os abismos do inferno há pouco arrotaram de suas vasas profundas”. Nos versos do poema épico, o reformista francês é dragão e serpente de movimentos sinuosos, de caráter pouco reto, que “abraça no rolo de suas espirais o forte” – ou seja, transforma-o no próprio inferno. “Calvino vencer a Cristo,/ Senhor do céu e da terra?”, eis uma hipótese absurda. A morte na cruz significara a vitória sobre o “dragão que habitava as cavernas do inferno”, abrindo para os católicos a possibilidade da salvação, o mesmo não ocorrendo para os protestantes.
De posse do forte, os portugueses erguem um altar e o sacerdote, na veste sagrada, celebra o banquete augusto do pão sacrossanto, que jamais fora ali celebrado, diz Anchieta, pois “a geração de Calvino rejeita com impiedade o alimento celeste, nem crê que as espécies de pão encerram a Cristo”.
Se Deus estava com eles, que chances teriam os inimigos? As circunstâncias históricas, naquele caso, sorriram à fé católica e aos dogmas da Contra-Reforma. Embora, nas guerras em nome de Deus, ninguém possa dizer quem tem razão.

14.008 – História da Guerrilha – Guerrilheiros de primeira viagem


historia da guerrilha
Mesmo sob censura, deu no jornal: sete homens presos no alto da serra do Caparaó portando armamentos e manifestos contra o governo. Era abril de 1967, e foi a primeira vez, desde o golpe civil-militar, que um movimento armado ganhou ampla repercussão na imprensa.
O grupo preso era formado por militares de baixa patente que haviam participado de movimentos reivindicatórios antes de 1964. Inicialmente, o governo procurou minimizar a importância dos acontecimentos, afirmando que a prisão “não afeta a segurança nacional nem revela um caráter perigoso” e que o “Exército considera ridículo que apenas oito façam guerrilha”, como registra o Jornal do Brasil nos dias 4 e 5 de abril daquele ano. Dias depois, começaram a surgir informações contrárias na mesma publicação. Declarações como a de que o Exército “está aos poucos fechando o cerco sobre os possíveis guerrilheiros” e que eles “foram vistos armados de metralhadoras, entre São João da Pedra Menina, na divisa dos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro” aparecem na edição do dia 8 no JB.
O fato de aparecerem notícias de que havia um grupo armado em luta contra o regime, ainda que não se soubesse o número de pessoas envolvidas, representou um sopro de esperança para as diversas correntes que aspiravam por ações efetivas contra a ditatura. Quem eram, afinal, os guerrilheiros dos quais tanto se falava naquele abril de 1967? O que eles queriam? Representavam eles, como estampava a revista O Cruzeiro em 15 de abril de 1967, “uma vasta organização de guerrilhas [que] está minando aquele Estado [Minas Gerais] e, possivelmente, outras regiões do país”?
As respostas a essas indagações remetem a períodos anteriores ao golpe, no tempo de radicalização das lutas políticas no governo João Goulart (1961-1964). Além de ex-militares, a maior parte dos presos pela participação na guerrilha do Caparaó tinha em comum a passagem pelo movimento liderado por Leonel Brizola, a Cadeia da Legalidade, que garantiu a Goulart assumir a presidência em 1961 – ainda que com os poderes restritos pela implantação do regime parlamentarista. Eram sargentos e marinheiros que haviam ajudado no planejamento de uma possível guerra civil envolvendo os defensores de Goulart e os militares golpistas. Ao mesmo tempo, eles já participavam ativamente da clandestina Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFN) e do Clube dos Subtenentes e Sargentos do Exército. Reivindicavam melhorias salariais, relações respeitosas por parte dos oficiais, direito ao casamento e ao exercício de cargos legislativos. Aproximaram-se ainda dos setores sindicais em suas reivindicações pela criação de uma Central Geral dos Trabalhadores, bem como de ações anti imperialistas, contrárias às empresas multinacionais e aos Estados Unidos.
A politização dos subalternos das Forças Armadas ganhou projeção até colocar em risco, na visão dos oficiais, a quebra da hierarquia militar. Quando se consumou o golpe de 1º de abril de 1964, centenas de militares foram presos ou expulsos de suas corporações. Muitos deles, após cumprir pena nos presídios militares, foram buscar apoio de Leonel Brizola, que estava exilado no Uruguai. Brizola procurava organizar um movimento de oposição ao regime ditatorial e acreditava poder repetir a experiência que havia garantido a posse de Goulart em 1961. Em Montevidéu, uniu-se a militantes exilados de diversas tendências de esquerda, como Avelino Capitani, Amadeu Felipe de Luz Ferreira e Jelcy Rodrigues. Nascia, sob a sua liderança, o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), sigla que comandou a organização da guerrilha do Caparaó.
Os militantes sofreram forte influência da Revolução Cubana (1959), iniciada por um pequeno núcleo de combatentes liderados por Fidel Castro e Che Guevara [ver Infográfico, pág. 30]. Instalado a princípio na Sierra Maestra, aos poucos o grupo expandiu suas forças até derrubar a ditadura do general Fulgêncio Batista (1901-1973). Esse processo, então batizado de foquismo, passou a ser apregoado pelos revolucionários cubanos como válido para toda a América Latina. Quatro militantes do MNR haviam feito treinamento militar em Cuba. O próprio Brizola aderiu ao carisma dos dirigentes cubanos e à estratégia de luta armada. Dessa aproximação vieram recursos financeiros para a guerrilha que estava sendo organizada no Brasil.
A primeira tentativa de luta armada se deu no início de 1966, no Rio Grande do Sul, organizada pelo mesmo grupo comandado por Brizola. Foi alugada uma casa em Porto Alegre para guardar armas e materiais, enquanto se arregimentava o contingente de homens necessários. Três militantes fixaram residência no local para manter a fachada de normalidade. Dois outros foram enviados para fazer contatos no Rio de Janeiro com antigos participantes do movimento dos sargentos e marinheiros. Ao mesmo tempo, membros do MNR arregimentavam militares de quartéis da própria região porto-alegrense, entre os que haviam participado do movimento legalista de 1961. Os planos foram descobertos pela polícia depois da prisão de um militante.
O plano de guerrilha transferiu-se, então, para a serra do Caparaó, por sua localização estratégica entre Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Com apoio de Brizola, militantes do MNR começaram a chegar à região em novembro de 1966, instalando-se como criadores de cabra em um sítio da família de um deles. Quando o contingente de recrutados aumentou, subiram para o pico da serra para não serem vistos pela população. Os primeiros meses foram utilizados para transportar e estocar armas e alimentos. O grupo possuía fuzis, metralhadoras, dinamite e munição, ainda que não fossem equipamentos modernos.
Não tinham a pretensão de derrubar a ditadura militar sozinhos. Baseando-se na teoria do foco guerrilheiro, acreditavam que conseguiriam resistir ao cerco do Exército até a eclosão de outros movimentos de guerrilha e a intensificação da oposição nas cidades. Antes mesmo do início da luta, porém, diversos problemas já haviam derrotado esse projeto de luta armada. A começar pelo clima, com muita chuva, frio e umidade durante quase todo o ano. Havia também o problema do estoque de comida, que foi infectado por ratos e levou alguns militantes a contraírem peste bubônica. Depois de vários meses, alguns membros do grupo questionaram se tinham realmente capacidade política e militar de continuar com a ação. As deserções iniciaram-se em março de 1967.
A população já vinha relatando à polícia a presença dos guerrilheiros. Os policiais observavam a movimentação à distância e, em 24 de março, prenderam dois militantes que haviam abandonado o grupo. No dia 29, um terceiro foi preso ao tentar descer até a cidade para comprar medicamentos. Ao descobrirem a origem e o objetivo da ação, os policiais mineiros subiram a serra e chegaram ao pico na manhã do dia 1º de abril de 1967. Encontraram os guerrilheiros dormindo. Não houve troca de tiros. Nos dias seguintes, outros membros do grupo foram presos nas cidades vizinhas tentando subir a serra para se juntar aos companheiros. Chegava ao fim, sem se concretizar, a primeira tentativa de luta armada contra a ditadura militar.
Os eventos do Caparaó coincidiram com o surgimento da guerrilha na Bolívia – liderada por Che Guevara, conforme se descobriria depois – que recebia ampla cobertura da imprensa brasileira. Talvez essa coincidência tenha levado o Exército ao duplo discurso registrado pela imprensa: inicialmente, minimizar a importância da guerrilha no Brasil, evitando a expansão de sua influência para outras áreas do país e, depois, sobrevalorizar os seus efetivos, para justificar a repressão oficial.
Os participantes da guerrilha do Caparaó não consideraram a experiência uma derrota para o projeto da luta armada, afinal cumpriram um papel importante: denunciaram ao país que havia uma ditadura liderada por militares e que setores da sociedade estavam dispostos a pegar em armas para derrubá-la.

14.007 – História – Barbárie contra a Revolução


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O sonho de liberdade tinha um horizonte bem demarcado para se concretizar. Era na Amazônia – na tríplice fronteira entre Pará, Maranhão e Goiás (atualmente Tocantins) – que dezenas de jovens e militantes de esquerda, vindos dos grandes centros urbanos, esperavam ver surgir a Revolução Socialista no Brasil. Para isso, estavam dispostos a pegar em armas para lutar por ela.
Em meados dos anos 1960, o contexto não poderia ser pior para esse idealismo transformado em guerrilha. Sob a ditadura militar desde 1964 e com todos os canais democráticos de expressão fechados (imprensa censurada, manifestações e greves proibidas), a perseguição do Estado aos opositores do regime era efetivada por meio de prisões, torturas e assassinatos de militantes e operários, estudantes, camponeses e religiosos acusados de subversão, comunismo ou incitação à desordem. A Guerrilha do Araguaia (1972-1974) foi mais um capítulo desse tenebroso período.
Todos os envolvidos eram militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) fundado em 1962 a partir de uma cisão no Partido Comunista Brasileiro (PCB) e defensor de uma revolução imediata, pela via da luta armada, se fosse necessário. A partir de 1966, o PCdoB passou a enviar para o Araguaia jovens militantes das cidades. Eles tinham que aprender a viver como os camponeses, conhecer profundamente seu modo de vida e a região, além de criar laços de amizade e solidariedade com os moradores. Era fundamental, nessa estratégia, que conseguissem envolver os camponeses na luta armada. Eles comporiam a força do exército popular de libertação que o partido pretendia organizar.
Durante cerca de seis anos, os militantes circularam livremente e puderam organizar a estrutura militar da guerrilha: criaram três destacamentos e uma Comissão Militar – órgão dirigente da luta no campo –, além de diversos pontos de apoio onde estocavam alimentos, remédios e munição. Produziam croquis identificando locais onde poderiam acampar e abriram trilhas longe dos caminhos normais de passagem. Ao todo, 69 militantes do PCdoB se deslocaram para o Araguaia. Mas os planos do Partido eram muito maiores. A ideia era organizar outros destacamentos militares, criar pontos de apoio e recrutar camponeses para a formação de um Exército.
A presença de “gente estranha” na área já era de conhecimento do governo, ao menos, desde 1971. Em princípio, cogitou-se que fossem contrabandistas, “terroristas” procurados nas cidades ou até mesmo um grupo de hippies. E foi sem saber ao certo com quem lidava que o Exército organizou sua primeira campanha contra a Guerrilha do Araguaia. No dia 12 de abril de 1972, entrando por São Domingos do Araguaia, no Pará, cerca de 20 militares atacaram o “peazão”, principal Ponto de Apoio (PA) do destacamento A da guerrilha, mas não conseguiram prender ninguém nessa primeira investida pois uma parte do material foi retirada antes do ataque. Também na segunda campanha, em setembro e outubro de 1972, as Forças Armadas não tiveram sucesso. Nem poderiam: não tinham dados precisos sobre o inimigo que estavam enfrentando, não sabiam sua localização, o número real de combatentes e não tinham certeza da identidade de muitos deles. Imaginava-se até que Carlos Marighella, morto em 1969, estivesse na área.
Os fracassos iniciais do Exército motivaram ainda mais guerrilheiros, como Maurício Grabois (1912-1973), um dos fundadores do PCdoB e comandante da guerrilha, que em seu diário comemorou o acerto da estratégia no Araguaia. Enquanto isso, entre os militares, ficava evidente a necessidade de mudanças. Até então utilizavam, por exemplo, tropas de soldados fardados, muitos deles inexperientes e recrutados na própria região.
Após um ano de tentativas frustradas de eliminar os guerrilheiros, os militares iniciaram um longo trabalho de inteligência, que visava colher o maior número possível de informações antes do próximo ataque. Para a última e decisiva campanha repressiva, houve a participação da “comunidade de informações”: militares andavam descaracterizados, deixavam a barba e o cabelo crescer e circulavam disfarçados pela área – passavam-se por técnicos agrícolas, funcionários de órgãos estatais e comerciantes. Com essa “cobertura”, misturavam-se e colhiam informações junto aos moradores locais.
Outra forma recorrente de colher informações era prendendo e torturando camponeses – muitos dos quais ainda estão “desaparecidos”. Em outubro de 1973, às vésperas dos ataques finais à guerrilha, o Exército promoveu um “arrastão” e prendeu aproximadamente 300 pessoas. Alguns foram colocados em valas de três metros nas bases militares, que foram fechadas com grades de ferro. Era o “buraco do Vietnã”, uma forma de tortura que pode ter sido usada em outras áreas rurais além do Araguaia. Consistia em um buraco com uma grade de ferro por cima, onde o preso era colocado junto com animais rasteiros – como insetos (formigas, aranhas, besouros) e animais não peçonhentos, como o calango – e ali permanecia por dias, tomando sol e chuva. Sua alimentação e suas necessidades fisiológicas eram realizadas ali.
A terceira campanha militar contra a guerrilha foi um cenário de intensa brutalidade por parte do Exército. É dessa fase a maior parte dos relatos de camponeses sobre as torturas e prisões que sofreram. A violência servia não apenas para conseguir informações junto aos camponeses, mas também para intimidá-los, para que não colaborassem de nenhuma forma com os guerrilheiros. Além dos ataques físicos e psicológicos, o Exército minou seus meios de vida. Para matar a guerrilha de fome, queimava roças e alimentos estocados nos paióis, impedia o plantio e a colheita. Muitos camponeses, sem ter como sobreviver, deixaram a região. Alguns retornaram mais tarde e descobriram que suas antigas posses haviam se tornado parte de grandes fazendas.
Alguns moradores foram recrutados como guias do Exército: iam à frente, guiando os militares pela mata. Não era possível recusar-se a realizar essa atividade sem sofrer consequências. Muitos desses guias foram presos e torturados para aceitar a função.
O ataque decisivo ocorreu no Natal de 1973. É lembrado entre os militares como o “chafurdo de Natal”. Tratou-se de uma execução, pois os guerrilheiros já não ofereciam condições de resistência, não havia mais destacamentos, comissão militar ou pontos de apoio. Os poucos guerrilheiros ainda vivos tentavam se esconder na selva, maltrapilhos, sem alimentos e doentes. Em fevereiro de 1974, os militares estimavam que houvesse restado cerca de 20 guerrilheiros nessas condições, e eles foram caçados ao longo de todo o ano.
A ordem era para que não houvesse sobreviventes. Alguns guerrilheiros foram vistos presos nas bases militares e hoje integram as listas de “desaparecidos”, outros foram degolados.
Um dos guerrilheiros, em especial, alimentou diversas lendas: Osvaldão. Primeiro a chegar à região, o mineiro de Passa-quatro destoava de todos: negro, medindo 1,98m de altura, estudara engenharia na Tchecoslováquia e fora campeão de box amador pelo Fluminense. Tratava-se de um militante do PCdoB altamente treinado, comandante do destacamento A e um dos que mais aprofundaram os laços de amizade com os moradores locais. Os camponeses diziam que Osvaldão tinha o corpo fechado. Conta-se que uma patrulha do Exército o localizara numa casa e que a metralhara de modo a garantir a morte de quem estivesse lá dentro. Ao entrarem, viram apenas uma sombra no chão, mas nenhum corpo.
Osvaldão foi assassinado ao ser surpreendido descansando num barranco. Segundo a lenda local, só foi possível matá-lo porque o guia dos militares na ocasião era um conhecido macumbeiro da região, Arlindo Piauí, que teria retirado a proteção mágica de Osvaldão. Cientes das crenças populares em torno do guerrilheiro, os militares resolveram desfazer o mito: amarraram seu corpo e sobrevoaram a cidade de Xambioá para que os moradores vissem que estava morto.
Estima-se que, nas três campanhas na região, o Exército tenha empregado cerca de 10 mil homens para reprimir a Guerrilha do Araguaia. Passados mais de 40 anos, ainda é um episódio que movimenta a sociedade na luta por esclarecimentos e pela responsabilização do Estado pelos crimes cometidos.

14.006 – História – Fuga pela Revolução


Lamarca
Dezenove guerrilheiros dispostos a enfrentar a ditadura. Um campo de treinamento secreto. Cercos armados por policiais locais, PMs e homens do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Durante dois meses no começo de 1970, o Vale do Ribeira, interior paulista, foi cenário de perseguições, emboscadas, fugas, tiroteios, prisões, torturas e uma execução – até hoje presentes na memória dos moradores.
Comandados pelo capitão Carlos Lamarca (1937-1971), os homens que arriscaram suas vidas naquela região acreditavam que a revolução começaria pelo campo. Segundo eles, os trabalhadores rurais eram os mais explorados pelo sistema capitalista e os mais reprimidos em suas lutas sociais. Era preciso, então, organizar a guerrilha rural. Foi com esse objetivo que a organização Vanguarda Revolucionária Popular (VPR) deslocou-se para o Vale do Ribeira. O plano se resumia em treinar guerrilheiros. A efetiva implantação das guerrilhas rurais se daria em outros locais. Mas a descoberta da área pelas forças de repressão forçou um confronto real, e o campo de treinamento virou campo de combate, colocando à prova o objetivo que buscavam.
Participavam do treinamento três ex-militares e 16 civis. A maioria era formada por jovens militantes da VPR, vindos do movimento estudantil de São Paulo, do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. O sítio comprado ficava próximo à cidade de Jacupiranga, e inicialmente alguns militantes viveram lá se passando por lavradores, a partir do final de 1969. Organizaram-se em dois grupos: a base Carlos Roberto Zanirato e a base Eremias Delizoikov, que formavam o núcleo Carlos Marighella. Os nomes das bases e do núcleo homenageavam militantes mortos pela repressão.
A rotina era rígida, com marchas de 18 quilômetros por dia carregando mochilas de 30 quilos, exercícios de tiro, de manejo e conservação das armas. A disciplina exigia um guerrilheiro sempre pronto para o combate. Também organizaram grupos de estudo. Liam e discutiam documentos da organização e livros de autores diversos, como Karl Marx, Paul Sweezy, Adolfo Sanches, Josué de Castro, Isaac Deutscher, Che Guevara e Ernest Hemingway, além de manuais e guias de sobrevivência.
Em fevereiro de 1970, causou apreensão entre os guerrilheiros a notícia de um acidente de automóvel envolvendo o militante Mario Japa, codinome de Chizuo Osawa, que acabou preso com armas e documentos da VPR. Todos sabiam que ele estava sendo torturado na Operação Bandeirante (Oban) – um centro de informação, investigação e tortura montado pelo Exército em 1969, com o envolvimento de empresários brasileiros e até de multinacionais.
A solução encontrada pela VPR foi promover um sequestro para livrar Mario Japa da prisão. Um comando da Vanguarda juntou-se aos militantes da organização Rede Democrática (Rede) e do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), e sequestrou o cônsul japonês em São Paulo, Nobuo Okuchi. Aproveitaram para pedir também a libertação de mais quatro militantes e três crianças – filhos da prisioneira Damáris Lucena, que também era mãe de Ariston Lucena, um dos que estavam no Vale. Embora o sequestro tenha sido bem-sucedido, o cerco se apertava. Outras prisões se sucederam até que, em 17 de abril, o Centro de Informações do Exército (CIE) comunicou ao II Exército a existência do campo de treinamento de guerrilha no Vale do Ribeira.
A movimentação policial na região logo foi percebida por Lamarca, que avisou seus comandados. Do posto de vigia, acompanharam a chegada de caminhões com tropas, aviões e helicópteros fazendo voos rasantes. Antes do final de abril, já estavam completamente cercados, com todas as saídas fechadas. Decidiram não romper o cerco, pois possuíam bons mapas e conheciam bem a região. Enveredaram-se pelo mato.
Na pequena cidade de Barra do Areado, apresentaram-se à população como caçadores e alugaram um caminhão para ir até Eldorado Paulista. No entanto, foram denunciados pelo filho do dono do veículo alugado e enfrentaram um tiroteio em plena praça de Eldorado. Mesmo com um dos militantes feridos, conseguiram fugir em direção a Sete Barras. Ao chegarem às proximidades do rio Ribeira de Iguape, foram surpreendidos por um pelotão com 38 soldados. Da carroceria do caminhão, os guerrilheiros iniciaram um tiroteio contra o caminhão dos soldados da Polícia Militar, e com uma rajada de metralhadora FAL partiram o veículo dos militares em dois. Assim capturaram 18 prisioneiros, dez deles feridos.
Lamarca pediu para falar com o comandante, e propôs um acordo ao tenente Alberto Mendes Junior: aos guerrilheiros caberia cuidar dos feridos e não executar ninguém. Em contrapartida, o tenente deveria levantar o bloqueio em Sete Barras. Mendes, perante a sua tropa, compromete-se a cumprir os termos da rendição.
Os feridos foram levados para um hospital em Sete Barras e, segundo depoimentos dos soldados nos processos, mostravam-se surpresos por estarem sendo tratados com respeito. Esperavam ser fuzilados e eram socorridos, os guerrilheiros explicavam a sua luta, diziam que nada tinham contra soldados que apenas obedeciam ordens.
O tenente acompanhou os feridos e dois guerrilheiros num carro, que acabou atolando. Os guerrilheiros então deixaram os feridos com o tenente e saíram em busca de ajuda. Como não conseguiram meios para prosseguir, voltaram para a estrada, encontrando o tenente voltando do local onde o haviam deixado. Os feridos haviam sido levados por outro veículo que viera pela estrada. O tenente voltou por conta própria e garantiu que não havia bloqueio em Sete Barras. Os guerrilheiros prosseguiram na caminhada e colocaram o tenente na frente da fila indiana, alertando: “se houvesse emboscada, ele seria o primeiro a tombar.” Na entrada da cidade, porém, viram-se cercados por todos os lados. O grupo conseguiu escapar por um braço da serra, mas dois companheiros se perderam. Na confusão, aconteceu um episódio de fogo amigo: julgando saber a posição dos oponentes, soldados da Polícia Militar abriram fogo, ao que o Exército respondeu na mesma medida, dando-se então um tiroteio entre as forças da repressão.
Depois da emboscada, restavam apenas cinco guerrilheiros, que se revezavam para vigiar o tenente Mendes, levado como refém. O oficial foi julgado culpado por um tribunal revolucionário, sob a acusação de traição por ter rompido o acordo e tê-los encaminhado para uma emboscada. A decisão final foi tomada por Lamarca, Yoshitane Fugimori e Diogénes Sobrosa de Souza. Havia também o receio de que o militar denunciasse a posição do grupo. O tenente Alberto Mendes Junior foi então executado e enterrado. O tenente foi executado a coronhadas por Fugimori e Sobrosa.
Fugindo debaixo de chuva, Lamarca resolveu permanecer dentro do cerco tático. Faminto, o grupo chegou a pedir que um casal comprasse comida para eles, mas o homem foi preso e torturado pelos militares, revelando informações sobre os guerrilheiros. Decidiram, então, não mais fazer contato com as pessoas. No final de maio, conseguiram tomar um caminhão do Exército, prendendo os soldados e o sargento na carroceria. Vestidos com as roupas dos militares e de posse da senha por eles informada, passaram pela barreira da polícia e, enfim, conseguiram fugir para a capital paulista.
O conhecimento do capitão Lamarca sobre o tipo de movimentação militar empregada foi fundamental para romperem o cerco. Segundo Ariston Lucena, parte do êxito da fuga deveu-se também a Fugimori, que era um excelente mateiro e ótimo atirador, assim como Lamarca. Essas virtudes e a capacidade de fuga dos militantes povoam até hoje a memória de antigos moradores. Há até quem diga que Lamarca não morreu e que ainda pode estar por lá, em algum canto da mata.
A experiência do Vale do Ribeira reforçou a confiança dos guerrilheiros na viabilidade da luta no campo. Aqueles meses haviam mostrado a importância do empenho dos combatentes e do conhecimento local. Um pequeno grupo bem treinado “vencera” um grande contingente de soldados despreparados e no geral pouco dispostos a arriscar a vida para perseguir um grupo de guerrilheiros.
Antes das derrotas definitivas, a esquerda armada ainda sonhava alto.

14.005 – História da Aviação Comercial


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Varig, Cruzeiro do Sul, Vasp, Panair, Transbrasil… Outrora sólidas, hoje essas empresas não mais existem. Em tempos de Gol, Azul e TAM, é o caso de se pensar: por que a aviação comercial brasileira é um setor tão instável?
A origem dos investimentos na área está ligada à Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Terminado o conflito, fabricantes norte-americanos e alemães de material aeronáutico travaram acirrada competição pela conquista de mercados no exterior. Na Alemanha, o Condor Syndikat foi criado com esta finalidade. Esse consórcio foi o responsável pela fundação, em 7 de maio de 1927, da Viação Aérea Riograndense (Varig) e, em dezembro, no Rio de Janeiro, do Sindicato Condor Ltda. A Varig inaugurou a primeira linha regular Porto Alegre-Pelotas-Rio Grande utilizando um hidroavião alemão Dornier-Wal, chamado Atlântico.ACondor também começou a operar com um Dornier-Wal para dez passageiros e, além dele, contava com um hidroavião Junkers G-24para oito passageiros, na rota Porto Alegre-Rio de Janeiro, com escalas em Laguna, Florianópolis, São Francisco, Paranaguá (PR) e Santos. No ano seguinte, a Condor já ligava Natal a Porto Alegre em três dias, com escalas em diversas capitais e cidades importantes do litoral.
As duas empresas nasceram com os mesmos interesses, mas Otto Meyer, o fundador da Varig, insistia em construir uma companhia independente, sem vínculo com a Condor, que desde o início queria incorporar a Varig. Nascido Ernst Otto Meyer Labastille (1897-1966), ele havia integrado a Força Aérea Alemã durante a Primeira Guerra e, atuando como observador, viera ao Brasil no final do conflito, estabelecendo-se em Porto Alegre em 1923. Desde o início, conseguiu boas relações com a elite política local, inclusive com Alberto Bins (que seria prefeito entre 1928 e 1937), tendo também obtido o apoio do governo do estado, principalmente através de Osvaldo Aranha.
Em sua ascensão política, o gaúcho Getúlio Vargas pegou carona na expansão da indústria aérea. Em 29 de março de 1929, viajou naquele mesmo Atlântico que realizara o primeiro voo comercial no Brasil, a essa altura pertencente a Condor. No final do mesmo ano, quando foi ao Rio de Janeiro para ler sua plataforma de candidato a presidente, também usou o avião como meio de transporte. No final da tarde, ao sobrevoar o centro da então capital federal, o Atlântico provocou tumulto na cidade: uma multidão deslumbrada correu para a Praça Mauá para assistir ao desembarque de Vargas.
Empossado na Presidência no ano seguinte, por meio de uma revolução, Vargas pretendia se aproveitar da disputa entre Estados Unidos e Alemanha para atrair mais investimentos para o transporte aéreo brasileiro. Durante seu governo foram criados o Departamento de Aviação Civil (1931), o Código Brasileiro de Aeronáutica, o Correio Aéreo Militar, o Ministério da Aeronáutica (1941), e assinados importantes tratados, como havia sido preconizado pela Conferência de Chicago, em 1944, que estabeleceu princípios normativos para a Aviação Civil Internacional do pós-guerra.
A eclosão da Segunda Guerra Mundial mudou todo o cenário. A vigilância dos países aliados no Atlântico Sul resultou em recuo comercial imediato da Alemanha. As companhias brasileiras nascidas sob a influência germânica ficaram sem equipamentos e passaram a comprar dos norte-americanos. O país viveu então um período de criação de muitas empresas, que utilizavam aviões da “sobra de guerra”, vendidos a preços irrisórios pelos norte-americanos. Algumas nem chegaram a operar. O excesso de concorrência causou falências, mas gerou o efeito benéfico da exploração de novas linhas que visavam alcançar destinos não cobertos pelas empresas mais antigas. Foi assim que diversas cidades do interior passaram a receber voos regulares.
À expansão seguiu-se uma retração, pois nem mesmo as subvenções do governo impediram as empresas de suprimir escalas deficitárias. Mais de 100 rotas desapareceram e, das 350 cidades atendidas em 1957, restaram 260 três anos depois. O excesso de concorrência afetou também os níveis de segurança dos voos, o que provocou o aumento do número de acidentes–de 1957 a 1962 foram 12 acidentes com aviões comerciais no Brasil. O governo atendeu a um apelo das empresas e tentou auxiliar na recuperação do setor reajustando as tarifas – medida que aumentava o faturamento das empresas, mas afastava ainda mais os passageiros.
A partir de 1964, com os governos militares, estabeleceu-se uma nova política. As seis empresas aéreas que restaram foram reduzidas para cinco e depois para quatro, e implantou-se um sistema tarifário que acompanhava os índices de inflação. Entre as empresas que tiveram sua concessão cassada estava a Panair do Brasil – o que causou grande comoção na sociedade, pois a companhia era muito apreciada. A Panair deixou milhares de desempregados e suas rotas para a Europa passaram a pertencer à Varig, que manteve sua política de proximidade com o governo: criava rotas sempre que solicitada e foi favorecida ao se tornar, no mercado internacional, a única companhia brasileira voando.
Os militares investiram na criação de uma indústria aeronáutica. A Embraer foi fundadaem 1969, valendo-seda qualidade de técnicos e engenheiros aeronáuticos que vinham se formando pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) desde meados da década de 1950.
Os anos 1980 representaram um período crítico para a aviação em todo o mundo. A alta dos preços do petróleo e a recessão econômica causaram enormes prejuízos. A Vasp, a Transbrasil e a Varig não escaparam dessa onda, sofrendo também com a alta inflação interna. A equipe econômica do governo José Sarney (1985-1990), na tentativa de estancar o processo inflacionário, congelou os preços, os salários e a taxa de câmbio, medidas muito danosas para as empresas, que operavam abaixo dos custos.
Regulamentos que protegiam as empresas da competição externa foram alterados no governo Fernando Collor (1990-1992), situação que se agravou entre 1998 e 2002 pelas medidas liberalizantes do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso. Na Era Lula, essas diretrizes foram mantidas e não houve aprimoramento dos instrumentos de fiscalização e controle a fim de garantir o desenvolvimento da aviação comercial brasileira. Em 2001, após os atentados terroristas nos Estados Unidos, o setor aéreo sofreu uma acentuada retração: a procura por viagens internacionais despencou, justamente o mercado que a Varig dominava.
A pioneira rio-grandense, envolvida em sérios problemas de gestão administrativa, não conseguiu enfrentar o crescimento de suas novas concorrentes. Em 2003, perdeu a liderança dos voos domésticos para a TAM, uma empresa regional, e em seguida foi ultrapassada pela Gol Linhas Aéreas. A agonia das empresas continuava. Vasp e Transbrasil foram as primeiras a quebrar. Pouco depois, foi a vez da Varig: em meados de 2006, funcionários se mobilizaram para pedir ajuda ao governo. A empresa definhava e cancelava muitos voos. A postura adotada pelo governo Lula foi a de afirmar que não era papel do Estado salvar empresas privadas da falência. O desfecho, depois de muitos entraves jurídicos, foi o fechamento da empresa depois de 79 anos em operação. As dívidas e os encargos ficaram com a Fundação Ruben Berta, enquanto uma nova empresa, que detinha a marca, foi vendida em 28 de março de 2007 para a Gol, por US$ 320 milhões.
A mais nova empresa comercial nacional foi criada em 2008, chama-se Azul e vem crescendo rapidamente, utilizando aviões fabricados pela Embraer. Da parte do governo, continua faltando uma política aeronáutica que preserve o patrimônio e fortaleça o transporte aéreo, vital nos dias de hoje.

14.003 – Aeronautica – Os Balões abriram caminho para o avião


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A aviação faz parte da alma brasileira. O Brasil possui a segunda maior frota de aeronaves de asas fixas e de helicópteros do mundo. Neste segmento, tem ainda a terceira maior indústria de aeronaves do planeta, a Embraer.
No início do século XVIII, o padre paulista Bartolomeu Lourenço de Gusmão (1685-1724) descobriu o atalho que levaria ao triunfo do avião. Aliás, a primeira prova de invenção reconhecida como de um brasileiro é dele, por “fazer subir água a toda a distância e altura que se quiser levar”, como assinala o certificado de propriedade intelectual que lhe foi outorgado, em 23 de março de 1707, de um sistema de canalização de água potável instalado no seminário em que estudava, em Salvador, na Bahia.
Padre Gusmão radicou-se em Lisboa, onde se dedicou a estudos matemáticos na busca da equação que lhe indicasse que o homem poderia voar por meio de um engenho. Encontrou a resposta na forma do aeróstato. Então, construiu um pequeno balão de papel inflado com ar quente. Em 1709, perante a Corte, no Paço Real, usando uma vela acesa na base como força de propulsão, fez uma demonstração bem-sucedida do engenho. Dois meses depois, no interior do palácio, usou outro artefato semelhante, mas ainda incapaz de transportar uma pessoa. O balão ascendeu livremente. Ao atingir o teto da sala, precipitou-se na direção das janelas do palácio, onde se enroscou nas cortinas, provocando um incêndio e o alvoroço na nobreza presente. O rei D. João V considerou o invento perigoso demais e proibiu o seu desenvolvimento e novas demonstrações práticas. Quando, em 1783, os matemáticos franceses Joseph e Étienne Montgolfier deram vida ao projeto do padre brasileiro e tiveram sucesso em um voo de balão diante da Corte de Luís XVI, Portugal se deu conta da importância daquela inovação. Chegou a exigir o reconhecimento pela autoria do invento, mas em vão.
Desde então, os balões se desenvolveram e ganharam novas formas aerodinâmicas, inflados e impulsionados por hidrogênio. Em São Paulo, o filho de um rico produtor de café acompanhava com vivo interesse o progresso aeronáutico na Europa. Era Alberto Santos- Dumont (1873-1932), que desembarcaria em Paris em 1897 para fazer uma verdadeira revolução tecnológica nos céus da capital francesa. Financiador, construtor, operário e condutor de seus próprios engenhos voadores, desenvolveu novos modelos de balões e dirigíveis, concebeu avançados conceitos e componentes fundamentais à navegação aérea e arrebatou prêmios e homenagens por sua inventividade. Perseguindo a inovação, construiu um novo tipo de aeronave motorizada mais pesada que o ar. No dia 23 de outubro de 1906, realizou o primeiro voo com a aeronave que criara e batizara de 14-Bis.
A viscondessa de Santa-Victória, amiga do inventor, escreveu sobre esse momento histórico: “Nós escutamos a buzina barulhenta do carro de Henrique [irmão de Santos- Dumont] à nossa porta. Era hoje que Alberto finalmente experimentaria seu curioso invento. Saímos apressadamente em direção ao ‘Champ de Bagatelle’. Lá já existia enorme multidão esperando o grande momento. Fiquei acomodada no banco do ‘Peugeot’, onde podia observar melhor a movimentação. Meu filho Affonso trouxe algumas garrafas de champanhe para comemorarmos e minha nora Zaira preparava umas torradinhas com geleias, pois saímos de casa ainda em jejum. Instantes se passaram e a multidão começou a gritar espantada. O aeroplano de Alberto, agora motorizado a gasolina, começava a se mover sozinho sem ajuda de ninguém e em poucos minutos tomou velocidade, subindo logo em seguida. Meus olhos não acreditavam no que viam”.
Santos-Dumont confirmou a proeza no dia 12 de novembro, no mesmo local, ocasião em que o 14-Bis voou 220 metros, a 6 metros de altitude, em pouco menos de 22 segundos, com velocidade média de 37,4 km/h. No primeiro voo, percorrera 60 metros. Não se falou em outro assunto na Europa e no Brasil. As homenagens ao brasileiro voltaram a se suceder. Mas o clima festivo durou pouco. Ao tomar conhecimento do triunfo do brasileiro, nos Estados Unidos, os irmãos Orville e Wilbur Wright movimentaram-se em busca do que consideravam lhes pertencer por direito: o reconhecimento pela primazia do voo mecânico.
Os irmãos americanos tinham projetado e construído três modelos de planador. Requereram a respectiva patente e, após os primeiros testes de voo, criaram um sistema de controle sobre três eixos para facilitar as manobras dos planadores no ar. Usaram, inclusive, um túnel de vento (que já existia) para testar as asas. Em 1901, em Kitty Hawk, na Carolina do Norte, numa região litorânea com bons ventos para os testes, eles fizeram voar seu segundo planador, que teve desempenho pífio. No ano seguinte, construíram o terceiro modelo, com o qual alcançaram 152 metros em voo. Aperfeiçoado, nos voos seguintes cobriu 190 metros de distância.
Em seguida construíram o Flyer, no qual o piloto conduzia a aeronave deitado de bruços na asa inferior do lado oposto do motor para contrabalançar o peso. Para alçar voo, o aeroplano americano usava um carro mecânico lançador, acomodado sobre um monotrilho de madeira de 18,3 metros de comprimento para alavancar a decolagem, que subitamente parava ao fim da plataforma. Com o movimento de inércia e a força do motor, o Flyer se projetava no ar e prosseguia em voo. O primeiro teste foi desastroso. Na manhã de 17 de dezembro de 1903, o segundo voo, conduzido por Orville, percorreu 37 metros em 12 segundos. O último cobriu 260 metros em 59 segundos. Os salva-vidas de Kill Devil presenciaram os voos. Um deles, John Daniel, fotografou o teste.
O mérito de inventores do avião coube, portanto, aos irmãos Wright. No entanto, o pioneirismo pela decolagem autônoma, sem auxílio de elementos externos – procedimento que prevaleceu na aviação, em que a aeronave corre livremente numa pista, ganha velocidade e alça voo impulsionada por seus próprios motores – pertence a Santos-Dumont.
No Brasil, embora o reconhecimento oficial aos irmãos Wright fosse em geral contestado, também houve quem os defendesse. Em 1909, o almanaque humorístico O Malho publicou o artigo “A conquista do ar em 1908”, enaltecendo o trabalho dos dois aviadores americanos: “os Wright tiveram a calma inaudita de deixar que Santos-Dumont, Farman e Delagrange ganhassem fama universal de precursores da aviação, quando eles, desde 1905, já tinham construído o seu aparelho e feito voos maravilhosos. Continuaram a fazer experiências e a aperfeiçoar o aparelho secretamente, em silêncio, contentando-se em tirar fotografias e autenticá-las devidamente com as datas para reivindicarem mais tarde a prioridade”.
Sobre o sigilo das experiências que realizaram com o Flyer, outros inventores adotaram idêntico procedimento para seus experimentos. Santos-Dumont agiu assim. Em 1906, ao falar do 14-Bis, comentou: “A questão do aeroplano estava, havia já alguns anos, na ordem do dia; eu, porém, nunca tomava parte nas discussões, porque sempre acreditei que o inventor deve trabalhar em silêncio; as opiniões estranhas nunca produzem nada de bom”.
Em 1914, um tribunal de Justiça dos Estados Unidos considerou Orville e Wilbur Wright os primeiros a obterem sucesso com o avião, embora o processo não tenha se originado com essa finalidade, pois julgava a questão da propriedade intelectual do planador. Os brasileiros jamais aceitaram a primazia conferida aos americanos. Por aqui, até hoje, Alberto Santos-Dumont é considerado o “pai da aviação”.

14.002 – História da Aviação


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A atenção do caçador pré-histórico é distraída por uma grande águia que paira sobre a savana. De repente, em um mergulho certeiro, a águia captura a sua presa. Como seria mais fácil, pensa ele, se eu também pudesse me elevar e olhar o campo do alto. Ultrapassar rios e montanhas, chegar depressa a lugares distantes, lançar-me de lugares altos sobre a minha presa ou meus inimigos. Ah, se eu tivesse asas…
Praticamente todas as antigas mitologias se referem a um dos mais antigos e arraigados desejos humanos: voar. Concretizar este sonho levaria milênios. Os mais antigos e notórios esboços de máquinas voadoras surgiram no século XV, e, se chegaram até nós, foi pela fama de seu criador: Leonardo Da Vinci. O florentino concebeu desenhos de paraquedas e helicópteros, além de uma análise sobre o voo dos pássaros. O conhecimento de física de sua época, entretanto, ainda era insuficiente para materializar aquelas ideias.
Duas teorias surgidas no século XVII pavimentaram as conquistas que viriam. Galileo Galilei introduziu o conceito de inércia por volta de 1605, abrindo o caminho para que Newton pudesse formular suas três leis do movimento em 1687. E em 1644 o físico italiano Evangelista Torricelli demonstraria que o ar tinha peso. Começava a deixar de ser um mistério, por exemplo, o funcionamento das pipas, há séculos conhecidas dos chineses.
Nesse momento, o sonho de voar se bifurca em duas vertentes: construir um aparelho capaz de imitar o voo dos pássaros ou inventar um veículo leve, que flutue no ar como um navio flutua sobre a água?
O brasileiro Bartolomeu Lourenço de Gusmão inspirou-se nas fogueiras que observara na infância para construir balões de ar quente cujo funcionamento demonstrou à Corte portuguesa em 1709. Apesar de pouco divulgada, a experiência foi precursora de todos os balões construídos depois. No ano de 1783, outros pioneiros voaram alto. Os irmãos Montgolfier, na França, fizeram um balão de ar quente levantar uma ovelha, um pato e um galo. Dois meses depois, Étienne Montgolfier fez um voo cativo, com o balão preso ao solo. Foi um feito histórico: ele era o primeiro a voar em um artefato feito pelo homem. Pilâtre de Rozier e o marquês d’Arlande realizaram o primeiro voo livre tripulado em 21 de novembro do mesmo ano, subindo a 1.000 metros e percorrendo uma distância de 9 quilômetros. Mas voaram ao sabor dos ventos – ainda não se conhecia um meio de dirigir o balão. Eo holandês Daniel Bernoulli publicou seu tratado Hydrodynamica,de 1738, estabelecendoos princípios matemáticos básicos para explicar a dinâmica do voo. Mas ainda levaria tempo até que esse conhecimento beneficiasse os construtores das máquinas voadoras.
Embasamento teórico não faltava ao engenheiro inglês Sir George Cayley, 6° baronete de Brompton. Seus interesses abrangiam um amplo espectro, desde ótica e eletricidade até balística e arquitetura teatral. Mas destacou-se mesmo no campo da aerodinâmica. Experimentando com modelos de planadores, Cayley alcançou em 1804 a configuração que viria a se tornar o paradigma para a aeronáutica do século XX: asas colocadas no meio de uma haste comprida e um estabilizador ajustável na cauda. Um peso no nariz permitia ajustar a posição do centro de gravidade. O modelo era naturalmente estável, voava bem e já se parecia com o que entendemos hoje como avião.
Em 1809 e 1810, Cayley publicou um tratado profético, em três partes, intitulado Sobre a navegação aérea. Nele, compara a musculatura peitoral de aves e humanos e conclui que para voar precisaríamos de uma fonte externa de energia. Por causa do peso envolvido, descarta os novos motores a vapor. Sugere que a solução seria um motor de combustão interna – invento que só surgiria 28 anos depois! O texto também oferece critérios para estimar as quatro forças básicas da aerodinâmica: peso, empuxo, sustentação e arrasto. Por tudo isso, Cayley é considerado por muitos como o primeiro engenheiro aeronáutico.
A partir dali, o desenvolvimento se acelera. Em 1852, Henri Giffard acopla um pequeno motor a vapor a um balão de hidrogênio com lemes de direção para construir um protótipo de dirigível. Mas a pequena potência do motor impede a eficácia do invento. Em fins do século XIX, a Revolução Industrial prometia um motor que, agregado a um planador eficaz, permitiria concretizar o velho sonho. Entre 1891 e 1896, o alemão Otto Lilienthal construiu uma série de planadores projetados na configuração básica do modelo apresentado por Cayley em 1804. Com eles, realizou mais de 2 mil voos, saltando do alto de colinas próximas a Berlim e alcançando distâncias de até 250 metros. Um dia o sucesso cobrou seu preço: Lilienthal tentou esticar demais o planeio, perdeu sustentação e mergulhou no solo, fraturando a coluna. Morreu no dia seguinte.
As notícias dos voos de Lilienthal correram o mundo. Nos Estados Unidos, o franco-americano Octave Chanute, que mantivera extensa correspondência com ele, deu continuidade aos experimentos. Por sua vez, influenciou fortemente dois irmãos talentosos, fabricantes de bicicletas, com limitada formação acadêmica. Chamavam-se Orville e Wilbur Wright. Eles voaram com planadores tripulados de projeto próprio de 1900 a 1902. Temendo a repetição do acidente de Lilienthal, colocaram o estabilizador à frente das asas e do piloto, de modo a funcionar como uma espécie de para-choque. Com isso, seus projetos afastaram-se do modelo de Cayley, o que resultou em aparelhos mais instáveis. As máquinas dos Wright voavam bem, mas eram potencialmente perigosas e exigiam intervenção constante do piloto para não se desestabilizarem. Envolvidos em disputas contratuais, os irmãos Wright pararam de se dedicar à aeronáutica por dois anos. Mais tarde, porém, conquistariam o reconhecimento por seu pioneirismo.
Enquanto isso, na Europa, a conquista do ar havia se transformado em uma verdadeira corrida. O Aéro-Club, criado na França em 1898 para estimular a “locomoção aérea”, estabeleceu regras para o reconhecimento da precedência dos inventos, envolvendo critérios técnicos e observadores oficiais. Foi nesse ambiente que Alberto Santos-Dumont, então com 24 anos, chegou a Paris em 1897. Quase imediatamente, interessou-se pelos balões, percebendo logo as limitações de voar sem destino certo. Bebendo em todas as fontes e aprendendo com seus erros, chegou em 1901 ao seu dirigível N° 6. Com um motor de 20 hp pendurado sob um charuto cheio de hidrogênio, Santos-Dumont resolveu o problema da dirigibilidade e conquistou o Prêmio Deutsch para o primeiro dirigível que fizesse um trajeto preestabelecido, circundando a Torre Eiffel em menos de 30 minutos. Sua maior façanha viria em 1906, ao ser oficialmente reconhecido pela Fedération Aéronautique Internationale como o autor do primeiro voo completo de um aparelho mais pesado do que o ar. Estava a bordo do 14-Bis.
Mas não se deu por satisfeito. Colocar o estabilizador à frente no 14-Bis havia sido um erro, e Santos-Dumont aprimorou seus projetos até chegar ao N° 19, o primeiro Demoiselle, que voou em 1909. Os Demoiselles voltavam à configuração Cayley de 1804 e eram velozes, estáveis e seguros. Cerca de 40 foram construídos, por Santos-Dumont e outros. São os precursores do avião moderno. Naquela época, Blériot, Voisin e dezenas de outros pioneiros já voavam regularmente. O ser humano realizara, enfim, o ancestral sonho de voar.

+14 mil – História – Como surgiu o Dia do Trabalho?


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O Dia do Trabalho teve origem na cidade de Chicago (EUA), quando milhares de operários, organizados pela Federação Americana do Trabalho, organizaram um grande paralisação. A greve teve inicio no dia 1º de maio de 1886, sendo que nesse mesmo dia foi iniciada uma greve geral que paralisou os Estados Unidos.
As condições de trabalho a que os trabalhadores eram sujeitados eram desumanas, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, onde também estouravam greves constantemente. A jornada de trabalho era de treze horas (no mínimo) chegando a até 17 horas. A reivindicação dos trabalhadores em Chicago era a diminuição da jornada de trabalho para 8 horas.
No dia 3 de maio, terceiro dia de paralisação, trabalhadores e policiais entraram em confronto, que acabou com um saldo de 50 feridos, centenas de prisões e 6 mortes. No dia seguinte, outro confronto aconteceu, resultando em mais feridos, presos e mortos. Os acontecimentos daquele início de maio receberam o nome de Revolta de Haymarket. Os líderes do movimento foram presos e responsabilizados pelas mortes. Alguns foram condenados a forca, outros a prisão perpétua.
Em junho de 1889, a Segunda Internacional (organização sindical), realizada em Paris, decidiu instituir o Dia Mundial do Trabalho, como forma de homenagear os trabalhadores mortos na Revolta de Haymarket, e para que todos os anos, nesse dia, os trabalhadores pudessem fazer suas reivindicações, como a redução da jornada de trabalho para 8 horas.
A França foi o primeiro país a legalizar o dia 1º de maio como o Dia do Trabalho, em 1919. Nessa mesma ocasião, a jornada de trabalho foi estabelecida em 8 horas.
No Brasil, são relatadas comemorações do dia do trabalho desde 1895, mas somente em 1925 a data foi legalizada pelo então presidente Artur Bernardes, quando passou a ser feriado nacional. A partir de 1930, com Getúlio Vargas na presidência, o dia 1º de maio passou a ser o dia do anúncio de medidas favoráveis aos trabalhadores, como o estabelecimento do salário mínimo, medida divulgada em 1º de maio de 1940.
Em alguns países, como EUA e Austrália, o Dia do Trabalho é comemorado em outras datas.

13.997 – História das Invenções – Papagaio come milho, piri quito leva a fama


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Você, como quase todos nós, deve ter aprendido que o inventor do rádio foi um italiano chamado Guglielmo Marconi. Mas provavelmente nunca ouviu falar de Roberto Landell de Moura, o padre brasileiro responsável por fazer em 1894 (dois anos antes de Marconi) uma expe­riência pioneira de radiodifusão – mas que acabou menosprezado pelos registros históricos.
Nascido em Porto Alegre e educado em Roma, Landell foi a São Paulo exibir seu invento ao público – e tentar arrumar um patrocinador. Ele transmitiu a voz humana por 8 quilômetros em linha reta, da avenida Paulista até o Alto de Santana, na zona norte da cidade. (Detalhe: o rádio inventado por Marconi só transmitia sinais telegráficos.) Ainda assim, o sucesso do experimento não se converteu em muito dinheiro.
Em 1900, Landell repetiu o experimento – agora na presença de jornalistas e de um representante do governo britânico. A notícia repercutiu, mas não do jeito que ele planejara: alguns religiosos se indignaram quando souberam que um padre estava fazendo “bruxarias”. Dois dias depois da demonstração, meia dúzia de fiéis invadiu o modesto laboratório do religioso para quebrar todos os seus aparelhos.
No ano seguinte, o padre foi tentar a sorte nos EUA, onde impressionou a comunidade científica. Eis que o esperado dinheiro parecia estar chegando: empresários americanos ofereceram uma fortuna a Landell. Só que, patriota ferrenho, ele a recusou. O padre acreditava que as invenções pertenciam ao Brasil. Ele conseguiu patentear suas invenções em 1904. Tarde demais: Marconi já o havia feito em 1896.
Ao voltar para o Brasil, Landell tentou mais uma vez convencer o governo a financiá-lo. Seu plano incluía uma demonstração envolvendo dois navios da Marinha. Ao ser perguntado sobre a distância que os navios deveriam ficar um do outro, o padre perdeu uma incrível chance de ficar calado. Sua resposta foi: “Coloquem-nos na maior distância possível, pois esse invento um dia permitirá até conversas interplanetárias!” Foi o suficiente para ser taxado de louco por querer falar com ETs. Desiludido com a falta de apoio, acabou abandonando a ciência e dedicando-se exclusivamente à vida religiosa.

Grandes momentos
• Como não há documentos oficiais da demonstração de 1894, muitos só aceitam o ano de 1900 como a data da primeira transmissão por rádio de Landell.
• Apesar da invenção do rádio ser freqüentemente creditada a Marconi, várias pessoas vinham fazendo pesquisas na área, como o alemão Heinrich Hertz, o austríaco Nikola Tesla e o próprio padre Landell.
• Marconi patenteou seu invento em 1896 e depois criou a Companhia Marconi para usar comercialmente suas patentes. Uma coisa não há como negar: ele foi o primeiro a investir na utilização comercial do rádio.

13.995 – Saiba mais sobre a Páscoa no ☻Mega


pascoa
Muito antes de ser considerada a festa da ressurreição de Cristo, a Páscoa anunciava o fim do inverno e a chegada da primavera. A Páscoa sempre representou a passagem de um tempo de trevas para outro de luzes, isto muito antes de ser considerada uma das principais festas da cristandade. A palavra “páscoa” – do hebreu “peschad”, em grego “paskha” e latim “pache” – significa “passagem”, uma transição anunciada pelo equinócio de primavera (ou vernal), que no hemisfério norte ocorre a 20 ou 21 de março e, no sul, em 22 ou 23 de setembro.

A páscoa judaica (em hebraico פסח, ou seja, passagem) é o nome do sacríficio executado em 14 de Nissan segundo o calendário judaico e que precede a Festa dos Pães Ázimos (Chag haMatzot). Geralmente o nome Pessach é associado a esta festa também, que celebra e recorda a libertação do povo de Israel do Egito, conforme narrado no livro de Êxodo.

A festa cristã da Páscoa tem origem na festa judaica, mas tem um significado diferente. Enquanto para o Judaísmo, Pessach representa a libertação do povo de Israel no Egito, no Cristianismo a Páscoa representa a morte e ressurreição de Jesus (que supostamente aconteceu na Pessach) e de que a Páscoa Judaica é considerada prefiguração, pois em ambos os casos se celebra uma “libertação do povo de Deus”, a sua passagem da escravidão (do Egito/do pecado) para a liberdade.

De fato, para entender o significado da Páscoa cristã, é necessário voltar para a Idade Média e lembrar dos antigos povos pagãos europeus que, nesta época do ano, homenageavam Ostera, ou Esther – em inglês, Easter quer dizer Páscoa.
Ostera (ou Ostara) é a Deusa da Primavera, que segura um ovo em sua mão e observa um coelho, símbolo da fertilidade, pulando alegremente em redor de seus pés nus. A deusa e o ovo que carrega são símbolos da chegada de uma nova vida. Ostara equivale, na mitologia grega, a Persephone. Na mitologia romana, é Ceres.

Estes antigos povos pagãos comemoravam a chegada da primavera decorando ovos. O próprio costume de decorá-los para dar de presente na Páscoa surgiu na Inglaterra, no século X, durante o reinado de Eduardo I (900-924), o qual tinha o hábito de banhar ovos em ouro e ofertá-los para os seus amigos e aliados.

Por que o ovo de Páscoa?
O ovo é um destes símbolos que praticamente explica-se por si mesmo. Ele contém o germe, o fruto da vida, que representa o nascimento, o renascimento, a renovação e a criação cíclica. De um modo simples, podemos dizer que é o símbolo da vida.

Os celtas, gregos, egípcios, fenícios, chineses e muitas outras civilizações acreditavam que o mundo havia nascido de um ovo. Na maioria das tradições, este “ovo cósmico” aparece depois de um período de caos.

Na Índia, por exemplo, acredita-se que uma gansa de nome Hamsa (um espírito considerado o “Sopro divino”), chocou o ovo cósmico na superfície de águas primordiais e, daí, dividido em duas partes, o ovo deu origem ao Céu e a Terra – simbolicamente é possível ver o Céu como a parte leve do ovo, a clara, e a Terra como outra mais densa, a gema.

O mito do ovo cósmico aparece também nas tradições chinesas. Antes do surgimento do mundo, quando tudo ainda era caos, um ovo semelhante ao de galinha se abriu e, de seus elementos pesados, surgiu a Terra (Yin) e, de sua parte leve e pura, nasceu o céu (Yang).
Para os celtas, o ovo cósmico é assimilado a um ovo de serpente. Para eles, o ovo contém a representação do Universo: a gema representa o globo terrestre, a clara o firmamento e a atmosfera, a casca equivale à esfera celeste e aos astros.
Na tradição cristã, o ovo aparece como uma renovação periódica da natureza. Trata-se do mito da criação cíclica. Em muitos países europeus, ainda hoje há a crença de que comer ovos no Domingo de Páscoa traz saúde e sorte durante todo o resto do ano. E mais: um ovo posto na sexta-feira santa afasta as doenças.

Por que o Coelho de Páscoa?

coelho
Coelhos não colocam ovos, isto é fato! A tradição do Coelho da Páscoa foi trazida à América por imigrantes alemães em meados de 1700. O coelhinho visitava as crianças, escondendo os ovos coloridos que elas teriam de encontrar na manhã de Páscoa.
Uma outra lenda conta que uma mulher pobre coloriu alguns ovos e os escondeu em um ninho para dá-los a seus filhos como presente de Páscoa. Quando as crianças descobriram o ninho, um grande coelho passou correndo. Espalhou-se então a história de que o coelho é que trouxe os ovos. A mais pura verdade, alguém duvida?
No antigo Egito, o coelho simbolizava o nascimento e a nova vida. Alguns povos da Antigüidade o consideravam o símbolo da Lua. É possível que ele se tenha tornado símbolo pascal devido ao fato de a Lua determinar a data da Páscoa.
Mas o certo mesmo é que a origem da imagem do coelho na Páscoa está na fertililidade que os coelhos possuem. Geram grandes ninhadas! Assim, os coelhos são vistos como símbolos de renovação e início de uma nova vida. Em união com o mito dos Ovos de Páscoa, o Coelho da Páscoa representa a renovação de uma vida que trará boas novas e novos e melhores dias, segundo as tradições.

Outros símbolos da Páscoa
O cordeiro é um dos principais símbolos de Jesus Cristo, já que é considerado como tendo sido um sacrifício em favor do seu rebanho. Segundo o Novo Testamento, Jesus Cristo é “sacrificado” durante a Páscoa (judaica, obviamente). Isso pode ser visto como uma profecia de João Batista, no Evangelho segundo João no capítulo 1, versículo 29: “Eis o Cordeiro de Deus, Aquele que tira o pecado do mundo”.
Paulo de Tarso (na primeira epístola a Coríntio no capítulo 5, versículo 7) diz: “Purificai-vos do velho fermento, para que sejais massa nova, porque sois pães ázimos, porquanto Cristo, nossa Páscoa, foi imolado.“
Jesus, desse modo, é tido pelos cristãos como o Cordeiro de Deus (em latim: Agnus Dei) que supostamente fora imolado para salvação e libertação de todos do pecado. Para isso, Deus teria designado sua morte exatamente no dia da Páscoa judaica para criar o paralelo entre a aliança antiga, no sangue do cordeiro imolado, e a nova aliança, no sangue do próprio Jesus imolado. Assim, a partir daquela data, o Pecado Original tecnicamente deixara de existir.
cruz_ominiatura.jpgA Cruz também é tida como um símbolo pascal. Ela mistifica todo o significado da Páscoa, na ressurreição e também no sofrimento de Jesus. No Concílio de Nicea em 325 d.C, Constantino decretou a cruz como símbolo oficial do cristianismo. Então, ela não somente é um símbolo da Páscoa, mas o símbolo primordial da fé católica.
O pão e o vinho simbolizam a vida eterna, o corpo e o sangue de Jesus, oferecido aos seus discípulos, conforme é dito no capítulo 26 do Evangelho segundo Mateus, nos versículos 26 a 28: “Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai e comei, isto é meu corpo. Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: Bebei dele todos, porque isto é meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados.“

Por que a Páscoa nunca cai no mesmo dia todos os anos?
O dia da Páscoa é o primeiro domingo depois da Lua Cheia que ocorre no dia ou depois de 21 março (a data do equinócio). Entretanto, a data da Lua Cheia não é a real, mas a definida nas Tabelas Eclesiásticas. (A igreja, para obter consistência na data da Páscoa decidiu, no Concílio de Nicea em 325 d.C, definir a Páscoa relacionada a uma Lua imaginária – conhecida como a “lua eclesiástica”).
A Quarta-Feira de Cinzas ocorre 46 dias antes da Páscoa, e portanto a Terça-Feira de Carnaval ocorre 47 dias antes da Páscoa. Esse é o período da quaresma, que começa na quarta-feira de cinzas.
Com esta definição, a data da Páscoa pode ser determinada sem grande conhecimento astronômico. Mas a seqüência de datas varia de ano para ano, sendo no mínimo em 22 de março e no máximo em 24 de abril, transformando a Páscoa numa festa “móvel”. De fato, a seqüência exata de datas da Páscoa repete-se aproximadamente em 5.700.000 anos no nosso calendário Gregoriano.

Tabela com as datas da Páscoa até 2020
2000: 23 de Abril (Igrejas Ocidentais); 30 de Abril (Igrejas Orientais)
2001: 15 de Abril
2002: 31 de Março (Igrejas Ocidentais); 5 de Maio (Igrejas Orientais)
2003: 20 de Abril (Igrejas Ocidentais); 27 de Abril (Igrejas Orientais)
2004: 11 de Abril
2005: 27 de Março (Igrejas Ocidentais); 1 de Maio (Igrejas Orientais)
2006: 16 de Abril (Igrejas Ocidentais); 23 de Abril (Igrejas Orientais)
2007: 8 de Abril
2008: 23 de Março (Igrejas Ocidentais); 27 de Abril (Igrejas Orientais)
2009: 12 de Abril (Igrejas Ocidentais); 19 de Abril (Igrejas Orientais)
2010: 4 de Abril
2011: 24 de Abril
2012: 8 de Abril (Igrejas Ocidentais); 15 de Abril (Igrejas Orientais)
2013: 31 de Março (Igrejas Ocidentais); 5 de Maio (Igrejas Orientais)
2014: 20 de Abril
2015: 5 de Abril (Igrejas Ocidentais); 12 de Abril (Igrejas Orientais)
2016: 27 de Março (Igrejas Ocidentais); 1 de Maio (Igrejas Orientais)
2017: 16 de Abril
2018: 1 de Abril (Igrejas Ocidentais); 8 de Abril (Igrejas Orientais)
2019: 21 de Abril (Igrejas Ocidentais); 28 de Abril (Igrejas Orientais)
2020: 12 de Abril (Igrejas Ocidentais); 19 de Abril (Igrejas Orientais)
No final das contas, a páscoa é mais um rito de povos antigos, assimilado pela Igreja Cristã de modo a impor sua influência. Substituindo venerações à natureza (como no caso da Lua ou do Equinócio, tipicamente pagãs) por uma outra figura da mitologia, tomando os siginificados do judaísmo, os símbolos celtas e fenícios, remodelando mediante os Evangelhos e dando uma decoração final, criou-se um “ritual colcha de retalhos”.

13.979 – Borracha rupestre Extraída no Parque Nacional da Serra da Capivara


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A maniçoba, árvore típica da caatinga, produz um látex de grande qualidade. Além de pneus, até meados do século XX sua borracha natural era usada para produzir luvas cirúrgicas por conta de seu potencial de evitar rejeição durante operações. Entre 1900 e 1940, famílias de diversas localidades do Nordeste brasileiro foram ganhar a vida na extração de maniçoba, em uma região do Piauí onde hoje está o Parque Nacional da Serra da Capivara, declarado Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco e maior sítio arqueológico da América Latina. Imerso em uma crise financeira que se estende há anos, o parque inaugurou recentemente a Trilha Caminho dos Maniçobeiros, com o objetivo de preservar a memória desses trabalhadores em diálogo com os vestígios pré-históricos. O circuito turístico inclui visita aos locais em que essas famílias costumavam habitar: abrigos formados por paredes de taipa (pedra, paus e barro amassado) e tocas de rocha adaptadas para moradia. Muitos deles ainda preservam inscrições rupestres, algumas feitas há 50 mil anos. O Caminho dos Maniçobeiros tem aproximadamente 20 quilômetros de extensão. Começa na Guarita da Serra Branca e o trajeto pode ser feito de carro ou ônibus até o Sítio Igrejinha, tendo o visitante que seguir a pé pela estrada e pelas trilhas abertas na mata de caatinga. Há locais sinalizados com árvores de maniçoba e muitas tocas onde vestígios rupestres e dos maniçobeiros se misturam. O modo de vida e trabalho dos maniçobeiros começou a ser investigado, na década de 1970, por pesquisadores da Fundação Museu do Homem Americano (Fundham), que administra o Parque da Serra da Capivara. A arquiteta Elizabete Buco, pesquisadora da Fundham, ressalta a importância da preservação dessa memória: “Resolvemos tirar do papel e mostrar o que o parque ainda guarda sobre esses homens que faziam das tocas suas moradias, convivendo com vestígios arqueológicos, reocupando a área e construindo um novo espaço, com novos simbolismos e manifestações culturais”. Naquele período, a extração do látex de maniçoba no Nordeste só perdia em quantidade para os seringais da Amazônia. Ainda assim, “a demanda era tão grande que o governo brasileiro incentivava a extração e o cultivo de toda árvore que produzisse borracha”, observa Ana Stela de Negreiros Oliveira, pesquisadora do Iphan no Piauí. Os maniçobeiros extraíam látex de forma diferente: enquanto na seringueira as incisões eram feitas no tronco da planta, na maniçoba o látex era retirado da raiz, com auxílio de um instrumento pontiagudo criado por eles, a léga. Mas as relações de trabalho de seringueiros e maniçobeiros se assemelhavam: eram ambos explorados ao contrair dívidas com seus patrões, que monopolizavam o acesso a produtos alimentícios. Isto explica por que as famílias utilizavam os abrigos pré-históricos como moradias.

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13.971- Linguística – Qual a língua mais antiga?


sumerio
O sumério foi uma das primeiras línguas escritas conhecidas. O seu sistema de escrita, chamado cuneiforme (que significa “em forma de cunha”), foi mais tarde também usado para as línguas acadiana e também adaptado a línguas indo-europeias como o hitita (que também era escrito com um sistema hieroglífico, tal como faziam os egípcios) e o persa antigo, muito embora esta última língua se limitasse a usar os mesmos instrumentos de escrita e as formas das letras não tivessem relação com as do cuneiforme.
A escrita era do tipo semanto-fonética com símbolos fonéticos para sílabas e também logogramas que representavam palavras inteiras. A direção da escrita era variável. Textos mais antigos se apresentavam em colunas verticais. mas por volta de 3.000 a.C a direção mudou para horizontal da esquerda para a direita. Nessa época os símbolos foram girados em 90º sentido anti horário e passaram a ser simplificados sendo formados somente por cunhas e traços.
Inicialmente havia até cerca de mil símbolos, quantidade que caiu para cerca de 400, depois para 255, que eram 8 para vogais, 98 sílabas de vogal+consoante e 149 de consoante + vogal; Um mesmo símbolo poderia ter diferentes pronúncias. Houve 5 períodos para essas simbologia com aletrações nos anos de 3000 a.C – 2800 a.C – 2500 a.C – 1800 a.C – 600 a.C.
O sumério era aglutinante e fazia grande uso da composição. Por exemplo, as palavras para grande e homem eram compostas para formar a palavra para rei, “lugal”.
O sumério é uma língua ergativa. Isto significa que o sujeito de uma frase, que obtém um objecto directo, está no chamado caso ergativo, que se marca com a posposição -e. O sujeito de um verbo intransitivo é “marcado” com um absolutivo, que não é escrito: por exemplo, lugal-e e2 mu-dru3 “o rei construiu a casa”; lugal ba-gen “o rei foi”.

13.970 – A Inovação da arquitetura Gótica


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No período final da chamada Idade Média, por volta do final do século XII, um novo estilo arquitetônico surgiu no norte do continente europeu, mais precisamente no norte da França: a arquitetura gótica. Caracterizada pela suntuosidade das construções, ligada ao caráter religioso do estilo, a arquitetura gótica expandiu-se para grande parte do continente nos séculos posteriores.
A arquitetura gótica foi desenvolvida a partir das construções do estilo românico, muito difundido anteriormente. A arquitetura românica caracterizava-se por abóbodas arredondadas sustentadas por arcos semicirculares. Em razão dessas características, as construções românicas necessitavam de pesadas e grandes estruturas para manterem-se de pé. Os grossos pilares de pedras garantiam essa sustentação, mas limitavam a altura das construções e dificultavam a entrada de luz, em decorrência da necessidade de manter as paredes.
Para superar essa limitação, os arquitetos normandos que inicialmente desenvolveram a arquitetura gótica desenvolveram uma técnica que tornava mais leves as estruturas. Note-se que tais estilos arquitetônicos foram desenvolvidos principalmente para a construção dos templos religiosos católicos. No caso da arquitetura gótica, as construções ocorreram principalmente nas catedrais, as igrejas próprias dos bispos (cathedra significa trono do bispo).
Diferentemente da arquitetura românica, os arquitetos do estilo gótico desenvolveram as abóbodas ogivais, o que dava uma maior dimensão às naves centrais e laterais das catedrais. Para sustentá-las, foram construídos arcos de sustentações das abóbadas não em formato de semicírculo, mas sim arcos ogivais, formados a partir da junção de dois seguimentos de círculos. Tal inovação possibilitou aumentar a altura das construções, já que a técnica permitia uma maior flexibilidade de tamanho.
Para sustentar esses arcos, as grandes colunas de sustentação não eram mais necessárias. Era possível conseguir a sustentação com colunas mais finas, formadas por nervuras e feixes de pedra que davam uma maior sensação de leveza à construção. Além dessas estruturas de sustentação mais leves, foram desenvolvidos os chamados arcobotantes nas paredes externas, utilizados para sustentar o peso da abóboda da nave central por sobre os tetos das naves laterais.
Tais inovações permitiram retirar grande parte das paredes laterais e trocá-las por janelas que eram adornados com belíssimos vitrais. Essa medida permitia ainda a entrada de luz no ambiente, dando um novo aspecto aos templos religiosos, principalmente por entrar não apenas a luz branca do sol, mas também outras cores decorrentes da passagem pelos vidros. Outro vitral característico das catedrais góticas eram as rosáceas colocadas por sobre os portões de entrada dos templos.
Esculturas também foram construídas e colocadas nos pórticos das catedrais. As esculturas diferiam das esculturas do estilo românico por não serem tão sólidas, mas sim por ganharem vida.
A altura e suntuosidade das construções imprimiam uma noção de diminuição do ser humano nesses locais. As torres com uma maior projeção vertical serviam também como reverência a Deus, pois se direcionavam aos céus. Algumas das construções tinham o formato da cruz latina, perceptível a partir de uma vista superior da edificação.
A primeira catedral gótica foi a de Saint-Denis, na França. A mais famosa é a catedral de Notre-Dame, em Paris. O termo gótico foi cunhado possivelmente por Giorgio Vassari (1511-1574), durante o Renascimento, como uma forma pejorativa para comparar com o estilo clássico. O gótico era considerado um estilo bárbaro, “monstruoso”, cujo nome era derivado dos godos. Porém, a partir do século XVIII, houve um processo de reavaliação do estilo, inicialmente na Inglaterra e posteriormente na França, Alemanha e Itália.

Catedral notredame
A catedral é patrimônio cultural da humanidade, elegida pela UNESCO

13.969 – História – Renascimento Urbano medieval


segovia
A Idade Média europeia foi marcada por uma organização social e econômica predominantemente rural. As invasões bárbaras do século V levaram ao declínio das cidades do Império Romano, aumentando a importância dos campos para a habitação e produção econômica. Essa situação iria mudar a partir do século XI quando teve início o chamado Renascimento Urbano.
A ruralização da sociedade medieval não significou a extinção das cidades. Apenas resultou na diminuição de sua importância no conjunto da sociedade, mudando ainda seu caráter se comparadas às funções desempenhadas pela cidade durante a Antiguidade romana.
A cidade medieval – também conhecida como burgo – até o século XI era, de certa forma, uma extensão do mundo senhorial. Por se localizarem em terras que eram dominadas por um senhor, as cidades estavam sujeitas a seu poder. Além disso, habitavam as cidades principalmente os nobres, reis, bispos e comerciantes, mostrando que era também espaço de concentração do poder político e religioso. Geralmente ao centro das cidades encontravam-se mercados e igrejas.
Os senhores conseguiam exercer influência sobre as cidades ao enviar os excedentes da produção agrícola das terras sob seu domínio e comercializá-los nesse espaço urbano. Estabeleciam ainda relações de dependência entre si e o conjunto dos moradores das cidades, principalmente através da cobrança de tributos.
A partir do século XI, teve início uma expansão do comércio em decorrência das Cruzadas e da acumulação de excedentes agrícolas. Esses excedentes foram possibilitados pelas inovações técnicas adotadas na agricultura, como a charrua, novas formas de atrelamento dos animais ao arado e também com a adoção da rotação de cultura. Dessa forma, o comércio com o Oriente possibilitado pelas Cruzadas e as trocas de excedentes levaram paulatinamente as cidades a crescerem de importância no mundo feudal.
Para realizar as transações comerciais foram criadas feiras, dais quais se destacaram a de Champagne e de Brie, na atual França. Por serem fortificadas e se localizarem próximas às rotas de comércio, as cidades eram consideradas locais seguros, principalmente para manter as estruturas bancárias necessárias à realização dos negócios. Uma classe de comerciantes foi se formando internamente aos burgos e também enriquecendo, dando origem aos burgueses.
Por outro lado, foram se formando grupos de artesãos que também vendiam sua produção nas feiras. Eles passaram a se organizar nas corporações de ofício, que eram organizações que reuniam pessoas que exerciam a mesma profissão. Dentro das corporações havia uma rígida divisão, tendo ao cimo o mestre-artesão, abaixo dele estavam os jornaleiros e, por fim, os aprendizes. Havia regras na adoção das técnicas de produção que buscavam uniformizar as formas de trabalho e os próprios produtos, criando, dessa forma, uma tradição de produção. Era papel do mestre-artesão garantir o cumprimento dessas regras.
Com o aumento de sua importância econômica, as cidades foram se expandindo. Mais pessoas passaram a morar nas cidades, resultando na ampliação dos muros que demarcavam seus limites. Porém, esse crescimento gerou uma grande aglomeração de pessoas para os números da época. Paris chegou a ter cerca de 100 mil habitantes no período, número considerável se for levado em consideração o fato das demais cidades não chegarem a ter mais de 20 mil habitantes.
Mas não havia práticas de salubridade nesses burgos. O saneamento básico, como o conhecemos hoje, não existia, tornando as cidades um local propício à propagação de epidemias. Foi o que ocorreu no século XIV, quando as pulgas infectadas pela bactéria Yersinia pestis foram transportadas por roedores e peles de animais do Oriente para as cidades europeias. As pulgas infectadas pela bactéria, ao picarem os seres humanos, transmitem a peste bubônica. Nas condições insalubres das cidades europeias, a peste bubônica transformou-se em uma epidemia que dizimou cerca de um terço da população europeia.
As cidades sobreviveram à peste negra, outro nome dado à epidemia. O patriciado que controlava politicamente os burgos fortaleceu-se com o desenvolvimento urbano, gerando uma crescente autonomia frente aos senhores feudais. A comuna eram as cidades que se tornavam livres e organizavam-se a partir de relações distintas das que caracterizavam a dependência dos senhores da nobreza rural.
Essas diferenças foram se tornando maiores ao longo do tempo e opondo a burguesia urbana à nobreza rural. Tal situação iria se resolver apenas ao fim da Idade Moderna, quando a burguesia já havia acumulado um considerável poder econômico para também se impor politicamente à nobreza.

13.939 – História – Fronteira em pé de guerra


guerra venezuela
O alarme soou para as autoridades da Capitania do Rio Negro quando receberam uma correspondência do principal líder da guerra de independência na Província de Guayana, do lado espanhol da fronteira: era uma ameaça direta de invasão militar. Na carta, o comandante José Antonio Paez deixava claro que iria comandar uma milícia de 4.500 guerrilheiros com farta munição contra o território vizinho, o que levaria à eclosão de uma guerra entre os independentistas da Venezuela e o Império português, naquele início de 1818.
O principal motivo da irritação de Páez era a prisão de um oficial espanhol, D. Francisco Orosco, pela autoridade portuguesa da fronteira, na Fortaleza de São José de Marabitanas. Na visão do chefe militar venezuelano, a medida era inaceitável porque feria a política de neutralidade estabelecida entre as monarquias espanhola e portuguesa, cujo ponto principal era a não interferência de parte a parte em caso de conflitos externos.
A guerra passava a ser uma forte possibilidade na fronteira do rio Negro amazônico, no conturbado momento de guerras de independência em diversos pontos da América espanhola, como a Venezuela, o Novo Reino de Granada (atual Colômbia) e a Banda Oriental do Rio da Prata (atual Uruguai).
Nos extremos da América do Sul, a diplomacia estabelecida entre os Impérios português e espanhol desde 1808 seguia dois direcionamentos: o primeiro ligado à conjuntura internacional, em que se destacava a guerra entre os impérios britânico e francês; o segundo ligado à conjuntura americana, na qual as disputas por territórios se davam em torno das demarcações das fronteiras. Os portugueses aproveitaram o contexto de envolvimento dos impérios europeus nas guerras de independência para conduzir uma política de expansão territorial em direção aos domínios coloniais que pertenciam aos seus inimigos diretos: a França e a Espanha. Longe da Europa, centro nervoso dos conflitos mais significativos, a monarquia portuguesa já instalada no Brasil obteve sucesso na anexação de Caiena, sede do governo da Guiana Francesa, em 1809, comemorada como uma vitória sobre Napoleão Bonaparte, depois que este ordenou a invasão de Lisboa, levando à retirada humilhante da Corte imperial portuguesa para a América. Também recuperou militarmente a cidade de Montevidéu, sede da Banda Oriental, em 1817.
A agressividade da carta de Páez e sua ameaça de ocupação eram avisos de que essa postura expansionista portuguesa não seria tolerada pelos revolucionários venezuelanos, especialmente por seu principal líder, Simon Bolívar. Para evitar a guerra com Portugal, a diplomacia de Bolívar apresentou uma proposta de relacionamento baseada em seis pontos: reconhecerem-se como nações e respeitarem-se mutuamente; estabelecer a paz e os direitos civis entre ambos; não permitir a circulação de tropas inimigas; manter as relações comerciais nas regiões limítrofes; não acolher desertores do outro lado da fronteira; não aceitar criminosos de parte a parte. Os venezuelanos pretendiam forçar o reconhecimento da legitimidade da luta independentista de Bolívar e da própria República e, ao mesmo tempo, evitar interferências da monarquia portuguesa em seus negócios internos, assim como uma possível expansão territorial no rio Negro. A política da boa vizinhança seria o caminho para lidar com o que Bolívar considerava ser a mais forte e perigosa nação da América do Sul.
A proposta diplomática na fronteira amazônica gerou um problema para as autoridades portuguesas do Rio Negro: ela foi aceita pelo comandante de Marabitanas, Pedro Miguel Ferreira Barreto, mas rejeitada pelos principais dirigentes do extremo-norte da América portuguesa: os governadores do Estado do Grão-Pará e Rio Negro, José Narciso de Magalhães e Meneses (conde de Vila-Flor), e da Capitania do Rio Negro, Manoel Joaquim do Paço. Para eles, a política de boa vizinhança poderia levar ao envolvimento de Portugal na guerra de independência venezuelana, prejudicando a posição da monarquia lusitana na diplomacia internacional, principalmente em relação à Espanha. Melhor caminho seria a neutralidade formal. Consideravam que os conflitos do lado espanhol eram rebeliões contra a monarquia católica, e não guerras legítimas de independência. Qualquer contato com essas insurreições poderia gerar mais contestações também do lado português, porque elas espalhavam ideias consideradas subversivas, originadas da revolução da América do Norte (1776-1783) e da Revolução Francesa (1789-1799), que já tinham atingido Pernambuco em 1817.
O recebimento da proposta de Bolívar pelo comandante da fronteira em Marabitanas foi encarado como uma quebra de hierarquia: Ferreira Barreto teria que se reportar aos seus superiores para só depois se posicionar diante dos rebeldes. Um processo formal foi aberto para saber se houve falta de patriotismo no trato com os insurgentes venezuelanos, mas sua inocência foi atestada e a investigação arquivada.
A atitude de Ferreira Barreto estava relacionada a uma diplomacia transfronteiriça. Embora a política a ser seguida pelos dirigentes fronteiriços devesse obedecer às regras ditadas pelas altas autoridades do Império português, na prática, boa parte de suas ações estava pautada nas dinâmicas sociais, econômicas e políticas existentes nas localidades. Nas fronteiras imperiais portuguesas, como nas de qualquer Estado, havia um cotidiano de vínculos entre as comunidades de ambos os lados, com os quais os comandantes militares tinham que lidar. Quando Ferreira Barreto assumiu o cargo de comandante de Marabitanas, em 1816, encontrou complexas atividades dependentes do trânsito de pessoas, de produtos e de informações que não podia ser impedido porque interferia nos costumes e nas estratégias de sobrevivência dos povos da região.
Os moradores das povoações de Marabitanas e São Gabriel da Cachoeira mantinham atividades comerciais com habitantes da ampla região hispano-americana do Alto Orinoco e Rio Negro. A movimentação servia para abastecer mutuamente essas comunidades com produtos diversos – cavalos, cacau, tabaco, roupas e gêneros da floresta, muito utilizados pelo grande número de indígenas da região, como o breu, o ingá-chichica e a chica ou piranga. Dessas regiões também era extraída grande quantidade de madeiras para as fábricas reais de construção de embarcações, que faziam parte de rotas de comércio entre as capitanias do Rio Negro, Grão-Pará, Mato Grosso, Maranhão e Piauí, fundamentais para o Império português na América.
Ao administrarem essa realidade, as autoridades de fronteira inevitavelmente se inseriam nas mesmas circulações transfronteiriças. Com Ferreira Barreto não foi diferente. O comandante mantinha negócios pessoais com o lado hispano-venezuelano, participando ativamente dos negócios de compra e venda de salsa, cera, mel e outros gêneros da floresta apreciados pelos moradores da Guayana. Esse contato proporcionou-lhe alguma riqueza e diversas amizades com negociantes, moradores e até mesmo autoridades militares do lado espanhol, fossem estas adeptas dos monarquistas ou dos republicanos. Condição semelhante tinham os comandantes do outro lado, como D. Francisco Orosco, preso e enviado para o lado luso-americano em grande medida por perseguir negociantes do Alto Orinoco e não pagar suas dívidas com eles.
Apesar da tensão criada pelo independentista José Antonio Paéz, os ânimos foram acalmados pelos próprios comandantes fronteiriços. A guerra não era desejada por nenhum dos dois lados, pois quebraria a política de neutralidade assumida entre as monarquias de Portugal e Espanha, e mexeria com os negócios lucrativos das autoridades locais de ambas as partes. Todos concordaram em pelo menos um ponto: a guerra levaria a uma crise de grandes proporções para as populações da fronteira, principalmente os indígenas, que historicamente estabeleciam suas estratégias de sobrevivência a partir do equilíbrio de forças baseado nas mútuas relações de produção e de comércio.
Longe da visão tradicional de linha divisória que demarca o fim de um território nacional no mapa, as fronteiras são “zonas de contato” e de movimento constante. Obedecem mais às práticas sociais dos habitantes do que às normas instituídas pelos governos. É assim no presente, foi assim no passado.