14.147 – História – Quem Foi Maomé?


maome
Maomé, cujo nome completo era Abu al-Qasim Muhammad ibn ‘Abd Allah ibn ‘Abd al-Muttalib ibn Hashim, foi fundador da religião e civilização islâmica. Nascido em 571 d.C., na cidade de Meca, localizada na Península Arábica, Maomé pertencia à tribo dos coraixitas, especificamente ao clã dos hachemitas, também conhecido pelo nome Banu Hashim, como explica o orientalista David Samuel Margoliouth, em sua obra Maomé e a ascensão do Islã:
Maomé era o filho de pais nascidos em Meca. Consta que seus nomes eram Abdallah (Servo de Alá) e Aminah (A Segura, ou A Protegida). A mãe pertencia aos Banu Zuhrah, e o pai era filho de Abd al-Muttalib, do clã chamado Banu Hashim. É certo que o pai do futuro Profeta morreu antes de o filho nascer, segundo dizem, quando visitava Yathrib, mais tarde conhecida como Medina. A mãe não sobreviveu por muito tempo ao marido, e seu túmulo, como afirmam alguns, encontra-se em Abwa, um lugar a meio caminho entre Meca e Medina, onde, cerca de cinquenta anos depois, seus ossos corriam o risco de ser exumados.
Como ficou órfão muito cedo, Maomé passou a ser criado por seu tio Abu Talib (também do clã Banu Hashim), de quem recebeu educação formal e aprendeu o ofício de comerciar especiarias nas caravanas de camelos transaarianas. Foi como chefe de caravana que, em 595, Maomé conheceu uma rica viúva, também hachemita, chamada Khadijha, passando a trabalhar para ela. Após demonstrar grande destreza na administração dos negócios de Khadijha, Maomé e a viúva, em comum acordo, casaram-se. Esse casamento transformou substancialmente a vida do então comerciante, que não tinha grande fortuna até o momento.

Allah e os hanifs
O fato é que, ao mesmo tempo em que começava a nova vida com Khadijha, Maomé também passou a viver as primeiras manifestações religiosas que definiriam a religião muçulmana. É importante ressaltar que, antes mesmo de o islamismo firmar-se como religião, em Meca e em outras regiões da Arábia, havia uma confluência de credos, tanto pagãos, politeístas, quanto judaicos e cristãos. Além do monoteísmo judaico e cristão, havia também um terceiro grupo, o dos hanifs, nascido em meio à miscelânea pagã dos grupos tipicamente árabes.
Como bem destaca o historiador Daniel-Rops, em sua obra A Igreja dos Tempos Bárbaros:
Na época de Maomé, vinham surgindo tendências novas no interior desse politeísmo tradicional: a influência das colônias judaicas e dos cristãos heréticos do mundo arameu, ao norte, e da Etiópia, ao sul, chamava os melhores espíritos para uma religião mais elevada. As divindades particulares continuavam a ser honradas, mas uma delas começava a predominar sobre as outras: Alá, reconhecido como “maior” – Allah akbar. Além disso, encontravam-se já alguns monoteístas – nem judeus nem cristãos – chamados hanifs.
Os pais de Maomé e muitos membros do clã hachemita adoravam Allah, mas foi Maomé que, nos primeiros anos do século VII, começou a sistematizar a crença propriamente islâmica. A tradição muçulmana relata que Maomé começou a ter progressivas revelações dadas por Deus (Alá) por meio do Anjo Gabriel. Essas revelações teriam dado a Maomé a autoridade de ser o Profeta de Alá, isto é, aquele que teria a missão de corrigir as distorções que judeus e cristãos teriam feito das revelações passadas, e a responsabilidade de retirar as tribos árabes politeístas da “era da ignorância” e convertê-las ao Islã.
Fuga para Yatreb e confrontos militares com Meca
Maomé começou por converter aqueles que lhe eram mais próximos, como sua esposa, sogro, primos etc. Entretanto, sua radicalização monoteísta começou a ter efeitos sobre a dinâmica social e econômica da tribo coraixita. Outros clãs de Meca passaram a confrontar e perseguir Maomé e seu grupo de convertidos. Com a morte de seu tio e, depois, de sua primeira esposa, Khadijah, que faleceu em 619, Maomé decidiu aceitar o apoio e hospitalidade de famílias residentes na então cidade de Yatreb, para onde migrou em 622. Essa migração, ou fuga, ficou conhecida como Hégira.
Em Yatreb, Maomé conseguiu mais adeptos ao islamismo, de modo que a cidade tornou-se o seu reduto principal e também o seu quartel-general, a ponto de a cidade ter seu nome mudado para Medina (“a Cidade”, ou “Cidade do Profeta”). De Medina, Maomé passou a travar sucessivas batalhas contra Meca. A pregação religiosa passou a se entrelaçar com a guerra e a perspectiva de conquista. Duas das principais batalhas travadas por esse primeiro grupo de muçulmanos foram nas cidades de Badr, em 624, e de Ohod, em 625. Eles venceram a primeira e perderam a segunda. O principal inimigo mequense de Maomé nessa época era Abu Sufayan.
Sufayan, em 627, tentou sitiar Medina, mas os guerreiros muçulmanos conseguiram repelir um tropa de cerca de 10.000 mequenses. No ano seguinte, houve uma breve trégua com a permissão dada a Maomé, pelos mequenses, de poder peregrinar à sua cidade natal. Em 629, Maomé reuniu seus combatentes e cercou Meca. As batalhas pelo domínio da cidade demoraram até janeiro de 630, quando a resistência de Meca foi subjugada.
O domínio de Meca foi o primeiro passo da grande e rápida expansão islâmica que se veria nos anos seguintes. Maomé morreu dois anos após subjugar sua cidade natal. Sua morte provocou disputas sucessórias que definiriam, mais tarde, os grupos sunita e xiita, característicos do desenvolvimento do islamismo.

14.060 – Religião Viking


odin
Os povos Vikings, que habitaram a Escandinávia (atual Noruega, Suécia e Finlândia), no Norte da Europa, possuíam crenças religiosas pagãs, ou seja, não cristãs. Os mitos religiosos desses povos são conhecidos hoje como mitologia nórdica.
Os Vikings não eram extremamente religiosos, sendo o culto aos deuses realizado em épocas específicas ou em ocasiões individuais, isto é, quando uma pessoa procurava o favor divino. Um exemplo de festival religioso dos nórdicos era o Jól (também conhecido como Yule), que era realizado no inverno e que foi depois apropriado pelos cristãos e transformado na comemoração do nascimento de Cristo, o Natal. Outro exemplo de festival religioso é o Álfablót, que é visto de acordo com as fontes originais como festival de cura ou de celebração dos ancestrais. Já o culto individual estava relacionado com pedidos aos deuses e normalmente apresentava pequenos sacrifícios ou pequenos rituais de magia.
Apesar de não possuírem uma classe de sacerdotes dedicada à religião, essa função, principalmente nos rituais e festivais, era realizada pelos reis ou nobres em espaços sagrados ou templos construídos para finalidades religiosas, como o Templo de Uppsala, na Suécia. Os vikings acreditavam em seres míticos, como elfos (Álfar) e anões (Dvergar), além de gigantes (Jötunn) e dragões. Um ser mítico importante na religião viking era as Nornas, que eram seres divinos que regiam o destino dos homens. A visão de universo dos nórdicos estava centralizada na Yggdrasil, um freixo que interligava os nove mundos existentes.
Possuíam como principal deus Odin, considerado o deus mais poderoso da religião nórdica e chamado de “pai dos deuses”. Conforme Johnni Langer:
Outros deuses importantes eram Thor, Freyja, Balder, Týr, Loki etc. O fim do mundo para os nórdicos aconteceria no chamado Crepúsculo dos deuses (Ragnarök), no qual os deuses seriam destruídos, assim como parte do universo, após uma batalha final. Entretanto, estudos recentes defendem a influência do cristianismo no Ragnarök, e outros apontam que o mito do fim do universo possuía pouca influência na religiosidade viking. Os vikings foram gradativamente sendo cristianizados a partir do século X, com a religiosidade tradicional vinda do paganismo ficando restrita ao ambiente privado e presente no folclore popular nórdico.

14.058 – O Fim do Mundo Segundo os Vikings


fim do mundo viking
Ragnarök é o termo dado à crença dos vikings a respeito da morte de seus deuses e do fim da era em que viviam. A palavra Ragnarök tem origem no nórdico antigo, e sua tradução, segundo Johnni Langer, é “consumação dos destinos dos poderes supremos”.
Na crença dos vikings, o Ragnarök consistiria em uma sucessão de eventos catastróficos que levariam à destruição do Universo e à morte de parte dos deuses.
Importante frisar que o termo “viking” é utilizado para se referir aos povos nórdicos que habitavam a Escandinávia durante a Era Viking, que abrange o período de 793 a 1066. Esse período iniciou-se com as navegações realizadas pelos nórdicos, responsáveis por levá-los para diversos locais, como Islândia, norte da França, América do Norte, etc.
O que é Ragnarök?
Ragnarök é o termo usado para se referir aos eventos narrados em alguns registros escandinavos que mostram como os vikings acreditavam que o Universo em que viviam acabaria. Esse tipo de discurso que retrata o fim do homem e do mundo é chamado de escatologia. Para os vikings, o Ragnarök seria marcado por grandes batalhas entre deuses, gigantes e outras figuras míticas.
Na narrativa nórdica, os eventos do Ragnarök seriam antecedidos por um período chamado fimbulvetr, em que ocorreriam três longos invernos consecutivos. Nesse período, o mundo ficaria coberto com geadas, e a violência tomaria conta do mundo. A respeito desse acontecimento, o registro nórdico narra o seguinte:
Após o longo inverno, a sequência de novos acontecimentos seria o prelúdio de que o Ragnarok iniciava-se. Os nórdicos acreditavam que dois lobos (Skoll e Hati) finalmente alcançariam e devorariam o sol e a lua, depois de persegui-los eternamente. É importante observar que, para os nórdicos, a lua era um personagem masculino, e o sol, um personagem feminino.

Após isso, a escatologia nórdica afirmava que estrelas desapareceriam, aconteceriam tremores na terra, árvores seriam arrancadas e, finalmente, todas as correntes seriam quebradas. Nisso, os filhos de Loki (filho de Odin) marchariam para Midgard (mundo dos homens) para a batalha final. Os filhos de Loki que teriam papéis de destaque no Ragnarök eram o lobo Fenrir, a serpente que circundava o mundo chamada Jörmungandr e a deusa do mundo dos mortos chamada Hel.
Loki, por sua vez, navegaria rumo ao local da batalha final com o gigante de gelo Hrymir e seu exército no navio Naglfar. Esse navio era produzido com restos das unhas de todos os soldados que haviam morrido em batalha. Finalmente, Surtur e outros gigantes de fogo destruiriam a ponte Bifrost, que ligava Asgard (morada dos deuses) à Midgard.
Quando essa sucessão de eventos acontecesse, Heimdall, o guardião da Bifrost, soaria sua corneta e convocaria os deuses para que a batalha final fosse travada. Os exércitos que lutariam contra as forças de Loki seriam formados pelos deuses de Asgard, pelos einherjar
A luta que seria travada a partir dali teria o seguinte desfecho:
Odin lutaria contra o lobo Fenrir e seria devorado.

Vídar, filho de Odin, mataria o lobo Fenrir.

Thor, filho de Odin, lutaria contra Jormungandr, mataria a serpente, mas seria morto por seu veneno.

Frey (deus da fertilidade, relacionada à agricultura) lutaria contra Surtur e seria morto pelo gigante de fogo.

Týr (deus da justiça) lutaria contra Garmr, o cão que protege o mundo dos mortos, e ambos morreriam.

Loki lutaria contra Heimdall, e ambos morreriam na luta.

Por fim, Surtur incendiaria todo o Universo.

O Ragnarök sugere que o Universo seria destruído conforme mencionado, mas registros nórdicos também retratam o surgimento de um novo mundo. Esse mundo emergiria do mar e seria uma terra verde e bela, inicialmente habitada por um casal de humanos (Lif e Lifthrasir) que sobreviveram ao Ragnarök. Esse mundo que surgiria seria governado por Vidar e Vali, filhos de Odin e sobreviventes do Ragnarök, e contaria também com a presença de outros deuses: Modi, Magni, Balder e Hödr.
Quais são as fontes que registram o Ragnarök?
Os eventos relacionados ao Ragnarök foram registrados em diversos documentos que retratam a cosmologia (visão de mundo) dos nórdicos. O principal registro que menciona o Ragnarök é chamado Edda em Prosa, em especial um trecho do capítulo “Gylfaginning” (“O logro de Gylfi”).
A Edda Poética também é um documento que contém algumas menções ao Ragnarök, com destaque para o poema “Völuspá” (“A profecia da vidente”). Segundo aponta Johnni Langer, outros poemas da Edda Poética mencionam o Ragnarök, como “Lokasenna” (“O sarcasmo de Loki”) e “Vafþrúðnismál” (“A balada de Váfthrudnir”).
A Edda em Prosa é um documento escrito pelo historiador e poeta islandês Snorri Sturluson por volta do ano 1220. Essa obra foi dividida em vários capítulos, e um deles, em específico, organizou as crenças e os mitos da religião dos nórdicos.
A Edda Poética, por sua vez, é uma coleção de poemas nórdicos que narram diferentes histórias sobre os deuses em que os vikings acreditavam. Os poemas da Edda Poética fazem parte de um manuscrito chamado Codex Regius, encontrado na Islândia em 1643. O autor desses poemas é desconhecido até hoje.
A respeito do Ragnarök, existe uma certa contestação a respeito da veracidade desse mito, se de fato ele pertencia à crença religiosa dos vikings. Isso porque as evidências a respeito do Ragnarök são bem escassas. Existem aqueles que afirmam que a crença no Ragnarök é uma influência do Cristianismo na religiosidade dos vikings, mas não há consenso acadêmico sobre isso.
O historiador Johnni Langer sugere que a crença dos escandinavos no Ragnarök pode ter sido fruto da observação astronômica, mas também sugere que, se o Ragnarök não possui influências cristãs, pode não ter tido grande relevância na mentalidade nórdica, pois os registros, como citado, são bem raros.

14.011- Mega Questões – Somos programados para acreditar em um Deus?


netuno
Deus Netuno ou Poseidon

A religião – a crença em seres sobrenaturais, incluindo deuses e fantasmas, anjos e demônios, almas e espíritos – está presente em todas as culturas e permeia toda a História.

A discussão sobre a vida após a morte remonta a, pelo menos, 50.000 a 100.000 anos atrás.
É difícil obter dados precisos sobre o número de crentes de hoje, mas algumas pesquisas sugerem que até 84% da população do mundo são membros de grupos religiosos ou dizem que a religião é importante em suas vidas.
Vivemos em uma era de um acesso ao conhecimento científico sem precedentes, o que alguns acreditam que é incompatível com a fé religiosa. Então, por que a religião é tão difundida e persistente?
Os psicólogos, filósofos, antropólogos e até mesmo os neurocientistas sugerem possíveis explicações para a nossa disposição natural de acreditar, e para o poderoso papel que a religião parece ter em nossas vidas emocionais e sociais.

Morte, cultura e poder
Mas antes de falar das teorias atuais, é preciso entender como surgiram as religiões e o papel que elas tiveram na vida de nossos ancestrais.
As primeiras atividades religiosas foram em resposta a mudanças corporais, físicas ou materiais no ciclo da vida humana, especialmente a morte.
Os rituais de luto são uma das mais antigas formas de experiência religiosa. Muitos de nossos antepassados não acreditavam que a morte era necessariamente o fim da vida – era apenas uma transição.
Alguns acreditavam que os mortos e outros espíritos podiam ver o que estava acontecendo no mundo e ainda tinham influência sobre os eventos que estão ocorrendo.
E essa é uma noção poderosa. A ideia de que os mortos ou até mesmo os deuses estão com a gente e podem intervir em nossas vidas é reconfortante, mas também nos leva a ter muito cuidado com o que fazemos.
Os seres humanos são essencialmente sociais e, portanto, vivem em grupos. E como grupos sociais tendem à hierarquia, a religião não é exceção.
Quando há um sistema hierárquico, há um sistema de poder. E em um grupo social religioso, a hierarquia localiza seu membro mais poderoso: a divindade – Deus.
É para Deus que temos de prestar contas. Hoje em dia, a religião e o poder estão conectados. Estudos recentes mostram que lembrar de Deus nos faz mais obedientes.
Até em sociedades que reprimiram a fé, surgiu algo que tomou seu lugar, como o culto a um líder ou ao Estado.
E quanto menos estável é um país politica ou economicamente, mais provável que as pessoas busquem refúgio na religião. Os grupos religiosos podem, ao menos, oferecer o apoio que o Estado não fornece a quem se sente marginalizado.
Assim, fatores sociais ajudam a desenvolver e fortalecer a fé religiosa, assim como a forma como nos relacionamos com o mundo e com os outros.

Outras mentes
Em todas as culturas, os deuses são, essencialmente, pessoas, mesmo quando têm outras formas.
Hoje, muitos psicólogos pensam que acreditar em deuses é uma extensão do nosso reconhecimento, como animais sociais, da existência de outros. E uma demonstração da nossa tendência de ver o mundo em termos humanos.
Nós projetamos pensamentos e sentimentos humanos em outros animais e objetos, e até mesmo nas forças naturais – e essa tendência é um dos pilares da religião.
ssim argumentou-se que a crença religiosa pode ser baseada em nossos padrões de pensamento e de cultura humana. Alguns cientistas, no entanto, foram além e analisaram nossos cérebros em busca do lendário “ponto Deus”.

Deus no cérebro
Os neurocientistas têm tentado comparar os cérebros dos crentes e ao dos céticos, para ver o que acontece no nosso cérebro quando rezamos ou meditamos. Se conhece pouquíssimo sobre esse campo – mas há algumas pistas, especialmente no que diz respeito às aéreas cerebrais.
O córtex pré-frontal medial está fortemente associado com a nossa capacidade e tendência para entender os pensamentos e sentimentos dos outros. Muitos estudos têm mostrado que esta região do cérebro está especialmente ativa entre os crentes religiosos, especialmente quando estão rezando. Isso corrobora a visão de que a fé religiosa é uma forma de interação social.
Já o lobo parietal, de acordo com estudos pode estar envolvido em experiências religiosas, especialmente aquelas caracterizadas com a dissolução do ego.
Na medida em que estamos constantemente à procura de padrões, estruturas e relações de causa-efeito, a religião pode fornecer uma variedade de estratégias para que essa busca faça sentido
As crenças religiosas ajudam os seres humanos a se organizar e dar sentido a suas vidas. E em todas as culturas, e até mesmo entre ateus, os rituais podem ajudar a pontuar eventos importantes da vida.
Embora nem a neurociência, nem a antropologia e nem filosofia tenham uma resposta definitiva para a questão “Deus existe?”, todas essas disciplinas dão pistas sobre como nós respondemos às nossas mais profundas necessidades humanas.
Talvez não sejamos programados para acreditar em Deus ou em um poder sobrenatural, mas somos animais sociais com uma necessidade evolutiva de ficar conectado com o mundo e com os outros.
De repente, as religiões são apenas canais para permitir essas conexões.

14.009 – História – Catolicismo guerreiro no Brasil


igreja e guerrilha
Se Deus está do seu lado, que chances pode ter o inimigo? Esta lógica – que remete a populares versos musicais de igrejas brasileiras – marcou um importante episódio nos primórdios de nossa colonização. Quando os franceses tentaram instalar-se em terras brasileiras – na experiência conhecida como França Antártica (1555-1567) – deu-se início a uma guerra que ia muito além da disputa territorial [Ver RHBN nº 49].
No poema épico De Gestis Mendi de Saa (Dos feitos de Mem de Sá), o padre jesuíta José de Anchieta deixa claro o que estava em jogo: de um lado, o Deus, dos portugueses católicos; do outro, o Diabo, dos invasores calvinistas. Reproduzia-se, assim, o confronto entre Reforma e Contra-Reforma.
Nos três primeiros livros do De Gestis, há uma batalha incessante entre duas bandeiras: a divina, defendida pelo governador-geral Mem de Sá (1504 c.-1572), e a demoníaca, representada pelos índios pagãos. No quarto e último livro, mudam as bandeiras: de um lado, o Catolicismo; do outro, os protestantes.

(…) com o coração infeccionado pela heresia,

e com a mente opressa pelas trevas do erro,

não só todos se afastam do reto caminho da crença,

mas procuram perverter, assim dizem, com falsas doutrinas

os míseros povos índios, de todo ignorantes.
A guerra contra os franceses calvinistas é considerada justa não somente pelos tradicionais critérios políticos – os invasores apossaram-se de terras lusas – mas, sobretudo, porque durante o confronto foram anunciados os decretos do Concílio de Trento (1545-1563), importante medida da Igreja Católica em reação às heresias protestantes. A principal motivação tornou-se, portanto, uma questão de fé.
Nos versos em que descreve a morte de sete soldados franceses engolidos pelo fogo, Anchieta afirma que aqueles homens infelizes já começavam a sentir as chamas do inferno “em que os ímpios corações, manchados pela heresia, sofrerão o eterno castigo que seus crimes merecem”. Ao escolher o plural para o substantivo “crime”, Anchieta amplia o foco da guerra justa: o que estava em jogo não era apenas o caráter político de invasão do território, mas o direito de combater em nome de Deus. Entre as duas bandeiras dessa guerra, apenas uma carregava a verdadeira fé cristã, aquela que segue os dogmas reafirmados da Igreja Católica, lutando por Deus e com o apoio Dele: “Com a ajuda divina, em vão as balas cortam os ares:/ antes, a pólvora explode no paiol inimigo”.
O Concílio de Trento reafirma os dogmas da Igreja Católica como verdade religiosa indiscutível para todos os cristãos, incluindo o rito sagrado do Sacramento, instituído por Jesus Cristo para dar, confirmar ou aumentar a graça do fiel. O herói Mem de Sá, seguido por seus soldados, pratica o sacramento da penitência antes de partir para a guerra contra os franceses calvinistas, como indica o poema: “Então purifica sua alma/ das culpas e a fortifica com as armas de Cristo,/ caindo de joelhos aos pés do ministro sagrado”. Ao colocar em evidência esse rito, Anchieta não somente traduz em versos as determinações do Concílio de Trento como também sugere que, por não o praticarem, os franceses heréticos estavam fadados à derrota: “Ele incutirá forças e ajudará compassivo/ a causa do justo e do fiel (…)/ abaterá e esmagará o inimigo, castigando co´a morte/ corações ímpios, vazios de fé verdadeira”.
Mem de Sá ajoelha-se aos pés do ministro sagrado – um jesuíta da Companhia de Jesus – e quando o exército luso encontra-se na iminência de uma grande derrota, apela à intervenção divina, lançando aos céus palavras em prece: “Estende a mão bondosa e sinta teu furor justiceiro/ a raça inimiga”. Mem de Sá pede intervenção divina, não pela injustiça política praticada pelos franceses, mas porque eles são praticantes do crime “feio da heresia”, pois insultam soldados “cristãos” e “fiéis”.
O governador-geral não estava sozinho em suas preces. Os jesuítas e os povos fiéis o acompanhavam em oração. Aliavam-se, assim, com a ideia da Igreja de Roma como indispensável mediadora entre Deus e os homens. Para os protestantes, a Igreja ficava em segundo plano, bastando a fé em Deus e a livre interpretação da Bíblia para que se atingisse a salvação.
Os portugueses sentiam-se favorecidos pela intervenção divina. Acometidos de pavor inexplicável, os franceses fogem do forte Coligny, na Ilha de Villegagnon. “tão firme e tão seguro pela arte da guerra (…) tamanho era o terror que o Senhor Deus onipotente lhes metera nas mentes e corações apavorados”. Ao invadirem o local, os portugueses “fincam logo a cruz vencedora no cimo do forte e aclamam o nome santo de Cristo”. Na ação narrada por Anchieta, o “ministro alado de Deus” simboliza um anjo real que, em forma de guerreiro, alia-se ao exército para levá-lo à vitória contra os falsos cristãos.
A tomada do forte é militar. O produto da guerra é teológico. Dessa batalha entre Deus e o Diabo, os protestantes saíram derrotados por defenderem a bandeira “errada”. Pregavam uma doutrina cheia de “impiedades e erros” porque se afastaram da verdadeira e correta interpretação que a Igreja de Roma faz das Escrituras Sagradas. Os adjetivos usados contra Martinho Lutero sugerem que agira sob inspiração demoníaca ou corrompido por ela. “Enraivado”, ou seja, movido por forte paixão, cega-se diante da verdade e profere blasfêmias contra o representante de Cristo na terra e contra a própria Igreja, insultando o divino, aquilo que é sagrado.
Sobre Calvino, Anchieta iguala-o ao demônio: “a fera que os abismos do inferno há pouco arrotaram de suas vasas profundas”. Nos versos do poema épico, o reformista francês é dragão e serpente de movimentos sinuosos, de caráter pouco reto, que “abraça no rolo de suas espirais o forte” – ou seja, transforma-o no próprio inferno. “Calvino vencer a Cristo,/ Senhor do céu e da terra?”, eis uma hipótese absurda. A morte na cruz significara a vitória sobre o “dragão que habitava as cavernas do inferno”, abrindo para os católicos a possibilidade da salvação, o mesmo não ocorrendo para os protestantes.
De posse do forte, os portugueses erguem um altar e o sacerdote, na veste sagrada, celebra o banquete augusto do pão sacrossanto, que jamais fora ali celebrado, diz Anchieta, pois “a geração de Calvino rejeita com impiedade o alimento celeste, nem crê que as espécies de pão encerram a Cristo”.
Se Deus estava com eles, que chances teriam os inimigos? As circunstâncias históricas, naquele caso, sorriram à fé católica e aos dogmas da Contra-Reforma. Embora, nas guerras em nome de Deus, ninguém possa dizer quem tem razão.

13.995 – Saiba mais sobre a Páscoa no ☻Mega


pascoa
Muito antes de ser considerada a festa da ressurreição de Cristo, a Páscoa anunciava o fim do inverno e a chegada da primavera. A Páscoa sempre representou a passagem de um tempo de trevas para outro de luzes, isto muito antes de ser considerada uma das principais festas da cristandade. A palavra “páscoa” – do hebreu “peschad”, em grego “paskha” e latim “pache” – significa “passagem”, uma transição anunciada pelo equinócio de primavera (ou vernal), que no hemisfério norte ocorre a 20 ou 21 de março e, no sul, em 22 ou 23 de setembro.

A páscoa judaica (em hebraico פסח, ou seja, passagem) é o nome do sacríficio executado em 14 de Nissan segundo o calendário judaico e que precede a Festa dos Pães Ázimos (Chag haMatzot). Geralmente o nome Pessach é associado a esta festa também, que celebra e recorda a libertação do povo de Israel do Egito, conforme narrado no livro de Êxodo.

A festa cristã da Páscoa tem origem na festa judaica, mas tem um significado diferente. Enquanto para o Judaísmo, Pessach representa a libertação do povo de Israel no Egito, no Cristianismo a Páscoa representa a morte e ressurreição de Jesus (que supostamente aconteceu na Pessach) e de que a Páscoa Judaica é considerada prefiguração, pois em ambos os casos se celebra uma “libertação do povo de Deus”, a sua passagem da escravidão (do Egito/do pecado) para a liberdade.

De fato, para entender o significado da Páscoa cristã, é necessário voltar para a Idade Média e lembrar dos antigos povos pagãos europeus que, nesta época do ano, homenageavam Ostera, ou Esther – em inglês, Easter quer dizer Páscoa.
Ostera (ou Ostara) é a Deusa da Primavera, que segura um ovo em sua mão e observa um coelho, símbolo da fertilidade, pulando alegremente em redor de seus pés nus. A deusa e o ovo que carrega são símbolos da chegada de uma nova vida. Ostara equivale, na mitologia grega, a Persephone. Na mitologia romana, é Ceres.

Estes antigos povos pagãos comemoravam a chegada da primavera decorando ovos. O próprio costume de decorá-los para dar de presente na Páscoa surgiu na Inglaterra, no século X, durante o reinado de Eduardo I (900-924), o qual tinha o hábito de banhar ovos em ouro e ofertá-los para os seus amigos e aliados.

Por que o ovo de Páscoa?
O ovo é um destes símbolos que praticamente explica-se por si mesmo. Ele contém o germe, o fruto da vida, que representa o nascimento, o renascimento, a renovação e a criação cíclica. De um modo simples, podemos dizer que é o símbolo da vida.

Os celtas, gregos, egípcios, fenícios, chineses e muitas outras civilizações acreditavam que o mundo havia nascido de um ovo. Na maioria das tradições, este “ovo cósmico” aparece depois de um período de caos.

Na Índia, por exemplo, acredita-se que uma gansa de nome Hamsa (um espírito considerado o “Sopro divino”), chocou o ovo cósmico na superfície de águas primordiais e, daí, dividido em duas partes, o ovo deu origem ao Céu e a Terra – simbolicamente é possível ver o Céu como a parte leve do ovo, a clara, e a Terra como outra mais densa, a gema.

O mito do ovo cósmico aparece também nas tradições chinesas. Antes do surgimento do mundo, quando tudo ainda era caos, um ovo semelhante ao de galinha se abriu e, de seus elementos pesados, surgiu a Terra (Yin) e, de sua parte leve e pura, nasceu o céu (Yang).
Para os celtas, o ovo cósmico é assimilado a um ovo de serpente. Para eles, o ovo contém a representação do Universo: a gema representa o globo terrestre, a clara o firmamento e a atmosfera, a casca equivale à esfera celeste e aos astros.
Na tradição cristã, o ovo aparece como uma renovação periódica da natureza. Trata-se do mito da criação cíclica. Em muitos países europeus, ainda hoje há a crença de que comer ovos no Domingo de Páscoa traz saúde e sorte durante todo o resto do ano. E mais: um ovo posto na sexta-feira santa afasta as doenças.

Por que o Coelho de Páscoa?

coelho
Coelhos não colocam ovos, isto é fato! A tradição do Coelho da Páscoa foi trazida à América por imigrantes alemães em meados de 1700. O coelhinho visitava as crianças, escondendo os ovos coloridos que elas teriam de encontrar na manhã de Páscoa.
Uma outra lenda conta que uma mulher pobre coloriu alguns ovos e os escondeu em um ninho para dá-los a seus filhos como presente de Páscoa. Quando as crianças descobriram o ninho, um grande coelho passou correndo. Espalhou-se então a história de que o coelho é que trouxe os ovos. A mais pura verdade, alguém duvida?
No antigo Egito, o coelho simbolizava o nascimento e a nova vida. Alguns povos da Antigüidade o consideravam o símbolo da Lua. É possível que ele se tenha tornado símbolo pascal devido ao fato de a Lua determinar a data da Páscoa.
Mas o certo mesmo é que a origem da imagem do coelho na Páscoa está na fertililidade que os coelhos possuem. Geram grandes ninhadas! Assim, os coelhos são vistos como símbolos de renovação e início de uma nova vida. Em união com o mito dos Ovos de Páscoa, o Coelho da Páscoa representa a renovação de uma vida que trará boas novas e novos e melhores dias, segundo as tradições.

Outros símbolos da Páscoa
O cordeiro é um dos principais símbolos de Jesus Cristo, já que é considerado como tendo sido um sacrifício em favor do seu rebanho. Segundo o Novo Testamento, Jesus Cristo é “sacrificado” durante a Páscoa (judaica, obviamente). Isso pode ser visto como uma profecia de João Batista, no Evangelho segundo João no capítulo 1, versículo 29: “Eis o Cordeiro de Deus, Aquele que tira o pecado do mundo”.
Paulo de Tarso (na primeira epístola a Coríntio no capítulo 5, versículo 7) diz: “Purificai-vos do velho fermento, para que sejais massa nova, porque sois pães ázimos, porquanto Cristo, nossa Páscoa, foi imolado.“
Jesus, desse modo, é tido pelos cristãos como o Cordeiro de Deus (em latim: Agnus Dei) que supostamente fora imolado para salvação e libertação de todos do pecado. Para isso, Deus teria designado sua morte exatamente no dia da Páscoa judaica para criar o paralelo entre a aliança antiga, no sangue do cordeiro imolado, e a nova aliança, no sangue do próprio Jesus imolado. Assim, a partir daquela data, o Pecado Original tecnicamente deixara de existir.
cruz_ominiatura.jpgA Cruz também é tida como um símbolo pascal. Ela mistifica todo o significado da Páscoa, na ressurreição e também no sofrimento de Jesus. No Concílio de Nicea em 325 d.C, Constantino decretou a cruz como símbolo oficial do cristianismo. Então, ela não somente é um símbolo da Páscoa, mas o símbolo primordial da fé católica.
O pão e o vinho simbolizam a vida eterna, o corpo e o sangue de Jesus, oferecido aos seus discípulos, conforme é dito no capítulo 26 do Evangelho segundo Mateus, nos versículos 26 a 28: “Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-o e o deu aos discípulos, dizendo: Tomai e comei, isto é meu corpo. Tomou depois o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: Bebei dele todos, porque isto é meu sangue, o sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens em remissão dos pecados.“

Por que a Páscoa nunca cai no mesmo dia todos os anos?
O dia da Páscoa é o primeiro domingo depois da Lua Cheia que ocorre no dia ou depois de 21 março (a data do equinócio). Entretanto, a data da Lua Cheia não é a real, mas a definida nas Tabelas Eclesiásticas. (A igreja, para obter consistência na data da Páscoa decidiu, no Concílio de Nicea em 325 d.C, definir a Páscoa relacionada a uma Lua imaginária – conhecida como a “lua eclesiástica”).
A Quarta-Feira de Cinzas ocorre 46 dias antes da Páscoa, e portanto a Terça-Feira de Carnaval ocorre 47 dias antes da Páscoa. Esse é o período da quaresma, que começa na quarta-feira de cinzas.
Com esta definição, a data da Páscoa pode ser determinada sem grande conhecimento astronômico. Mas a seqüência de datas varia de ano para ano, sendo no mínimo em 22 de março e no máximo em 24 de abril, transformando a Páscoa numa festa “móvel”. De fato, a seqüência exata de datas da Páscoa repete-se aproximadamente em 5.700.000 anos no nosso calendário Gregoriano.

Tabela com as datas da Páscoa até 2020
2000: 23 de Abril (Igrejas Ocidentais); 30 de Abril (Igrejas Orientais)
2001: 15 de Abril
2002: 31 de Março (Igrejas Ocidentais); 5 de Maio (Igrejas Orientais)
2003: 20 de Abril (Igrejas Ocidentais); 27 de Abril (Igrejas Orientais)
2004: 11 de Abril
2005: 27 de Março (Igrejas Ocidentais); 1 de Maio (Igrejas Orientais)
2006: 16 de Abril (Igrejas Ocidentais); 23 de Abril (Igrejas Orientais)
2007: 8 de Abril
2008: 23 de Março (Igrejas Ocidentais); 27 de Abril (Igrejas Orientais)
2009: 12 de Abril (Igrejas Ocidentais); 19 de Abril (Igrejas Orientais)
2010: 4 de Abril
2011: 24 de Abril
2012: 8 de Abril (Igrejas Ocidentais); 15 de Abril (Igrejas Orientais)
2013: 31 de Março (Igrejas Ocidentais); 5 de Maio (Igrejas Orientais)
2014: 20 de Abril
2015: 5 de Abril (Igrejas Ocidentais); 12 de Abril (Igrejas Orientais)
2016: 27 de Março (Igrejas Ocidentais); 1 de Maio (Igrejas Orientais)
2017: 16 de Abril
2018: 1 de Abril (Igrejas Ocidentais); 8 de Abril (Igrejas Orientais)
2019: 21 de Abril (Igrejas Ocidentais); 28 de Abril (Igrejas Orientais)
2020: 12 de Abril (Igrejas Ocidentais); 19 de Abril (Igrejas Orientais)
No final das contas, a páscoa é mais um rito de povos antigos, assimilado pela Igreja Cristã de modo a impor sua influência. Substituindo venerações à natureza (como no caso da Lua ou do Equinócio, tipicamente pagãs) por uma outra figura da mitologia, tomando os siginificados do judaísmo, os símbolos celtas e fenícios, remodelando mediante os Evangelhos e dando uma decoração final, criou-se um “ritual colcha de retalhos”.

13.959 – Reflexões sobre Ateísmo e Agnosticismo


einstein
O pai da Teoria da Relatividade afirmou em múltiplas ocasiões acreditar na visão de Deus de acordo do o panteísmo. Trata-se de uma vertente definida pelo filósofo holandês Baruch Spinoza, na qual tudo e todos fazem parte da composição de Deus, refutando a possibilidade de um Deus individual ou antropomórfico.

Einstein também se definiu como agnóstico, ou seja, ele reconhecia a possibilidade da existência de um deus – por mais difícil que fosse descobrir se isso é verdade ou não. O cientista escolheu esse caminho em vez do ateísmo porque acreditava ser um ato de humildade. “Você pode me chamar de agnóstico, mas eu não concordo com o espírito do ateu profissional cujo fervor é um ato de dolorosa restrição da doutrinação religiosa da juventude. Eu prefiro ter uma atitude de humildade em relação ao quão pouco entendemos sobre a natureza e nossos próprios seres”, escreveu à Guy H. Raner Jr. em setembro de 1949.

Carl Cosmos
Série Cosmos,um dos legados de Carl Sagan

Carl Sagan
Assim como Einstein, Sagan negou ser ateu. O fato ficou publicamente conhecido e passou a ser discutido a partir de uma entrevista com o cosmólogo publicada no Washington Post em 1996. “Um ateu tem que saber muito mais do que eu sei. Um ateu é alguém que sabe que não existe um Deus”, disse Sagan.
Em 2014, Joel Achenbach escreveu uma matéria também para o WP sobre o assunto. Como a cada duas semanas ele recebia pelo menos um e-mail questionando a religiosidade de Sagan, o jornalista decidiu ir além, tentando interpretar melhor o posicionamento do cientista por meio de cartas dele e entrevistas com pessoas próximas a ele.
Em uma carta à Robert Pope, Sagan escreveu: “Eu não sou um ateu. Um ateu é alguém que tem evidências persuasivas de que não existe um Deus Judaico-Católico-Islâmico. Eu não sou tão sábio, mas ao mesmo tempo não considero que exista algo próximo à uma evidência adequada para a existência de um deus”.
David Morrison, aluno de Sagan na época, afirmou que o professor “agia como um ateu, mas rejeitava o rótulo”. “Acho que parecia absoluto demais para ele. Ele sempre tentava estar aberto a novas evidências em qualquer assunto”, disse, em entrevista ao Washington Post. Já a viúva de Sagan, Ann Druyan, acredita que a frase não está aberta à interpretações: “Carl quis dizer exatamente o que ele disse. Ele não sabia se existia um deus. Ao meu ver, um ateu sabe que não existe um deus ou algo equivalente. Carl estava confortável com o rótulo de ‘agnóstico’, mas não de ateu”.

hawking

Stephen Hawking
Hawking se define como ateu. “Eu não sou religioso no senso comum. Eu acredito que o universo é governado pelas leis da ciência. As leis podem ter sido decretadas por Deus, mas Ele não intervém para quebrar as leis”, disse o cientista em 2007 para a BBC.
Ah, e claro, acredita na supremacia da ciência. “Existe uma diferença fundamental entre a religião, que é baseada na autoridade, e a ciência, que é baseada na observação e na razão. A ciência vencerá porque ela funciona”, explicou em outra ocasião, três anos depois, à jornalista Diane Sawyer, no ABC World News.

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Neil Degrasse Tyson
O cientista americano se considera um agnóstico. Em ocasiões passadas, o apresentador de Cosmos ressaltou que, se acreditasse em um deus, não seria na forma descrita pelas três maiores religiões monoteístas do mundo. “Todo relato de um poder maior sobre os quais já ouvi, todas as religiões que vi, incluem declarações relacionadas à benevolência desse poder. Quando eu olho para o universo e todas as formas em que o universo quer acabar conosco, acho difícil considerar tal discurso altruísta”, disse o cientista.
Um dos motivos pelos quais Tyson se declara agnóstico e não ateu é a falta de energia para lidar com o segundo grupo. Em uma entrevista, ele explicou que, ao usar “Deus” em um post no Facebook em 2012, o cientista foi duramente criticado por seus seguidores. “Como alguém como você poderia falar em Deus?”, disseram, entre outras coisas. “Estou perfeitamente bem com todas as pessoas religiosas que vivem ao meu redor. Não estou tentando converter as pessoas, não me importo. Somos uma sociedade que permite a pluralidade de religiões e eu estou bem com isso”, explicou em uma entrevista. “Só mantenha isso fora da sala de aula de ciência.”

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Richard Dawkins
Sem dúvidas o cientista é conhecido por ser um dos principais advogados públicos do ateísmo.
“Como cientista, eu me sinto apaixonado pela verdade. Eu amo a verdade, ela é tão empolgante. O criacionismo é um insulto ao intelecto, então qualquer cientista vai querer lutar contra isso. Eu nunca quis nada além de lutar contra o criacionismo. Nunca decidi me tornar uma figura pública, mas sempre senti a necessidade de advogar por esta causa e se, por consequência, me tornei uma pequena figura pública, foi incidentalmente”.

13.951 -☻Mega Polêmica Bíblica


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Das páginas da Bíblia para o ☻Mega

TROCA DE ESPOSAS

LIVRO – Gênesis, capítulo 21, versículos 1-14

QUESTÃO – Ciúme e vingança

O patriarca Abraão, sua mulher, Sara, e a escrava Agar viveram um triângulo amoroso complicado. Sara era estéril e, ao passar dos 70 anos, sugeriu ao marido que tomasse uma nova esposa. Agar foi a escolhida e deu à luz Ismael, mas Sara se arrependeu. Engravidou 14 anos depois, teve Isaac e, enciumada, exigiu a expulsão da rival e do filho dela. Supostamente, a briga rende até hoje: Ismael teria dado origem ao povo árabe, e Isaac, ao povo judeu.

Adultério, vingança e assassinato
A história de João Batista, primo de Jesus, vale como alerta: cuidado onde você mete seu bedelho. João reprovava o caso entre Herodes Antipas, rei da Galileia, e a cunhada dele, Herodias. No aniversário do monarca, sua enteada Salomé o presenteou com uma dança sensual. Em troca, Herodes prometeu a ela o que quisesse. Ela não hesitou: exigiu a cabeça de João numa bandeja.

Sofrimento desnecessário
Às vezes, para ensinar uma lição, Deus pode propor testes de fé bem árduos. Foi o que rolou com Jó, um homem justo e íntegro. Satanás apostou com Deus que, se Jó perdesse suas riquezas, voltaria-se contra o Criador. Deus topou. Autorizou que seu adversário lançasse várias pragas contra Jó: ele perdeu os filhos, teve os bens roubados e ficou coberto de úlceras. Mas nunca blasfemou contra os céus. Sensibilizado, Deus restituiu, em dobro, tudo o que possuía.

Genocídio
Guerras com motivações religiosas sempre causaram polêmica. Mas não na Bíblia. A mais sangrenta, do bisneto do rei Salomão, Asa, contra o monarca etíope Zara, matou mais de 1 milhão de pessoas! E com a bênção divina: “É em teu nome que marchamos contra essa multidão!”, clamou Asa antes de atacar com apenas metade de seu exército.

Sexo e assassinato
Nos tempos bíblicos, era comum a prática do levirato: quando um homem morria sem herdeiros, seu irmão casava-se com a viúva e seus filhos eram considerados descendentes do morto. Mas nem todos aprovavam a ideia. Onã se rebelou e, em vez de engravidar a cunhada Tamar, praticava o coito interrompido, ou seja, “derramava seu sêmen por terra”. Deus não gostou e tirou sua vida. Foi daí que surgiu o termo “onanismo”, sinônimo de masturbação.
Sexo
Abraão pediu a um servo para achar uma mulher para seu filho Isaac, como era costume. O curioso é que o acordo foi selado conforme a tradição: o servo colocou “a mão sob a coxa” de Abraão – ou, dizem os estudiosos, segurou seus testículos. Isso porque a circuncisão (remoção da pele sobre o pênis) era sinal da aliança divina (“testículo” vem do latim testis, que também originou “testemunha”).

Poligamia
Salomão entrou para a história como um homem inteligente e justo. Mas ele tinha outros atributos. Segundo a Bíblia, o filho de Davi teria tido 700 esposas. E, por fora, ainda pegava mais 300 concubinas. Segundo historiadores, o harém devia-se, em parte, aos casamentos com estrangeiras por motivos diplomáticos. Entre as esposas, havia gente de todos os lugares: hititas, moabitas, edomitas…

Fratricídio
Irmãos nunca se deram muito bem na Bíblia – vide casos como Caim e Abel, Isaac e Ismael e Esaú e Jacó. Mas o maior fratricida das escrituras é Abimelec. Para assumir o trono, o filho de Gedeão matou ou mandou matar 69 de seus 70 irmãos. Só o caçula, Joatão, escapou – e isso porque fugiu. Mas o reinado de Abimelec não durou. Três anos depois, morreu ao levar uma pedrada na cabeça.

Incesto
Revoltado com as bizarrices sexuais que rolavam em Sodoma e Gomorra, Deus destruiu ambas as cidades. Ló, sobrinho de Abraão que morava em Sodoma, conseguiu escapar com suas duas filhas e se escondeu em uma caverna. Certas de que eram as últimas mulheres da Terra, as jovens tomaram uma atitude chocante: encheram a cara do pai de vinho e mantiveram relações sexuais com ele por duas noites seguidas. Do incesto, nasceram Moab e Ben-Ami.

Crueldade
Você acha que seu sogro é barra pesada? É porque não conheceu o patriarca Saul. Sua filha caçula, Mical, estava apaixonada por Davi. Só que Saul considerava o futuro genro um rival na luta pelo poder central entre Judá e as tribos do norte. Para impedir o matrimônio, o velho teve uma ideia: pedir um dote de casamento que Davi não conseguiria pagar. Exigiu então 100 prepúcios (aquela pele que cobre a extremidade do pênis) de soldados filisteus. O rapaz deve ter estranhado, mas, em vez de 100, trouxe logo 200. Sem alternativa, Saul teve de entregar a mão da filha.

13.950 – Mega Polêmica Bíblica – Em Êxodo 4,24, Deus procura matar a Moisés (?)


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“Aconteceu que no caminho, numa hospedaria. Iahweh veio ao seu encontro e procurava fazê-lo morrer. Séfora tomou uma pedra aguda e cortou o prepúcio de seu filho, feriu-lhe os pés e disse: “Tu és para mim esposo de sangue”. (Êxodo 4,24) Bíblia de Jerusalém.
Explicação do Catolicismo:
De fato a circuncisão (própria para os povos do deserto) e para o povo hebreu sinal da pertença e da Aliança de Deus com seu povo, não estava sendo observada por Moisés, se pode imaginar que este fato tenha atraindo a ira divina. O gesto de sua mulher Séfora tenta apaziguar a ira divina. Ela apanhando uma pedra cortante, circuncida seu filho Gérson.
O que faz Séfora indica o motivo do desagrado de Deus. Séfora realiza no filho deles (Gérson) a circuncisão, usando uma pedra cortante. A circuncisão, apesar de ainda não existir na lei de Deus escrita, era praticada pelo povo de Deus por conta da ordem de Deus a Abraão:
“Eis a minha aliança, que será observada entre mim e vós e tua raça depois de ti: que todos os vossos machos sejam circuncidados” (Gênesis 17,10) Bíblia de Jerusalém
O que percebemos com isso é que Moisés e Séfora não haviam observado esse sinal da aliança (a circuncisão realizada nos meninos de oito dias) por algum motivo que não o texto de livro do Êxodo não relatado. O texto mostra que Séfora circuncida o filho Gérson e simula uma circuncisão em Moisés tocando o sexo dele (o texto fala em “seus pés: ) com o prepúcio da criança. Tentando apaziguar a fúria divina.
O episódio foi educativo por parte de Deus”, então Séfora e Moisés souberam que essa negligência partiu deles: “Assim, o SENHOR o deixou. Ela disse: Esposo sanguinário, por causa da circuncisão” (Êxodo 4,26).

Concluindo:
O episódio nos ensina a grande importância que Deus dá ao testemunho de Seus servos escolhidos para uma missão. Moisés, sendo um servo de Deus, deveria observar detalhadamente as exigências de Deus, não podiam ser omisso em nada. A vida de Moises estava sendo testada ele não podia anunciar a palavra de Deus e na prática viver de outra forma.

13.825 – História – Catolicismo na Idade Média


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O cristianismo estabeleceu-se como instituição nos séculos finais do Império Romano. Enquanto o Império Romano desmanchava-se em crises internas, a Igreja Católica fortaleceu-se e firmou suas bases. A perseguição aos cristãos encerrou-se a partir de 313 com o Édito de Milão, assinado pelo imperador Constantino. A partir de 380, com a assinatura do Édito de Tessalônica pelo imperador Teodósio, o Cristianismo transformou-se na religião oficial do Império.
O estabelecimento da Igreja e a formação da doutrina eclesiástica ocorreram mediante os conflitos causados pelas heresias, isto é, todas as doutrinas religiosas que não estavam de acordo com a ortodoxia vigente. Essas heresias colocavam a existência da Igreja em risco e foram duramente combatidas. Como exemplos, podemos citar o gnosticismo, pelagianismo, priscilianismo e o arianismo, uma das heresias que mais possuiu adeptos.

O arianismo surgiu por meio da doutrina de Ário (viveu no século IV) e negava o conceito da Trindade. Para Ário, o Pai e Cristo não partilhavam da mesma substância, assim, Cristo não era Deus. Ele considerava Cristo uma criação do Pai e, apesar de divino, era inferior ao Pai. O arianismo conquistou inúmeros adeptos pelo mundo cristão, chegando a ser defendido por imperadores, como foi o caso de Constâncio II.
O problema do arianismo foi tão grande que foi difundido sobre os povos germânicos a partir de Úlfilas, que converteu os godos, espalhando-se para ostrogodos, visigodos, vândalos etc. A Igreja Católica firmou-se entre os povos germânicos a partir da conversão de Clóvis, rei dos francos no século VI.
Esse primeiro momento de estabelecimento da Igreja deveu-se muito a algumas personalidades, como Santo Agostinho, Santo Atanásio, São Jerônimo, Gregório Magno etc. Todos contribuíram para a construção da doutrina eclesiástica e o fortalecimento da Igreja a partir do combate às heresias.
Afastamento de Bizâncio e o surgimento do Islã
Após a evangelização dos povos germânicos, o Cristianismo enfrentou nova ameaça à sua hegemonia com o surgimento do Islamismo e sua expansão fulminante a partir do conceito de guerra santa, a jihad. Assim, o islamismo expandiu-se por todo o Norte da África e, a partir de 711, conquistou quase toda a Península Ibérica. A expansão muçulmana na Europa só foi interrompida em 732, na batalha de Poitiers, que impediu a entrada dos muçulmanos no Reino dos Francos.
Além do Islã, a Igreja enfrentou também o afastamento entre o cristianismo sediado em Roma e o cristianismo sediado em Constantinopla. As diferenças teológicas entre a igreja latina e a igreja bizantina resultaram no Grande Cisma do Oriente em 1054. O Grande Cisma foi a separação definitiva da Igreja sediada em Roma da Igreja sediada em Constantinopla. Assim, surgiu a Igreja Católica Apostólica Ortodoxa.
Cruzadas
A partir de 1095, após convocação do papa Urbano II, a Igreja Católica iniciou um movimento militar chamado de Cruzadas (segundo Le Goff, o nome “Cruzadas” só surgiu no século XV|1|) para conquistar Jerusalém, o Santo Sepulcro e qualquer outro local na Palestina considerado sagrado do controle muçulmano.
Além disso, a Igreja viu nas Cruzadas e no estabelecimento de um inimigo em comum a todos uma maneira de canalizar a crescente violência manifestada pela nobreza europeia. Para justificar as Cruzadas, foi desenvolvido o conceito de Guerra Justa, que afirmava que a guerra era aceitável se fosse realizada contra o pagão – nesse caso, o muçulmano.
Ao todo foram realizadas oito cruzadas ao longo de mais de cem anos. A primeira Cruzada ficou marcada pela violência da conquista da cidade de Jerusalém em 1099. Foi estabelecido a partir daí um breve reino cristão na Palestina. A cidade de Jerusalém foi reconquistada pelos muçulmanos em 1187. A quarta Cruzada marcou o saque de Constantinopla pelos cristãos em 1204.
As últimas Cruzadas foram lideradas por São Luís e resultaram em grande fracasso. Os últimos domínios cristãos na Palestina, Acre e Tiro, foram reconquistados pelos muçulmanos em 1291. As Cruzadas contribuíram para aumentar o afastamento entre cristãos e muçulmanos.

Inquisição
A partir do século XII, as heresias ganharam nova força em meios cristãos, e a Igreja passou a combatê-las de maneira dura. Os movimentos heréticos desse período foram caracterizados pelo grande apelo popular que tiveram. Como a heresia era considerada o maior de todos os pecados, foi criado o Tribunal da Santa Inquisição. Dois grandes movimentos heréticos desse período destacaram-se: os albigenses e os valdenses.
A função da Inquisição era investigar, julgar e condenar todos os envolvidos em movimentos heréticos. Para isso, foi permitido pela Igreja o uso da tortura, e os culpados eram condenados à fogueira. Os historiadores não sabem ao certo quantos foram mortos pelo Tribunal da Santa Inquisição, mas estima-se que milhares de pessoas tenham sido mortas.

13.793 – História – As Cruzadas


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Foram todas as expedições militares organizadas pela Igreja Católica que aconteceram entre os séculos XI e XIII. O objetivo dessas expedições era conquistar a chamada Terra Santa (modo como os cristãos referem-se à Palestina) para que fossem criados reinos cristãos na região.

Contexto e convocação da primeira Cruzada
A cidade de Jerusalém estava sob o controle dos muçulmanos desde o ano 636, quando o califa Omar ibn al-Khattab havia conquistado a cidade dos bizantinos. No século XI, os países cristãos da Europa sofriam com a expansão dos reinos muçulmanos, tanto na Península Ibérica (região onde se localizam hoje Portugal e Espanha) quanto nas terras do Império Bizantino, onde os turcos eram a ameaça. Nesse contexto, começa a surgir na Igreja o interesse em reaver o controle da chamada Terra Santa.
Além disso, o controle dos turcos sobre a Palestina representava também uma maneira de repressão sobre os peregrinos cristãos. A peregrinação era algo muito comum naquele momento, pois era vista como uma maneira de perdão aos pecados, entretanto, a viagem para a Palestina (onde o Santo Sepulcro era o lugar mais visitado) era muito cara, uma vez que os peregrinos estavam sujeitos a todo tipo de ameaça, como naufrágios e saques, além de serem obrigados a pagar pedágios, dependendo da região em que estivessem.
Naquele contexto, uma série de fatores ajudam a explicar a convocação das Cruzadas. No caso da Igreja, especula-se que o papa Urbano II desejava canalizar a atenção dos cristãos para combater o “infiel” como uma maneira de reduzir os conflitos e disputas internas entre os próprios cristãos. Além disso, o auxílio aos bizantinos, que sofriam com os ataques dos turcos, poderia contribuir para a unificação da Igreja, separada em 1054 entre Igreja Católica Apostólica Romana e Igreja Católica Apostólica Ortodoxa. Outros fatores eram ainda a possibilidade de as Cruzadas motivarem as pessoas por meio da promessa de salvação e remissão dos pecados e também pela chance de obter terras e riquezas a partir dos saques.
A convocação para as Cruzadas aconteceu em 25 de novembro de 1095, no Concílio de Clermont, pelo papa Urbano II que, em seus discursos, “prometeu que aqueles que se empenhassem nessa causa com um espírito de penitência teriam seus pecados pregressos perdoados e obteriam total remissão das penitências terrenas impostas pela Igreja”. Percebemos, portanto, que a Igreja prometia a salvação a todos aqueles que lutassem na “defesa do cristianismo”. Nesse período, foi debatido pela Igreja o conceito de “Guerra Justa”, no qual se considerava como justa toda a defesa do cristianismo contra os muçulmanos, chamados de “infiéis”. Dessa forma, a Igreja dava o aval para seus seguidores lutarem (e matarem) em sua defesa.
Após a convocação das Cruzadas em 1095, somente em 1099 os exércitos cristãos, formados principalmente por soldados franceses, conseguiram realizar uma grande conquista: a tomada da cidade de Jerusalém. O cerco a essa cidade, iniciado em 7 de junho de 1099, terminou com grande violência, e um massacre foi realizado pelos exércitos cristãos. Jerusalém seria reconquistada quase um século depois, no ano de 1187, pelos exércitos de Saladino.
Ao longo dos anos, os cristãos foram perdendo todos os territórios que haviam conquistado durante suas expedições, e o saldo final das Cruzadas foi de derrota, com o último reduto dos cristãos, chamado Acre, conquistado em 1291 pelos mamelucos egípcios. As Cruzadas acabaram por aumentar as diferenças entre cristãos e muçulmanos, entretanto, contribuíram para um grande impulso comercial, que resultou em mudanças na Europa medieval, como o renascimento urbano e o uso da moeda.

13.757 – Mega Mitos – Diabo Existe?


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Num mundo dominado pela tecnologia, com .educação e informação em larga escala, imaginou-se que não haveria mais lugar para ele. Engano. No alvorecer do terceiro milênio ei-lo aí, vivo e atuante, ainda que transformado e sem os superpoderes de outrora. Ele – Asmodeu, Belzebu, Azazel, Belial, entre os muitos nomes com os quais os antigos hebreus o rotularam. Ou Iblis, como dizem os muçulmanos. Ou Arimã, como o chamavam os seguidores de Zoroastro, na Pérsia. Ou simplesmente, como bem o sabem os brasileiros temerosos de mencionar-lhe o nome, o Rabudo, o Tinhoso, o Beiçudo, o Pai da Mentira, o Cão. Amigo leitor, eis Satanás, o Demo, o Diabo, a mais intrigante das figuras que povoam o imaginário humano.
O Diabo chega ao século XXI deitado sobre a fama arrecadada ao longo do tempo. É verdade que ele não aparece mais em murais com a aparência grotesca de um bode alado, coroado de enormes chifres, com rabo de dragão e olhos nas asas, na barriga e no traseiro. E que há muito seu nome foi retirado do Pai Nosso, a principal oração cristã. Também já não é acusado em toda parte de estar por trás das doenças, das hecatombes, das tragédias cotidianas. O Diabo teve que ceder aos progressos da ciência, à liberdade de pensamento e ao avanço da razão sobre a superstição. Mas é inegável que, mesmo reduzido à idéia original que o criou, ele continua influente em nossos dias, qualquer que seja a classe social, o nível cultural ou a nacionalidade das pessoas. Não é exagero dizer que, de certa forma, o velho e mau Satã tem sido revalorizado nos últimos tempos.
Nos Estados Unidos, maior centro tecnológico do mundo, o número de exorcistas autorizados pela Igreja Católica cresceu mais de dez vezes nos últimos dois anos. Antes, o país tinha apenas um. Na França, no mesmo período, os exorcistas saltaram de 15 para 120. Em todo o mundo desenvolvido, o Demônio e os seus sequazes continuam a girar a roda da fortuna na literatura e no cinema. Nas nações ricas ou nas pobres, Satã não pára de estimular debates e, principalmente, facilitar as manipulações do jogo político – satanizar o adversário sempre foi uma boa arma em qualquer disputa.
Entre fundamentalistas islâmicos, Iblis ganhou as cores da bandeira dos Estados Unidos, país rotulado como o “Grande Satã”. Foi contra o Diabo, em última instância, que os terroristas liderados por Osama Bin Laden lançaram os aviões que derrubaram as torres gêmeas de Nova York, em setembro passado. E foi a mão do Demônio que, para muitos americanos, guiou os comparsas de Bin Laden naquele dia. Era para impedir a ação subversiva do Demo, por meio da liberação dos costumes, que, no Afeganistão, os talibãs impunham às mulheres o sufoco das burqas, o véu que cobre todo o rosto. Da Europa cosmopolita aos grotões da África, Belzebu prosseguiu inspirando violências. E, como não poderia deixar de ser numa sociedade marcada pelo sincretismo, Belial encontrou no Brasil um campo vasto para suas armações.

“O Diabo é a origem das doenças, da miséria, dos desastres e de todos os problemas que afligem o homem desde que ele iniciou sua vida na Terra”, afirma o fundador e bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, Edir Macedo, em seu livro Orixás, Caboclos e Guias – Deuses ou Demônios?, uma das 26 obras nas quais Macedo tenta convencer a humanidade de que Satã existe e exerce poder quase absoluto sobre as pessoas. Sua Igreja, uma das que mais crescem no segmento neopentecostal, vertente protestante surgida nos anos 70, começou apoiada nos pobres – os que mais se sensibilizam com os exorcismos espetaculares realizados em seus templos –, mas logo penetrou a classe média, desiludida com os meios convencionais de solução de seus problemas existenciais e de saúde. Após 25 anos de atuação, já é possível ver nos cultos da Igreja Universal alguns novos-ricos preocupados em garantir a manutenção da sua prosperidade.
O que busca a multidão que não se importa de engordar o caixa da Igreja do bispo Edir com doações generosas? A garantia de que Azazel, aprisionado pelas orações dos pastores, não mais atrapalhará seus negócios, sua saúde, seus desejos.
A Igreja Católica, que, até meados do século passado, oferecia ao mundo o retrato mais terrível do Tinhoso, decidiu retocá-lo numa adaptação aos novos tempos. Que ninguém se engane: o Demônio católico, ainda que despido da sua aparência grotesca, e mitigado pelo racionalismo ocidental, não emagreceu a ponto de virar um mero símbolo – a não ser para alguns poucos revisionistas. O Vaticano exorta os fiéis a considerá-lo “a causa do mal”, cuja presença estaria evidente desde a crença de que a felicidade está no dinheiro, no poder e na concupiscência carnal até o relativismo que induz o homem a não atender “à vontade de Deus”. Satã tornou-se, para os católicos, sutil e requintado, mas ainda poderoso a ponto de apossar-se dos homens, como esclarece o documento oficial De Exorcismis et Supplicationibus (“De todos os Gêneros de Exorcismos e Súplicas”), de 1999.
Em sua argumentação, o papa João Paulo II retoma, nesse documento, a idéia sintetizada pelo poeta francês Charles Baudelaire, no século XIX, em seu verso “o mais belo estratagema do Diabo é nos persuadir de que ele não existe”. O papa não tem dúvida: o Demo trabalha de modo que “o mal que ele inculca desde o começo se desenvolva no próprio homem, nos sistemas e nas relações inter-humanas entre as classes sociais e as nações”.
Mas, afinal, o que é o Diabo? Desde quando ele está entre nós? Que papel ele desempenha no mundo atual?
Historicamente, Satã, do jeito como o visualizamos hoje no Ocidente – um ser que concentra em si a maldade absoluta – é resultado de uma longa gestação psicológica na qual os arquétipos (imagens psíquicas do inconsciente coletivo que, na concepção do psicólogo suíço Carl Jung, estruturam modos de compreensão comuns aos indivíduos de uma comunidade) do mal foram ganhando formas concretas tanto a partir de sincretismo – por meio da mistura da idéia do mal que há nas diversas religiões – quanto de processos de transferência – em que a pessoa descarrega num mito, numa figura externa, todo o mal que enxerga dentro de si. Assim, o Tinhoso fica responsável por tudo aquilo que consideramos ruim ou maléfico: o ódio, a raiva, o medo. Enquanto o seu oposto, Deus, personifica tudo o que consideramos bom ou benéfico: perdão, compaixão, solidariedade.
O Demônio fascina a humanidade e é uma peça necessária, sem a qual nenhuma sociedade humana jamais conseguiu viver, porque ele nos ajuda a identificar – e a exorcizar – nossos impulsos primários. É demoníaco tudo aquilo que lembra ao homem que ele é um animal: a excreção, o vômito, a violência, a doença, a morte, o aspecto grotesco do sexo. Ao lado disso, é divino tudo aquilo que dá ao homem a impressão de que ele pode colocar-se acima dos outros animais: o amor, a inteligência, a renúncia aos instintos básicos, o aspecto sublime do sexo. A função do Diabo como válvula de escape está muito clara, por exemplo, no Novo Testamento, base da doutrina cristã, em que há mais citações do mal que do bem. Mais referências a Satã que a Deus. “No Cristianismo a presença do mal é essencial como em nenhuma outra religião”, diz o filósofo Roberto Romano, da Universidade de Campinas (Unicamp).
A primeira representação do Rabudo teria surgido no século VI a.C., na Pérsia. O profeta Zoroastro descreveu a figura de Arimã, o “príncipe das trevas” em seu conflito com Mazda, o “príncipe da luz”. Eram essas duas divindades, que expressam a polaridade existente no universo e dentro da própria alma humana, que regiam o mundo de Zoroastro. Durante o cativeiro na Babilônia, os hebreus tiveram contato com o masdeísmo persa, religião que divinizava os seres naturais. Segundo alguns historiadores, isso foi fundamental para a concepção do que viria a ser o Satã do Judaísmo e do Cristianismo. Na antiga língua hebraica, Satanás quer dizer acusador, caluniador, aquele que põe obstáculos. E foi assim, sem a face aterrorizante que ganharia mais tarde, que o Diabo estreou no Velho Testamento. Agia como um colaborador de Jeová, o Deus judaico-cristão, para testar a lealdade ou castigar os seus escolhidos. Jeová, por exemplo, determinou a Satã que precipitasse o desobediente rei Saul no poço da depressão.
Sob a mesma autorização divina, o Satã infligiu perdas e sofrimentos ao rico e fiel Jó, no desenrolar de uma aposta na qual Jeová jogou todas as fichas na lealdade do seu servo.
Na mesma linha dos deuses pagãos, ambivalentes, Jeová expressava paixões contraditórias, semelhantes às do homem, e distribuía com exclusividade tanto o bem quanto o mal. “Os hebreus primitivos não tinham necessidade de corporificar uma entidade maligna”, afirma Carlos Roberto Figueiredo Nogueira, doutor em História Medieval pela Universidade de São Paulo (USP), no livro O Diabo no Imaginário Cristão. “Para eles Jeová era um deus tribal e, como tal, superior aos deuses das populações vizinhas, que se colocavam assim como seus adversários e como expressões naturais da maldade.” Não sur- preende, portanto, que, ao ganhar contornos de entidade, o Diabo tenha recebido nomes como Belzebu, um deus filisteu, e Asmodeu, deus da tempestade na mitologia persa. Ou seja: as divindades, boas ou más, das sociedades que ficaram para trás na história, foram incorporadas ao imaginário da cultura hegemônica, no caso específico, a tradição hebraica, como figuras agentes do mal.
A influência persa, segundo Carlos Nogueira, forneceu o pano de fundo dualista do judaísmo, a dicotomia entre bem e mal que até hoje define a religiosidade ocidental, por meio da assimilação da crença em espíritos benéficos e maléficos – os gênios da religião de Zoroastro. Os anjos, antes vistos como símbolos da manifestação divina, foram transformados em entidades autônomas, enquadradas numa hierarquia celestial. A construção dessa estrutura tornou possível uma das mais majestosas passagens da literatura popular judaica: a revolta e a queda de Lúcifer (“o portador da luz”), o serafim mais belo e mais próximo de Deus. Ele foi expulso do céu e metamorfoseado no Demônio após se deixar dominar pela soberba.
A mudança de perspectiva teológica fica mais evidente a partir do século II a.C., com o desenvolvimento, à margem da tradição judaica erudita, de uma literatura apocalíptica sobre o demoníaco. No Livro dos Jubileus, escrito entre 135 e 105 a.C., e que faz parte dos livros apócrifos (sem autenticidade comprovada), são mencionados os espíritos malignos acorrentados no “lugar da condenação”. No Testamento dos Doze Patriarcas, escrito entre 109 e 106 a.C. (também apócrifo), pela primeira vez Satã aparece personalizado na figura de Belial.
As crenças populares acerca do Diabo chegaram a ser assimiladas pela elite judaica, razão pela qual muitos rabinos acusaram Jesus de promover os seus milagres “sob o poder de Belzebu”. Com o tempo, os rabinos perderam interesse nessas versões e Satã voltou a ser uma figura menor no Judaísmo. Ao contrário, os cristãos não apenas introduziram em sua doutrina os elementos da literatura escatológica (sobre o final dos tempos), como também ampliaram-lhe os limites concedendo grandes poderes ao Demônio. Os Evangelhos, os Atos dos Apóstolos, as Epístolas de Paulo e o Apocalipse do apóstolo João, textos cristãos que compõem o Novo Testamento, são pródigos em referências à luta de Satã contra Deus, retomando a história inicial de Lúcifer e seus aliados – nada menos que um terço dos anjos – na batalha celestial ocorrida nos primórdios da criação. A corporificação do Diabo cristão consumiu pelo menos 400 anos de debates e só veio a consolidar-se no século VII, com a ajuda da arte cristã.
Até então, o Demônio não tinha rosto definido. É quando a figura monstruosa e assustadora de Satanás se multiplica nos vitrais, nas colunas e nos tetos dos templos, é mostrada em murais nas ruas, assume a imaginação de clérigos e do povo e abre caminho para as práticas mais obscuras da Idade Média, cujo ápice é a Inquisição.
A lenta construção da imagem do Diabo é compreensível. Nos três primeiros séculos, os cristãos, membros de uma seita perseguida, não precisavam imaginar uma face para Satã, já que a conheciam sob a forma dos gladiadores e leões que os trucidavam nas arenas romanas. No século IV, quando o Império Romano curvou-se ao Cristianismo, a euforia se alastrou entre os fiéis, que viam na expansão da doutrina de Jesus sinais do enfraquecimento do anticristo e sua iminente derrota final. Mas, logo, a persistência de conflitos, desigualdades e paixões depois desse marco arrefeceu o otimismo e sedimentou a crença de que a força de Satanás era maior do que se imaginara. O mal continuava a existir num mundo dominado por Cristo. Sinal de que o Demônio estava disposto a continuar disputando com Deus a hegemonia da alma humana, por meio das tentações e do pecado. Precaver-se contra suas manhas tornou-se uma obsessão.
Na Idade Média, entre as seitas fundamentalistas, via-se o Diabo e seus auxiliares por toda parte. Imaginavam-se pactos entre homens e Satã, em troca de fortuna, conhecimento e poder – tema cujo paradigma é a história de Johannes Faustus, de Heidelberg (1480-1540), retratado mais tarde, em 1833, no Doutor Fausto, drama do escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe, que conta a história do sábio que compactua com o Demo para conquistar conhecimento, poder e mulheres. Acreditava-se que, enquanto dormiam, moças podiam ser possuídas por demônios chamados de íncubos, enquanto homens eram atacados por demônios súcubos, travestidos de mulheres. Eremitas do deserto se diziam tentados por seres infernais com apelos luxuriantes.
O sexo tornou-se a armadilha predileta de Satã para conduzir os homens à perdição, o que justifica uma das mais conhecidas representações iconográficas do Demo – aquela em que ele aparece com patas de bode, olhos oblíquos e chifres, tomados por empréstimo à imagem de Pã, divindade greco-romana que se divertia em orgias. O aspecto violento do sexo, invariavelmente associado ao Demônio, era sublinhado nas imagens por enormes falos – uma representação possivelmente absorvida de outras culturas.
Ainda na Idade Média, o Diabo era apontado como a causa de quase todos os males. Os médicos, para livrar a própria pele, afirmavam que a simples impossibilidade de diagnosticar a enfermidade era em si um sinal de que se estava diante de um caso de possessão demoníaca. Satã podia entrar no corpo, segundo a crença popular, através dos orifícios, razão pela qual nos países anglo-saxônicos até hoje saúda-se o espirro, então visto como a expulsão de um demônio, com a frase “Deus o abençoe”. O Tinhoso também costumava ocultar-se sob mil disfarces. Que o diga o papa Gregório Magno, em cujos Diálogos está registrado o caso de uma freira endemoniada porque colhera alface na horta do convento sem a devida oração – Belzebu espreitara-lhe, escondido nas folhas da planta.
A histeria coletiva e o uso político desses temores nos bastidores da vida religiosa levaram milhares de pessoas a arder nas fogueiras da Inquisição, o jeito “piedoso” estabelecido pela Igreja para salvar a alma daqueles que, supostamente, tivessem se deixado ludibriar pelo Demo.
Com o tempo, as imagens e a nomenclatura demoníaca, sempre relacionadas aos deuses que guerrearam contra Jeová e às divindades e tradições pagãs abominadas pelos cristãos (a palavra demônio deriva do grego daimon, que significa simplesmente “espírito”), foram enriquecidas conforme os adversários definidos pelo Catolicismo. No período das Cruzadas, a figura de Satã ganhou pele morena e barbicha, que o identificavam com os árabes. Com a chegada dos primeiros missionários ao Oriente, logo Sita e Rama, deidades do hinduísmo, se tornaram codinomes do Diabo. O que isso quer dizer é mais ou menos óbvio. “Significa que Satanás é o inimigo, é aquele que não concorda conosco”, diz Elaine Pagels, professora de História da Religião na Universidade de Princeton, Estados Unidos. Para a especialista, autora do livro As Origens de Satanás, esse adversário sequer precisa ser alguém distante e estranho.
Na maioria das vezes é um inimigo íntimo, o companheiro que trai, o colega que odiamos, o irmão que nos abandona – ou o herético que afronta os dogmas com idéias próprias.
O começo da era moderna na Europa seria marcado por um enorme medo do Demônio, momento psicológico retratado nos versos da Divina Comédia, escritos no século XIV pelo italiano Dante Alighieri, e na iconografia do inferno da arte renascentista: demônios desenrolando os intestinos dos invejosos e enterrando ferros em brasa nas vaginas de mulheres levianas, pântanos fumegantes onde animais supliciam os pecadores. O surgimento da imprensa e as reformas religiosas conferiram a Satã difusão mais ampla. A didática do medo na catequese cristã parecia propor, como lembra Carlos Nogueira, “um prazer estético com o mal”.
Belial mostrou-se à vontade mesmo após a Revolução Francesa e a conseqüente separação entre Igreja e Estado, no século XVIII. A Igreja enxergou forças demoníacas no saber científico. Mas, fora do círculo religioso, sua imagem começou a sofrer uma mutação radical. O romantismo, movimento que revolucionou as artes a partir do final do século XIX e que pregou a subjetividade, em rebelião contra o autoritarismo católico, transformou Satã num símbolo do espírito livre, do progresso e da revolta contra o obscurantismo medieval – um aliado do homem condenado pela moral cristã ao sofrimento. Em Fausto, de Goethe, a visão do demoníaco reflete não apenas as forças do mal, mas também o problema do conhecimento e o desejo do homem de dominar a natureza.
O Diabo entrou no século XX já com a imagem que fazemos dele hoje: como um personagem menos influente, apesar de continuar inspirando medo. Seus atributos mitológicos estão estáveis e sua popularidade é crescente, com a proliferação de seitas que o reverenciam. Pagou um preço alto por essa secularização sob a forma de perda parcial do respeito e do pânico que sua figura sempre inspirou. Para alguns estudiosos da sociedade, isso não é um bom sinal. “Trata-se de uma situação perigosa, pois significa que o mundo moderno está perdendo o senso do mal”, diz Jeffrey Burton Russel, professor de História da Religião na Universidade da Califórnia, Estados Unidos. “E sem o senso do mal, e sem temer o mal, a civilização pode desagregar-se e ir, sem trocadilho, direto para o inferno.”
Mas, então, dá para deduzir que Satanás, enfraquecido pelo racionalismo da vida moderna, está aposentado? Dá para afirmar que precisamos que ele volte a atuar? Não é bem assim. Como afirma o título desta reportagem, o Diabo está vivo. E desafia os que achavam que não haveria mais lugar para ele num mundo regido pela ciência e pelo senso de que o homem está acima da superstição, das crenças, do bem – Deus – e do mal – o Diabo. Ao contrário disso, a julgar pelo cotidiano do homem moderno, o Tinhoso continua na ativa. Na política e na religião, a satanização continua em alta. Do confronto entre os americanos e os fundamentalistas islâmicos às disputas do mercado. No bandido que afirma que só cometeu o crime porque estava possuído pelo Demo. Em todos esses lugares, ele está. Personificando o opositor. Livrando o homem da culpa de carregar uma porção de mal em seu coração.
Facilitando o arremesso sobre o outro de toda a responsabilidade por situações que nos desagradam. Em todos esses planos, e em muitos outros do comportamento humano, o Beiçudo continua imbatível.

O diabo e as religiões
Catolicismo
Após as mudanças iniciadas no Concílio Vaticano II, há quatro décadas, o Diabo perdeu as feições físicas monstruosas que apavoravam os fiéis e passou a ser encarado como “a causa do mal”, cuja ação entre os homens é de natureza essencialmente moral. Mas a Igreja continua a vê-lo como uma entidade que concentra o mal absoluto, inapelável. Algumas curiosidades bizarras sobre o Pai da Mentira na fé católica: o número 666, que costuma identificar a “Besta”, o anticristo (o grande disfarce de Satã para enganar os crentes e dominar o mundo), estava escrito na testa do horripilante animal alado, personagem das visões do apóstolo João que deram origem ao último livro do Novo Testamento: o Apocalipse. Já o cheiro de enxofre foi atribuído ao Demo por se tratar de uma essência horrível e irritante. Na Idade Média, acreditava-se que o inferno era não apenas um lugar quente, abafado e “animado” por danações horrendas. Havia também pântanos fumegantes, onde as almas dos pecadores ardiam em soluções de enxofre.

Evangelismo
Para a maioria das denominações evangélicas, Satanás tem individualidade e atua como o grande inimigo do Evangelho de Jesus e seus seguidores. Os neopentecostais, que surgiram a partir da década de 70, superestimam os seus poderes e fazem do combate ao Demônio o foco de suas atividades. Segmentos modernizantes, como algumas igrejas batistas nos Estados Unidos e no Brasil, já admitem que o mal reside nas entranhas do homem, como a sombra junguiana, e contestam a existência do Maligno.

Judaísmo
Não aceita a corporificação do Diabo. Satanás seria o grande adversário, o pérfido acusador, o ardiloso comerciante do mal que, conforme a tradição judaica, é usado por Deus para testar o homem. O bem e o mal procedem ambos de impulsos humanos.

Islamismo
O Diabo na fé islâmica é individual e corporificado. O Demo tem praticamente as mesmas atribuições do seu sinistro similar na fé católica.

Espiritismo
A doutrina de Allan Kardec (místico francês que formulou as bases doutrinárias do Espiritismo no século XIX), popularizada no Brasil, não admite a existência do mal absoluto nem a sua individualização em Satanás. O mal, visto como uma contingência da experiência evolutiva e das vivências terrenas de cada indivíduo, cede ao bem à medida que os espíritos se depuram através de sucessivas reencarnações.

Budismo
Os budistas não personificam Deus e muito menos o Diabo, um conceito inexistente na doutrina religiosa do Budismo. O mal é resultado da mente inquieta ante a ilusão do eu e das formas do mundo material. Pensamentos e atos podem gerar o carma que prende o homem à longa fieira das reencarnações. O exercício cotidiano, permanente e humilde, da compaixão e do desapego o liberam desse círculo.

Quem é quem no inferno
A imaginação criativa na Idade Média não se limitou a conceber uma figura horripilante para Satanás. Imaginou toda uma estrutura para o inferno. E o Diabo teve que delegar poderes a auxiliares, às vezes confundidos com o próprio chefe, como Pazuzu, que estrelou o filme O Exorcista. A seguir, o organograma do Inferno:

Belial
É considerado o demônio da arrogância e da loucura. Há quem o veja como a besta do Apocalipse

Nergal
Demônio sumeriano que, no inferno cristão, assumiu o comando da polícia

Asmodeu

Demônio hebreu da ira e da luxúria

Astaroth
Ex-querubim, é tido como o tesoureiro do inferno
Diabo
O rei, o chefão. Trata-se de Lúcifer, o ex-arcanjo preferido de Deus, expulso do céu por causa do seu orgulho e ambição

Baalberith
Demônio do assassinato e da blasfêmia, era líder dos querubins celestes. Tornou-se secretário de Lúcifer

Belzebu
O príncipe dos demônios. Ao lado de Leviatã, estimula o orgulho e a heresia entre os homens
Abramalech
Responsável pelo guarda-roupa de Lúcifer, espécie de mordomo
Pazuzu
O rei dos espíritos malignos

13.731 – A Doação de Constantino


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No processo de formação da Igreja Católica, observamos que o fortalecimento dessa instituição enfrentou situações que ameaçavam a sua unidade. Uma delas ocorreu no ano de 476, quando a queda do último imperador romano do Ocidente estabeleceu o triunfo das invasões bárbaras na Europa. Mais que um simples evento de ordem política e militar, esse acontecimento poderia significar o enfraquecimento do cristianismo frente às religiões pagãs que tomavam corpo.
Foi então que os clérigos da alta cúpula cristã apresentaram a chamada Doação de Constantino, um documento de 337 onde o imperador romano de mesmo nome teria reservado todo o Império Romano do Ocidente para a Igreja. Apesar de não ter assumido os reinos europeus diretamente, esse mesmo documento teve grande força política para expressar a influência dos chefes cristãos frente os reinos que se organizavam naquele tempo.
É assim que vemos, entre outros argumentos, de que modo a Igreja acumulou seu poder de interferência em questões políticas da Europa. Contudo, o peso desse documento acabou sendo desmascarado no século XV, quando o estudioso Lorenzo Valla apresentou uma série de documentos que comprovaria a falsidade do tempo em que o documento da doação teria sido feita.
Naquela época era impossível se valer de algum recurso tecnológico que pudesse calcular exatamente a datação do documento. Foi então que Lorenzo examinou o conteúdo do texto, observando os erros linguísticos existentes e as expressões empregadas em sua construção. Por meio de seus estudos, detectou a presença de helenismos e barbarismo que não correspondiam ao uso da língua latina naqueles tempos do império de Constantino.
Além dessas questões formais, o estudioso percebeu que a natureza do documento, elaborado com um único testemunho, não correspondia ao hábito da época. Ao mesmo tempo, ele apontou como incongruente o uso do termo “sátrapa” (expressão de natureza oriental) para fazer referência aos membros do Senado Romano e a menção de Constantinopla como uma cidade cristã em um tempo em que a mesma, assim como outras regiões dadas como de dominação romana, estava longe de assumir tal posição.
O trabalho de Valla, ao longo do tempo, não significou apenas uma tentativa de se desestabilizar a autoridade do clero. Para os historiadores, sua forma de questionar o documento exigiu a reunião de informações que envolviam as transformações da língua ao longo dos tempos e a necessidade de se estabelecer uma relação de identidade entre o documento e a época em que ele teria sido produzido. Desse modo, a invalidação da Doação de Constantino serviu de grande contributo no estudo do passado.

13.692 – História – O que é o Santo Graal?


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Sagrando a última reunião entre seus seguidores, a ceia feita por Jesus Cristo foi conduzida por uma liturgia que marcou a história do cristianismo. Utilizando de um cálice cheio de vinho, a narrativa bíblica destacou o momento em que Cristo consumiu a bebida e repassou o utensílio para seus outros seguidores. Morto no dia seguinte, o fundador da religião cristã deixou um cálice que desperta o interesse de curiosos por mais de dois milênios.
Conhecido como o Santo Graal, o cálice utilizado por Jesus Cristo é diariamente simbolizado nos rituais da eucaristia católica. No entanto, as lendas do Santo Graal nem sempre fizeram referência ao copo utilizado por Jesus. Alguns relatos dos primeiros séculos da era cristã faziam referência, por exemplo, à tigela usada para cortar os pães como sendo a tão afamada relíquia. Outras lendas sugerem que o Santo Graal foi uma vasilha onde um seguidor cristão teria recolhido parte do sangue de Jesus durante a crucificação.
Ao longo dos anos, outras histórias ainda permeavam o imaginário cristão quando, por volta do século XII, um escritor francês chamado Chrétien de Troyes designou com o nome de “graal” um utensílio de mesa utilizado por Cristo. A importância dada ao relato francês é dada por conta das referências bastante limitadas no texto bíblico. No evangelho não existe nenhum tipo de citação especial aos copos, talheres e vasilhas utilizados na Última Ceia.
Segundo alguns historiadores, levando em consideração a vida simples levada por Cristo e seus seguidores, os copos e peças utilizadas na reunião seria de madeira ou cerâmica. A simplicidade dessas peças, muito provavelmente, não despertaria o interesse de algum dos seguidores cristãos. O fato é que a procura por relíquias vinculadas à história cristã é um hábito que se desenvolveu séculos após a morte do fundador da nova confissão religiosa.
De acordo com alguns estudiosos da Antigüidade e de alguns medievalistas, a falta de detalhes do texto bíblico original incentivou muitos a reescreverem a trajetória humana de Cristo. Nos chamados textos apócrifos (ou não-oficiais) há uma riqueza de detalhes bastante diferente da contida nos evangelhos originais. Entre eles destacamos o Evangelho de Nicodemos, onde se registra a narrativa do recolhimento do sangue de Cristo e a perfuração de seu tórax pela “Lança de Longino”.
A notoriedade mítica do Graal se consolida com a obra de Chrétien. Em um poema inacabado chamado Percival, ele descreve uma liturgia sagrada observada pelo cavaleiro que nomeia a obra. Sendo o francês autor de grande prestígio, acabou tendo sua história continuada (e reinventada) por outros escritores que optaram valorar ainda mais o tal “graal”. Entre esses autores, o graal ganha seu caráter miraculoso ao ser procurado para curar o Rei Artur (personagem mais famoso das histórias de Chrétien).
As histórias sobre o “Santo Graal” e outras relíquias da cristandade católica perderam espaço com as reformas protestantes do século XV e XVI. Os protestantes, influenciados por seus líderes, repudiavam o caráter sagrado das relíquias católicas e, por conseguinte, do valor mágico dado ao graal. Somente nos séculos XVIII e XIX que as histórias envolvendo o graal ganharam um novo sopro de vida.
Um dos responsáveis pela volta do tema foi um estudante austríaco que se dedicou ao estudo da Ordem dos Cavaleiros Templários. Essa ordem militar e religiosa, criada no século XII, tinha como principal missão proteger os cristãos que se dirigiam à cidade santa de Jerusalém. Nesses estudos, levantou-se a tese de que o cavaleiro Percival, na verdade, fazia parte da Ordem dos Templários. A partir disso, os estudos arqueológicos voltaram sua atenção para o antigo relato cristão.
Já no século XIX, as pesquisas revelaram a existência de dois “graais” fabricados durante a Alta Idade Média. Nos primeiros anos do século XX, uma nova notícia afirmava que o cálice de Antioquia, encontrado na Síria, seria o verdadeiro artefato. No entanto, pesquisas mais avançadas chegaram à conclusão de que o objeto não passava de uma antiga lâmpada à óleo.
Para fora da veracidade dos cientistas, várias pequenas denominações religiosas prestam reverência ao Santo Graal. Os membros da “Ordem da Aurora Dourada” professam que as lendas sobre o graal escondem uma série de mensagem secretas que revelariam importantes bases da fé cristã. Ainda hoje, livros como “O código Da Vinci” e “O Santo Graal e a Linhagem Sagrada” alimentam outras mirabolantes teorias sobre essa mesma relíquia.

13.691 – Judas: traidor ou traído?


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Notamos que vez ou outra pesquisas inéditas colocam em xeque a validade de certas histórias que não só povoam a Bíblia, mas também fundamentam a crença de milhares de seguidores do cristianismo.
No ano de 2006, uma equipe de teólogos, linguistas e historiadores financiados pela Fundação Mecenas, da Suíça, realizaram a tradução do chamado “Evangelho de Judas”. Ao fim desse trabalho, publicaram um artigo dizendo que a clássica associação de Judas à traição simplesmente não correspondia aos fatos. Na verdade, ele seria um importante elemento na execução das ações que tornariam Jesus no salvador da humanidade.
Dentro dessa nova perspectiva, Judas não teria sido um executor consciente da trama que possibilitou a prisão e o julgamento de Jesus. Nessa nova versão, o apóstolo aparece como um servo dedicado que se aproxima de um influente escriba para arquitetar o retorno seguro de Cristo à Galileia. Contudo, no momento em que beija seu mestre, acaba descobrindo que fora enganado por seus aliados e, dessa forma, viabiliza o posterior calvário do Messias.
Em contraponto a essa narrativa que concede inocência a Judas, outro grupo de historiadores argumenta que essa tradução do evangelho está cercada por erros. Um dos equívocos fundamentais, que desvalidam a versão redentora, gira em torno da tradução da palavra “daimon”. Com base na literatura platônica, este termo significaria espírito. Contudo, na literatura cristã, esse mesmo termo significa “demônio”.
Por meio dessa desambiguação, um trecho bíblico em que Jesus Cristo chama a atenção de Judas Iscariotes poderia ser traduzido das seguintes formas: “Tu, décimo terceiro demônio (ou espírito), por que te esforças tanto?”. Sem dúvida, fica clara a diferença de julgamento sobre a figura do apóstolo por meio desta única palavra. Mas afinal, seria possível dar um julgamento final sobre este debate?
Para alguns dos historiadores revisionistas, não há como definir uma posição definitiva sobre o papel exercido por Judas na biografia messiânica. Na condição de humano, ele pode assumir posições diferentes que demonstram as incertezas de quem seguia um líder questionado por muitos. A título de comparação, podemos ver que essa mesma postura vacilante pode ser notada em Pedro – o apóstolo que negou a Cristo, mas também foi um dos mais importantes pregadores da fé cristã.

13.474 – Mega Polêmica – O Ensino Religioso nas Escolas


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A Constituição brasileira e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) permite, desde que não sejam obrigatórias para os alunos e a instituição assegure o respeito à diversidade de credos e coíba o proselitismo, ou seja, a tentativa de impor um dogma ou converter alguém. Mas faz sentido oferecer a disciplina na rede pública?

Argumento Contra:
O que fazer com os estudantes que, por algum motivo, não queiram participar das atividades? Organizar a grade para que eles tenham como opção atividades alternativas é o que se espera da escola. Porém, não é o que acontece em muitas redes. Nelas, nenhum aluno é obrigado a frequentar as aulas da disciplina, mas, se não o fizerem, têm de descobrir sozinhos como preencher o tempo ocioso. A lei não obriga a rede a oferecer uma aula alternativa, mas é contraditório permitir que as crianças fiquem na escola sem uma atividade com objetivos pedagógicos.
A questão da diversidade, outro item previsto na lei, também não é uma coisa simples de ser resolvida. Como garantir que todos os grupos religiosos – incluindo divisões internas e dissidências – sejam respeitados durante o programa em um país plural como o nosso? Dados do Censo Demográfico 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que 64,6% da população se declara católica, 22,2% evangélica, 2% espírita, 3% praticante de outras religiões e 8% sem religião.
De que forma assegurar que o professor responsável por lecionar Ensino Religioso não incorra no erro de impor seu credo aos estudantes? Ou que aja de maneira preconceituosa caso alguém não concorde com suas opiniões? É fato que todos, educadores e alunos, têm o direito de escolher e exercer sua fé. Está na Constituição também. Não há mal algum em rezar, celebrar dias santos, frequentar igrejas (ou outros templos), ter imagens de devoção e portar objetos, como crucifixos e véus. Porém, em hipótese alguma, a escola pode ser usada como palco para militância religiosa e manifestações de intolerância. É bom lembrar que a mesma carta magna determina que o Estado brasileiro é laico e, por meio de suas instituições, deve se manter neutro em relação a temas religiosos.
Cabe a escola usar os dias letivos para ensinar aos estudantes os conteúdos sobre os diversos campos do conhecimento. Há tempos, sabe-se que estamos longe de cumprir essa obrigação básica. Os resultados de avaliações como a Prova Brasil e o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa, sigla em inglês) comprovam com clareza essa falta grave. Boa parte dos estudantes conclui o Ensino Fundamental sem alcançar proficiência em leitura, escrita e Matemática.

Educação e verdades incontestáveis não combinam. Enquanto os credos são dogmáticos e pautados na heteronomia (quer dizer, as normas são reguladas por uma autoridade ou um poder onipresente), a escola é o lugar para a conquista e o desenvolvimento da autonomia moral. Isso quer dizer que crianças e adolescentes devem aprender e ser estimulados a analisar seus atos por meio da relação de respeito com o outro, compreendendo as razões e as consequências de se comportar de uma ou outra maneira. Bons projetos de Educação moral, que abrem espaço para questionamentos e mudanças de hábito, dão conta do recado.

Mesmo sem oferecer a disciplina, muitas instituições pecam ao usar a religião no dia a dia. Segundo respostas dadas por 54.434 diretores ao questionário da Prova Brasil 2011, independentemente de oferecer a matéria, 51% das escolas cultivam o hábito de cantar músicas religiosas ou fazer orações no período letivo, no horário de entrada ou da merenda, entre outros(leia outros dados no gráfico abaixo).

Outro exemplo de como os limites são extrapolados é apresentado no estudo O Uso da Religião como Estratégia de Educação Moral em Escolas Públicas e Privadas de Presidente Prudente, de Aline Pereira Lima, mestre em Educação e docente da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão (Felicam). Na instituição pública analisada, mesmo sem a presença da matéria na grade dos anos iniciais do Ensino Fundamental, a religião estava muito mais presente do que nas duas escolas particulares visitadas, que tinham caráter confessional declarado. O discurso teológico permeava o dia a dia dos estudantes: era usado para solucionar casos de indisciplina e até de violência. A pesquisadora observou também que os professores diziam aos estudantes frases como “Deus castiga os desobedientes”.

Sem contestar ou ameaçar a liberdade de credo de ninguém, espera-se que os educadores sigam buscando ensinar o que realmente interessa. Sem orações, imagens e afins.

Religiosidade e Educação

Contrariando a laicidade do Estado, as escolas têm manifestações de crenças

66% ministram aulas de Ensino Religioso

51% têm o costume de fazer orações ou cantar músicas religiosas

22% têm objetos, imagens, frases ou símbolos religiosos expostos

Argumento pró:
As religiões fazem parte de um mosaico cultural da história da humanidade. São fortemente ligadas as civilizações e se apresentadas de maneira imparcial sem imposição de ideias e dogmas pode ser uma ferramenta de auxílio na formação moral dos alunos além de aumentar a bagagem cultural. Desde é claro, que expostas sem preconceito ou favorecimento.
1988
A nova Constituição diz no artigo 210, parágrafo primeiro: “O ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental”. O artigo 5 define: “é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”. No artigo 19, consta: É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público; II – recusar fé aos documentos públicos; III – criar distinções entre brasileiros ou preferências entre si.
“Art. 11 – A República Federativa do Brasil, em observância ao direito de liberdade religiosa, da diversidade cultural e da pluralidade confessional do País, respeita a importância do ensino religioso em vista da formação integral da pessoa. §1º. O ensino religioso, católico e de outras confissões religiosas, de matrícula facultativa, constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, em conformidade com a Constituição e as outras leis vigentes, sem qualquer forma de discriminação”.

ensino religioso

13.406 – Dyeus Phater: a origem do nome de Deus


nome Deus
As culturas mais antigas do Ocidente chamavam Deus da mesma forma que as crianças chamam. O nome Dele era “Papai do Céu”. Essas culturas não deixaram registros escritos. Os linguistas só sabem que eles chamavam Deus de “Papai do Céu” porque comparam idiomas díspares, como o latim, da Europa mediterrânea, e o sânscrito, da Índia. Então pescam os sons que essas línguas têm em comum e tentam reproduzir como era o idioma ancestral que deu origem a elas lá atrás. Essa língua-mãe, concluíram os especialistas, era falada há mais ou menos 6 mil anos. Hoje a chamamos por um nome técnico: “proto-indo-europeu”. E nesse idioma, que daria origem a 439 línguas e dialetos modernos, o nome de Deus soava como Dyeus Phater – sendo que Dyeus é “céu”, e Phater, como a grafia deixa claro, é “pai”.
Na Índia, o nome segue parecido até hoje: “Papai do Céu” em védico-sânscrito, um dos idiomas locais, é Dyaus Pita. O Papai do Céu hindu sempre foi só uma divindade de segundo escalão naquelas bandas. Na Grécia, porém, ele acabou mais bem-sucedido: a expressão Dyeus Phater evoluiu até virar Zeus Pater. Em latim, o termo acabou contraído para Iuppiter (“Júpiter” na grafia de hoje). Um só Deus, que ao mesmo tempo é três.
Mas essa é só a origem da palavra mesmo. Júpiter está morto. Não resistiu ao fim da cultura greco-romana. No lugar dele assumiu uma divindade do Oriente Médio: Iahweh, o deus que tinha começado sua “carreira” como uma espécie de padroeiro de uma tribo de pastores, a dos israelitas, bem antes de as divindades da Grécia e de Roma terem nascido. Iahweh, no início, era apenas um entre muitos deuses da velha Canaã, mas, graças a um certo livro composto pelos israelitas, ganhou status de Deus único.
O Deus com “D” maiúsculo dos judeus, mais tarde, iria se tornar também a divindade máxima dos cristãos e, sob outra alcunha, mas com praticamente a mesma biografia, viraria o Deus dos muçulmanos.

13.338 – Catolicismo – Quem foi São Bento, o patrono dos exorcistas?


s bento
Benedetto de Norcia nasceu em Úmbria, na Itália, no ano de 480. Desde criança, ele demonstrou interesse pela religião e nunca deixava de rezar. Por conta disso, acabou se mudando para Roma para estudar filosofia. Lá ele conheceu um eremita que lhe ensinou tudo sobre a vida solitária, e Bento passou a ser um ermitão.
Durante 3 anos, Bento ficou recluso em uma gruta, apenas rezando e estudando. Ele recebia alimentos de seu mentor, chamado Romano. Aos poucos, outros pastores da região começaram a ouvir sua história e também passaram a deixar comida na entrada da sua moradia.
Ordem do Beneditinos
A fama de que Bento era um santo em vida logo se espalhou, e muita gente passou a procurá-lo em busca de conselhos e orações. Isso fez com que ele fosse convidado a ser o abade do convento de Vicovaro, já que conhecia bastante dos ensinamentos de Cristo. Lá, ele acabou criando atrito com os monges, seus subordinados, que inclusive teriam tentado matá-lo com um cálice envenenado. Bento, ao benzer o vinho, teria neutralizado o veneno e sobrevivido!
Apesar dos atritos, Bento foi o primeiro a organizar os monges – antes eles viviam isolados e dispersos. Os mosteiros fundados por ele faziam parte da Ordem dos Beneditinos, a primeira ordem monástica da História, que atraiu a atenção de muitas pessoas da alta sociedade, que enviavam os filhos para estudar nesses locais. Ela funciona até os dias atuais.
Bento morreu aos 67 anos, supostamente depois de prever a própria morte. Ele cavou sua cova, reuniu seus seguidores, fez uma reza e sucumbiu! Sua fama de milagreiro só aumentou ao longo dos séculos: em 1220, ele foi finalmente canonizado. Dos mosteiros beneditinos, ergueram-se 23 papas, 5 mil bispos e 3 mil santos!
A medalha e a oração
A origem da cruz-medalha de São Bento é incerta, mas ela traz uma série de curiosas inscrições. Por exemplo: VRS (“Vade Retro Satana”, ou “para trás, Satanás”, em latim) e NSMV (“Nunquam Suade Mihi Vana”, ou “Nunca me dê conselhos vãos”). Por conta disso, ela ficou famosa no uso em exorcismos, a ponto de o papa Bento XIV, em 1742, aprovar a medalha para essa prática.
Hoje em dia, muitos invocam orações a São Bento como forma de quebrar magias de inimigos – e não precisa ser apenas do Tinhoso! Para isso, basta entoar os versos de sua oração: “A cruz sagrada seja minha luz. Rogue por nós, bem-aventurado São Bento, para que sejamos dignos das promessas de Cristo”.

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13.243 – Universidade Mackenzie de SP abre centro que questiona a evolução


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A Universidade Presbiteriana Mackenzie, uma das mais tradicionais de São Paulo, acaba de inaugurar um núcleo de ciência, fé e sociedade que tem como um de seus objetivos a realização de pesquisas sobre a chamada teoria do DI (Design Inteligente).
Os defensores do DI, cujas ideias são rejeitadas pela maioria da comunidade científica, argumentam que os seres vivos são tão complexos que ao menos parte de suas estruturas só poderia ter sido projetada deliberadamente por algum tipo de inteligência.
O novo centro recebeu o nome de Núcleo Discovery-Mackenzie por causa da parceria entre a universidade brasileira e o Discovery Institute, nos EUA.
A instituição americana está entre os principais promotores da causa do DI e já sofreu derrotas judiciais em seu país por defender que a ideia fosse ensinada em escolas públicas em paralelo com a teoria da evolução, hoje a explicação mais consolidada sobre a diversidade da vida.
Tribunais dos EUA consideraram que o DI seria, na essência, muito semelhante ao criacionismo bíblico (a ideia de que Deus criou diretamente o homem e os demais seres vivos) e, portanto, seu ensino violaria a separação legal entre religião e Estado no país.
“É importante destacar que não é um núcleo de DI, e sim um núcleo de fé, ciência e sociedade”, declarou à Folha o teólogo e pastor presbiteriano Davi Charles Gomes, chanceler da universidade. “Nossa instituição é confessional, o que significa que ela tem uma visão segundo a qual o mundo tem um significado transcendente. E não existe ciência que, no fundo, não reflita também sobre coisas transcendentes.”

DE BACTÉRIAS AO TRÂNSITO
Segundo Gomes, o contato com o Discovery Institute já acontece desde a década passada, quando a universidade começou a organizar o ciclo de simpósios Darwinismo Hoje, trazendo biólogos defensores da teoria da evolução e palestrantes que questionam o consenso científico.
Para especialistas, o projeto tem sabor de fracasso. “É triste e extremamente preocupante”, diz o paleontólogo Mario Alberto Cozzuol, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). “As premissas do DI foram derrubadas e expostas já faz muito tempo. Seus proponentes não têm aportado nenhuma novidade para a discussão. O único motivo pelo qual isso continua atraindo gente é a falta de educação em ciências.”

argumento pro

argumento contra

13.224 – Mitos Religiosos – O Diabo Não Existe


Uma visão espírita sobre o diabo

O diabo não existe – isso pode parecer óbvio para você, se você é espírita. Mas milhões de pessoas ainda acreditam na existência do diabo como um ser real, personificado. E embasam a sua crença na Bíblia, a mesma Bíblia que nos apresenta Jesus.
Nós sabemos que a maior parte das pessoas que acredita no diabo é composta por católicos e protestantes (ou os chamados evangélicos). Tanto católicos quanto evangélicos exercem um papel importante que merece todo o nosso respeito, mas não há como fazer uma mudança profunda no ser imortal que nós somos se nós não reconhecermos a total responsabilidade que nós temos sobre nós mesmos. Então, enquanto nós tivermos a ideia de um ser culpado pelo mal, um ser a quem se atribui a causa de todo o mal que há na Terra, nós não nos responsabilizaremos pelos nossos pensamentos, pelas nossas palavras, pelas nossas ações.
Não podemos mais continuar terceirizando a responsabilidade que temos sobre nós mesmos, porque a ideia do diabo é isso: é a terceirização da responsabilidade. Nós erramos, mas não somos culpados pelo nosso erro – nós estamos apenas dominados ou influenciados pelo diabo; o culpado é o diabo.
Entre os espíritas não existe a crença no diabo, mas essa terceirização da responsabilidade também acontece apenas mudando de nome – o culpado não é o diabo porque o diabo não existe, mas o espírita muitas vezes coloca a culpa dos seus males no espírito obsessor.

Fonte: Espírito Imortal