14.025 – Mega Byte – O Facebook escuta nossas conversas para segmentar anúncios?


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Muitas teorias da conspiração que podem ser encontradas na internet dizem respeito ao Facebook. As mais famosas falam sobre a rede social escutar constantemente o que falamos para que anúncios sejam segmentados. Há alguns relatos que garantem que isso, de fato acontece, além de vários vídeos no Youtube de pessoas que dizem que estamos sendo vigiados a todo o momento.
O Facebook não é exatamente uma rede social que se gaba por sua alta privacidade. Muitos usuários desconfiam de sua segurança desde 2017, quando o escândalo Cambridge Analytica veio a público. O próprio Mark Zuckerberg já admitiu, durante a conferência de desenvolvedores do Facebook, que eles não tinham “a mais forte reputação de privacidade.”
A rede social nega que ouve conversas para segmentar anúncios. Zuckerberg chegou a dizer diante do Congresso americano que a empresa não se dedica à prática. Especialistas e analistas dizem que o Facebook não precisa de nossas conversas para direcionar anúncios de forma eficaz. No entanto, a teoria da conspiração persiste, com pessoas compartilhando suas experiências.

Como é o caso de Carl Mazur, um fotógrafo de Utah, que se assustou após ver um anúncio de lentes de câmera da marca Rokinon aparecendo em seu perfil. Isso porque 20 minutos antes, o quiroprata de Mazur mencionou a marca durante uma sessão.

Ele sempre ouviu histórias sobre a rede social escutando conversas por meio dos microfones dos smartphone, mas nunca deu muita importância para o assunto. O anúncio do equipamento fotográfico fez com ele reconsiderasse. “Foi aí que eu comecei a acreditar”, disse Mazur, acrescentando que nunca havia pesquisado ou comprado lentes Ronikon antes. “Pensei em como isso era estranho.”
Mesmo com todos os relatos, isso parece não atingir a reputação da rede social, que hoje conta mais de 2,38 bilhões de pessoas conectadas todos os meses. Analistas dizem que, pouco a pouco, os rumores de conspiração e espionagem podem mudar a maneira como usamos a plataforma. Se estivermos preocupados com o fato do Facebook estar ouvindo nossas conversas, podemos parar de compartilhar alguns de nossas dados pessoais, desta forma, ele não conseguirá segmentar anúncios com tanta precisão.
Os usuários, por exemplo, podem desligar seus telefones se estiverem em um evento, em uma conversa particular ou em uma sessão de terapia, sugeriu Grygiel. Eles também podem ser mais cautelosos e compartilhar menos informações ou desativar sua localização, o que privaria o Facebook de oportunidades de aprender mais sobre você. Eles também poderiam ativar bloqueadores de anúncios, o que afetaria a receita da plataforma.
Parte do problema, dizem os especialistas, é que os consumidores não entendem completamente como seus dados estão sendo usados pela empresa para exibir anúncios. Cerca de 74% dos adultos dos EUA que usam o Facebook não sabiam que a rede social mantém uma lista de seus interesses e características para a segmentação de anúncios.

Um porta-voz da rede social disse que eles estão trabalhando para fornecer às pessoas informações mais precisas sobre o motivo pelo qual estão vendo um anúncio, além de lançar ferramentas que prometem transparência para os usuários. O Facebook possui uma ferramenta que pode ser utilizada para o usuário saber o motivo de estar vendo aquele anúncio. Mesmo assim, algumas informações estão incompletas.
O Facebook ainda divulgou recentemente que está trabalhando em diversas melhorias na rede social, incluindo aperfeiçoamento de seus recursos de segurança. Segundo pesquisa do Datafolha, no Brasil a rede social está perdendo usuários, sendo que a queda foi diretamente atribuída aos escândalos de privacidade em que a plataforma esteve envolvida. Será que eles vão conseguir diminuir a desconfiança dos usuários? Difícil saber.

14.024 – Aviação Comercial – A Boeing Lançará seu Novo Supersônico


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Os voos comerciais com jatos supersônicos deixaram de ser uma realidade há mais de 15 anos, com a aposentadoria do Concorde, em outubro de 2003. Além do Concorde, apenas o avião russo Tupolev TU-144 chegou a fazer viagens com passageiros acima da velocidade do som. O TU-144, no entanto, ficou em operação por pouco mais de seis meses, entre 1977 e 1978. Nos últimos anos, começaram a surgir novos projetos para tentar viabilizar o retorno dos voos supersônicos na aviação comercial. Ainda deve demorar para que os primeiros voos de teste sejam iniciados.
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Apresentou em junho do ano passado o seu avião conceito para viagens supersônicas. A intenção é voar cinco vezes mais rápido que a velocidade do som, ou cerca de 5.500 km/h. Segundo a empresa, o novo avião poderia ser utilizado tanto pela aviação comercial como em missões militares. A Boeing não dá muitos detalhes sobre o projeto e diz apenas que os engenheiros de toda a empresa trabalham para desenvolver a tecnologia necessária para quando o mercado estiver pronto para os voos supersônicos. O pesquisador sênior e cientista-chefe de hipersônicos da Boeing, Kevin Bowcutt, afirmou que avião supersônico de passageiros da Boeing só deve ser viável daqui a 20 ou 30 anos.

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Com capacidade entre 12 e 18 passageiros, o jato executivo supersônico Spike S-512 quer reduzir o tempo das viagens de avião pela metade. O jato está sendo projetado para voar a velocidade Mach 1.6, cerca de 1.700 km/h, com uma autonomia de voo para mais de 11 mil quilômetros de distância. O jato poderia voar de São Paulo a Londres em 5h30. A empresa afirma que um dos principais diferenciais em relação aos antigos aviões supersônicos, como o Concorde, é o baixo nível de ruído, mesmo ao quebrar a barreira do som. O avião também está sendo projetado para ter um interior luxuoso. As janelas seriam substituídas por enormes telas, que podem transmitir imagens externas, um filme ou qualquer outra apresentação. Originalmente, a empresa tinha a intenção de fazer o primeiro voo do jato supersônico em 2021, com as entregas para 2023. O projeto, no entanto, está atrasado.
O jato executivo AS2, da Aerion Supersonic, deve realizar seu primeiro voo de testes em 2023, para ser entregue aos primeiros clientes em 2025. O jato terá capacidade para 12 passageiros, com velocidade máxima de Mach 1.4, cerca de 1.500 km/h, e autonomia de 7.800 quilômetros de distância. Quando estiver sobrevoando áreas terrestres, no entanto, o jato viajaria abaixo da velocidade do som por conta do estrondo gerado ao romper a barreira do som. Com isso, o avião é um misto entre supersônico e subsônico. Em uma viagem de Nova York a São Paulo, por exemplo, haveria uma economia de 2h09.

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14.023 – Como Funciona a Vela Solar?


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Velas solares são um tipo de propulsão que utiliza pressão de radiação para gerar aceleração. Elas são feitas de grandes espelhos membranosos de pouca massa que ganham momento linear ao refletirem fótons. A pressão de radiação à distância da Terra ao Sol é de aproximadamente 10−5 Pa[1] e é função inversa do quadrado da distância à fonte luminosa, se esta for pontual. Mesmo gerando aceleração de valor muito pequeno, velas solares são capazes de gerar aceleração constante por longos períodos e não requerem massa de reação, que geralmente totaliza uma fração significante da massa das espaçonaves que utilizam-na atualmente, possibilitando assim aumentar a carga útil da espaçonave e atingir grande velocidade. Várias tecnologias foram teorizadas a partir de velas solares de com usos para pequenas alterações de órbitas de satélites a propulsão de veículos espaciais para viagem interestelar.
Os conceitos científicos que embasam a tecnologia de velas solares são bem aceitos e difundidos, porém a tecnologia necessária para a construção viável de velas solares está em desenvolvimento, e missões espaciais baseadas em velas solares partindo de grandes agências ainda não foram executadas. Em 2005, em resposta à falta de interesse governamental, a organização Sociedade Planetária, movida por entusiastas, lançaria a espaçonave Cosmos 1, com propulsão baseada na tecnologia. Porém, o projeto fracassou pois houve uma falha no foguete que iria lançar a espaçonave de um Submarino, no Mar de Barents.
O conceito da tecnologia data desde o século XVII, com Johannes Kepler. Friedrich Zander na década de 1920 novamente propôs esse tipo de tecnologia, que tem sido gradualmente refinada. O intenso interesse recente de estudos científicos começou com um artigo do engenheiro e autor de ficção científica Robert L. Forward em 1984.
Posiciona-se um grande espelho membranoso que reflete a luz do Sol ou de outra fonte luminosa. A pressão de radiação gera uma pequena quantidade de impulsão ao refletir fótons. Inclinando a superfície reflexiva em certos ângulos para a fonte luminosa, gera-se propulsão em direção normal à superfície. Ajustes nos ângulos das velas podem ser feitos com a ajuda de pequenos motores elétricos, para que a vela se incline e possa gerar propulsão na direção desejada.
Teoricamente, também seria possível gerar aceleração em direção à fonte luminosa, contrariando o senso comum, ao desacoplar parte da vela e utilizá-la para concentrar luz numa face reflexiva oposta à fonte de luz.
Os métodos mais eficientes para utilizar velas solares envolvem manobras em direção à fonte de luz, onde a luz é mais intensa. Em meados da década de 1990 foi proposto um método que permite que uma espaçonave equipada com velas solares atinja velocidades de cruzeiro capazes de escapar do sistema solar a velocidades muito maiores do que as atingidas por outros métodos de propulsão avançados, como propulsão nuclear. Demonstrado matematicamente, esse modo de velejar foi considerado como uma das opções para viagens interestelares futuras pela NASA.

Esclarecendo:
Existe um mal-entendido que velas solares são movidas pelo vento solar, ou por partículas carregadas de alta energia do Sol. De fato, tais partículas gerariam impulso ao atingirem velas solares, porém esse efeito é pequeno comparado ao da pressão de radiação da luz: a força da pressão de radiação é cerca de 5.000 vezes maior do que aquela gerada pelo vento solar. Existem modelos propostos que se utilizariam do vento solar, porém precisariam ser muito maiores do que velas solares convencionais.
Outros também teorizam que o princípio das velas solares violaria o princípio da conservação de energia. Esse não é o caso, já que os fótons perdem energia ao atingir os espelhos de uma vela solar ao passarem por desvio Doppler: seu o comprimento de onda aumenta, diminuindo sua energia, em função da velocidade da vela – uma transferência de energia dos fótons solares para a vela. A energia adquirida soma momento à vela.
Atualmente, painéis de controle de temperatura, coletores solares e outras partes móveis são utilizados ocasionalmente como velas solares improvisadas, para ajudar espaçonaves comuns a fazer pequenas correções ou modificações na órbita sem utilizar combustível.
Algumas até tiveram pequenas velas construídas propositalmente para esse uso. Satélites Eurostar da EADS Astrium utilizam velas solares ligadas a seus painéis solares para realizar tarefas de ajuste de momento angular, economizando combustível (esses satélites acumulam momento angular através do tempo e comumente giroscópios são utilizados para controlar a orientação da espaçonave). Algumas espaçonaves não tripuladas, como a Mariner 10, utilizaram velas solares para estender sua vida útil.
Robert L. Forward mostrou que uma vela solar poderia ser utilizada para manipular a órbita de um satélite. Velas solares poderiam, no limite, ser utilizadas para manter um satélite sobre um pólo da Terra. Espaçonaves com velas solares também poderiam ser posicionadas em órbitas próximas ao Sol que seriam estacionárias tanto em relação com a Terra ou com o Sol, que Forward nomeou de ‘satatite’, em referência à estaticidade relativa da espaçonave. Isso seria possível pois a propulsão gerada pela vela cancela a força gravitacional exercida sobre a trajetória desejada. Uma dessas órbitas poderia ser útil para estudar as propriedades do Sol por longos períodos: uma dessas espaçonaves poderia teoricamente ser posicionada diretamente acima de um pólo do Sol e permanecer naquela posição por períodos prolongados.
Forward também propôs o uso de lasers para impulsionar velas solares. Um feixe suficiente poderoso expondo uma vela solar por tempo suficiente poderia acelerar uma espaçonave até uma fração significante da velocidade da luz. Essa tecnologia, porém, iria requerer lasers incrivelmente poderosos, lentes ou espelhos gigantescos.

Assista o vídeo:

14.022 – De onde vem o Dito Popular Maria vai com as Outras?


maria vai com as outras
Maria vai-com-as outras designa pessoa sem vontade própria, cujo nome se deve à mãe de dom João VI (1767-1826), a rainha Maria I, a Louca (1734-1816), que não podia mais sair de casa por vontade própria, sozinha, e saía sempre com outras marias, que a amparavam, guiavam e cuidavam, pois tinha enlouquecido.
É uma pessoa que não tem opinião, que segue o comando dos outros, que se deixa convencer com facilidade. Essa expressão surgiu a partir de uma associação com Dona Maria, mãe de D. João VI. Enlouquecida e incapaz de governar, foi afastada do trono e só era vista quando saia para caminhar a pé, juntamente com as damas de companhia.

14.021 – História – A Guerra Mais Sangrenta da América do Sul


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Tudo começou no Uruguai, com uma rebelião dos colorados (liberais) em abril de 1863, encabeçada pelo general Venâncio Flores, pela derrubada do governo dos blancos (conservadores) eleito em 1860. O conflito desencadeou a sequência dos acontecimentos que levaram à Guerra do Paraguai.
A Argentina e o Brasil apoiaram a rebelião colorada – era a primeira vez que os dois países estavam do mesmo lado num conflito uruguaio. O presidente argentino, Bartolomeu Mitre, um liberal eleito em outubro de 1862, tomou essa posição porque os colorados tinham lhe dado apoio na guerra civil de seu país em 1861 e porque os blancos constituíam um foco possível de oposição federalista residual nas províncias litorâneas à república argentina, recém-unificada. Para o Império do Brasil, a questão principal era proteger os interesses dos brasileiros que viviam e tinham propriedades no Uruguai, ameaçados pela rigidez das autoridades daquele Estado sobre o comércio da fronteira e as taxas aduaneiras. Foi nesse contexto que o governo blanco se voltou para o Paraguai como único aliado possível.
Mas o Paraguai temia e desconfiava de seus vizinhos muito maiores, muito mais povoados e potencialmente predatórios: as Províncias Unidas do Rio da Prata e o Brasil. Ambos tinham relutado em aceitar a independência paraguaia e demoraram a reconhecê-la: o Brasil em 1844, as Províncias Unidas em 1852. Ambos tinham reivindicações territoriais contra o Paraguai: o Brasil, no extremo nordeste do país, na divisa com Mato Grosso, região valiosa pela erva-mate nativa; a Argentina, no leste do Rio Paraná (Misiones), mas também a oeste do Rio Paraguai (o Chaco). E havia ainda atritos com ambos quanto à livre navegação no sistema fluvial Paraguai-Paraná.
O presidente do Paraguai, Francisco Solano López, a quem o governo uruguaio procurara para obter apoio em julho de 1863, tinha chegado ao poder em outubro de 1862, após a morte de seu pai, o ditador Carlos Antonio, que governara o país desde 1844. De início, ele hesitou em fazer uma aliança formal com os blancos, seus aliados naturais, contra os colorados no Uruguai, agora que estes tinham o apoio do Brasil e da Argentina. Mas, no segundo semestre de 1863, Solano López viu a oportunidade de mostrar sua presença na região e de desempenhar um papel compatível com o novo poder econômico e militar do Paraguai. No começo de 1864, ele começou a mobilização para uma possível guerra.
Quando o Brasil lançou um ultimato ao governo uruguaio em agosto do mesmo ano, ameaçando retaliar os supostos abusos sofridos por súditos brasileiros, Solano López reagiu com um ultimato alertando o Brasil contra a intervenção militar. Ignorando o alerta, soldados brasileiros invadiram o Uruguai em 16 de outubro. Em 12 de novembro, após a captura de um vapor mercante brasileiro que saía de Asunción para Corumbá, levando o presidente de Mato Grosso a bordo, o Brasil rompeu relações diplomáticas com o Paraguai. Em 13 de dezembro, Solano López tomou a grave decisão de declarar guerra ao Brasil e invadiu Mato Grosso. Quando a Argentina negou autorização ao Exército paraguaio para atravessar Misiones – território disputado e quase despovoado – a fim de invadir o Rio Grande do Sul, Solano López também declarou-lhe guerra, em 18 de março de 1865, e no mês seguinte invadiu a província argentina de Corrientes.
A decisão de Solano López de declarar guerra primeiro ao Brasil e depois à Argentina, e de invadir os dois territórios, mostrou-se um grave erro de cálculo, que traria consequências trágicas para o povo do Paraguai. O mínimo que se pode dizer é que Solano López fez uma tremenda aposta – e perdeu. Ele superestimou o poderio econômico e militar do Paraguai. Subestimou o poderio militar potencial, se não efetivo, do Brasil, e sua disposição de lutar. E errou ao pensar que a Argentina ficaria neutra numa guerra entre o Paraguai e o Brasil em disputa pelo Uruguai.
Os objetivos originais da guerra, tal como foram expostos no Tratado da Tríplice Aliança assinado pelo Brasil, pela Argentina e pelo Uruguai em 1o de maio de 1865, eram: a derrubada da ditadura de Solano López; livre navegação dos rios Paraguai e Paraná; anexação do território reivindicado pelo Brasil no nordeste do Paraguai e pela Argentina no leste e no oeste do Paraguai — esta última cláusula se manteve secreta até ser revelada pela Inglaterra em 1866. Com o desenrolar do conflito, tornou-se, em particular para o Brasil, uma guerra pela civilização e pela democracia contra a barbárie e a tirania: isso apesar do estranho fato de que o Brasil, após a libertação dos escravos nos Estados Unidos durante a Guerra Civil, agora era o único Estado independente de todas as Américas com a economia e a sociedade em bases escravistas, além de ser a única monarquia remanescente.
A Guerra do Paraguai não era inevitável. E nem era necessária. Mas só poderia ter sido evitada se o Brasil tivesse se mostrado menos categórico na defesa dos interesses de seus súditos no Uruguai, principalmente, se não tivesse feito uma intervenção militar em favor deles, se a Argentina tivesse se mantido neutra no conflito subsequente entre o Paraguai e o Brasil, e, sobretudo, se o Paraguai tivesse se conduzido com mais prudência, reconhecendo as realidades políticas da região e tentando defender seus interesses por meio da diplomacia, e não pelas armas. A guerra, que se estendeu por mais de cinco anos, foi a mais sangrenta da história da América Latina, e, na verdade, afora a Guerra da Crimeia (1854-1856), foi a mais sangrenta de todo o mundo entre o fim das Guerras Napoleônicas, em 1815, e a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Custou de 150.000 a 200.000 vidas (na maioria, paraguaios e brasileiros), no campo de batalha e por privações e doenças decorrentes da guerra.
Diante da enorme disparidade entre os dois lados, em termos de tamanho, riqueza e população, a Guerra do Paraguai deveria se afigurar desde o início uma luta desigual. Mas, militarmente, havia um maior equilíbrio. De fato, no início da guerra, e pelo menos durante o primeiro ano, o Paraguai provavelmente teve superioridade militar em termos numéricos. E provavelmente seu Exército era mais equipado e treinado do que os exércitos vizinhos. Além disso, como as forças paraguaias tinham sido expulsas do território argentino, a Argentina reduziu tanto sua contribuição para o esforço de guerra dos aliados que, no final da guerra, havia apenas cerca de 4.000 soldados argentinos em solo paraguaio. O Uruguai, por sua vez, teve presença apenas simbólica no teatro de operações durante todo o conflito. O Brasil, por outro lado, aumentou seu Exército regular – que tinha entre 17.000 e 20.000 – para 60.000 a 70.000 homens no primeiro ano das hostilidades, com recrutamento obrigatório, transferências da Guarda Nacional, alistamento de escravos de propriedade do Estado e alguns de propriedade particular (libertados em troca dos serviços na guerra) e a formação dos corpos de Voluntários da Pátria. Calcula-se que o Brasil mobilizou durante a guerra cerca de 140.000 homens. E, ao contrário do Paraguai, que dispunha apenas de seus próprios estaleiros e arsenais, o Brasil tinha acesso a armas, munições e navios de guerra, tanto fabricados e montados no país quanto comprados no exterior, principalmente na Europa, além de empréstimos obtidos na City de Londres para ajudar nesses pagamentos. Por fim, o Brasil tinha a Marinha mais forte e poderosa da região.
A guerra pode ser dividida em três fases. A primeira começou com as ofensivas paraguaias a Mato Grosso em dezembro de 1864 e a Corrientes em abril de 1865. Em maio de 1865, o Exército paraguaio finalmente atravessou Misiones e invadiu o Rio Grande do Sul. De início a invasão teve sucesso, mas depois foi contida pelas forças aliadas. No dia 14 de setembro, o comandante paraguaio, coronel Estigarribia, se rendeu aos aliados em Uruguaiana. O Exército paraguaio então se retirou, atravessando o Rio Paraná, e se preparou para defender a fronteira sul do país. Enquanto isso, em 11 de junho, na Batalha do Riachuelo, no Rio Paraná, a única grande batalha naval da guerra, a Marinha brasileira tinha destruído a Marinha paraguaia e criado um bloqueio cerrado ao Paraguai, que se manteve até o fim da guerra.
A segunda e principal fase do conflito começou quando os aliados finalmente invadiram o Paraguai, em abril de 1866, e instalaram seu quartel-general no Tuiuti, na confluência dos rios Paraná e Paraguai. Em 24 de maio, repeliram uma investida paraguaia e venceram a primeira grande batalha em terra. Mas os exércitos aliados demoraram mais de três meses até começarem a subir o Rio Paraguai. Em 12 de setembro, Solano López propôs concessões, inclusive territoriais, para terminar a guerra, desde que lhe fosse poupada a vida e o Paraguai não fosse totalmente desmembrado ou ocupado em caráter permanente, mas sua proposta foi rejeitada. Dez dias depois, em Curupaiti, ao sul de Humaitá, no Rio Paraguai, os aliados sofreram sua pior derrota. Não retomaram o avanço até julho de 1867, quando se iniciou uma movimentação para cercar a grande fortaleza fluvial de Humaitá, que bloqueou o acesso ao Rio Paraguai e à capital, Asunción. Mesmo assim, passou-se mais de um ano antes que os aliados ocupassem Humaitá (5 de agosto de 1868), e mais cinco meses para a derrota decisiva e praticamente a destruição do Exército paraguaio na Batalha de Lomas Valentinas, em 27 de dezembro. As tropas aliadas (na maioria brasileiras), sob o comando do marechal Luís Alves de Lima e Silva, o marquês de Caxias, comandante-chefe brasileiro desde outubro de 1866 e comandante-chefe das forças aliadas desde janeiro de 1868, finalmente entraram em Asunción em 1o de janeiro de 1869 e terminaram a guerra. Pelo menos, assim pensavam os aliados.
Mas houve uma terceira fase: Solano López formou um novo exército na Cordilheira a leste de Asunción e começou uma campanha de guerrilha. Foi derrotado e seus soldados massacrados na última grande batalha em Campo Grande ou Acosta Nu, no nordeste de Asunción, em agosto de 1869. Mesmo assim, López conseguiu escapar com vida. Com sua companheira irlandesa Eliza Alicia Lynch, ele foi perseguido no norte por tropas brasileiras por mais seis meses, até finalmente ser acuado e morto em Cerro Corá, no extremo nordeste do Paraguai, em 1o de março de 1870. Em 27 de julho, foi assinado um tratado de paz preliminar.
Por que demorou tanto até os Aliados vencerem a guerra, apesar de sua esmagadora superioridade naval e, pelo menos depois de Tuiuti, também terrestre? Passaram-se quase quatro anos antes que os aliados chegassem à capital paraguaia. E mesmo então, a guerra se arrastou por mais de um ano. Uma explicação se encontra no lado dos aliados, ou melhor, no lado brasileiro, já que o Brasil ficou praticamente sozinho na guerra após o primeiro ano. Os governos brasileiros enfrentavam enormes problemas logísticos, primeiro para organizar, depois para transportar as tropas por milhares de quilômetros por via terrestre, marítima e fluvial, e, finalmente, para abastecê-las. E vencer as excelentes defesas terrestres e fluviais do Paraguai não foi tarefa fácil. Mas também é verdade que os comandantes brasileiros demonstraram um alto grau de incompetência estratégica e tática. Por outro lado, as tropas paraguaias e, na verdade, o próprio povo paraguaio, mantiveram-se leais a Solano López, combatendo com uma tenacidade extraordinária e, no final, quando estava em jogo a sobrevivência nacional, com grande heroísmo.
Para o Paraguai, a guerra foi quase uma calamidade total. O país sobreviveu como Estado independente, mas sob a ocupação e tutela brasileira no período posterior ao fim da guerra. Somente em julho de 1876, finalmente se retiraram 2.000 soldados e seis navios de guerra brasileiros. A consequência extrema da completa derrota, que seria o desmembramento integral do país, foi evitada, mas o território paraguaio foi reduzido em 40%, e o que restou do Exército foi desarmado. Embora o número de baixas tenha sido muito exagerado – chegou-se a se falar em 50% da população do Paraguai antes do conflito –, e as estimativas recentes e mais modestas estejam na ordem de 15% a 20% da população, o que corresponde a cerca de 50.000 a 80.000 mortes no campo de batalha e por doenças (sarampo, varíola, febre amarela e cólera), os percentuais são enormes pelos critérios de qualquer guerra moderna. A economia do Paraguai ficou arruinada, a infraestrutura e a base manufatureira foram destruídas e o início de um desenvolvimento externo sofreu o retrocesso de uma geração. Por fim, os vencedores impuseram ao país uma indenização enorme, embora nunca tenham cobrado e depois tenham cancelado.
A Argentina sofreu baixas estimadas – possivelmente com exagero – em 18.000 mortes em campo de batalha, mais 5.000 em distúrbios internos desencadeados pela guerra e 12.000 em epidemias de cólera. O território anexado ficou aquém de suas pretensões. De qualquer forma, eliminou-se da política da região platina a perspectiva de um Paraguai cada vez mais forte e potencialmente expansionista. E, num balanço geral, a guerra contribuiu positivamente para a consolidação nacional do país: Buenos Aires foi aceita como capital inconteste de uma república argentina unida, e a identidade nacional se fortaleceu consideravelmente.
O Brasil, que depois do primeiro ano da guerra combateu praticamente sozinho, sofreu baixas de pelo menos 50.000 mortos em combate e muitos outros por doenças, embora num total inferior aos 100.000 às vezes citados. O custo financeiro da guerra sacrificou tremendamente as finanças públicas do país. E a guerra teve profundo impacto na sociedade e na vida política. A Guerra do Paraguai foi um divisor de águas na história do Império, ao mesmo tempo seu apogeu e o início de sua decadência.
Mas o Brasil tinha alcançado todos os seus objetivos. Pelo tratado assinado com o Paraguai em janeiro de 1872, o país obteve todo o território reivindicado entre o Rio Apa e o Rio Branco. Assegurou-se a livre navegação dos rios Paraguai e Paraná, importante para Mato Grosso e o oeste paulista. E o próprio Paraguai, ainda mais que o Uruguai, agora estava sob seu firme controle e sua influência. Assim se consolidava, por ora, a indiscutível hegemonia do Império brasileiro na região.
Leslie Bethell é professor emerito de História da América Latina na Universidade de Londres e editor da coleção Cambridge History of Latin America (12 volumes, Cambridge University Press, 1984-2008)

Jogo de interesses?
Existe um mito de que o Brasil e a Argentina, na Guerra do Paraguai ou Guerra da Tríplice Aliança, foram instrumentos do capitalismo britânico, “Estados satélites”, “neocolônias”, instigados e manipulados por uma Grã-Bretanha “imperialista”, o “indispensável quarto Aliado”, para entrarem em guerra contra o Paraguai. Este seria um sólido mito nascido nos anos 1970 e 1980, nos textos de historiadores latino-americanos tanto da esquerda marxista quando da direita nacionalista. O alegado objetivo da Inglaterra era minar e destruir o modelo de desenvolvimento econômico conduzido pelo Estado, que representava uma ameaça ao avanço de seu modelo capitalista liberal na região. Mais especificamente, seu objetivo era abrir a única economia da América Latina que continuava fechada aos produtos manufaturados e aos capitais ingleses, e assegurar à Inglaterra novas fontes de matérias-primas, em especial o algodão, já que o abastecimento dos Estados Unidos tinha sido afetado pela guerra civil.
Há pouca ou nenhuma prova concreta consistente que possa sustentar essa tese. O governo britânico não tinha praticamente nenhum interesse no Paraguai e nenhuma vontade de piorar as disputas existentes no Rio da Prata, e muito menos de promover a guerra, que iria apenas ameaçar vidas e propriedades inglesas e o comércio britânico. E, mesmo que quisesse, a Inglaterra não exercia o grau de controle sobre o Brasil ou sobre a Argentina que seria necessário para manobrá-los e levá-los à guerra contra o Paraguai. As autoridades britânicas, em sua maioria, estavam a favor dos aliados, mas a Inglaterra se manteve oficialmente neutra durante a guerra e utilizou de modo sistemático sua influência a favor da paz. É verdade que fabricantes britânicos vendiam armas e munições aos beligerantes – isto é, na prática, ao Brasil e à Argentina, visto que o Paraguai logo caiu sob bloqueio brasileiro. Mas eram negócios, oportunidades de os empresários na Inglaterra, na França e na Bélgica lucrarem com uma guerra. Também é verdade que o empréstimo de sete milhões de libras dos Rothschild ao governo brasileiro em setembro de 1865 foi utilizado para comprar navios de guerra, e neste sentido a Inglaterra deu uma contribuição importante para a vitória dos aliados sobre o Paraguai. Mas não houve qualquer outro empréstimo ao Brasil durante toda a guerra, e os empréstimos ingleses representaram apenas 15% do total de despesas do Brasil com a Guerra do Paraguai. A principal responsabilidade pela guerra coube ao Brasil, à Argentina, em menor grau ao Uruguai e, sobretudo – infelizmente –, ao próprio Paraguai.

14.020 – Medicina – O Hormônio de Crescimento


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A sigla GH (Growth Hormone) se refere ao hormônio do crescimento. O GH é produzido pela glândula hipófise, situada na base do crânio, e está presente em todas as pessoas normais. É indispensável durante o período de crescimento e sem ele a estatura adulta normal não pode ser alcançada.
Para avaliar o ritmo de desenvolvimento os médicos utilizam a velocidade de crescimento. Para isso é preciso ter pelo menos duas medidas de estatura e um intervalo de tempo entre elas. Nos primeiros meses de vida as medidas podem ser mensais, mas depois a cada três ou quatro meses. Nos primeiros dois anos de vida a criança cresce cerca de 25 cm, ocorrendo uma desaceleração progressiva da velocidade de crescimento, mas na puberdade ela volta a acelerar. O acompanhamento com o Pediatra é fundamental para detectar precocemente qualquer alteração da velocidade de crescimento, e com isso permitir o diagnóstico precoce de doenças que afetam o crescimento. Quando o crescimento é menor que o esperado, o ideal é que um especialista seja consultado. Quanto mais cedo for percebido o problema, melhores serão as chances de recuperação.
O nanismo é um termo usado para situações de baixa estatura grave. Manifesta-se principalmente a partir dos dois anos de idade, impedindo o crescimento e desenvolvimento durante a infância e adolescência. Pode ser causado por deficiência de hormônio de crescimento (chamado de nanismo hipofisário) ou por doenças ósseas congênitas.
Quando o corpo humano produz GH em excesso, causa uma doença conhecida como gigantismo. É um quadro de crescimento exagerado, acompanhado de outros problemas graves de saúde. Pode surgir na infância, durante a puberdade ou na vida adulta.
A deficiência de GH pode ser causada por problemas genéticos, traumas, doenças infecciosas ou inflamatórias, tumores cranianos, radioterapia, quimioterapia, entre outras. Muitas vezes não é possível identificar a causa da deficiência, mesmo realizando todos os exames disponíveis.
Uma das formas de se identificar problemas de crescimento é observar que a criança está demorando para trocar a numeração de roupas e calçados ou quando ela se torna a menor da turma da escola. Esses são sinais importantes que devem estimular os pais a procurar um médico endocrinologista.
As crianças devem ser medidas e os dados de peso e estatura precisam ser colocados nos gráficos para serem interpretados corretamente. Só assim é possível comparar as medidas da criança com as de outras crianças da mesma idade e sexo e também com a estatura dos pais.
O crescimento acontece até que haja a fusão ou fechamento das cartilagens de crescimento, que é uma região especial dos ossos. A época em que ocorre o término do crescimento vai depender muito da idade de início e de término da puberdade. Depois que as cartilagens dos ossos longos se fecham, não há mais possibilidade de crescer, mesmo tomando o GH. Nesse caso, além de não fazer crescer, o uso do GH não é seguro e pode trazer prejuízo para a saúde.
Adultos com deficiência de GH podem fazer a reposição do hormônio de crescimento. Nesses casos o tratamento com GH produz outros benefícios para a saúde como melhora da capacidade física, aumento da massa magra (ossos e músculos), redução da gordura corporal e melhora da qualidade de vida. Por causa desses benefícios, algumas pessoas utilizam o GH erroneamente para tratar a obesidade, reduzir o processo de envelhecimento e melhorar o desempenho físico. A medicação é contraindicada para esses fins por não ser considerada segura. No esporte, a sua utilização é considerada ilícita e passível de punição.
A abordagem dos problemas de crescimento é feita da seguinte forma: inicialmente o endocrinologista avalia o histórico de saúde da família e da criança, incluindo os antecedentes gestacionais e de nascimento, além do exame físico completo para identificar outros sinais de doenças. Depois realiza a pesquisa de possíveis causas por meio de exames laboratoriais e radiológicos. Se for constatada uma deficiência de hormônio de crescimento, o endocrinologista indicará o tratamento com GH. É importante saber que existem outras situações que atrapalham o crescimento normal e que também podem ser tratadas com GH. Tomar hormônio, só com orientação médica.

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14.019 – Um milhão de espécies estão na linha de fogo da extinção, diz a ONU


EXTINCAO
Cientistas acabam de publicar o relatório mais abrangente já produzido sobre a “saúde” dos ecossistemas e da biodiversidade no planeta. E as coisas não vão nada, mas nada bem. Os resultados são sinistros. Todas as frentes avaliadas pelo documento elaborado por centenas de especialistas apontam: a natureza está se deteriorando rapidamente. E a não ser que mudanças profundas sejam implementadas logo, a humanidade está em perigo.
Entre as descobertas mais preocupantes do extensivo levantamento está o número de espécies animais e vegetais ameaçadas de extinção. Nada menos que um milhão delas podem desaparecer, muitas já nas próximas décadas. Ao todo, a biodiversidade dos ambientes terrestres caiu 20%, sobretudo no último século. A pesquisa contou com a participação de 145 autores de 50 países, além da colaboração de outros 310 cientistas.
Foram revisadas sistematicamente 15 mil fontes governamentais e científicas para produzir uma análise baseada em evidências de como o desenvolvimento econômico impactou a natureza nos últimos 50 anos. Esse trabalho colossal divulgado ao mundo nesta segunda (6) foi coordenado pela Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), órgão da ONU criado em 2012 aos moldes do IPCC para o clima.
“A saúde dos ecossistemas dos quais nós e todas as outras espécies dependemos está se deteriorando mais depressa do que nunca”, disse em comunicado Robert Watson, dirigente do IPBES. “Estamos erodindo os próprios alicerces de nossas economias, sobrevivências, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida no mundo todo.” A mensagem aqui é muito clara: a vida na Terra é interconectada como uma rede. Ela está sendo perigosamente rasgada em vários pontos, esticada quase à beira de romper-se por completo.
Segundo a Avaliação Global do IPBES, pelo menos 680 espécies de vertebrados foram extintas desde o século 16, e as maiores culpadas são a agricultura e a pecuária. Mais de um terço das terras do planeta são dedicadas a essas duas atividades, que consomem 75% de toda a água doce disponível. Mas a degradação dos ecossistemas terrestres já derrubou 23% da produtividade das lavouras, e o risco de prejuízo anual decorrente da perda de polinizadores como as abelhas é estimado em US$ 577 bilhões.
Outros fatores responsáveis pela devastação da biodiversidade da Terra são, em ordem de culpa: exploração de organismos, mudanças climáticas, poluição e espécies invasoras. No ar, as emissões de gases estufa dobraram desde 1980, elevando a temperatura global em 0,7°C, impactando os ecossistemas e até a genética dos seres vivos. Nas águas, a situação também é dramática. Mais de um terço de todos os mamíferos marinhos estão ameaçados.
O lixo plástico aumentou dez vezes desde 1980. Entre 300 e 400 milhões de toneladas de metais pesados, solventes, resíduos tóxicos e outras sujeiras industriais vão parar nos mares todos os anos. Ecossistemas costeiros sofrem com os fertilizantes, que já produziram mais de 400 zonas mortas, com área combinada superior à do Reino Unido. Mas ainda há tempo de reverter a iminente catástrofe ecológica que paira sobre a civilização humana.
“O relatório também nos conta que não é tarde demais para fazer a diferença, mas só se começarmos agora em todos os níveis, do local ao global”, disse Watson. O químico e cientista atmosférico afirma que, através de uma “mudança transformadora”, a natureza ainda pode ser conservada, restaurada e usada sustentavelmente. “É uma reorganização fundamental de todo o sistema em fatores tecnológicos, econômicos e sociais, incluindo paradigmas, metas e valores.” Não vai ser fácil, mas é nossa única esperança.

14.018 – A extinção das abelhas pode acabar com a humanidade?


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A queda nas populações do inseto (Síndrome do Colapso das Abelhas), ocorre por fatores naturais e pela ação humana, por meio da destruição do ambiente das abelhas selvagens e do uso massivo de agrotóxicos e agroquímicos. No Reino Unido, por exemplo, o número de abelhas equivale a apenas 25% do necessário para a polinização. Segundo a doutora Maria Caldas Pinto, do Centro de Ciências Humanas e Agrárias da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), as abelhas são fundamentais para a humanidade.
Nesta semana, o US Fish and Wildlife Service (FWS), que funciona como o Ibama dos Estados Unidos, incluiu sete espécies de abelha na lista de animais em extinção. Só não dá para cravar um prazo para o desaparecimento completo – nosso e delas. “Dizer que ocorreria em uma determinada quantidade de anos é taxativo, mas, se não preservarmos os meios ambientes para mantermos os insetos, a previsão vai se cumprir”.

Fazendeiras naturais
O trabalho das abelhas para a agricultura é estimado em R$ 868 bilhões. Entre 2006 e 2008, uma misteriosa diminuição na quantidade de abelhas nos EUA causou um prejuízo de mais de US$ 14 bilhões

O zumbido do apocalipse
Sem as abelhas, o mundo como o conhecemos entraria em colapso1. Se as abelhas sumirem, boa parte dos vegetais também deixará de existir. Isso porque elas são responsáveis pela polinização de até 90% da população vegetal. Há, inclusive, apicultores que alugam abelhas para a polinização de fazendas. Pássaros e outros insetos também atuam na polinização, mas em escala muito menor2. Com a queda drástica na quantidade de vegetais disponíveis, as fontes de alimentação de animais herbívoros ficarão escassas, gerando um efeito dominó na cadeia alimentar. Os herbívoros irão morrer, diminuindo a oferta de alimento aos carnívoros, atingindo um número cada vez maior de espécies até chegar ao homem
3. Com poucos vegetais e carnes à disposição, valerá a lei da oferta e da demanda. A tendência é que os preços dos alimentos disparem, assim como os valores de outros artigos de origem animal e vegetal, como o couro, a seda e o etanol, para citar só alguns. Está formada uma crise econômica

4. Na luta pelo pouco alimento que restou, a população mundial pode iniciar conflitos e até guerras. A agropecuária em crise afetará vários setores da economia, gerando desemprego, queda geral de produtividade e insatisfação popular. Com fome, muitos morrerão ou ficarão doentes. Poucos conseguiriam sobreviver a esse caos

14.017 – Psiquiatria – Gênios com Transtornos Mentais


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Vincent van Gogh, (o homem que pintava o 7) famoso por quadros como A Noite Estrelada e A Cadeira de Van Gogh, sofria de transtornos mentais. Além disso, de tanto beber absinto, ele adquiriu uma lesão no cérebro que causava ataques epilépticos. Certa vez, devido a uma crise, decepou sua própria orelha esquerda. Alguns autores afirmam que ele poderia ter transtorno bipolar, pois tinha variações constantes de humor. Suicidou-se aos 37 anos de idade.

John Nash, o matemático que inspirou o filme Uma Mente Brilhante e ganhador do Nobel de Economia, tem esquizofrenia paranoide. Ele já passou por vários hospitais psiquiátricos, sempre contra sua vontade, nos quais recebeu tratamentos com drogas antipsicóticas e injeções de insulina (que provocam períodos de coma). Gradualmente, Nash se recupera e eventualmente dá aulas de matemática na Universidade de Princeton.

O aviador, produtor de filmes e empresário Howard Hughes tinha uma estranha fobia de germes. Por causa do transtorno, ele tornou-se recluso e adquiriu o vício em codeína. Era compulsivo por higienização e obrigava seus empregados a seguirem suas ordens à risca. Para servir comida, por exemplo, eles precisavam usar luvas de papel toalha. Em certa fase, Hughes tirava toda a roupa e ficava deitado por horas em quartos escuros (que chamava de zonas higiênicas); e calçava caixas de lenços nos pés.

De acordo com alguns autores, o escritor Edgar Allan Poe, famoso por suas histórias de terror, sofria de transtorno bipolar. Ele bebia muito e certa vez escreveu uma carta descrevendo seus pensamentos suicidas.

Ernest Hemingway, ganhador de um Nobel de Literatura e um prêmio Pulitzer, tinha depressão e alcoolismo. Sua saúde mental tornou-se debilitada por causa do uso intenso de medicamentos, pelas bebedeiras, e devido a uma terapia baseada em choques elétricos, que causou perda de memória. , Assim como seu pai, seu irmão e sua irmã, Hemingway se suicidou.

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Tennessee Williams, dramaturgo, autor de Um Bonde Chamado Desejo e vencedor do Prêmio Pulitzer, sofria de depressão, alcoolismo e dependência química. Seu quadro se agravou ainda mais quando, sua irmã esquizofrênica passou por uma lobotomia; e seu namorado de longa data morreu de câncer de pulmão.

O famoso compositor Ludwig Van Beethoven tinha transtorno bipolar, de acordo com autores. Quando jovem, sofreu muito com o pai – que o agredia fisicamente e o pressionava a estudar música. As surras constantes contribuíram para que ele perdesse a audição. Beethoven tinha períodos de grande excitação e energia , seguidos de momentos de extrema depressão. Para se ver livre das crises, usava drogas e álcool.

Abraham Lincoln é conhecido por seus grandes feitos como presidente dos Estados Unidos. Mas apesar do sucesso, ele era descrito como um indivíduo de tendências melancólicas. Tinha crises profundas de depressão e ficava debilitado com frequência. Alguns autores afirmam que Lincoln tentou cometer suicídio.

Isaac Newton foi um dos maiores gênios de todos os tempos. Ele inventou o cálculo, desenvolveu a Lei da Gravidade e construiu o primeiro telescópio refletor. Mas, apesar do brilhantismo, era conhecido por seus transtornos mentais. Newton era uma pessoa de difícil convivência e apresentava mudanças drásticas de humor. Alguns autores sugerem que ele tinha transtorno bipolar e esquizofrenia.

14.016 – Novo robô pode ser chave para entender como alguns dinossauros aprenderam a voar


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Pesquisadores de universidade de Pequim fizeram demonstrações que indicam que dinossauros desenvolveram habilidade de voo ao baterem as asas quando corriam
Pesquisa publicada em (2/5/19), na revista científica PLOS Computational Biology, apresentou uma nova perspectiva para o desenvolvimento da capacidade de voo em alguns dinossauros – e criou um robô para demonstrar a teoria.
De acordo com o estudo, liderado por Jing-Shan Zhao, pesquisador do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Tsinghua, em Pequim, a origem da habilidade começou como um efeito natural da corrida dos animais, que batiam as asas rudimentares antes de serem capazes de voar. Mas o movimento realizado involuntariamente enquanto corriam pode ter servido para “treinar” alguns dinossauros, fortes o suficiente para resistir ao voo e bater as asas e voar.
A equipe de pesquisa criou um pequeno robô para demonstrar a origem da habilidade de voo. A estrutura da máquina foi baseada no dinossauro Caudipteryx, considerado o dinossauro não-voador mais primitivo. Pesava cinco quilos e não podia voar, mas era capaz de correr a uma velocidade de oito metros por segundo. O robô foi construído no tamanho natural de um Caudipteryx, com capacidade de funcionar em diferentes velocidades. Os movimentos do robô foram baseados na atividade motora do animal real, prevista por meio de cálculos matemáticos.
Para complementar os resultados, os pesquisadores equiparam um avestruz com um par de asas mecânicas. Em ambos os casos, os movimentos da corrida desencadearam uma vibração passiva das asas, o que confirma a proposta do estudo. Tanto o modelo matemático quanto a demonstração real chegaram a movimentos que, embora superficiais, se assemelham às asas das aves.
“Nosso trabalho mostra que o movimento de bater asas se desenvolveu passiva e naturalmente quando o dinossauro corria no chão”, disse Zhao em um comunicado à imprensa. “Embora este flutuar não fosse capaz de levantar o dinossauro no ar naquele momento, o movimento de asas pode ter se desenvolvido antes da capacidade de voar”.
A hipótese mostra que características físicas dos dinossauros permitiam o desenvolvimento da habilidade. Mas, devido à natureza complexa e multifacetada do voo, cientistas consideram que a demonstração não é suficiente para que a pesquisa gere conclusões por conta própria. Os pesquisadores admitiram ser provável que as forças aerodinâmicas criadas pelo movimento mecânico não possam ser comparadas às forças realmente necessárias para poder voar.
Para o paleontólogo da Universidade de Palacký, na República Checa, Dennis Voeten, uma falha do estudo foi não ter levado em conta a dinâmica do ombro e a musculatura reais do Caudipteryx para construir o robô. Em vez disso, os pesquisadores substituíram as estruturas anatômicas de grande importância por molas elásticas.
Voeten considera que isso tornou “impossível visualizar qualquer comportamento esquelético que teria acompanhado esses movimentos”. Ele afirma estar “convencido” de que as forças exercidas durante a corrida podem ter influenciado o movimento das asas, mas que a origem voo dos dinossauros permanece “hipotética”.

14.015 – Medicina – Novas descobertas podem acelerar a impressão de órgãos humanos


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Com tantas pessoas na fila de espera por órgãos, a ciência tem um papel fundamental para encontrar soluções que salvem vidas. Uma delas seria a bioimpressão de órgãos humanos, que mostra significativos avanços: nos últimos dias, um estudo publicado na Revista Science apresentou o trabalho de um grupo de bioengenheiros que estão criando uma técnica para imprimir tecidos vasculares.
A arquitetura das redes vasculares são bem complexas, já que elas são passagens vitais para o transporte de sangue, ar e outros nutrientes. O sistema tem redes independentes mas que são fisicamente e bioquimicamente entrelaçados.
A equipe de bioengenheiros criou uma nova tecnologia de impressão com o nome “aparelho de estereolitografia para engenharia de tecidos”, que produz hidrogéis macios camada por camada. As camadas de gel são impressas e se solidificam sob a luz azul. Então um corante amplamente disponível na indústria alimentícia é usado para absorver a luz azul e refinar onde as camadas finas e delicadas se formam. Esse processo permite que a equipe produza gel à base de água em questão de minutos.
Uma estrutura que imita o pulmão foi submetida a testes de estresse, com sangue e ar sendo empurrados através de seus tecidos. O modelo foi aprovado e os cientistas descobriram que as células vermelhas do sangue poderiam até mesmo capturar o oxigênio enquanto o saco de ar “respirava”.
Infelizmente, esses órgãos ainda não estão disponíveis para pacientes e provavelmente levarão muito mais tempo para serem aperfeiçoados. A equipe disponibilizou o trabalho gratuitamente para que outros possam colaborar na pesquisa.

14.014 – Parasita de 99 milhões de anos é encontrado intacto em âmbar


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O fóssil de um piolho-de-cobra de 99 milhões foi encontrado preservado em uma pedra de âmbar, em Myanmar. O artrópode da classe diploide é tão único que os especialistas tiveram de criar uma subordem própria para ele. A espécie foi nomea da Burmanopetalum inexpectatum.
O exemplar é o primeiro fóssil de um milípede pertencente à ordem Callipodida já encontrado, e é menor do que seus parentes da mesma época — apenas 8,2 milímetros. A descoberta também ajuda na compreensão de quando a espécie apareceu, sugerindo que esse grupo de artrópodes deve ter evoluído há pelo menos 100 milhões de anos.
“Foi uma grande surpresa para nós que este animal não possa ser colocado na atual classificação de milípedes”, disse o principal autor do estudo, professor Pavel Stoev, em comunicado. “Apesar de sua aparência geral ter permanecido inalterada nos últimos 100 milhões de anos, como nosso planeta sofreu mudanças dramáticas várias vezes nesse período, algumas características morfológicas na linhagem Callipodida evoluíram significativamente.”
De acordo com o co-autor do estudo, Dr. Thomas Wesener, apenas 12 espécies de diplóides da Era Mesozoica — um período de 185 milhões de anos — foram encontradas até então, mas as expectativas crescem com novas descobertas.
Isso porque o âmbar em que Burmanopetalum inexpectatum foi encontrado contém mais 528 milípedes, que vem sendo investigados: “Nos últimos anos, quase todas as 16 ordens vivas de milípedes foram identificadas neste âmbar de 99 milhões de anos de idade. Os belos dados anatômicos apresentados por Stoev mostram que Callipodida agora se junta ao clube”, disse Wesener.

14.013 – Arma de Guerra – Campo Minado


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Trata-de de determinada área infestada por minas, artefatos bélicos que são enterrados no solo com o objetivo de causar danos permanentes a um inimigo quando este a toca, ativando seu mecanismo de detonamento. Há uma séria controvérsia envolvendo a utilização dessas armas, pelo fato de muitas vezes não afetarem apenas o inimigo a qual são endereçadas, mas também a população local e também os demais seres vivos habitantes da região. A explosão de uma mina pode ser fatal ou causar ferimentos, tais como cegueira, queimaduras, membros danificados, e ferimentos causados por estilhaços.
São dois os tipos de minas utilizados:

a) minas antipessoais – são artefatos projetados para ferir ou matar pessoas. Feita de plástico, metal ou outros materiais, elas geralmente contêm explosivos ou então fragmentos e estilhaços.Ao pisar em uma mina antipessoal, o indivíduo terá invariavelmente lesões nos pés e pernas, infecções secundárias que geralmente resultam em amputação.
Há ainda as minas de fragmentação, cujos fragmentos de metal dispostos dentro do artefato podem infligir ferimentos profundos à vítima.
Algumas destas são projetadas para surgir a cerca de um metro da vítima e em seguida, explodir, atirando fragmentos de metal ao longo de um grande raio.
b) minas antitanque – são projetadas para destruir ou incapacitar veículos. Tais minas contêm mais explosivos do que as minas antipessoal e muitas vezes exigem mais pressão ou peso em cima deles para serem acionadas. São certamente mais peri gosas, com uma maior capacidade de destruição que as minas antipessoais.
As minas antipessoais estão proibidas nos termos do Tratado de Proibição de Minas em seu artigo 2.1, mas, ao contrário, as minas antitanque (a menos que tenham fusíveis sensíveis e funcionam como minas antipessoal) não são.
O problema deste tipo de armamento é que, além de ter um baixo custo, é utilizado nos mais diversos conflitos pelo mundo. Elas podem permanecer dormentes por anos e mesmo décadas sobre ou perto do chão até que uma pessoa ou animal acione seu mecanismo de detonação. Isto ocorre por meio de pressão direta a partir de cima, por pressão exercida sobre um fio ou filamento ligado a um comutador de puxar, por um sinal de rádio ou método de ativação remoto, ou ainda simplesmente pela proximidade de uma pessoa dentro de uma distância predeterminada.
Atualmente, muitos movimentos foram organizados para eliminar a ameaça das minas terrestres e explosivos remanescentes de guerra, com destaque para o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Prevenção e Recuperação de Crises. Países como Angola, Afeganistão, Camboja, Vietnã, Croácia e Colômbia são os mais afetados pelo problema, devido a décadas de conflitos armados, onde o artefato foi utilizado indiscriminadamente, e até hoje são uma ameaça aos civis não envolvidos em qualquer ação armada.

14.012 – Quem são os Esquimós?


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(ou inuit como se autodenominam) vivem no Ártico, uma das regiões mais frias da Terra. As teorias mais propagadas afirmam que seu assentamento nas regiões mais frias do planeta se deve ao rechaço de que foram objeto por parte dos índios americanos (há 12.000 anos), quando chegaram ao Alaska, vindos do nordeste da Ásia e através do Estreito de Bering.
Hoje, os esquimós não formam nem pertencem a alguma nação. Trata-se de um povo solidário, acolhedor e muito pacífico. São nômades por natureza. Sua civilização se baseia na família, patriarcal e poligâmica, na qual o homem tem mais mulheres na medida em que possui mais riquezas.
As crianças são muito importantes para os esquimós porque, de acordo com suas crenças, os pequenos são reencarnações de seus antepassados. Os inuit crêem na existência de seres superiores aos quais não é necessário cultuar ou mesmo fazer orações.
A estatura dos esquimós é pequena, os homens medem, em média, 1,60 m e as mulheres 10 cm menos. Seus corpos são fortes e seus membros curtos.
As terras do norte, extremamente frias, não permitem o crescimento de plantas, as únicas coisas que os esquimós podem fazer para sobreviver é caçar e pescar. É muito característico dos esquimós andar acompanhados de cães, usados para caçar e puxar os trenós, seu principal meio de transporte.
Dentro de suas casas, as mulheres se dedicam a cozinhar e costurar, enquanto os homens preparam seus utensílios para caçar e pescar focas e baleias. Os esquimós aproveitam tudo dos animais caçados: carne, gordura, pele, ossos e intestinos. Sua dieta habitual era a carne fervida, mas devido à lentidão deste processo e a escassez do combustível animal que era necessário, este povo passou a comer carne crua. A origem da palavra esquimó (no idioma algonquino) quer dizer comedor de carne crua.
As roupas dos esquimós são feitas com pele de foca, com a pelagem voltada para dentro e forradas com pele de urso ou de raposas, que as mulheres mascam com seus dentes e curtem com urina. Estas roupas são costuradas com os tendões dos animais.
Durante o inverno é comum que os alimentos fiquem escassos, época em que os homens saem para viajar e caçar. Quando as expedições duram muitos dias, é necessário construir casas temporárias, feitos com gelo, os iglus são estes famosos refúgios.
A língua esquimó está dividida em quatro dialetos bem parecidos, que só tem Substantivos e verbos.

14.011- Mega Questões – Somos programados para acreditar em um Deus?


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Deus Netuno ou Poseidon

A religião – a crença em seres sobrenaturais, incluindo deuses e fantasmas, anjos e demônios, almas e espíritos – está presente em todas as culturas e permeia toda a História.

A discussão sobre a vida após a morte remonta a, pelo menos, 50.000 a 100.000 anos atrás.
É difícil obter dados precisos sobre o número de crentes de hoje, mas algumas pesquisas sugerem que até 84% da população do mundo são membros de grupos religiosos ou dizem que a religião é importante em suas vidas.
Vivemos em uma era de um acesso ao conhecimento científico sem precedentes, o que alguns acreditam que é incompatível com a fé religiosa. Então, por que a religião é tão difundida e persistente?
Os psicólogos, filósofos, antropólogos e até mesmo os neurocientistas sugerem possíveis explicações para a nossa disposição natural de acreditar, e para o poderoso papel que a religião parece ter em nossas vidas emocionais e sociais.

Morte, cultura e poder
Mas antes de falar das teorias atuais, é preciso entender como surgiram as religiões e o papel que elas tiveram na vida de nossos ancestrais.
As primeiras atividades religiosas foram em resposta a mudanças corporais, físicas ou materiais no ciclo da vida humana, especialmente a morte.
Os rituais de luto são uma das mais antigas formas de experiência religiosa. Muitos de nossos antepassados não acreditavam que a morte era necessariamente o fim da vida – era apenas uma transição.
Alguns acreditavam que os mortos e outros espíritos podiam ver o que estava acontecendo no mundo e ainda tinham influência sobre os eventos que estão ocorrendo.
E essa é uma noção poderosa. A ideia de que os mortos ou até mesmo os deuses estão com a gente e podem intervir em nossas vidas é reconfortante, mas também nos leva a ter muito cuidado com o que fazemos.
Os seres humanos são essencialmente sociais e, portanto, vivem em grupos. E como grupos sociais tendem à hierarquia, a religião não é exceção.
Quando há um sistema hierárquico, há um sistema de poder. E em um grupo social religioso, a hierarquia localiza seu membro mais poderoso: a divindade – Deus.
É para Deus que temos de prestar contas. Hoje em dia, a religião e o poder estão conectados. Estudos recentes mostram que lembrar de Deus nos faz mais obedientes.
Até em sociedades que reprimiram a fé, surgiu algo que tomou seu lugar, como o culto a um líder ou ao Estado.
E quanto menos estável é um país politica ou economicamente, mais provável que as pessoas busquem refúgio na religião. Os grupos religiosos podem, ao menos, oferecer o apoio que o Estado não fornece a quem se sente marginalizado.
Assim, fatores sociais ajudam a desenvolver e fortalecer a fé religiosa, assim como a forma como nos relacionamos com o mundo e com os outros.

Outras mentes
Em todas as culturas, os deuses são, essencialmente, pessoas, mesmo quando têm outras formas.
Hoje, muitos psicólogos pensam que acreditar em deuses é uma extensão do nosso reconhecimento, como animais sociais, da existência de outros. E uma demonstração da nossa tendência de ver o mundo em termos humanos.
Nós projetamos pensamentos e sentimentos humanos em outros animais e objetos, e até mesmo nas forças naturais – e essa tendência é um dos pilares da religião.
ssim argumentou-se que a crença religiosa pode ser baseada em nossos padrões de pensamento e de cultura humana. Alguns cientistas, no entanto, foram além e analisaram nossos cérebros em busca do lendário “ponto Deus”.

Deus no cérebro
Os neurocientistas têm tentado comparar os cérebros dos crentes e ao dos céticos, para ver o que acontece no nosso cérebro quando rezamos ou meditamos. Se conhece pouquíssimo sobre esse campo – mas há algumas pistas, especialmente no que diz respeito às aéreas cerebrais.
O córtex pré-frontal medial está fortemente associado com a nossa capacidade e tendência para entender os pensamentos e sentimentos dos outros. Muitos estudos têm mostrado que esta região do cérebro está especialmente ativa entre os crentes religiosos, especialmente quando estão rezando. Isso corrobora a visão de que a fé religiosa é uma forma de interação social.
Já o lobo parietal, de acordo com estudos pode estar envolvido em experiências religiosas, especialmente aquelas caracterizadas com a dissolução do ego.
Na medida em que estamos constantemente à procura de padrões, estruturas e relações de causa-efeito, a religião pode fornecer uma variedade de estratégias para que essa busca faça sentido
As crenças religiosas ajudam os seres humanos a se organizar e dar sentido a suas vidas. E em todas as culturas, e até mesmo entre ateus, os rituais podem ajudar a pontuar eventos importantes da vida.
Embora nem a neurociência, nem a antropologia e nem filosofia tenham uma resposta definitiva para a questão “Deus existe?”, todas essas disciplinas dão pistas sobre como nós respondemos às nossas mais profundas necessidades humanas.
Talvez não sejamos programados para acreditar em Deus ou em um poder sobrenatural, mas somos animais sociais com uma necessidade evolutiva de ficar conectado com o mundo e com os outros.
De repente, as religiões são apenas canais para permitir essas conexões.

14.010 – História da Guerrilha – Surgia um Revolucionário


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O que levou uma série de grupos de esquerda, nacionalistas e revolucionários, a empreenderem insurreições armadas no Brasil? E o que levou milhares de jovens a aderirem a um projeto de transformação radical do país?
Como consequência da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a década de 1960 vai ser uma época de reconstrução das nações e das instituições de relações internacionais. O fim deste conflito ocorreu com o avanço das tropas aliadas, capitaneadas pelos Estados Unidos, e das forças nacionais ou de resistência ligadas à União Soviética. Ambas se dirigiram para a Alemanha a fim de derrotar o nazismo e seus aliados fascistas. Berlim foi simbolicamente colocada no centro do encontro dessas grandes forças vencedoras, iniciando o período histórico conhecido como Guerra Fria. A Europa, então, se dividiu entre a parte ocidental – sob a hegemonia do bloco que defendia “a democracia e a liberdade” – e a oriental – “socialista”.
O termo Guerra Fria descreve bem aquele momento: oposição entre os dois blocos, mas sem ações militares diretas. Combates armados ocorriam somente em contextos locais ou nacionais. No imaginário das democracias liberais do ocidente, o inimigo encontrava-se dentro de seus territórios, alimentado pela denominada subversão comunista. A repressão aos movimentos revolucionários tornou-se prática constante nos países ocidentais, enquanto nos socialistas impunha-se o apoio ideológico e logístico às ações que visavam derrubar o regime capitalista.
Foi nas décadas de 1950 e 1960 que eclodiram golpes militares interrompendo projetos de reformas nacional-estatistas, como ocorreu com a derrubada de governos eleitos na Argentina (Perón, em 1955), Bolívia (Paz Entessoro,em 1964) e Brasil (João Goulart, em 1964), todos apoiados pelos norte-americanos sob a justificativa de bloquear a expansão do perigo comunista. Os países alinhados ao bloco capitalista substituíram as declarações de estados de exceção por ideologias de segurança nacional. Não bastava, como em momentos anteriores, incluir aspectos autoritários no ordenamento jurídico e na política das repúblicas liberais. Tratava-se, a partir de então, de instituir ditaduras com a justificativa de proteger a Nação contra seus inimigos, que encontravam-se no interior do país e eram constituídos pelos próprios cidadãos. No Brasil, a Doutrina de Segurança Nacional, política brasileira de caça aos inimigos internos, surge nas Forças Armadas a partir dos contatos com os militares norte-americanos, iniciado durante as ações da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra. Sua elaboração e divulgação como discurso ideológico ficaram sob o comando da Escola Superior de Guerra (ESG), a instituição que mais formou militares para os principais postos de comando da ditadura. Antes do golpe de 1964, a ESG já fazia a ponte entre empresários e militares e a criação do Serviço Nacional de Informações (SNI), instituído em junho daquele ano. Assim fortalecia as estratégias de controle e repressão ao inimigo interno.
Em resposta à produção de ditaduras na América Latina, grupos de esquerda, em especial os partidos comunistas, passaram a debater sobre o melhor modo de continuar a luta política contra os regimes autoritários alinhados ao modelo político norte-americano. É quando um evento histórico tem forte impacto no imaginário daqueles grupos e de milhares de jovens: a Revolução Cubana, em 1959. Comandada pelo líder estudantil e popular Fidel Castro e pelo revolucionário itinerante argentino Che Guevara, o movimento vitorioso em Cuba instalou entre as esquerdas a discussão da alternativa da luta armada e da necessidade de organização do processo revolucionário.
Além da Revolução Cubana, os movimentos nacionalistas e de esquerda tomaram outros acontecimentos revolucionários como referência para a luta contra as ditaduras e pela revolução socialista na América Latina. Por exemplo, a conquista de independência da Argélia, em 1962, os movimentos anticolonialistas da África e do mundo árabe e a guerra do povo vietnamita contra a potência militar norte-americana.
Os anos 1950 foram tempos em que havia uma divisão forte na sociedade, um antagonismo crescente que iria estourar na década seguinte. De um lado, o Brasil vivia o otimismo de uma burguesia nacional, beneficiada pelos investimentos dos grandes países capitalistas, e de crescimento da classe operária e suas demandas por direitos. Do outro, espalhava-se pelas ruas a luta pela reforma agrária. Entre outros movimentos, surgiram as Ligas Camponesas em Pernambuco e ganhou força o Partido Comunista Brasileiro (PCB), especialmente no governo do presidente João Goulart.
Em 1964, com o apoio explícito do governo norte-americano e de parte de setores conservadores, como os partidos de direita e a Igreja Católica, além da grande imprensa, os militares associados a setores civis deram um golpe de estado derrubando João Goulart e encerrando os dezenove anos de democracia (1945-1964). A força da ideia de revolução era tamanha que mesmo o movimento golpista se autodenominou “revolucionário” [Ver RHBN nº 83]. O Ato Institucional nº 1, editado pelas Forças Armadas em 9 de abril de 1964, estabelece por decreto a relação entre o governo e a vontade da nação: “A revolução se distingue de outros movimentos armados pelo fato de que nela se traduz, não o interesse e a vontade de um grupo, mas o interesse e a vontade da Nação. A revolução vitoriosa se investe no exercício do Poder Constituinte. Este se manifesta pela eleição popular ou pela revolução. Esta é a forma mais expressiva e mais radical do Poder Constituinte. Assim, a revolução vitoriosa, como Poder Constituinte, se legitima por si mesma”.
À época já era clara a contradição entre o programa político dos partidos alinhados a Moscou, de cunho reformista – de conciliação com as burguesias nacionais e etapas democrático-capitalistas no caminho para a Revolução – e a prática dos militantes, envoltos na atmosfera revolucionária imediata. No Brasil, surgem novos agrupamentos políticos, alguns de origem marxista, outros nacionalistas, influenciados pelos ares da luta revolucionária. Diante do acirramento da repressão, que atingiria patamar inédito com a publicação do Ato Institucional nº 5, de 1968, ganha corpo a luta armada contra a ditadura.
O revolucionário comunista Carlos Marighella publica, em 1966, sua carta de rompimento com o PCB e dá o tom da opção pela luta armada: “Falta o impulso revolucionário, a consciência revolucionária, que é gerada pela luta. A saída do Brasil – a experiência atual está mostrando – só pode ser a luta armada, o caminho revolucionário, a preparação da insurreição armada do povo, com todas as consequências e implicações que daí resultarem”.
Construía-se, a partir dali, um “sujeito revolucionário”, cuja figura mais universal foi a de Che Guevara – representante daqueles que não aceitam viver sob a opressão de um regime autoritário ou diante de injustiças sociais. O que os fazia agir? O que os levou à luta armada, à revolução? Uma geração de jovens acreditou com todas as forças em um mundo igualitário e se dispôs, “com as consequências e implicações que daí resultarem”, a doar suas vidas por este imaginário. Enquanto os partidos queriam a tomada do Estado e a construção de outro regime político, o sujeito revolucionário não aceitava o papel que o mundo capitalista lhe propunha, e apostava na construção de outras formas de relação humana.
Consentir com o esquecimento dessas memórias leva à renúncia de valores que a ditadura se esforçou para destruir . O novo Estado de direito, cuja existência dependeu em boa parte daquela luta, ainda não fez o reconhecimento necessário.

14.009 – História – Catolicismo guerreiro no Brasil


igreja e guerrilha
Se Deus está do seu lado, que chances pode ter o inimigo? Esta lógica – que remete a populares versos musicais de igrejas brasileiras – marcou um importante episódio nos primórdios de nossa colonização. Quando os franceses tentaram instalar-se em terras brasileiras – na experiência conhecida como França Antártica (1555-1567) – deu-se início a uma guerra que ia muito além da disputa territorial [Ver RHBN nº 49].
No poema épico De Gestis Mendi de Saa (Dos feitos de Mem de Sá), o padre jesuíta José de Anchieta deixa claro o que estava em jogo: de um lado, o Deus, dos portugueses católicos; do outro, o Diabo, dos invasores calvinistas. Reproduzia-se, assim, o confronto entre Reforma e Contra-Reforma.
Nos três primeiros livros do De Gestis, há uma batalha incessante entre duas bandeiras: a divina, defendida pelo governador-geral Mem de Sá (1504 c.-1572), e a demoníaca, representada pelos índios pagãos. No quarto e último livro, mudam as bandeiras: de um lado, o Catolicismo; do outro, os protestantes.

(…) com o coração infeccionado pela heresia,

e com a mente opressa pelas trevas do erro,

não só todos se afastam do reto caminho da crença,

mas procuram perverter, assim dizem, com falsas doutrinas

os míseros povos índios, de todo ignorantes.
A guerra contra os franceses calvinistas é considerada justa não somente pelos tradicionais critérios políticos – os invasores apossaram-se de terras lusas – mas, sobretudo, porque durante o confronto foram anunciados os decretos do Concílio de Trento (1545-1563), importante medida da Igreja Católica em reação às heresias protestantes. A principal motivação tornou-se, portanto, uma questão de fé.
Nos versos em que descreve a morte de sete soldados franceses engolidos pelo fogo, Anchieta afirma que aqueles homens infelizes já começavam a sentir as chamas do inferno “em que os ímpios corações, manchados pela heresia, sofrerão o eterno castigo que seus crimes merecem”. Ao escolher o plural para o substantivo “crime”, Anchieta amplia o foco da guerra justa: o que estava em jogo não era apenas o caráter político de invasão do território, mas o direito de combater em nome de Deus. Entre as duas bandeiras dessa guerra, apenas uma carregava a verdadeira fé cristã, aquela que segue os dogmas reafirmados da Igreja Católica, lutando por Deus e com o apoio Dele: “Com a ajuda divina, em vão as balas cortam os ares:/ antes, a pólvora explode no paiol inimigo”.
O Concílio de Trento reafirma os dogmas da Igreja Católica como verdade religiosa indiscutível para todos os cristãos, incluindo o rito sagrado do Sacramento, instituído por Jesus Cristo para dar, confirmar ou aumentar a graça do fiel. O herói Mem de Sá, seguido por seus soldados, pratica o sacramento da penitência antes de partir para a guerra contra os franceses calvinistas, como indica o poema: “Então purifica sua alma/ das culpas e a fortifica com as armas de Cristo,/ caindo de joelhos aos pés do ministro sagrado”. Ao colocar em evidência esse rito, Anchieta não somente traduz em versos as determinações do Concílio de Trento como também sugere que, por não o praticarem, os franceses heréticos estavam fadados à derrota: “Ele incutirá forças e ajudará compassivo/ a causa do justo e do fiel (…)/ abaterá e esmagará o inimigo, castigando co´a morte/ corações ímpios, vazios de fé verdadeira”.
Mem de Sá ajoelha-se aos pés do ministro sagrado – um jesuíta da Companhia de Jesus – e quando o exército luso encontra-se na iminência de uma grande derrota, apela à intervenção divina, lançando aos céus palavras em prece: “Estende a mão bondosa e sinta teu furor justiceiro/ a raça inimiga”. Mem de Sá pede intervenção divina, não pela injustiça política praticada pelos franceses, mas porque eles são praticantes do crime “feio da heresia”, pois insultam soldados “cristãos” e “fiéis”.
O governador-geral não estava sozinho em suas preces. Os jesuítas e os povos fiéis o acompanhavam em oração. Aliavam-se, assim, com a ideia da Igreja de Roma como indispensável mediadora entre Deus e os homens. Para os protestantes, a Igreja ficava em segundo plano, bastando a fé em Deus e a livre interpretação da Bíblia para que se atingisse a salvação.
Os portugueses sentiam-se favorecidos pela intervenção divina. Acometidos de pavor inexplicável, os franceses fogem do forte Coligny, na Ilha de Villegagnon. “tão firme e tão seguro pela arte da guerra (…) tamanho era o terror que o Senhor Deus onipotente lhes metera nas mentes e corações apavorados”. Ao invadirem o local, os portugueses “fincam logo a cruz vencedora no cimo do forte e aclamam o nome santo de Cristo”. Na ação narrada por Anchieta, o “ministro alado de Deus” simboliza um anjo real que, em forma de guerreiro, alia-se ao exército para levá-lo à vitória contra os falsos cristãos.
A tomada do forte é militar. O produto da guerra é teológico. Dessa batalha entre Deus e o Diabo, os protestantes saíram derrotados por defenderem a bandeira “errada”. Pregavam uma doutrina cheia de “impiedades e erros” porque se afastaram da verdadeira e correta interpretação que a Igreja de Roma faz das Escrituras Sagradas. Os adjetivos usados contra Martinho Lutero sugerem que agira sob inspiração demoníaca ou corrompido por ela. “Enraivado”, ou seja, movido por forte paixão, cega-se diante da verdade e profere blasfêmias contra o representante de Cristo na terra e contra a própria Igreja, insultando o divino, aquilo que é sagrado.
Sobre Calvino, Anchieta iguala-o ao demônio: “a fera que os abismos do inferno há pouco arrotaram de suas vasas profundas”. Nos versos do poema épico, o reformista francês é dragão e serpente de movimentos sinuosos, de caráter pouco reto, que “abraça no rolo de suas espirais o forte” – ou seja, transforma-o no próprio inferno. “Calvino vencer a Cristo,/ Senhor do céu e da terra?”, eis uma hipótese absurda. A morte na cruz significara a vitória sobre o “dragão que habitava as cavernas do inferno”, abrindo para os católicos a possibilidade da salvação, o mesmo não ocorrendo para os protestantes.
De posse do forte, os portugueses erguem um altar e o sacerdote, na veste sagrada, celebra o banquete augusto do pão sacrossanto, que jamais fora ali celebrado, diz Anchieta, pois “a geração de Calvino rejeita com impiedade o alimento celeste, nem crê que as espécies de pão encerram a Cristo”.
Se Deus estava com eles, que chances teriam os inimigos? As circunstâncias históricas, naquele caso, sorriram à fé católica e aos dogmas da Contra-Reforma. Embora, nas guerras em nome de Deus, ninguém possa dizer quem tem razão.

14.008 – História da Guerrilha – Guerrilheiros de primeira viagem


historia da guerrilha
Mesmo sob censura, deu no jornal: sete homens presos no alto da serra do Caparaó portando armamentos e manifestos contra o governo. Era abril de 1967, e foi a primeira vez, desde o golpe civil-militar, que um movimento armado ganhou ampla repercussão na imprensa.
O grupo preso era formado por militares de baixa patente que haviam participado de movimentos reivindicatórios antes de 1964. Inicialmente, o governo procurou minimizar a importância dos acontecimentos, afirmando que a prisão “não afeta a segurança nacional nem revela um caráter perigoso” e que o “Exército considera ridículo que apenas oito façam guerrilha”, como registra o Jornal do Brasil nos dias 4 e 5 de abril daquele ano. Dias depois, começaram a surgir informações contrárias na mesma publicação. Declarações como a de que o Exército “está aos poucos fechando o cerco sobre os possíveis guerrilheiros” e que eles “foram vistos armados de metralhadoras, entre São João da Pedra Menina, na divisa dos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro” aparecem na edição do dia 8 no JB.
O fato de aparecerem notícias de que havia um grupo armado em luta contra o regime, ainda que não se soubesse o número de pessoas envolvidas, representou um sopro de esperança para as diversas correntes que aspiravam por ações efetivas contra a ditatura. Quem eram, afinal, os guerrilheiros dos quais tanto se falava naquele abril de 1967? O que eles queriam? Representavam eles, como estampava a revista O Cruzeiro em 15 de abril de 1967, “uma vasta organização de guerrilhas [que] está minando aquele Estado [Minas Gerais] e, possivelmente, outras regiões do país”?
As respostas a essas indagações remetem a períodos anteriores ao golpe, no tempo de radicalização das lutas políticas no governo João Goulart (1961-1964). Além de ex-militares, a maior parte dos presos pela participação na guerrilha do Caparaó tinha em comum a passagem pelo movimento liderado por Leonel Brizola, a Cadeia da Legalidade, que garantiu a Goulart assumir a presidência em 1961 – ainda que com os poderes restritos pela implantação do regime parlamentarista. Eram sargentos e marinheiros que haviam ajudado no planejamento de uma possível guerra civil envolvendo os defensores de Goulart e os militares golpistas. Ao mesmo tempo, eles já participavam ativamente da clandestina Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFN) e do Clube dos Subtenentes e Sargentos do Exército. Reivindicavam melhorias salariais, relações respeitosas por parte dos oficiais, direito ao casamento e ao exercício de cargos legislativos. Aproximaram-se ainda dos setores sindicais em suas reivindicações pela criação de uma Central Geral dos Trabalhadores, bem como de ações anti imperialistas, contrárias às empresas multinacionais e aos Estados Unidos.
A politização dos subalternos das Forças Armadas ganhou projeção até colocar em risco, na visão dos oficiais, a quebra da hierarquia militar. Quando se consumou o golpe de 1º de abril de 1964, centenas de militares foram presos ou expulsos de suas corporações. Muitos deles, após cumprir pena nos presídios militares, foram buscar apoio de Leonel Brizola, que estava exilado no Uruguai. Brizola procurava organizar um movimento de oposição ao regime ditatorial e acreditava poder repetir a experiência que havia garantido a posse de Goulart em 1961. Em Montevidéu, uniu-se a militantes exilados de diversas tendências de esquerda, como Avelino Capitani, Amadeu Felipe de Luz Ferreira e Jelcy Rodrigues. Nascia, sob a sua liderança, o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), sigla que comandou a organização da guerrilha do Caparaó.
Os militantes sofreram forte influência da Revolução Cubana (1959), iniciada por um pequeno núcleo de combatentes liderados por Fidel Castro e Che Guevara [ver Infográfico, pág. 30]. Instalado a princípio na Sierra Maestra, aos poucos o grupo expandiu suas forças até derrubar a ditadura do general Fulgêncio Batista (1901-1973). Esse processo, então batizado de foquismo, passou a ser apregoado pelos revolucionários cubanos como válido para toda a América Latina. Quatro militantes do MNR haviam feito treinamento militar em Cuba. O próprio Brizola aderiu ao carisma dos dirigentes cubanos e à estratégia de luta armada. Dessa aproximação vieram recursos financeiros para a guerrilha que estava sendo organizada no Brasil.
A primeira tentativa de luta armada se deu no início de 1966, no Rio Grande do Sul, organizada pelo mesmo grupo comandado por Brizola. Foi alugada uma casa em Porto Alegre para guardar armas e materiais, enquanto se arregimentava o contingente de homens necessários. Três militantes fixaram residência no local para manter a fachada de normalidade. Dois outros foram enviados para fazer contatos no Rio de Janeiro com antigos participantes do movimento dos sargentos e marinheiros. Ao mesmo tempo, membros do MNR arregimentavam militares de quartéis da própria região porto-alegrense, entre os que haviam participado do movimento legalista de 1961. Os planos foram descobertos pela polícia depois da prisão de um militante.
O plano de guerrilha transferiu-se, então, para a serra do Caparaó, por sua localização estratégica entre Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Com apoio de Brizola, militantes do MNR começaram a chegar à região em novembro de 1966, instalando-se como criadores de cabra em um sítio da família de um deles. Quando o contingente de recrutados aumentou, subiram para o pico da serra para não serem vistos pela população. Os primeiros meses foram utilizados para transportar e estocar armas e alimentos. O grupo possuía fuzis, metralhadoras, dinamite e munição, ainda que não fossem equipamentos modernos.
Não tinham a pretensão de derrubar a ditadura militar sozinhos. Baseando-se na teoria do foco guerrilheiro, acreditavam que conseguiriam resistir ao cerco do Exército até a eclosão de outros movimentos de guerrilha e a intensificação da oposição nas cidades. Antes mesmo do início da luta, porém, diversos problemas já haviam derrotado esse projeto de luta armada. A começar pelo clima, com muita chuva, frio e umidade durante quase todo o ano. Havia também o problema do estoque de comida, que foi infectado por ratos e levou alguns militantes a contraírem peste bubônica. Depois de vários meses, alguns membros do grupo questionaram se tinham realmente capacidade política e militar de continuar com a ação. As deserções iniciaram-se em março de 1967.
A população já vinha relatando à polícia a presença dos guerrilheiros. Os policiais observavam a movimentação à distância e, em 24 de março, prenderam dois militantes que haviam abandonado o grupo. No dia 29, um terceiro foi preso ao tentar descer até a cidade para comprar medicamentos. Ao descobrirem a origem e o objetivo da ação, os policiais mineiros subiram a serra e chegaram ao pico na manhã do dia 1º de abril de 1967. Encontraram os guerrilheiros dormindo. Não houve troca de tiros. Nos dias seguintes, outros membros do grupo foram presos nas cidades vizinhas tentando subir a serra para se juntar aos companheiros. Chegava ao fim, sem se concretizar, a primeira tentativa de luta armada contra a ditadura militar.
Os eventos do Caparaó coincidiram com o surgimento da guerrilha na Bolívia – liderada por Che Guevara, conforme se descobriria depois – que recebia ampla cobertura da imprensa brasileira. Talvez essa coincidência tenha levado o Exército ao duplo discurso registrado pela imprensa: inicialmente, minimizar a importância da guerrilha no Brasil, evitando a expansão de sua influência para outras áreas do país e, depois, sobrevalorizar os seus efetivos, para justificar a repressão oficial.
Os participantes da guerrilha do Caparaó não consideraram a experiência uma derrota para o projeto da luta armada, afinal cumpriram um papel importante: denunciaram ao país que havia uma ditadura liderada por militares e que setores da sociedade estavam dispostos a pegar em armas para derrubá-la.

14.007 – História – Barbárie contra a Revolução


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O sonho de liberdade tinha um horizonte bem demarcado para se concretizar. Era na Amazônia – na tríplice fronteira entre Pará, Maranhão e Goiás (atualmente Tocantins) – que dezenas de jovens e militantes de esquerda, vindos dos grandes centros urbanos, esperavam ver surgir a Revolução Socialista no Brasil. Para isso, estavam dispostos a pegar em armas para lutar por ela.
Em meados dos anos 1960, o contexto não poderia ser pior para esse idealismo transformado em guerrilha. Sob a ditadura militar desde 1964 e com todos os canais democráticos de expressão fechados (imprensa censurada, manifestações e greves proibidas), a perseguição do Estado aos opositores do regime era efetivada por meio de prisões, torturas e assassinatos de militantes e operários, estudantes, camponeses e religiosos acusados de subversão, comunismo ou incitação à desordem. A Guerrilha do Araguaia (1972-1974) foi mais um capítulo desse tenebroso período.
Todos os envolvidos eram militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) fundado em 1962 a partir de uma cisão no Partido Comunista Brasileiro (PCB) e defensor de uma revolução imediata, pela via da luta armada, se fosse necessário. A partir de 1966, o PCdoB passou a enviar para o Araguaia jovens militantes das cidades. Eles tinham que aprender a viver como os camponeses, conhecer profundamente seu modo de vida e a região, além de criar laços de amizade e solidariedade com os moradores. Era fundamental, nessa estratégia, que conseguissem envolver os camponeses na luta armada. Eles comporiam a força do exército popular de libertação que o partido pretendia organizar.
Durante cerca de seis anos, os militantes circularam livremente e puderam organizar a estrutura militar da guerrilha: criaram três destacamentos e uma Comissão Militar – órgão dirigente da luta no campo –, além de diversos pontos de apoio onde estocavam alimentos, remédios e munição. Produziam croquis identificando locais onde poderiam acampar e abriram trilhas longe dos caminhos normais de passagem. Ao todo, 69 militantes do PCdoB se deslocaram para o Araguaia. Mas os planos do Partido eram muito maiores. A ideia era organizar outros destacamentos militares, criar pontos de apoio e recrutar camponeses para a formação de um Exército.
A presença de “gente estranha” na área já era de conhecimento do governo, ao menos, desde 1971. Em princípio, cogitou-se que fossem contrabandistas, “terroristas” procurados nas cidades ou até mesmo um grupo de hippies. E foi sem saber ao certo com quem lidava que o Exército organizou sua primeira campanha contra a Guerrilha do Araguaia. No dia 12 de abril de 1972, entrando por São Domingos do Araguaia, no Pará, cerca de 20 militares atacaram o “peazão”, principal Ponto de Apoio (PA) do destacamento A da guerrilha, mas não conseguiram prender ninguém nessa primeira investida pois uma parte do material foi retirada antes do ataque. Também na segunda campanha, em setembro e outubro de 1972, as Forças Armadas não tiveram sucesso. Nem poderiam: não tinham dados precisos sobre o inimigo que estavam enfrentando, não sabiam sua localização, o número real de combatentes e não tinham certeza da identidade de muitos deles. Imaginava-se até que Carlos Marighella, morto em 1969, estivesse na área.
Os fracassos iniciais do Exército motivaram ainda mais guerrilheiros, como Maurício Grabois (1912-1973), um dos fundadores do PCdoB e comandante da guerrilha, que em seu diário comemorou o acerto da estratégia no Araguaia. Enquanto isso, entre os militares, ficava evidente a necessidade de mudanças. Até então utilizavam, por exemplo, tropas de soldados fardados, muitos deles inexperientes e recrutados na própria região.
Após um ano de tentativas frustradas de eliminar os guerrilheiros, os militares iniciaram um longo trabalho de inteligência, que visava colher o maior número possível de informações antes do próximo ataque. Para a última e decisiva campanha repressiva, houve a participação da “comunidade de informações”: militares andavam descaracterizados, deixavam a barba e o cabelo crescer e circulavam disfarçados pela área – passavam-se por técnicos agrícolas, funcionários de órgãos estatais e comerciantes. Com essa “cobertura”, misturavam-se e colhiam informações junto aos moradores locais.
Outra forma recorrente de colher informações era prendendo e torturando camponeses – muitos dos quais ainda estão “desaparecidos”. Em outubro de 1973, às vésperas dos ataques finais à guerrilha, o Exército promoveu um “arrastão” e prendeu aproximadamente 300 pessoas. Alguns foram colocados em valas de três metros nas bases militares, que foram fechadas com grades de ferro. Era o “buraco do Vietnã”, uma forma de tortura que pode ter sido usada em outras áreas rurais além do Araguaia. Consistia em um buraco com uma grade de ferro por cima, onde o preso era colocado junto com animais rasteiros – como insetos (formigas, aranhas, besouros) e animais não peçonhentos, como o calango – e ali permanecia por dias, tomando sol e chuva. Sua alimentação e suas necessidades fisiológicas eram realizadas ali.
A terceira campanha militar contra a guerrilha foi um cenário de intensa brutalidade por parte do Exército. É dessa fase a maior parte dos relatos de camponeses sobre as torturas e prisões que sofreram. A violência servia não apenas para conseguir informações junto aos camponeses, mas também para intimidá-los, para que não colaborassem de nenhuma forma com os guerrilheiros. Além dos ataques físicos e psicológicos, o Exército minou seus meios de vida. Para matar a guerrilha de fome, queimava roças e alimentos estocados nos paióis, impedia o plantio e a colheita. Muitos camponeses, sem ter como sobreviver, deixaram a região. Alguns retornaram mais tarde e descobriram que suas antigas posses haviam se tornado parte de grandes fazendas.
Alguns moradores foram recrutados como guias do Exército: iam à frente, guiando os militares pela mata. Não era possível recusar-se a realizar essa atividade sem sofrer consequências. Muitos desses guias foram presos e torturados para aceitar a função.
O ataque decisivo ocorreu no Natal de 1973. É lembrado entre os militares como o “chafurdo de Natal”. Tratou-se de uma execução, pois os guerrilheiros já não ofereciam condições de resistência, não havia mais destacamentos, comissão militar ou pontos de apoio. Os poucos guerrilheiros ainda vivos tentavam se esconder na selva, maltrapilhos, sem alimentos e doentes. Em fevereiro de 1974, os militares estimavam que houvesse restado cerca de 20 guerrilheiros nessas condições, e eles foram caçados ao longo de todo o ano.
A ordem era para que não houvesse sobreviventes. Alguns guerrilheiros foram vistos presos nas bases militares e hoje integram as listas de “desaparecidos”, outros foram degolados.
Um dos guerrilheiros, em especial, alimentou diversas lendas: Osvaldão. Primeiro a chegar à região, o mineiro de Passa-quatro destoava de todos: negro, medindo 1,98m de altura, estudara engenharia na Tchecoslováquia e fora campeão de box amador pelo Fluminense. Tratava-se de um militante do PCdoB altamente treinado, comandante do destacamento A e um dos que mais aprofundaram os laços de amizade com os moradores locais. Os camponeses diziam que Osvaldão tinha o corpo fechado. Conta-se que uma patrulha do Exército o localizara numa casa e que a metralhara de modo a garantir a morte de quem estivesse lá dentro. Ao entrarem, viram apenas uma sombra no chão, mas nenhum corpo.
Osvaldão foi assassinado ao ser surpreendido descansando num barranco. Segundo a lenda local, só foi possível matá-lo porque o guia dos militares na ocasião era um conhecido macumbeiro da região, Arlindo Piauí, que teria retirado a proteção mágica de Osvaldão. Cientes das crenças populares em torno do guerrilheiro, os militares resolveram desfazer o mito: amarraram seu corpo e sobrevoaram a cidade de Xambioá para que os moradores vissem que estava morto.
Estima-se que, nas três campanhas na região, o Exército tenha empregado cerca de 10 mil homens para reprimir a Guerrilha do Araguaia. Passados mais de 40 anos, ainda é um episódio que movimenta a sociedade na luta por esclarecimentos e pela responsabilização do Estado pelos crimes cometidos.

14.006 – História – Fuga pela Revolução


Lamarca
Dezenove guerrilheiros dispostos a enfrentar a ditadura. Um campo de treinamento secreto. Cercos armados por policiais locais, PMs e homens do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Durante dois meses no começo de 1970, o Vale do Ribeira, interior paulista, foi cenário de perseguições, emboscadas, fugas, tiroteios, prisões, torturas e uma execução – até hoje presentes na memória dos moradores.
Comandados pelo capitão Carlos Lamarca (1937-1971), os homens que arriscaram suas vidas naquela região acreditavam que a revolução começaria pelo campo. Segundo eles, os trabalhadores rurais eram os mais explorados pelo sistema capitalista e os mais reprimidos em suas lutas sociais. Era preciso, então, organizar a guerrilha rural. Foi com esse objetivo que a organização Vanguarda Revolucionária Popular (VPR) deslocou-se para o Vale do Ribeira. O plano se resumia em treinar guerrilheiros. A efetiva implantação das guerrilhas rurais se daria em outros locais. Mas a descoberta da área pelas forças de repressão forçou um confronto real, e o campo de treinamento virou campo de combate, colocando à prova o objetivo que buscavam.
Participavam do treinamento três ex-militares e 16 civis. A maioria era formada por jovens militantes da VPR, vindos do movimento estudantil de São Paulo, do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. O sítio comprado ficava próximo à cidade de Jacupiranga, e inicialmente alguns militantes viveram lá se passando por lavradores, a partir do final de 1969. Organizaram-se em dois grupos: a base Carlos Roberto Zanirato e a base Eremias Delizoikov, que formavam o núcleo Carlos Marighella. Os nomes das bases e do núcleo homenageavam militantes mortos pela repressão.
A rotina era rígida, com marchas de 18 quilômetros por dia carregando mochilas de 30 quilos, exercícios de tiro, de manejo e conservação das armas. A disciplina exigia um guerrilheiro sempre pronto para o combate. Também organizaram grupos de estudo. Liam e discutiam documentos da organização e livros de autores diversos, como Karl Marx, Paul Sweezy, Adolfo Sanches, Josué de Castro, Isaac Deutscher, Che Guevara e Ernest Hemingway, além de manuais e guias de sobrevivência.
Em fevereiro de 1970, causou apreensão entre os guerrilheiros a notícia de um acidente de automóvel envolvendo o militante Mario Japa, codinome de Chizuo Osawa, que acabou preso com armas e documentos da VPR. Todos sabiam que ele estava sendo torturado na Operação Bandeirante (Oban) – um centro de informação, investigação e tortura montado pelo Exército em 1969, com o envolvimento de empresários brasileiros e até de multinacionais.
A solução encontrada pela VPR foi promover um sequestro para livrar Mario Japa da prisão. Um comando da Vanguarda juntou-se aos militantes da organização Rede Democrática (Rede) e do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), e sequestrou o cônsul japonês em São Paulo, Nobuo Okuchi. Aproveitaram para pedir também a libertação de mais quatro militantes e três crianças – filhos da prisioneira Damáris Lucena, que também era mãe de Ariston Lucena, um dos que estavam no Vale. Embora o sequestro tenha sido bem-sucedido, o cerco se apertava. Outras prisões se sucederam até que, em 17 de abril, o Centro de Informações do Exército (CIE) comunicou ao II Exército a existência do campo de treinamento de guerrilha no Vale do Ribeira.
A movimentação policial na região logo foi percebida por Lamarca, que avisou seus comandados. Do posto de vigia, acompanharam a chegada de caminhões com tropas, aviões e helicópteros fazendo voos rasantes. Antes do final de abril, já estavam completamente cercados, com todas as saídas fechadas. Decidiram não romper o cerco, pois possuíam bons mapas e conheciam bem a região. Enveredaram-se pelo mato.
Na pequena cidade de Barra do Areado, apresentaram-se à população como caçadores e alugaram um caminhão para ir até Eldorado Paulista. No entanto, foram denunciados pelo filho do dono do veículo alugado e enfrentaram um tiroteio em plena praça de Eldorado. Mesmo com um dos militantes feridos, conseguiram fugir em direção a Sete Barras. Ao chegarem às proximidades do rio Ribeira de Iguape, foram surpreendidos por um pelotão com 38 soldados. Da carroceria do caminhão, os guerrilheiros iniciaram um tiroteio contra o caminhão dos soldados da Polícia Militar, e com uma rajada de metralhadora FAL partiram o veículo dos militares em dois. Assim capturaram 18 prisioneiros, dez deles feridos.
Lamarca pediu para falar com o comandante, e propôs um acordo ao tenente Alberto Mendes Junior: aos guerrilheiros caberia cuidar dos feridos e não executar ninguém. Em contrapartida, o tenente deveria levantar o bloqueio em Sete Barras. Mendes, perante a sua tropa, compromete-se a cumprir os termos da rendição.
Os feridos foram levados para um hospital em Sete Barras e, segundo depoimentos dos soldados nos processos, mostravam-se surpresos por estarem sendo tratados com respeito. Esperavam ser fuzilados e eram socorridos, os guerrilheiros explicavam a sua luta, diziam que nada tinham contra soldados que apenas obedeciam ordens.
O tenente acompanhou os feridos e dois guerrilheiros num carro, que acabou atolando. Os guerrilheiros então deixaram os feridos com o tenente e saíram em busca de ajuda. Como não conseguiram meios para prosseguir, voltaram para a estrada, encontrando o tenente voltando do local onde o haviam deixado. Os feridos haviam sido levados por outro veículo que viera pela estrada. O tenente voltou por conta própria e garantiu que não havia bloqueio em Sete Barras. Os guerrilheiros prosseguiram na caminhada e colocaram o tenente na frente da fila indiana, alertando: “se houvesse emboscada, ele seria o primeiro a tombar.” Na entrada da cidade, porém, viram-se cercados por todos os lados. O grupo conseguiu escapar por um braço da serra, mas dois companheiros se perderam. Na confusão, aconteceu um episódio de fogo amigo: julgando saber a posição dos oponentes, soldados da Polícia Militar abriram fogo, ao que o Exército respondeu na mesma medida, dando-se então um tiroteio entre as forças da repressão.
Depois da emboscada, restavam apenas cinco guerrilheiros, que se revezavam para vigiar o tenente Mendes, levado como refém. O oficial foi julgado culpado por um tribunal revolucionário, sob a acusação de traição por ter rompido o acordo e tê-los encaminhado para uma emboscada. A decisão final foi tomada por Lamarca, Yoshitane Fugimori e Diogénes Sobrosa de Souza. Havia também o receio de que o militar denunciasse a posição do grupo. O tenente Alberto Mendes Junior foi então executado e enterrado. O tenente foi executado a coronhadas por Fugimori e Sobrosa.
Fugindo debaixo de chuva, Lamarca resolveu permanecer dentro do cerco tático. Faminto, o grupo chegou a pedir que um casal comprasse comida para eles, mas o homem foi preso e torturado pelos militares, revelando informações sobre os guerrilheiros. Decidiram, então, não mais fazer contato com as pessoas. No final de maio, conseguiram tomar um caminhão do Exército, prendendo os soldados e o sargento na carroceria. Vestidos com as roupas dos militares e de posse da senha por eles informada, passaram pela barreira da polícia e, enfim, conseguiram fugir para a capital paulista.
O conhecimento do capitão Lamarca sobre o tipo de movimentação militar empregada foi fundamental para romperem o cerco. Segundo Ariston Lucena, parte do êxito da fuga deveu-se também a Fugimori, que era um excelente mateiro e ótimo atirador, assim como Lamarca. Essas virtudes e a capacidade de fuga dos militantes povoam até hoje a memória de antigos moradores. Há até quem diga que Lamarca não morreu e que ainda pode estar por lá, em algum canto da mata.
A experiência do Vale do Ribeira reforçou a confiança dos guerrilheiros na viabilidade da luta no campo. Aqueles meses haviam mostrado a importância do empenho dos combatentes e do conhecimento local. Um pequeno grupo bem treinado “vencera” um grande contingente de soldados despreparados e no geral pouco dispostos a arriscar a vida para perseguir um grupo de guerrilheiros.
Antes das derrotas definitivas, a esquerda armada ainda sonhava alto.