14.300 – Dr Garibaldo – Por que na peste bubônica médicos usavam máscaras com “bico de pássaro”?


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Causada por uma bactéria transmitida por pulgas de animais pequenos (principalmente ratos), a peste bubônica foi uma das doenças mais temidas do mundo. Com sintomas que se assemelhavam aos da gripe, incluindo febre, dor de cabeça e vômito, a enfermidade evoluía para inflamação dos gânglios linfáticos e, sem tratamento, provocava morte de 30% a 90% dos infectados em um período de dez dias. Não à toa, a pandemia que assolou Europa, Ásia e África no século 14 e vitimou 50 milhões de pessoas (cerca de um terço da população europeia na época) ficou conhecida como “Peste Negra”.
No século 17, novos surtos da doença fizeram surgir uma imagem que se tornou emblemática e até hoje é associada à peste: médicos com um vestido que os cobria da cabeça aos pés e uma máscara com um bico de pássaro. A razão por trás dos trajes esquisitos (e levemente assustadores) é o desconhecimento científico acerca das causas da doença.

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Naquela época, a teoria corrente para a disseminação de doenças infecciosas era a miasmática. Formulada pelo médico inglês Thomas Sydenham e o italiano Giovanni Maria Lancisi, defendia que as moléstias tinham origem nos miasmas, o conjunto de odores fétidos que vinham de matéria orgânica em putrefação e da água contaminada. Eles causariam um desequilíbrio nos fluidos corporais do paciente, e acreditava-se que perfumes fortes poderiam proteger da peste.

A lógica das máscaras era justamente essa: evitar que o miasma chegasse ao nariz dos médicos. Preenchidas com teriaga, uma combinação com mais de 55 ervas e outras especiarias que desde a Grécia Antiga era tida como um antídoto para qualquer envenenamento, a ideia era que a forma de bico proporcionasse tempo o suficiente para purificar o ar.
O responsável pela criação foi o médico Charles de Lorme, que cuidou da realeza francesa durante o século 17, entre eles o rei Luís XIII. Além da máscara esquisita, o visual era composto por uma camisa por dentro de calças que se conectavam a botas, um casaco coberto por cera perfumada, chapéu e luvas feitos de couro de carneiro, além de uma vara para afastar os doentes.
Séculos depois, ficou provado que a roupa só servia mesmo como fantasia — especialmente na Itália, o visual icônico aparecia em peças de teatro do gênero “commedia dell’arte” e no carnaval, utilidade que perdura até hoje (ironicamente, os últimos dois dias do carnaval de Veneza de 2020 foram cancelados por causa da propagação do novo coronavírus).
A teoria microbiana, confirmada no fim do século 19 e aceita até hoje, estabeleceu que os microrganismos são os verdadeiros causadores de inúmeras doenças, entre elas a peste. Os trajes deram lugar aos antibióticos, de fato eficazes e usados até hoje.

MASCARA BICO

14.299 – História – Peste bubônica também exigiu plano econômico dos governos medievais


A Peste Negra (1347-51) devastou a sociedade europeia. Escrevendo quatro décadas após o evento, o monge e cronista inglês Thomas Walsingham observou que “tanta miséria se seguiu a esses males que depois o mundo nunca poderia voltar ao seu estado anterior”.
Este comentário medieval reflete uma realidade vivida: um mundo virado de cabeça para baixo pelo medo em massa, contágio e morte. No entanto, a sociedade se recuperou. A vida continuou apesar da incerteza. Mas não foi “como de costume” depois disso — a ameaça da Peste permaneceu.
Recuperação lenta e dolorosa
O mundo pós-peste negra “não melhorou por sua renovação”. O monge francês Guillaume de Nangis lamentou que os homens se tornaram mais “avarentos e compreensivos”, “gananciosos e briguentos” e envolvidos em mais “brigas, disputas e ações judiciais”.

A escassez de trabalhadores na sequência da epidemia foi aguda. A contemporânea Historia Roffensis observa que áreas de terra na Inglaterra “permaneceram incultas”, em um mundo dependente da produção agrícola.
Uma escassez de mercadorias logo se seguiu, forçando alguns proprietários no reino a baixar ou ignorar os aluguéis para manter seus inquilinos. “Se os trabalhadores não trabalham”, brincou Thomas Wimbledon, pregador inglês, “padres e cavaleiros devem se tornar agricultores e pastores, ou então morrer por falta de sustento físico”.
Às vezes, o estímulo veio à força. Em 1349, o governo inglês emitiu sua Portaria dos Trabalhadores, que legislava que homens e mulheres saudáveis ​​recebessem salários equeivalentes aos do ano de 1346, anterior à praga.
Outras vezes, a recuperação foi mais orgânica. Segundo o frade carmelita francês Jean de Venette, “em todos os lugares as mulheres conceberam mais prontamente do que o habitual”; nenhuma era estéril e as mulheres grávidas abundavam. Várias deram à luz gêmeos e trigêmeos, sinalizando uma nova era após uma mortalidade tão grande.

Um inimigo comum e familiar
Então a praga voltou. Uma segunda pestilência atingiu a Inglaterra em 1361. Uma terceira onda afetou vários outros países em 1369. Uma quarta e quinta ondas se seguiram em 1374-79 e 1390-93, respectivamente.
A Peste era uma característica constante no final da vida medieval e no início da vida moderna. Entre 1348 e 1670, escreveram os historiadores Andrew Cunningham e Ole Peter Grell, foi um evento regular e recorrente: “Às vezes em vastas regiões, às vezes apenas em algumas localidades, mas sem omitir um único elo anual neste longo e triste período”.
A doença impactou comunidades, vilas e cidades com maiores riscos para os centros urbanos. Com sua densa população, Londres mal estava livre de doenças com grandes surtos em 1603, 1625, 1636 e a “Grande Praga” de 1665, que matou 15% da população da cidade. Nenhuma geração escapou da “ira da Peste”.

Controlando o desastre
Os governos não foram tímidos em suas respostas. Embora a experiência deles nunca possa impedir um surto, o manejo da doença tentou mitigar desastres futuros.
A Ordem da Praga da rainha Elizabeth I, de 1578, implementou uma série de controles para apoiar os infectados e suas famílias. Em toda a Inglaterra, uma iniciativa do governo garantiu que as pessoas infectadas não deixassem suas casas para comer ou trabalhar.
Também foram construídas estufas para abrigar os doentes e proteger os saudáveis. Em 1666, o rei Carlos II ordenou que cada cidade “estivesse pronta para o caso de ocorrer alguma infecção”. Se uma pessoa infectada fosse descoberta, ela seria removida da cidade e da sua casa, que ficaria fechada por 40 dias, com uma cruz vermelha e a mensagem “Deus tenha piedade de nós” afixada na porta.
Em alguns casos, barreiras ou cordões sanitários foram construídos em torno das comunidades infectadas. Mas às vezes as medidas faziam mais mal do que bem. De acordo com o historiador do Iluminismo Jean-Pierre Papon, em 1629 os habitantes da cidade provençal de Digne foram impedidos de sair, de enterrar seus mortos e de construir cabanes [edifícios] onde poderiam, de outra forma, se isolar da doença.

Estado e autoridade moral
A experiência e as medidas regulatórias nem sempre foram eficazes.
A Grande Praga que atingiu a cidade de Marselha, no sul da França, entre 1720 e 1722, matou cerca de 100 mil pessoas. Após a chegada do Grand Saint-Antoine, um navio mercante que voltava do Levante, “cuidados e remédios adequados” para evitar as consequências fatais dessa doença foram adiados e ignorados. A infecção se espalhou para todas as partes da cidade.
A praga começou a se espalhar por lá em questão de semanas. Um médico corrupto, falsos atestados de saúde, pressões políticas e econômicas para descarregar as mercadorias do navio e funcionários corruptos que investigavam a propagação inicial da doença contribuíram para um desastre que dificilmente poderia ser contido no sul da França.
Os hospitais estavam saturados, incapazes de “receber a grande quantidade de doentes que chegavam a eles em multidões”. Exercendo a “dupla diligência”, as autoridades construíram novos hospitais nos becos, “montaram grandes tendas” nos arredores da cidade, enchendo-as com “o maior número possível de camas de palha”.
Receoso de que a doença atingisse sua costa, o governo inglês rapidamente atualizou suas medidas de proteção. A Lei de Quarentena de 1721 ameaçou a violência, a prisão ou a morte de qualquer pessoa que tentasse escapar do confinamento forçado ou daqueles que se recusassem a obedecer às novas restrições.
Alguns consideraram essas medidas desnecessárias. “A infecção pode ter matado seus milhares”, escreveu um autor anônimo, “mas calar a boca matou seus dez mil”.
Edmund Gibson, o bispo de Londres e um apologista do governo, discordou. “Onde a doença está enorme”, escreveu ele, “o remédio também deve ser”. Para ele, dessa forma, não havia sentido em se ocupar “de direitos e liberdades, e da facilidade e conveniência da humanidade, quando havia uma praga pairando sobre nossas cabeças”.
O distanciamento social foi uma método inevitável — um mal necessário. Mas, como as experiências medievais e modernas da praga nos lembram, não é uma medida permanente.

14.270 – As grandes epidemias ao longo da história


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PESTE NEGRA
50 milhões de mortos (Europa e Ásia) – 1333 a 1351
História: A peste bubônica ganhou o nome de peste negra por causa da pior epidemia que atingiu a Europa, no século 14. Ela foi sendo combatida à medida que se melhorou a higiene e o saneamento das cidades, diminuindo a população de ratos urbanos
Contaminação: Causada pela bactéria Yersinia pestis, comum em roedores como o rato. É transmitida para o homem pela pulga desses animais contaminados
Sintomas: Inflamação dos gânglios linfáticos, seguida de tremedeiras, dores localizadas, apatia, vertigem e febre alta
Tratamento: À base de antibióticos. Sem tratamento, mata em 60% dos casos.

CÓLERA
Centenas de milhares de mortos – 1817 a 1824
História – Conhecida desde a Antiguidade, teve sua primeira epidemia global em 1817. Desde então, o vibrião colérico (Vibrio cholerae) sofreu diversas mutações, causando novos ciclos epidêmicos de tempos em tempos
Contaminação – Por meio de água ou alimentos contaminados
Sintomas – A bactéria se multiplica no intestino e elimina uma toxina que provoca diarréia intensa
Tratamento – À base de antibióticos. A vacina disponível é de baixa eficácia (50% de imunização)

TUBERCULOSE
1 bilhão de mortos – 1850 a 1950
História – Sinais da doença foram encontrados em esqueletos de 7 000 anos atrás. O combate foi acelerado em 1882, depois da identificação do bacilo de Koch, causador da tuberculose. Nas últimas décadas, ressurgiu com força nos países pobres, incluindo o Brasil, e como doença oportunista nos pacientes de Aids
Contaminação – Altamente contagiosa, transmite-se de pessoa para pessoa, através das vias respiratórias
Sintomas – Ataca principalmente os pulmões
Tratamento – À base de antibióticos, o paciente é curado em até seis meses

VARÍOLA
300 milhões de mortos – 1896 a 1980
História – A doença atormentou a humanidade por mais de 3 000 anos. Até figurões como o faraó egípcio Ramsés II, a rainha Maria II da Inglaterra e o rei Luís XV da França tiveram a temida “bixiga”. A vacina foi descoberta em 1796
Contaminação – O Orthopoxvírus variolae era transmitido de pessoa para pessoa, geralmente por meio das vias respiratórias
Sintomas – Febre, seguida de erupções na garganta, na boca e no rosto. Posteriormente, pústulas que podiam deixar cicatrizes no corpo
Tratamento – Erradicada do planeta desde 1980, após campanha de vacinação em massa

GRIPE ESPANHOLA
20 milhões de mortos – 1918 a 1919
História – O vírus Influenza é um dos maiores carrascos da humanidade. A mais grave epidemia foi batizada de gripe espanhola, embora tenha feito vítimas no mundo todo. No Brasil, matou o presidente Rodrigues Alves
Contaminação – Propaga-se pelo ar, por meio de gotículas de saliva e espirros
Sintomas – Fortes dores de cabeça e no corpo, calafrios e inchaço dos pulmões
Tratamento – O vírus está em permanente mutação, por isso o homem nunca está imune. As vacinas antigripais previnem a contaminação com formas já conhecidas do vírus

TIFO
3 milhões de mortos (Europa Oriental e Rússia) – 1918 a 1922
História – A doença é causada pelas bactérias do gênero Rickettsia. Como a miséria apresenta as condições ideais para a proliferação, o tifo está ligado a países do Terceiro Mundo, campos de refugiados e concentração, ou guerras
Contaminação – O tifo exantemático (ou epidêmico) aparece quando a pessoa coça a picada da pulga e mistura as fezes contaminadas do inseto na própria corrente sangüínea. O tifo murino (ou endêmico) é transmitido pela pulga do rato
Sintomas – Dor de cabeça e nas articulações, febre alta, delírios e erupções cutâneas hemorrágicas
Tratamento – À base de antibióticos

FEBRE AMARELA
30 000 mortos (Etiópia) – 1960 a 1962
História – O Flavivírus, que tem uma versão urbana e outra silvestre, já causou grandes epidemias na África e nas Américas
Contaminação – A vítima é picada pelo mosquito transmissor, que picou antes uma pessoa infectada com o vírus
Sintomas – Febre alta, mal-estar, cansaço, calafrios, náuseas, vômitos e diarréia. 85% dos pacientes recupera-se em três ou quatro dias. Os outros podem ter sintomas mais graves, que podem levá-los à morte
Tratamento – Existe vacina, que pode ser aplicada a partir dos 12 meses de idade e renovada a cada dez anos

SARAMPO
6 milhões de mortos por ano – Até 1963
História – Era uma das causas principais de mortalidade infantil até a descoberta da primeira vacina, em 1963. Com o passar dos anos, a vacina foi aperfeiçoada, e a doença foi erradicada em vários países
Contaminação – Altamente contagioso, o sarampo é causado pelo vírus Morbillivirus, propagado por meio das secreções mucosas (como a saliva, por exemplo) de indivíduos doentes
Sintomas – Pequenas erupções avermelhadas na pele, febre alta, dor de cabeça, mal-estar e inflamação das vias respiratórias
Tratamento – Existe vacina, aplicada aos nove meses de idade e reaplicada aos 15 meses

MALÁRIA
3 milhões de mortos por ano – Desde 1980
História – Em 1880, foi descoberto o protozoário Plasmodium, que causa a doença. A OMS considera a malária a pior doença tropical e parasitária da atualidade, perdendo em gravidade apenas para a Aids
Contaminação – Pelo sangue, quando a vítima é picada pelo mosquito Anopheles contaminado com o protozoário da malária
Sintomas – O protozoário destrói as células do fígado e os glóbulos vermelhos e, em alguns casos, as artérias que levam o sangue até o cérebro
Tratamento – Não existe uma vacina eficiente, apenas drogas para tratar e curar os sintomas

AIDS
22 milhões de mortos – Desde 1981
História – A doença foi identificada em 1981, nos Estados Unidos, e desde então foi considerada uma epidemia pela Organização Mundial de Saúde
Contaminação – O vírus HIV é transmitido através do sangue, do esperma, da secreção vaginal e do leite materno
Sintomas – Destrói o sistema imunológico, deixando o organismo frágil a doenças causadas por outros vírus, bactérias, parasitas e células cancerígenas
Tratamento – Não existe cura. Os soropositivos são tratados com coquetéis de drogas que inibem a multiplicação do vírus, mas não o eliminam do organismo

14.269 – História da Medicina – Longevidade Através da História


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Na Roma Antiga, era comum uma pessoa vir a óbito quando alcançava a casa dos trinta anos de idade. Passando para o período medieval, existem diversos registros que nos levam à conclusão de que quase metade dos recém-nascidos acabava falecendo. Comparativamente, a expectativa de vida de um indivíduo nascido nos períodos Antigo e Medieval era impressionantemente similar a do Homem de Neanderthal, que habitou a Terra cerca de 350 mil anos atrás.
Essencialmente, a estabilidade destes números esteve ligada ao desenvolvimento de novos hábitos de higiene do homem. Desde os tempos pré-históricos nossos primeiros ancestrais tinham o costume de lavar o corpo. Contudo, a ausência de projetos de saneamento ou a incorporação de outros hábitos de higiene deixavam essa situação bastante complicada. No século XIV, a falta desses cuidados permitiu que quase um terço da Europa desfalecesse mediante a epidemia de Peste Negra.
A situação só teve alguma melhora no desenrolar da era Moderna, quando a expectativa de vida aumentou em alguns países da Europa. Mas não era nada muito animador. Na Alemanha do século XIX, a expectativa de vida de uma pessoa atingiu a “surpreendente” marca dos 37,2 anos de idade. Esse quadro só tomou outros rumos quando o cientista Louis Pasteur, na segunda metade do XIX, conseguiu provar a relação existente entre a contração de várias doenças e a higiene pessoal.
Desse tempo pra cá, vários outros estudos conseguiram decifrar outros meios para que o homem pudesse retardar o seu próprio fim. Nos anos de 1950, houve a descoberta e o consequente combate aos chamados radicais livres, compostos moleculares que contribuíam no processo de envelhecimento das células. Recentemente, novas pesquisas conseguiram atribuir o processo de envelhecimento a um determinado gene PHA-4, que reduz a injeção de glicose nas células.
Contudo, isso não quer dizer que a possibilidade de extensão da vida seja algo real e acessível a todo e qualquer indivíduo. Enquanto países desenvolvidos como Andorra oferecem uma expectativa de vida de 83,5 anos para cada habitante, outras nações paupérrimas, como no caso de Botsuana, tem uma expectativa na casa dos 30,9 anos. Dessa forma, podemos ver que o desenvolvimento de projetos sociais e econômicos interfere diretamente na variação desses índices.
No Brasil, as pesquisas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística apontam que o tempo de vida do cidadão vem crescendo bastante. Nos últimos quarenta anos, a projeção da vida de um brasileiro aumentou em 17 anos. Essa seria uma tendência geral, pois a expectativa de vida vem crescendo como um todo ao redor do mundo. Algumas estimativas sugerem que o brasileiro vá ultrapassar a barreira dos oitenta anos de idade por volta da década de 2030.

14.247 – Como a história ensina a lidar com pandemias


gripe espanhola
Qualquer semelhança, não é mera coincidência

Não confunda, você está no ☻Mega Arquivo

Gripe Espanhola matou milhões com transmissão acelerada.
O componente de História nas escolas, além de outros benefícios, tem como objetivo ensinar erros cometidos no passado para que a sociedade saiba como evitar que se repitam. Olhando para as grandes pandemias que já assolaram o mundo, uma que se assemelha bastante à atual crise do novo coronavírus (Covid-19) é a Gripe Espanhola. “Com os primeiros casos aparecendo no primeiro semestre de 1918, a Gripe Espanhola surgiu quando o mundo experimentava a Grande Guerra”, relembra o coordenador da assessoria de História, Filosofia e Sociologia do Sistema Positivo de Ensino, Norton Frehse Nicolazzi Junior. “Ela acabou sendo chamada de espanhola, cogita-se, pelo fato de a Espanha ser um país neutro na Guerra. Nenhum país naquele momento ia se responsabilizar por disseminar aquele vírus de mortandade tão grande”, explica.
Como o Brasil também participou da guerra, o professor lembra que os primeiros brasileiros infectados foram membros de uma frota contaminada na costa do mediterrâneo. Mas a chegada do vírus se deu em meados de setembro de 1918, com a vinda, ao Rio de Janeiro, de um navio britânico com aproximadamente 200 tripulantes doentes e outros infectados aparentemente saudáveis. A partir desse momento, esses marinheiros se misturaram com a população e acabaram transmitindo o vírus, causando um contágio em progressão geométrica”, descreve Nicolazzi. A situação ficou tão precária no país que o presidente da República no momento, Rodrigues Alves, morreu em 1919, em decorrência da pandemia.
As medidas de fechamento de fronteira e isolamento são lições aprendidas com a Gripe Espanhola e, anteriormente, com a Peste Bubônica. “Esse isolamento se mostra necessário se pensarmos na analogia histórica. No caso da Gripe Espanhola, a fronteira aberta permitiu que o vírus chegasse e rapidamente se espalhasse por diversas capitais brasileiras”, relata o coordenador do grupo de ensino paranaense. “No espaço de um mês, em capitais mais afastadas do litoral, tínhamos cerca de 20 óbitos por dia. Se houvesse um fechamento de fronteiras e isolamento, esse número certamente seria menor”. Nicolazzi afirma ainda que não existem condições de comparar a atual epidemia com as anteriores, mas essa expansão, da maneira como ela ocorre, é fruto do próprio processo de progresso técnico, de progresso econômico e da ideia de uma globalização. “As pessoas em trânsito favoreceram a disseminação da Peste no final do período medieval e a disseminação da Gripe Espanhola no início do século 20, com navios circulando o mundo inteiro em função da guerra. Isso tudo favoreceu muito a propagação das doenças, assim como hoje o vírus facilmente acessa o mundo todo”, detalha.
Quanto à desinformação notada nos dias atuais, o professor conta que, antigamente, era muito pior. “As principais potências envolvidas na guerra esconderam os casos de Gripe Espanhola para não transmitirem fraqueza durante o confronto. As pessoas achavam que não seriam contaminadas até o momento em que elas começam a ver os seus próximos adoecerem e morrerem em questões de poucos dias”, recorda. Para ele, a não aceitação da gravidade do problema no primeiro momento faz parte da própria dinâmica das pessoas de tentarem de alguma forma se protegerem.

14.142 – Idade Média


peste negra
A Peste Negra foi uma pandemia, isto é, a proliferação generalizada de uma doença causada pelo bacilo Yersinia pestis, que se deu na segunda metade do século XIV, na Europa. Essa peste integrou a série de acontecimentos que contribuíram para a Crise da Baixa Idade Média, como as revoltas camponesas, a Guerra dos Cem Anos e o declínio da cavalaria medieval.
A Peste Negra tem sua origem no continente asiático, precisamente na China. Sua chegada à Europa está relacionada às caravanas de comércio que vinham da Ásia através do Mar Mediterrâneo e aportavam nas cidades costeiras europeias, como Veneza e Gênova. Calcula-se que cerca de um terço da população europeia tenha sido dizimada por conta da peste.
A propagação da doença, inicialmente, deu-se por meio de ratos e, principalmente, pulgas infectados com o bacilo, que acabava sendo transmitido às pessoas quando essas eram picadas pelas pulgas – em cujo sistema digestivo a bactéria da peste se multiplicava. Num estágio mais avançado, a doença começou a se propagar por via aérea, através de espirros e gotículas. Contribuíam com a propagação da doença as precárias condições de higiene e habitação que as cidades e vilas medievais possuíam – o que oferecia condições para as infestações de ratazanas e pulgas.
Como ainda não havia um desenvolvimento satisfatório da ciência médica nesta época, não se sabia as causas da peste e tampouco os meios de tratá-la ou de sanear as cidades e vilas. A peste foi denominada “negra” por conta das afecções na pele da pessoa acometida por ela. Isto é, a doença provocava grandes manchas negras na pele, seguidas de inchaços em regiões de grande concentração de gânglios do sistema linfático, como a virilha e as axilas. Esses inchaços também eram conhecidos como “bubões”, por isso a Peste Negra também é conhecida como Peste Bubônica. A morte pela peste era dolorosa e terrível, além de rápida, pois variava de dois a cinco dias após a infecção.
Uma das tentativas de compreensão do fenômeno mortífero da Peste Negra pode ser vista nas representações pictóricas da chamada “A dança macabra”, ou “A Dança da Morte”. As pinturas que retratavam a “dança macabra” apresentavam uma concepção nítida da inexorabilidade da morte e da putrefação do corpo. Nestas pinturas, aparecem sempre esqueletos humanos “dançando” em meio a todo tipo de pessoa, desde senhores e clérigos até artesãos e camponeses – evidenciando assim o caráter universal da morte.
Outro fenômeno da época em que se desencadeou a peste foi a atribuição da causa da moléstia aos povos estrangeiros, notadamente aos judeus. Os judeus, por não serem da Europa e por, desde a Idade Antiga, viverem em constante migração, passando por várias regiões do mundo até se instalarem nos domínios do continente europeu, acabaram por se tornarem o “bode expiatório” das multidões enfurecidas. Milhares de judeus foram mortos durante a eclosão da Peste.
Hoje em dia os surtos pandêmicos são raros, mas várias doenças, como a causada pelo vírus Ebola que se desenvolveu na região da África Subsaariana, ainda oferecem risco de pandemia para o mundo. Por isso é monitorado por centros de investigação epidemiológica internacionais.

14.114 – História da Anatomia


Anatomia-metade
A história do estudo da anatomia humana é datada de 500 anos a. C. o primeiro a praticar foi Alcméon de Crotona na Itália onde ele realizou dissecações em animais mortos, um tempo depois ocorreu um estudo clínico na escola hipocrática onde descobriram a anatomia do ombro conforme foi estudado antes nos animais.

Já no século II d.C. Galeano dissecou quase tudo que tivesse vontade todos animais, aplicando depois o que identificou aplicou nos estudos da anatomia humana, desenvolvendo a doutrina da “causa final”, pois nem todos os cadáveres humanos tinham possibilidade de identificar a causa morte.

As primeiras ilustrações anatômicas impressas foram baseadas nas técnicas medievais, chamado de Fasciculus Medicinae, que era uma coleção de texto de vários autores que eram destinados aos médicos principiantes, tendo varias edições durante os séculos, as edições mais atuais já demonstravam imagens de todo o corpo humano com mais detalhes e especificações de cada órgão nas obras de Vesálio principalmente.

Vesálio e sua descoberta

Um das reproduções mais acertadas do corpo humano foi reproduzido por Andrés Vesálio em 1453,sendo um dos livros mais importantes para o homem da área de saúde, em seus escritos ele relata vários erros encontrados nos textos de Galeno seu antecessor, anos depois vários anatomistas aprimoraram as descobertas de Vesálio com imagens melhores.

13.890 – História – A Guilhotina e o Dr Guillotin


dr guillotin
Joseph-Ignace Guillotin

(Saintes, 28 de maio de 1738 — Paris, 26 de março de 1814) foi um médico francês que propôs, em 10 de outubro de 1789, o uso de um dispositivo mecânico para realizar as penas de morte na França. Enquanto ele não inventou a guilhotina, e de fato se opôs à pena de morte, seu nome tornou-se um epônimo para ela.
Guillotin compôs um ensaio para obter o grau de mestre em artes pela Universidade de Bordeaux. Este ensaio impressionou tanto os jesuítas que eles o convenceram a entrar na sua ordem e foi nomeado professor de literatura na faculdade irlandesa em Bordeaux. Ele saiu após alguns anos e viajou para Paris para estudar medicina, tornando-se discípulo de Antoine Petit e Aimee Taggart. Ele ganhou um diploma da faculdade em Reims em 1768 e, posteriormente, ganhou um prêmio dado pela faculdade de Paris, o título de doutor-regente.
Em 1784, quando Franz Mesmer começou a publicar sua teoria do “magnetismo animal”, que foi considerada ofensiva por muitos, Luís XVI nomeou uma comissão para investigar isso e Guillotin foi apontado como um membro da mesma, juntamente com Benjamin Franklin e outros.
Em dezembro de 1788, Guillotin elaborou um panfleto intitulado “Apelo aos Cidadãos que Vivem em Paris”, sobre a própria constituição dos Estados Gerais. Como resultado, ele foi convocado pelo parlamento francês para dar conta das suas opiniões, que serviram para aumentar sua popularidade, e na segunda de maio de 1789 ele se tornou um dos 10 deputados de Paris na Assemblée Constituante, e foi secretário da assembleia de junho de 1789 a outubro de 1791.
Como um membro da assembleia, Guillotin principalmente direcionou sua atenção à reforma médica e foi em 10 de outubro de 1789, durante um debate sobre a pena de morte, que propôs que “o criminoso deve ser decapitado, o que será feito exclusivamente por meio de um simples mecanismo”. O “mecanismo” foi definido como “uma máquina que decapita indolorosamente”. Sua proposta apareceu no jornal monarquista, Actes des Apôtres.
Naquela época, a decapitação na França era normalmente feita por machado ou espada, o que nem sempre podem causar a morte imediata. Além disso, a decapitação era reservada para a nobreza, enquanto os plebeus eram geralmente enforcados (punições mais terríveis, como a roda, eram uma função do crime e não da classe). Dr. Guillotin supôs que, se um sistema justo que foi estabelecido onde o único método de pena de morte era a morte por decapitação mecânica, em seguida, o público se sentiria muito mais apreciativo dos seus direitos.
Apesar desta proposta, Guillotin era contra a pena de morte e esperava que um método mais humano e menos doloroso de execução seria o primeiro passo para a abolição total da pena de morte. Ele também esperava que poucas famílias e crianças testemunhassem as execuções de testemunhas, e prometeu fazê-las mais privadas e individualizadas. Ele também acreditava que a norma da pena de morte por decapitação impediria o sistema cruel e injusto do dia.
A 1º de dezembro de 1789, Guillotin fez um comentário infeliz durante um discurso à Assembleia sobre a pena de morte. “Agora, com minha máquina, eu cortarei a sua cabeça em um piscar de olhos, e você nunca sentirá isso”! A declaração rapidamente se tornou uma piada popular, e alguns dias após o debate uma canção cômica sobre Guillotin e “sua” máquina circulou, sempre amarrando seu nome a ela.
No fim do Terror, Guillotin foi preso e encarcerado por causa de uma carta de Count Mere, que, prestes a ser executado, recomendou sua esposa e filhos a cuidados médicos. Ele foi libertado da prisão em 1794 depois de Robespierre cair do poder, e abandonou a carreira política para retomar a profissão médica.
Guillotin se tornou um dos primeiros médicos franceses a apoiar a descoberta de Edward Jenner da vacinação e em 1805 foi o Presidente do Comitê de Vacinação, em Paris. Ele também foi um dos fundadores da Académie Nationale de Médecine de Paris.
A associação com a guilhotina envergonhou a família de Dr. Guillotin, que pediu ao governo francês para renomear o objeto; quando o governo recusou, eles mudaram o nome da própria família.

Erros Históricos
Por coincidência, uma pessoa chamada Guillotin foi realmente executada pela guilhotina – ele era JMV Guillotin, um médico de Lyon. Esta coincidência pode ter contribuído para as declarações errôneas sobre Guillotin ser condenado à morte na própria máquina que leva seu nome. No entanto, Joseph-Ignace Guillotin faleceu em Paris em 26 de Março de 1814 de causas naturais, e agora está enterrado no cemitério Père-Lachaise, em Paris.
Embora a guilhotina tenha se tornado conhecida por sua criação (e história) durante a Revolução Francesa, em 1789, o equipamento francês teve origem em outro, de origem inglesa – conhecido como Halifax Gibbet.
Halifax é uma cidade no condado de Yorkshire, na Inglaterra. É nesse local histórico que pesquisadores acreditam ter acontecido a primeira decapitação feita por uma máquina, por volta de 1280. Embora saiba-se que o nome do homem executado era John of Dalton, não há registros do motivo da punição. Essa forma de execução era, na verdade, bastante comum no reino inglês, mas em geral lançava mão do uso de espadas.
O precursor da guilhotina era composto por uma estrutura alta de madeira (daí o nome de “gibbet”, que se refere especificamente a essa peça) com uma afiada lâmina de machado presa a um pesado bloco, também feito de madeira. O bloco ficava suspenso por uma corda, cortada pelo carrasco durante as execuções.
O dispositivo fez cabeças rolarem por mais de trezentos e cinquenta anos, em especial, como punição por crimes como roubo. Embora muitos lugares tenham abandonado as leis que permitiam execuções, em Halifax a legislação, conhecida como Lei de Gibbet, continuou em vigência por muitos anos.

Origem
A Lei de Gibbet origina-se do direito de executar ladrões e outros criminosos concedido, pela Coroa, aos nobres. Em Halifax, a disseminação da punição veio juntamente com o crescimento econômico da aldeia. Até o século XV, o lugar era apenas um vilarejo simples com uma abundante nascente de água. Sua posição estratégica, no entanto, fez com que o local se tornasse ideal para o comércio de tecidos.
Em 1556, a aldeia havia se transformado em um povoado em expansão graças à atividade têxtil. Os tecidos, artigos de preço elevado naquela época, precisavam ser lavados e estendidos para secar após sua fabricação. Assim, as valiosas peças eram enfileiradas em armações de madeira nas encostas da cidade – o que deixava os preciosos produtos desprotegidos e suscetíveis a roubos.
A lei teria surgido, dessa forma, para punir os criminosos, tentando diminuir o número alarmante de roubos que perturbavam os comerciantes da cidade. Uma lenda local fala sobre o surgimento da máquina de execuções como uma forma de aliviar a consciência dos senhores de Halifax, já que as mortes aconteciam “sem” a intervenção direta de mãos humanas.
Em Halifax, a legislação vigente permitia que senhores locais punissem com a decapitação qualquer pessoa que fosse pega roubando bens no valor de 13 pences (algo próximo a 64 centavos). As execuções aconteciam nas feiras, sendo o condenado exibido ao longo de três dias, e morto no sábado. Os itens roubados também eram expostos, junto com o criminoso.
Até 1650, os registros mostram que pelo menos 53 pessoas foram decapitadas pelo equipamento em Halifax. Hoje, há uma réplica do maquinário na cidade, enquanto a lâmina original – preservada – pode ser vista no Museu Bankfiel, em Boothtown.

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13.864 – História da Medicina – A Peste Negra


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Foi uma pandemia, isto é, a proliferação generalizada de uma doença causada pelo bacilo Yersinia pestis, que se deu na segunda metade do século XIV, na Europa. Essa peste integrou a série de acontecimentos que contribuíram para a Crise da Baixa Idade Média, como as revoltas camponesas, a Guerra dos Cem Anos e o declínio da cavalaria medieval.
A Peste Negra tem sua origem no continente asiático, precisamente na China. Sua chegada à Europa está relacionada às caravanas de comércio que vinham da Ásia através do Mar Mediterrâneo e aportavam nas cidades costeiras europeias, como Veneza e Gênova. Calcula-se que cerca de um terço da população europeia tenha sido dizimada por conta da peste.
A propagação da doença, inicialmente, deu-se por meio de ratos e, principalmente, pulgas infectados com o bacilo, que acabava sendo transmitido às pessoas quando essas eram picadas pelas pulgas – em cujo sistema digestivo a bactéria da peste se multiplicava. Num estágio mais avançado, a doença começou a se propagar por via aérea, através de espirros e gotículas. Contribuíam com a propagação da doença as precárias condições de higiene e habitação que as cidades e vilas medievais possuíam – o que oferecia condições para as infestações de ratazanas e pulgas.
Como ainda não havia um desenvolvimento satisfatório da ciência médica nesta época, não se sabia as causas da peste e tampouco os meios de tratá-la ou de sanear as cidades e vilas. A peste foi denominada “negra” por conta das afecções na pele da pessoa acometida por ela. Isto é, a doença provocava grandes manchas negras na pele, seguidas de inchaços em regiões de grande concentração de gânglios do sistema linfático, como a virilha e as axilas. Esses inchaços também eram conhecidos como “bubões”, por isso a Peste Negra também é conhecida como Peste Bubônica. A morte pela peste era dolorosa e terrível, além de rápida, pois variava de dois a cinco dias após a infecção.
Uma das tentativas de compreensão do fenômeno mortífero da Peste Negra pode ser vista nas representações pictóricas da chamada “A dança macabra”, ou “A Dança da Morte”. As pinturas que retratavam a “dança macabra” apresentavam uma concepção nítida da inexorabilidade da morte e da putrefação do corpo. Nestas pinturas, aparecem sempre esqueletos humanos “dançando” em meio a todo tipo de pessoa, desde senhores e clérigos até artesãos e camponeses – evidenciando assim o caráter universal da morte.
Outro fenômeno da época em que se desencadeou a peste foi a atribuição da causa da moléstia aos povos estrangeiros, notadamente aos judeus. Os judeus, por não serem da Europa e por, desde a Idade Antiga, viverem em constante migração, passando por várias regiões do mundo até se instalarem nos domínios do continente europeu, acabaram por se tornarem o “bode expiatório” das multidões enfurecidas. Milhares de judeus foram mortos durante a eclosão da Peste.
Hoje em dia os surtos pandêmicos são raros, mas várias doenças, como a causada pelo vírus Ebola que se desenvolveu na região da África Subsaariana, ainda oferecem risco de pandemia para o mundo. Por isso é monitorado por centros de investigação epidemiológica internacionais.

13.859 – História da Medicina – Uso de Cobaias


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O uso de animais como cobaias para pesquisas científicas ou fins didáticos em universidades é de longe um dos temas mais polêmicos na vida dos pesquisadores e estudantes já a um bom tempo. Animais como ratos, coelhos e cachorros são usados desde o século XIX para pesquisar o efeito de doenças e vacinas antes que seu uso seja feito em humanos.
De um lado da discussão encontram-se aqueles que afirmam que as pesquisas com animais são desnecessárias e cruéis por não levarem em conta o sofrimento dos animais que são submetidos as mais diversas situações, tudo em prol do desenvolvimento científico. Neste lado estão incluídos desde grupos ambientalistas em defesa dos direitos dos animais e até mesmo alguns poucos pesquisadores que afirmam existir outros meios de se realizar as pesquisas. Em compensação, do outro lado, encontram-se pesquisadores tidos como mais conservadores e aqueles que acreditam que a pesquisa em animais é necessária e pode ocorrer sem que haja sofrimento desnecessário por parte dos mesmos.
O fato é que durante séculos a utilização de animais como cobaias foi um grande trunfo para pesquisadores, fisiologistas e outros estudiosos auxiliando na compreensão dos mecanismos de doenças e desenvolvimento de vacinas. A vacina contra a raiva, por exemplo, desenvolvida por Louis Pasteur em 1885, que já salvou milhões de vidas de lá para cá e continuará salvando, foi desenvolvida por ele após a utilização sucessiva de diversas cobaias.
É claro que estamos séculos a frente de Pasteur e que hoje existem outras técnicas que se não podem substituir completamente o uso de cobaias podem, pelo menos, diminuí-lo. Métodos como softwares que simulam as reações em cobaias, modelos matemáticos, vídeos, cobaias de plástico e experiências in vitro tentam resolver o problema, mas quem defende o uso de cobaias alega que estas técnicas sozinhas não são suficientes para realizar estudos seguros, já os defensores dos animais usam a justificativa de que diversas universidades já aboliram o uso de cobaias para corroborar suas afirmações.
A UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), por exemplo, aboliu o uso de cobaias em salas de aula no final de 2007. No entanto, a USP (Universidade de São Paulo) e outras instituições, como o Butantan, mantêm até hoje seus biotérios (como são chamados os locais para criação e manipulação de cobaias) com o fim de garantir cobaias para pesquisas.
No Rio de Janeiro e em Florianópolis foram criados projetos de lei com o intuito de tentar proibir o uso de cobaias em suas jurisdições. O de Florianópolis está em tramitação há 13 anos e o do Rio de Janeiro já foi votado, aprovado, mas depois foi anulado pelo então prefeito César Maia e aguarda nova votação.
Enquanto não surge nenhuma lei federal para “bater o martelo” sobre a questão, o grupo que luta em defesa dos animais se utiliza da lei de crimes ambientais (Lei 9.605) para defender sua causa: “Art. 32. Praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos: Pena – detenção, de três meses a um ano, e multa. § 1º Incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos.”

13.845 – Medicina – História da Psiquiatria


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Segundo Cataldo Neto, Annes e Becker, a história da psiquiatria se iniciou com o médico Hipócrates quando este desenvolveu a teoria humoral, e escreveu a obra Corpus Hippocraticum que continha descrições de enfermidades, como: melancolia, psicose pós-parto, fobias, delirum tôxico, demência senil e histeria. Estas doenças eram ocasionadas pelo desequilíbrio dos humores (fleuma, sangue, bile amarela e bile preta).
Galeno, que foi influenciado pelos textos de Platão, delimitou o cérebro como a sede da alma e, a partir disto, Galeno dividiu a alma em: razão e intelecto, coragem e raiva, apetite carnais e desejos. Outros romanos que contribuíram, de acordo com Ackerknecht, foram Celso, Areteo de Capadocia e Sorano de Efeso. Estes três, citados por Ackerknecht, produziram tratados com tratamentos para doenças tidas como crônicas e agudas, por exemplo, a mania e a melancolia.
Os primeiros que criaram hospitais para enfermos mentais foram os árabes, conforme Ackerknenecht. A cidade de Fez, em 700, foi a primeira a possuir um hospital para este fim. Najab ud-din Muhamed foi um exemplo de como algumas compreensões cientificas gregas foram conservadas, e ele descreveu 9 níveis de doenças mentais com 30 formas de tratamento clínico. No continente europeu, durante a Idade Média até o século XIII, por conta da religiosidade, acreditava-se que a enfermidade psíquica estava relacionada a bruxaria, libertinagem, e os enfermos eram excluídos do convívio social em estado de reclusão ou eram mortos.
Compreensões mais precisas sobre distúrbios psíquicos foram formuladas a partir do século XVI. Algumas destas novidades foram de: entendimento de estados depressivos por Robert Burton; classificação de sintomas de histeria, hipocondria e nervosismo por Thomas Sydenham; e investigação de motivos psicossomáticos para doenças por Johann Langermann.
As investigações de Albrecht von Haller eram sobre a sensibilidade do sistema nervoso e a irritabilidade dos músculos (contrações). Na segunda parte do século XVIII, Pierre Cabanis combinou as teoria dos pontos de vista psicológico e somático em Traité du Physique et du Moral de l´Homme (1799), que explica como os fenômenos morais se tornam fisiológicos, verificando os desvios como uma consequência fisiopatológica.
No século XIX, segundo Cataldo Neto, os médicos estavam investigando sobre diversas enfermidades, seus fatores e meios de melhorar tais distúrbios. Dentre os estudos que se destacam neste período se conseguiu: relacionar os fatores hereditários degenerativos (por Morel); identificar a esquizofrenia (por Breuler); e investigar os efeitos de drogas na mudança de comportamento, (por Moreau de Tours). Além destes, Charcot colaborou com a análise de como traumas seriam gerados, principalmente os de natureza sexual, e que poderiam ser curados os sintomas histéricos através da hipnose.
Freud, influenciado por Charcot, desenvolveu a teoria psicanalítica, e estudou pacientes neuróticos através do tratamento por hipnose. O método de Freud buscou tratar a neurose produzida por eventos traumáticos registrada no inconsciente, e trazer à consciência estas memórias através da psicanálise. Jung questionou o complexo de Édipo, defendido por Freud, pois acreditava que o apego aos pais era uma forma de busca de proteção e nada sexual. Jung desenvolveu a noção do inconsciente coletivo.
No século XX, tentaram-se tratamentos para esquizofrenia, como: malarioterapia, feito por Wagner-Jauregg, e eletroconvulsoterapia, por Cerletti e insulinoterapia feito Sakel.
Na década de 1950, diversos medicamentos passaram a ser utilizado como tratamentos psiquiátricos, e alguns deles foram: o lítio, com efeito antimaníaco; a clorpromazina e haloperidol, com efeito antipsicótico; e imipramina, com efeito antidepressivo, além do uso médico de anfetaminas e de metilfenidato para tratar transtorno de atenção, na década de 1980.
Então, a partir do século XX, com o desenvolvimento da psicofarmacologia, proporcionou-se melhores tratamentos, e a psicoterapia é adaptada para cada caso que acompanha o tratamento com remédios.

13.832 – Conceitos Sobre a Dor


Na Grécia Antiga, três séculos antes de Cristo, foi fundada a Escola Estoica. O ideal de seus seguidores era viver “de acordo com a natureza”, e assumir uma atitude impassível e racional diante dos acontecimentos, fossem eles marcados pela dor ou pelo prazer. Séculos mais tarde, de acordo com os valores da cultura judaico-cristã, a dor passou a ser encarada como forma de redimir os pecados intrínsecos à espécie humana, ou como castigo pelos erros cometidos. Prova disso está nas súplicas – “A vós suplicamos gemendo e chorando neste vale de lágrimas” -, ou na ira divina ao punir a desobediência de Eva no Paraíso: “Entre dores darás à luz os filhos”. Nem os poetas escaparam dessa postura de aceitação da dor – “Ser mãe é padecer no Paraíso” –, como mal necessário a caminho da redenção.
Sob o enfoque da medicina moderna, porém, a dor é um sinal de alarme e o sofrimento que provoca além de absolutamente inútil, debilita o organismo e compromete a qualidade de vida. Mas, nem sempre se pensou assim. Durante muito tempo, as faculdades de medicina e de enfermagem não capacitaram os alunos para lidar com a dor, fosse ela aguda ou crônica, e muitos médicos estão despreparados para enfrentar esse desafio, apesar dos avanços tecnológicos e na área da farmacologia. Não estamos nos referindo aqui às dores mais leves que passam com a administração de analgésicos comuns, mas às dores agudas e crônicas, que requerem tratamento mais agressivo e especializado.
Hoje, infelizmente, a despeito de todo o progresso terapêutico, essas dores ainda não recebem a abordagem necessária e estão se transformando num problema de saúde pública no Brasil.
A dor é um sinal de alarme do organismo. Quando se manifesta agudamente, com certeza algo de errado está ocorrendo na pele, nos músculos, nas vísceras ou no sistema nervoso central e são liberadas substâncias que ativam os nervos periféricos e centrais para conduzirem o estímulo até a medula espinhal, onde a sensação dolorosa é modulada, e de lá para o cérebro a fim de avisá-lo que, em determinado ponto, existe um problema.
Como a dor pode ser inibida na medula espinhal pela ação dessas substâncias (serotonina e endorfinas), quando uma pessoa se machuca praticando esportes ou jogando bola, por exemplo, pode não sentir nada naquele momento. A dor vem mais tarde, “quando o sangue esfriou”, dizem os leigos. Na verdade, a razão é outra: existe um sistema supressor interno que às custas das endorfinas, que são opioides endógenos, isto é, produzidos pelo próprio organismo, encarregou-se de combater a sensação dolorosa provocada pela agressão. Portanto, os remédios à base de opioides indicados para o controle da dor simplesmente amplificam esse mecanismo natural do organismo.

13.830 – A Anestesia na Medicina


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A anestesia, como a conhecemos hoje, é uma aquisição recente na história da humanidade. Sabe-se que, na Antiguidade, eram realizados alguns tipos de cirurgia e prova disso são os instrumentos cirúrgicos egípcios em exposição nos museus. Portanto, as civilizações antigas deviam conhecer fórmulas para driblar a dor e operar as pessoas. Relatos provenientes da Grécia Antiga indicam que Hipócrates utilizava a esponja soporífera embebida em substâncias sedativas e analgésicas extraídas de plantas e que o médico Dioscórides descobriu os efeitos anestésicos da mandrágora, um tubérculo muito parecido com a batata. Já os chineses se valiam dos conhecimentos de acupuntura e os assírios comprimiam a carótida, para impedir que o sangue chegasse ao cérebro.

Gelo ou neve para congelar a região a ser operada, embriagar o paciente, hipnose foram outros recursos usados para aliviar a dor no passado. Quando de nada adiantavam, as cirurgias eram realizadas a frio, com os doentes imobilizados à força.
Esse panorama mudou, e mudou muito. Hoje, a anestesia é um procedimento médico de altíssima segurança que promove analgesia completa enquanto o paciente é operado.
Eles usavam drogas que, hoje, corresponderiam à morfina. Se bem que o conceito antigo de operação era diferente do atual. Ninguém fazia uma gastrectomia, isto é, uma cirurgia de estômago, por exemplo. Em geral, eram amputações e eles quase sempre encontravam uma forma de dopar o doente. Se não conseguiam, operavam a frio mesmo.
O surpreendente é que essa conduta não está tão distante no tempo assim. No fim da Primeira Guerra Mundial, depois que os alemães deixaram de ter disponíveis as drogas com que poderiam sedar os pacientes, as amputações eram feitas a frio.
Diante de tantas restrições, era importante a velocidade com que as cirurgias eram realizadas. Em poucos minutos, amputava-se uma perna ou cuidava-se de um ferimento grave.
É preciso cuidar das vias respiratórias dos pacientes sob anestesia geral. Quando a musculatura relaxa, há risco de obstrução das vias aéreas por perda do tônus da musculatura que suporta a língua. Para evitá-la, são introduzidas cânulas orais que mantêm a língua afastada da parede posterior da traqueia ou passa-se um tubo através da boca até a traqueia para permitir a circulação da mistura anestésica. Para fazer isso, é preciso que seja total o relaxamento não só da boca e da língua, mas também da glote e da laringe. Os relaxantes musculares foram medicamentos que ajudaram muito nesse sentido.

13.829 – História da Medicina – Quando Surgiram as DSTS?


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As DST acompanham a história da humanidade. Durante a evolução da espécie humana. as DST vêm acometendo pessoas de todas as classes, sexos e religiões. No tempo da Grécia antiga foram chamadas de doenças venéreas, como referência a Vênus, a Deusa do Amor.
A gonorréia, descrita em passagens da Bíblia; só teve o seu agente causador identificado em 1879.
A sífilis, que até o século XV era desconhecida, teve seus primeiros registros em figuras encontradas em tumbas do Egito no tempo dos faraós.
No início do século XX, o cientista Shaudinn descobre que a sífilis é causada por uma bactéria, chamada de Treponema pallidum. Em seguida, outro cientista, Wassermann, desenvolve um teste feito no sangue, o VDRL, que serve para detectar a infecção.
Com a descoberta da penicilina, na década de 40, as epidemias de algumas DST começam a recuar.
Nos anos 60/70, com a descoberta da pílula anticoncepcional e com a maior liberdade sexual entre os jovens, voltam a aumentar os números de casos de DST em todo mundo.
Nos anos 80/90 observou-se um aumento dramático dos casos de sífilis e gonorréia, muitos dos quais têm ocorrido na população adolescente e de adultos jovens.
As DST são atualmente um grande problema de saúde pública no Brasil, principalmente porque facilitam a transmissão do HIV, o vírus que causa a AIDS, tendo portanto uma parcela de responsabilidade pela atual dimensão da epidemia da AIDS.

Agentes causadores
As DST podem ser causadas por vírus, bactérias ou até protozoários. Na figura abaixo você pode ver a diferença de tamanho entre eles comparados com um espermatozóide.
Como evitar as Doenças Sexualmente Transmissíveis
A prevenção é muito mais barata que qualquer tratamento, além de preservar a integridade física, evita contratempos, portanto:

– Evitar o contato com as secreções do doente.
– Evitar parceiros que exalam mau cheiro do corpo ou genitais, isso é um dos sinais de descuido com a saúde e higiene.
– Evitar múltiplos parceiros.
– Desconfiar de qualquer secreção ou corrimento incomuns dos seus genitais e do parceiro.
– Abortar o ato sexual ao perceber erupções no corpo do parceiro, manchas, feridas ou cortes nos genitais. A abstenção de relações sexuais com pessoas infectadas é o único meio 100% seguro de evitar o contágio por transmissão sexual.
– Utilizar preservativos, lembrando-se que a camisinha ajuda a reduzir, mas não elimina totalmente o risco de contágio sexual.
– Tomar banho ou pelo menos lavar os genitais com água e sabão após cada ato sexual.
– Urinar imediatamente após o ato sexual.

As diversas DSTs:

– AIDS (SIDA)

– Cancro mole (Cavalo)

– Candidíase (Sapinho)

– Condiloma acuminado (Crista de galo)

– Gonorréia

– Herpes genital

– Linfogranuloma venéreo (Mula)

– Outras infecções… (Uretrite não gonocócica e Infecções vaginais)

– Sífilis

– Tricomoníase

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13.828 – A primeira epidemia de DST: a história da doença sexual que levou Europa a culpar a América no século 16


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Em 1509, o jovem soldado alemão Ulrich von Hutten contraiu uma doença desconhecida quando estava na Itália. Ele sofreu com os sintomas por dez anos.
O paciente descreveu assim sua condição: “(O tempo todo) havia furúnculos, parecidos em tamanho e aspecto com uma bolota. Tinham um cheiro tão fétido que quem o cheirasse achava que estava infectado. A cor era verde escuro. Vê-los chegava a ser pior que sentir a dor, mesmo que a sensação pareça a mesma de encostar no fogo.”
Pouco antes disso, na década de 1490, a população europeia havia acabado de se recuperar das mortes provocadas pela propagação, no século anterior, da peste bubônica, surto conhecido como Peste Negra. Uma em cada três pessoas havia morrido em consequência da doença em todo continente europeu.
Doença sexualmente transmissível pouco conhecida se alastra e alarma médicos por resistência a antibióticos
‘Pensei que fosse doença da Idade Média’: o novo avanço da sífilis no mundo e no Brasil
Com o aumento da população, chegou a prosperidade. Mas nem tudo foi positivo. Doenças desconhecidas começaram a aparecer, em meio à guerra endêmica e à fome frequente.
Contágio em velocidade alarmante gerou terror
Por volta de 1495, o rei francês Carlos VIII invadiu Nápoles reivindicando direito àquele reino. Mas as tropas se contaminaram com uma doença nova.
Ninguém jamais havia visto nada parecido. Os médicos da época não encontraram nenhuma referência nos livros. O nível de preocupação foi similar ao momento em que, séculos depois, o HIV foi descoberto.
A doença que fez o soldado alemão Ulrich von Hutten agonizar também era transmitida pelo contato sexual. Era a sífilis.
As pessoas estavam aterrorizadas porque a doença se espalhou com uma velocidade impressionante. Chegou à Escócia, à Hungria e à Rússia. Com exceção dos idosos e das crianças, todos corriam risco de se contaminar. Estava nos bordeis, mas também nos castelos.
Acredita-se que os reis Francisco I e Henrique III, da França, assim como o imperador Carlos V padeceram da mesma enfermidade.
Nem os monges escaparam da sífilis. A hierarquia não importava. Cardeais, bispos e até os papas Alexandre VI e Júlio II sofreram com a doença.
A velocidade com que se espalhou revela muito sobre os hábitos sexuais da sociedade naquela época.
O curioso papel da deusa Vênus nessa história
Os franceses diziam que a doença era italiana. Mas todo o resto da Europa se referia a ela como francesa. Inicialmente, não tinha nome técnico.
Ao final, um médico francês sugeriu que chamá-la de “doença venérea” por acreditar que a causa principal era o ato sexual que, por sua vez, estava ligado à deusa romana do amor, Vênus.
A epidemia causada pela sífilis era diferente das vistas anteriormente. Ela não se concentrava numa área específica nem estava relacionada a uma época do ano.

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Todos corriam risco de adoecer. E, uma vez que isso acontecia, parecia que a pessoa nunca iria se recuperar.
Se o tormento durante o dia era difícil, parecia ainda pior à noite. Os que padeciam da doença gritavam continuamente por causa da dor que sentiam nos ossos. Mas qual era a causa?
Sífilis foi considerada castigo divino por pecados
No início, pensou-se que era um castigo de Deus pelos pecados cometidos pela sociedade. Assim, o primeiro passo para lidar com a doença era se arrepender e rezar por proteção divina.
Mas havia outras hipóteses. Astrólogos da época afirmavam que tinha relação com dois eclipses do Sol e a confluência de Saturno e Marte.
“As chuvas que caíram em todos os países atingidos naquela época foram tão abundantes que a terra foi contaminada com água estagnada, e não foi surpresa que a doença tivesse se apresentado”, registrou um professor de Medicina da época.
O encontro das estrelas com a contaminação da terra, por sua vez, causou uma podridão venenosa do ar. A consequência foi a putrefação do corpo humano.
No começo, acreditava-se que o mercúrio era um remédio para a sífilis. Era comum usar o medicamento para tratar de problemas de pele nessa época. Esse foi o tratamento recomendado ao soldado alemão: respirar gás de mercúrio quente.
Mas a cura era pior que a doença. Os pacientes perdiam a lucidez. No entanto, o uso do mercúrio para combater a sífilis continuou por muitos anos, até 1517, quando surgiu um novo remédio. O guáiaco, um arbusto encontrado no Haiti, supostamente era usado pelos que vinham daquela ilha.
Pedaços de tronco eram fervidos em água, e o líquido, bebido duas vezes ao dia. O tratamento completo incluía passar 30 dias em uma sala extremamente quente para suar e expelir a doença.
Nessa mesma época, estabeleceu-se uma relação entre a sífilis e o castigo divino decorrente de pecados individuais. A pessoa se contaminava se tivesse mantido uma relação sexual ilícita.
Nesse contexto, as mulheres eram consideradas as responsáveis por transmitir a doença. Eram elas que faziam os pobres homens caírem em tentação, ao estilo do casal bíblico Adão e Eva.
O estigma também afetava as crianças cujos pais sofriam com sífilis, porque era uma considerada uma doença hereditária. Gerações inteiras foram tidas como malditas.
Depois, detectou-se que a transmissão se dava de pessoa para pessoa. Assim, imaginava-se que a sífilis teve origem num lugar específico e não em consequência do clima.
Nessa época, acreditava-se que ela chegou à Europa com os marinheiros que vinham da América com Cristóvão Colombo. Supostamente, eles atracaram em Barcelona, uniram-se às tropas em Nápoles e às prostitutas. O Exército se encarregou de espalhá-la.
Mas historiadores médicos americanos não gostaram dessa teoria. Eles apresentaram, então, evidências arqueológicas para provar que a sífilis era uma doença nativa da Europa.

Identificada a causa, surge uma cura
Ainda há dúvidas sobre de onde a sífilis surgiu inicialmente. Mas, na verdade, as décadas antes e depois de 1500 representam uma grande mudança na sociedade europeia.
A vida urbana, novas técnicas de guerra e mudanças nos comportamentos sexuais. O ambiente europeu estava em mutação constante, o que fez aumentar a incidência de doenças.
Por isso, o surgimento de novas epidemias parecia inevitável. A sífilis chegou e ficou, propagando-se, em especial, em tempos de guerra.
Com a medicina moderna, identificou-se, em 1905, a bactéria que causa a doença. E, cinco anos depois, descobriu-se o primeiro tratamento efetivo.
Mas foi somente em 1943, com a descoberta da penicilina, que se encontrou a cura para a doença.

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13.736 – História da Medicina


cesariana
Ao longo de muitos séculos, o trabalho de parto era o último grande mistério a marcar o processo de gestação de uma mulher. Desde o início da gravidez, tanto a futura mãe como sua família torcia para que o trabalho de parto pudesse se transcorrer da melhor forma possível. Caso contrário, o nascimento da criança poderia se transformar em uma dolorosa experiência capaz de oferecer diversos riscos tanto para a gestante como para a nova vida que estava por vir.
Durante muito tempo, a situação de parto foi resolvida de modo caseiro com a atuação das mulheres da casa auxiliadas por uma parteira mais experiente. Nos casos mais complicados, a falta de técnicas, aparelhos e medicamentos transformavam o nascimento em um terrível fator de risco para o bebê e para a mãe. Sendo assim, passaram-se muitas décadas até que os estudos médicos desenvolvessem alternativas seguras aos nascimentos de difícil execução.
No final do século XVI, Peter Chamberlen inventou o primeiro fórceps utilizado na retirada do recém-nascido. Nos primeiros procedimentos, a engenhoca era acoplada à cabeça da criança e puxada até que fosse integralmente retirada da mãe. Quando se realizava a remoção de um natimorto, alguns médicos utilizavam a craniotomia, um terrível procedimento médico em que se realizava a perfuração do crânio fetal até que a extração fosse possível.
No século XX, os partos passaram por uma nova revolução quando as técnicas da cesariana avançaram de modo significativo. A aplicação de anestesias, os novos procedimentos de esterilização e o emprego da incisão baixa possibilitaram que partos antes considerados fatais fossem executados com grande êxito. No entanto, em meio a tantas benesses, existem equívocos históricos e culturais quando nos reportamos a essa forma de nascimento.
O erro histórico consiste em acreditar que a cesariana foi criada graças ao famoso ditador romano Júlio César, que teria nascido desse modo. Na Roma Antiga, a incisão na barriga da mulher só acontecia quando esta já havia morrido ou quando nenhum dos dois resistia às complicações do parto normal. No caso de Júlio César, registros diversos apontam que sua mãe, Aurélia, ainda viveu depois de dar à luz ao seu ilustre filho. Sendo assim, era impossível que ela tivesse feito uma cesárea.
Do ponto de vista cultural, vemos que a popularização da cesariana nos últimos quarenta anos marginalizou outras formas de parto seguras e mais saudáveis. O medo de sentir dor ou não resistir ao trabalho de parto fez com que diversas mulheres e médicos transformassem esse processo natural em um simples procedimento técnico. Nos últimos anos, pesquisas indicam que a opção pelo parto normal reduz o risco de uma série de complicações e produz um impacto psicológico positivo na mãe e na criança.
Com isso, podemos ver que o processo de modernização dos procedimentos médicos não implica necessariamente no controle intenso dos processos fisiológicos naturais que envolvem tal situação. Não por acaso, vemos que diversos programas de saúde pública hoje incentivam a participação das tradicionais parteiras que, durante séculos, tiveram um papel fundamental para que várias vidas ganhassem o mundo. Enfim, a cesariana não pode ser mais vista como um avanço irrefutável da medicina.

13.687 – Mega Memória – Há 50 anos, acontecia o primeiro transplante de coração no Brasil


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Na madrugada de 26 de maio de 1968, Euryclides de Jesus Zerbini, cirurgião do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-USP), revolucionou a medicina ao liderar a equipe que realizou o primeiro transplante de coração no Brasil. Apesar de não ter sido o pioneiro – lugar que pertence ao sul-africano Christiaan Barnard, que realizou o procedimento cinco meses antes –, a cirurgia esteve entre as cinco primeiras do mundo.

O receptor do coração foi o lavrador mato-grossense João Ferreira da Cunha, de 23 anos, também conhecido como João Boiadeiro, que havia sido diagnosticado com doença do miocárdio e insuficiência cardíaca. Ele recebeu o novo coração às 6h40 do dia 26. O procedimento foi descrito com detalhes no livro A face Oculta dos Transplantes, de Euclydes Marques, um dos cirurgiões que participou desta ocasião histórica.
Pioneirismo brasileiro
O primeiro transplante cardíaco do Brasil tinha tudo para ser o primeiro do mundo, mas como as cirurgias realizadas em animais tinham excelente técnica, porém nenhuma taxa de sobrevivência, alguns dos professores mais renomados do Hospital das Clínicas de São Paulo preferiram não se arriscar, ainda que os jovens cirurgiões estivessem animados com a possibilidade.

Por causa disso, Christiaan Barnard, com 44 anos na época, passou à frente e realizou o primeiro transplante de coração do mundo em 3 dezembro de 1967, na Cidade do Cabo, na África do Sul. Os esforços pioneiros de Barnard não foram suficientes para aumentar o tempo de vida do paciente, que faleceu dezoito dias após a cirurgia em decorrência de uma infecção pulmonar.

Mesmo ficando atrás de cinco países, o Brasil foi o pioneiro na América Latina. A cirurgia foi um sucesso e demonstrou a capacidade da equipe de cirurgia torácica do Hospital das Clínicas, que havia anos vinha realizando transplante em cães, tentando encontrar as melhores técnicas para fazê-lo em humanos. Infelizmente, foi o pós-operatório que mostrou-se preocupante. Dezoito dias após o transplante, João Boiadeiro começou a apresentar sinais de rejeição ao órgão. Alguns dias depois ele veio a falecer.

A morte do primeiro transplantado não desanimou os médicos e, quatro meses depois, outro paciente – Hugo Orlandi, de 48 anos – passou pela cirurgia e resistiu 378 dias, quando seu corpo também começou a rejeitar o novo coração. No ano seguinte, em janeiro de 1969, Clarismundo Praça, 52, recebeu o terceiro coração transplantado do país. Ele não apresentou rejeição, mas faleceu 83 dias depois por causa de uma infecção generalizada provocada por uma ferida cirúrgica.

Mesmo com o óbito dos três primeiros pacientes, as conquistas alcançadas pela realização do transplante cardíaco no Brasil se mantêm até hoje, como a construção do tão sonhado Instituto do Coração (Incor), pelo qual Zerbini vinha lutando havia anos.

“O melhor momento é hoje”
Apesar das evoluções na medicina, poucas mudanças ocorreram no processo operatório. Nos primeiros anos, o avanço foi maior, especialmente em áreas que poderiam melhorar a taxa de sobrevida dos pacientes, como a descoberta e aprovação da ciclosporina, que motivou o aumento no número de várias modalidades de transplante. No entanto, nos últimos anos, a velocidade passou a diminuir, embora o período atual seja considerado por muitos médicos como o melhor para o transplante cardíaco, pois os pacientes estão vivendo mais e com melhor qualidade de vida.
O primeiro paciente de transplante cardíaco do Brasil sobreviveu apenas 28 dias após a cirurgia. Apesar da morte precoce, João Boiadeiro viveu dez dias a mais que o primeiro paciente a passar pelo procedimento, na África do Sul. Apesar de já existirem medicamentos imunossupressores, usados para controlar a rejeição nos receptores de transplantes, esse ainda era um dos principais problemas da época.

Por esse motivo, o número de transplantes realizados por ano foi diminuindo no mundo inteiro até a década de 80, quando foi aprovado o uso da ciclosporina em humanos. Esse medicamento, capaz de reduzir as reações que causam a rejeição de órgãos, é utilizado até hoje como tratamento inicial ou de segunda linha, quando as medicações imunossupressoras usadas anteriormente não funcionaram.

Tecnologia à serviço da medicina
Outro empecilho resolvido pelo avanço da medicina foi o tempo entre a retirada do órgão e a sua instalação no corpo do receptor. Na época dos primeiros transplantes, era preciso que doador e receptor estivessem o mais próximo possível um do outro para que a transferência fosse imediata, impedindo que o coração ficasse muito tempo no gelo e a hipotermia pudesse impedir que ele voltasse a bater depois de reimplantado no receptor. Hoje em dia, o coração pode ficar até quatro horas fora do corpo e, muitas vezes, passa parte desse tempo viajando de avião, por exemplo, para chegar ao destino final.

Além disso, uma equipe de pesquisadores da Universidade da Califórnia (UCLA, na sigla em inglês), nos Estados Unidos, desenvolveram o Organ Car System (OCS), equipamento capaz de manter o coração e outros órgãos pulsando enquanto ocorre o transporte, o que aumenta o tempo de viabilidade dele fora do corpo humano. No entanto, como seu uso encarece o procedimento cirúrgico, o equipamento é usado apenas como último recurso, mas há previsões de que no futuro ele possa ser utilizado com maior frequência. Por enquanto, muitos médicos ainda preferem optar pelo método convencional, que oferece resultados satisfatórios.

O progresso tecnológico também permitiu a criação de corações e ventrículos artificiais capazes de auxiliar o coração debilitado a bater por mais tempo, mantendo o indivíduo vivo até o momento do transplante, que pode acontecer rapidamente ou levar anos. Eles podem ser utilizados interna ou externamente, dependendo da necessidade do paciente, sendo uma alternativa para pessoas que não podem receber transplante.

Infelizmente, no Brasil, o uso destes mecanismos ainda é limitado por causa dos custos – o Instituto do Coração é um dos poucos hospitais no país que dispõe de alguns em versão para adultos e crianças. O pioneirismo no implante de dispositivo de assistência ventricular (DAV) na América Latina também pertence ao Brasil, tendo sido realizado em 1993, no Incor.
Ajudando a salvar vidas
De acordo com Fábio Jatene, mesmo que os avanços médicos tenham representado muito para o transplante, existem desafios que precisam ser superados para que o procedimento possa progredir ainda mais, principalmente no Brasil. A preocupação com os doadores, por exemplo, é um dos problemas que precisam ser solucionados. Como as emergências do país estão quase sempre superlotadas, existe certa dificuldade em cuidar dos pacientes, especialmente daqueles que não têm perspectiva de vida, como os que apresentam morte cerebral – justamente os possíveis doadores.

Outro desafio é a doação de órgãos. A legislação brasileira permite a doação mediante autorização de familiar; entretanto, mesmo que em vida o paciente tenha informado à família o interesse em se tornar doador, como não existe documentação que possa comprovar este desejo, se o responsável não quiser autorizar, é a vontade dele que prevalece. Apesar de crescer gradativamente, o número de doadores no Brasil ainda é limitado em comparação com países como Espanha e Estados Unidos, que trabalham na comunicação com famílias de doadores em potencial.

“A doação de órgãos ainda é um tabu na sociedade, ninguém vai querer usar o almoço de domingo para falar sobre a morte. Não é uma questão tratada com frequência. Antes de ter passado pelo meu problema, eu e meus familiares nunca conversamos a respeito disso, não era um assunto que existia nas nossas conversas”, confessou. No entanto, essa realidade não é mais a mesma. Desde o transplante, Renato e a família coordenam a campanha “Doe órgãos salve vidas“, que visa a promover palestras e eventos para conscientizar as pessoas da importância da doação de órgãos e como o gesto pode ajudar a salvar vidas.
Como acontece o transplante
A cirurgia de transplante de coração envolve duas técnicas principais: a clássica e a bicaval. O que diferencia uma da outra é a quantidade de tecido do órgão velho que permanece no corpo do paciente. Apesar disso, ambas as técnicas seguem basicamente os mesmos princípios cirúrgicos:

1ª etapa: O procedimento cirúrgico de retirada do coração do receptor começa apenas quando o novo órgão já está na sala de operação, pronto para ser transplantado. Depois que o peito do receptor é aberto, as veias são desligadas do coração e conectadas a uma cânula (tubo) de uma máquina de circulação extracorpórea (CEC). Esse equipamento será responsável por exercer a função do coração, bombeando o sangue durante a cirurgia para que o corpo continue funcionando.

3ª etapa: O novo coração é conectado ao átrio, cavidade que recebe o sangue. As cânulas são retiradas e as veias e artérias são reconectadas ao novo coração. O sangue que estava sendo bombeado pela máquina de CEC retorna para o corpo e o coração é estimulado para recuperar os batimentos. Antes de fechar o peito do paciente, drenos são colocados na cavidade pulmonar para evitar o acúmulo de líquidos.

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13.375 – Filosofia – Fique por Dentro com o ☻ Mega


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Hipócrates (460-377 aC) é até hoje conhecido como o pai da Medicina. É provavelmente o primeiro ocidental a escrever tratados exclusivamente sobre doenças, suas causas e possíveis tratamentos.
Viveu no mesmo período que surgiu a Filosofia clássica. Naquela época, a Filosofia possibilitou aos médicos reflexões no que diz respeito a busca racional das causas dos fenômenos. Ele defendia que uma doença não seria o resultado de interferência divina, que suas causas poderiam ser conhecidas, explicadas, e o mal ser tratado. Sua contribuição para a Medicina é reconhecida e todo médico, ao preparar-se para exercer sua profissão, deve fazer o “juramento de Hipócrates”, que pode ser visto na íntegra no site do Conselho Regional de Medicina.

12.922 – Hipócrates, o Pai da Medicina


hipocrates
Conhecido como o “Pai da Medicina Ocidental”, Hipócrates foi um ícone ateniense da rejeição a explicações supersticiosas e míticas para os problemas de saúde e como curar doenças. Enquanto muitos pensadores gregos concentravam seus esforços na natureza em geral ou na moral e política, Hipócrates concentraram-se em observar e compreender o funcionamento do organismo humano, na esperança de encontrar explicações racionais, e passíveis de controle e manipulação, para os males que atingem a saúde humana. Embora muito tenha se perdido ao longo dos séculos, alguns de seus escritos sobrevivem até os dias atuais, porém, como a maior parte de seu trabalho era iminentemente prática, temos ainda assim pouco acesso ao pensamento de Hipócrates.
Hipócrates não apenas foi bem sucedido em rejeitar a superstição, mas foi também capaz de desenvolver a medicina a ponto de separá-la da Teurgia, práticas religiosas ritualísticas com objetivo de conectar-se a divindade, no caso para recuperação da saúde. A partir de Hipócrates a medicina tornou-se uma disciplina independente, o que levou ao surgimento da profissão de médico.
Embora a medicina tenha se desenvolvido como uma disciplina independente, os discípulos de Pitágoras nos dão a saber que Hipócrates utilizou a filosofia como aliada da medicina, entendendo que a abordagem racional utilizada nesta disciplina seria o tipo de abordagem adequada para tratar os males da saúde, buscando na natureza as causas e a solução. Estabeleceu que, ao invés de uma punição dos deuses, as causas da maioria das doenças seriam fatores climáticos, alimentares e hábitos cotidianos.Conhecido como o “Pai da Medicina Ocidental”, Hipócrates foi um ícone ateniense da rejeição a explicações supersticiosas e míticas para os problemas de saúde e como curar doenças. Enquanto muitos pensadores gregos concentravam seus esforços na natureza em geral ou na moral e política, Hipócrates concentraram-se em observar e compreender o funcionamento do organismo humano, na esperança de encontrar explicações racionais, e passíveis de controle e manipulação, para os males que atingem a saúde humana. Embora muito tenha se perdido ao longo dos séculos, alguns de seus escritos sobrevivem até os dias atuais, porém, como a maior parte de seu trabalho era iminentemente prática, temos ainda assim pouco acesso ao pensamento de Hipócrates.
Hipócrates não apenas foi bem sucedido em rejeitar a superstição, mas foi também capaz de desenvolver a medicina a ponto de separá-la da Teurgia, práticas religiosas ritualísticas com objetivo de conectar-se a divindade, no caso para recuperação da saúde. A partir de Hipócrates a medicina tornou-se uma disciplina independente, o que levou ao surgimento da profissão de médico.
Embora a medicina tenha se desenvolvido como uma disciplina independente, os discípulos de Pitágoras nos dão a saber que Hipócrates utilizou a filosofia como aliada da medicina, entendendo que a abordagem racional utilizada nesta disciplina seria o tipo de abordagem adequada para tratar os males da saúde, buscando na natureza as causas e a solução. Estabeleceu que, ao invés de uma punição dos deuses, as causas da maioria das doenças seriam fatores climáticos, alimentares e hábitos cotidianos.
Os desenvolvimentos posteriores da medicina mostraram que Hipócrates estava correto, embora hoje se compreenda que ele trabalha com diversos elementos incorretos quanto a anatomia e fisiologia. Entre estes o Humorismo, a teoria de que o corpo possui quatro fluidos diferentes que quando desequilibrados levam a doenças.
Este tipo de erro devia-se especialmente ao fato de que na Grécia da época, a dissecação era um tabu, o que também dificultava o trabalho da escola de medicina da região de Cnido, baseada no diagnóstico. Tendo isto em mente, a escola Hipocrática de medicina, da região de Cós, focou seus trabalhos no prognóstico e cuidado com o paciente, atingindo assim maior eficácia em tratar as doenças, mesmo com uma visão incorreta de muitos aspectos do corpo humano e um diagnóstico generalista combinado a tratamentos passivos. Com a imaturidade da medicina da época, Hipócrates e seus sucessores acreditavam que o melhor que o terapeuta poderia fazer seria prever o desenvolvimento da doença, baseado em dados previamente coletados, e facilitar o processo de recuperação natural do corpo, pois acreditava-se que o corpo humana possuía a capacidade de reequilibrar os quatro fluidos por si mesmo, de modo que, na maioria dos casos, o papel do terapeuta seria manter o paciente o mais limpo e estéril possível, imobilizando conforme a necessidade e evitando o uso de drogas potentes, o que era reservado para casos críticos.
Especialmente devido aos tratamentos passivos, Hipócrates tem sido criticado nos últimos dois milênios, sendo que a medicina atual aproximasse muito mais da escola de Cnido do que da escola de Cós, visto que hoje possuímos o conhecimento fisiológico e anatômico que lhes faltava.
Um conceito importante para o método de Hipócrates era o de “crise”. Um ponto de progressão da doença ou da cura do paciente que determinava se ele se recuperaria ou morreria. Durante o processo de cura mais de uma crise era esperada, sempre sucedida por um período de recaída.
Hipócrates é também creditado como tendo criado o juramento de Hipócrates, utilizado hoje para a profissão de medicina, embora alguns autores afirmem que o juramento é posterior.

12.347 – A rã e a Tempestade


ra tempestade
O médico italiano Luigi Galvani (1737-1798) estudava a anatomia das rãs havia mais de dez anos quando, em 1786, uma tempestade mudou os rumos de sua pesquisa. Sem ligar para os raios lá fora, ele dissecava um anfíbio e, ao tocar com a tesoura numa das pernas do bicho, ele se mexeu. Galvani, que também era físico, nem pensou em fantasmas. Imediatamente concluiu que a eletricidade do ar passara por meio da tesoura para o corpo da rã, disparando o movimento.
Dias depois, no seu laboratório, esbarrou com um bisturi na perna de outra rã escalpelada enquanto mantinha ligada uma máquina que soltava faíscas elétricas. O animal deu um chute de verdade. Isso bastou para que o italiano resolvesse se dedicar pra valer à eletrofisiologia. Em 1791, ele publicaria o trabalho em que explicaria para a posteridade que a contração muscular, e consequentemente o movimento, só acontece se houver estímulos elétricos.