14.061 – Biologia e Paleontologia – Como Surgiram as Aves?


Archaeopteryx_lithographica_Fossil-363x450
Dentre as diversas teorias acerca da origem das aves, a mais aceita e difundida hoje é que esses animais evoluíram a partir de algumas espécies de dinossauros. Esta teoria foi fundamentada na descoberta de um fóssil de dinossauro em 1861 na Alemanha cuja presença de penas chamou atenção. O fóssil foi chamado de Archaeopteryx lithographica (asa antiga), sendo classificado como a ave mais primitiva e considerado como um fóssil de transição entre répteis e aves. As impressões das penas no substrato fóssil são bem claras e exibem uma diferenciação das penas em rêmiges primárias e secundária, disposição igual à das aves atuais, o que sugere que a Archaeopteryx teria capacidade de realizar voo batido. Mesmo assim a evolução das penas, do voo e das aves em si podem não estar relacionadas. Apesar do aparecimento das penas em dinossauros, o voo batido, por exemplo, evoluiu em três grupos diferentes de vertebrados: os pterossauros, as aves e os morcegos.
Antes mesmo do Archaeopteryx, alguns dinossauros apresentavam alguns tipos de plumagens primitivas que eram diferentes das penas das aves modernas ou daquelas apresentadas pelo Archaeopteryx. Tal descoberta levantou a hipótese de que as penas podem ter surgido primeiramente para outras funções além do voo. Alguns pesquisadores defendem a ideia de que as penas teriam surgido a partir de seleção sexual, como adornos selecionados pelas fêmeas. Apesar de ser uma teoria plausível, não seria suficiente para, isoladamente, ter forçado o surgimento de penas muito maiores, pois caracteres sexuais geralmente ocorrem somente nos machos ou de forma discreta nas fêmeas. Há ainda a possibilidade das penas terem conferido outras vantagens adaptativas, como um melhor controle da temperatura corpórea.

Quanto à evolução do voo em si, pode-se apontar duas principais teorias: teoria “chão-ar” e teoria “árvore-ar”. No primeiro caso, os animais teriam começado a voar a partir do solo através de corridas ou impulsos. Na segunda teoria o voo teria acontecido quando animais arborícolas realizavam pulos nas copas das árvores e usavam as penas para planar durante os saltos. Apesar da segunda teoria parecer mais palpável por ter menos resistência da força da gravidade, não há evidências de organismos intermediários entre o voo planado e o voo batido (em que há gasto energético), o que pode sugerir que o voo batido não teve sua origem no voo planado. Por outro lado, estudos demonstram que as asas do fóssil Archaeopteryx seriam capazes de gerar um impulso suficiente para fazê-lo voar, já que a força do impulso seria perpendicular à gravidade e não contra ela. O fato é que ambas as teorias deixam lacunas em aberto e abrem espaço para novos e modernos estudos que se propõem a esclarecer completamente a origem do voo e consequentemente das aves.

14.056 – A Antigravidade


detector alfa
Um dos fatos mais surpreendentes sobre a ciência é como são aplicáveis universalmente as leis da natureza. Cada partícula obedece as mesmas regras, experimenta as mesmas forças e vê as mesmas constantes fundamentais, não importando onde ou quando elas existam. Gravitacionalmente, todas as entidades do universo experimentam, dependendo de como você as vê, ou a mesma aceleração gravitacional ou a mesma curvatura do espaço-tempo, não importando as propriedades que possui.
Pelo menos, é como as coisas são na teoria. Para o astrofísico Ethan Siegel, fundador e escritor de Starts With A Bang, na prática, algumas coisas são notoriamente difíceis de medir. Fótons e partículas normais e estáveis caem como esperado em um campo gravitacional, com a Terra fazendo com que qualquer partícula massiva acelere em direção ao seu centro a 9,8 m / s 2 . Apesar de nossos melhores esforços, nunca medimos a aceleração gravitacional da antimatéria. Deveria acelerar exatamente da mesma maneira, mas até medirmos isso, não podemos saber.
Um experimento está tentando decidir o assunto, de uma vez por todas. Dependendo do que encontrar, pode ser a chave para uma revolução científica e tecnológica. Se quisermos saber como a antimatéria se comporta gravitacionalmente, não podemos simplesmente sair do que teoricamente esperamos ; temos que medir isso. Felizmente, há um experimento em execução agora que foi projetado para fazer exatamente isso: o experimento ALPHA no CERN .
A colaboração ALPHA foi a mais próxima de qualquer experimento a medir o comportamento da antimatéria neutra em um campo gravitacional. Com o próximo detector ALPHA-g, poderemos finalmente saber a resposta. Crédito: Maximiniel Brice/CERN)
Um dos grandes avanços que foram dados recentemente é a criação não apenas de partículas de antimatéria, mas estados neutros e estáveis do mesmo. Antiprótons e pósitrons (antielétrons) podem ser criados, desacelerados e forçados a interagir uns com os outros, onde formam um anti-hidrogênio neutro. Usando uma combinação de campos elétricos e magnéticos, podemos confinar esses antiátomos e mantê-los estáveis, longe do assunto que os faria aniquilar.
O novo detector ALPHA-g, construído na instalação Triunf do Canadá e enviado ao CERN no início deste ano, deve melhorar os limites da aceleração gravitacional da antimatéria até o limiar crítico. Do ponto de vista teórico e de aplicação, qualquer resultado que não os esperados +9,8 m/s2 seria absolutamente revolucionário. A contraparte da antimatéria de todas as partículas de matéria deve ter: a mesma massa, a mesma aceleração em um campo gravitacional, a carga elétrica oposta, a rotação oposta, as mesmas propriedades magnéticas, deve se unir da mesma forma em átomos, moléculas e estruturas maiores e deve ter o mesmo espectro de transições de positrons nessas variadas configurações.
Alguns destes foram medidos por um longo tempo: massa inercial da antimatéria, carga elétrica, spin e propriedades magnéticas são bem conhecidos. Suas propriedades de ligação e transição foram medidas por outros detectores no experimento ALPHA e se alinham com o que a física de partículas prevê. Mas se a aceleração gravitacional voltar negativa em vez de positiva, literalmente viraria o mundo de cabeça para baixo.
(O detector ALPHA-g, construído na instalação de aceleração de partículas do Canadá, TRIUMF, é o primeiro de seu tipo projetado para medir o efeito da gravidade na antimatéria. Quando orientado verticalmente, deve ser capaz de medir em qual direção a antimatéria cai e em qual magnitude. Crédito: Stu Shepherd/ Triumf)
Atualmente, não existe tal coisa como um condutor gravitacional. Em um condutor elétrico, cargas livres vivem na superfície e podem se mover, redistribuindo-se em resposta a quaisquer outras cargas ao redor. Se você tiver uma carga elétrica fora de um condutor elétrico, o interior do condutor será protegido dessa fonte elétrica.
Mas não há como se proteger da força gravitacional. Não há como montar um campo gravitacional uniforme em uma região do espaço, como você pode fazer entre as placas paralelas de um capacitor elétrico. O motivo? Porque ao contrário da força elétrica, que é gerada por cargas positivas e negativas, há apenas um tipo de “carga gravitacional”, e isso é massa e energia. A força gravitacional é sempre atraente e simplesmente não há maneira de contornar isso.
Mas se você tem massa gravitacional negativa, tudo isso muda. Se a antimatéria realmente se torna antigravitacional, caindo em vez de cair, então a gravidade a vê como se fosse feita de antimassa ou antienergia. Sob as leis da física que atualmente entendemos, quantidades como antimassa ou antienergia não existem. Podemos imaginá-los e falar sobre como eles se comportariam, mas esperamos que a antimatéria tenha massa normal e energia normal quando se trata de gravidade.
(A ferramenta Virtual IronBird para o Centrifuge Accommodation Module é uma maneira de criar gravidade artificial, mas requer muita energia e permite apenas um tipo específico de força de busca de centro. A verdadeira gravidade artificial exigiria que algo se comportasse com massa negativa. Crédito: NASA/AMES)
Se antimassa existe, no entanto, uma série de grandes avanços tecnológicos, imaginados por escritores de ficção científica por gerações, de repente se tornariam fisicamente possíveis. Podemos construir um condutor gravitacional e nos proteger da força gravitacional. Podemos montar um capacitor gravitacional no espaço, criando um campo de gravidade artificial uniforme. Poderíamos até mesmo criar um drive de dobra, já que teríamos a capacidade de deformar o espaço-tempo exatamente da maneira que uma solução matemática para a Relatividade Geral, descoberta por Miguel Alcubierre em 1994, exige.
É uma possibilidade incrível, que é considerada altamente improvável por praticamente todos os físicos teóricos. Mas não importa quão selvagens ou domesticadas sejam suas teorias, você deve confrontá-las com dados experimentais; somente medindo o Universo e colocando-o à prova, você pode determinar com precisão como as leis da natureza funcionam.

14.053 – História – Arqueologia Industrial


fabrica antiga
Para abastecer a cidade de São Paulo em época de estiagem, no início do século XX, foi instalada uma bomba d’água a vapor na Serra da Cantareira. O equipamento – fabricado em Lincoln, na Inglaterra, em 1898 – elevava as águas da represa do Engordador. Assim como o fornecimento de energia elétrica e de gás, esse abastecimento permitiu a instalação e a expansão da industrialização de São Paulo. A importância da máquina foi tão grande que ela está preservada e tombada pelos órgãos de preservação do patrimônio, como relíquia histórica dos primórdios do abastecimento da cidade.
Para fazer investigações como essa, foi aplicada a metodologia da Arqueologia Industrial, ciência que tem como objetivo promover a pesquisa da herança industrial da humanidade e ajudar a compreender o que se perdeu com a mecanização dos hábitos e a banalização dos bens.
Outro exemplo de estudo feito a partir deste ramo da Arqueologia foi o da Fábrica de Tecidos São Luiz, de Itu, no interior de São Paulo. Construída em 1869, ela representa um tempo em que o cultivo do algodão era valorizado na região. Tanto que o brasilianista Warren Dean (1932-1994), em 1976, propôs que ela fosse estudada, como um dos marcos da industrialização têxtil em São Paulo.

complexo fepasa

14.052 – Arqueologia – Cronologia das Descobertas


Piedra-de-Rosetta
No mar, na terra ou no espaço, há sempre uma equipe de pesquisadores procurando pistas sobre o nosso passado. Eles estudam a riqueza de nossa história em materiais de todos os tipos, como lixo, ossos e vestígios de construções. Conheça algumas das diversas modalidades da Arqueologia:
Bíblica
Seu objetivo inicial era comprovar os relatos da Bíblia por meio de restos materiais. Mas hoje ela estuda os vestígios relacionados à história das religiões judaico-cristãs. A principal região pesquisada é a chamada Terra Santa, no Oriente Médio.

Industrial
Realizados a partir das evidências encontradas em fábricas, manufaturas e meios artesanais, os estudos nessa área analisam as transformações sociais, culturais e econômicas ligadas à produção.

Pré-histórica ou proto-histórica
Envolve os aspectos materiais de populações que não deixaram textos escritos. No caso do Brasil, a pré-história engloba o período anterior à chegada de Cabral.

Histórica
Procura pistas nos objetos de sociedades que deixaram registros escritos. Recentemente, porém, a disciplina vem passando por questionamentos sobre o uso de datas fixas para delimitar o que é história ou pré-história.

Subaquática e náutica
Dedica-se a estudos nas águas: interiores (rios, lagos, represas), marítimas ou oceânicas. Os pesquisadores, que em geral dominam técnicas de mergulho, têm cuidados especiais para conservar os objetos submersos e trazê-los à superfície, quando isso é necessário.

Zooarqueologia
Analisa as interações entre os seres humanos e os animais, inclusive o processo de domesticação e o uso como força motriz ou como alimento. O estudo é feito a partir de ossos, dentes e outros vestígios da fauna.

Do lixo
Procura desvendar o comportamento de uma comunidade estudando seus restos. A investigação é centrada em lixos, lixões e aterros sanitários.

Espacial e de paisagem
Amplamente influenciadas pela geografia, buscam instrumentos para estudar as populações do passado através da paisagem e do meio ambiente. Muitas vezes usam tecnologia avançada, como imagens produzidas por satélites.

Etnoarqueologia
Com base em grupos contemporâneos, os etnoarqueólogos criam analogias para pensar sobre comportamentos e hábitos por meio de objetos feitos por sociedades que não conhecemos mais.

De gênero
Há duas formas de entender esta modalidade. A primeira, ligada aos estudos feministas, analisa os vestígios arqueológicos que possam contribuir com a história das mulheres. A segunda procura descobrir pistas da interação entre os diferentes grupos de gênero e de idade identificadas nas escavações.

Geoarqueologia
É a interação da geografia com a arqueologia. Através do recolhimento de sedimentos superficiais e da análise do solo, procura-se compreender como a paisagem, a terra e seus componentes se modificaram ao longo do tempo na interação com grupos humanos.

Pública
Pretende compartilhar o resultado das pesquisas obtidas nas escavações com diferentes comunidades como os quilombolas, os índios, os trabalhadores de uma fábrica, etc. Dessa interação, surge um conhecimento transformado e trabalhado em conjunto com a população.

Da arquitetura
Procurar retirar vestígios em edifícios históricos através de procedimentos de análise pouco destrutivos para identificar materiais, técnicas e procedimentos construtivos e artísticos utilizados no passado. É bastante utilizada em projetos de restauração de prédios tombados e preservados.

Incríveis descobertas

Século XVIII – 1772
Pompeia – ITÁLIA
Encoberta pelas lavas do Vesúvio no ano 79 d.C., a cidade permaneceu intacta até o século XVIII, quando foi descoberta por um agricultor que localizou vestígios de um muro.

Moais – Ilha de Páscoa – CHILE
Estátuas esculpidas em pedra de dois a 20 metros de altura, santuários e vários escritos que exaltavam ancestrais sagrados foram descobertos na costa da ilha pelo holandês Jacob Roggeveen em 5 de abril, um domingo de Páscoa.

1773
Palenque – MÉXICO
Durante uma expedição, soldados e missionários espanhóis reencontraram a cidade maia de Palenque. Até hoje, o santuário, rodeado de vegetação, é cenário de inúmeros achados. Entre as construções destaca-se o Templo das Inscrições, uma pirâmide na qual foram encontrados, em 1952, cerca de 619 hieróglifos.

1799
Pedra de Roseta – EGITO
Encontrada por soldados de Napoleão, a estela era um decreto que regulava o culto ao faraó Ptolomeu V (332 a.C.). Foi escrita em três idiomas: grego, demótico e hieróglifos. Esta descoberta foi fundamental para a decifração dos hieróglifos.

1843
O Povo de Lagoa Santa – MINAS GERAIS – BRASIL
O arqueólogo dinamarquês Peter Lund descobriu em uma gruta, na lagoa do Sumidouro, fósseis de animais extintos e restos de 30 humanos de várias idades, comprovando a coexistência desses humanos com animais da Idade do Gelo.

1868
Jericó – TERRITÓRIO PALESTINO
Considerada a cidade mais antiga do mundo, Jericó, que hoje se localiza em um dos territórios palestinos, comemorou no ano passado seus 10 mil anos. Nos relatos bíblicos, é chamada de cidade das palmeiras. As primeiras escavações são de 1868, feitas pelo inglês Charles Warren (1840-1927).

1873
Cidade de Troia – COSTA DA TURQUIA
Depois de anos de escavações na colina de Hissarlik, os arqueólogos Heinrich Schliemann e Wilhelm Dörpfeld encontraram sete camadas da cidade de Troia. Uma delas era a conhecida cidade de Ilion, palco da grande guerra descrita por Homero.

1895
Megalitos – AMAPÁ – BRASIL
O zoólogo suíço Emílio Goeldi (1859-1917) e o tenente-coronel Aureliano Pinto de Lima Guedes (1848-1912) organizaram uma expedição ao Amapá, onde encontraram o fascinante sítio arqueológico com megalitos e peças variadas de cerâmica.
Século 20
1911
Machu Picchu – PERU
O mês de julho deste ano marcou o centenário da descoberta da cidade sagrada inca de Machu Picchu pelo arqueólogo americano Hiram Bingham. O santuário histórico, localizado no topo de uma montanha, mais de dois mil metros acima do nível do mar, faz parte do Patrimônio Mundial da Unesco desde 1983.

1912
Busto de Nefertiti – EGITO/ALEMANHA
Apesar de ser uma obra inacabada de apenas 50 cm de altura, o famoso busto é razão de brigas constantes entre a Alemanha, onde está hoje, e o Egito, onde foi encontrado. A descoberta, em 1912, foi feita por uma equipe arqueológica da Sociedade Oriental Alemã. Alvo de controvérsias sobre sua autenticidade, ele representaria a esposa do faraó Amenófis IV (mais conhecido como Akhenaton), pai de Tutankamon.

1922
Tumba de Tutankâmon– EGITO
O arqueólogo e egiptólogo britânico Howard Carter descobriu a luxuosa tumba, ainda intacta, do jovem faraó que governou o Egito há mais de 3.000 anos e que morreu misteriosamente.

1947
Escritos do Mar Morto – ISRAEL
Nas cavernas do deserto da Judeia, na região do Mar Morto, foram encontrados mais de 900 manuscritos. Feitos em papiros e em pergaminhos, os documentos continham textos bíblicos e apócrifos. Calcula-se que foram escritos entre III a.C. e II d.C.

1958
Catal Huyuk – TURQUIA
Um dos primeiros centros urbanos do mundo, de mais de 9 mil anos atrás, é considerado o principal sítio arqueológico da Turquia. Foi descoberto no fim dos anos 1950 e começou a ser escavado por James Mellaart na década seguinte. Desde 1993, um grupo internacional de arqueólogos, liderado por Ian Hodder, faz escavações e conta as novidades no site oficial do projeto: http://www.catalhoyuk.com

Anos 1960
Gobekli Tepe – TURQUIA
Considerado o local de culto religioso mais antigo do mundo, o sítio arqueológico de Gobekli Tepe (que, em turco, significa morro com barriga) é do início do período neolítico. Ele foi descoberto nos anos 1960, mas só foi estudado profundamente na década de 1990, por conta de uma parceria entre arqueólogos turcos e alemães.

1970
Sweet Track – INGLATERRA
Um importante exemplo de engenharia do período neolítico é a Sweet Track, uma das mais antigas estradas conhecidas, que foi construída por volta de 3800 a.C. Os principais componentes da estrada são cinzas, cal e tábuas de carvalho. A maior parte dela continua em seu local de origem, embora algumas partes estejam expostas em espaços como o British Museum.

1973
Serra da Capivara – PIAUÍ – BRASIL
O Parque Nacional da Capivara, criado em 1979, concentra o maior número de pinturas rupestres do mundo. A região tem mais de mil sítios arqueológicos. A primeira missão de investigação, em 1973, teve a participação da arqueóloga Niède Guidon, que até hoje trabalha no local.
1974
Guerreiros de Xi’an – CHINA
Foi por acaso que agricultores encontraram um exército inteiro de 8.000 soldados feitos de terracota. Os Guerreiros de Xi’an estavam em funerárias construídas no governo do primeiro imperador da China, Qin Shi Huang (246-221 a.C.).

1977/2010
El Zotz – GUATEMALA
Na região florestal de Péten, El Zotz é a maior metrópole maia descoberta até o momento. Foi encontrada em 1977 por Marco Antonio Bailey. No ano passado, uma equipe de arqueólogos descobriu uma câmara mortuária sob a pirâmide El Diablo, a maior do templo.

1986
Yonaguni – JAPÃO
Mergulhadores encontraram uma imensa estrutura em forma de pirâmide. A descoberta data de aproximadamente 8000 a.C., e ainda não se sabe se ela é uma obra-prima da engenharia da época ou um acaso da natureza.

1987
A catacumba de Minas Gerais – BRASIL
Uma ossada infantil envolvida em tecido foi encontrada na Gruta do Gentio, na cidade de Unaí. Devido às condições climáticas, conservou-se embalsamada, e na época foi apontada como a mais antiga múmia brasileira, com cerca de 3.500 anos.

1995
Baía de Saint-Malo – FRANÇA
A cidade francesa de Saint-Malo, às margens do Canal da Macha, é uma das mais ricas em história náutica e arqueologia subaquática. Em 1995, dois grandes navios corsários foram descobertos. Anos de escavações sob o mar revelaram as embarcações La Dauphine e L’Amaible Grenot, ambas naufragadas no século XVIII.
1998
Luzia – MINAS GERAIS – BRASIL
O biólogo e antropólogo brasileiro Walter Neves analisou um crânio encontrado na região e concluiu que é o mais antigo do continente americano, com mais de 11.500 anos. O material integra a coleção única de 75 crânios depositados no Museu de Copenhague, na Dinamarca, coletados por Peter Lund em Lagoa Santa no século XIX.

Século 21
2004
Mazagão Velho – AMAPÁ – BRASIL
O último baluarte lusitano no Marrocos havia sido invadido pelos mouros em 1769. Sem saída, o rei português D. José I ordena a transferência da cidade inteira, que tem como destino final a província do Grão Pará. Só em 2004 pesquisadores da UFPE iniciaram o trabalho de escavação dos resquícios da cidade transferida há mais de 200 anos.

2008
Pinturas a óleo – AFEGANISTÃO
As pinturas a óleo mais antigas do mundo estão em cavernas afegãs. A equipe formada por arqueólogos japoneses, americanos e suíços que as encontrou afirma que datam do século VII d.C, ou seja, centenas de anos antes do início da pintura a óleo na Europa. Elas mostram cenas de seres míticos e figuras de Buda trajando vestes vermelhas.

2010
Pinturas rupestres – SOMÁLIA
Guerras e secas fizeram da Somália um país quase sem investigação arqueológica. No entanto, no ano passado, pinturas de animais, que devem ter sido feitas há mais de 4.000 anos, foram descobertas pela University College London.

2011
As novas pirâmides – EGITO
Este ano, imagens em infravermelho captadas por satélites detectaram a existência de 17 pirâmides enterradas no Egito. A equipe de arqueólogos liderada por Sarah Parcak já encontrou duas delas por meio de escavações.

2011
Embarcação do Faraó – EGITO
No mês de julho, arqueólogos egípcios e japoneses começaram a desenterrar um barco encontrado aos pés da pirâmide de Gizé, no Egito. Com idade aproximada de 4,5 mil anos, ele serviria para transportar a alma do faraó Quéops em viagens para acompanhar o deus-Sol Amon-Rá. Após um longo trabalho de remontagem, ele se juntará a outra embarcação, encontrada em 1917, como uma das maiores descobertas arqueológicas do Egito.

2011
Submarino alemão – SANTA CATARINA – BRASIL
Foram encontrados em julho os restos do primeiro dentre 11 submarinos alemães afundados em nossa costa durante a 2ª guerra mundial. O U513, que chegou a afundar um navio mercante brasileiro, foi localizado por uma equipe de pesquisadores e arqueólogos subquáticos da Univali e do Instituto Kat Schurmann. Os trabalhos de busca foram filmados e farão parte de um documentário.

2011
Jesuítas – PARANÁ – BRASIL
Depois de anos de busca, historiadores anunciaram a descoberta do sítio arqueológico da Missão Jesuítica San Joseph, fundada em 1625 na cidade de Cambé, no Paraná. O anúncio foi feito pela arqueóloga Cláudia Inês Parellada, do Museu Paranaense, e é de grande importância para o estudo das reduções jesuíticas no Brasil. A Missão San Joseph foi provavelmente destruída pelos bandeirantes em 1631.

2011
Erotismo na pré-história – ALEMANHA
Arqueólogos encontraram, pela primeira vez, imagens de mulheres nuas em cavernas da Idade da Pedra na Alemanha. Para os pesquisadores envolvidos, as gravuras foram utilizadas em rituais de fertilidade há mais de 12 mil anos.

2011
Santo Filipe – TURQUIA
Depois de anos de procura, arqueólogos acreditam ter achado a tumba – ainda não aberta – de São Filipe, um dos doze apóstolos de Jesus, em Pamukkale, no sudoeste da Turquia. Encontrada embaixo de escombros de uma Igreja, a descoberta, de acordo com os especialistas, é de grande importância para o mundo cristão e a arqueologia.

2011
Gatos olmecas – MÉXICO
Uma pedra da cultura olmeca com relevo de três gatos foi descoberta por pesquisadores do Instituto Nacional de Antropologia e História do México. O artefato possui mais de uma tonelada e data de, aproximadamente, 2,8 mil anos.

2011
Afro-descendentes – ESTADOS UNIDOS
Nan Rothschild, arqueóloga da Universidade de Columbia (EUA), encontrou vestígios de uma comunidade de afro-americanos construída no século XIX no coração de Nova Iorque. Há indícios de que o local foi desapropriado para dar lugar ao Central Park, o maior parque de Manhatan.

14.045 – Arqueologia – Brasileiros descobrem artefatos humanos mais antigos fora da África


hominideos-africa-4

Uma expedição realizada no norte da Jordânia entre 2013 e 2015 por uma equipe de arqueólogos ítalo-brasileira encontrou artefatos de pedra lascada de 2,4 milhões de anos – provavelmente produzidos por hominídeos pertencentes ao gênero Homo.
Isso significa que os primeiros ancestrais humanos a saírem da África rumo ao Oriente Médio começaram essa jornada no mínimo 500 mil anos antes da data tida como consenso pela comunidade científica até então.
A descoberta foi anunciada em uma coletiva de imprensa no Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA). O artigo científico que detalha as conclusões do grupo foi publicado na revista Quaternary Science Reviews.
Também participaram da pesquisa o paleoantropólogo Walter Neves, da USP, Giancarlo Scardia, da Unesp de Rio Claro, e Fabio Parenti, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) – que explora o vale do rio Zarqa, próximo a Amã, capital da Jordânia, desde a década de 1990.
Para entender por que esses artefatos – os mais antigos já encontrados fora da África – podem virar de ponta cabeça a história da humanidade, primeiro é preciso entender essa história da maneira como ela é contada hoje.
Na biologia, toda espécie é batizada com um nome científico duplo. Quando duas espécies são muito próximas, elas pertencem ao mesmo gênero, e, assim, têm o primeiro nome igual. É o caso do lobo (Canis lupus) e do coiote (Canis latrans).
Hoje, não há nenhum animal aparentado o suficiente com o ser humano para carregar o nome Homo – mas 2 milhões de anos atrás, a situação era bem mais confusa.
O pioneiro de nossa linhagem foi o Homo habilis – que viveu na África entre 2,4 a 1,4 milhões de anos atrás. Ele ainda tinha uma aparência próxima a de um símio, um cérebro 30% maior que o de um chimpanzé e no máximo 1,4 metro de altura. Ele foi o primeiro a fabricar ferramentas. Até onde se sabe, a partir dele se ramificaram espécies como o Homo naledi (que não interessa para nós) e o Homo erectus (que interessa bastante para nós).
O erectus, que surgiu há 1,9 milhões de anos e compartilhou a Terra com o sapiens até bem recentemente, foi o primeiro a sair da África e explorar os demais continentes. Ele já era um bípede de pernas desenvolvidas, e tinha um cérebro com dois terços do volume do de um humano moderno.
Os erectus que se estabeleceram na Ásia e na Europa dariam origem aos homens de Neandertal e de Denisova. Uma parcela dos erectus que ficaram na África, por sua vez, deu origem a nós. No intervalo entre erectus e sapiens é provável que tenha existido uma terceira espécie, o heidelbergensis. Mas não vamos complicar a árvore genealógica sem necessidade.
A moral da história é: houve duas ondas migratórias para fora da África. É por isso que, quando o ser humano moderno (Homo sapiens) deixou seu berço, há meros 70 mil anos, ele encontrou a Ásia já habitada por Neandertais e Denisovanos. Esses humanos diferentões descendiam de erectus que haviam saído do continente muito antes, há 1,9 milhão de anos.

14.036 – Serra da Capivara – O Paraíso (quase) Escondido


si_400_capivara_site6
Falar do continente americano é falar de forasteiros: o Novo Mundo foi o penúltimo continente desbravado pelo Homo sapiens. Só a Antártida passou mais tempo sossegada. Mas como era a América antes dos humanos? E quando foi que estes primeiros imigrantes começaram a aparecer por aqui? Junto às respostas consensuais para essas perguntas, há uma série de controvérsias científicas que, curiosamente, convergem para um lugar inesperado: o interior do Piauí.
Nos paredões do semiárido brasileiro, homens pré-históricos registravam narrativas para a posteridade. É num pedaço da caatinga do tamanho da cidade de São Paulo que fica a maior concentração de pinturas rupestres do planeta. Há exatos 40 anos, em 1979, essa região foi transformada no Parque Nacional Serra da Capivara – sendo reconhecida, em 1991, como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO.
A região sudeste do Piauí, onde fica a Serra da Capivara, ocupa uma zona de fronteira entre duas grandes formações geológicas: ao sul, um escudo cristalino do Período Pré-Cambriano, e a bacia sedimentar do mar Siluriano-Permiano, ao norte. Entre 440 e 360 milhões de anos atrás, esse mar cobria a região. Os paredões rochosos da Serra, com mais de 100 metros de altura, foram criados embaixo d’água.
Essa época deixou uma série de vestígios: na região da Serra, já foram encontradas dezenas de fósseis marinhos – mais especificamente, de trilobitas (artrópodes extintos de até 70 centímetros que andavam no fundo do oceano). Há 220 milhões de anos atrás, porém, mudanças geológicas profundas transformaram a paisagem, acabando com a farra dos animais aquáticos: um grande movimento tectônico levantou o fundo do mar no Piauí – e jogou toda a água para o Ceará. Os sedimentos desta tremedeira se tornaram parte dos paredões da Serra – e essa história toda ficou documentada nas camadas dos grandes cânions da Serra da Capivara.
Paredões que, centenas de milhões de anos depois, continuaram a testemunhar fatos pitorescos. Um deles aconteceu outro dia (geologicamente falando). Foi há 115 mil anos, quando começou a última Era do Gelo. O Piauí se tornou uma espécie de oásis – a região, próxima da linha do Equador, nunca congelou. Os planaltos da Serra viram nascer uma floresta tropical úmida, e nas planícies predominavam os campos e o cerrado. Vestígios paleontológicos mostram que o clima ameno atraiu uma fauna exuberante: tigres-dente-de-sabre, preguiças gigantes, mastodontes (parentes do mamute), paleolhamas (uma mistura de cavalo, tamanduá e, é claro, lhama).
Com o fim da Era do Gelo, há 12 mil anos, veio outra transformação climática: a umidade caiu e as temperaturas aumentaram severamente. Ao longo dos 3 mil anos seguintes, os animais da megafauna anterior foram extintos, e a vegetação mudou para se adaptar às novas condições: nascia a caatinga.
Nessa época, já havia humanos por lá. A abundância de sítios arqueológicos na Serra é prova disso. São mais de mil, cheios de instrumentos de pedra lascada, esqueletos humanos e, claro, pinturas rupestres.
Por falar em pinturas, a quantidade de desenhos isolados, chamados de “figuras”, é única no mundo: enquanto sítios europeus possuem de 10 a 12 figuras, apenas na Toca do Boqueirão da Pedra Furada, um dos pontos mais famosos da Serra, há 1.200 pinturas.
A maioria das pinturas rupestres da Serra da Capivara foram feitas entre 6 mil e 12 mil anos atrás. Só como base de comparação, as mais antigas do mundo têm mais de 30 mil.
A riqueza das imagens da Serra, porém, está nas cenas que elas mostram. Na Europa, por exemplo, o mais comum é encontrar animais e cenas de caça – episódios obviamente importantes para qualquer comunidade humana, e que também estão presentes na Serra.
Há quem defenda, porém, que a Serra estava ocupada por humanos bem antes de Zuzu, ou mesmo de Luzia. Estamos falando de Niède Guidon. A arqueóloga franco-brasileira de 86 anos foi a primeira a desconfiar do potencial científico escondido no meio do Piauí. Guidon fez da Serra o trabalho de sua vida. Sua obstinação foi o que levou a Capivara a atrair interesse arqueológico de cunho internacional. Mas a mesma insistência da pesquisadora em teorias controversas trouxe a Serra para o centro de disputas científicas que já duram décadas.
Em 1978, Niède Guidon começou a escavar o sítio Toca do Boqueirão da Pedra Furada, aquele que guarda 1.200 figuras rupestres. Lá, ela encontrou dois dos artefatos mais controversos de sua carreira: pedras que aparentavam ter sido lascadas por Homo sapiens e pedaços de carvão que pareciam vir de fogueiras feitas por humanos.
Ao final da escavação, Niède mandou o carvão para a França, para ser datado em laboratórios de lá. Para a surpresa da própria pesquisadora, os testes de carbono-14 indicavam que a amostra tinha 26 mil anos de idade. Nos anos seguintes, Guidon encontrou objetos progressivamente mais antigos, até que, em 1986, atingiu a data de 32 mil anos. Foi nesse ano que os vestígios da Serra da Capivara ficaram conhecidos mundialmente:” Niède publicou suas descobertas na prestigiosa revista científica Nature, em um artigo em que defende o carvão e as pedras como indícios da presença de seres humanos na América do Sul há 32 milênios.

Esse é um dado que distorce toda a história das ocupações na América: o consenso na comunidade arqueológica é o de que o homem chegou ao Novo Mundo há cerca de 15 mil anos – não muito mais, não muito menos.

si_400_capivara_linhatempo1-1

É preciso voltar no tempo para entender a polêmica: o Homo sapiens surgiu na África entre 200 mil e 300 mil anos atrás. De lá, espalhou-se por Europa e Ásia. Há 60 mil anos, nossa espécie atingia a Austrália. Depois, as Américas (de acordo com as teorias mais aceitas, via Estreito de Bering, que era terra seca na Era do Gelo).

E é aqui que a arqueologia chega aos homens de Clóvis – por muito tempo considerados o povo mais antigo da América. Nos anos 1920, nas cidades americanas de Folsom e Clóvis, no Novo México, foram encontradas pontas de lanças ao lado de fósseis de animais de grande porte. Eram armas humanas de 13 mil a 13.500 anos de idade, que comprovavam, pela primeira vez, a presença de homens na América em plena Era Glacial. Daí surgiu a teoria “Clovis First”, segundo a qual todo e qualquer outro grupo humano que habitou o continente teria vindo, necessariamente, depois deles.

Nas últimas décadas, porém, a primazia de Clóvis tem sido fortemente contestada entre os cientistas. Hoje, há centenas de sítios mais antigos ao longo do continente: na Venezuela, no Peru, no Brasil, na Argentina e nos próprios EUA. O sítio Monte Verde, no Chile possui datações de 14,6 mil anos. Mesmo assim, muitos arqueólogos americanos (chamados pejorativamente de “polícia de Clóvis”) ainda duvidam dessas descobertas. Defendem que os achados são só pedras comuns, não ferramentas humanas.

Perceba, porém, que mesmo os artefatos pré-clovis mais aceitos, datando de 15 mil anos, vieram apenas 2 mil anos antes da cultura Clóvis. É uma variação bem menos radical do que sugerem as datações de 20 a 30 mil anos dos achados da Serra – e, justamente por isso, elas são tratadas com amplo cetismo. A maior parte dos especialistas considera que as amostras de carvão de Niède foram criadas por incêndios naturais. Por raios de tempestade, não por pessoas. Números ainda mais antigos do que isso, então, são tidos como absurdos.
Niède, porém, foi encontrando pedras lascadas cada vez mais arcaicas na Serra, e segue certa de que entre elas há ferramentas humanas. Segundo ela, não poderia vir de fogo natural. Uma queimada produziria restos de carvão pra todo lado – os de Niède estavam concentrados num lugar só, protegidos sob paredões da Pedra Furada. Já sua defesa das pedras baseia-se no formado delas: as lascas estão presentes apenas de um lado da pedra, como se tivessem sido moldadas de forma contínua, em uma direção só, e não da maneira aleatória que uma pedra quebra após uma queda, por exemplo.
O mais antigo desses supostos instrumentos tem 100 mil anos de idade. Ele foi a peça final na teoria excêntrica que Niède defende até hoje: há 100 mil anos não apenas existiriam comunidades humanas no Piauí, como elas seriam formadas por homens vindos para a América diretamente do berço da humanidade: da África, e não pelo estreito de Bering.

si_400_capivara_linhatempo2-1
Alegações extraordinárias requerem provas extraordinárias, já diria Carl Sagan. A comunidade científica recebeu as teorias de Niède com tremenda cautela – para não dizer hostilidade. No Brasil, um de seus críticos mais ferrenhos foi o bioarqueólogo Walter Neves, conhecido como “pai” de Luzia. “Eu não acreditava em uma vírgula nas descobertas dela na Pedra Furada, e confesso que achava que era uma questão de incompetência. Mas, quando ela me convidou para visitar a Serra [em 2005] e eu vi os artefatos, foi um choque”, nos disse Walter sobre as pedras lascadas. “Saí da visita 99% convencido de que ali tinha mãos humanas de 30 mil anos atrás, a cronologia de Niède na época. Mas 1% de dúvida ainda é algo extremamente significativo.”

Se Walter é cauteloso quanto aos 30 mil anos, é abertamente cético com relação a qualquer objeto de 100 mil anos: “Isso é Guerra nas Estrelas, ficção científica, nem se discute”. A migração direta pela África também é amplamente descartada. Segundo o arqueólogo André Strauss, professor da USP que trabalhou na Serra da Capivara, mesmo que haja provas de uma migração mais antiga na Serra, esses homens precisariam ter vindo pelo Estreito de Bering mesmo. Para ele, essa suposição é pura extrapolação de Niède.

Apesar de seguir irredutível quanto às suas teorias, Guidon cercou-se de figuras conceituadas para dar continuidade ao seu trabalho na Serra. Quando se aposentou, convidou o arqueológo francês Eric Boeda para dar liderar as pesquisas por lá. Ele goza de respeito e admiração da comunidade arqueológica internacional: dirigiu escavações importantes na Europa, África e Ásia, e é um dos maiores especialistas do mundo em indústria lítica – ou, em bom português, no estudo de ferramentas antigas feitas de pedra.

Em seus 20 anos no Piauí, Boeda, de fato, fez datações mais conservadoras do que Niède – mas elas ainda vão bastante além do que a teoria oficial de ocupação humana no continente é capaz de explicar. Boeda defende que pedras de 22 mil anos sejam instrumentos humanos. Seus números mais extremos chegam à casa dos 40 mil. “Acredito que ele está com uma estratégia inteligente, passando por números mais palpáveis primeiro”, diz André Strauss. “Eric, além de ter prestígio internacional, está aberto ao diálogo, algo difícil com a Niède. Antes de tudo, ele está tentando recuperar a credibilidade dos achados humanos da Serra”, disse Strauss.
A fundadora teimosa
Entre pinturas, pedras lascadas e farpas, uma coisa ninguém contesta: Niède Guidon é uma exímia administradora. Ela vive permanentemente na Serra da Capivara desde 1998, ao lado de uma das instalações que ajudou a fundar, o Museu do Homem Americano. A arqueóloga recebeu a SUPER em sua casa para uma conversa. Com a saúde instável – além da idade avançada, ela já teve dengue, Zika e Chikungunya – Niède segue irredutível e linha-dura tanto em suas descobertas, quanto com sua proteção quase maternal à Serra da Capivara.
O relacionamento entre Guidon e o Piauí já ultrapassa as Bodas de Ouro. Tudo começou em 1963, quando a Serra da Capivara era uma completa desconhecida da arqueologia. Niède trabalhava bem longe, na curadoria do Museu do Ipiranga, em São Paulo, onde foi organizada uma exposição sobre figuras rupestre no Brasil – as únicas conhecidas até então, feitas em Minas Gerais. “Foi quando um senhor, que veio visitar a exposição, me mostrou fotos de outras pinturas, dizendo que também havia esses ‘desenhos de índios’ perto da cidade dele”, conta Niède.
Foi só em 1970 que Niède teve a chance de encontrar pessoalmente os tais “desenhos de índio”. Oito anos de estudo depois, ela criou uma comissão permanente de pesquisa, fruto de uma parceria entre a França e o Brasil. Reuniu biólogos, zoólogos, botânicos e paleontólogos para promover uma ampla investigação em toda a Serra da Capivara. “Não se conhecia nada daqui. Não tinha estrada, nada. Os moradores locais foram nossos primeiros guias, exploramos tudo a pé”.
Fauna, flora e riqueza arqueológica nunca antes documentadas pela ciência foram reunidos em um relatório, que Niède e sua equipe enviaram a Brasília. O pedido de “preservação absoluta” do local culminou, em 5 de junho 1979, no decreto Nº 83.548, que criava oficialmente Parque Nacional Serra da Capivara.
Estabelecer uma área totalmente dedicada a preservação e pesquisa, porém, foi um trabalho árduo. “O governo criou o parque, mas não colocou um funcionário sequer”, conta Niède. Tirar o Parque do papel significava não só torná-lo um instituto de ciências fechado, mas também um bem público, que atraísse turistas e movimentasse a economia da região. Conseguir tudo isso custa dinheiro. E não é pouco.
Quem pintou os paredões há milhares de anos, afinal, não estava pensando na facilidade de exibir sua arte a visitantes externos. O parque precisava ser alcançável, primeiro por estradas, mas também por passagem e pontes internas. Seus 130 mil hectares também tinham de ser protegidos e vigiados.
Guidon e sua equipe angariaram apoio técnico do antigo Banco Interamericano de Desenvolvimento, e receberam doações da Petrobras para manter o Parque de pé. Essas verbas, porém, não foram suficientes para fazer deslanchar o paraíso arqueológico escondido: ainda hoje, a serra recebe só 20 mil turistas por ano. O tamanho da estrutura, ironicamente, dificulta as coisas: a Serra ocupa a área de quatro municípios diferentes, todos com pouca estrutura hoteleira e de transporte, a 522 km distância da capital Teresina.
Se o turismo já é insuficiente para suprir a manutenção do Parque, a situação só piorou quando as verbas públicas ficaram escassas. Os repasses da Petrobras cessaram com a crise geral na empresa. De 270 funcionários que o Parque já teve, hoje só é possível manter 40. A estrutura, hoje, depende de pequenos repasses do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e do governo do Piauí.
Em 2014, porém, o BNDES aprovou verba para a construção do último sonho de Niède: o Museu da Natureza (MuNa). Nele, a pesquisadora quis contar a história da Serra de uma forma similar à que você leu nestas páginas: uma viagem no tempo por toda evolução natural da Capivara, que levasse o visitante da época em que o Piauí era mar, até os dias de hoje.
O dinheiro, pedido a primeira vez em 2001, veio sem correção monetária. Os R$ 13,7 milhões, graças à magia da inflação, já compravam três vezes menos tijolos, concreto e massa corrida quando a verba finalmente chegou. O MuNa, porém, insistiu em nascer e foi inaugurado em dezembro de 2018. Final feliz (e aguerrido) para Guidon e sua Serra.
E quanto à origem das pedras lascadas milenares? Elas realmente foram feitas por humanos? Estaria Niede totalmente enganada na tese que guiou toda sua carreira? Apontar para uma conclusão não é tão simples. “Nem todas as perguntas têm como resposta sim ou não. Há uma terceira opção, que talvez seja a mais frequente de todas: não sei”, diz André Strauss. No caso da Serra, essa é a conclusão mais honesta. E é uma resposta perfeitamente científica. Existia gente lá há 40 mil anos? Esse é um debate legítimo, e que segue em aberto.”

si_400_capivara_site13

si_400_capivara_mapa

14.035 – O Xis da Questão – O ‘X’ SE TRANSFORMOU NA VARIÁVEL DESCONHECIDA DA MATEMÁTICA


sinais_matematicos
Mesmo que você não seja um gênio das ciências exatas, certamente sabe que a letra “X” na matemática representa um termo utilizado para substituir outro que, geralmente, é desconhecido. Mas você sabe como é que essa letra se transformou nessa variável? A resposta a essa questão, ao contrário do que você poderia imaginar, não está relacionada a nenhum cálculo secreto, mas sim com a fonética.
O pessoal da TED — uma respeitada fundação privada sem fins lucrativos que organiza conferências em todo o mundo para disseminar conhecimento — postou um vídeo no YouTube, no qual Terry Moore, durante uma das palestras, explica por que o X foi o escolhido para representar o desconhecido.
Basicamente, quando os textos árabes sobre matemática e outras ciências começaram a chegar na Europa — mais precisamente, na Espanha — lá nos séculos 11 e 12, obviamente os sábios da época se empenharam em traduzir todo esse conhecimento para um idioma europeu comum.
No entanto, alguns sons verbalizados em árabe não possuem correspondência com os idiomas europeus, sem contar que os caracteres desse alfabeto tampouco contam com equivalentes ocidentais. Assim, uma letra árabe muito comum — ? pronunciada “shin” — tem o mesmo som que “shhh” e é utilizada para escrever a palavra “Shalam”, que em árabe significa “algo”, ou seja, ela descreve alguma coisa indefinida.
Assim, os árabes utilizavam o termo “al-shalam” para designar “o desconhecido” que, por sua vez aparecia muito nos antigos textos matemáticos. O problema, contudo, é que, como no idioma espanhol não existe o som “shhh”, os estudiosos que traduziram os antigos textos árabes tiveram que encontrar uma alternativa, adotando o som “ck”, proveniente do grego clássico, para criar uma convenção.
No grego clássico, o som “ck” é representado pela letra “Kai”, cuja grafia é “χ”. E mais tarde, quando os textos espanhóis foram transcritos para o latim — que era o idioma mais comum da época —, o caractere grego foi substituído pela letra X. Uma vez em latim, esses textos serviram de base para os livros de matemática por quase 600 anos, e o “X” acabou se tornando o que é hoje simplesmente porque os espanhóis não têm uma letra para o som “shhh”.

14.032 – Mega Básico – Para que serve a Atmosfera?


atmosfera-1000x665
A atmosfera terrestre é uma camada de ar que se mantem presa à superfície da Terra pela ação da gravidade. Assim como o Planeta Terra, outros planetas possuem atmosferas, entretanto, a atmosfera terrestre desempenha funções que são vitais para a manutenção da vida no planeta.
A atmosfera é constituída de diversos gases, como dióxido de carbono, oxigênio, nitrogênio e argônio. O gás carbônico ocupa apenas 0,039% do volume total da atmosfera, mas ele é fundamental para a manutenção de toda a cadeia biológica por ser utilizado pelos vegetais no processo de fotossíntese.
Outro importante gás encontrado na atmosfera é o oxigênio, que corresponde a 21% do volume da atmosfera. O oxigênio garante a vida dos seres aeróbicos, desde simples bactérias até seres complexos como os mamíferos.

Filtrar a radiação solar
A atmosfera é responsável por filtrar a maior parte da radiação solar. Cerca de 40% da radiação é refletida para o espaço pelas camadas superiores da atmosfera. A camada de ozônio, por sua vez, é responsável por filtrar cerca de 95% dos raios ultravioletas B (UVB) emitidos pelo sol.
Proteção contra impactos de meteoros
O espaço sideral está cheio de meteoros e outros tipos de fragmentos que constantemente atingem a o Planeta Terra. Os danos causados por esses corpos não são maiores porque a atmosfera atua como um escudo protetor da superfície. Ao entrar em contato com o ar concentrado da atmosfera, sobretudo oxigênio, os meteoros se fragmentam e entram em combustão, o que impede que causem danos a superfície.

Manutenção das temperaturas médias
4% do volume da atmosfera é composto por vapor d’agua. A presença de vapor d’agua garante a manutenção das temperaturas médias na superfície terrestre. Sem a presença de vapor d’agua, tanto o resfriamento quando o ganho de calor da superfície seriam muito mais rápidos, expondo o planeta a amplitudes térmicas extremas.

Efeito Estufa
A presença de dióxido de carbono na atmosfera garante o chamado efeito estufa. Por ser capaz de absorver calor, o dióxido de carbono evita a perda de calor da superfície, mantendo a superfície aquecida o suficiente para a manutenção da vida.

14.030 – Toxicologia – Qual é o veneno mais potente?


cianureto
Quando você pensa em envenenamento, provavelmente você imagina líquidos densos, guardados em frascos pequenos, com uma caveira no rótulo. Mas, na vida real a coisa não é bem assim.
Só para que você tenha ideia, o veneno mais mortal do mundo é utilizado em tratamentos de beleza. Ou você você não sabia que a toxina botulínica é capaz de matar?
E não é preciso muito para que o veneno mais mortal seja letal. Apenas 0,4 nanograma por quilo já é o suficiente para tirar a vida de um adulto jovem e saudável, de 50 quilos, por exemplo.
Cianureto
Essa substância pode ser encontrada naturalmente em vegetais, como na mandioca; ou sintetizada, em gás ou em pó; e é extremamente tóxica se ingerida ou inalada. Uma pequena dose de 5 miligramas já é o suficiente para matar.
O cianureto age destruindo as células do sangue, causando parada respiratória e destruindo o sistema nervoso central. Seu único antídoto é o nitrito de sódio.

Estricnina
Retirada de uma plantinha conhecida como Strychnos nux vomica, a estricnina está entre os venenos mais fatais do mundo. Se você ingerir, inalar ou mesmo deixar entrar em contato com a pele apenas 2,3 miligramas do veneno, pode ser seu fim.
O pior de tudo é que não existe antídoto para esse tipo de veneno, embora o Diazepan intravenoso amenize os sintomas da estricnina. Sobre seu envenenamento, a substância, utilizada desde o século 19 no extermínio de ratos, gera convulsões, espasmos musculares e morte por asfixia (muito embora já tenha sido utilizada como anabolizante, para aumentar as contrações musculares dos atletas).

Sarin
A substância é sintetizada em laboratório e contamina se for inalada. Apenas 0,5 miligrama é suficiente para envenenar. Aliás, para quem não sabe, esse era o gás utilizado em uma das armas químicas mais poderosas que existem.
Em contato com o organismo, o veneno desabilita os músculos, causa parada cardíaca e respiratória. Mas, esses efeitos podem ser interrompidos com o remédio atropina.

Ricina
Extraída da mamona, a ricina contamina pela ingestão ou pela inalação. Ela não tem antídoto e 22 microgramas já são suficientes para matar.
Esse é considerado o veneno mais mortal do mundo de origem vegetal. No organismo, ele provoca dor de estômago, diarreia, vômito com sangue e, claro, a morte. No caso de crianças, apenas uma semente de mamona já é letal.

Toxina diftérica
Essa toxina vem de um bacilo, chamado Corynebacterium diphtheriar. A contaminação com esse tipo de veneno acontece por meio de gotículas de saliva, vindas da fala ou do espirro das pessoas contaminadas, por exemplo.
Para que você tenha noção da potência desse veneno, 100 nanogramas já pode ser considerada uma dose letal. Mas, a boa notícia é que o soro antidfitérico suspende o efeito mortal da toxina.
Agora, se ele não for administrado em tempo hábil, a difteria atinge órgãos como o coração, o fígado e os rins.

Shiga-toxina
Essa toxina é produzida pelas bactérias dos gêneros Shigella e Escherichia. Ele contamina pela ingestão de bebidas ou de alimentos contaminados. Com apenas 1 nanograma você já pode morrer envenenado e o pior de tudo é que não existe antídoto para isso.
Normalmente, tratam-se os sintomas até que o veneno seja expelido pelo corpo, mas isso pode não resolver completamente o problema.
No organismo, o veneno causa diarreia, destrói a mucosa do intestino, causa hemorragia, impede a absorção de água e pode acabar levando à morte por desidratação.

toxina

Toxina tetânica
Vinda da bactéria Clostridium tetani, essa toxina envenena só de entrar em contato com a pele, especialmente se estiver com ferimentos. Uma porção minúscula de 1 nanograma já é o suficiente para matar, caso não seja administrado o soro antitetânico.
A toxina, inclusive, causa o tétano, doença que ataca o sistema nervoso provocando espasmos musculares, dificuldade de deglutição, rigidez muscular do abdome e taquicardia.

Toxina botulínica
Proveniente da bactéria Clostridium botulinum, essa é a mesma toxina que, em pequenas doses, ajuda a mulherada a lutar contra as rugas, por meio de aplicações locais. Mas, não se engane.
Essa toxina é o veneno mais mortal do mundo, muito mais potente que os venenos de cobra, por exemplo.
No organismo, em doses iguais ou superiores a 0,4 nanograma, ela age diretamente no sistema neurológico, causa paralisia respiratória e pode levar até a morte, caso seu antídoto, a antitoxina trivalente equina, não for administrado em tempo hábil.

14.014 – Parasita de 99 milhões de anos é encontrado intacto em âmbar


ambar
O fóssil de um piolho-de-cobra de 99 milhões foi encontrado preservado em uma pedra de âmbar, em Myanmar. O artrópode da classe diploide é tão único que os especialistas tiveram de criar uma subordem própria para ele. A espécie foi nomea da Burmanopetalum inexpectatum.
O exemplar é o primeiro fóssil de um milípede pertencente à ordem Callipodida já encontrado, e é menor do que seus parentes da mesma época — apenas 8,2 milímetros. A descoberta também ajuda na compreensão de quando a espécie apareceu, sugerindo que esse grupo de artrópodes deve ter evoluído há pelo menos 100 milhões de anos.
“Foi uma grande surpresa para nós que este animal não possa ser colocado na atual classificação de milípedes”, disse o principal autor do estudo, professor Pavel Stoev, em comunicado. “Apesar de sua aparência geral ter permanecido inalterada nos últimos 100 milhões de anos, como nosso planeta sofreu mudanças dramáticas várias vezes nesse período, algumas características morfológicas na linhagem Callipodida evoluíram significativamente.”
De acordo com o co-autor do estudo, Dr. Thomas Wesener, apenas 12 espécies de diplóides da Era Mesozoica — um período de 185 milhões de anos — foram encontradas até então, mas as expectativas crescem com novas descobertas.
Isso porque o âmbar em que Burmanopetalum inexpectatum foi encontrado contém mais 528 milípedes, que vem sendo investigados: “Nos últimos anos, quase todas as 16 ordens vivas de milípedes foram identificadas neste âmbar de 99 milhões de anos de idade. Os belos dados anatômicos apresentados por Stoev mostram que Callipodida agora se junta ao clube”, disse Wesener.

14.012 – Quem são os Esquimós?


esquimos
(ou inuit como se autodenominam) vivem no Ártico, uma das regiões mais frias da Terra. As teorias mais propagadas afirmam que seu assentamento nas regiões mais frias do planeta se deve ao rechaço de que foram objeto por parte dos índios americanos (há 12.000 anos), quando chegaram ao Alaska, vindos do nordeste da Ásia e através do Estreito de Bering.
Hoje, os esquimós não formam nem pertencem a alguma nação. Trata-se de um povo solidário, acolhedor e muito pacífico. São nômades por natureza. Sua civilização se baseia na família, patriarcal e poligâmica, na qual o homem tem mais mulheres na medida em que possui mais riquezas.
As crianças são muito importantes para os esquimós porque, de acordo com suas crenças, os pequenos são reencarnações de seus antepassados. Os inuit crêem na existência de seres superiores aos quais não é necessário cultuar ou mesmo fazer orações.
A estatura dos esquimós é pequena, os homens medem, em média, 1,60 m e as mulheres 10 cm menos. Seus corpos são fortes e seus membros curtos.
As terras do norte, extremamente frias, não permitem o crescimento de plantas, as únicas coisas que os esquimós podem fazer para sobreviver é caçar e pescar. É muito característico dos esquimós andar acompanhados de cães, usados para caçar e puxar os trenós, seu principal meio de transporte.
Dentro de suas casas, as mulheres se dedicam a cozinhar e costurar, enquanto os homens preparam seus utensílios para caçar e pescar focas e baleias. Os esquimós aproveitam tudo dos animais caçados: carne, gordura, pele, ossos e intestinos. Sua dieta habitual era a carne fervida, mas devido à lentidão deste processo e a escassez do combustível animal que era necessário, este povo passou a comer carne crua. A origem da palavra esquimó (no idioma algonquino) quer dizer comedor de carne crua.
As roupas dos esquimós são feitas com pele de foca, com a pelagem voltada para dentro e forradas com pele de urso ou de raposas, que as mulheres mascam com seus dentes e curtem com urina. Estas roupas são costuradas com os tendões dos animais.
Durante o inverno é comum que os alimentos fiquem escassos, época em que os homens saem para viajar e caçar. Quando as expedições duram muitos dias, é necessário construir casas temporárias, feitos com gelo, os iglus são estes famosos refúgios.
A língua esquimó está dividida em quatro dialetos bem parecidos, que só tem Substantivos e verbos.

14.011- Mega Questões – Somos programados para acreditar em um Deus?


netuno
Deus Netuno ou Poseidon

A religião – a crença em seres sobrenaturais, incluindo deuses e fantasmas, anjos e demônios, almas e espíritos – está presente em todas as culturas e permeia toda a História.

A discussão sobre a vida após a morte remonta a, pelo menos, 50.000 a 100.000 anos atrás.
É difícil obter dados precisos sobre o número de crentes de hoje, mas algumas pesquisas sugerem que até 84% da população do mundo são membros de grupos religiosos ou dizem que a religião é importante em suas vidas.
Vivemos em uma era de um acesso ao conhecimento científico sem precedentes, o que alguns acreditam que é incompatível com a fé religiosa. Então, por que a religião é tão difundida e persistente?
Os psicólogos, filósofos, antropólogos e até mesmo os neurocientistas sugerem possíveis explicações para a nossa disposição natural de acreditar, e para o poderoso papel que a religião parece ter em nossas vidas emocionais e sociais.

Morte, cultura e poder
Mas antes de falar das teorias atuais, é preciso entender como surgiram as religiões e o papel que elas tiveram na vida de nossos ancestrais.
As primeiras atividades religiosas foram em resposta a mudanças corporais, físicas ou materiais no ciclo da vida humana, especialmente a morte.
Os rituais de luto são uma das mais antigas formas de experiência religiosa. Muitos de nossos antepassados não acreditavam que a morte era necessariamente o fim da vida – era apenas uma transição.
Alguns acreditavam que os mortos e outros espíritos podiam ver o que estava acontecendo no mundo e ainda tinham influência sobre os eventos que estão ocorrendo.
E essa é uma noção poderosa. A ideia de que os mortos ou até mesmo os deuses estão com a gente e podem intervir em nossas vidas é reconfortante, mas também nos leva a ter muito cuidado com o que fazemos.
Os seres humanos são essencialmente sociais e, portanto, vivem em grupos. E como grupos sociais tendem à hierarquia, a religião não é exceção.
Quando há um sistema hierárquico, há um sistema de poder. E em um grupo social religioso, a hierarquia localiza seu membro mais poderoso: a divindade – Deus.
É para Deus que temos de prestar contas. Hoje em dia, a religião e o poder estão conectados. Estudos recentes mostram que lembrar de Deus nos faz mais obedientes.
Até em sociedades que reprimiram a fé, surgiu algo que tomou seu lugar, como o culto a um líder ou ao Estado.
E quanto menos estável é um país politica ou economicamente, mais provável que as pessoas busquem refúgio na religião. Os grupos religiosos podem, ao menos, oferecer o apoio que o Estado não fornece a quem se sente marginalizado.
Assim, fatores sociais ajudam a desenvolver e fortalecer a fé religiosa, assim como a forma como nos relacionamos com o mundo e com os outros.

Outras mentes
Em todas as culturas, os deuses são, essencialmente, pessoas, mesmo quando têm outras formas.
Hoje, muitos psicólogos pensam que acreditar em deuses é uma extensão do nosso reconhecimento, como animais sociais, da existência de outros. E uma demonstração da nossa tendência de ver o mundo em termos humanos.
Nós projetamos pensamentos e sentimentos humanos em outros animais e objetos, e até mesmo nas forças naturais – e essa tendência é um dos pilares da religião.
ssim argumentou-se que a crença religiosa pode ser baseada em nossos padrões de pensamento e de cultura humana. Alguns cientistas, no entanto, foram além e analisaram nossos cérebros em busca do lendário “ponto Deus”.

Deus no cérebro
Os neurocientistas têm tentado comparar os cérebros dos crentes e ao dos céticos, para ver o que acontece no nosso cérebro quando rezamos ou meditamos. Se conhece pouquíssimo sobre esse campo – mas há algumas pistas, especialmente no que diz respeito às aéreas cerebrais.
O córtex pré-frontal medial está fortemente associado com a nossa capacidade e tendência para entender os pensamentos e sentimentos dos outros. Muitos estudos têm mostrado que esta região do cérebro está especialmente ativa entre os crentes religiosos, especialmente quando estão rezando. Isso corrobora a visão de que a fé religiosa é uma forma de interação social.
Já o lobo parietal, de acordo com estudos pode estar envolvido em experiências religiosas, especialmente aquelas caracterizadas com a dissolução do ego.
Na medida em que estamos constantemente à procura de padrões, estruturas e relações de causa-efeito, a religião pode fornecer uma variedade de estratégias para que essa busca faça sentido
As crenças religiosas ajudam os seres humanos a se organizar e dar sentido a suas vidas. E em todas as culturas, e até mesmo entre ateus, os rituais podem ajudar a pontuar eventos importantes da vida.
Embora nem a neurociência, nem a antropologia e nem filosofia tenham uma resposta definitiva para a questão “Deus existe?”, todas essas disciplinas dão pistas sobre como nós respondemos às nossas mais profundas necessidades humanas.
Talvez não sejamos programados para acreditar em Deus ou em um poder sobrenatural, mas somos animais sociais com uma necessidade evolutiva de ficar conectado com o mundo e com os outros.
De repente, as religiões são apenas canais para permitir essas conexões.

14.001 – Física – A Teoria do Multiverso


É um termo usado para descrever o conjunto hipotético de universos possíveis, incluindo o universo em que vivemos. Juntos, esses universos compreendem tudo o que existe: a totalidade do espaço, do tempo, da matéria, da energia e das leis e constantes físicas que os descrevem. É geralmente usado em enredos de ficção científica, mas também é uma extrapolação possível de algumas teorias científicas para descrever um grupo de universos que estão relacionados, os denominados universos paralelos. A ideia de que o universo que se pode observar é só uma parte da realidade física deu luz à definição do conceito “multiverso”.
O conceito de Multiverso tem suas raízes em extrapolações, até o momento não científicas, da moderna Cosmologia e na Teoria Quântica, e engloba também várias ideias oriundas da Teoria da Relatividade de modo a configurar um cenário em que pode ser possível a existência de inúmeros Universos onde, em escala global, todas as probabilidades e combinações ocorrem em algum dos universos. Simplesmente por haver espaço suficiente para acoplar outros universos numa estrutura dimensional maior: o chamado Multiverso.

Os universos seriam, em uma analogia, semelhantes a bolhas de sabão flutuando num espaço maior capaz de abrigá-las. Alguns seriam até mesmo interconectados entre si por buracos negros ou de buracos de minhoca.

Em termos de interpretações da Mecânica Quântica, que, ao contrário da Mecânica Quântica em si, não são cientificamente estabelecidas, a Interpretação de Vários Mundos fornece uma visão que implica um multiverso. Nessa visão, toda vez que uma decisão quântica tem de ser tomada – em termos técnicos, toda vez que há uma redução da função de onda de um estado emaranhado – dois ou mais universos independentes e isolados surgem, um para cada opção quântica possível. Vivemos no universo no qual as decisões quânticas adequadas levam à nossa existência.

Devido ao fato da conjectura de multiverso ser essencialmente ideológica, não havendo, atualmente, qualquer tipo de prova tecnicamente real, a “teoria dos universos paralelos” ou “multiverso” é em essência uma teoria não científica. Nesse ponto, aliada à completa ausência de evidência científica, há ainda a questão concernente à compatibilidade com as teorias científicas já estabelecidas e os rumos diretamente apontados por essas. No conceito de multiverso, imagina-se um esquema em que todas os universos agregavam-se mutuamente por uma infinita vastidão. Tal conceito de Multiverso implica numa contradição em relação à atual busca pela Teoria do Campo Unificado ou pela Teoria do Tudo, uma vez que em cada Universo pode-se imaginar que haja diferentes Leis Físicas.
Em 1952, Erwin Schrödinger deu uma palestra, em Dublin, onde avisou com entusiasmo a audiência que o que estava prestes a enunciar poderia parecer “lunático”. Ele disse que, quando suas equações Nobel pareciam descrever várias histórias diferentes, estas não eram “alternativas, mas que tudo realmente acontece simultaneamente”. Esta é a primeira referência conhecida ao multiverso.
O multiverso inflacionário é composto de vários bolsos em que os campos de inflação se desmoronam e formam novos universos.
A versão membrana do multiverso postula que todo o nosso universo existe em uma membrana (brane) que flutua em uma maior dimensão. Neste volume, existem outras membranas com seus próprios universos. Esses universos podem interagir uns com os outros, e quando colidem, a violência e a energia produzida são mais do que suficientes para dar origem a um big bang. As membranas flutuam ou se aproximam uma da outro, e a cada poucos trilhões de anos, atraídas pela gravidade ou por alguma outra força que não entendemos, colidem. Este contato repetido dá origem a explosões múltiplas ou “cíclicas”. Esta hipótese particular cai sob o guarda-chuva da teoria das cordas, pois exige dimensões espaciais extras.
As diferentes teorias de Multiverso são por muitos utilizadas para contraposição à ideia do Design Inteligente e seu Argumento da Improbabilidade ou Argumento do Universo Bem Ajustado. Ou seja, são utilizadas por muitos como explicação para a pré-assumida “improbabilidade estatística” das leis da física e das constantes físicas fundamentais serem “tão bem ajustadas” para permitirem a construção do universo tal qual o conhecemos; em particular um universo capaz de abrigar vida inteligente com habilidade de indagar sobre a história do próprio universo em que existe.
Tal argumentação é comum em discussões envolvendo os defensores da existência de um “projetista inteligente” e os defensores de sua inexistência, defensores últimos que buscam uma resposta alternativa à questão decorrente da inexistência do projetista onipotente para o universo através da extrapolação das regras científicas encerradas na teoria da evolução biológica ao restante do universo, contudo sem as pertinentes considerações, o que leva à ideia do multiverso como resposta às estipuladas “particularidades” de nosso universo defendidas pela outra ala. O uso de tal linha de raciocínio e resposta é contudo desaconselhado sem acompanhamento dos devidos rigores, e especificamente falho no caso do multiverso. Ele falha essencialmente por desconsiderar que a existência do multiverso não é cientificamente estabelecida, consistindo o argumento por tal apenas em se trocar uma crença por outra; a crença do “projetista inteligente” pela crença do “multiverso”.

Argumento contra
Para começar, como é que a existência dos outros universos deve ser testada? Com certeza, todos os cosmólogos aceitam que existem algumas regiões do universo que se encontram fora do alcance de nossos telescópios, mas, em algum lugar na inclinação escorregadia entre isso e a ideia de que há um número infinito de universos, a credibilidade atinge um limite. À medida que um desliza abaixo dessa inclinação, mais e mais deve ser aceito na fé e cada vez menos está aberto à verificação científica. As explicações multiversas extremas são, portanto, remanescentes das discussões teológicas. Na verdade, invocar uma infinidade de universos invisíveis para explicar as características incomuns da que vemos é tão ad hoc quanto invocar um Criador invisível. A teoria do multiverso pode ser vestida em linguagem científica, mas, em essência, requer o mesmo salto de fé.

– Paul Davies, “A Brief History of the Multiverse”
Cético como sou, penso que a contemplação do multiverso é uma excelente oportunidade para refletir sobre a natureza da ciência e sobre a natureza final da existência: por que estamos aqui …. Ao olhar para esse conceito, precisamos ter a mente aberta, mas não tanto. É um caminho delicado para andar. Os universos paralelos podem ou não existir; O caso não está provado. Vamos ter que viver com essa incerteza. Nada está errado com a especulação filosófica cientificamente baseada, que é o que são as propostas multiversas. Mas devemos nomeá-lo pelo que é.

– George Ellis, Scientific American, “Does the Multiverse Really Exist?”

13.999 – Mecânica quântica e universos paralelos – a física de “Vingadores: Ultimato”


Em Vingadores, por outro lado, toda vez que o passado é alterado, surge um universo paralelo em que tudo ocorre de maneira diferente graças a essa alteração. Esse mecanismo – diferente do adotado por J.K. Rowling e Robert Zemeckis – não deriva da física clássica de Einstein, e sim, como já mencionado, da física quântica, da qual o próprio Einstein duvidou.
Para entender esse mecanismo, imagine que uma personagem que acabamos de inventar, a Ana, se arrependeu de começar um namoro com Gabriel e quer voltar no tempo para impedir si própria de conhecê-lo. Ela pretende furar o pneu do ônibus que Gabriel pegou para ir à faculdade naquela fatídica tarde de 2014. Assim, eles nunca teriam formado uma dupla na aula.
Se o plano desse certo no mundo de De Volta para o Futuro, assim que Ana retornasse a 2019, veria sua vida completamente mudada. No mundo de Harry Potter, por outro lado, o plano não daria certo: Ana descobriria que, naquela dia, o pneu furado foi justamente o que fez com que Gabriel chegasse um pouco atrasado à aula – e fosse obrigado a formar dupla com ela em vez de escolher um amigo próximo.
Já na perspectiva quântica, Ana teria inaugurado um novo universo. Uma realidade paralela em que ela de fato não viveu com Gabriel – enquanto o outro universo, em que o namoro segue normalmente, continua existindo. Parece maluquice – é maluquice –, mas é uma consequência da maneira como o físico americano Hugh Everett III interpretou as equações de Niels Bohr (sim, o da sua aula de química) e Erwin Schrödinger (sim, o do gato). Calma que a gente explica.

O que é física quântica, afinal?
Ela é a única teoria que descreve de maneira bem sucedida o comportamento de átomos e das partículas menores que átomos – os quarks e elétrons que compõem os átomos, por exemplo, ou os fótons, as partículas que perfazem a luz. Se você tentar usar as equações da Relatividade de Einstein para explicar o que um elétron está fazendo, não vai dar certo. O mundo das coisas pequenas é inacessível às equações do alemão.
Isso porque é impossível determinar a posição de um elétron. O melhor que você pode fazer é criar uma espécie de gráfico que demonstra onde há maior ou menor probabilidade deste elétron estar em um determinado momento. A equação que gera essa gráfico foi a grande sacada de Erwin Schrödinger.
Essa é uma noção muito estranha, pois nada, na nossa experiência cotidiana, pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Se você está em casa, a probabilidade de que você esteja em casa é 100%, e de que você esteja fora de casa, 0%. Não dá para estar meio grávida, não dá para cometer meia infração de trânsito, não dá para estar 50% na cama e 50% no mercado.
Isso é tão verdade que até as próprias partículas concordam: quando você tenta estabelecer a posição de um elétron, ele imediatamente abandona sua incerteza e se manifesta em um lugar só. O gráfico, antes tão irregular, atinge 100% de garantia. Dureza: o mundo, na escala quântica, passa a perna nos cientistas. Quem descobriu que o elétron se nega a manifestar sua estranheza foi o dinamarquês Niels Bohr.
O que Everett concluiu foi: de fato, é extremamente tosco supor que um elétron esteja em dois lugares ao mesmo tempo, ou que o observador veja a partícula em vários lugares ao mesmo tempo. Mas não é tão tosco assim pressupor que existem vários universos, e que cada um deles contêm o elétron em uma das posições possíveis. Ou seja: o Gato de Schrödinger está vivo em um universo, e morto em outro. Acabou o paradoxo.
Mais recentemente, um físico chamado David Deutsch juntou algumas possibilidades de viagem no tempo quântica com a ideia do multiverso – gerando um cenário teórico mais ou menos parecido com o do filme. E é esse o Deutsch mencionado por Tony Stark no começo do filme.

13.980 – Oceanografia – As Fossas Marianas


É o local mais profundo dos oceanos, atingindo uma profundidade de 11 034 metros.
Localiza-se no oceano Pacífico, a leste das ilhas Marianas, na fronteira convergente entre as placas tectônicas do Pacífico e das Filipinas. Geologicamente, a fossa das Marianas é resultado geomorfológico de uma zona de subducção.
O ponto mais profundo da fossa foi sondado pelos navios Challenger e Challenger II, da Marinha Real. O local foi batizado, então, de Challenger Deep. O fundo da fossa das Marianas foi atingido em 1960 pelo batiscafo “Trieste”, da marinha Americana tripulado pelo tenente Don Walsh e o cientista suíço Jacques Piccard, que passaram 20 minutos no fundo do oceano, numa expedição que durou ao todo 9 horas.
Pesquisadores do Woods Hole Oceanographic Institution (Estados Unidos) estão construindo um novo robô-submarino que será capaz de explorar as partes mais profundas do oceano, atingindo 11 000 metros de profundidade. O robô será alimentado por energia elétrica de baterias, podendo operar continuamente até 36 horas.
O novo robô-explorador será controlado remotamente, podendo ser operado em dois modos: autonomamente, sendo capaz de vasculhar de forma independente vastas áreas do oceano, ou preso, ligado a um cabo, com o objetivo de recolher amostras em locais específicos e bem definidos. No modo autônomo, o robô permanecerá ligado ao navio de controle, mas utilizando apenas uma fibra ótica, que será utilizada para envio de comandos e recepção de imagens.
Para lidar com as altíssimas pressões do fundo do mar, o robô-submarino terá suas câmaras acondicionadas em compartimentos feitos de cerâmicas estruturais sintéticas de última geração.
Além de pesquisa biológica, o robô permitirá acesso às zonas de terremotos e vulcões mais ativos da Terra, que consistem em falhas geológicas localizadas nas fossas oceânicas.
O homem chegou à Fossa das Marianas, o ponto mais profundo do oceano pela primeira vez em 23 de janeiro de 1960, quando o batiscafo Trieste atingiu a Depressão Challenger, a 10 916 metros de profundidade, levando os mergulhadores Don Walsh e Jacques Piccard. Em 1995, o mesmo ponto foi atingido pelo submarino-robô japonês Kaikō, que recentemente foi perdido durante uma tempestade. Na única ocasião em que seres humanos estiveram no ponto mais profundo do globo, não havia como tirar fotografias, uma vez que as janelas do batiscafo foram diminuídas a tamanhos de moedas, para melhor resistir à pressão. Por esse motivo, não existem registos visuais do evento.
Segundo o escritor norte-americano Bill Bryson, em seu livro Breve História de Quase Tudo, a aventura nunca mais foi repetida em parte porque a Marinha dos Estados Unidos se negou a financiar novas missões e em parte porque “a nação estava prestes a se voltar para as viagens espaciais e a missão de enviar um homem à Lua, que fizeram com que as investigações do mar profundo parecessem sem importância e um tanto antiquadas. Mas o fator decisivo foi a escassez de resultados do mergulho do Trieste”.
Em 1985 o oceanógrafo Robert Ballard, que tornou-se famoso pela descoberta do Titanic, utilizou um ROV (Remotely operated underwater vehicle) e seu minisubmarino Alvin para fazer mais uma descoberta histórica em conjunto com o pesquisador Dedley Foster, comprovando que, ao contrário do que se supunha, abaixo da camada batipelágico situada entre 1000 e 4000 metros, volta a existir vida. Antes da descoberta, as pesquisas eram realizadas de maneira empírica, com redes de alta profundidade. Até então era tido como certo que abaixo do batipelágico não existia mais nada no oceano. Pelas imagens de Ballard e Foster, comprovou-se que graças aos componentes químicos e ao calor exalado pelos vulcões por delicadas “chaminés” encontrados nas Fossas Marianas (a mais de 10 000 metros de profundidade) há vida exuberante nas profundezas. Pela análise das amostras coletadas pelo robô submarino comprovou-se a existência de vida marinha milhões de anos antes da vida na superfície terrestre. Na fossa das Marianas há um incalculável número de espécimes vivos altamente desenvolvidos e adaptados à colossal pressão encontrada nessas profundidades. As filmagens do ROV de Ballard e Foster mudaram para sempre parte da história da evolução da vida no planeta e abriram um campo imenso para novas pesquisas.
Em 25 de março de 2012, o cineasta James Cameron desceu sozinho até ao fundo da fossa das Marianas num batiscafo, no âmbito da expedição Deep Sea Challenge[4]. Foram sete anos de trabalho para o cineasta empreender, em apenas três horas, uma descida aos 10 998 metros de profundidade. A fossa das Marianas, que recebera a presença humana pela primeira vez em 1960, foi filmada com câmeras de alta resolução em 3D. Cameron esperava ainda, ao longo de seis horas no fundo, recolher amostras do sítio, menos conhecido pela ciência do que a superfície do planeta Marte.
A placa do Pacífico é sub duzida sob a Placa Mariana, criando a Fossa das Marianas e (mais adiante) o arco das ilhas Mariana, à medida que a água está presa na placa é lançada e explode para cima para formar vulcões da ilha. A Fossa das Marianas faz parte do sistema Izu-Bonin-Mariana subdução que forma o limite de fronteira convergente entre duas chapas tectônicas. Neste sistema, a borda ocidental de um prato, a Placa do Pacífico, é subduzida (isto é, impulso) abaixo da menor Mariana Plate que fica a oeste. O material crustal na borda ocidental da placa do Pacífico é uma das crosta oceânica mais antiga da Terra (até 170 milhões de anos) e, portanto, é mais frio e mais denso; Daí a sua grande diferença de altura em relação à Placa Mariana de alto escalão (e mais jovem). A área mais profunda do limite da placa é a Fossa Mariana propriamente dita.
O movimento das placas do Pacífico e Mariana também é indiretamente responsável pela formação das Ilhas Marianas. Estas ilhas vulcânicas são causadas pelo fluxo fundido do manto superior devido à libertação de água que está presa em minerais da porção subduzida da Placa do Pacífico.

fossas marianas

fossas2

13.979 – Borracha rupestre Extraída no Parque Nacional da Serra da Capivara


capivara1

A maniçoba, árvore típica da caatinga, produz um látex de grande qualidade. Além de pneus, até meados do século XX sua borracha natural era usada para produzir luvas cirúrgicas por conta de seu potencial de evitar rejeição durante operações. Entre 1900 e 1940, famílias de diversas localidades do Nordeste brasileiro foram ganhar a vida na extração de maniçoba, em uma região do Piauí onde hoje está o Parque Nacional da Serra da Capivara, declarado Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco e maior sítio arqueológico da América Latina. Imerso em uma crise financeira que se estende há anos, o parque inaugurou recentemente a Trilha Caminho dos Maniçobeiros, com o objetivo de preservar a memória desses trabalhadores em diálogo com os vestígios pré-históricos. O circuito turístico inclui visita aos locais em que essas famílias costumavam habitar: abrigos formados por paredes de taipa (pedra, paus e barro amassado) e tocas de rocha adaptadas para moradia. Muitos deles ainda preservam inscrições rupestres, algumas feitas há 50 mil anos. O Caminho dos Maniçobeiros tem aproximadamente 20 quilômetros de extensão. Começa na Guarita da Serra Branca e o trajeto pode ser feito de carro ou ônibus até o Sítio Igrejinha, tendo o visitante que seguir a pé pela estrada e pelas trilhas abertas na mata de caatinga. Há locais sinalizados com árvores de maniçoba e muitas tocas onde vestígios rupestres e dos maniçobeiros se misturam. O modo de vida e trabalho dos maniçobeiros começou a ser investigado, na década de 1970, por pesquisadores da Fundação Museu do Homem Americano (Fundham), que administra o Parque da Serra da Capivara. A arquiteta Elizabete Buco, pesquisadora da Fundham, ressalta a importância da preservação dessa memória: “Resolvemos tirar do papel e mostrar o que o parque ainda guarda sobre esses homens que faziam das tocas suas moradias, convivendo com vestígios arqueológicos, reocupando a área e construindo um novo espaço, com novos simbolismos e manifestações culturais”. Naquele período, a extração do látex de maniçoba no Nordeste só perdia em quantidade para os seringais da Amazônia. Ainda assim, “a demanda era tão grande que o governo brasileiro incentivava a extração e o cultivo de toda árvore que produzisse borracha”, observa Ana Stela de Negreiros Oliveira, pesquisadora do Iphan no Piauí. Os maniçobeiros extraíam látex de forma diferente: enquanto na seringueira as incisões eram feitas no tronco da planta, na maniçoba o látex era retirado da raiz, com auxílio de um instrumento pontiagudo criado por eles, a léga. Mas as relações de trabalho de seringueiros e maniçobeiros se assemelhavam: eram ambos explorados ao contrair dívidas com seus patrões, que monopolizavam o acesso a produtos alimentícios. Isto explica por que as famílias utilizavam os abrigos pré-históricos como moradias.

capivara aeroporto

capivara3

13.974 – Acredite se Quiser – Físicos revertem o tempo usando um computador quântico


tempo
Pesquisadores do Instituto de Física e Tecnologia de Moscou (Rússia), em colaboração com cientistas dos EUA e da Suíça, inverteram o tempo em um experimento quântico.
O que eles fizeram foi devolver o estado de um computador quântico uma fração de segundo ao passado.
Os cientistas também calcularam a probabilidade de um elétron no espaço interestelar vazio viajar espontaneamente de volta ao seu passado recente – descobrindo que isso ocorreria apenas uma vez em toda a história do universo.
“Este é um de uma série de artigos sobre a possibilidade de violar a segunda lei da termodinâmica. Essa lei está intimamente relacionada com a noção da flecha do tempo que postula a direção unidirecional do tempo, do passado para o futuro”, disse o principal autor do estudo, Gordey Lesovik.
A maioria das leis da física não faz distinção entre o futuro e o passado. Tomemos como exemplo uma equação que descreve a colisão e o rebote de duas bolas de bilhar idênticas. Se um close desse evento for gravado com uma câmera e reproduzido ao contrário, ele ainda pode ser representado pela mesma equação.
No entanto, imagine gravar uma bola branca batendo em uma pirâmide de bolas de bilhar que se espalham em todas as direções. Nesse caso, é fácil distinguir o cenário da vida real da reprodução reversa.
Elétron de volta ao passado
Os físicos quânticos de Moscou decidiram verificar se o tempo poderia se inverter espontaneamente, pelo menos para uma partícula individual e por uma pequena fração de segundo. Isto é, em vez de bolas de bilhar, eles examinaram um elétron solitário no espaço interestelar vazio.
“Suponha que o elétron esteja localizado quando começamos a observá-lo. Isso significa que temos certeza sobre sua posição no espaço. As leis da mecânica quântica nos impedem de conhecê-la com absoluta precisão, mas podemos delinear uma pequena região onde o elétron está localizado”, disse um dos autores do estudo, Andrey Lebedev.
A evolução do estado do elétron é governada pela equação de Schrödinger. Embora não faça distinção entre o futuro e o passado, a região do espaço que contém o elétron se espalha muito rapidamente. Ou seja, o sistema tende a se tornar mais caótico, e a incerteza da posição do elétron cresce. Isso é análogo à crescente desordem em um sistema de grande escala – como em uma mesa de bilhar – devido à segunda lei da termodinâmica.

“No entanto, a equação de Schrödinger é reversível”, explica Valerii Vinokur, outro autor do artigo, do Argonne National Laboratory, nos EUA. “Matematicamente, isso significa que sob uma certa transformação chamada conjugação complexa, a equação descreverá uma ‘mancha de elétron’ localizada no passado em uma pequena região do espaço no mesmo período de tempo”.

Por que não vemos isso no cotidiano?
Embora esse fenômeno não seja observado na natureza, teoricamente poderia acontecer devido a uma flutuação aleatória no fundo de micro-ondas cósmico que permeia o universo.
A equipe então resolveu calcular a probabilidade de observar um elétron localizando-se espontaneamente em seu passado recente.
Os cientistas descobriram que, durante toda a vida do universo – 13,7 bilhões de anos -, mesmo observando 10 bilhões de elétrons recém-localizados a cada segundo, a evolução inversa espontânea do estado da partícula só aconteceria uma vez. Além disso, o elétron não viajaria mais do que um décimo de bilionésimo de segundo no passado.
Fenômenos de larga escala envolvendo bolas de bilhar retornando à uma pirâmide e vulcões impelindo lava obviamente se desdobrariam em escalas de tempo muito maiores e apresentariam um número impressionante de elétrons e outras partículas. Isso explica por que não observamos pessoas idosas ficando mais jovens na vida real.
Curiosamente, o próprio algoritmo de inversão de tempo pode ser útil para tornar os computadores quânticos mais precisos. “Nosso algoritmo pode ser atualizado e usado para testar programas escritos para computadores quânticos e eliminar erros”, concluiu Lebedev.
A pesquisa foi publicada na revista científica Scientific Reports. [Phys]

13.971- Linguística – Qual a língua mais antiga?


sumerio
O sumério foi uma das primeiras línguas escritas conhecidas. O seu sistema de escrita, chamado cuneiforme (que significa “em forma de cunha”), foi mais tarde também usado para as línguas acadiana e também adaptado a línguas indo-europeias como o hitita (que também era escrito com um sistema hieroglífico, tal como faziam os egípcios) e o persa antigo, muito embora esta última língua se limitasse a usar os mesmos instrumentos de escrita e as formas das letras não tivessem relação com as do cuneiforme.
A escrita era do tipo semanto-fonética com símbolos fonéticos para sílabas e também logogramas que representavam palavras inteiras. A direção da escrita era variável. Textos mais antigos se apresentavam em colunas verticais. mas por volta de 3.000 a.C a direção mudou para horizontal da esquerda para a direita. Nessa época os símbolos foram girados em 90º sentido anti horário e passaram a ser simplificados sendo formados somente por cunhas e traços.
Inicialmente havia até cerca de mil símbolos, quantidade que caiu para cerca de 400, depois para 255, que eram 8 para vogais, 98 sílabas de vogal+consoante e 149 de consoante + vogal; Um mesmo símbolo poderia ter diferentes pronúncias. Houve 5 períodos para essas simbologia com aletrações nos anos de 3000 a.C – 2800 a.C – 2500 a.C – 1800 a.C – 600 a.C.
O sumério era aglutinante e fazia grande uso da composição. Por exemplo, as palavras para grande e homem eram compostas para formar a palavra para rei, “lugal”.
O sumério é uma língua ergativa. Isto significa que o sujeito de uma frase, que obtém um objecto directo, está no chamado caso ergativo, que se marca com a posposição -e. O sujeito de um verbo intransitivo é “marcado” com um absolutivo, que não é escrito: por exemplo, lugal-e e2 mu-dru3 “o rei construiu a casa”; lugal ba-gen “o rei foi”.

13.964 – NASA renomeia unidade em homenagem a lendária matemática Katherine Johnson


nasa
Em mês dedicado as mulheres, a NASA decidiu mudar o nome de uma das suas unidades para homenagear a matemática, já aposentada, da agência especial, Katherine Johnson. A sede em Fairmont, na Virginia Ocidental, passou a se chamar “Unidade de Verificação e Validação Independente Katherine Johnson”.
Nascida em 1918, Katherine foi fundamental em cálculos na época da corrida espacial e no desenvolvimento de aplicações para computadores da NASA. Ela chegou a ser representada no filme “Estrelas Além do tempo” que reconstruiu o período em que realizou cálculos de trajetórias orbitais para os primeiros voos espaciais tripulados para a Lua.
Sua conquista atravessa também questões sociais pelo fato de ser uma das primeiras mulheres negras a entrar para o Centro de Pesquisa Langley. E NASA reconhece em seu site que “não teria sido possível realizar uma série de marcos históricos sem Katherine Johnson e seu amor pela matemática”.
O diretor da agência, George Blaney, ainda disse que essa “é uma maneira de reconhecermos a carreira e as contribuições de Katherine não apenas durante o Mês da História Negra, mas todos os dias, todos os anos”. As mulheres, especialmente as negras, ainda enfrentam abusos e são sub-representadas nas ciências e são consideradas “figuras ocultas” na área
Esta já é a segunda instalação nomeada em homenagem a Johnson. A primeira foi a Pesquisa Computacional Katherine Johnson no Centro de Pesquisa Langley da NASA em Hampton, Virgínia.

13.960 – Física – Big Bang foi Descoberto por Acaso


balão do big bang
A origem do Universo foi descoberta em um lugar em que ninguém buscava. E foi formulada graças a uma descoberta fortuita anterior – a que deu origem à radioastronomia, ramo da astronomia que estuda as radiações eletromagnéticas emitidas ou refletidas pelos corpos celestes.
“Na década de 1930, os laboratórios Bell estavam tentando criar radiotelefones, mas havia um sinal que estava interferindo nas transmissões pelo Atlântico. Pediram a Karl Jansky (físico e engenheiro de rádio) para investigar”, contou à BBC News Sara Bridle, professora de astrofísica da Universidade de Manchester.
A descoberta foi importante porque revelou todo um pedaço do Universo que ainda era completamente invisível e, por isso, desconhecido.
Para o astrônomo Nial Tanvir, era como estar num quarto com pouca luz, observando assustado tudo o que se podia enxergar e, de repente, alguém aparece com um óculos de visão noturna.
A origem do Universo é, por excelência, um desses processos – comprovado graças ao acaso, que ajudou a demonstrar empiricamente o chamado Big Bang, ou Grande Explosão.
“A ideia do Big Bang, do ponto de vista teórico, é que num momento no passado, toda a matéria e toda a energia do Universo estava um único lugar e logo explodiu. Essa explosão marcou o início do tempo e da expansão do espaço, partindo do nada, e a expansão continua acontecendo”, resume Tanvir. “Soa como uma teoria louca, mas é o que a matemática nos diz”, completa o astrônomo.
A teoria da Grande Explosão ganhou força durante o século passado. No entanto, até meados dos anos 1960, ainda faltavam provas contundentes para derrubar teorias alternativas.
A evidência que faltava veio à tona graças à radiação cósmica de fundo em micro-ondas (CMB, na sigla em inglês), outro acaso.
Tudo começou com Arno Penzias e Robert Woodrow Wilson trabalhavam com uma antena supersensível – com design digno de filme de ficção científica (veja na foto abaixo) – desenhada para detectar as ondas de rádio emitidas pelos echo balloon satellites, satélites em formato de balão.
Para medir as ondas, elas precisavam eliminar todo tipo de interferência que viesse de outras fontes.
Quando fizeram isso, os pesquisadores se depararam com um ruído desconhecido e persistente, “um sinal fraco, mas facilmente detectável, que não vinha de nada na Terra nem no Sistema Solar, nem mesmo da nossa galáxia”, diz Tanvir, relembrando a história.

Esse sinal vinha de todas as direções.
Um ruído incômodo
Em todos os lugares eles encontravam o mesmo “calor de fundo”, como o próprio Penzias explicou em uma entrevista à BBC no final dos anos 70, referindo-se à energia emitida pelas ondas.
Um esforço para melhorar as comunicações de rádio, um ruído no espaço e alguns físicos teóricos por perto… tudo se reuniu em um notável acidente que, segundo a maioria dos cientistas, deu ao mundo o que era necessário para comprovar a maior de todas as teorias: o Big Bang.
Poderia-se dizer que Penzias e Wilson ganharam na loteria científica.
Uma vez que o cocô do pombo foi descartado, o “ruído” irritante acabou por ser a descoberta acidental do século, a evidência da origem do Universo.
Mas, embora a descoberta da CMB, a radiação cósmica de fundo em micro-ondas, tenha sido um acidente, será possível afirmar que, realmente, foi pura sorte?
Penzias e Wilson tiveram a sorte de se deparar com o ruído e de encontrar a teoria para explicá-lo literalmente logo ao lado. A dupla, entretanto, foi muito cuidadosa e não ignorou as evidências que lhe apareciam, por mais irritantes que elas fossem.
Os cientistas ganharam em 1978 o prêmio Nobel de Física.
Em um mundo em que o tempo de acesso aos telescópios é regulamentado e o teste de hipóteses, base do método científico, depende de financiamento, a radioastronomia moderna aprendeu com os acidentes de seu passado.