7964 – Geografia – Veneza ameaçada pelo mar


Todo o incalculável patrimônio histórico e cultural de Veneza, na Itália, está afundando. A cidade-sonho da costa do Adriático, insulada no interior de uma laguna de 55 quilômetros de extensão por 13 quilômetros de largura, está morrendo. Cinqüenta anos de transformações industriais alteraram catorze séculos de equilíbrio delicado entre a cidade e a laguna. Marés cada vez mais altas afogam Veneza e seus famosos “palazzi”.
Soluções tecnológicas sofisticadas podem deter o mar. Mas há trinta anos discutem-se causas, estratégias e custos. O preço é alto e a vontade política, pouca. E, pior, enquanto o tempo passa, desaparece a matéria-prima de qualquer recuperação — os venezianos. Em 1954, eles eram 175 000 em 1974, 108 000; hoje, não passam de 78 000.
A Veneza de Goethe, Mozart, Nietzsche e Thomas Mann virou uma cidade-fantasma. Tem cada vez menos padarias, mercearias e cinemas. E cada vez mais turistas.

Canal de Veneza
Canal de Veneza

Veneza convive com a maré alta, acqua alta em italiano, desde a sua fundação, no século VI. Mas, com o passar do tempo, o subsolo cedeu e o piso da cidade baixou 23 centímetros em relação ao nível médio do mar em 1900. Para resolver a questão, desde o século XVI duas teorias se confrontam. A primeira defende o fechamento das três entradas da laguna, por onde a maré alta passa: elas seriam trancadas. A outra teoria prega a preservação máxima da laguna, atribuindo o aumento do impacto das marés aos detritos industriais e urbanos que se acumulam no fundo da laguna.
A pior fase começou com o desenvolvimento industrial. Em 1920, surgiram aterros nas margens da laguna, do lado do continente, onde ergueram-se as cidades de Mestre e de Marghera, um porto. Na década de 50, período de grande crescimento econômico no pós-guerra, a cidade de Marghera foi muito ampliada com novos aterramentos para a construção de um vasto complexo petroquímico.
Na laguna, cuja profundidade média não ultrapassa 2 metros, escavaram-se canais para a navegação de grande calado, com 5 quilômetros de extensão e 15 metros de profundidade. Por eles, passaram a entrar enormes volumes de água Finalmente, em 1973, veio um novo aterramento, para a construção do aeroporto Marco Polo.
Há treze anos, formou-se o Consorzio Venezia Nuova para recuperar a bacia lagunar, integrado por várias empresas, como a Fiat, Iri-Italstat, Mazzi, Girolla, Lodigiani e Sacaim. Em 1988, criaram-se mais quatro consórcios semelhantes. Até agora, porém, foram feitos apenas testes e estudos. A crise econômica restringe a disponibilidade de recursos.
Às 17 horas do fatídico dia 4 de novembro de 1966, a maré alta atingiu o recorde histórico de 1,94 metro. As ondas impelidas pelo vento scirocco passaram por cima das muralhas na costa, entraram pelas bocas do porto e foram açoitar o Palácio dos Doges. No centro histórico e nas ilhas do estuário, 16 000 famílias e comerciantes perderam quase tudo. Todos os 432 transformadores elétricos da cidade explodiram, deixando os venezianos em pânico, no escuro, durante três dias.

Quando a água começou a recuar, lixo, móveis e mercadorias amontoavam-se em todos os cantos. Manchas de óleo e gasolina tingiam ruas e prédios. Barcos e gôndolas jaziam, quebrados, nas ruas. Milhares de ratos encurralados nas pontes e nos andares superiores das casas ameaçavam os moradores. Gatos, pombos e ratos mortos boiavam nos canais.
Um cenário inesquecível: calçadas afundadas, encanamentos entupidos, ralos abertos e milhares de toneladas de sujeira. Praças, jardins e plantações desvastados. Os danos ao patrimônio cultural foram gravíssimos. A cidade parecia abatida pela peste, como no romance do escritor alemão Thomas Mann, Morte em Veneza.
Para os venezianos, as marés viraram uma ameaça constante. A família de Massimo Cannaregio, 32 anos, é uma das que desistiram e mudaram-se para Mestre: “Vivi a primeira infância em Veneza”, diz ele. “Nossa residência ficava no segundo andar de um prédio restaurado do século XVIII. Quando tinha quatro anos, minha família foi embora, porque a casa estava sempre úmida. A enchente de 66 fez um estrago danado e custaria muito dinheiro para reformar o prédio. Vendemos o imóvel por uma ninharia.”

Constrangida pela fragilidade ambiental, “a cidade mais bonita do mundo” transferiu moradores de seu centro histórico para aquela que os italianos chamam de “a cidade mais feia do mundo” — Mestre. Veneza esvaziou, enquanto Mestre inchou, sem nenhum planejamento urbanístico. Passou de 37 000 habitantes, em 1921, para 57 000, em 1951, 161 000, em 1961 e 205 000, em 1971.
Os jovens são os primeiros a sair, em busca de emprego, qualidade de vida, automóvel, lazer e outros consumos de que Veneza não pode proporcionar. Ali resiste a população mais velha da Itália: média de 46 anos, contra 40 anos da média nacional. Há poucos espaços para crianças. E cada vez menos infra-estrutura urbana.
Veneza não tem condições de virar uma espécie de Disneylândia, eternamente lotada de turistas. Nem os venezianos gostariam disso. Eles querem a mesma cidade, com canais em vez de ruas asfaltadas. Gaivotas em vez de vira-latas. E barcos (os vaporettos) em vez de ônibus.
A cidade é frágil e vive por um fio, sempre torcendo para que outra maré alta catastrófica, como a de 1966, não se repita. Mas para sobreviver terá de sair de seu imobilismo. Terá aprender a controlar as marés.

Memória pode ir por água a baixo

Em Veneza, pode-se admirar cerca de 450 palácios e residências de valor artístico inegável — neles, há quase sempre o toque de um mestre da arquitetura medieval, renascentista e barroca. A cidade, durante séculos, teve fama de ser ponto de encontro de artistas. Compositores como Rossini, Giuseppe Verdi e, mais recentemente, Igor Stravinsky fizeram a sua primeira apresentação em Veneza, no Teatro la Fenice. O Museu Accademia reúne obras de alguns dos mais famosos pintores italianos, todos com passagens pela capital do Vêneto.
Em 10 de julho de 1989, Veneza sofreu outro trauma. Duzentas mil pessoas se espremeram na Praça São Marcos para assistir o concerto da banda inglesa Pink Floyd. Foi uma tentativa de fazer a cidade recuperar a fama de palco de grandes eventos culturais. A tragédia foi que os produtores do evento — musicalmente esplêndido — esqueceram que a cidade tinha poucos banheiros. No dia seguinte, ruas, vielas e canais amanheceram inundados. Não propriamente de água do mar.

2599- ☻Mega Tour – A Cidade de Veneza, na Itália


Canal de Veneza
Veneza vista
Veneza

É conhecida pela sua história, canais, museus e monumentos. A comuna de Veneza estende-se por uma área de 412 km², incluindo as ilhas de Murano, Burano e outras na lagoa de Veneza, tendo uma densidade populacional de 646 hab/km². Faz fronteira com Campagna Lupia, Cavallino-Treporti, Chioggia, Jesolo, Marcon, Martellago, Mira, Mogliano Veneto (TV), Musile di Piave, Quarto d’Altino, Scorzè, Spinea. A parte de Veneza em terra firme é a fracção comunal de Mestre.
A cidade foi formada num arquipélago da laguna de Veneza, no golfo de Veneza, no noroeste do mar Adriático. Tornou-se uma potência comercial a partir do século X, no qual sua frota já era uma das maiores da Europa. Foi uma das cidades mais importantes da Europa, com uma história rica e complexa e um império de influência mundial comandado pelos doges, os líderes da cidade. Como cidade comercial, tinha várias feitorias e controlava várias rotas comerciais no Levante. Eram suas feitorias cidades como Negroponto e Dyrrhachium (atual Durrës), assim como ilhas inteiras: Creta, Rodes, Cefalônia e Zante, por exemplo. O historiador Fernand Braudel classificou-a como a primeira capital econômica do Capitalismo.
O patrono da cidade é São Marcos (festa em 25 de abril). A festa do povo do Véneto é celebrada em 25 de março, data da fundação da cidade.
É classificada como Património da Humanidade pela UNESCO. Dos muitos monumentos e locais turísticos existentes, destacam-se a imponente Basílica de São Marcos, na adjacente Praça de São Marcos, a famosa Ponte de Rialto sobre o Grande Canal, construída em 1588 segundo projeto de Antonio da Ponte, a Ca’ d’Oro e numerosas igrejas e museus.
Veneza é ainda famosa pelos seus certames internacionais, como o Festival de Cinema e a Bienal de Artes, pela Regata Histórica, que ocorre no primeiro domingo de setembro, pelo fabrico de vidro, pelo Carnaval de Veneza, pelos casinos e pelos seus passeios românticos, levando muitos casais a passarem suas luas-de-mel.
Nesta cidade nasceram os Papas Gregório XII, Eugênio IV, Paulo II, Alexandre VIII, Clemente XIII e Pio X, além de numerosos artistas e arquitectos como Antonio Vivarini (1440-1480), Antonio da Ponte (1512-1595), Tintoretto (1518-1594) e Canaletto (1697-1768). No campo da música, foi aqui que nasceu e viveu Antonio Vivaldi (1678-1741).
Embora não haja nenhum registo histórico que lide directamente com as origens de Veneza, os elementos disponíveis fizeram com que vários historiadores concordassem com a teoria de que a população original de Veneza era formada por refugiados de cidades romanas como Pádua, Aquileia, Altino e Concórdia (moderna Portogruaro), que fugiam das sucessivas invasões germânicas e hunas à Península Itálica no século V.[1] Mais tarde, algumas fontes históricas romanas revelaram a existência de pescadores nas ilhas da lagoa de Veneza. Eles são referidos como incola lacunae (habitantes da lagoa).
Começando em 166-168, os Quados e os Marcomanos destruíram a atual Oderzo. As defesas romanas foram derrubadas no início do século V pelos Visigodos e, cerca de 50 anos depois, pelos hunos liderados por Átila. A mais duradoura invasão foi a dos lombardos em 568. A leste, o Império Bizantino estava estabelecendo domínios na região do atual Vêneto e as principais entidades administrativas e religiosas do império na Península Itálica foram transferidas para este domínio. Foram construídos novos portos nos domínios, incluindo Malamocco e Torcello na lagoa de Veneza.
O domínio bizantino na Itália Central e Setentrional posteriormente foi eliminado em grande medida pela conquista do Exarcado de Ravenna em 715 por Astolfo. Durante este período, a sede local do governo bizantino (a residência do “duque/doux”, depois chamado de doge), foi situada em Malamocco.
Em 775-776, a sede do bispado de Olivolo (Helipolis) foi criada. Durante o reinado do doge Agnello Participazio (811-827), a sede ducal foi movida de Malomocco para a ilha protegida de Rialto (de “rivoalto”, isto é, costa alta).
A queda de Constantinopla em 1453 marcou o princípio da decadência. A descoberta do caminho marítimo para a Índia por Vasco da Gama (1498) e a descoberta da América por Cristóvão Colombo (1492) deslocaram as rotas de comércio e Veneza viu-se obrigada a sustentar uma luta esgotante contra os turcos otomanos. Em 1797, foi invadida pelas tropas de Napoleão Bonaparte. Com a assinatura do tratado de Campofórmio, dividiu-se o seu território entre França e Império Habsburgo.
Veneza está rodeada de lagoas de pouco profundidade, e isso valeu-lhe sempre como excelente defesa. Nas suas águas encalhavam facilmente os navios que não conheciam os fundos. Era também uma cidade entrincheirada protegida por grandes muralhas. As “muralhas” de Veneza são os perigosos bancos de areia que ficam quase a descoberto na baixa-mar. Para chegar a Veneza vindo do mar Adriático, é preciso conhecer as passagens, que em tempos de paz eram assinaladas com fileiras de estacas com luzes à noite.
Veneza ocupa uma localização excepcional numa lagoa do Mar Adriático, a lagoa de Veneza.
O principal núcleo da cidade, o seu centro histórico, é constituído por um conjunto de ilhas no centro da lagoa, com um total de 60 053 habitantes. A estas ilhas no centro da lagoa há que juntar outras no estuário (30 295[3] residentes) e também na parte continental (180 661 residentes), que com os seus 130,03 km², representam cerca 83% da área emersa do território.
A cidade está coberta por 177 canais, 400 pontes e 118 ilhas, estando localizada entre a foz do rio Ádige (a sul) e do rio Piave (a norte). O centro histórico é totalmente pedonal, atuando como canais rodoviários, bem como os diferentes barcos, que são os únicos meios de transporte na zona. O centro histórico sempre esteve isolado de terra firme (algo que em numerosas ocasiões representou um eficiente sistema de defesa) até 1846, quando foi construída a ponte ferroviária. Em 1933, a Ponte della Libertà, com 4 km trouxe para a entrada da cidade o tráfego rodoviário, ligando Mestre à Piazzale Roma. A cidade dista cerca de 37 km de Treviso e 40 km de Pádua.
As outras principais ilhas da lagoa são: Lido, Murano, Burano e Torcello. Outras ilhas menores são São Miguel (a ilha do cemitério da cidade), Santo Erasmo, Mazzorbo, La Vignole, Certosa São Francisco do Deserto, São Giacomo em Paludo, São Servolo, São Lazzaro degli Armeni e Giudecca.
Automóveis
Veneza é praticamente uma zona sem carros, por ser construída sobre a água. Os veículos podem atingir o terminal para carros/autocarros através da Ponte della Libertà (SR11). A ponte inicia-se a oeste do Mestre. Existem dois parques de estacionamento que servem a cidade: Tronchetto e Piazzale Roma. os carros podem ser estacionados ali 24 horas por dia, em que o preço a pagar é de cerca de 25 euros por dia. Um ferry para Lido serve o parque de estacionamento de Tronchetto e é servido por autocarros e vaporetti, como transportes públicos.

A salvação de Veneza


Veneza é a cidade italiana onde as ruas são cursos de água, padece cada vez mais com as marés. Ela é invadida pelas águas porque seus canais vem sendo assoreados por detritos urbanos e o solo está se acomodando alguns milímetros a cada ano, elevando o nível do mar e colocando em risco monumentos seculares da civilização. Mas já existe uma solução que salvou a cidade. Consistiu na construção de 3 barreiras com 15 metros de altura no qual foram erguidas na entrada do Mar Adriático, que fica próximo a cidade. Ao menor sinal de aumento de maré, as barreiras bloqueiam as águas, através da injeção de ar comprimido, e evitaram as enchentes. O projeto ficou concluído em 1995.