14.173 – Medicina – O que é a Terapia Gênica?


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A Genética é um dos campos da Biologia que mais sofreram avanços durante o tempo. A descoberta dos genes e da estrutura do DNA, o sequenciamento do genoma humano e as técnicas de DNA recombinante são apenas algumas das importantes vitórias dessa ciência.
A terapia gênica pode ser definida como um procedimento em que são feitas modificações genéticas em células como uma forma de tratar uma doença. Essas modificações são realizadas por meio da inserção de um gene funcional dentro da célula que substituirá o gene defeituoso e promoverá a produção de proteínas corretamente. A técnica funciona como um “transplante de genes”.
A terapia gênica pode ser realizada a partir de duas técnicas diferentes: a germinativa e a somática. Na técnica germinativa, o novo gene é inserido nos espermatozoides ou óvulos, ou seja, nas células germinativas. Já no caso da técnica somática, o novo gene é inserido em outras células que não as germinativas.
Para que o gene seja colocado no interior da célula, é necessária a utilização de um vetor, que normalmente é um vírus. Como os vírus conseguem entrar na célula humana e inserir seus genes, os cientistas utilizaram essa capacidade para desenvolver a técnica. O vírus é modificado para não causar doenças e apenas transportar genes necessários para determinada célula. O gene normal é inserido, as proteínas funcionais são produzidas e a doença, em tese, pode ser curada.

→ Limitações da terapia gênica
Apesar de a terapia gênica possuir bons resultados quando testada em laboratório, ela ainda enfrenta algumas limitações que impedem que alguns tratamentos sejam realizados em grande escala. Entre os problemas enfrentados, destacam-se os métodos de transferência gênica pouco eficientes e a dificuldade de criação de mecanismos precisos de regulação do gene funcional.
A principal barreira para o desenvolvimento da técnica na pratica médica é a segurança, principalmente quando se analisam os vetores. Além disso, há muitas discussões éticas e filosóficas, principalmente quando se deseja realizar o procedimento no embrião ou em células germinativas.
Diversos estudos estão sendo realizados ao redor do planeta a partir da técnica de terapia gênica. Alguns estão obtendo resultados bastante promissores, como é o caso da doença genética conhecida como deficiência da lipoproteína lipase. Os resultados foram tão positivos que deram origem ao primeiro medicamento de terapia gênica do mundo: o Glybera, que pode curar permanentemente a doença.
Além da deficiência da lipoproteína lipase, outros trabalhos apresentaram resultados eficazes. Um exemplo é o estudo publicado na Science em 2013 que revelou a cura de algumas crianças com a Síndrome de Wiskott-Aldrich e Leucodistrofia Metacromática por intermédio da terapia gênica.
Além desses trabalhos, podemos citar um caso recente que ocorreu em 2015: uma garota de um ano de idade, desacreditada pela medicina, submeteu-se a uma técnica de terapia gênica que reverteu a sua leucemia. Apesar de a menina ainda não poder ser considerada curada, não existem atualmente traços da doença em seu corpo.

14.168 – Terapia Gênica contra Câncer em fase Terminal


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Um paciente de 64 anos que tinha linfoma em fase terminal e tomava morfina todo dia deve receber alta. Após ser submetido a um tratamento inédito na América Latina. Ele deixará o hospital livre dos sintomas do câncer graças a um método 100% brasileiro baseado em uma técnica de terapia genética descoberta no exterior e conhecida como CART-Cell.
Os médicos e pesquisadores do Centro de Terapia Celular (CTC-Fapesp-USP) do Hemocentro, ligado ao Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, apontam que o paciente está “virtualmente” livre da doença. Os especialistas, no entanto, não falam em cura ainda porque o diagnóstico final só pode ser dado após cinco anos de acompanhamento. Tecnicamente, os exames indicam a “remissão do câncer”.
Os pesquisadores da USP – apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) – desenvolveram um procedimento próprio de aplicação da técnica CART-Cell.
Essa técnica, ainda recente, foi criada nos EUA, está em fase de pesquisas e é pouco acessível. No EUA, os tratamentos comerciais já receberam aprovação e podem custar mais de US$ 475 mil.
O paciente submetido ao tratamento no Brasil é o mineiro Vamberto Luiz de Castro, funcionário público aposentado de 62 anos. Antes de chegar ao interior de São Paulo, ele tentou quimioterapia e radioterapia, mas seu corpo não respondeu bem a nenhuma das técnicas.
Em um tratamento paliativo, com dose máxima de morfina, o paciente deu entrada em 9 de setembro no Hospital das Clínicas em Ribeirão com muitas dores, perda de peso e dificuldades para andar. O tumor havia se espalhado para os ossos.
O prognóstico de Castro, de acordo com os médicos, era de menos de um ano de vida. Como uma última tentativa, os médicos incluíram o paciente em um “protocolo de pesquisa” e testaram a nova terapia, até então nunca aplicada no Brasil.
A CART-Cell é uma forma de terapia genética já utilizada nos Estados Unidos, Europa, China e Japão. Esse método consiste na manipulação de células do sistema imunológico para que elas possam combater as células causadoras do câncer.

Terapia genética
A estratégia da CART-Cell consiste em habilitar células de defesa do corpo (linfócitos T) com receptores capazes de reconhecer o tumor. O ataque é contínuo e específico e, na maioria das vezes, basta uma única dose.

Rápida melhora
Segundo os médicos, Castro respondeu bem ao tratamento e logo após quatro dias deixou de sentir as fortes dores causadas pela doença. Após uma semana, ele voltou a andar.
“Essa primeira fase do tratamento foi milagrosa”, disse ao G1 o hematologista Dimas Tadeu Covas, coordenador do Centro de Terapia Celular (CTC-Fapesp) e do Instituto Nacional de Células Tronco e Terapia Celular, apoiado pelo CNPq e pelo Ministério da Saúde.
“Não tem mais manifestação da doença, ele era cheio de nódulos linfáticos pelo corpo. Sumiram todos. Ele tinha uma dor intratável, dependia de morfina todo dia. É uma história com final muito feliz.”
Renato Luiz Cunha, outro dos responsáveis pelo estudo, explicou que a terapia genética consegue modificar células de defesa do corpo para atuarem em combate às que causam o câncer.
“As células vão crescer no organismo do paciente e vão combater o tumor”, disse Cunha. “E desenvolvemos uma tecnologia 100% brasileira, de um tratamento que nos EUA custa mais de R$ 1 milhão. Esperamos que ela possa ser, no futuro, acessível a todos os pacientes do SUS.”
Cunha recebeu, em 2018, o prêmio da Associação Americana de Hematologia (ASH), nos EUA, para desenvolver este estudo no Brasil.
No ano passado a agência norte-americana de vigilância sanitária (FDA), aprovou nos EUA a primeira terapia gênica do mercado para leucemia linfoide aguda. Porém, o tratamento é caro e chega a custar US$ 475 mil dólares.
O tratamento ainda não está liberado na rede pública ou privada de saúde, por isso, Cunha explicou que, para o paciente ser atendido no hospital universitário, o encaminhamento foi aprovado por uma comissão de ética.
O hematologista Rodrigo Calado, professor da FMRP-USP e membro do CTC, afirma que “esse tratamento foi possível pelo investimento em pesquisa e formação de pessoas feito pela Fapesp e CNPQ ao longo dos anos e que agora se traduz em um tratamento melhor e mais eficaz em casos de linfomas refratários.”
Perspectivas para o SUS
Dimas Tadeu Covas, que coordena o Centro de Terapia Celular do HC de Ribeirão, disse que o procedimento poderá ser reproduzido em outros centros de excelência do país, mas não dá datas. Isso porque, segundo ele, depende de laboratórios controlados com infraestrutura adequada.
“Devido à complexidade do tratamento, ele também só pode ser feito em unidades hospitalares com experiência em transplante de medula óssea”, disse o pesquisador. “Isso porque, durante o processo, a imunidade é comprometida. O paciente tem que ficar isolado, não pode ficar exposto. Não são todos os hospitais que podem fazer esse tipo de tratamento. Além disso a terapia tem efeitos colaterais.”
A resposta imune progressiva pode causar febres altas, náuseas e dores musculares. Os pesquisadores não eliminam o risco de morte, e reconhecem que a forte baixa no sistema imunológico traz um potencial fatal para alguns pacientes.
De acordo com os envolvidos na pesquisa, antes de o tratamento ser disponibilizado para o Sistema Único de Saúde (SUS), ele precisa cumprir os requisitos regulatórios da Anvisa. O chamada “estudo clínico compassivo” continua e deverá incluir mais 10 pacientes nos próximos 6 meses.
Se as etapas de estudos e pesquisas continuarem a se manter promissoras, Covas avalia que o tratamento pode ser adotado em larga escala com adaptações nos laboratórios de produção. “Os investimentos necessários para ampliação da capacidade produtiva são de pequena monta, da ordem de R$ 10 milhões”, afirma Covas.

12.439 – Reversão do Envelhecimento – Ela afirma que rejuvenesceu com terapia genética


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Acredite se quiser, isso pode até ser possível.

Como vimos numa matéria anterior, segundo Parrish, o tratamento ocorreu em setembro de 2015, quando ela voou para a Colômbia para que um médico – cuja identidade não foi revelada – administrasse um tratamento com vírus, que, diz ela, estendeu sua vida em 20 anos.
O tratamento já foi testado em ratos e em células in vitro em laboratório. Trata-se de uma injeção de vírus capazes de recuperar os telômeros. Estes são as pontas dos cromossomos, um pedaço de DNA que serve para proteger o resto e acaba se gastando cada vez que as células se reproduzem. Telômeros curtos são tanto um sinal de idade quanto uma possível causa do envelhecimento, pois a perda dessa proteção compromete a integridade do material genético – levando à progressiva decadência biológica que chamamos de velhice.
Parrish, que tem 44 anos, afirmou que testes clínicos antes do procedimento indicavam que ela tinha telômeros particularmente curtos, isto é, envelhecimento precoce, e testes posteriores mostram um substancial aumento dessas estruturas. Seu score de telômeros, a medida dada pelos laboratórios baseada no comprimento, saltou de 6,71 para 7,33 – score próximo ao de alguém na passagem dos 20 para 30 anos.

Ela fez o tratamento por conta própria na Colômbia para fugir da regulamentação americana, que exigiria um longo e caro processo de testes antes de permitir experimentos em humanos. Isto é, foi cobaia para algo que ninguém sabe ainda que tipo de efeitos colaterais pode ter.
Estamos diante de uma da maior revolução da medicina na história? A cura da velhice? Vai depender de um fator chatinho, mas crucial: que Parrish não esteja simplesmente inventando.

Motivos para suspeitar são muitos. Seu perfil no LinkedIn diz que ela se formou em “Ciências” (curso que não existe) na Universidade de Washington, sem dar data, e lista cargos de administração como sua experiência profissional. Até o anúncio, a BioViva não era mais que um site listando ideias de tratamentos, uma equipe de sete pessoas (todas com empregos fora da empresa, exceto a CEO) e especialistas que supostamente apoiariam a iniciativa. A sede da companhia, declarada em abril de 2015 ao governo americano, era uma residência de dois quartos.
O MIT Technology Review estudou o caso e está com aquele pé atrás. “O experimento parece destinado a ser lembrado como um novo fundo do poço em charlatanismo médico, ou talvez, o improvável começo de uma era em que pessoas recebem modificações genéticas não apenas para tratar doenças, mas pare reverter o envelhecimento”, afirma o parecer. Mas também procuraram por um dos especialistas listados no site da BioViva, George Church, da Universidade de Harvard. Ele disse que discorda de toda a ética do procedimento, mas que acha que o resultado aconteceu: “Eu acho que é real. Há indícios que pode ser feito. Companhias agindo secretamente podem conseguir qualquer coisa”.
Se Parrish é picareta, visionária ou só maluca, deve se saber em breve. O caso passará por pesado escrutínio da comunidade científica, que com certeza está tão intrigada quanto qualquer um de nós. Se ela não estiver mentindo, os efeitos colaterais e benéficos devem ser visíveis nela.

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8562 – HIV a Serviço da Medicina – Terapia genética usa vírus do HIV para curar doenças raras


O HIV é responsável pela morte de 1,7 milhão de pessoas por ano em todo o mundo. O vírus é especialmente perigoso pois se reproduz ao atacar células do sistema imunológico humano, alterando seu DNA e as obrigando a fabricar cópias de si mesmas — o que deixa o corpo vulnerável a uma série de doenças. Pesquisadores italianos anunciaram, na quinta-feira, o desenvolvimento de uma nova técnica, que utiliza essa habilidade do HIV para, na verdade, curar pacientes. Em duas pesquisas publicadas na revista Science, eles afirmam que utilizaram versões alteradas do vírus para corrigir o genoma de seis crianças e livrá-las de doenças que, até então, não teriam tratamento.
As crianças foram submetidas a terapia genética que usava um lentivirus como vetor para alterar seu DNA. As pesquisas relatam os resultados dos primeiros seis pacientes que passaram pelo procedimento. Três anos depois, ou eles estavam curados ou as doenças tinham parado de progredir.
As crianças carregavam duas doenças genéticas — herdadas dos pais e carregadas no DNA por toda a vida — conhecidas como Síndrome de Wiskott-Aldrich e Leucodistrofia Metacromática. Enquanto na primeira o corpo é incapaz de produzir uma proteína necessária para o correto funcionamento do sistema imunológico, a segunda afeta o desenvolvimento do sistema nervoso — e ambas podem levar à morte. Como o defeito está nos genes, essas doenças eram consideradas, até pouco tempo, incuráveis.

Nas últimas décadas, no entanto, os pesquisadores têm desenvolvido um método capaz de corrigir diretamente genes defeituosos: a terapia genética. Para isso, retiram células-tronco da medula óssea dos pacientes. Em um laboratório, os cientistas utilizam um vírus para entrar na célula e alterar seu DNA, inserindo o gene desejado. Os pacientes, então, recebem de volta as células-tronco, e passam a produzir a proteína necessária. Como o vírus é alterado geneticamente, ele não é capaz de atacar o organismo.
As terapias genéticas costumam funcionar muito bem em testes com animais e em laboratório, mas apresentam problemas quando são transferidas para a clínica. Algumas vezes, o gene terapêutico é produzido em quantidades muito pequenas ou por um período muito curto, abreviando o tratamento. Outras vezes, a terapia acaba por levar ao desenvolvimento de câncer. Para tentar contornar esses problemas, os pesquisadores italianos estudaram a utilização de um tipo especial de vírus: os lentivirus, que agem lentamente e são capazes de deixar, de modo permanente, seu DNA na célula hospedeira. O HIV é, justamente, um dos lentivirus mais conhecidos e estudados.
Os cientistas começaram os tratamentos com o vírus do HIV alterado em 2010. Os resultados publicados nesta quinta-feira levam em conta apenas os primeiros seis pacientes — três de cada doença — que receberam a terapia. “Três anos depois do começo das pesquisas clínicas, os resultados obtidos nos primeiros pacientes são muito encorajadores: a terapia não é apenas segura, mas também efetiva e capaz de mudar a história clínica dessas doenças sérias”, diz Luigi Naldini, pesquisador do Instituto San Raffaele Telethon para Terapia Genética (TIGET, na sigla em inglês), na Itália, envolvido nos dois estudos.
Sistema imunológico — As crianças com a Síndrome de Wiskott-Aldrich herdam uma mutação genética no gene que codifica a proteína WASP — essencial para o funcionamento correto do sistema imunológico. Assim, elas se tornam mais vulneráveis ao desenvolvimento de infecções, doenças autoimunes e câncer, além de ter um defeito nas plaquetas que causa sangramento frequente.
A terapia mais utilizada para tratar essa condição costuma ser o transplante de medula óssea de um doador compatível. Em alguns casos — quando as células doadas são muito compatíveis — a cura é atingida. No entanto, quem não conseguia encontrar um doador tinha de carregar a condição por toda a vida.
Na nova técnica, os pesquisadores retiraram as células-tronco da medula óssea dos próprios pacientes — o que elimina a possibilidade de rejeição. No laboratório, eles usam o vetor criado a partir do HIV para inserir o gene WASP normal em seu interior. Quando são reinseridas no corpo, as novas células são capazes de produzir a proteína correta, restaurando o sistema imunológico do paciente.

Segundo os cientistas, entre 20 e 30 meses após o início do tratamento, os sintomas da doença sumiram ou diminuíram consideravelmente. “Nesses pacientes, as células-tronco corrigidas substituíram as células doentes, criando um sistema imune funcional, com plaquetas normais. Graças à terapia genética, essas crianças não convivem mais com sangramentos severos e infecções. Agora elas podem correr, brincar e ir à escola”, diz Alessandro Aiuti, pesquisador do TIGET responsável pelo estudo.
Agindo no cérebro – Já a Leucodistrofia Metacromática é causada por mutações no gene ARSA, importante para o sistema nervoso. Os bebês com essa doença são aparentemente saudáveis no nascimento, mas em algum ponto de seu desenvolvimento eles começam a perder gradualmente as habilidades cognitivas e motoras, sem nenhum tratamento capaz de frear o processo neurodegenerativo — que acabará por matar a criança.
A partir de uma técnica parecida, os pesquisadores italianos inseriram genes ARSA funcionais nas células-tronco desses pacientes e as devolveram ao corpo. Ali, elas começaram a produzir as enzimas funcionais e a se reproduzir, atingindo o cérebro das crianças, o local mais afetado pela doença.
Dois anos após o início dos tratamentos, os pesquisadores afirmam que a terapia genética foi capaz de frear a progressão da doença. “Nesse caso, o mecanismo terapêutico foi mais sofisticado: as células-tronco corrigidas atingiram o cérebro por meio do sangue e liberaram a proteína correta, que é acumulada pelas células nervosas sobreviventes. Nós tivemos que criar células capazes de produzir uma quantidade de proteínas muito maior que o normal, para neutralizar o processo neurodegenerativo em andamento”, diz Alessandra Biffi, pesquisadora do TIGET.

Glossário

TERAPIA GENÉTICA
Tratamento que busca alterar o DNA de uma determinada célula, em busca de um resultado benéfico para a saúde de um paciente. Para isso, os cientistas precisam inserir um gene no núcleo da célula e fazer com que substitua outro. Os pesquisadores costumam usar como veículo desse gene um vírus ou retrovírus, pois esses vetores conseguem alterar o material genético de seu hospedeiro. Dentro da célula, o novo gene passa a fazer parte de seu DNA, e pode ser usado para tratar alguma doença.

CÉLULAS-TRONCO
Também chamadas de células-mãe, podem se transformar em qualquer um dos tipos de células do corpo humano e dar origens a outros tecidos, como ossos, nervos, músculos e sangue. Por essa versatilidade, elas vêm sendo testadas na regeneração de tecidos e órgãos de pessoas doentes.

8075 – Terapia gênica lançada na Europa marca 60 anos da decifração da estrutura do DNA


Seis décadas depois que o americano James Watson e o britânico Francis Crick contaram vantagem num pub de Cambridge (Reino Unido), dizendo que tinham descoberto “o segredo da vida” ao decifrar a estrutura do DNA, a pesquisa sobre genética vive um momento ambíguo, no qual triunfos se misturam a uma lista de mistérios que ainda é um bocado comprida.
O aniversário de 60 anos da descoberta de Watson e Crick, publicada em 25 de abril num artigo na revista científica “Nature”, acontece no ano em que o primeiro tratamento cujo objetivo é alterar o DNA do paciente chega ao mercado dos países desenvolvidos.
Trata-se do Glybera, que usa um gene humano, carregado por um vírus, para corrigir uma rara doença metabólica, a LPLD.
A doença impede que o organismo absorva corretamente certos tipos de gordura, o que causa problemas no pâncreas. No mercado europeu, onde foi aprovado, o tratamento deverá custar cerca de US$ 1 milhão por paciente.
“É uma coisa que só dá para fazer na Europa por enquanto, porque o sistema de saúde de lá absorve esse custo”, explica Carlos Frederico Menck, biólogo do Instituto de Ciências Biomédicas da USP que estuda o uso de vírus como “entregadores” de genes terapêuticos.
Mais importante ainda, usando um sistema de cultivo em células de insetos, os criadores da terapia parecem ter resolvido outro velho problema da terapia genética: a quantidade de vetores virais necessária para se conseguir um efeito duradouro.
“Estou muito otimista em relação à perspectiva de que século 21 seja o século da terapia gênica, combinada com a terapia celular”, diz ele. “Pode ser que eu ou você não vejamos isso, mas as coisas estão caminhando –ainda que numa velocidade que é naturalmente lenta.”
É mais difícil, no entanto, pensar na aplicação generalizada desse tipo de terapia em doenças mais comuns, como o câncer, pondera Emmanuel Dias-Neto, do Laboratório de Genômica Médica do Hospital A.C. Camargo, “pelo menos no estágio atual”.
“Em geral, para uma entrega eficiente da terapia, você tem de ter acesso às células-alvo. Se temos acesso, é preferível remover o tumor, e não tratá-lo”.
Ainda sem aplicações médicas imediatas, outra área que tem ganhado força é a chamada biologia sintética. É mais do que uma versão um pouco mais complicada dos velhos organismos transgênicos: em vez de inserir um único gene de água-viva num embrião de coelho para fazê-lo brilhar no escuro, digamos, o plano é montar genomas customizados “do zero”.
“Atualmente, o maior desafio desse campo é produzir a primeira célula bacteriana sintética”, explica Igor Schneider, da UFPA. Esses organismos teriam aplicações econômicas, como a produção de plástico “verde” ou a limpeza de áreas poluídas.
Mas há quem fale em ir mais longe. George Church, da Universidade Harvard, diz que seria viável usar as técnicas da biologia sintética para alterar totalmente o genoma de um elefante moderno, digamos, para que ele se assemelhe ao de um mamute, ressuscitando espécies extintas.

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7833 – Medicina – O Curativo Genético


Trata-se da Terapia Gênica, uma técnica ainda em fase experimental, mas que promete.

Imagine que um cidadão quebrou o braço. E, em vez de engessar e esperar a regeneração natural dos tecidos, o médico implanta em algumas células da vítima, como as do sangue, um pedaço de DNA corretivo. Este fragmento fabrica uma proteína que faz a soldagem de um modo muito mais simples e rápido que o tradicional. Em ratos, esse tipo de remendo genético foi experimentado com sucesso. Mas isso é apenas um meio de ilustrar uma técnica revolucionária, que pode fazer muito mais do que colar ossos. Em poucas palavras, não importa se os sintomas são os da Aids, da gripe, do câncer ou de uma doença hereditária. Sempre vai dar para arranjar um gene que ajuda a eliminar o mal ou a aliviar as suas conseqüências.
A molécula de DNA pode ser reparada para corrigir um mal hereditário. Melhor ainda, pode ganhar um gene inteiramente novo, feito sob medida num laboratório, com o objetivo de combater uma infecção como a Aids, ou as células enlouquecidas do câncer.
Cada um dos 50 000 a 100 000 genes é formado por milhões de moléculas menores. São os nucleotídeos, representados na ilustração por estas “pontes”entre as hélices de DNA. Implantar um gene significa colocar, no lugar exato, um conjunto completo de nucleotídeos.
A melhor maneira de entender os curativos genéticos, ou a terapia gênica, como dizem os especialistas, é comparar o organismo humano com um computador. Essa analogia é possível porque tanto um como o outro precisam de instruções para trabalhar. Assim, enquanto a máquina lê os comandos gravados nos programas, o corpo segue as ordens escritas nos genes. Isso quer dizer que não é preciso mexer diretamente nos órgãos para tentar eliminar os males de um cidadão. Basta instalar nas células um novo programa – ou seja, um novo gene – e deixar que, daí para a frente, o próprio organismo resolva os seus problemas.
Não é difícil perceber o potencial revolucionário desse tipo de tratamento. Antes de mais nada, ele cria a primeira oportunidade de atacar pela raiz as doenças hereditárias. Ou seja, aquelas em que o paciente já vem ao mundo com um “software” imperfeito. O ideal, aqui, seria trocar o gene enguiçado por uma cópia em boas condições. Agora, se o gene não foi identificado, ou se ninguém sabe direito como ele funciona, sempre existe a alternativa de achar algum outro pedaço de DNA que possa, pelo menos, eliminar os sintomas.
Há registro de mais de 4 000 moléstias associadas a defeitos nos genes, muitas delas incuráveis. Mas isso é só o começo da história, como se vê pela Aids, que não é hereditária e não tem nada a ver com mutações ou estragos feitos no DNA por radiação ou qualquer outro acidente.
Apesar de ser causada por um vírus, o HIV, ela também pode ser combatida com fragmentos de DNA que, de alguma forma, prejudiquem o vírus. Até já se conhecem proteínas que atrapalham a proliferação do micróbio. Os pesquisadores estão tentando implantar no organismo dos pacientes o gene que fabrica essas substâncias. E aí, se der certo, as próprias células poderão fabricar antídotos contra o HIV.
É isso o que faz a nova terapia: descobrir genes que, de uma maneira ou de outra, fabricam proteínas benéficas à saúde. Essa orientação, nos últimos anos, já levou à descoberta de substâncias incríveis. Algumas induzem as células cancerígenas ao suicídio, outras apressam a regeneração de ossos quebrados e outras ainda fortalecem células musculares atrofiadas. No fim das contas, o futuro da terapia gênica depende do arsenal de genes úteis que vêm sendo identificados em número cada vez maior. Daí sairá a matéria-prima para forjar softwares químicos capazes de transformar a maquinaria celular em uma farmácia que funciona sozinha dentro do corpo.