12.013 -Em meio à crise hídrica, regiões assumem riscos e melhoram a eficiência no uso da água


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Enquanto a Costa Leste dos Estados Unidos tremia de frio, a Califórnia fervia. No ano passado, incêndios florestais destruíram casas em subúrbios, um reservatório esvaziado deixou expostas as ruínas de um vilarejo da época da corrida do ouro e, na primavera, a cachoeira do Yosemite estava reduzida a um fio d’água. Enquanto a seca alcançava recordes históricos, as disputas políticas retomavam rotinas conhecidas.
Os agricultores conclamaram o Parlamento a revogar a proteção a espécies de peixes ameaçadas. Os moradores urbanos lembraram que, em média, 41% da água na Califórnia é usada na agricultura, ao passo que menos de 11% abastece as cidades (e quase 49% permanece nos rios). Prevaleceram as frases de efeito, e ao menor sinal de chuva as discussões silenciavam por completo.
Tal capacidade de esquecimento é quase uma característica inata no Oeste americano. Mas não há motivo para isso. Basta, por exemplo, ver o que ocorre na Austrália, um país com situação bem similar à existente hoje na Califórnia e no Oeste americano. Tanto na Califórnia como na Austrália, há zonas desérticas na área central, ao passo que as bordas do território são temperadas e urbanizadas. Ambas dependem de complexos sistemas de dutos para mover a água. Na verdade, os dois irmãos canadenses que, no final do século 19, construíram alguns dos primeiros sistemas de irrigação na Califórnia também ajudaram a planejar os sistemas de água na árida bacia hidrográfica australiana dos rios Murray e Darling.

Australia: solução para reduzir o consumo urbano
Na Austrália, a chamada Grande Seca, que se prolongou por uma década na virada do século 21, desencadeou no princípio o mesmo tipo de escaramuça política que toma conta da Califórnia. No entanto, depois de anos de destruição ambiental, crise de falta de água nas cidades e enormes prejuízos por parte dos agricultores, os políticos australianos – e os produtores rurais – tiveram de assumir riscos consideráveis.
“No auge da seca, tornou-se evidente que não tem como dissimular a verdade do meio ambiente”, diz o professor Mike Young, da Universidade de Adelaide, que participou da reação do país à seca. A Austrália conseguiu reduzir o consumo urbano de água graças ao investimento de bilhões de dólares em medidas de conservação, educação e melhoria na eficiência da rede. O país adotou um esquema que assegurava um suprimento mínimo de água para o ambiente, com o restante sendo dividido em parcelas que podiam ser rapidamente negociadas – ou guardadas. Embora tenham lutado contra as mudanças, os produtores rurais, graças aos estímulos financeiros, logo passaram a usar a água de maneira mais criativa e eficiente. O consumo diminuiu.

Racionamento de água
Todavia, após décadas de exploração desenfreada dos lençóis freáticos na Califórnia, autoridades regionais aprovaram normas para a preservação dos reservatórios subterrâneos de água e o governador, Jerry Brown, anunciou recentemente medidas de racionamento obrigatório. Los Angeles e outras cidades conseguiram melhorar a eficiência no uso da água. “Há muita folga no sistema, e a gente vinha tolerando isso, só porque não havia nenhum tipo de punição”, comenta Peter Gleick, presidente do Pacific Institute. “Agora temos de aprender a viver de acordo com os limites impostos pela natureza.”
A história da água no Oeste americano não mudou, e ainda é feita de ambição e otimismo, em quantidades perigosas. Mas esta seca da Califórnia, assim como outras que virão, talvez levem à abertura de um novo capítulo.
John Diener pretende fazer parte disso. Ao contrário de muitos produtores do Vale Central, não deixou de morar em sua propriedade. Ele continua a frequentar a igreja na vizinha Riverdale e, quando fica sem tempo, acaba ouvindo a missa em espanhol na igreja que os seus tios ergueram na década de 1940. Embora apegado à terra ocupada por sua família há quase um século, ele é de um pragmatismo a toda prova.

No ano passado, como não recebeu nada de água fluvial, Diener deixou descansando metade das suas terras. Plantou tomates e brócolis, irrigando-os com os eficientes sistemas de gotejamento subterrâneos que adquiriu nos últimos anos. Além disso, está se dedicando a um projeto de parceria público-privada local visando transformar beterraba em etanol. E, claro, continua a cuidar dos 8 hectares de cactos. Ainda não começou a ganhar dinheiro com eles, mas está otimista com a possibilidade de encontrar um mercado: os cactos do tipo figueira-da-barbária são muito conhecidos no México e em outras partes da América Latina como nopales, e valorizados como suplementos alimentícios ricos em selênio. Este é um futuro que o seu pai e o seu tio mal poderiam imaginar. Contudo, se estivessem vivos hoje, esses Diener de uma geração anterior certamente aprovariam a mudança de rumo. Pois foi graças a adaptações assim que também eles conseguiram sobreviver.

11.067 – Seca – Tirando a água do ar


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Entre a longa Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico, no país mais esticado do mundo, está o maior deserto latino-americano, o chileno Atacama. A aridez domina a região e os municípios próximos – são quase 1.500 km de extensão onde a média de chuvas é de 0,1 mm ao ano, com áreas onde a água fica sem cair por séculos. Nesse mar de sequidão, fica a região de Coquimbo, no município de Chungungo, que é banhado pelo mar, e onde choveu apenas cinco vezes em todo ano de 2013. Na área, a média histórica de chuvas é de apenas 100 mm ao ano – contra 1.500 mm em São Paulo, por exemplo. Mas, ao contrário da capital paulista, aqui não falta água – é possível tirá-la do ar.
O que acontece em Coquimbo é que faltam chuvas, mas sobram nuvens hiperúmidas. São as “nieblas costeras”, que se formam sobre a orla, se movem em direção ao continente e acabam aprisionadas por uma serra, num fenômeno chamado de camanchaca, as “chuvas horizontais”. A camanchaca acontece em condições muito específicas de geografia, clima e correntes marítimas, e é bem comum ao longo do litoral peruano e chileno. Essa neblina é composta por minúsculas gotas de água, que, de tão leves, se mantêm suspensas no ar. Se a nuvem encontrar algum tipo de obstáculo, as partículas de água se chocam umas com as outras e começam a se concentrar. Alcançam, então, peso suficiente para cair, virar gotas de água, e deixar um rastro de umidade por onde passam.
Nas regiões em que o fenômeno acontece, é comum encontrar árvores eternamente encharcadas e animais com os pelos molhados o tempo todo. A umidade é visível por aqui. Nas altitudes entre 600 e 1.200 metros, onde o fato é mais intenso, a vegetação é abundante e frondosa – ao contrário das zonas em que as neblinas costeiras não acontecem, e que têm solo seco e pouca flora. Foi observando esse contraste que, há 50 anos, pesquisadores da Universidad de Chile tiveram uma ideia: se a água não cai das nuvens, será que daria para pegá-la de dentro delas? Assim nasceu a ideia dos atrapanieblas (em português, algo como “capta-nuvem”) – artefatos criados para tirar, literalmente, água do ar.
As engenhocas são simples: basta esticar malhas de polietileno de alta densidade (parecidas com as que são usadas para proteger plantações do sol), de até 150 metros de largura, entre dois postes de madeira ou aço. A neblina passa pela malha, mas os fios de plástico retêm parte da umidade, que condensa, vira água e escorre até uma canaleta que leva a um reservatório. O negócio é barato e eficiente: cada metro quadrado da malha capta, em média, 4 litros de água por dia, e um atrapaniebla de 40 m² custa entre US$ 1 mil e 1.500.
Para melhorar, o modelo é 100% sustentável. Não atrapalha a flora e a fauna, e funciona durante quase o ano todo, o que torna possível planejar a produção de água. Mas não para por aí: a verdadeira vantagem é que os atrapanieblas não utilizam luz elétrica. Diferentemente de outros métodos caros de obtenção de água em regiões secas, como a dessalinização da água do mar, eles não precisam de energia para funcionar. O vento trata de espremer as nuvens pelas malhas, e a gravidade cuida de carregar a água até os baldes. Perfeito.
Infelizmente, o projeto não é replicável no mundo todo por causa das condições necessárias de clima e temperatura. Mas países como México e Peru também utilizam a técnica. No árido Estado de Querétaro, na região central do México, e nas secas áreas costeiras do Peru – que inclui a capital Lima, onde a média anual de pluviosidade é de menos de 10 mm, mas cuja umidade relativa do ar chega a 98% -, o projeto já funciona em larga escala. O maior complexo de malha do mundo, contudo, localiza-se em Tojquia, Guatemala: são 60 captadores que, ao todo, compõem uma rede de 1.440 m² e captam quase 4 mil litros de água diariamente, abastecendo cerca de 30 famílias. Sem gastar energia.
Em Chungungo, que não parou de crescer desde a década de 1980, as malhas não são mais suficientes para abastecer toda a população, e a prefeitura teve de recorrer a uma estação de dessalinização do mar para não faltar água. Por isso, há diversos estudos que tentam aumentar a produtividade dos atrapanieblas por aqui.

10.763 – Mega Sampa – Serão construídas duas estações de água de reúso


Estações de reuso
Estações de reuso

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin anunciou recentemente a construção de duas estações de produção de água de reúso que vão abastecer diretamente as bacias dos sistemas Guarapiranga e Alto Cotia. Serão as duas primeiras instalações no Estado que vão captar o esgoto para transformá-lo em água de reúso, que servirá mais tarde para consumo.
“Na estação do Guarapiranga, vamos gerar dois metros cúbicos por segundo de água de reúso. Teremos esse valor a mais sendo devolvido ao Guarapiranga independentemente de chuva”, afirmou. A outra estação de tratamento será construída na região do Rio Cotia e terá capacidade de produção de um metro cúbico por segundo.
Cada metro cúbico de água é suficiente para abastecer 300 mil pessoas, segundo o governador. As estações estão em projeto e têm previsão de entrega para dezembro de 2015. Alckmin também anunciou a construção de 29 reservatórios que aumentarão em 10% a capacidade de reserva de água tratada na região metropolitana.
O governador afirmou ainda que a Sabesp vai aumentar a água transferida da Represa Billings para o Sistema Guarapiranga. O volume repassado vai dobrar, passará dos atuais dois metros cúbicos para quatro metros cúbicos por segundo. Para isso, foi reduzido há um mês a água enviada da Billings para usina hidrelétrica do litoral.
As medidas de reforço nos demais sistemas de abastecimento da região metropolitana têm como objetivo diminuir a demanda sobre o Sistema Cantareira. Hoje, 2,3 milhões de clientes deste último são atendidos pelo Guarapiranga e Alto Tietê.
Um procedimento similar será adotado na cidade de Campinas, no interior paulista. A água de reúso, tratada, será distribuída para 7% da população. O procedimento será realizado depois da construção de um sistema adutor estimado em 12 milhões de reais, em parceria com o Aeroporto Internacional de Viracopos, que utiliza água de reúso para limpeza e outros serviços, vai permitir o consumo humano. A obra será concluída em um ano e meio.

10.750 – Secou a Fonte – Planeta Água sem água (?)


seca no s francisco

O Brasil tem a maior reserva de água doce do planeta. Concentram-se aqui 12% de todos os recursos hídricos globais. O que explica, então, a crise de abastecimento pela qual passa o Estado de São Paulo, o mais populoso e rico do país?
A seca histórica que atinge o Sudeste há dois anos, a maior dos últimos 84 anos, efeito contínuo de uma massa de ar quente que estacionou na região, justifica parte do problema. Mas não é prudente atribuir o baixo nível de água apenas às mudanças climáticas pelas quais passa a Terra, e que fazem proliferar climas extremos.
O Brasil é exemplo de descaso na administração de seus recursos hídricos. Em todo o país, desperdi­çam-se 40% da água captada, que vaza por encanamentos precários, de manutenção quase inexistente. Em São Paulo, a perda é de 31,2%. É falha que poderia ser corrigida com melhorias anunciadas desde 2004, quando o estado passou por crise similar.
Muito pouco foi feito. Sem o desperdício, haveria água de sobra. O descaso, porém, não é exclusividade brasileira. Países como China e Índia descuidam de suas reservas, usando-as sem critério. Com isso, o planeta vê dezenas de trilhões de litros indo pelo ralo.
É assustador observar como tratamos o elemento essencial à vida, limitado e insubstituível. Se gastarmos todos os combustíveis fósseis que existem, teremos outras fontes energéticas, como a solar e a eólica. Vivemos dezenas de milhares de anos sem combustíveis fósseis. Sobrevivemos, e sobreviveríamos sem eles. Mas, se dermos cabo dos estoques de água, não haverá alternativa. Água é tudo.
Estima-se o valor do atual mercado global de água doce em 425 bilhões de dólares. Se o estoque um dia acabar, o que é muito improvável, ou for seriamente comprometido, o que é possível, entrará em risco a sobrevivência da humanidade. Tomem-se os atuais exemplos de São Paulo e Minas Gerais para entender que danos, ainda plenamente administráveis, a falta d’água pode provocar.
Na capital paulista, pesquisa Datafolha divulgada recentemente revelou que 60% dos moradores ficaram sem água nos últimos trinta dias. No interior, o cenário se agrava. Alguns municípios, a exemplo de Cristais Paulista, multam quem desperdiça água. Em Itu, há protestos de rua, e caminhões-pipa precisam de escolta para não ser atacados. Ao prejudicar a economia e o abastecimento, a seca dá início a perigosos conflitos.
Desde 1990, a disputa por água foi motivo de 2 200 conflitos diplomáticos, econômicos ou militares pelo planeta. A tensão deve se intensificar. A ONU calcula que faltará água limpa para 47% da população global até 2030. Diz o urbanista americano Michael Klare, autor do livro The Race for What’s Left (em inglês, A Corrida pelo que Sobrou), sobre disputas por recursos naturais: “A água virou o novo combustível fóssil, causa de batalhas ferrenhas. Guerras que aumentarão em número e dimensão, já que a demanda cresce, enquanto a oferta diminui”.
A resposta para a crise hídrica parece simples: temos de consumir menos e diminuir drasticamente o desperdício. Mas são atitudes difíceis de ser implantadas, já que dependem de uma mudança radical de costumes. A demanda de água per capita nos Estados Unidos ultrapassa os 500 litros, dez vezes o recomendado pela ONU. Enquanto isso, áreas pobres quase não têm acesso ao recurso. Moçambique é dono de um dos piores cenários, onde há apenas 4 litros de água limpa por morador.
Para controlar o gasto, todo cidadão precisa rever seus hábitos cotidianos, como deixar a torneira aberta enquanto escova os dentes ou tomar longos banhos. Mas soa injusto cobrar exclusivamente uma nova postura individual. São essenciais também políticas públicas que repreendam o desperdício.
A Califórnia é exemplo mundial nesse aspecto. São Paulo vê secar seu principal reservatório, o da Cantareira, cujo nível está em 3%. Seu primeiro estoque de volume morto, cota que repousa no fundo das represas, abaixo do túnel que costuma drenar a água, e, por isso, mais suja que o usual, deve desaparecer no próximo mês.
A segunda parcela segurará o abastecimento por poucos meses. Enquanto isso, o governo promete entregar obras que aumentarão a captação de água, e já se cogitou importar recursos hídricos de outros estados. São apenas paliativos, que em nada ajudarão a longo prazo se o desperdício não for controlado. Para o Brasil e para o mundo, a crise da água serve como alerta. Se não cuidarmos dos escassos recursos que temos, desenharemos um futuro cada vez mais árido.

10.746 – Seca – Cisterna: você ainda vai ter uma


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Quem mora nas grandes cidades do Sul e do Sudeste raramente ouve falar nelas. Muitos nem sabem o que são, ao contrário da região do semiárido do Nordeste, onde são populares, enormes e fazem parte do cotidiano. Nestes novos tempos de mudanças climáticas, entretanto, as cisternas – reservatórios para armazenamento de água, inclusive das chuvas – passam a ser itens essenciais também no dia-a-dia de quem vive nesta parte de baixo do mapa do Brasil, tamanha é a crise no abastecimento de água.
Na capital paulista, por exemplo, já surgiu o Movimento Cisterna Já. Ele está incentivando a instalação e uso de reservatórios de tamanho reduzido para a captação das águas pluviais. Tão rara nesses dias, elas são preciosas demais para que sejam desperdiçadas escorrendo pelos ralos.
O Cisterna Já foi criado por pessoas preocupadas em disseminar atitudes mais sustentáveis e humanizadoras entre os moradores das grandes cidades. Entre elas as hortas urbanas.
Não é difícil montar e instalar uma dessas minicisternas em casa. Nem caro. A água recolhida das chuvas pode representar até a metade do que é consumido normalmente em uma residência. Embora não possa ser utilizada para beber, ela serve perfeitamente para a limpeza geral, a descarga do vaso sanitário e para regar plantas.
Na página do movimento na internet há um detalhadíssimo passo a passo para a instalação. Ele inclui, desde onde encontrar os materiais necessários – em geral uma bombona, tubos de PVC e uma torneira – até vídeos e reportagens mostrando todos os procedimentos.
Para quem mora em São Paulo, o Cisterna Já também está organizando oficinas e mutirões para ensinar como construir o pequeno reservatório. Dia 9 de novembro haverá um desses eventos, dentro da programação do Festival da Praça da Nascente, no bairro de Vila Madalena.
Os tempos mudaram e manter uma cisterna para aproveitar o que cai do céu gratuitamente – e está em falta aqui embaixo – é mesmo uma grande ideia. Os nordestinos que o digam.

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10.614 – Alguém viu água por aqui? – Seca nascente do Rio São Francisco, em Minas Gerais


Nascente do S. Francisco
Nascente do S. Francisco

Não há água na nascente mineira do Rio São Francisco, que fica localizada no Parque da Serra da Canastra, no município de São Roque de Minas. A informação é dos funcionários do parque, que disseram ainda que os principais afluentes do rio também estão secos.
A situação alarmante é inédita, nunca antes havia sido relatado algo parecido. Além da falta de chuvas na região – e em outros diversos estados brasileiros, incêndios no parque podem ter contribuído para este desastre porque muita água teria sido utilizada para conter as queimadas. Só em julho deste ano, 40 mil hectares de vegetação nativa da Serra da Canastra pegaram fogo.
O “Velho Chico”, como é conhecido o maior rio do Nordeste, tem 2.800 quilômetros de extensão e atravessa os estados da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, além do local onde nasce, Minas Gerais.
Apesar de ter outras nascentes, a estiagem prolongada provoca muita preocupação em relação aos reflexos que podem surgir no restante de sua bacia hidrográfica.
A falta de água pode afetar a produção de energia na região. O volume útil da Represa de Três Marias, a primeira barragem construída ao longo do rio e situada a 250 km da nascente, chegou a cair a 6% nesta semana.
O Comitê da Bacia do São Francisco promete realizar audiências públicas envolvendo governos, sociedade civil, comunidades ribeirinhas e empresas para discutir o problema e tentar encontrar alternativas para minimizar a situação. A principal solução, entretanto, ainda depende da natureza: chuva para a região.

10.074 – Falta d’água em São Paulo – São Pedro, esse santo não faz milagre


Sistema Cantareira seco
Sistema Cantareira seco

É fato que São Pedro não tem sido lá muito amigo dos paulistas nestes primeiros meses de 2014. Desde dezembro, o Estado de São Paulo vive sua pior estiagem em mais de 80 anos. Agora, acender vela para que o apóstolo abra as portas do céu e faça a água cair sobre as represas sedentas não é a solução mais racional.
Aqui em terra, a preservação e proteção desse recurso é responsabilidade de todos, mas sua correta gestão recai, principalmente, sobre o poder público.
Caprichos da natureza não são suficientes para justificar que o Estado com o maior PIB do país e lar de 10% da população brasileira esteja à beira de um colapso d´água.
Com o passar das semanas e o aprofundamento do drama da Cantareira, que atingiu seu pior nível ontem, de 12,5%, fica cada vez mais cristalino que tem alguma coisa errada na gestão da água paulista.
A suspeita é reforçada pela recente admissão pela Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) de que existe, sim, risco de ocorrer rodízio de água, caso os níveis dos reservatórios da companhia no Estado de São Paulo não sejam reestabelecidos.
Faz pelo menos quatro anos que o Estado de São Paulo está a par dos riscos de desabastecimento de água na Região Metropolitana.
Em dezembro de 2009, o relatório final do Plano da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê, feito pela Fundação de Apoio à USP, não só alertou para a vulnerabilidade do sistema Cantareira como sugeriu medidas cabíveis a serem tomadas pela Sabesp a fim de garantir uma melhor gestão da água.
O estudo afirmava que o sistema da Cantareira tinha “déficits de grande magnitude”. Entre as recomendações feitas pelo relatório estavam a instauração de processos de monitoramento de chuvas e vazões do reservatório e implementação de postos pluviométricos.
O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) vai instaurar, ainda nesta semana, um inquérito civil para esclarecer a crise no Sistema Cantareira.
Além de considerar a falta de chuvas sobre as bacias hidrográficas que alimentam a Cantareira nos primeiros meses do ano, o inquérito vai apurar informações sobre a possibilidade de erros de gestão da Sabesp.
À frente do inquérito está o 1º Promotor de Justiça do Meio Ambiente da capital, José Eduardo Ismael Lutti.
Referência em matéria de direito ambiental, o promotor já fez críticas públicas à possíveis falhas dos órgãos competentes pelo abastecimento de água e ao próprio governo Alckmin.
“Temos o pior sistema de gestão de recursos hídricos que se pode imaginar”, afirmou durante evento em São Paulo, em março, numa crítica direta a possíveis intervenções políticas.
Com a crise instalada, entraram em cena algumas medidas de emergência na tentativa de amenizar o problema.

9973 – Desenvolvimento – Programa Água para Todos


água p todos

Decreto Nº 7.535 de 26 de julho de 2011
Art. 1o Fica instituído o Programa Nacional de Universalização do Acesso e Uso da Água – “ÁGUA PARA TODOS”, destinado a promover a universalização do acesso à água em áreas rurais para consumo humano e para a produção agrícola e alimentar, visando ao pleno desenvolvimento humano e à segurança alimentar e nutricional de famílias em situação de vulnerabilidade social.

água na seca

A iniciativa do Programa Água Para Todos é do Ministério da Integração Nacional, como parte das ações previstas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A finalidade é a de universalizar o acesso ao uso da água a partir do repasse de recursos federais para ações que garantam acesso à água para as comunidades rurais cujos habitantes se encontram em situação de vulnerabilidade social.
A Secretaria do Desenvolvimento Agrário do Ceará e o Ministério da Integração Nacional vão liberar na segunda-feira (26) recurso para financiar 151 projetos de abastecimento de água do Água para Todos. No total serão investidos R$ 29,1 milhões, e 6.391 famílias serão beneficiadas.
Com os projetos, as famílias terão água de qualidade nas residências e não dependerão mais de outras fontes de abastecimento, segundo o Governo do Estado. “As famílias beneficiadas não precisarão mais carregar latas d’água na cabeça, abastecer suas residências com água de carros pipa, além de diminuir os riscos de contaminação por doenças que tenham como veículo a água”, afirma o coordenador de Programas e Projetos Especiais da SDA, Wanderley Guimarães.

7803 – O Sertão vai virar mar?


Aracati, nos sertões do Ceará; cantarino na Chapada do Araripe — divisa de Pernambuco com o Ceará —, porque assovia ao atravessar a serra: um vento forte, de nordeste para sudoeste, que sopra pontualmente entre 19 e 21 horas e refresca agradavelmente as noites de primavera. Mas, para os nordestinos, a mesma brisa benfazeja é o primeiro sinal de tragédia. Quando sopra nas últimas semanas de dezembro e no mês de janeiro, é sintoma certo de seca. Seca que será tão mais grave e inevitável se não chover até 19 de março, dia de São José. Durante séculos, enquanto os meteorologistas torciam o nariz, essas foram duas das formas de o sertanejo fazer a previsão do tempo para a temporada das chuvas na região, entre março e abril. Agora, respaldados pelas observações de satélites meteorológicos e modernos computadores, os climatologistas dão a mão à palmatória: os sertanejos tinham razão.
O que o sertanejo não sabia é que as secas do Nordeste têm origem em lugares tão distantes quanto o Sudeste asiático e o círculo polar ártico. O que é compreensível: os próprios cientistas levaram décadas para entendê-las. São provocadas por dois intrincados e fascinantes mecanismos gerais de circulação de ventos no planeta. São fenômenos que se estabeleceram provavelmente há 20 000 anos, no fim da última grande era glacial. O primeiro e mais importante é composto pelas áreas de baixa e alta pressão atmosférica no Pacífico equatorial — a pressão atmosférica não é igual em todo o globo terrestre — conhecido como “célula de Walker”.
Na década de 1920, o inglês Gilbert Walker descobriu que o padrão meteorológico do Oceano Pacífico equatorial contém uma área de baixa pressão atmosférica sobre a Indonésia e o norte da Austrália e uma área de alta pressão no oceano, próximo à costa da América do Sul, resultado da lei física de que o ar quente tende a subir e o ar frio tende a descer. De maio a setembro, as águas quentes do Oceano Índico e do Mar da China provocam a ascensão de um vento quente e úmido, criando o que os meteorologistas chamam de área de baixa pressão. A ascensão desse vento úmido, também chamada de convecção, leva à formação de nuvens e chuvas, no fenômeno conhecido no Sudeste asiático como monções. Livre da água, o vento viaja sobre o Pacífico a uma altura de 15 quilômetros em direção ao leste. Nesse trajeto, o vento se resfria e tende a descer sobre o oceano, próximo à costa oeste da América do Sul, criando uma área de alta pressão atmosférica.
O ar de cima para baixo impede a formação de nuvens de chuvas, o que, ao longo de milhares de anos, levou ao surgimento do deserto do sul do Chile e da região de Lima, no Peru. Parte dessa coluna de ar retorna em direção à Austrália e à Indonésia, enquanto uma parcela, novamente aquecida, toma novo movimento ascendente sobre a Amazônia, provocando chuvas na região, e desce sobre o Nordeste brasileiro, onde recebe os nomes de aracati ou cantarino, para refrescar as noites de primavera.
As nuvens de chuva da zona de convergência intertropical são alimentadas em boa parte pelo sistema de baixa pressão atmosférica da região da Terra Nova, no Canadá, próximo ao círculo polar ártico. Quando a baixa pressão é mais forte na Terra Nova, o ar úmido engrossa a ZCIT que se desloca em direção às águas mais quentes próximas ao equador, acompanhando com um pequeno atraso o movimento do Sol. Assim, quando o Sol atravessa a linha do equador no equinócio de outono do hemisfério sul, entre os dias 20 e 21 de março, a zona de convergência intertropical atinge sua posição mais ao sul, com o seu centro sobre a cidade de Quixadá, a 5° de latitude sul, no sertão cearense, provocando as chuvas do dia de São José.
Às vezes, porém, a chuva não chega. O movimento da zona de convergência intertropical depende da tempertatura das águas no oceano, que na região equatorial varia entre 26° e 29°. E uma variação de 1 a meio grau entre as águas do Atlântico norte e do sul é a diferença entre um “inverno” chuvoso ou seco. Com as águas do Atlântico norte mais frias, a ZCIT desloca-se para o sul, trazendo suas nuvens carregadas. Se as águas do Atlântico estiverem mais frias no sul, entretanto, as chuvas serão despejadas na Amazônia e sobre a Ilha de Marajó. Para o nordestino será a seca, a fuga da asa-branca, a terra calcinada e a fome. Sem culpa de São José.

Mar de água doce no subsolo
Só o Piauí abriga um volume de águas subterrâneas quatro vezes maior que a Baía de Guanabara. Mas os projetos para aproveitá-las estão engavetados.
A certeza de que não falta água no Nordeste não é nova. Já em 1984, o Projeto Radam, do Ministério das Minas e Energia, constatava através de sensoreamento remoto a existência de um potencial de 220 bilhões de metros cúbicos de água nas áreas mais afetadas pelas secas. Desse total, 85 bilhões de metros cúbicos estavam na super-fície da terra e 135 bilhões subterrâneas, sendo 15 bilhões em rochas cristalinas, de difícil perfuração, e 120 bilhões em rochas sedimentares, mais fáceis de perfurar para alcançar o lençol freático. Somente no Piauí, afirma o geólogo Aldo da Cunha Rebouças, presidente da Associação Brasileira de Águas Subterrâneas, o reservatório hídrico sob a terra é superior em quatro vezes à Baía de Guanabara.
Um exemplo desse potencial é o poço Violeta, no vale do Rio Gurguéia, no sudoeste do Piauí, o poço de maior vazão da América Latina, com um jorro de 800 000 litros por hora, à tem-peratura de 60° e altura de 27 metros — equivalente a aproximadamente um edifício de nove andares —, suficiente para abastecer uma população de l00 000 pessoas.
Chove no Polígono uma média de 400 a 700 milímetros por ano. Sete vezes mais, por exemplo, que na Califórnia, uma das regiões de agricultura mais desenvolvidas no mundo. A diferença está no gerenciamento desses recursos. Enquanto na Califórnia cada litro é criteriosamente estocado e aproveitado, o Nordeste brasileiro morre de sede enquanto a água se evapora sem uso por falta de redes de distribuição. Segundo a Funceme — Fundação Cearense de Meteorolgia e Recursos Hí-dricos, somente o projetado açude Castanhão, com seu espelho de água de 650 quilômetros quadrados, poderá perder anualmente 1 bilhão de litros por evaporação. Pior ainda é quando se armazena a água apenas para torná-la inutilizável.

Açude do Cedro

Resultado de uma promessa do imperador Pedro II — de que empenharia até a última jóia da coroa para acabar com a seca do Nordeste —, o açude do Cedro começou a ser construído em 1884, mas só ficou pronto em 1906. A barragem de 15,5 metros de altura e 415 metros de comprimento é toda de pedra talhada a mão, guarnecida por esculturas de pedra e grades de ferro importadas. Seus 128 milhões de metros cúbicos de água não chegam para matar a sede da região de Quixadá e os equipamentos de irrigação só beneficiam alguns poucos. Tombado pelo Patrimônio Histórico em 1987, o açude do Cedro é um monumento centenário à política de combate às secas: demorado, caro, suntuoso e ineficiente.
Na época ainda não havia sido cunhada a expressão “indústria da seca”, que só surgiria em 1959, mas foi para evitar esses erros e rebater as críticas pelo mau uso do dinheiro público que, em 1906, foi criado o Dnocs — Departamento Nacional de Obras contra a Seca. O governador Ciro Gomes, do Ceará, costuma dizer que o problema da seca poderia ser resolvido em dez anos, com a aplicação de 2 bilhões de dólares em programas que seguissem um bom planejamento estratégico. Nos 88 anos desde sua criação o Dnocs consumiu 6 bilhões de dólares em dezenas de milhares de açudes, projetos de irrigação e poços.
A maioria dessas obras, porém, foi feita em propriedades particulares, sem benefícios diretos para a população do Polígono das Secas, uma área de 947 150 quilômetros quadrados que vai do norte de Minas Gerais ao Piauí, campo especialmente fértil apenas pa-ra as denúncias de corrupção e mani-pulação de verbas com objetivos políticos.

Os ventos contra o Nordeste
Quando eles descem sobre a região, a umidade não sobe e as nuvens de chuva não se formam. Entenda como os ventos lá da Indonésia acabam afetando o nosso Nordeste:
Os ventos oriundos de baixa pressão sobre a Indonésia cruzam o Pacífico a 15 000 metros de altitude;
Com o Pacífico aquecido, devido ao El Niño, os ventos frios descem junto à costa oeste da América do sul;
Parte da coluna de vento, novamente aquecido, torna a subir, provocando chuvas no Peru e na região amazônica;
Após perder calor e umidade, o vento volta a descer, agora sobre o Nordeste, impedindo a formação de nuvens de chuva.

5445 – Ecologia – Coleta da água da chuva para matar a sede


O Programa 1 Milhão de Cisternas Rurais (P1MC) pretende, em cinco anos, construir uma cisterna – espécie de poço que coleta água da chuva – para cada casa do semi-árido nordestino. As conseqüências disso? Acabar, de uma vez, com a falta de água para beber no sertão. Reduzir drasticamente a mortalidade infantil. Combater o analfabetismo, aumentar a renda, organizar as comunidades. Enfraquecer o coronelismo, frear o êxodo rural, diminuir a desigualdade entre homens e mulheres, difundir o respeito pela natureza. Em resumo: mudar, de repente e para sempre, uma verdade que parecia tão antiga e imutável quanto o sertão: a de que não há água suficiente no Nordeste.
Há água, sim. Chove todo ano no semi-árido (se não chovesse, não seria “semi”). Mesmo na pior das secas, mesmo nos lugarejos mais esquecidos, a quantidade anual de chuva não fica abaixo de 200 milímetros (a medida se refere à altura da coluna de água que se acumula em um recipiente). É pouco. Mas é suficiente para dar água de qualidade para uma família de cinco pessoas beber por um ano. Basta arrumar um jeito de coletar essa água antes que ela suma no chão. E o jeito mais simples é instalando calhas dos dois lados do telhado para conduzi-la para um reservatório de concreto – a cisterna –, onde ela ficará protegida dos parasitas e da evaporação. A água que se acumula lá dá para uma família beber e cozinhar por um ano. Nos anos de seca, ela deve ser usada só para beber.
Simples, mas revolucionário. A idéia é fazer 1 milhão de cisternas – ou seja, suprir completamente a demanda do sertão. Por enquanto, só 4 000 saíram do papel – o projeto começou no final de 2001. Mas o ritmo das construções deverá aumentar exponencialmente, na medida em que mais cidades e ONGs se envolvem, mais patrocinadores se interessam (por enquanto, só o governo federal põe dinheiro, através da Agência Nacional de Águas) e mais governos assumem a construção de cisternas como política pública.
Sem obras faraônicas, o P1MC está mudando de forma radical a vida de milhões de pessoas, ensinando-lhes uma forma nova de se relacionar com o ambiente. A idéia é que é possível conviver com a seca em vez de combatê-la, desde que se entenda o que é a caatinga e que se tire dela os recursos de que a população necessita.
E tem mais: o P1MC gera renda a milhares de pedreiros no Nordeste. Vários deles estão fazendo o curso oferecido pelas entidades que formam a ASA para aprender a erguer as cisternas. E, para cada obra concluída, eles ganham 100 reais. Pode parecer pouco, mas está muito acima da média do sertão (onde os salários são tão baixos que a maior fonte de renda é a aposentadoria rural). Dá-se preferência a pedreiros da própria comunidade.
As cisternas são feitas com placas pré-moldadas de cimento. Trata-se do modelo mais barato que o programa encontrou – algo como 700 reais, incluídos os 100 do pedreiro. O projeto não surgiu em nenhum gabinete com ar-condicionado – foi desenvolvido por um agricultor, a partir do know-how de quem convive com a seca. Essa, aliás, é uma das vantagens do programa. Não se trata de propor soluções de fora para dentro. As ONGs envolvidas, a maioria com nomes dos quais você provavelmente nunca ouviu falar, como CPT, Cefas e Technes, atuam no sertão há tempos e conhecem os problemas que querem resolver. A ASA nem sequer tem estrutura própria – usa as das ONGs associadas. Dessa forma, não gasta com salários, carros ou aluguel. Não é por outro motivo que 80% do dinheiro investido chega à ponta – ou seja, vira benefício para a população –, porcentagem altíssima para ONGs.

Cidade Seca – Projeto para irrigação


Quilômetros de solo cinzento esturricado, com forte cheiro de enxofre. É a cidade de São Miguel do Fidalgo. Em 1972 o DNPM perfurou um poço com mil metros de profundidade, mas a água era quente, com quase 50°C e continha sais de magnésio, cálcio e potássio em excesso e alto teor de enxofre, sendo inútil para o consumo. A água vindo de um gigantesco lençol a quase mil metros de profundidade rompeu o revestimento, se espalhou pelo solo e passou a jorrar malcheirosa. A solução é cara, mas possível. Um projeto prevê o uso da água do Rio Piauí para encher a lagoa, diluindo os sais e o enxofre depositados desde 1972. A água é captada do Rio Piauí e bombeada através de um canal para as lagoas. Na época das cheias a água é liberada rio abaixo. O custo: 8 milhões de reais e as 22 lagoas ao longo do Rio Fidalgo voltam a ser um oásis. Mas o governo alegou não ter verbas.