10.703 – Planeta Água (?) – Escassez ou Abundância?


Iceberg,apenas uma fração está na superfície
Iceberg,apenas uma fração está na superfície

A água é o recurso natural mais abundante do planeta. De maneira quase onipresente, ela está no dia a dia dos 7 bilhões de pessoas que habitam o planeta. Além de matar a sede, a água está nos alimentos, nas roupas, nos carros e nos jornais impressos— se você está lendo a reportagem em seu tablet, saiba também que muita água foi usada na fabricação do aparelho. Mas o recurso mais fundamental para a sobrevivência dos seres humanos enfrenta uma crise de abastecimento. Estima-se que cerca de 40% da população global viva hoje sob a situação de estresse hídrico. Essas pessoas habitam regiões onde a oferta anual é inferior a 1 700 metros cúbicos de água por habitante, limite mínimo considerado seguro pela Organização das Nações Unidas (ONU). Nesse caso, a falta de água é frequente — e, para piorar, a perspectiva para o futuro é de maior escassez. De acordo com estimativas do Instituto Internacional de Pesquisa de Política Alimentar, com sede em Washington, até 2050 um total de 4,8 bilhões de pessoas estará em situação de estresse hídrico. Além de problemas para o consumo humano, esse cenário, caso se confirme, colocará em xeque safras agrícolas e a produção industrial, uma vez que a água e o crescimento econômico caminham juntos. A seca que atingiu os Estados Unidos no último verão — a mais severa e mais longa dos últimos 25 anos — é uma espécie de prévia disso. A falta de chuvas engoliu 0,2 ponto do crescimento da economia americana no segundo trimestre deste ano.
A diminuição da água no mundo é constante e, muitas vezes, silenciosa. Seus ruídos tendem a ser percebidos apenas quando é tarde para agir. Das dez bacias hidrográficas mais densa- mente povoadas do mundo, grupo que compreende os arredores de rios como o indiano Ganges e o chinês Yang-tsé, cinco já são exploradas acima dos níveis considerados sustentáveis. Se nada mudar nas próximas décadas, cerca de 45% de toda a riqueza global será produzida em regiões sujeitas ao estresse hídrico. “Esse cenário terá impacto nas decisões de investimento e nos custos operacionais das empresas, afetando a competitividade das regiões”, afirma um estudo da Veolia, empresa francesa de soluções ambientais.
Em muitos países em desenvolvimento e pobres, a situação é mais dramática. Falta acesso a água potável e saneamento para a esmagadora maioria dos cidadãos. Só o tempo perdido por uma pessoa para conseguir água de mínima qualidade pode chegar a 2 horas por dia em várias partes da África. Pela maior suscetibilidade a doenças, como a diarreia, quem vive nessas condições costuma ser menos produtivo. Essas mazelas já são assustadoras do ponto de vista social, mas elas têm implicações igualmente graves para a economia. Um estudo desenvolvido na escola de negócios Cass Business School, ligada à City University, de Londres, indica que um aumento de 10% no número de pessoas com acesso a água potável nos países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) conseguiria elevar o crescimento do PIB per capita do bloco cerca de 1,6% ao ano. “O avanço econômico depende da disponibilidade de níveis elevados de água potável”, aponta Josephine Fodgen, autora da pesquisa.
Mais renda, mais consumo
Desde a década de 90, a extração de água para consumo nos centros urbanos do Brasil aumentou 25%, percentual que é o dobro do avanço do PIB per capita dos brasileiros no mesmo período. Quanto maior é a renda de uma pessoa, mais ela tende a consumir e maior é seu gasto de água. Isso é o que se convencionou chamar de pegada hídrica, a medida da quantidade de água utilizada na fabricação de tudo o que a humanidade consome — de alimentos a roupas. O conceito e os cálculos desenvolvidos na Universidade de Twente, na Holanda, permitem visualizar em números o impacto até mesmo da mudança da dieta dos povos que enriqueceram rapidamente. “Uma enorme quantidade de água é gasta hoje para que o mundo consuma mais carne”, explica Ruth Mathews, diretora executiva da Water Footprint Network, rede de pesquisadores que estudam o tema.

6798 – Planeta Terra – Um Mundo Aguado (?)


Há cerca de 120 mil anos, o nível dos oceanos ficava 6 metros acima do nível atual. Em apenas 1 século, desceu 9 metros. Uma das provas é uma rocha nas costas das Bahamas. Tal descoberta surpreendeu pelo curto período em que o atual aquecimento da atmosfera pode ter efeitos dramáticos em apenas 2 gerações.

Um Pouco +
“A Terra é azul”, constatou Yuri Gagarin, o primeiro e privilegiado astronauta que a avistou lá de cima. E é azul porque tem 1,5 bilhão de quilômetros cúbicos de água. Tomando apenas sua extensão de superfície, temos 70% mais água do que terra firme no planeta. O ciclo é perfeito e interminável: o Sol aquece o solo, os rios e os mares; então, o vapor sobe, agrega-se formando nuvens, daí cai em chuva, alimentando rios, lagos, represas e lençóis subterrâneos. É assim desde que o mundo é mundo, o que nos leva a pensar que água é um recurso natural abundante e inesgotável.
Apenas 2,7% desse 1,5 bilhão de quilômetros cúbicos é de água doce, própria para consumo. Mais: dessa já pequena porcentagem, grande parte está congelada nas regiões polares. Somente 0,7% está escondida no subsolo e mísero 0,007% está na forma de rios e de lagos. Se pegarmos uma garrafa com 1,5 litro de água e a dividirmos proporcionalmente, como a encontramos no planeta, a quantidade de água doce disponível seria equivalente a uma única e insignificante gota. Para complicar as coisas, esse pouco que temos está cada vez mais poluído, especialmente nos grandes aglomerados urbanos. Cerca de dez milhões de pessoas morrem todo ano por causa do consumo de água contaminada.
Há 150 anos a possibilidade de escassez era coisa de malucos. Só que, no século 20, a população mundial triplicou. Mais gente quer dizer mais fábricas, mais desperdício e, principalmente, mais irrigação nas lavouras. Resultado: o consumo de água nesse período acabou aumentando seis vezes! De acordo com o Banco Mundial, cerca de 80 países, hoje, enfrentam problemas de abastecimento. “Mais de um bilhão de pessoas não têm acesso a fontes de água de qualidade”, acrescenta Kofi Annan, secretário geral das Nações Unidas (ONU).
Nos países desenvolvidos, ocorre contaminação das águas por resíduos industriais e, principalmente, por nitratos de sódio, cálcio e potássio encontrados nos fertilizantes usados na agricultura. Esses nitratos, altamente cancerígenos, infiltram-se na terra e, com a ajuda da chuva, são carregados para rios, lagos e lençóis freáticos. Nos países menos desenvolvidos, a questão da água doce e limpa está relacionada ao desperdício, mas principalmente ao esgoto. “Cerca de dois e meio bilhões de pessoas no mundo vivem sem saneamento básico”, garante Annan, da ONU. Ou seja, pouco menos da metade dos seres humanos continua jogando seus dejetos na água – ou na terra, que, no fim, leva à água. Na Ásia, 850 bilhões de litros de esgoto são despejados nos cursos d’água anualmente. Levando em conta que cada litro de sujeira inutiliza 10 litros de água, a idéia de escassez não é, definitivamente, coisa de malucos.

5308 – Planeta Água – A Terra é azul


É azul porque tem 1,5 bilhão de quilômetros cúbicos de água. Tomando apenas sua extensão de superfície, temos 70% mais água do que terra firme no planeta. O ciclo é perfeito e interminável: o Sol aquece o solo, os rios e os mares; então, o vapor sobe, agrega-se formando nuvens, daí cai em chuva, alimentando rios, lagos, represas e lençóis subterrâneos. É assim desde que o mundo é mundo, o que nos leva a pensar que água é um recurso natural abundante e inesgotável.
Apenas 2,7% desse 1,5 bilhão de quilômetros cúbicos é de água doce, própria para consumo. Mais: dessa já pequena porcentagem, grande parte está congelada nas regiões polares. Somente 0,7% está escondida no subsolo e mísero 0,007% está na forma de rios e de lagos. Se pegarmos uma garrafa com 1,5 litro de água e a dividirmos proporcionalmente, como a encontramos no planeta, a quantidade de água doce disponível seria equivalente a uma única e insignificante gota. Para complicar as coisas, esse pouco que temos está cada vez mais poluído, especialmente nos grandes aglomerados urbanos. Cerca de dez milhões de pessoas morrem todo ano por causa do consumo de água contaminada.
Há 150 anos a possibilidade de escassez era coisa de malucos. Só que, no século 20, a população mundial triplicou. Mais gente quer dizer mais fábricas, mais desperdício e, principalmente, mais irrigação nas lavouras. Resultado: o consumo de água nesse período acabou aumentando seis vezes! De acordo com o Banco Mundial, cerca de 80 países, hoje, enfrentam problemas de abastecimento. “Mais de um bilhão de pessoas não têm acesso a fontes de água de qualidade”, acrescenta Kofi Annan, secretário geral das Nações Unidas (ONU).
Nos países desenvolvidos, ocorre contaminação das águas por resíduos industriais e, principalmente, por nitratos de sódio, cálcio e potássio encontrados nos fertilizantes usados na agricultura. Esses nitratos, altamente cancerígenos, infiltram-se na terra e, com a ajuda da chuva, são carregados para rios, lagos e lençóis freáticos. Nos países menos desenvolvidos, a questão da água doce e limpa está relacionada ao desperdício, mas principalmente ao esgoto.
Para evitar a crise da água, serão necessárias doses de bom senso e muito dinheiro. Teremos de evitar o desperdício, interromper os processos poluidores e criar novas maneiras de captação, controle e distribuição. Em alguns países desenvolvidos, a água do esgoto é tratada e depois reaproveitada. No município americano de Orange County, onde fica a Disneylândia, a população bebe água de esgoto reciclada há mais de 20 anos. O mesmo acontece no Estado do Arizona, onde 80% do esgoto vai para as torneiras. De acordo com dados do Departamento de Recursos Hídricos da Agência Nacional da Terra, o Japão reutiliza cerca de 80% de toda a água destinada à indústria. No noroeste da Índia, lençóis freáticos foram salvos com uma idéia barata – e pra lá de óbvia: poços no quintal para recolher água da chuva!
Na maioria dos países já existe consenso a respeito da cobrança pelo uso da água bruta – aquela que é captada sem tratamento, diretamente de rios, lagos ou represas. Há anos a França implantou essa política, cobrando a água bruta usada em irrigação, uso doméstico e industrial e, assim, tem minimizado seus problemas. O Japão cobra caro por toda a água tirada de seus reservatórios, tornando o reaproveitamento quase uma obrigação. Vale lembrar que na maioria dos países, inclusive no Brasil, paga-se pelo serviço de fornecimento da água, não pela água em si. Os críticos do esquema de cobrança, porém, alegam que os mais pobres são prejudicados com essa medida. Ou seja, podem até acontecer revisões nesse capítulo, mas, em países onde a falta de água potável é crítica, a cobrança está se tornando fundamental.