10.362 – Mega Tour – Trem inspirado em vagões de luxo viaja pelo ‘Equador profundo’


equador mapa

O friozinho típico da manhã em Quito ganhou ares mais quentes assim que o antigo sino da estação de trens de Chimbacalle, no centro da cidade, soou para anunciar a partida de mais uma viagem.
Inspirado nos trens de luxo europeus, o novo Tren Crucero Ecuador viaja por quatro dias entre desfiladeiros, vulcões, parques nacionais, comunidades indígenas, mercados tradicionais e pequenas cidades ligadas à história férrea e econômica do país.
Com apoio também do governo federal e investimentos de mais de US$ 280 milhões (R$ 615 milhões), foram reabilitados mais de 450 km de linhas férreas para fazer esse itinerário sair do papel.
Hoje o trem viaja de Quito à litorânea Guayaquil atravessando os Andes em vagões novinhos, mas sem abrir mão da locomotiva a vapor do início do século 20 restaurada.
Cada viagem leva no máximo 54 passageiros. Os vagões são decorados à moda dos originais, com inspiração europeia nas mesas e cadeiras, dispostas de modo que todo viajante tenha uma janela.
A cada regresso ao trem, mimos para os passageiros: de frutas a produtos típicos do país, como a colada morada, bebida preparada com farinha de milho escura, especiarias e frutas vermelhas.
O atendimento pode ser em português, espanhol, inglês, alemão e francês. Todas as noites, os passageiros desembarcam e são acomodados em “haciendas”, fazendas típicas do período colonial equatoriano.
Dentre elas, merece destaque a Hato Verde (haciendahatoverde.com ), uma propriedade familiar com vista para o vulcão Cotopaxi nas proximidades de Lasso. Ali, a família Mora-Bowen, recebe até 18 hóspedes por noite. No jantar, todos comem juntos, em duas mesas, com os anfitriões sentados entre eles, trocando experiências de viagem e curiosidades culturais de seus países.
Ao longo dos quatro dias, o viajante visita lugares que, à exceção dos parques nacionais, até então não estavam acostumados a receber turistas: assentamentos indígenas, centros de cultivo e exportação das rosas equatorianas e fazendas de cacau.
Vimos manguezais, florestas, vulcões, glaciar e margeamos o rio Alauisi, que chegou a deixar a ferrovia submersa em 1998 durante uma manifestação do El Niño.
No mercado semanal da minúscula Guamote éramos os únicos turistas entre habitantes locais que compravam produtos agrícolas e carnes, muitas vezes na base do escambo –uma saca de legumes podia ser trocada por um porquinho, por exemplo.
Durante a viagem, o trem arranca pela sinuosa ferrovia oscilando de mais de 3.000 metros de altitude até o nível do mar. Fica visível a geografia do país, cortado de norte a sul pela cordilheira dos Andes, com as planícies costeiras, as montanhas permeadas por rios, riachos e lagos, os vulcões com cumes cobertos de neve e as florestas.

trem equador

Um dos trechos mais esperados é no penúltimo dia, quando o trem desce a sinuosa região serrana ao final dos Andes batizada de “Nariz del Diablo”. Ganhou o nome porque suas curvas estreitas em penhascos eram o maior temor dos maquinistas no século passado. Hoje, tanta sinuosidade, emoldurada pela cordilheira, é puro deleite fotográfico para os viajantes.
Como os moradores dos vilarejos por onde passa o trem –como Colta, onde está primeira igreja católica do Equador e, segundo os moradores, a segunda mais antiga da América do Sul– ainda estão pouco acostumados com turistas, acenam entusiasmados quando o trem passa e, nas paradas, se aproximam para saber de onde vêm os forasteiros. Não raras vezes, são os passageiros que ganham ares de atração turística.
TREN CRUCERO ECUADOR
SAÍDAS semanais, de junho a março
PREÇO US$ 1.270 (R$ 2.794), com passeios, hospedagem e refeições nos quatro dias; é possível fazer partes do itinerário; o tour de um dia sai US$ 236 (R$ 519)