10.813 – Cinema – Verdades e mitos científicos no filme ‘Interestelar’


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Com a ajuda do consultor científico Kip Thorne, professor aposentado do Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia), os criadores do filme rechearam a trama com alguns dos conceitos mais desafiadores da física moderna. Em alguns casos, como o das influências bizarras que os buracos negros podem exercer sobre a passagem do tempo, a história tem uma boa dose de precisão científica. Em outros, as leis da física são submetidas a gambiarras ficcionais que fariam Einstein se revirar na cova.
A participação de Thorne, que ajudou a escrever uma das primeiras versões do roteiro junto com a produtora Lynda Obst, não se deu por acaso. O físico é justamente um dos principais estudiosos dos chamados “buracos de minhoca” – supostas conexões diretas entre pontos distantes do espaço (e do tempo).
É a descoberta de um desses túneis cósmicos, nas vizinhanças de Saturno, que permite aos astronautas do filme viajarem rapidamente para uma galáxia distante, tentando achar um planeta que poderia servir de lar para a humanidade presa a uma Terra moribunda.
As equações da teoria da relatividade geral, formuladas por Einstein, parecem permitir a existência desses trecos – o que não significa que eles de fato estejam por aí, lembra Rojas. “Nada garante que seria possível, além de abrir o buraco, mantê-lo estável e capaz de ser atravessado de maneira suave, sem falar no tipo de energia necessária para criá-lo”.
Após cruzarem o buraco de minhoca, nossos heróis chegam a um sistema planetário dominado por um buraco negro supermaciço, chamado Gargântua. Três planetas potencialmente habitáveis existem nessa região galáctica, e o grupo vai tentar obter dados de um deles, mas o problema é que, no caso desse planeta, a influência da gravidade de Gargântua é tão forte que uma hora na superfície equivale a sete anos da Terra.
Um objeto extremamente maciço, como um buraco negro, seria como uma bola de boliche colocada em cima de um colchão macio: sua presença “afunda” o espaço-tempo, levando à passagem mais lenta do tempo da perspectiva de quem está perto do astro “obeso”.

As contas de Thorne mostram ainda que um planeta orbitando o monstro cósmico até poderia escapar de virar purê por causa da gravidade do buraco negro. Problemas maiores são a fonte de luz dos planetas – haveria uma estrela companheira do buraco negro, nunca citada na história? – e a forte radiação emitida pelo objeto conforme ele vai atraindo e “devorando” matéria de suas vizinhanças. Tal radiação poderia acabar matando rapidamente os viajantes espaciais.
Essas dificuldades são fichinha, porém, perto do fato de que Cooper, o astronauta vivido por Matthew McConaughey, resolve mergulhar dentro de Gargântua para obter dados essenciais para salvar a raça humana, permitindo a evacuação da Terra. É verdade que ninguém ainda sabe de fato o que há no coração de um buraco negro, mas o certo é que nada sobreviveria a um mergulho num deles.

10.768 – Interestelar – O que a Física tem a dizer sobre o filme?


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O filme que retrata buracos negros, wormholes e viagem no tempo é uma experiência e tanto. Principalmente àqueles que sempre se interessaram por galáxias distantes e pelas teorias dos físicos Stephen Hawking e Kip Thorne.
Thorne, aliás, foi uma das principais inspirações de Christopher Nolan e seu irmão, Jonathan, na realização do filme. Conhecido por sua expertise no campo da relatividade geral, o físico também se tornou responsável pela área de “fidelidade científica” do longa. Sobre isso, Thorne reuniu todas as experiências de trabalho em Hollywood para escrever o livro “The Science of Interstellar”, lançado no dia 7 de novembro.
Em entrevista à ScienceAaas, o cientista contou um pouco sobre a sua impressão final do filme protagonizado por Matthew McCounaghey lançado no dia 6 de novembro. “Em sua essência, a história mudou completamente. A não ser pela ideia de que temos exploradores deixando a Terra e usando wormholes para visitar outras galáxias, é basicamente tudo trabalho do Nolan. Mas a visão continuou, a visão de um filme baseado em ciência real, seja ela verdade ou especulação. Isso foi preservado, agradando muito a mim e a minha mulher”.
Quando perguntado sobre a “praga” que assola a Terra no filme, ele diz: “A gente reuniu os melhores cientistas e estudiosos sobre pragas para um jantar. Aí Jonathan, minha mulher Lynda e eu conversamos com eles sobre fatores biológicos capazes de acabar com o nosso planeta”.
Para o físico, algo trazido pelo diretor Christopher Nolan foi uma surpresa muito agradável: “Quando ele me disse que estava pensando em usar o tesseract (análogo a um cubo 4D), senti um grande impacto. O que ele criou nesse filme é mais complexo do que tudo já visto no cinema. É fascinante e lindo”.
Kip Thorne acredita que a reprodução do buraco negro realizada em ‘Interestelar’ é “maravilhosa”. No geral, o cientista acha que foi um ótimo trabalho em parceria: “Para mim, é uma descoberta impressionante saber que tudo isso produzido foi resultado de uma colaboração entre cientistas e artistas”.