14.117 – História – O Que a Cerveja Tem a ver com o Conhecimento Humano?


cerveja antiga
Em 2016, pesquisadores britânicos descobriram uma placa com símbolos cuneiformes — uma das primeiras técnicas de escrita desenvolvidas pela humanidade — em uma região do Iraque onde viveu a civilização Assíria há mais de 5 mil anos. O objeto arqueológico revelava uma particularidade curiosa: na placa estavam registradas as palavras equivalentes a “cerveja” e a “holerite”, o que levou os cientistas à conclusão de que a bebida alcoólica era o pagamento dos trabalhadores da época.

Nada como um happy hour animado após um dia duro de labuta. Mais do que uma ode às alegrias (e às tragédias) vividas pela humanidade, entender a relação das primeiras civilizações com a cerveja é também uma maneira de estudar como o conhecimento humano foi capaz de desenvolver tecnologias que solidificaram as relações econômicas, sociais e culturais ao longo da História.
Obtido por meio da fermentação de açúcares, o álcool etílico acompanha a humanidade há pelo menos 10 mil anos: pesquisadores descobriram vestígios da bebida em jarros encontrados no Irã. A data coincide com o advento da agricultura, quando a humanidade passou a dominar a terra e conseguir produzir em larga escala as matérias-primas que dariam origem a alimentos como o pão e à cerveja.

No Egito Antigo, consumir o “pão líquido” era uma questão de pura necessidade. De acordo com o especialista Michael Klutstein, da Universidade de Jerusalém, todos bebiam cerveja, até mesmo as crianças. “A água era contaminada e imprópria para consumo. Cada pessoa ingeria entre 3 e 6 litros de cerveja por dia na época”.
Klutstein faz parte da equipe israelense que recriou a “cerveja dos Faraós”, de 5 mil anos de idade. O feito foi possível porque os pesquisadores descobriram uma levedura da época utilizada no processo de fermentação da bebida, o que lhes permitiu atingir um resultado parecido com a gelada feita no passado. “Degustadores profissionais descreveram o gosto como ‘frutado’ e ‘caseoso’”, conta.
Para quem não está acostumado com a linguagem gourmet, caseoso significa uma aparência ou um gosto similar ao de um queijo (e você pensando que as cervejas artesanais diferentonas eram exclusividade do século 21). Klutstein também explica que a produção de cervejas era vital para a sociedade egípcia daquele período, mais importante até que a fabricação de pães.

Tal particularidade, entretanto, não era exclusiva dos povos que viviam naquela região do planeta. Um time de arqueólogos dos Estados Unidos publicou, no início de 2019, um estudo que revela a importância do consumo da bebida local, conhecida como chicha, para o fortalecimento de traços culturais e a estabilidade política do império Tiauanaco-Huari. Esse povo viveu nas montanhas de Cerro Baúl, ao sul do Peru, estabelecendo seu poder na região entre 500 d.C e 1000 d.C. De acordo com as análises realizadas, as mulheres da elite local eram responsáveis pela preparação da bebida — que provavelmente só era consumida por pessoas da mesma classe social e em comemorações.
Segredo medieval
Enquanto ditava costumes e castigava os fiéis que fugiam da retidão moral apregoada durante a Idade Média, a Igreja Católica produzia litros e mais litros de cerveja em suas abadias na Europa. Detentores do conhecimento, os monges eram responsáveis por criar receitas para a produção de cervejas de boa qualidade (a bebida era considerada mais segura do que a água infectada dos castelos e vilarejos).

A tradição se manteve com o passar dos séculos (veja abaixo). Em maio de 2019, monges de uma abadia na Bélgica encontraram um caderno recheado de receitas para fermentação alcoólica. Segundo Michael Parker-McCrory, porta-voz da abadia, os registros foram escondidos por padres em 1798, quando o templo foi incendiado.
Encontrar o livro motivou os membros da cervejaria belga Grimbergen a lançar uma edição especial da bebida dos monges, que será vendida em uma rede de mercados na Europa. “A nova microcervejaria apresentará a fabricação de cervejas de volta ao seu ponto de partida medieval”, relatou McCrory. A ideia, diz, é “combinar a tradição com técnicas modernas”. Isso porque, sem a utilização de ingredientes contemporâneos, o sabor da cerveja seria literalmente parecido com o de um “pão líquido”. Afinal de contas, nem sempre aquilo que é retrô é necessariamente gostoso.

Cervejarias antigas que ainda estão na ativa

WEIHENSTEPHAN
Fundada em 1040 em um mosteiro alemão na região da Baviera. É considerada a cervejaria mais antiga do mundo ainda em operação.

WELTENBURG
Instalados em um convento alemão desde o século 7, os monges iniciaram a produção da cerveja em 1050.

AUGUSTINER-BRÄU
É a cervejaria mais antiga da cidade de Munique: foi fundada em 1328 na terra do Oktoberfest.

GROLSCH
Cervejaria criada em 1615 na cidade holandesa de Groenlo, passou pelo controle de diferentes famílias e hoje faz parte do grupo japonês Asahi.

SMITHWICK’S
Fundada na Irlanda em 1710, utiliza uma receita típica da região para produzir uma cerveja mais “encorpada” em relação ao gosto brasileiro.

14.106 – Estudo revela segredo de conservação dos Manuscritos do Mar Morto


manuscritos
Manuscritos com textos bíblicos

Um estudo publicado no jornal Science Advances revelou a “tecnologia” de conservação que estaria por trás da incrível preservação dos Manuscritos do Mar Morto, um conjunto de textos hebraicos de mais de 2 mil anos achados entre as décadas de 1940 e 1950, por pastores que estavam à procura de suas cabras na região das cavernas de Qumran, atualmente localizado em território palestino, na Cisjordânia.
Um total de 900 documentos são o que sobraram dos manuscritos — para o estudo, os pesquisadores analisararam o chamado “Pergaminho do Templo”, o mais longo dos Manuscritos do Mar Morto, que mede mais de 7,5 metros.
O material do Pergaminho do Templo é um dos mais finos entre os manuscritos — a grossura dele é de apenas um décimo de um milímetro — mas é o documento que está mais limpo para se escrever e é provavelmente o mais bem conservado, segundo os cientistas.
Os pesquisadores recolheram um fragmento de 2,5 centímetros do Pergaminho do Templo e o investigaram com técnicas especiais para determinar a sua composição com o uso de um microscópio.
Havia no papel desse pergaminho específico ainda elementos químicos como sódio, cálcio e enxofre em proporções diferentes conforme a superfície. Os cientistas descobriram também que o documento é feito de uma mistura de sais com evaporitos — rochas sedimentares formadas por reações químicas feitas pelo contato de sais com a água.
O papel de todos os Manuscritos do Mar Morto foram feitos de pele animal limpa e colocada em uma solução para ser tratada. Por último, o material era seco e muitas vezes era esfregado no sal.
Segundo o co-autor do estudo, Ira Rabin, da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, o estudo que revelou a composição do pergaminho pode ter implicações que vão muito além dos Manuscritos do Mar Morto, podendo servir para identificar outros documentos que podem ser estudados por historiadores. “Esse estudo mostra que no amanhecer dos manuscritos do Oriente Médio, várias técnicas estavam em uso, o que contrasta com a única técnica usada na Idade Média”, afirmou Rabin.
Encontrado por pastores que percorriam as cavernas de Qumram, no final da década de 1940, os Manuscritos do Mar Morto contam com uma série de fragmentos da Bíblia Hebraica, além de livros apócrifos e os preceitos dos essênios, antigo grupo judaico que vivia de modo reservado em Qumram.

14.080 – Linguística – Origem da Linguagem Humana


linguas
As linguas humanas são caracterizadas por ter uma articulação dupla (na caracterização do linguista francês André Martinet). Isso significa que expressões linguísticas complexas podem ser divididas em elementos significativos (como os morfemas e as palavras), que por sua vez são compostos de elementos fonéticos mais pequenos que afetam o significado, chamados fonemas. Os sinais de animais, no entanto, não apresentam essa estrutura dupla
Em geral, as emissões de animais são respostas a estímulos externos e não se referem a assuntos removidos no tempo e no espaço. As questões de relevância à distância, como as fontes de alimentos distantes, tendem a ser indicadas a outros indivíduos pela linguagem corporal, por exemplo, a atividade do lobo antes de uma caçada ou a informação transmitida na linguagem da dança das abelhas. Por isso, não está claro até que ponto as expressões são respostas automáticas e até que ponto a intenção deliberada desempenha um papel.
Em contraste com a linguagem humana, os sistemas de comunicação animal geralmente não são capazes de expressar generalizações conceituais. (Cetáceos e alguns primatas podem ser excepções notáveis).
As línguas humanas combinam elementos para produzir novas mensagens (uma propriedade conhecida como criatividade). Um fator nisso é que muito crescimento da linguagem humana baseia-se em idéias conceituais e estruturas hipotéticas, sendo ambas as capacidades maiores do que os animais. Isso parece muito menos comum em sistemas de comunicação animal, embora pesquisas atuais sobre cultura animal ainda sejam um processo contínuo com muitas novas descobertas.
Uma área recente e interessante de desenvolvimento é a descoberta de que o uso da sintaxe na linguagem e a capacidade de produzir “frases”, também não se limita aos seres humanos. A primeira boa evidência de sintaxe em não-humanos, relatada em 2006, é o maior macaco com nariz (Cercopithecus nictitans) da Nigéria. Esta é a primeira evidência de que alguns animais podem tomar unidades de comunicação discretas e construí-las em uma seqüência que então traz um significado diferente das “palavras” individuais:
Os maiores macacos com nariz pontilhado têm dois sons de alarme principais. Um som conhecido como o “pyow” avisa contra um leopardo à espreita, e um som de tosse que os cientistas chamam de “hack” é usado quando uma águia está voando nas proximidades.
“Observacionalmente e experimentalmente, demonstramos que esta seqüência [de até três” aberturas “seguido de até quatro” hacks “] serve para desencadear o movimento de grupo. A seqüência desse som significa algo como ” vamos! ” [Um comando dizendo aos outros para se mover]. As implicações são que os primatas, pelo menos, podem ignorar a relação usual entre uma chamada de alarme individual e o significado que pode transmitir sob certas circunstâncias. A nosso conhecimento, esta é a primeira boa evidência de um sistema de comunicação natural semelhante a uma sintaxe em uma espécie não humana “.
Resultados semelhantes também foram relatados recentemente no macaco Mona de Campbell.
A origem da linguagem entre os humanos tem sido o tema de discussões acadêmicas desde alguns séculos. Apesar disso, não há consenso sobre a definitiva origem ou a idade da linguagem humana. Um problema faz com que o tema seja difícil de ser estudado: a óbvia falta de evidências diretas. Consequentemente, os especialistas que desejam estudar as origens da linguagem precisam inferir a partir de outros tipos de provas, tais como os registros fósseis, evidências arqueológicas, a partir da atual diversidade linguística, a partir de estudos sobre aquisição de linguagens, e das comparações entre a linguagem humana com sistemas de comunicação existentes entre outros animais, particularmente o que foi pesquisado em relação a outros primatas. Há quem argumente que as origens da linguagem provavelmente se relacionem estreitamente com as origens da modernidade comportamental, havendo, porém, pouco consenso sobre as implicações e o direcionamento dessa conexão.
A carência de evidências empíricas levou muitos estudiosos a encarar todo esse assunto como inadequado para um estudo sério. Em 1886, a “Société de Linguistique de Paris” baniu todos estudos antigos e mesmo os futuros sobre o assunto, uma proibição que se manteve influente na maior parte do mundo ocidental até o final do século XX.
Hoje, porém, há muitas hipóteses sobre como, por que, quando e onde a linguagem deve ter começado a emergir.
Parece que há muito mais concordância hoje do que o que havia cem anos atrás, quando a teoria da evolução de Charles Darwin com seu conceito de seleção natural, provocou uma onda de especulações acadêmicas sobre o tema.
Desde o início dos anos 90, porém, houve um crescimento do número de profissionais de linguística, arqueologias, psicologia, antropologia, etc. que procuraram se alinhar a novos métodos para solucionar o que alguns consideram o “mais difícil problema da ciência”.
Noam Chomsky é proeminente defensor da teoria da descontinuidade. Chomsky argumenta que uma oportunidade única de mutação ocorreu em um indivíduo por volta de 100 mil anos atrás, instantaneamente tendo sido instalada a faculdade de linguagem (um componente da mente-cérebro) numa forma “perfeita” “quase perfeita”. De acordo com este ponto de vista, a emergência da linguagem foi muito parecida com a formação de um cristal; “Infinidade Digital” foi o cristal semente em um cérebro de primata super-saturado, a ponto de desabrochar para a mente humana, pelas leis da física, uma vez que uma única peça pequena, mas crucial e, fundamental foi adicionada pela evolução. Entende-se, portanto, a partir dessa teoria que a linguagem se fez aparecer repentinamente na história da evolução humana.
Teorias com base na continuidade dominam os estudos atuais, mas a forma como isso é encarado varia. Dentre aqueles que vêem a linguagem como sendo principalmente inata, alguns – notadamente Steven Pinker— evitam a especulação sobre precursores dentre primatas não humanos, com forte insistência na teoria de que a faculdade da linguagem teria evoluído de forma gradual.

14.071 – História – Américo Vespúcio


vespucio
Navegador italiano naturalizado espanhol (1454-1512). Responsável pela logística das embarcações de Colombo e pioneiro da navegação na costa americana.

Américo Vespúcio (1454-1512) nasce em Florença. Recebe boa educação em Pisa, aos cuidados de um tio dominicano, e na França, onde aprofunda os conhecimentos de geografia, astronomia e cosmografia. De volta à Itália, trabalha na casa bancária da Família Médici. É transferido em 1491 para a filial em Sevilha, na Espanha, onde equipa navios para enfrentar longas viagens, sob a chefia de Gianotto Berardi. É Vespúcio que prepara as embarcações para todas as expedições de Cristóvão Colombo. Em 1497, após a morte de Berardi, Vespúcio assume o comando da filial de Sevilha e embarca em sua primeira viagem. O destino são as Índias, no entanto ela se encerra na Flórida, em território hoje pertencente aos Estados Unidos. Na segunda missão, entre 1499 e 1500, atinge a costa da América do Sul, porém imagina estar navegando pelo extremo leste da Ásia. Só na viagem de 1501, iniciada em Portugal, Vespúcio se convence de que as terras não fazem parte da costa asiática, mas são um continente até então desconhecido – um Novo Mundo, que em sua homenagem recebe o nome de América. Em 1508 é nomeado piloto-mor da Espanha. Morre em Sevilha.

14.061 – Biologia e Paleontologia – Como Surgiram as Aves?


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Dentre as diversas teorias acerca da origem das aves, a mais aceita e difundida hoje é que esses animais evoluíram a partir de algumas espécies de dinossauros. Esta teoria foi fundamentada na descoberta de um fóssil de dinossauro em 1861 na Alemanha cuja presença de penas chamou atenção. O fóssil foi chamado de Archaeopteryx lithographica (asa antiga), sendo classificado como a ave mais primitiva e considerado como um fóssil de transição entre répteis e aves. As impressões das penas no substrato fóssil são bem claras e exibem uma diferenciação das penas em rêmiges primárias e secundária, disposição igual à das aves atuais, o que sugere que a Archaeopteryx teria capacidade de realizar voo batido. Mesmo assim a evolução das penas, do voo e das aves em si podem não estar relacionadas. Apesar do aparecimento das penas em dinossauros, o voo batido, por exemplo, evoluiu em três grupos diferentes de vertebrados: os pterossauros, as aves e os morcegos.
Antes mesmo do Archaeopteryx, alguns dinossauros apresentavam alguns tipos de plumagens primitivas que eram diferentes das penas das aves modernas ou daquelas apresentadas pelo Archaeopteryx. Tal descoberta levantou a hipótese de que as penas podem ter surgido primeiramente para outras funções além do voo. Alguns pesquisadores defendem a ideia de que as penas teriam surgido a partir de seleção sexual, como adornos selecionados pelas fêmeas. Apesar de ser uma teoria plausível, não seria suficiente para, isoladamente, ter forçado o surgimento de penas muito maiores, pois caracteres sexuais geralmente ocorrem somente nos machos ou de forma discreta nas fêmeas. Há ainda a possibilidade das penas terem conferido outras vantagens adaptativas, como um melhor controle da temperatura corpórea.

Quanto à evolução do voo em si, pode-se apontar duas principais teorias: teoria “chão-ar” e teoria “árvore-ar”. No primeiro caso, os animais teriam começado a voar a partir do solo através de corridas ou impulsos. Na segunda teoria o voo teria acontecido quando animais arborícolas realizavam pulos nas copas das árvores e usavam as penas para planar durante os saltos. Apesar da segunda teoria parecer mais palpável por ter menos resistência da força da gravidade, não há evidências de organismos intermediários entre o voo planado e o voo batido (em que há gasto energético), o que pode sugerir que o voo batido não teve sua origem no voo planado. Por outro lado, estudos demonstram que as asas do fóssil Archaeopteryx seriam capazes de gerar um impulso suficiente para fazê-lo voar, já que a força do impulso seria perpendicular à gravidade e não contra ela. O fato é que ambas as teorias deixam lacunas em aberto e abrem espaço para novos e modernos estudos que se propõem a esclarecer completamente a origem do voo e consequentemente das aves.

14.060 – Religião Viking


odin
Os povos Vikings, que habitaram a Escandinávia (atual Noruega, Suécia e Finlândia), no Norte da Europa, possuíam crenças religiosas pagãs, ou seja, não cristãs. Os mitos religiosos desses povos são conhecidos hoje como mitologia nórdica.
Os Vikings não eram extremamente religiosos, sendo o culto aos deuses realizado em épocas específicas ou em ocasiões individuais, isto é, quando uma pessoa procurava o favor divino. Um exemplo de festival religioso dos nórdicos era o Jól (também conhecido como Yule), que era realizado no inverno e que foi depois apropriado pelos cristãos e transformado na comemoração do nascimento de Cristo, o Natal. Outro exemplo de festival religioso é o Álfablót, que é visto de acordo com as fontes originais como festival de cura ou de celebração dos ancestrais. Já o culto individual estava relacionado com pedidos aos deuses e normalmente apresentava pequenos sacrifícios ou pequenos rituais de magia.
Apesar de não possuírem uma classe de sacerdotes dedicada à religião, essa função, principalmente nos rituais e festivais, era realizada pelos reis ou nobres em espaços sagrados ou templos construídos para finalidades religiosas, como o Templo de Uppsala, na Suécia. Os vikings acreditavam em seres míticos, como elfos (Álfar) e anões (Dvergar), além de gigantes (Jötunn) e dragões. Um ser mítico importante na religião viking era as Nornas, que eram seres divinos que regiam o destino dos homens. A visão de universo dos nórdicos estava centralizada na Yggdrasil, um freixo que interligava os nove mundos existentes.
Possuíam como principal deus Odin, considerado o deus mais poderoso da religião nórdica e chamado de “pai dos deuses”. Conforme Johnni Langer:
Outros deuses importantes eram Thor, Freyja, Balder, Týr, Loki etc. O fim do mundo para os nórdicos aconteceria no chamado Crepúsculo dos deuses (Ragnarök), no qual os deuses seriam destruídos, assim como parte do universo, após uma batalha final. Entretanto, estudos recentes defendem a influência do cristianismo no Ragnarök, e outros apontam que o mito do fim do universo possuía pouca influência na religiosidade viking. Os vikings foram gradativamente sendo cristianizados a partir do século X, com a religiosidade tradicional vinda do paganismo ficando restrita ao ambiente privado e presente no folclore popular nórdico.

14.059 – As invasões vikings


drakkars
Durante a Baixa Idade Média, a civilização viking deu início a uma série de invasões que marcariam o instável quadro político militar europeu. Pertencentes a uma civilização de forte tradição militarista, os vikings acreditavam que os conflitos ocupavam um importante espaço de suas crenças e práticas sociais. Dessa forma, entre os séculos VIII e XI, deflagraram um grande número de batalhas que tomaram boa parte do Velho Mundo.
Os vikings são oriundos das gélidas terras encontradas nas regiões da Noruega, Dinamarca e Suécia. Nestas regiões – apesar da falta de recursos fartos – praticavam a agricultura, a pesca e o comércio de diversos produtos como trigo, peixes, metais, madeira e alguns escravos. Historicamente, foram capazes de formar uma cultura autônoma, tendo em vista que os romanos não promoveram a ocupação dos domínios escandinavos.
Mesmo partilhando diversos hábitos e costumes, os vikings não experimentaram nenhum tipo de governo centralizado capaz de organizar as invasões à Europa. Geralmente, pequenos grupos independentes organizavam as pilhagens que começaram a atingir o mundo europeu a partir das ilhas britânicas. Faziam uso do drakkar, tipo de embarcação leve, com a qual os vikings alcançaram a Europa por vias marítimas e pluviais. Não por acaso, iniciaram a ocupação da Europa Continental adentrando o Rio Sena.

Apesar das invasões atingirem essas duas primeiras localidades, a ocupação dos vikings ocorreu simultaneamente em diversas partes da Europa. Um dos alvos mais visitados era a Irlanda, que devido à proximidade e a ajuda dos ventos fazia com que essa investida militar ocorresse sem maiores dificuldades. Enquanto os vikings noruegueses e dinamarqueses invadiam regiões da Espanha e da França, os suecos costumavam invadir partes da Polônia, Letônia, Lituânia e Rússia.

Ao contrário do que se pensa, não podemos definir que a invasão realizada pelos vikings tenha ocorrido por uma mera inclinação para a guerra. De acordo com algumas pesquisas, o processo de expansão territorial dessa civilização foi gradual e, provavelmente, foi motivado pelo problema do aumento dos contingentes populacionais em terras pouco férteis. Contrariando vários mitos ligados a essa civilização, os vikings não eram xenófobos e realizavam comércio com vários povos estrangeiros.
Outra interessante “tradição inventada” vinculada aos povos vikings está relacionada ao hábito de utilizar elmos com chifres. Pesquisas arqueológicas indicam que uma pequena parte dos combatentes utilizava esse tipo de aparato, mais comumente usado para a realização de rituais religiosos. Essa associação entre os vikings e os chifres aconteceu com a popularização, durante o século XIX, de peças teatrais e óperas que incorporaram esse vistoso ornamento.

Nesse processo de expansão, também responsável pela colonização de diversas terras nórdicas, os vikings acabariam antecipando em cinco séculos a viagem feita por Cristóvão Colombo. Por volta do ano 1000, segundo vestígios encontrados na costa leste do Canadá, um grupo de vikings dominou algumas terras nesta região investigada. Contudo, as dificuldades de fixação e o confronto com os povos nativos acabaram dando fim a essa empreitada.

Na mesma época, por volta do século XI, a expansão dos povos vikings pela Europa começava a dar seus primeiros sinais de desgaste. Além de sofrerem com diversas derrotas militares, o avanço do cristianismo pelo continente acabou enfraquecendo a formação de novas tropas dispostas a lutar. Apesar de tantas transformações, as tradições e lendas criadas por essa civilização ainda se mostra presente em diversos traços da cultura européia contemporânea.

14.058 – O Fim do Mundo Segundo os Vikings


fim do mundo viking
Ragnarök é o termo dado à crença dos vikings a respeito da morte de seus deuses e do fim da era em que viviam. A palavra Ragnarök tem origem no nórdico antigo, e sua tradução, segundo Johnni Langer, é “consumação dos destinos dos poderes supremos”.
Na crença dos vikings, o Ragnarök consistiria em uma sucessão de eventos catastróficos que levariam à destruição do Universo e à morte de parte dos deuses.
Importante frisar que o termo “viking” é utilizado para se referir aos povos nórdicos que habitavam a Escandinávia durante a Era Viking, que abrange o período de 793 a 1066. Esse período iniciou-se com as navegações realizadas pelos nórdicos, responsáveis por levá-los para diversos locais, como Islândia, norte da França, América do Norte, etc.
O que é Ragnarök?
Ragnarök é o termo usado para se referir aos eventos narrados em alguns registros escandinavos que mostram como os vikings acreditavam que o Universo em que viviam acabaria. Esse tipo de discurso que retrata o fim do homem e do mundo é chamado de escatologia. Para os vikings, o Ragnarök seria marcado por grandes batalhas entre deuses, gigantes e outras figuras míticas.
Na narrativa nórdica, os eventos do Ragnarök seriam antecedidos por um período chamado fimbulvetr, em que ocorreriam três longos invernos consecutivos. Nesse período, o mundo ficaria coberto com geadas, e a violência tomaria conta do mundo. A respeito desse acontecimento, o registro nórdico narra o seguinte:
Após o longo inverno, a sequência de novos acontecimentos seria o prelúdio de que o Ragnarok iniciava-se. Os nórdicos acreditavam que dois lobos (Skoll e Hati) finalmente alcançariam e devorariam o sol e a lua, depois de persegui-los eternamente. É importante observar que, para os nórdicos, a lua era um personagem masculino, e o sol, um personagem feminino.

Após isso, a escatologia nórdica afirmava que estrelas desapareceriam, aconteceriam tremores na terra, árvores seriam arrancadas e, finalmente, todas as correntes seriam quebradas. Nisso, os filhos de Loki (filho de Odin) marchariam para Midgard (mundo dos homens) para a batalha final. Os filhos de Loki que teriam papéis de destaque no Ragnarök eram o lobo Fenrir, a serpente que circundava o mundo chamada Jörmungandr e a deusa do mundo dos mortos chamada Hel.
Loki, por sua vez, navegaria rumo ao local da batalha final com o gigante de gelo Hrymir e seu exército no navio Naglfar. Esse navio era produzido com restos das unhas de todos os soldados que haviam morrido em batalha. Finalmente, Surtur e outros gigantes de fogo destruiriam a ponte Bifrost, que ligava Asgard (morada dos deuses) à Midgard.
Quando essa sucessão de eventos acontecesse, Heimdall, o guardião da Bifrost, soaria sua corneta e convocaria os deuses para que a batalha final fosse travada. Os exércitos que lutariam contra as forças de Loki seriam formados pelos deuses de Asgard, pelos einherjar
A luta que seria travada a partir dali teria o seguinte desfecho:
Odin lutaria contra o lobo Fenrir e seria devorado.

Vídar, filho de Odin, mataria o lobo Fenrir.

Thor, filho de Odin, lutaria contra Jormungandr, mataria a serpente, mas seria morto por seu veneno.

Frey (deus da fertilidade, relacionada à agricultura) lutaria contra Surtur e seria morto pelo gigante de fogo.

Týr (deus da justiça) lutaria contra Garmr, o cão que protege o mundo dos mortos, e ambos morreriam.

Loki lutaria contra Heimdall, e ambos morreriam na luta.

Por fim, Surtur incendiaria todo o Universo.

O Ragnarök sugere que o Universo seria destruído conforme mencionado, mas registros nórdicos também retratam o surgimento de um novo mundo. Esse mundo emergiria do mar e seria uma terra verde e bela, inicialmente habitada por um casal de humanos (Lif e Lifthrasir) que sobreviveram ao Ragnarök. Esse mundo que surgiria seria governado por Vidar e Vali, filhos de Odin e sobreviventes do Ragnarök, e contaria também com a presença de outros deuses: Modi, Magni, Balder e Hödr.
Quais são as fontes que registram o Ragnarök?
Os eventos relacionados ao Ragnarök foram registrados em diversos documentos que retratam a cosmologia (visão de mundo) dos nórdicos. O principal registro que menciona o Ragnarök é chamado Edda em Prosa, em especial um trecho do capítulo “Gylfaginning” (“O logro de Gylfi”).
A Edda Poética também é um documento que contém algumas menções ao Ragnarök, com destaque para o poema “Völuspá” (“A profecia da vidente”). Segundo aponta Johnni Langer, outros poemas da Edda Poética mencionam o Ragnarök, como “Lokasenna” (“O sarcasmo de Loki”) e “Vafþrúðnismál” (“A balada de Váfthrudnir”).
A Edda em Prosa é um documento escrito pelo historiador e poeta islandês Snorri Sturluson por volta do ano 1220. Essa obra foi dividida em vários capítulos, e um deles, em específico, organizou as crenças e os mitos da religião dos nórdicos.
A Edda Poética, por sua vez, é uma coleção de poemas nórdicos que narram diferentes histórias sobre os deuses em que os vikings acreditavam. Os poemas da Edda Poética fazem parte de um manuscrito chamado Codex Regius, encontrado na Islândia em 1643. O autor desses poemas é desconhecido até hoje.
A respeito do Ragnarök, existe uma certa contestação a respeito da veracidade desse mito, se de fato ele pertencia à crença religiosa dos vikings. Isso porque as evidências a respeito do Ragnarök são bem escassas. Existem aqueles que afirmam que a crença no Ragnarök é uma influência do Cristianismo na religiosidade dos vikings, mas não há consenso acadêmico sobre isso.
O historiador Johnni Langer sugere que a crença dos escandinavos no Ragnarök pode ter sido fruto da observação astronômica, mas também sugere que, se o Ragnarök não possui influências cristãs, pode não ter tido grande relevância na mentalidade nórdica, pois os registros, como citado, são bem raros.

14.053 – História – Arqueologia Industrial


fabrica antiga
Para abastecer a cidade de São Paulo em época de estiagem, no início do século XX, foi instalada uma bomba d’água a vapor na Serra da Cantareira. O equipamento – fabricado em Lincoln, na Inglaterra, em 1898 – elevava as águas da represa do Engordador. Assim como o fornecimento de energia elétrica e de gás, esse abastecimento permitiu a instalação e a expansão da industrialização de São Paulo. A importância da máquina foi tão grande que ela está preservada e tombada pelos órgãos de preservação do patrimônio, como relíquia histórica dos primórdios do abastecimento da cidade.
Para fazer investigações como essa, foi aplicada a metodologia da Arqueologia Industrial, ciência que tem como objetivo promover a pesquisa da herança industrial da humanidade e ajudar a compreender o que se perdeu com a mecanização dos hábitos e a banalização dos bens.
Outro exemplo de estudo feito a partir deste ramo da Arqueologia foi o da Fábrica de Tecidos São Luiz, de Itu, no interior de São Paulo. Construída em 1869, ela representa um tempo em que o cultivo do algodão era valorizado na região. Tanto que o brasilianista Warren Dean (1932-1994), em 1976, propôs que ela fosse estudada, como um dos marcos da industrialização têxtil em São Paulo.

complexo fepasa

14.052 – Arqueologia – Cronologia das Descobertas


Piedra-de-Rosetta
No mar, na terra ou no espaço, há sempre uma equipe de pesquisadores procurando pistas sobre o nosso passado. Eles estudam a riqueza de nossa história em materiais de todos os tipos, como lixo, ossos e vestígios de construções. Conheça algumas das diversas modalidades da Arqueologia:
Bíblica
Seu objetivo inicial era comprovar os relatos da Bíblia por meio de restos materiais. Mas hoje ela estuda os vestígios relacionados à história das religiões judaico-cristãs. A principal região pesquisada é a chamada Terra Santa, no Oriente Médio.

Industrial
Realizados a partir das evidências encontradas em fábricas, manufaturas e meios artesanais, os estudos nessa área analisam as transformações sociais, culturais e econômicas ligadas à produção.

Pré-histórica ou proto-histórica
Envolve os aspectos materiais de populações que não deixaram textos escritos. No caso do Brasil, a pré-história engloba o período anterior à chegada de Cabral.

Histórica
Procura pistas nos objetos de sociedades que deixaram registros escritos. Recentemente, porém, a disciplina vem passando por questionamentos sobre o uso de datas fixas para delimitar o que é história ou pré-história.

Subaquática e náutica
Dedica-se a estudos nas águas: interiores (rios, lagos, represas), marítimas ou oceânicas. Os pesquisadores, que em geral dominam técnicas de mergulho, têm cuidados especiais para conservar os objetos submersos e trazê-los à superfície, quando isso é necessário.

Zooarqueologia
Analisa as interações entre os seres humanos e os animais, inclusive o processo de domesticação e o uso como força motriz ou como alimento. O estudo é feito a partir de ossos, dentes e outros vestígios da fauna.

Do lixo
Procura desvendar o comportamento de uma comunidade estudando seus restos. A investigação é centrada em lixos, lixões e aterros sanitários.

Espacial e de paisagem
Amplamente influenciadas pela geografia, buscam instrumentos para estudar as populações do passado através da paisagem e do meio ambiente. Muitas vezes usam tecnologia avançada, como imagens produzidas por satélites.

Etnoarqueologia
Com base em grupos contemporâneos, os etnoarqueólogos criam analogias para pensar sobre comportamentos e hábitos por meio de objetos feitos por sociedades que não conhecemos mais.

De gênero
Há duas formas de entender esta modalidade. A primeira, ligada aos estudos feministas, analisa os vestígios arqueológicos que possam contribuir com a história das mulheres. A segunda procura descobrir pistas da interação entre os diferentes grupos de gênero e de idade identificadas nas escavações.

Geoarqueologia
É a interação da geografia com a arqueologia. Através do recolhimento de sedimentos superficiais e da análise do solo, procura-se compreender como a paisagem, a terra e seus componentes se modificaram ao longo do tempo na interação com grupos humanos.

Pública
Pretende compartilhar o resultado das pesquisas obtidas nas escavações com diferentes comunidades como os quilombolas, os índios, os trabalhadores de uma fábrica, etc. Dessa interação, surge um conhecimento transformado e trabalhado em conjunto com a população.

Da arquitetura
Procurar retirar vestígios em edifícios históricos através de procedimentos de análise pouco destrutivos para identificar materiais, técnicas e procedimentos construtivos e artísticos utilizados no passado. É bastante utilizada em projetos de restauração de prédios tombados e preservados.

Incríveis descobertas

Século XVIII – 1772
Pompeia – ITÁLIA
Encoberta pelas lavas do Vesúvio no ano 79 d.C., a cidade permaneceu intacta até o século XVIII, quando foi descoberta por um agricultor que localizou vestígios de um muro.

Moais – Ilha de Páscoa – CHILE
Estátuas esculpidas em pedra de dois a 20 metros de altura, santuários e vários escritos que exaltavam ancestrais sagrados foram descobertos na costa da ilha pelo holandês Jacob Roggeveen em 5 de abril, um domingo de Páscoa.

1773
Palenque – MÉXICO
Durante uma expedição, soldados e missionários espanhóis reencontraram a cidade maia de Palenque. Até hoje, o santuário, rodeado de vegetação, é cenário de inúmeros achados. Entre as construções destaca-se o Templo das Inscrições, uma pirâmide na qual foram encontrados, em 1952, cerca de 619 hieróglifos.

1799
Pedra de Roseta – EGITO
Encontrada por soldados de Napoleão, a estela era um decreto que regulava o culto ao faraó Ptolomeu V (332 a.C.). Foi escrita em três idiomas: grego, demótico e hieróglifos. Esta descoberta foi fundamental para a decifração dos hieróglifos.

1843
O Povo de Lagoa Santa – MINAS GERAIS – BRASIL
O arqueólogo dinamarquês Peter Lund descobriu em uma gruta, na lagoa do Sumidouro, fósseis de animais extintos e restos de 30 humanos de várias idades, comprovando a coexistência desses humanos com animais da Idade do Gelo.

1868
Jericó – TERRITÓRIO PALESTINO
Considerada a cidade mais antiga do mundo, Jericó, que hoje se localiza em um dos territórios palestinos, comemorou no ano passado seus 10 mil anos. Nos relatos bíblicos, é chamada de cidade das palmeiras. As primeiras escavações são de 1868, feitas pelo inglês Charles Warren (1840-1927).

1873
Cidade de Troia – COSTA DA TURQUIA
Depois de anos de escavações na colina de Hissarlik, os arqueólogos Heinrich Schliemann e Wilhelm Dörpfeld encontraram sete camadas da cidade de Troia. Uma delas era a conhecida cidade de Ilion, palco da grande guerra descrita por Homero.

1895
Megalitos – AMAPÁ – BRASIL
O zoólogo suíço Emílio Goeldi (1859-1917) e o tenente-coronel Aureliano Pinto de Lima Guedes (1848-1912) organizaram uma expedição ao Amapá, onde encontraram o fascinante sítio arqueológico com megalitos e peças variadas de cerâmica.
Século 20
1911
Machu Picchu – PERU
O mês de julho deste ano marcou o centenário da descoberta da cidade sagrada inca de Machu Picchu pelo arqueólogo americano Hiram Bingham. O santuário histórico, localizado no topo de uma montanha, mais de dois mil metros acima do nível do mar, faz parte do Patrimônio Mundial da Unesco desde 1983.

1912
Busto de Nefertiti – EGITO/ALEMANHA
Apesar de ser uma obra inacabada de apenas 50 cm de altura, o famoso busto é razão de brigas constantes entre a Alemanha, onde está hoje, e o Egito, onde foi encontrado. A descoberta, em 1912, foi feita por uma equipe arqueológica da Sociedade Oriental Alemã. Alvo de controvérsias sobre sua autenticidade, ele representaria a esposa do faraó Amenófis IV (mais conhecido como Akhenaton), pai de Tutankamon.

1922
Tumba de Tutankâmon– EGITO
O arqueólogo e egiptólogo britânico Howard Carter descobriu a luxuosa tumba, ainda intacta, do jovem faraó que governou o Egito há mais de 3.000 anos e que morreu misteriosamente.

1947
Escritos do Mar Morto – ISRAEL
Nas cavernas do deserto da Judeia, na região do Mar Morto, foram encontrados mais de 900 manuscritos. Feitos em papiros e em pergaminhos, os documentos continham textos bíblicos e apócrifos. Calcula-se que foram escritos entre III a.C. e II d.C.

1958
Catal Huyuk – TURQUIA
Um dos primeiros centros urbanos do mundo, de mais de 9 mil anos atrás, é considerado o principal sítio arqueológico da Turquia. Foi descoberto no fim dos anos 1950 e começou a ser escavado por James Mellaart na década seguinte. Desde 1993, um grupo internacional de arqueólogos, liderado por Ian Hodder, faz escavações e conta as novidades no site oficial do projeto: http://www.catalhoyuk.com

Anos 1960
Gobekli Tepe – TURQUIA
Considerado o local de culto religioso mais antigo do mundo, o sítio arqueológico de Gobekli Tepe (que, em turco, significa morro com barriga) é do início do período neolítico. Ele foi descoberto nos anos 1960, mas só foi estudado profundamente na década de 1990, por conta de uma parceria entre arqueólogos turcos e alemães.

1970
Sweet Track – INGLATERRA
Um importante exemplo de engenharia do período neolítico é a Sweet Track, uma das mais antigas estradas conhecidas, que foi construída por volta de 3800 a.C. Os principais componentes da estrada são cinzas, cal e tábuas de carvalho. A maior parte dela continua em seu local de origem, embora algumas partes estejam expostas em espaços como o British Museum.

1973
Serra da Capivara – PIAUÍ – BRASIL
O Parque Nacional da Capivara, criado em 1979, concentra o maior número de pinturas rupestres do mundo. A região tem mais de mil sítios arqueológicos. A primeira missão de investigação, em 1973, teve a participação da arqueóloga Niède Guidon, que até hoje trabalha no local.
1974
Guerreiros de Xi’an – CHINA
Foi por acaso que agricultores encontraram um exército inteiro de 8.000 soldados feitos de terracota. Os Guerreiros de Xi’an estavam em funerárias construídas no governo do primeiro imperador da China, Qin Shi Huang (246-221 a.C.).

1977/2010
El Zotz – GUATEMALA
Na região florestal de Péten, El Zotz é a maior metrópole maia descoberta até o momento. Foi encontrada em 1977 por Marco Antonio Bailey. No ano passado, uma equipe de arqueólogos descobriu uma câmara mortuária sob a pirâmide El Diablo, a maior do templo.

1986
Yonaguni – JAPÃO
Mergulhadores encontraram uma imensa estrutura em forma de pirâmide. A descoberta data de aproximadamente 8000 a.C., e ainda não se sabe se ela é uma obra-prima da engenharia da época ou um acaso da natureza.

1987
A catacumba de Minas Gerais – BRASIL
Uma ossada infantil envolvida em tecido foi encontrada na Gruta do Gentio, na cidade de Unaí. Devido às condições climáticas, conservou-se embalsamada, e na época foi apontada como a mais antiga múmia brasileira, com cerca de 3.500 anos.

1995
Baía de Saint-Malo – FRANÇA
A cidade francesa de Saint-Malo, às margens do Canal da Macha, é uma das mais ricas em história náutica e arqueologia subaquática. Em 1995, dois grandes navios corsários foram descobertos. Anos de escavações sob o mar revelaram as embarcações La Dauphine e L’Amaible Grenot, ambas naufragadas no século XVIII.
1998
Luzia – MINAS GERAIS – BRASIL
O biólogo e antropólogo brasileiro Walter Neves analisou um crânio encontrado na região e concluiu que é o mais antigo do continente americano, com mais de 11.500 anos. O material integra a coleção única de 75 crânios depositados no Museu de Copenhague, na Dinamarca, coletados por Peter Lund em Lagoa Santa no século XIX.

Século 21
2004
Mazagão Velho – AMAPÁ – BRASIL
O último baluarte lusitano no Marrocos havia sido invadido pelos mouros em 1769. Sem saída, o rei português D. José I ordena a transferência da cidade inteira, que tem como destino final a província do Grão Pará. Só em 2004 pesquisadores da UFPE iniciaram o trabalho de escavação dos resquícios da cidade transferida há mais de 200 anos.

2008
Pinturas a óleo – AFEGANISTÃO
As pinturas a óleo mais antigas do mundo estão em cavernas afegãs. A equipe formada por arqueólogos japoneses, americanos e suíços que as encontrou afirma que datam do século VII d.C, ou seja, centenas de anos antes do início da pintura a óleo na Europa. Elas mostram cenas de seres míticos e figuras de Buda trajando vestes vermelhas.

2010
Pinturas rupestres – SOMÁLIA
Guerras e secas fizeram da Somália um país quase sem investigação arqueológica. No entanto, no ano passado, pinturas de animais, que devem ter sido feitas há mais de 4.000 anos, foram descobertas pela University College London.

2011
As novas pirâmides – EGITO
Este ano, imagens em infravermelho captadas por satélites detectaram a existência de 17 pirâmides enterradas no Egito. A equipe de arqueólogos liderada por Sarah Parcak já encontrou duas delas por meio de escavações.

2011
Embarcação do Faraó – EGITO
No mês de julho, arqueólogos egípcios e japoneses começaram a desenterrar um barco encontrado aos pés da pirâmide de Gizé, no Egito. Com idade aproximada de 4,5 mil anos, ele serviria para transportar a alma do faraó Quéops em viagens para acompanhar o deus-Sol Amon-Rá. Após um longo trabalho de remontagem, ele se juntará a outra embarcação, encontrada em 1917, como uma das maiores descobertas arqueológicas do Egito.

2011
Submarino alemão – SANTA CATARINA – BRASIL
Foram encontrados em julho os restos do primeiro dentre 11 submarinos alemães afundados em nossa costa durante a 2ª guerra mundial. O U513, que chegou a afundar um navio mercante brasileiro, foi localizado por uma equipe de pesquisadores e arqueólogos subquáticos da Univali e do Instituto Kat Schurmann. Os trabalhos de busca foram filmados e farão parte de um documentário.

2011
Jesuítas – PARANÁ – BRASIL
Depois de anos de busca, historiadores anunciaram a descoberta do sítio arqueológico da Missão Jesuítica San Joseph, fundada em 1625 na cidade de Cambé, no Paraná. O anúncio foi feito pela arqueóloga Cláudia Inês Parellada, do Museu Paranaense, e é de grande importância para o estudo das reduções jesuíticas no Brasil. A Missão San Joseph foi provavelmente destruída pelos bandeirantes em 1631.

2011
Erotismo na pré-história – ALEMANHA
Arqueólogos encontraram, pela primeira vez, imagens de mulheres nuas em cavernas da Idade da Pedra na Alemanha. Para os pesquisadores envolvidos, as gravuras foram utilizadas em rituais de fertilidade há mais de 12 mil anos.

2011
Santo Filipe – TURQUIA
Depois de anos de procura, arqueólogos acreditam ter achado a tumba – ainda não aberta – de São Filipe, um dos doze apóstolos de Jesus, em Pamukkale, no sudoeste da Turquia. Encontrada embaixo de escombros de uma Igreja, a descoberta, de acordo com os especialistas, é de grande importância para o mundo cristão e a arqueologia.

2011
Gatos olmecas – MÉXICO
Uma pedra da cultura olmeca com relevo de três gatos foi descoberta por pesquisadores do Instituto Nacional de Antropologia e História do México. O artefato possui mais de uma tonelada e data de, aproximadamente, 2,8 mil anos.

2011
Afro-descendentes – ESTADOS UNIDOS
Nan Rothschild, arqueóloga da Universidade de Columbia (EUA), encontrou vestígios de uma comunidade de afro-americanos construída no século XIX no coração de Nova Iorque. Há indícios de que o local foi desapropriado para dar lugar ao Central Park, o maior parque de Manhatan.

14.051 – História do Alcoolismo


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Para a Igreja, as bebidas alcoólicas levavam à loucura. Mas nativos e escravos apreciavam – e muito – as aguardentes
A aguardente de cana exercia um efeito devastador sobre a comunidade indígena. Esta foi a mensagem que o padre alemão João Brawer – que participava de uma missão na aldeia de Ibiapaba, no Ceará – escreveu em carta enviada à rainha portuguesa D. Maria Ana em 1750. Segundo o religioso, a bebida roubava toda a vontade própria dos índios, era “fonte de muitas desordens, pois com ela se ferem e matam uns aos outros” e houve até “quem, na embriaguez, vibrou a si próprio umas poucas facadas no ventre”. O uso do álcool era incentivado pelos colonos, que tinham a nítida intenção de transformar os nativos em uma mão de obra que jamais questionaria as vontades de seus senhores.
Mas, entre os tupinambás, a embriaguez ritual provocada pelo cauim – uma bebida fermentada à base de mandioca, milho e frutas – era absolutamente normal em festas, casamentos, funerais e até em decisões políticas. Nas cauinagens, algumas iniciativas consideradas agressivas eram toleradas, como brigar entre guerreiros da mesma tribo e atear fogo às malocas. Aqueles que cometiam o maior número de desatinos mereciam mais consideração dos companheiros, pois os índios acreditavam que a bebida, de certo modo, conservava o seu equilíbrio psíquico. Mas os missionários cristãos não pensavam do mesmo modo.
Uma das razões pelas quais os jesuítas aportaram na costa brasileira a partir do século XVI foi servir ao aparelho ideológico da Coroa lusitana. Aliando elementos da cultura dos nativos com preceitos cristãos europeus, os religiosos compuseram um código de doutrinas morais que deveria ser um instrumento de controle social. Quanto ao consumo de álcool, “moderação” era o termo que melhor se aplicava à conduta que eles julgavam ser ideal. Combater as bebedeiras estava na ordem do dia.
Mas, na contramão do que a Igreja aconselhava, a oferta de aguardente se espalhou pelo território luso-americano a partir da metade do século XVIII. A novidade desestabilizou os povos nativos e obrigou os jesuítas a controlar a disseminação do álcool para que pudessem dar continuidade à catequese. Os religiosos até recorreram a um visitador inquisitorial, como no caso da carta do padre Brawer.
O ideal da moderação foi herdado do moralismo cristão medieval de São Tomás de Aquino (1225-1274), filósofo escolástico para quem o álcool era a causa de todos os pecados e vícios. Este modelo de conduta foi sintetizado pelo agricultor lusitano Vicênio Alarte em 1712, em texto que fazia referência ao vinho: “a primeira vez, quando se come, era necessário para a sede; a segunda, para a alegria; a terceira, para o deleite; e a quarta, para a loucura e desatino”. Ou seja, havia um limite tolerável para o consumo do vinho que, quando ultrapassado, levava à loucura – que era um desvio moral, não uma doença.
Além de fazer parte dos rituais cristãos, o vinho era tido como energizante e possuidor de efeitos terapêuticos. Também prevalecia na América portuguesa uma certa valorização do vinho europeu em detrimento da aguardente local. O cirurgião lisboeta Luís Gomes Ferreira defendeu, em 1735, que “não há coisa alguma nelas [nas Minas] que seja mais prejudicial à saúde, assim de pretos como de brancos, como é a dita aguardente (…); quando queremos afirmar que uma coisa não presta para nada dizemos que é uma ‘cachaça’”. Representantes do poder português, os médicos e cirurgiões só aceitavam que a aguardente proveniente doReino fosse utilizada como remédio, para combater doenças pulmonares, gota e hidropisia. Mesmo assim, essas restrições não impediram que as aguardentes aparecessem na sociedade colonial em circunstâncias que não interessavam às autoridades.
A própria circulação do álcool extrapolou as aldeias indígenas. De acordo com os relatos do jesuíta italiano João Antônio Andreoni (1649-1716), que visitou os engenhos baianos na virada para o século XVIII, havia uma orientação para que os escravos evitassem a garapa azeda, um produto clandestino e alcoolizado, e preferissem a doce, um derivado não alcoólico. O jesuíta achava que, para resolver o problema da embriaguez dos cativos, a melhor solução era fazer com que os senhores determinassem as datas mais adequadas para se beber – dias santos e feriados – e que substâncias poderiam ser ingeridas nessas ocasiões. Para o padre, era importante que o senhor se tornasse uma espécie de tutor dos negros e os fizesse admitir as vantagens de manter a sobriedade.
Mas tentar domesticar a vida íntima dos cativos, não foi, de maneira alguma, uma manobra eficaz. Havia festas em que a bebedeira ia além do que a Igreja poderia prever, e fazia com que os escravos se permitissem acessos de luxúria, comessem em excesso, dançassem sem parar e cometessem toda espécie de pecado que “aproximava os homens do demônio”. Teólogos e moralistas viam essas reuniões como momentos de sacrilégios e blasfêmias.
Havia negros que guardavam dinheiro para comprar aguardente e, consequentemente, oferecer a bebida aos amigos, nas festas ou durante as refeições. Nestes casos, a cachaça cumpria a função social de reforçar os laços de solidariedade entre os cativos. Não por acaso, tanto os religiosos como a própria Coroa não mediam esforços para tentar resolver a “questão das aguardentes”. Diversas ordens e pareceres foram editados ao longo do século XVIII com o intuito de regular a produção, a distribuição, a troca e o consumo de bebidas alcoólicas, sobretudo na capitania mineira.
Por temerem revoltas, as autoridades estavam sempre atentas à circulação da bebida, que aproximava escravos e homens livres pobres nas tabernas (mineiras) e festas. Tanto que o rendeiro Francisco Machado de Souza, em 1738, teve que suplicar ao rei que libertasse seu escravo Thomas Mina, que havia sido surpreendido por oficiais quando foi comprar cachaça. Mesmo alegando que iria oferecer doses da bebida em uma festa de batizado da qual seria o padrinho, Thomas foi preso pelo simples fato de portar a substância. As visitações episcopais também se encarregavam da perseguição ao uso de bebidas estimulando a denúncia de ebriedade.
Um certo José Pereira também sofreu com a sentença que recebeu em 1773. Preso por embriaguez, ele foi solto com a condição de que apresentasse, a cada três meses, uma “certidão de bem-viver”. Sem o documento, que devia ser emitido pela comunidade – enfatizando que a embriaguez era prejudicial por perturbar o “sossego público” –, ele teria que ser enviado na mesma hora para a prisão mineira do Cuieté. Havia, portanto, um modelo cristão e moderador na sociedade, que verificava como devia ser o comportamento dos cidadãos em relação à bebida e que fiscalizava a sobriedade alheia.
A embriaguez, portanto, aparecia como uma manifestação de imoralidade e fonte de pecados e arruaças. Por isso, o poder colonial pressionava, perseguia e prendia os beberrões. Apesar dos embates travados por escravos, homens livres e povos indígenas contra as autoridades, talvez ainda sobreviva entre nós algo desta herança colonial da ideologia da moderação relativa às nossas formas de beber.

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14.045 – Arqueologia – Brasileiros descobrem artefatos humanos mais antigos fora da África


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Uma expedição realizada no norte da Jordânia entre 2013 e 2015 por uma equipe de arqueólogos ítalo-brasileira encontrou artefatos de pedra lascada de 2,4 milhões de anos – provavelmente produzidos por hominídeos pertencentes ao gênero Homo.
Isso significa que os primeiros ancestrais humanos a saírem da África rumo ao Oriente Médio começaram essa jornada no mínimo 500 mil anos antes da data tida como consenso pela comunidade científica até então.
A descoberta foi anunciada em uma coletiva de imprensa no Instituto de Estudos Avançados da USP (IEA). O artigo científico que detalha as conclusões do grupo foi publicado na revista Quaternary Science Reviews.
Também participaram da pesquisa o paleoantropólogo Walter Neves, da USP, Giancarlo Scardia, da Unesp de Rio Claro, e Fabio Parenti, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) – que explora o vale do rio Zarqa, próximo a Amã, capital da Jordânia, desde a década de 1990.
Para entender por que esses artefatos – os mais antigos já encontrados fora da África – podem virar de ponta cabeça a história da humanidade, primeiro é preciso entender essa história da maneira como ela é contada hoje.
Na biologia, toda espécie é batizada com um nome científico duplo. Quando duas espécies são muito próximas, elas pertencem ao mesmo gênero, e, assim, têm o primeiro nome igual. É o caso do lobo (Canis lupus) e do coiote (Canis latrans).
Hoje, não há nenhum animal aparentado o suficiente com o ser humano para carregar o nome Homo – mas 2 milhões de anos atrás, a situação era bem mais confusa.
O pioneiro de nossa linhagem foi o Homo habilis – que viveu na África entre 2,4 a 1,4 milhões de anos atrás. Ele ainda tinha uma aparência próxima a de um símio, um cérebro 30% maior que o de um chimpanzé e no máximo 1,4 metro de altura. Ele foi o primeiro a fabricar ferramentas. Até onde se sabe, a partir dele se ramificaram espécies como o Homo naledi (que não interessa para nós) e o Homo erectus (que interessa bastante para nós).
O erectus, que surgiu há 1,9 milhões de anos e compartilhou a Terra com o sapiens até bem recentemente, foi o primeiro a sair da África e explorar os demais continentes. Ele já era um bípede de pernas desenvolvidas, e tinha um cérebro com dois terços do volume do de um humano moderno.
Os erectus que se estabeleceram na Ásia e na Europa dariam origem aos homens de Neandertal e de Denisova. Uma parcela dos erectus que ficaram na África, por sua vez, deu origem a nós. No intervalo entre erectus e sapiens é provável que tenha existido uma terceira espécie, o heidelbergensis. Mas não vamos complicar a árvore genealógica sem necessidade.
A moral da história é: houve duas ondas migratórias para fora da África. É por isso que, quando o ser humano moderno (Homo sapiens) deixou seu berço, há meros 70 mil anos, ele encontrou a Ásia já habitada por Neandertais e Denisovanos. Esses humanos diferentões descendiam de erectus que haviam saído do continente muito antes, há 1,9 milhão de anos.

14.036 – Serra da Capivara – O Paraíso (quase) Escondido


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Falar do continente americano é falar de forasteiros: o Novo Mundo foi o penúltimo continente desbravado pelo Homo sapiens. Só a Antártida passou mais tempo sossegada. Mas como era a América antes dos humanos? E quando foi que estes primeiros imigrantes começaram a aparecer por aqui? Junto às respostas consensuais para essas perguntas, há uma série de controvérsias científicas que, curiosamente, convergem para um lugar inesperado: o interior do Piauí.
Nos paredões do semiárido brasileiro, homens pré-históricos registravam narrativas para a posteridade. É num pedaço da caatinga do tamanho da cidade de São Paulo que fica a maior concentração de pinturas rupestres do planeta. Há exatos 40 anos, em 1979, essa região foi transformada no Parque Nacional Serra da Capivara – sendo reconhecida, em 1991, como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO.
A região sudeste do Piauí, onde fica a Serra da Capivara, ocupa uma zona de fronteira entre duas grandes formações geológicas: ao sul, um escudo cristalino do Período Pré-Cambriano, e a bacia sedimentar do mar Siluriano-Permiano, ao norte. Entre 440 e 360 milhões de anos atrás, esse mar cobria a região. Os paredões rochosos da Serra, com mais de 100 metros de altura, foram criados embaixo d’água.
Essa época deixou uma série de vestígios: na região da Serra, já foram encontradas dezenas de fósseis marinhos – mais especificamente, de trilobitas (artrópodes extintos de até 70 centímetros que andavam no fundo do oceano). Há 220 milhões de anos atrás, porém, mudanças geológicas profundas transformaram a paisagem, acabando com a farra dos animais aquáticos: um grande movimento tectônico levantou o fundo do mar no Piauí – e jogou toda a água para o Ceará. Os sedimentos desta tremedeira se tornaram parte dos paredões da Serra – e essa história toda ficou documentada nas camadas dos grandes cânions da Serra da Capivara.
Paredões que, centenas de milhões de anos depois, continuaram a testemunhar fatos pitorescos. Um deles aconteceu outro dia (geologicamente falando). Foi há 115 mil anos, quando começou a última Era do Gelo. O Piauí se tornou uma espécie de oásis – a região, próxima da linha do Equador, nunca congelou. Os planaltos da Serra viram nascer uma floresta tropical úmida, e nas planícies predominavam os campos e o cerrado. Vestígios paleontológicos mostram que o clima ameno atraiu uma fauna exuberante: tigres-dente-de-sabre, preguiças gigantes, mastodontes (parentes do mamute), paleolhamas (uma mistura de cavalo, tamanduá e, é claro, lhama).
Com o fim da Era do Gelo, há 12 mil anos, veio outra transformação climática: a umidade caiu e as temperaturas aumentaram severamente. Ao longo dos 3 mil anos seguintes, os animais da megafauna anterior foram extintos, e a vegetação mudou para se adaptar às novas condições: nascia a caatinga.
Nessa época, já havia humanos por lá. A abundância de sítios arqueológicos na Serra é prova disso. São mais de mil, cheios de instrumentos de pedra lascada, esqueletos humanos e, claro, pinturas rupestres.
Por falar em pinturas, a quantidade de desenhos isolados, chamados de “figuras”, é única no mundo: enquanto sítios europeus possuem de 10 a 12 figuras, apenas na Toca do Boqueirão da Pedra Furada, um dos pontos mais famosos da Serra, há 1.200 pinturas.
A maioria das pinturas rupestres da Serra da Capivara foram feitas entre 6 mil e 12 mil anos atrás. Só como base de comparação, as mais antigas do mundo têm mais de 30 mil.
A riqueza das imagens da Serra, porém, está nas cenas que elas mostram. Na Europa, por exemplo, o mais comum é encontrar animais e cenas de caça – episódios obviamente importantes para qualquer comunidade humana, e que também estão presentes na Serra.
Há quem defenda, porém, que a Serra estava ocupada por humanos bem antes de Zuzu, ou mesmo de Luzia. Estamos falando de Niède Guidon. A arqueóloga franco-brasileira de 86 anos foi a primeira a desconfiar do potencial científico escondido no meio do Piauí. Guidon fez da Serra o trabalho de sua vida. Sua obstinação foi o que levou a Capivara a atrair interesse arqueológico de cunho internacional. Mas a mesma insistência da pesquisadora em teorias controversas trouxe a Serra para o centro de disputas científicas que já duram décadas.
Em 1978, Niède Guidon começou a escavar o sítio Toca do Boqueirão da Pedra Furada, aquele que guarda 1.200 figuras rupestres. Lá, ela encontrou dois dos artefatos mais controversos de sua carreira: pedras que aparentavam ter sido lascadas por Homo sapiens e pedaços de carvão que pareciam vir de fogueiras feitas por humanos.
Ao final da escavação, Niède mandou o carvão para a França, para ser datado em laboratórios de lá. Para a surpresa da própria pesquisadora, os testes de carbono-14 indicavam que a amostra tinha 26 mil anos de idade. Nos anos seguintes, Guidon encontrou objetos progressivamente mais antigos, até que, em 1986, atingiu a data de 32 mil anos. Foi nesse ano que os vestígios da Serra da Capivara ficaram conhecidos mundialmente:” Niède publicou suas descobertas na prestigiosa revista científica Nature, em um artigo em que defende o carvão e as pedras como indícios da presença de seres humanos na América do Sul há 32 milênios.

Esse é um dado que distorce toda a história das ocupações na América: o consenso na comunidade arqueológica é o de que o homem chegou ao Novo Mundo há cerca de 15 mil anos – não muito mais, não muito menos.

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É preciso voltar no tempo para entender a polêmica: o Homo sapiens surgiu na África entre 200 mil e 300 mil anos atrás. De lá, espalhou-se por Europa e Ásia. Há 60 mil anos, nossa espécie atingia a Austrália. Depois, as Américas (de acordo com as teorias mais aceitas, via Estreito de Bering, que era terra seca na Era do Gelo).

E é aqui que a arqueologia chega aos homens de Clóvis – por muito tempo considerados o povo mais antigo da América. Nos anos 1920, nas cidades americanas de Folsom e Clóvis, no Novo México, foram encontradas pontas de lanças ao lado de fósseis de animais de grande porte. Eram armas humanas de 13 mil a 13.500 anos de idade, que comprovavam, pela primeira vez, a presença de homens na América em plena Era Glacial. Daí surgiu a teoria “Clovis First”, segundo a qual todo e qualquer outro grupo humano que habitou o continente teria vindo, necessariamente, depois deles.

Nas últimas décadas, porém, a primazia de Clóvis tem sido fortemente contestada entre os cientistas. Hoje, há centenas de sítios mais antigos ao longo do continente: na Venezuela, no Peru, no Brasil, na Argentina e nos próprios EUA. O sítio Monte Verde, no Chile possui datações de 14,6 mil anos. Mesmo assim, muitos arqueólogos americanos (chamados pejorativamente de “polícia de Clóvis”) ainda duvidam dessas descobertas. Defendem que os achados são só pedras comuns, não ferramentas humanas.

Perceba, porém, que mesmo os artefatos pré-clovis mais aceitos, datando de 15 mil anos, vieram apenas 2 mil anos antes da cultura Clóvis. É uma variação bem menos radical do que sugerem as datações de 20 a 30 mil anos dos achados da Serra – e, justamente por isso, elas são tratadas com amplo cetismo. A maior parte dos especialistas considera que as amostras de carvão de Niède foram criadas por incêndios naturais. Por raios de tempestade, não por pessoas. Números ainda mais antigos do que isso, então, são tidos como absurdos.
Niède, porém, foi encontrando pedras lascadas cada vez mais arcaicas na Serra, e segue certa de que entre elas há ferramentas humanas. Segundo ela, não poderia vir de fogo natural. Uma queimada produziria restos de carvão pra todo lado – os de Niède estavam concentrados num lugar só, protegidos sob paredões da Pedra Furada. Já sua defesa das pedras baseia-se no formado delas: as lascas estão presentes apenas de um lado da pedra, como se tivessem sido moldadas de forma contínua, em uma direção só, e não da maneira aleatória que uma pedra quebra após uma queda, por exemplo.
O mais antigo desses supostos instrumentos tem 100 mil anos de idade. Ele foi a peça final na teoria excêntrica que Niède defende até hoje: há 100 mil anos não apenas existiriam comunidades humanas no Piauí, como elas seriam formadas por homens vindos para a América diretamente do berço da humanidade: da África, e não pelo estreito de Bering.

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Alegações extraordinárias requerem provas extraordinárias, já diria Carl Sagan. A comunidade científica recebeu as teorias de Niède com tremenda cautela – para não dizer hostilidade. No Brasil, um de seus críticos mais ferrenhos foi o bioarqueólogo Walter Neves, conhecido como “pai” de Luzia. “Eu não acreditava em uma vírgula nas descobertas dela na Pedra Furada, e confesso que achava que era uma questão de incompetência. Mas, quando ela me convidou para visitar a Serra [em 2005] e eu vi os artefatos, foi um choque”, nos disse Walter sobre as pedras lascadas. “Saí da visita 99% convencido de que ali tinha mãos humanas de 30 mil anos atrás, a cronologia de Niède na época. Mas 1% de dúvida ainda é algo extremamente significativo.”

Se Walter é cauteloso quanto aos 30 mil anos, é abertamente cético com relação a qualquer objeto de 100 mil anos: “Isso é Guerra nas Estrelas, ficção científica, nem se discute”. A migração direta pela África também é amplamente descartada. Segundo o arqueólogo André Strauss, professor da USP que trabalhou na Serra da Capivara, mesmo que haja provas de uma migração mais antiga na Serra, esses homens precisariam ter vindo pelo Estreito de Bering mesmo. Para ele, essa suposição é pura extrapolação de Niède.

Apesar de seguir irredutível quanto às suas teorias, Guidon cercou-se de figuras conceituadas para dar continuidade ao seu trabalho na Serra. Quando se aposentou, convidou o arqueológo francês Eric Boeda para dar liderar as pesquisas por lá. Ele goza de respeito e admiração da comunidade arqueológica internacional: dirigiu escavações importantes na Europa, África e Ásia, e é um dos maiores especialistas do mundo em indústria lítica – ou, em bom português, no estudo de ferramentas antigas feitas de pedra.

Em seus 20 anos no Piauí, Boeda, de fato, fez datações mais conservadoras do que Niède – mas elas ainda vão bastante além do que a teoria oficial de ocupação humana no continente é capaz de explicar. Boeda defende que pedras de 22 mil anos sejam instrumentos humanos. Seus números mais extremos chegam à casa dos 40 mil. “Acredito que ele está com uma estratégia inteligente, passando por números mais palpáveis primeiro”, diz André Strauss. “Eric, além de ter prestígio internacional, está aberto ao diálogo, algo difícil com a Niède. Antes de tudo, ele está tentando recuperar a credibilidade dos achados humanos da Serra”, disse Strauss.
A fundadora teimosa
Entre pinturas, pedras lascadas e farpas, uma coisa ninguém contesta: Niède Guidon é uma exímia administradora. Ela vive permanentemente na Serra da Capivara desde 1998, ao lado de uma das instalações que ajudou a fundar, o Museu do Homem Americano. A arqueóloga recebeu a SUPER em sua casa para uma conversa. Com a saúde instável – além da idade avançada, ela já teve dengue, Zika e Chikungunya – Niède segue irredutível e linha-dura tanto em suas descobertas, quanto com sua proteção quase maternal à Serra da Capivara.
O relacionamento entre Guidon e o Piauí já ultrapassa as Bodas de Ouro. Tudo começou em 1963, quando a Serra da Capivara era uma completa desconhecida da arqueologia. Niède trabalhava bem longe, na curadoria do Museu do Ipiranga, em São Paulo, onde foi organizada uma exposição sobre figuras rupestre no Brasil – as únicas conhecidas até então, feitas em Minas Gerais. “Foi quando um senhor, que veio visitar a exposição, me mostrou fotos de outras pinturas, dizendo que também havia esses ‘desenhos de índios’ perto da cidade dele”, conta Niède.
Foi só em 1970 que Niède teve a chance de encontrar pessoalmente os tais “desenhos de índio”. Oito anos de estudo depois, ela criou uma comissão permanente de pesquisa, fruto de uma parceria entre a França e o Brasil. Reuniu biólogos, zoólogos, botânicos e paleontólogos para promover uma ampla investigação em toda a Serra da Capivara. “Não se conhecia nada daqui. Não tinha estrada, nada. Os moradores locais foram nossos primeiros guias, exploramos tudo a pé”.
Fauna, flora e riqueza arqueológica nunca antes documentadas pela ciência foram reunidos em um relatório, que Niède e sua equipe enviaram a Brasília. O pedido de “preservação absoluta” do local culminou, em 5 de junho 1979, no decreto Nº 83.548, que criava oficialmente Parque Nacional Serra da Capivara.
Estabelecer uma área totalmente dedicada a preservação e pesquisa, porém, foi um trabalho árduo. “O governo criou o parque, mas não colocou um funcionário sequer”, conta Niède. Tirar o Parque do papel significava não só torná-lo um instituto de ciências fechado, mas também um bem público, que atraísse turistas e movimentasse a economia da região. Conseguir tudo isso custa dinheiro. E não é pouco.
Quem pintou os paredões há milhares de anos, afinal, não estava pensando na facilidade de exibir sua arte a visitantes externos. O parque precisava ser alcançável, primeiro por estradas, mas também por passagem e pontes internas. Seus 130 mil hectares também tinham de ser protegidos e vigiados.
Guidon e sua equipe angariaram apoio técnico do antigo Banco Interamericano de Desenvolvimento, e receberam doações da Petrobras para manter o Parque de pé. Essas verbas, porém, não foram suficientes para fazer deslanchar o paraíso arqueológico escondido: ainda hoje, a serra recebe só 20 mil turistas por ano. O tamanho da estrutura, ironicamente, dificulta as coisas: a Serra ocupa a área de quatro municípios diferentes, todos com pouca estrutura hoteleira e de transporte, a 522 km distância da capital Teresina.
Se o turismo já é insuficiente para suprir a manutenção do Parque, a situação só piorou quando as verbas públicas ficaram escassas. Os repasses da Petrobras cessaram com a crise geral na empresa. De 270 funcionários que o Parque já teve, hoje só é possível manter 40. A estrutura, hoje, depende de pequenos repasses do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e do governo do Piauí.
Em 2014, porém, o BNDES aprovou verba para a construção do último sonho de Niède: o Museu da Natureza (MuNa). Nele, a pesquisadora quis contar a história da Serra de uma forma similar à que você leu nestas páginas: uma viagem no tempo por toda evolução natural da Capivara, que levasse o visitante da época em que o Piauí era mar, até os dias de hoje.
O dinheiro, pedido a primeira vez em 2001, veio sem correção monetária. Os R$ 13,7 milhões, graças à magia da inflação, já compravam três vezes menos tijolos, concreto e massa corrida quando a verba finalmente chegou. O MuNa, porém, insistiu em nascer e foi inaugurado em dezembro de 2018. Final feliz (e aguerrido) para Guidon e sua Serra.
E quanto à origem das pedras lascadas milenares? Elas realmente foram feitas por humanos? Estaria Niede totalmente enganada na tese que guiou toda sua carreira? Apontar para uma conclusão não é tão simples. “Nem todas as perguntas têm como resposta sim ou não. Há uma terceira opção, que talvez seja a mais frequente de todas: não sei”, diz André Strauss. No caso da Serra, essa é a conclusão mais honesta. E é uma resposta perfeitamente científica. Existia gente lá há 40 mil anos? Esse é um debate legítimo, e que segue em aberto.”

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14.035 – O Xis da Questão – O ‘X’ SE TRANSFORMOU NA VARIÁVEL DESCONHECIDA DA MATEMÁTICA


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Mesmo que você não seja um gênio das ciências exatas, certamente sabe que a letra “X” na matemática representa um termo utilizado para substituir outro que, geralmente, é desconhecido. Mas você sabe como é que essa letra se transformou nessa variável? A resposta a essa questão, ao contrário do que você poderia imaginar, não está relacionada a nenhum cálculo secreto, mas sim com a fonética.
O pessoal da TED — uma respeitada fundação privada sem fins lucrativos que organiza conferências em todo o mundo para disseminar conhecimento — postou um vídeo no YouTube, no qual Terry Moore, durante uma das palestras, explica por que o X foi o escolhido para representar o desconhecido.
Basicamente, quando os textos árabes sobre matemática e outras ciências começaram a chegar na Europa — mais precisamente, na Espanha — lá nos séculos 11 e 12, obviamente os sábios da época se empenharam em traduzir todo esse conhecimento para um idioma europeu comum.
No entanto, alguns sons verbalizados em árabe não possuem correspondência com os idiomas europeus, sem contar que os caracteres desse alfabeto tampouco contam com equivalentes ocidentais. Assim, uma letra árabe muito comum — ? pronunciada “shin” — tem o mesmo som que “shhh” e é utilizada para escrever a palavra “Shalam”, que em árabe significa “algo”, ou seja, ela descreve alguma coisa indefinida.
Assim, os árabes utilizavam o termo “al-shalam” para designar “o desconhecido” que, por sua vez aparecia muito nos antigos textos matemáticos. O problema, contudo, é que, como no idioma espanhol não existe o som “shhh”, os estudiosos que traduziram os antigos textos árabes tiveram que encontrar uma alternativa, adotando o som “ck”, proveniente do grego clássico, para criar uma convenção.
No grego clássico, o som “ck” é representado pela letra “Kai”, cuja grafia é “χ”. E mais tarde, quando os textos espanhóis foram transcritos para o latim — que era o idioma mais comum da época —, o caractere grego foi substituído pela letra X. Uma vez em latim, esses textos serviram de base para os livros de matemática por quase 600 anos, e o “X” acabou se tornando o que é hoje simplesmente porque os espanhóis não têm uma letra para o som “shhh”.

14.021 – História – A Guerra Mais Sangrenta da América do Sul


Combate naval do riachuelo
Tudo começou no Uruguai, com uma rebelião dos colorados (liberais) em abril de 1863, encabeçada pelo general Venâncio Flores, pela derrubada do governo dos blancos (conservadores) eleito em 1860. O conflito desencadeou a sequência dos acontecimentos que levaram à Guerra do Paraguai.
A Argentina e o Brasil apoiaram a rebelião colorada – era a primeira vez que os dois países estavam do mesmo lado num conflito uruguaio. O presidente argentino, Bartolomeu Mitre, um liberal eleito em outubro de 1862, tomou essa posição porque os colorados tinham lhe dado apoio na guerra civil de seu país em 1861 e porque os blancos constituíam um foco possível de oposição federalista residual nas províncias litorâneas à república argentina, recém-unificada. Para o Império do Brasil, a questão principal era proteger os interesses dos brasileiros que viviam e tinham propriedades no Uruguai, ameaçados pela rigidez das autoridades daquele Estado sobre o comércio da fronteira e as taxas aduaneiras. Foi nesse contexto que o governo blanco se voltou para o Paraguai como único aliado possível.
Mas o Paraguai temia e desconfiava de seus vizinhos muito maiores, muito mais povoados e potencialmente predatórios: as Províncias Unidas do Rio da Prata e o Brasil. Ambos tinham relutado em aceitar a independência paraguaia e demoraram a reconhecê-la: o Brasil em 1844, as Províncias Unidas em 1852. Ambos tinham reivindicações territoriais contra o Paraguai: o Brasil, no extremo nordeste do país, na divisa com Mato Grosso, região valiosa pela erva-mate nativa; a Argentina, no leste do Rio Paraná (Misiones), mas também a oeste do Rio Paraguai (o Chaco). E havia ainda atritos com ambos quanto à livre navegação no sistema fluvial Paraguai-Paraná.
O presidente do Paraguai, Francisco Solano López, a quem o governo uruguaio procurara para obter apoio em julho de 1863, tinha chegado ao poder em outubro de 1862, após a morte de seu pai, o ditador Carlos Antonio, que governara o país desde 1844. De início, ele hesitou em fazer uma aliança formal com os blancos, seus aliados naturais, contra os colorados no Uruguai, agora que estes tinham o apoio do Brasil e da Argentina. Mas, no segundo semestre de 1863, Solano López viu a oportunidade de mostrar sua presença na região e de desempenhar um papel compatível com o novo poder econômico e militar do Paraguai. No começo de 1864, ele começou a mobilização para uma possível guerra.
Quando o Brasil lançou um ultimato ao governo uruguaio em agosto do mesmo ano, ameaçando retaliar os supostos abusos sofridos por súditos brasileiros, Solano López reagiu com um ultimato alertando o Brasil contra a intervenção militar. Ignorando o alerta, soldados brasileiros invadiram o Uruguai em 16 de outubro. Em 12 de novembro, após a captura de um vapor mercante brasileiro que saía de Asunción para Corumbá, levando o presidente de Mato Grosso a bordo, o Brasil rompeu relações diplomáticas com o Paraguai. Em 13 de dezembro, Solano López tomou a grave decisão de declarar guerra ao Brasil e invadiu Mato Grosso. Quando a Argentina negou autorização ao Exército paraguaio para atravessar Misiones – território disputado e quase despovoado – a fim de invadir o Rio Grande do Sul, Solano López também declarou-lhe guerra, em 18 de março de 1865, e no mês seguinte invadiu a província argentina de Corrientes.
A decisão de Solano López de declarar guerra primeiro ao Brasil e depois à Argentina, e de invadir os dois territórios, mostrou-se um grave erro de cálculo, que traria consequências trágicas para o povo do Paraguai. O mínimo que se pode dizer é que Solano López fez uma tremenda aposta – e perdeu. Ele superestimou o poderio econômico e militar do Paraguai. Subestimou o poderio militar potencial, se não efetivo, do Brasil, e sua disposição de lutar. E errou ao pensar que a Argentina ficaria neutra numa guerra entre o Paraguai e o Brasil em disputa pelo Uruguai.
Os objetivos originais da guerra, tal como foram expostos no Tratado da Tríplice Aliança assinado pelo Brasil, pela Argentina e pelo Uruguai em 1o de maio de 1865, eram: a derrubada da ditadura de Solano López; livre navegação dos rios Paraguai e Paraná; anexação do território reivindicado pelo Brasil no nordeste do Paraguai e pela Argentina no leste e no oeste do Paraguai — esta última cláusula se manteve secreta até ser revelada pela Inglaterra em 1866. Com o desenrolar do conflito, tornou-se, em particular para o Brasil, uma guerra pela civilização e pela democracia contra a barbárie e a tirania: isso apesar do estranho fato de que o Brasil, após a libertação dos escravos nos Estados Unidos durante a Guerra Civil, agora era o único Estado independente de todas as Américas com a economia e a sociedade em bases escravistas, além de ser a única monarquia remanescente.
A Guerra do Paraguai não era inevitável. E nem era necessária. Mas só poderia ter sido evitada se o Brasil tivesse se mostrado menos categórico na defesa dos interesses de seus súditos no Uruguai, principalmente, se não tivesse feito uma intervenção militar em favor deles, se a Argentina tivesse se mantido neutra no conflito subsequente entre o Paraguai e o Brasil, e, sobretudo, se o Paraguai tivesse se conduzido com mais prudência, reconhecendo as realidades políticas da região e tentando defender seus interesses por meio da diplomacia, e não pelas armas. A guerra, que se estendeu por mais de cinco anos, foi a mais sangrenta da história da América Latina, e, na verdade, afora a Guerra da Crimeia (1854-1856), foi a mais sangrenta de todo o mundo entre o fim das Guerras Napoleônicas, em 1815, e a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Custou de 150.000 a 200.000 vidas (na maioria, paraguaios e brasileiros), no campo de batalha e por privações e doenças decorrentes da guerra.
Diante da enorme disparidade entre os dois lados, em termos de tamanho, riqueza e população, a Guerra do Paraguai deveria se afigurar desde o início uma luta desigual. Mas, militarmente, havia um maior equilíbrio. De fato, no início da guerra, e pelo menos durante o primeiro ano, o Paraguai provavelmente teve superioridade militar em termos numéricos. E provavelmente seu Exército era mais equipado e treinado do que os exércitos vizinhos. Além disso, como as forças paraguaias tinham sido expulsas do território argentino, a Argentina reduziu tanto sua contribuição para o esforço de guerra dos aliados que, no final da guerra, havia apenas cerca de 4.000 soldados argentinos em solo paraguaio. O Uruguai, por sua vez, teve presença apenas simbólica no teatro de operações durante todo o conflito. O Brasil, por outro lado, aumentou seu Exército regular – que tinha entre 17.000 e 20.000 – para 60.000 a 70.000 homens no primeiro ano das hostilidades, com recrutamento obrigatório, transferências da Guarda Nacional, alistamento de escravos de propriedade do Estado e alguns de propriedade particular (libertados em troca dos serviços na guerra) e a formação dos corpos de Voluntários da Pátria. Calcula-se que o Brasil mobilizou durante a guerra cerca de 140.000 homens. E, ao contrário do Paraguai, que dispunha apenas de seus próprios estaleiros e arsenais, o Brasil tinha acesso a armas, munições e navios de guerra, tanto fabricados e montados no país quanto comprados no exterior, principalmente na Europa, além de empréstimos obtidos na City de Londres para ajudar nesses pagamentos. Por fim, o Brasil tinha a Marinha mais forte e poderosa da região.
A guerra pode ser dividida em três fases. A primeira começou com as ofensivas paraguaias a Mato Grosso em dezembro de 1864 e a Corrientes em abril de 1865. Em maio de 1865, o Exército paraguaio finalmente atravessou Misiones e invadiu o Rio Grande do Sul. De início a invasão teve sucesso, mas depois foi contida pelas forças aliadas. No dia 14 de setembro, o comandante paraguaio, coronel Estigarribia, se rendeu aos aliados em Uruguaiana. O Exército paraguaio então se retirou, atravessando o Rio Paraná, e se preparou para defender a fronteira sul do país. Enquanto isso, em 11 de junho, na Batalha do Riachuelo, no Rio Paraná, a única grande batalha naval da guerra, a Marinha brasileira tinha destruído a Marinha paraguaia e criado um bloqueio cerrado ao Paraguai, que se manteve até o fim da guerra.
A segunda e principal fase do conflito começou quando os aliados finalmente invadiram o Paraguai, em abril de 1866, e instalaram seu quartel-general no Tuiuti, na confluência dos rios Paraná e Paraguai. Em 24 de maio, repeliram uma investida paraguaia e venceram a primeira grande batalha em terra. Mas os exércitos aliados demoraram mais de três meses até começarem a subir o Rio Paraguai. Em 12 de setembro, Solano López propôs concessões, inclusive territoriais, para terminar a guerra, desde que lhe fosse poupada a vida e o Paraguai não fosse totalmente desmembrado ou ocupado em caráter permanente, mas sua proposta foi rejeitada. Dez dias depois, em Curupaiti, ao sul de Humaitá, no Rio Paraguai, os aliados sofreram sua pior derrota. Não retomaram o avanço até julho de 1867, quando se iniciou uma movimentação para cercar a grande fortaleza fluvial de Humaitá, que bloqueou o acesso ao Rio Paraguai e à capital, Asunción. Mesmo assim, passou-se mais de um ano antes que os aliados ocupassem Humaitá (5 de agosto de 1868), e mais cinco meses para a derrota decisiva e praticamente a destruição do Exército paraguaio na Batalha de Lomas Valentinas, em 27 de dezembro. As tropas aliadas (na maioria brasileiras), sob o comando do marechal Luís Alves de Lima e Silva, o marquês de Caxias, comandante-chefe brasileiro desde outubro de 1866 e comandante-chefe das forças aliadas desde janeiro de 1868, finalmente entraram em Asunción em 1o de janeiro de 1869 e terminaram a guerra. Pelo menos, assim pensavam os aliados.
Mas houve uma terceira fase: Solano López formou um novo exército na Cordilheira a leste de Asunción e começou uma campanha de guerrilha. Foi derrotado e seus soldados massacrados na última grande batalha em Campo Grande ou Acosta Nu, no nordeste de Asunción, em agosto de 1869. Mesmo assim, López conseguiu escapar com vida. Com sua companheira irlandesa Eliza Alicia Lynch, ele foi perseguido no norte por tropas brasileiras por mais seis meses, até finalmente ser acuado e morto em Cerro Corá, no extremo nordeste do Paraguai, em 1o de março de 1870. Em 27 de julho, foi assinado um tratado de paz preliminar.
Por que demorou tanto até os Aliados vencerem a guerra, apesar de sua esmagadora superioridade naval e, pelo menos depois de Tuiuti, também terrestre? Passaram-se quase quatro anos antes que os aliados chegassem à capital paraguaia. E mesmo então, a guerra se arrastou por mais de um ano. Uma explicação se encontra no lado dos aliados, ou melhor, no lado brasileiro, já que o Brasil ficou praticamente sozinho na guerra após o primeiro ano. Os governos brasileiros enfrentavam enormes problemas logísticos, primeiro para organizar, depois para transportar as tropas por milhares de quilômetros por via terrestre, marítima e fluvial, e, finalmente, para abastecê-las. E vencer as excelentes defesas terrestres e fluviais do Paraguai não foi tarefa fácil. Mas também é verdade que os comandantes brasileiros demonstraram um alto grau de incompetência estratégica e tática. Por outro lado, as tropas paraguaias e, na verdade, o próprio povo paraguaio, mantiveram-se leais a Solano López, combatendo com uma tenacidade extraordinária e, no final, quando estava em jogo a sobrevivência nacional, com grande heroísmo.
Para o Paraguai, a guerra foi quase uma calamidade total. O país sobreviveu como Estado independente, mas sob a ocupação e tutela brasileira no período posterior ao fim da guerra. Somente em julho de 1876, finalmente se retiraram 2.000 soldados e seis navios de guerra brasileiros. A consequência extrema da completa derrota, que seria o desmembramento integral do país, foi evitada, mas o território paraguaio foi reduzido em 40%, e o que restou do Exército foi desarmado. Embora o número de baixas tenha sido muito exagerado – chegou-se a se falar em 50% da população do Paraguai antes do conflito –, e as estimativas recentes e mais modestas estejam na ordem de 15% a 20% da população, o que corresponde a cerca de 50.000 a 80.000 mortes no campo de batalha e por doenças (sarampo, varíola, febre amarela e cólera), os percentuais são enormes pelos critérios de qualquer guerra moderna. A economia do Paraguai ficou arruinada, a infraestrutura e a base manufatureira foram destruídas e o início de um desenvolvimento externo sofreu o retrocesso de uma geração. Por fim, os vencedores impuseram ao país uma indenização enorme, embora nunca tenham cobrado e depois tenham cancelado.
A Argentina sofreu baixas estimadas – possivelmente com exagero – em 18.000 mortes em campo de batalha, mais 5.000 em distúrbios internos desencadeados pela guerra e 12.000 em epidemias de cólera. O território anexado ficou aquém de suas pretensões. De qualquer forma, eliminou-se da política da região platina a perspectiva de um Paraguai cada vez mais forte e potencialmente expansionista. E, num balanço geral, a guerra contribuiu positivamente para a consolidação nacional do país: Buenos Aires foi aceita como capital inconteste de uma república argentina unida, e a identidade nacional se fortaleceu consideravelmente.
O Brasil, que depois do primeiro ano da guerra combateu praticamente sozinho, sofreu baixas de pelo menos 50.000 mortos em combate e muitos outros por doenças, embora num total inferior aos 100.000 às vezes citados. O custo financeiro da guerra sacrificou tremendamente as finanças públicas do país. E a guerra teve profundo impacto na sociedade e na vida política. A Guerra do Paraguai foi um divisor de águas na história do Império, ao mesmo tempo seu apogeu e o início de sua decadência.
Mas o Brasil tinha alcançado todos os seus objetivos. Pelo tratado assinado com o Paraguai em janeiro de 1872, o país obteve todo o território reivindicado entre o Rio Apa e o Rio Branco. Assegurou-se a livre navegação dos rios Paraguai e Paraná, importante para Mato Grosso e o oeste paulista. E o próprio Paraguai, ainda mais que o Uruguai, agora estava sob seu firme controle e sua influência. Assim se consolidava, por ora, a indiscutível hegemonia do Império brasileiro na região.
Leslie Bethell é professor emerito de História da América Latina na Universidade de Londres e editor da coleção Cambridge History of Latin America (12 volumes, Cambridge University Press, 1984-2008)

Jogo de interesses?
Existe um mito de que o Brasil e a Argentina, na Guerra do Paraguai ou Guerra da Tríplice Aliança, foram instrumentos do capitalismo britânico, “Estados satélites”, “neocolônias”, instigados e manipulados por uma Grã-Bretanha “imperialista”, o “indispensável quarto Aliado”, para entrarem em guerra contra o Paraguai. Este seria um sólido mito nascido nos anos 1970 e 1980, nos textos de historiadores latino-americanos tanto da esquerda marxista quando da direita nacionalista. O alegado objetivo da Inglaterra era minar e destruir o modelo de desenvolvimento econômico conduzido pelo Estado, que representava uma ameaça ao avanço de seu modelo capitalista liberal na região. Mais especificamente, seu objetivo era abrir a única economia da América Latina que continuava fechada aos produtos manufaturados e aos capitais ingleses, e assegurar à Inglaterra novas fontes de matérias-primas, em especial o algodão, já que o abastecimento dos Estados Unidos tinha sido afetado pela guerra civil.
Há pouca ou nenhuma prova concreta consistente que possa sustentar essa tese. O governo britânico não tinha praticamente nenhum interesse no Paraguai e nenhuma vontade de piorar as disputas existentes no Rio da Prata, e muito menos de promover a guerra, que iria apenas ameaçar vidas e propriedades inglesas e o comércio britânico. E, mesmo que quisesse, a Inglaterra não exercia o grau de controle sobre o Brasil ou sobre a Argentina que seria necessário para manobrá-los e levá-los à guerra contra o Paraguai. As autoridades britânicas, em sua maioria, estavam a favor dos aliados, mas a Inglaterra se manteve oficialmente neutra durante a guerra e utilizou de modo sistemático sua influência a favor da paz. É verdade que fabricantes britânicos vendiam armas e munições aos beligerantes – isto é, na prática, ao Brasil e à Argentina, visto que o Paraguai logo caiu sob bloqueio brasileiro. Mas eram negócios, oportunidades de os empresários na Inglaterra, na França e na Bélgica lucrarem com uma guerra. Também é verdade que o empréstimo de sete milhões de libras dos Rothschild ao governo brasileiro em setembro de 1865 foi utilizado para comprar navios de guerra, e neste sentido a Inglaterra deu uma contribuição importante para a vitória dos aliados sobre o Paraguai. Mas não houve qualquer outro empréstimo ao Brasil durante toda a guerra, e os empréstimos ingleses representaram apenas 15% do total de despesas do Brasil com a Guerra do Paraguai. A principal responsabilidade pela guerra coube ao Brasil, à Argentina, em menor grau ao Uruguai e, sobretudo – infelizmente –, ao próprio Paraguai.

14.016 – Novo robô pode ser chave para entender como alguns dinossauros aprenderam a voar


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Pesquisadores de universidade de Pequim fizeram demonstrações que indicam que dinossauros desenvolveram habilidade de voo ao baterem as asas quando corriam
Pesquisa publicada em (2/5/19), na revista científica PLOS Computational Biology, apresentou uma nova perspectiva para o desenvolvimento da capacidade de voo em alguns dinossauros – e criou um robô para demonstrar a teoria.
De acordo com o estudo, liderado por Jing-Shan Zhao, pesquisador do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade Tsinghua, em Pequim, a origem da habilidade começou como um efeito natural da corrida dos animais, que batiam as asas rudimentares antes de serem capazes de voar. Mas o movimento realizado involuntariamente enquanto corriam pode ter servido para “treinar” alguns dinossauros, fortes o suficiente para resistir ao voo e bater as asas e voar.
A equipe de pesquisa criou um pequeno robô para demonstrar a origem da habilidade de voo. A estrutura da máquina foi baseada no dinossauro Caudipteryx, considerado o dinossauro não-voador mais primitivo. Pesava cinco quilos e não podia voar, mas era capaz de correr a uma velocidade de oito metros por segundo. O robô foi construído no tamanho natural de um Caudipteryx, com capacidade de funcionar em diferentes velocidades. Os movimentos do robô foram baseados na atividade motora do animal real, prevista por meio de cálculos matemáticos.
Para complementar os resultados, os pesquisadores equiparam um avestruz com um par de asas mecânicas. Em ambos os casos, os movimentos da corrida desencadearam uma vibração passiva das asas, o que confirma a proposta do estudo. Tanto o modelo matemático quanto a demonstração real chegaram a movimentos que, embora superficiais, se assemelham às asas das aves.
“Nosso trabalho mostra que o movimento de bater asas se desenvolveu passiva e naturalmente quando o dinossauro corria no chão”, disse Zhao em um comunicado à imprensa. “Embora este flutuar não fosse capaz de levantar o dinossauro no ar naquele momento, o movimento de asas pode ter se desenvolvido antes da capacidade de voar”.
A hipótese mostra que características físicas dos dinossauros permitiam o desenvolvimento da habilidade. Mas, devido à natureza complexa e multifacetada do voo, cientistas consideram que a demonstração não é suficiente para que a pesquisa gere conclusões por conta própria. Os pesquisadores admitiram ser provável que as forças aerodinâmicas criadas pelo movimento mecânico não possam ser comparadas às forças realmente necessárias para poder voar.
Para o paleontólogo da Universidade de Palacký, na República Checa, Dennis Voeten, uma falha do estudo foi não ter levado em conta a dinâmica do ombro e a musculatura reais do Caudipteryx para construir o robô. Em vez disso, os pesquisadores substituíram as estruturas anatômicas de grande importância por molas elásticas.
Voeten considera que isso tornou “impossível visualizar qualquer comportamento esquelético que teria acompanhado esses movimentos”. Ele afirma estar “convencido” de que as forças exercidas durante a corrida podem ter influenciado o movimento das asas, mas que a origem voo dos dinossauros permanece “hipotética”.

14.011- Mega Questões – Somos programados para acreditar em um Deus?


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Deus Netuno ou Poseidon

A religião – a crença em seres sobrenaturais, incluindo deuses e fantasmas, anjos e demônios, almas e espíritos – está presente em todas as culturas e permeia toda a História.

A discussão sobre a vida após a morte remonta a, pelo menos, 50.000 a 100.000 anos atrás.
É difícil obter dados precisos sobre o número de crentes de hoje, mas algumas pesquisas sugerem que até 84% da população do mundo são membros de grupos religiosos ou dizem que a religião é importante em suas vidas.
Vivemos em uma era de um acesso ao conhecimento científico sem precedentes, o que alguns acreditam que é incompatível com a fé religiosa. Então, por que a religião é tão difundida e persistente?
Os psicólogos, filósofos, antropólogos e até mesmo os neurocientistas sugerem possíveis explicações para a nossa disposição natural de acreditar, e para o poderoso papel que a religião parece ter em nossas vidas emocionais e sociais.

Morte, cultura e poder
Mas antes de falar das teorias atuais, é preciso entender como surgiram as religiões e o papel que elas tiveram na vida de nossos ancestrais.
As primeiras atividades religiosas foram em resposta a mudanças corporais, físicas ou materiais no ciclo da vida humana, especialmente a morte.
Os rituais de luto são uma das mais antigas formas de experiência religiosa. Muitos de nossos antepassados não acreditavam que a morte era necessariamente o fim da vida – era apenas uma transição.
Alguns acreditavam que os mortos e outros espíritos podiam ver o que estava acontecendo no mundo e ainda tinham influência sobre os eventos que estão ocorrendo.
E essa é uma noção poderosa. A ideia de que os mortos ou até mesmo os deuses estão com a gente e podem intervir em nossas vidas é reconfortante, mas também nos leva a ter muito cuidado com o que fazemos.
Os seres humanos são essencialmente sociais e, portanto, vivem em grupos. E como grupos sociais tendem à hierarquia, a religião não é exceção.
Quando há um sistema hierárquico, há um sistema de poder. E em um grupo social religioso, a hierarquia localiza seu membro mais poderoso: a divindade – Deus.
É para Deus que temos de prestar contas. Hoje em dia, a religião e o poder estão conectados. Estudos recentes mostram que lembrar de Deus nos faz mais obedientes.
Até em sociedades que reprimiram a fé, surgiu algo que tomou seu lugar, como o culto a um líder ou ao Estado.
E quanto menos estável é um país politica ou economicamente, mais provável que as pessoas busquem refúgio na religião. Os grupos religiosos podem, ao menos, oferecer o apoio que o Estado não fornece a quem se sente marginalizado.
Assim, fatores sociais ajudam a desenvolver e fortalecer a fé religiosa, assim como a forma como nos relacionamos com o mundo e com os outros.

Outras mentes
Em todas as culturas, os deuses são, essencialmente, pessoas, mesmo quando têm outras formas.
Hoje, muitos psicólogos pensam que acreditar em deuses é uma extensão do nosso reconhecimento, como animais sociais, da existência de outros. E uma demonstração da nossa tendência de ver o mundo em termos humanos.
Nós projetamos pensamentos e sentimentos humanos em outros animais e objetos, e até mesmo nas forças naturais – e essa tendência é um dos pilares da religião.
ssim argumentou-se que a crença religiosa pode ser baseada em nossos padrões de pensamento e de cultura humana. Alguns cientistas, no entanto, foram além e analisaram nossos cérebros em busca do lendário “ponto Deus”.

Deus no cérebro
Os neurocientistas têm tentado comparar os cérebros dos crentes e ao dos céticos, para ver o que acontece no nosso cérebro quando rezamos ou meditamos. Se conhece pouquíssimo sobre esse campo – mas há algumas pistas, especialmente no que diz respeito às aéreas cerebrais.
O córtex pré-frontal medial está fortemente associado com a nossa capacidade e tendência para entender os pensamentos e sentimentos dos outros. Muitos estudos têm mostrado que esta região do cérebro está especialmente ativa entre os crentes religiosos, especialmente quando estão rezando. Isso corrobora a visão de que a fé religiosa é uma forma de interação social.
Já o lobo parietal, de acordo com estudos pode estar envolvido em experiências religiosas, especialmente aquelas caracterizadas com a dissolução do ego.
Na medida em que estamos constantemente à procura de padrões, estruturas e relações de causa-efeito, a religião pode fornecer uma variedade de estratégias para que essa busca faça sentido
As crenças religiosas ajudam os seres humanos a se organizar e dar sentido a suas vidas. E em todas as culturas, e até mesmo entre ateus, os rituais podem ajudar a pontuar eventos importantes da vida.
Embora nem a neurociência, nem a antropologia e nem filosofia tenham uma resposta definitiva para a questão “Deus existe?”, todas essas disciplinas dão pistas sobre como nós respondemos às nossas mais profundas necessidades humanas.
Talvez não sejamos programados para acreditar em Deus ou em um poder sobrenatural, mas somos animais sociais com uma necessidade evolutiva de ficar conectado com o mundo e com os outros.
De repente, as religiões são apenas canais para permitir essas conexões.

14.009 – História – Catolicismo guerreiro no Brasil


igreja e guerrilha
Se Deus está do seu lado, que chances pode ter o inimigo? Esta lógica – que remete a populares versos musicais de igrejas brasileiras – marcou um importante episódio nos primórdios de nossa colonização. Quando os franceses tentaram instalar-se em terras brasileiras – na experiência conhecida como França Antártica (1555-1567) – deu-se início a uma guerra que ia muito além da disputa territorial [Ver RHBN nº 49].
No poema épico De Gestis Mendi de Saa (Dos feitos de Mem de Sá), o padre jesuíta José de Anchieta deixa claro o que estava em jogo: de um lado, o Deus, dos portugueses católicos; do outro, o Diabo, dos invasores calvinistas. Reproduzia-se, assim, o confronto entre Reforma e Contra-Reforma.
Nos três primeiros livros do De Gestis, há uma batalha incessante entre duas bandeiras: a divina, defendida pelo governador-geral Mem de Sá (1504 c.-1572), e a demoníaca, representada pelos índios pagãos. No quarto e último livro, mudam as bandeiras: de um lado, o Catolicismo; do outro, os protestantes.

(…) com o coração infeccionado pela heresia,

e com a mente opressa pelas trevas do erro,

não só todos se afastam do reto caminho da crença,

mas procuram perverter, assim dizem, com falsas doutrinas

os míseros povos índios, de todo ignorantes.
A guerra contra os franceses calvinistas é considerada justa não somente pelos tradicionais critérios políticos – os invasores apossaram-se de terras lusas – mas, sobretudo, porque durante o confronto foram anunciados os decretos do Concílio de Trento (1545-1563), importante medida da Igreja Católica em reação às heresias protestantes. A principal motivação tornou-se, portanto, uma questão de fé.
Nos versos em que descreve a morte de sete soldados franceses engolidos pelo fogo, Anchieta afirma que aqueles homens infelizes já começavam a sentir as chamas do inferno “em que os ímpios corações, manchados pela heresia, sofrerão o eterno castigo que seus crimes merecem”. Ao escolher o plural para o substantivo “crime”, Anchieta amplia o foco da guerra justa: o que estava em jogo não era apenas o caráter político de invasão do território, mas o direito de combater em nome de Deus. Entre as duas bandeiras dessa guerra, apenas uma carregava a verdadeira fé cristã, aquela que segue os dogmas reafirmados da Igreja Católica, lutando por Deus e com o apoio Dele: “Com a ajuda divina, em vão as balas cortam os ares:/ antes, a pólvora explode no paiol inimigo”.
O Concílio de Trento reafirma os dogmas da Igreja Católica como verdade religiosa indiscutível para todos os cristãos, incluindo o rito sagrado do Sacramento, instituído por Jesus Cristo para dar, confirmar ou aumentar a graça do fiel. O herói Mem de Sá, seguido por seus soldados, pratica o sacramento da penitência antes de partir para a guerra contra os franceses calvinistas, como indica o poema: “Então purifica sua alma/ das culpas e a fortifica com as armas de Cristo,/ caindo de joelhos aos pés do ministro sagrado”. Ao colocar em evidência esse rito, Anchieta não somente traduz em versos as determinações do Concílio de Trento como também sugere que, por não o praticarem, os franceses heréticos estavam fadados à derrota: “Ele incutirá forças e ajudará compassivo/ a causa do justo e do fiel (…)/ abaterá e esmagará o inimigo, castigando co´a morte/ corações ímpios, vazios de fé verdadeira”.
Mem de Sá ajoelha-se aos pés do ministro sagrado – um jesuíta da Companhia de Jesus – e quando o exército luso encontra-se na iminência de uma grande derrota, apela à intervenção divina, lançando aos céus palavras em prece: “Estende a mão bondosa e sinta teu furor justiceiro/ a raça inimiga”. Mem de Sá pede intervenção divina, não pela injustiça política praticada pelos franceses, mas porque eles são praticantes do crime “feio da heresia”, pois insultam soldados “cristãos” e “fiéis”.
O governador-geral não estava sozinho em suas preces. Os jesuítas e os povos fiéis o acompanhavam em oração. Aliavam-se, assim, com a ideia da Igreja de Roma como indispensável mediadora entre Deus e os homens. Para os protestantes, a Igreja ficava em segundo plano, bastando a fé em Deus e a livre interpretação da Bíblia para que se atingisse a salvação.
Os portugueses sentiam-se favorecidos pela intervenção divina. Acometidos de pavor inexplicável, os franceses fogem do forte Coligny, na Ilha de Villegagnon. “tão firme e tão seguro pela arte da guerra (…) tamanho era o terror que o Senhor Deus onipotente lhes metera nas mentes e corações apavorados”. Ao invadirem o local, os portugueses “fincam logo a cruz vencedora no cimo do forte e aclamam o nome santo de Cristo”. Na ação narrada por Anchieta, o “ministro alado de Deus” simboliza um anjo real que, em forma de guerreiro, alia-se ao exército para levá-lo à vitória contra os falsos cristãos.
A tomada do forte é militar. O produto da guerra é teológico. Dessa batalha entre Deus e o Diabo, os protestantes saíram derrotados por defenderem a bandeira “errada”. Pregavam uma doutrina cheia de “impiedades e erros” porque se afastaram da verdadeira e correta interpretação que a Igreja de Roma faz das Escrituras Sagradas. Os adjetivos usados contra Martinho Lutero sugerem que agira sob inspiração demoníaca ou corrompido por ela. “Enraivado”, ou seja, movido por forte paixão, cega-se diante da verdade e profere blasfêmias contra o representante de Cristo na terra e contra a própria Igreja, insultando o divino, aquilo que é sagrado.
Sobre Calvino, Anchieta iguala-o ao demônio: “a fera que os abismos do inferno há pouco arrotaram de suas vasas profundas”. Nos versos do poema épico, o reformista francês é dragão e serpente de movimentos sinuosos, de caráter pouco reto, que “abraça no rolo de suas espirais o forte” – ou seja, transforma-o no próprio inferno. “Calvino vencer a Cristo,/ Senhor do céu e da terra?”, eis uma hipótese absurda. A morte na cruz significara a vitória sobre o “dragão que habitava as cavernas do inferno”, abrindo para os católicos a possibilidade da salvação, o mesmo não ocorrendo para os protestantes.
De posse do forte, os portugueses erguem um altar e o sacerdote, na veste sagrada, celebra o banquete augusto do pão sacrossanto, que jamais fora ali celebrado, diz Anchieta, pois “a geração de Calvino rejeita com impiedade o alimento celeste, nem crê que as espécies de pão encerram a Cristo”.
Se Deus estava com eles, que chances teriam os inimigos? As circunstâncias históricas, naquele caso, sorriram à fé católica e aos dogmas da Contra-Reforma. Embora, nas guerras em nome de Deus, ninguém possa dizer quem tem razão.

14.008 – História da Guerrilha – Guerrilheiros de primeira viagem


historia da guerrilha
Mesmo sob censura, deu no jornal: sete homens presos no alto da serra do Caparaó portando armamentos e manifestos contra o governo. Era abril de 1967, e foi a primeira vez, desde o golpe civil-militar, que um movimento armado ganhou ampla repercussão na imprensa.
O grupo preso era formado por militares de baixa patente que haviam participado de movimentos reivindicatórios antes de 1964. Inicialmente, o governo procurou minimizar a importância dos acontecimentos, afirmando que a prisão “não afeta a segurança nacional nem revela um caráter perigoso” e que o “Exército considera ridículo que apenas oito façam guerrilha”, como registra o Jornal do Brasil nos dias 4 e 5 de abril daquele ano. Dias depois, começaram a surgir informações contrárias na mesma publicação. Declarações como a de que o Exército “está aos poucos fechando o cerco sobre os possíveis guerrilheiros” e que eles “foram vistos armados de metralhadoras, entre São João da Pedra Menina, na divisa dos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro” aparecem na edição do dia 8 no JB.
O fato de aparecerem notícias de que havia um grupo armado em luta contra o regime, ainda que não se soubesse o número de pessoas envolvidas, representou um sopro de esperança para as diversas correntes que aspiravam por ações efetivas contra a ditatura. Quem eram, afinal, os guerrilheiros dos quais tanto se falava naquele abril de 1967? O que eles queriam? Representavam eles, como estampava a revista O Cruzeiro em 15 de abril de 1967, “uma vasta organização de guerrilhas [que] está minando aquele Estado [Minas Gerais] e, possivelmente, outras regiões do país”?
As respostas a essas indagações remetem a períodos anteriores ao golpe, no tempo de radicalização das lutas políticas no governo João Goulart (1961-1964). Além de ex-militares, a maior parte dos presos pela participação na guerrilha do Caparaó tinha em comum a passagem pelo movimento liderado por Leonel Brizola, a Cadeia da Legalidade, que garantiu a Goulart assumir a presidência em 1961 – ainda que com os poderes restritos pela implantação do regime parlamentarista. Eram sargentos e marinheiros que haviam ajudado no planejamento de uma possível guerra civil envolvendo os defensores de Goulart e os militares golpistas. Ao mesmo tempo, eles já participavam ativamente da clandestina Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFN) e do Clube dos Subtenentes e Sargentos do Exército. Reivindicavam melhorias salariais, relações respeitosas por parte dos oficiais, direito ao casamento e ao exercício de cargos legislativos. Aproximaram-se ainda dos setores sindicais em suas reivindicações pela criação de uma Central Geral dos Trabalhadores, bem como de ações anti imperialistas, contrárias às empresas multinacionais e aos Estados Unidos.
A politização dos subalternos das Forças Armadas ganhou projeção até colocar em risco, na visão dos oficiais, a quebra da hierarquia militar. Quando se consumou o golpe de 1º de abril de 1964, centenas de militares foram presos ou expulsos de suas corporações. Muitos deles, após cumprir pena nos presídios militares, foram buscar apoio de Leonel Brizola, que estava exilado no Uruguai. Brizola procurava organizar um movimento de oposição ao regime ditatorial e acreditava poder repetir a experiência que havia garantido a posse de Goulart em 1961. Em Montevidéu, uniu-se a militantes exilados de diversas tendências de esquerda, como Avelino Capitani, Amadeu Felipe de Luz Ferreira e Jelcy Rodrigues. Nascia, sob a sua liderança, o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), sigla que comandou a organização da guerrilha do Caparaó.
Os militantes sofreram forte influência da Revolução Cubana (1959), iniciada por um pequeno núcleo de combatentes liderados por Fidel Castro e Che Guevara [ver Infográfico, pág. 30]. Instalado a princípio na Sierra Maestra, aos poucos o grupo expandiu suas forças até derrubar a ditadura do general Fulgêncio Batista (1901-1973). Esse processo, então batizado de foquismo, passou a ser apregoado pelos revolucionários cubanos como válido para toda a América Latina. Quatro militantes do MNR haviam feito treinamento militar em Cuba. O próprio Brizola aderiu ao carisma dos dirigentes cubanos e à estratégia de luta armada. Dessa aproximação vieram recursos financeiros para a guerrilha que estava sendo organizada no Brasil.
A primeira tentativa de luta armada se deu no início de 1966, no Rio Grande do Sul, organizada pelo mesmo grupo comandado por Brizola. Foi alugada uma casa em Porto Alegre para guardar armas e materiais, enquanto se arregimentava o contingente de homens necessários. Três militantes fixaram residência no local para manter a fachada de normalidade. Dois outros foram enviados para fazer contatos no Rio de Janeiro com antigos participantes do movimento dos sargentos e marinheiros. Ao mesmo tempo, membros do MNR arregimentavam militares de quartéis da própria região porto-alegrense, entre os que haviam participado do movimento legalista de 1961. Os planos foram descobertos pela polícia depois da prisão de um militante.
O plano de guerrilha transferiu-se, então, para a serra do Caparaó, por sua localização estratégica entre Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Com apoio de Brizola, militantes do MNR começaram a chegar à região em novembro de 1966, instalando-se como criadores de cabra em um sítio da família de um deles. Quando o contingente de recrutados aumentou, subiram para o pico da serra para não serem vistos pela população. Os primeiros meses foram utilizados para transportar e estocar armas e alimentos. O grupo possuía fuzis, metralhadoras, dinamite e munição, ainda que não fossem equipamentos modernos.
Não tinham a pretensão de derrubar a ditadura militar sozinhos. Baseando-se na teoria do foco guerrilheiro, acreditavam que conseguiriam resistir ao cerco do Exército até a eclosão de outros movimentos de guerrilha e a intensificação da oposição nas cidades. Antes mesmo do início da luta, porém, diversos problemas já haviam derrotado esse projeto de luta armada. A começar pelo clima, com muita chuva, frio e umidade durante quase todo o ano. Havia também o problema do estoque de comida, que foi infectado por ratos e levou alguns militantes a contraírem peste bubônica. Depois de vários meses, alguns membros do grupo questionaram se tinham realmente capacidade política e militar de continuar com a ação. As deserções iniciaram-se em março de 1967.
A população já vinha relatando à polícia a presença dos guerrilheiros. Os policiais observavam a movimentação à distância e, em 24 de março, prenderam dois militantes que haviam abandonado o grupo. No dia 29, um terceiro foi preso ao tentar descer até a cidade para comprar medicamentos. Ao descobrirem a origem e o objetivo da ação, os policiais mineiros subiram a serra e chegaram ao pico na manhã do dia 1º de abril de 1967. Encontraram os guerrilheiros dormindo. Não houve troca de tiros. Nos dias seguintes, outros membros do grupo foram presos nas cidades vizinhas tentando subir a serra para se juntar aos companheiros. Chegava ao fim, sem se concretizar, a primeira tentativa de luta armada contra a ditadura militar.
Os eventos do Caparaó coincidiram com o surgimento da guerrilha na Bolívia – liderada por Che Guevara, conforme se descobriria depois – que recebia ampla cobertura da imprensa brasileira. Talvez essa coincidência tenha levado o Exército ao duplo discurso registrado pela imprensa: inicialmente, minimizar a importância da guerrilha no Brasil, evitando a expansão de sua influência para outras áreas do país e, depois, sobrevalorizar os seus efetivos, para justificar a repressão oficial.
Os participantes da guerrilha do Caparaó não consideraram a experiência uma derrota para o projeto da luta armada, afinal cumpriram um papel importante: denunciaram ao país que havia uma ditadura liderada por militares e que setores da sociedade estavam dispostos a pegar em armas para derrubá-la.

14.007 – História – Barbárie contra a Revolução


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O sonho de liberdade tinha um horizonte bem demarcado para se concretizar. Era na Amazônia – na tríplice fronteira entre Pará, Maranhão e Goiás (atualmente Tocantins) – que dezenas de jovens e militantes de esquerda, vindos dos grandes centros urbanos, esperavam ver surgir a Revolução Socialista no Brasil. Para isso, estavam dispostos a pegar em armas para lutar por ela.
Em meados dos anos 1960, o contexto não poderia ser pior para esse idealismo transformado em guerrilha. Sob a ditadura militar desde 1964 e com todos os canais democráticos de expressão fechados (imprensa censurada, manifestações e greves proibidas), a perseguição do Estado aos opositores do regime era efetivada por meio de prisões, torturas e assassinatos de militantes e operários, estudantes, camponeses e religiosos acusados de subversão, comunismo ou incitação à desordem. A Guerrilha do Araguaia (1972-1974) foi mais um capítulo desse tenebroso período.
Todos os envolvidos eram militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) fundado em 1962 a partir de uma cisão no Partido Comunista Brasileiro (PCB) e defensor de uma revolução imediata, pela via da luta armada, se fosse necessário. A partir de 1966, o PCdoB passou a enviar para o Araguaia jovens militantes das cidades. Eles tinham que aprender a viver como os camponeses, conhecer profundamente seu modo de vida e a região, além de criar laços de amizade e solidariedade com os moradores. Era fundamental, nessa estratégia, que conseguissem envolver os camponeses na luta armada. Eles comporiam a força do exército popular de libertação que o partido pretendia organizar.
Durante cerca de seis anos, os militantes circularam livremente e puderam organizar a estrutura militar da guerrilha: criaram três destacamentos e uma Comissão Militar – órgão dirigente da luta no campo –, além de diversos pontos de apoio onde estocavam alimentos, remédios e munição. Produziam croquis identificando locais onde poderiam acampar e abriram trilhas longe dos caminhos normais de passagem. Ao todo, 69 militantes do PCdoB se deslocaram para o Araguaia. Mas os planos do Partido eram muito maiores. A ideia era organizar outros destacamentos militares, criar pontos de apoio e recrutar camponeses para a formação de um Exército.
A presença de “gente estranha” na área já era de conhecimento do governo, ao menos, desde 1971. Em princípio, cogitou-se que fossem contrabandistas, “terroristas” procurados nas cidades ou até mesmo um grupo de hippies. E foi sem saber ao certo com quem lidava que o Exército organizou sua primeira campanha contra a Guerrilha do Araguaia. No dia 12 de abril de 1972, entrando por São Domingos do Araguaia, no Pará, cerca de 20 militares atacaram o “peazão”, principal Ponto de Apoio (PA) do destacamento A da guerrilha, mas não conseguiram prender ninguém nessa primeira investida pois uma parte do material foi retirada antes do ataque. Também na segunda campanha, em setembro e outubro de 1972, as Forças Armadas não tiveram sucesso. Nem poderiam: não tinham dados precisos sobre o inimigo que estavam enfrentando, não sabiam sua localização, o número real de combatentes e não tinham certeza da identidade de muitos deles. Imaginava-se até que Carlos Marighella, morto em 1969, estivesse na área.
Os fracassos iniciais do Exército motivaram ainda mais guerrilheiros, como Maurício Grabois (1912-1973), um dos fundadores do PCdoB e comandante da guerrilha, que em seu diário comemorou o acerto da estratégia no Araguaia. Enquanto isso, entre os militares, ficava evidente a necessidade de mudanças. Até então utilizavam, por exemplo, tropas de soldados fardados, muitos deles inexperientes e recrutados na própria região.
Após um ano de tentativas frustradas de eliminar os guerrilheiros, os militares iniciaram um longo trabalho de inteligência, que visava colher o maior número possível de informações antes do próximo ataque. Para a última e decisiva campanha repressiva, houve a participação da “comunidade de informações”: militares andavam descaracterizados, deixavam a barba e o cabelo crescer e circulavam disfarçados pela área – passavam-se por técnicos agrícolas, funcionários de órgãos estatais e comerciantes. Com essa “cobertura”, misturavam-se e colhiam informações junto aos moradores locais.
Outra forma recorrente de colher informações era prendendo e torturando camponeses – muitos dos quais ainda estão “desaparecidos”. Em outubro de 1973, às vésperas dos ataques finais à guerrilha, o Exército promoveu um “arrastão” e prendeu aproximadamente 300 pessoas. Alguns foram colocados em valas de três metros nas bases militares, que foram fechadas com grades de ferro. Era o “buraco do Vietnã”, uma forma de tortura que pode ter sido usada em outras áreas rurais além do Araguaia. Consistia em um buraco com uma grade de ferro por cima, onde o preso era colocado junto com animais rasteiros – como insetos (formigas, aranhas, besouros) e animais não peçonhentos, como o calango – e ali permanecia por dias, tomando sol e chuva. Sua alimentação e suas necessidades fisiológicas eram realizadas ali.
A terceira campanha militar contra a guerrilha foi um cenário de intensa brutalidade por parte do Exército. É dessa fase a maior parte dos relatos de camponeses sobre as torturas e prisões que sofreram. A violência servia não apenas para conseguir informações junto aos camponeses, mas também para intimidá-los, para que não colaborassem de nenhuma forma com os guerrilheiros. Além dos ataques físicos e psicológicos, o Exército minou seus meios de vida. Para matar a guerrilha de fome, queimava roças e alimentos estocados nos paióis, impedia o plantio e a colheita. Muitos camponeses, sem ter como sobreviver, deixaram a região. Alguns retornaram mais tarde e descobriram que suas antigas posses haviam se tornado parte de grandes fazendas.
Alguns moradores foram recrutados como guias do Exército: iam à frente, guiando os militares pela mata. Não era possível recusar-se a realizar essa atividade sem sofrer consequências. Muitos desses guias foram presos e torturados para aceitar a função.
O ataque decisivo ocorreu no Natal de 1973. É lembrado entre os militares como o “chafurdo de Natal”. Tratou-se de uma execução, pois os guerrilheiros já não ofereciam condições de resistência, não havia mais destacamentos, comissão militar ou pontos de apoio. Os poucos guerrilheiros ainda vivos tentavam se esconder na selva, maltrapilhos, sem alimentos e doentes. Em fevereiro de 1974, os militares estimavam que houvesse restado cerca de 20 guerrilheiros nessas condições, e eles foram caçados ao longo de todo o ano.
A ordem era para que não houvesse sobreviventes. Alguns guerrilheiros foram vistos presos nas bases militares e hoje integram as listas de “desaparecidos”, outros foram degolados.
Um dos guerrilheiros, em especial, alimentou diversas lendas: Osvaldão. Primeiro a chegar à região, o mineiro de Passa-quatro destoava de todos: negro, medindo 1,98m de altura, estudara engenharia na Tchecoslováquia e fora campeão de box amador pelo Fluminense. Tratava-se de um militante do PCdoB altamente treinado, comandante do destacamento A e um dos que mais aprofundaram os laços de amizade com os moradores locais. Os camponeses diziam que Osvaldão tinha o corpo fechado. Conta-se que uma patrulha do Exército o localizara numa casa e que a metralhara de modo a garantir a morte de quem estivesse lá dentro. Ao entrarem, viram apenas uma sombra no chão, mas nenhum corpo.
Osvaldão foi assassinado ao ser surpreendido descansando num barranco. Segundo a lenda local, só foi possível matá-lo porque o guia dos militares na ocasião era um conhecido macumbeiro da região, Arlindo Piauí, que teria retirado a proteção mágica de Osvaldão. Cientes das crenças populares em torno do guerrilheiro, os militares resolveram desfazer o mito: amarraram seu corpo e sobrevoaram a cidade de Xambioá para que os moradores vissem que estava morto.
Estima-se que, nas três campanhas na região, o Exército tenha empregado cerca de 10 mil homens para reprimir a Guerrilha do Araguaia. Passados mais de 40 anos, ainda é um episódio que movimenta a sociedade na luta por esclarecimentos e pela responsabilização do Estado pelos crimes cometidos.