14.010 – História da Guerrilha – Surgia um Revolucionário


guerrilha
O que levou uma série de grupos de esquerda, nacionalistas e revolucionários, a empreenderem insurreições armadas no Brasil? E o que levou milhares de jovens a aderirem a um projeto de transformação radical do país?
Como consequência da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a década de 1960 vai ser uma época de reconstrução das nações e das instituições de relações internacionais. O fim deste conflito ocorreu com o avanço das tropas aliadas, capitaneadas pelos Estados Unidos, e das forças nacionais ou de resistência ligadas à União Soviética. Ambas se dirigiram para a Alemanha a fim de derrotar o nazismo e seus aliados fascistas. Berlim foi simbolicamente colocada no centro do encontro dessas grandes forças vencedoras, iniciando o período histórico conhecido como Guerra Fria. A Europa, então, se dividiu entre a parte ocidental – sob a hegemonia do bloco que defendia “a democracia e a liberdade” – e a oriental – “socialista”.
O termo Guerra Fria descreve bem aquele momento: oposição entre os dois blocos, mas sem ações militares diretas. Combates armados ocorriam somente em contextos locais ou nacionais. No imaginário das democracias liberais do ocidente, o inimigo encontrava-se dentro de seus territórios, alimentado pela denominada subversão comunista. A repressão aos movimentos revolucionários tornou-se prática constante nos países ocidentais, enquanto nos socialistas impunha-se o apoio ideológico e logístico às ações que visavam derrubar o regime capitalista.
Foi nas décadas de 1950 e 1960 que eclodiram golpes militares interrompendo projetos de reformas nacional-estatistas, como ocorreu com a derrubada de governos eleitos na Argentina (Perón, em 1955), Bolívia (Paz Entessoro,em 1964) e Brasil (João Goulart, em 1964), todos apoiados pelos norte-americanos sob a justificativa de bloquear a expansão do perigo comunista. Os países alinhados ao bloco capitalista substituíram as declarações de estados de exceção por ideologias de segurança nacional. Não bastava, como em momentos anteriores, incluir aspectos autoritários no ordenamento jurídico e na política das repúblicas liberais. Tratava-se, a partir de então, de instituir ditaduras com a justificativa de proteger a Nação contra seus inimigos, que encontravam-se no interior do país e eram constituídos pelos próprios cidadãos. No Brasil, a Doutrina de Segurança Nacional, política brasileira de caça aos inimigos internos, surge nas Forças Armadas a partir dos contatos com os militares norte-americanos, iniciado durante as ações da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra. Sua elaboração e divulgação como discurso ideológico ficaram sob o comando da Escola Superior de Guerra (ESG), a instituição que mais formou militares para os principais postos de comando da ditadura. Antes do golpe de 1964, a ESG já fazia a ponte entre empresários e militares e a criação do Serviço Nacional de Informações (SNI), instituído em junho daquele ano. Assim fortalecia as estratégias de controle e repressão ao inimigo interno.
Em resposta à produção de ditaduras na América Latina, grupos de esquerda, em especial os partidos comunistas, passaram a debater sobre o melhor modo de continuar a luta política contra os regimes autoritários alinhados ao modelo político norte-americano. É quando um evento histórico tem forte impacto no imaginário daqueles grupos e de milhares de jovens: a Revolução Cubana, em 1959. Comandada pelo líder estudantil e popular Fidel Castro e pelo revolucionário itinerante argentino Che Guevara, o movimento vitorioso em Cuba instalou entre as esquerdas a discussão da alternativa da luta armada e da necessidade de organização do processo revolucionário.
Além da Revolução Cubana, os movimentos nacionalistas e de esquerda tomaram outros acontecimentos revolucionários como referência para a luta contra as ditaduras e pela revolução socialista na América Latina. Por exemplo, a conquista de independência da Argélia, em 1962, os movimentos anticolonialistas da África e do mundo árabe e a guerra do povo vietnamita contra a potência militar norte-americana.
Os anos 1950 foram tempos em que havia uma divisão forte na sociedade, um antagonismo crescente que iria estourar na década seguinte. De um lado, o Brasil vivia o otimismo de uma burguesia nacional, beneficiada pelos investimentos dos grandes países capitalistas, e de crescimento da classe operária e suas demandas por direitos. Do outro, espalhava-se pelas ruas a luta pela reforma agrária. Entre outros movimentos, surgiram as Ligas Camponesas em Pernambuco e ganhou força o Partido Comunista Brasileiro (PCB), especialmente no governo do presidente João Goulart.
Em 1964, com o apoio explícito do governo norte-americano e de parte de setores conservadores, como os partidos de direita e a Igreja Católica, além da grande imprensa, os militares associados a setores civis deram um golpe de estado derrubando João Goulart e encerrando os dezenove anos de democracia (1945-1964). A força da ideia de revolução era tamanha que mesmo o movimento golpista se autodenominou “revolucionário” [Ver RHBN nº 83]. O Ato Institucional nº 1, editado pelas Forças Armadas em 9 de abril de 1964, estabelece por decreto a relação entre o governo e a vontade da nação: “A revolução se distingue de outros movimentos armados pelo fato de que nela se traduz, não o interesse e a vontade de um grupo, mas o interesse e a vontade da Nação. A revolução vitoriosa se investe no exercício do Poder Constituinte. Este se manifesta pela eleição popular ou pela revolução. Esta é a forma mais expressiva e mais radical do Poder Constituinte. Assim, a revolução vitoriosa, como Poder Constituinte, se legitima por si mesma”.
À época já era clara a contradição entre o programa político dos partidos alinhados a Moscou, de cunho reformista – de conciliação com as burguesias nacionais e etapas democrático-capitalistas no caminho para a Revolução – e a prática dos militantes, envoltos na atmosfera revolucionária imediata. No Brasil, surgem novos agrupamentos políticos, alguns de origem marxista, outros nacionalistas, influenciados pelos ares da luta revolucionária. Diante do acirramento da repressão, que atingiria patamar inédito com a publicação do Ato Institucional nº 5, de 1968, ganha corpo a luta armada contra a ditadura.
O revolucionário comunista Carlos Marighella publica, em 1966, sua carta de rompimento com o PCB e dá o tom da opção pela luta armada: “Falta o impulso revolucionário, a consciência revolucionária, que é gerada pela luta. A saída do Brasil – a experiência atual está mostrando – só pode ser a luta armada, o caminho revolucionário, a preparação da insurreição armada do povo, com todas as consequências e implicações que daí resultarem”.
Construía-se, a partir dali, um “sujeito revolucionário”, cuja figura mais universal foi a de Che Guevara – representante daqueles que não aceitam viver sob a opressão de um regime autoritário ou diante de injustiças sociais. O que os fazia agir? O que os levou à luta armada, à revolução? Uma geração de jovens acreditou com todas as forças em um mundo igualitário e se dispôs, “com as consequências e implicações que daí resultarem”, a doar suas vidas por este imaginário. Enquanto os partidos queriam a tomada do Estado e a construção de outro regime político, o sujeito revolucionário não aceitava o papel que o mundo capitalista lhe propunha, e apostava na construção de outras formas de relação humana.
Consentir com o esquecimento dessas memórias leva à renúncia de valores que a ditadura se esforçou para destruir . O novo Estado de direito, cuja existência dependeu em boa parte daquela luta, ainda não fez o reconhecimento necessário.

14.009 – História – Catolicismo guerreiro no Brasil


igreja e guerrilha
Se Deus está do seu lado, que chances pode ter o inimigo? Esta lógica – que remete a populares versos musicais de igrejas brasileiras – marcou um importante episódio nos primórdios de nossa colonização. Quando os franceses tentaram instalar-se em terras brasileiras – na experiência conhecida como França Antártica (1555-1567) – deu-se início a uma guerra que ia muito além da disputa territorial [Ver RHBN nº 49].
No poema épico De Gestis Mendi de Saa (Dos feitos de Mem de Sá), o padre jesuíta José de Anchieta deixa claro o que estava em jogo: de um lado, o Deus, dos portugueses católicos; do outro, o Diabo, dos invasores calvinistas. Reproduzia-se, assim, o confronto entre Reforma e Contra-Reforma.
Nos três primeiros livros do De Gestis, há uma batalha incessante entre duas bandeiras: a divina, defendida pelo governador-geral Mem de Sá (1504 c.-1572), e a demoníaca, representada pelos índios pagãos. No quarto e último livro, mudam as bandeiras: de um lado, o Catolicismo; do outro, os protestantes.

(…) com o coração infeccionado pela heresia,

e com a mente opressa pelas trevas do erro,

não só todos se afastam do reto caminho da crença,

mas procuram perverter, assim dizem, com falsas doutrinas

os míseros povos índios, de todo ignorantes.
A guerra contra os franceses calvinistas é considerada justa não somente pelos tradicionais critérios políticos – os invasores apossaram-se de terras lusas – mas, sobretudo, porque durante o confronto foram anunciados os decretos do Concílio de Trento (1545-1563), importante medida da Igreja Católica em reação às heresias protestantes. A principal motivação tornou-se, portanto, uma questão de fé.
Nos versos em que descreve a morte de sete soldados franceses engolidos pelo fogo, Anchieta afirma que aqueles homens infelizes já começavam a sentir as chamas do inferno “em que os ímpios corações, manchados pela heresia, sofrerão o eterno castigo que seus crimes merecem”. Ao escolher o plural para o substantivo “crime”, Anchieta amplia o foco da guerra justa: o que estava em jogo não era apenas o caráter político de invasão do território, mas o direito de combater em nome de Deus. Entre as duas bandeiras dessa guerra, apenas uma carregava a verdadeira fé cristã, aquela que segue os dogmas reafirmados da Igreja Católica, lutando por Deus e com o apoio Dele: “Com a ajuda divina, em vão as balas cortam os ares:/ antes, a pólvora explode no paiol inimigo”.
O Concílio de Trento reafirma os dogmas da Igreja Católica como verdade religiosa indiscutível para todos os cristãos, incluindo o rito sagrado do Sacramento, instituído por Jesus Cristo para dar, confirmar ou aumentar a graça do fiel. O herói Mem de Sá, seguido por seus soldados, pratica o sacramento da penitência antes de partir para a guerra contra os franceses calvinistas, como indica o poema: “Então purifica sua alma/ das culpas e a fortifica com as armas de Cristo,/ caindo de joelhos aos pés do ministro sagrado”. Ao colocar em evidência esse rito, Anchieta não somente traduz em versos as determinações do Concílio de Trento como também sugere que, por não o praticarem, os franceses heréticos estavam fadados à derrota: “Ele incutirá forças e ajudará compassivo/ a causa do justo e do fiel (…)/ abaterá e esmagará o inimigo, castigando co´a morte/ corações ímpios, vazios de fé verdadeira”.
Mem de Sá ajoelha-se aos pés do ministro sagrado – um jesuíta da Companhia de Jesus – e quando o exército luso encontra-se na iminência de uma grande derrota, apela à intervenção divina, lançando aos céus palavras em prece: “Estende a mão bondosa e sinta teu furor justiceiro/ a raça inimiga”. Mem de Sá pede intervenção divina, não pela injustiça política praticada pelos franceses, mas porque eles são praticantes do crime “feio da heresia”, pois insultam soldados “cristãos” e “fiéis”.
O governador-geral não estava sozinho em suas preces. Os jesuítas e os povos fiéis o acompanhavam em oração. Aliavam-se, assim, com a ideia da Igreja de Roma como indispensável mediadora entre Deus e os homens. Para os protestantes, a Igreja ficava em segundo plano, bastando a fé em Deus e a livre interpretação da Bíblia para que se atingisse a salvação.
Os portugueses sentiam-se favorecidos pela intervenção divina. Acometidos de pavor inexplicável, os franceses fogem do forte Coligny, na Ilha de Villegagnon. “tão firme e tão seguro pela arte da guerra (…) tamanho era o terror que o Senhor Deus onipotente lhes metera nas mentes e corações apavorados”. Ao invadirem o local, os portugueses “fincam logo a cruz vencedora no cimo do forte e aclamam o nome santo de Cristo”. Na ação narrada por Anchieta, o “ministro alado de Deus” simboliza um anjo real que, em forma de guerreiro, alia-se ao exército para levá-lo à vitória contra os falsos cristãos.
A tomada do forte é militar. O produto da guerra é teológico. Dessa batalha entre Deus e o Diabo, os protestantes saíram derrotados por defenderem a bandeira “errada”. Pregavam uma doutrina cheia de “impiedades e erros” porque se afastaram da verdadeira e correta interpretação que a Igreja de Roma faz das Escrituras Sagradas. Os adjetivos usados contra Martinho Lutero sugerem que agira sob inspiração demoníaca ou corrompido por ela. “Enraivado”, ou seja, movido por forte paixão, cega-se diante da verdade e profere blasfêmias contra o representante de Cristo na terra e contra a própria Igreja, insultando o divino, aquilo que é sagrado.
Sobre Calvino, Anchieta iguala-o ao demônio: “a fera que os abismos do inferno há pouco arrotaram de suas vasas profundas”. Nos versos do poema épico, o reformista francês é dragão e serpente de movimentos sinuosos, de caráter pouco reto, que “abraça no rolo de suas espirais o forte” – ou seja, transforma-o no próprio inferno. “Calvino vencer a Cristo,/ Senhor do céu e da terra?”, eis uma hipótese absurda. A morte na cruz significara a vitória sobre o “dragão que habitava as cavernas do inferno”, abrindo para os católicos a possibilidade da salvação, o mesmo não ocorrendo para os protestantes.
De posse do forte, os portugueses erguem um altar e o sacerdote, na veste sagrada, celebra o banquete augusto do pão sacrossanto, que jamais fora ali celebrado, diz Anchieta, pois “a geração de Calvino rejeita com impiedade o alimento celeste, nem crê que as espécies de pão encerram a Cristo”.
Se Deus estava com eles, que chances teriam os inimigos? As circunstâncias históricas, naquele caso, sorriram à fé católica e aos dogmas da Contra-Reforma. Embora, nas guerras em nome de Deus, ninguém possa dizer quem tem razão.

14.008 – História da Guerrilha – Guerrilheiros de primeira viagem


historia da guerrilha
Mesmo sob censura, deu no jornal: sete homens presos no alto da serra do Caparaó portando armamentos e manifestos contra o governo. Era abril de 1967, e foi a primeira vez, desde o golpe civil-militar, que um movimento armado ganhou ampla repercussão na imprensa.
O grupo preso era formado por militares de baixa patente que haviam participado de movimentos reivindicatórios antes de 1964. Inicialmente, o governo procurou minimizar a importância dos acontecimentos, afirmando que a prisão “não afeta a segurança nacional nem revela um caráter perigoso” e que o “Exército considera ridículo que apenas oito façam guerrilha”, como registra o Jornal do Brasil nos dias 4 e 5 de abril daquele ano. Dias depois, começaram a surgir informações contrárias na mesma publicação. Declarações como a de que o Exército “está aos poucos fechando o cerco sobre os possíveis guerrilheiros” e que eles “foram vistos armados de metralhadoras, entre São João da Pedra Menina, na divisa dos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro” aparecem na edição do dia 8 no JB.
O fato de aparecerem notícias de que havia um grupo armado em luta contra o regime, ainda que não se soubesse o número de pessoas envolvidas, representou um sopro de esperança para as diversas correntes que aspiravam por ações efetivas contra a ditatura. Quem eram, afinal, os guerrilheiros dos quais tanto se falava naquele abril de 1967? O que eles queriam? Representavam eles, como estampava a revista O Cruzeiro em 15 de abril de 1967, “uma vasta organização de guerrilhas [que] está minando aquele Estado [Minas Gerais] e, possivelmente, outras regiões do país”?
As respostas a essas indagações remetem a períodos anteriores ao golpe, no tempo de radicalização das lutas políticas no governo João Goulart (1961-1964). Além de ex-militares, a maior parte dos presos pela participação na guerrilha do Caparaó tinha em comum a passagem pelo movimento liderado por Leonel Brizola, a Cadeia da Legalidade, que garantiu a Goulart assumir a presidência em 1961 – ainda que com os poderes restritos pela implantação do regime parlamentarista. Eram sargentos e marinheiros que haviam ajudado no planejamento de uma possível guerra civil envolvendo os defensores de Goulart e os militares golpistas. Ao mesmo tempo, eles já participavam ativamente da clandestina Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil (AMFN) e do Clube dos Subtenentes e Sargentos do Exército. Reivindicavam melhorias salariais, relações respeitosas por parte dos oficiais, direito ao casamento e ao exercício de cargos legislativos. Aproximaram-se ainda dos setores sindicais em suas reivindicações pela criação de uma Central Geral dos Trabalhadores, bem como de ações anti imperialistas, contrárias às empresas multinacionais e aos Estados Unidos.
A politização dos subalternos das Forças Armadas ganhou projeção até colocar em risco, na visão dos oficiais, a quebra da hierarquia militar. Quando se consumou o golpe de 1º de abril de 1964, centenas de militares foram presos ou expulsos de suas corporações. Muitos deles, após cumprir pena nos presídios militares, foram buscar apoio de Leonel Brizola, que estava exilado no Uruguai. Brizola procurava organizar um movimento de oposição ao regime ditatorial e acreditava poder repetir a experiência que havia garantido a posse de Goulart em 1961. Em Montevidéu, uniu-se a militantes exilados de diversas tendências de esquerda, como Avelino Capitani, Amadeu Felipe de Luz Ferreira e Jelcy Rodrigues. Nascia, sob a sua liderança, o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), sigla que comandou a organização da guerrilha do Caparaó.
Os militantes sofreram forte influência da Revolução Cubana (1959), iniciada por um pequeno núcleo de combatentes liderados por Fidel Castro e Che Guevara [ver Infográfico, pág. 30]. Instalado a princípio na Sierra Maestra, aos poucos o grupo expandiu suas forças até derrubar a ditadura do general Fulgêncio Batista (1901-1973). Esse processo, então batizado de foquismo, passou a ser apregoado pelos revolucionários cubanos como válido para toda a América Latina. Quatro militantes do MNR haviam feito treinamento militar em Cuba. O próprio Brizola aderiu ao carisma dos dirigentes cubanos e à estratégia de luta armada. Dessa aproximação vieram recursos financeiros para a guerrilha que estava sendo organizada no Brasil.
A primeira tentativa de luta armada se deu no início de 1966, no Rio Grande do Sul, organizada pelo mesmo grupo comandado por Brizola. Foi alugada uma casa em Porto Alegre para guardar armas e materiais, enquanto se arregimentava o contingente de homens necessários. Três militantes fixaram residência no local para manter a fachada de normalidade. Dois outros foram enviados para fazer contatos no Rio de Janeiro com antigos participantes do movimento dos sargentos e marinheiros. Ao mesmo tempo, membros do MNR arregimentavam militares de quartéis da própria região porto-alegrense, entre os que haviam participado do movimento legalista de 1961. Os planos foram descobertos pela polícia depois da prisão de um militante.
O plano de guerrilha transferiu-se, então, para a serra do Caparaó, por sua localização estratégica entre Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro. Com apoio de Brizola, militantes do MNR começaram a chegar à região em novembro de 1966, instalando-se como criadores de cabra em um sítio da família de um deles. Quando o contingente de recrutados aumentou, subiram para o pico da serra para não serem vistos pela população. Os primeiros meses foram utilizados para transportar e estocar armas e alimentos. O grupo possuía fuzis, metralhadoras, dinamite e munição, ainda que não fossem equipamentos modernos.
Não tinham a pretensão de derrubar a ditadura militar sozinhos. Baseando-se na teoria do foco guerrilheiro, acreditavam que conseguiriam resistir ao cerco do Exército até a eclosão de outros movimentos de guerrilha e a intensificação da oposição nas cidades. Antes mesmo do início da luta, porém, diversos problemas já haviam derrotado esse projeto de luta armada. A começar pelo clima, com muita chuva, frio e umidade durante quase todo o ano. Havia também o problema do estoque de comida, que foi infectado por ratos e levou alguns militantes a contraírem peste bubônica. Depois de vários meses, alguns membros do grupo questionaram se tinham realmente capacidade política e militar de continuar com a ação. As deserções iniciaram-se em março de 1967.
A população já vinha relatando à polícia a presença dos guerrilheiros. Os policiais observavam a movimentação à distância e, em 24 de março, prenderam dois militantes que haviam abandonado o grupo. No dia 29, um terceiro foi preso ao tentar descer até a cidade para comprar medicamentos. Ao descobrirem a origem e o objetivo da ação, os policiais mineiros subiram a serra e chegaram ao pico na manhã do dia 1º de abril de 1967. Encontraram os guerrilheiros dormindo. Não houve troca de tiros. Nos dias seguintes, outros membros do grupo foram presos nas cidades vizinhas tentando subir a serra para se juntar aos companheiros. Chegava ao fim, sem se concretizar, a primeira tentativa de luta armada contra a ditadura militar.
Os eventos do Caparaó coincidiram com o surgimento da guerrilha na Bolívia – liderada por Che Guevara, conforme se descobriria depois – que recebia ampla cobertura da imprensa brasileira. Talvez essa coincidência tenha levado o Exército ao duplo discurso registrado pela imprensa: inicialmente, minimizar a importância da guerrilha no Brasil, evitando a expansão de sua influência para outras áreas do país e, depois, sobrevalorizar os seus efetivos, para justificar a repressão oficial.
Os participantes da guerrilha do Caparaó não consideraram a experiência uma derrota para o projeto da luta armada, afinal cumpriram um papel importante: denunciaram ao país que havia uma ditadura liderada por militares e que setores da sociedade estavam dispostos a pegar em armas para derrubá-la.

14.007 – História – Barbárie contra a Revolução


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O sonho de liberdade tinha um horizonte bem demarcado para se concretizar. Era na Amazônia – na tríplice fronteira entre Pará, Maranhão e Goiás (atualmente Tocantins) – que dezenas de jovens e militantes de esquerda, vindos dos grandes centros urbanos, esperavam ver surgir a Revolução Socialista no Brasil. Para isso, estavam dispostos a pegar em armas para lutar por ela.
Em meados dos anos 1960, o contexto não poderia ser pior para esse idealismo transformado em guerrilha. Sob a ditadura militar desde 1964 e com todos os canais democráticos de expressão fechados (imprensa censurada, manifestações e greves proibidas), a perseguição do Estado aos opositores do regime era efetivada por meio de prisões, torturas e assassinatos de militantes e operários, estudantes, camponeses e religiosos acusados de subversão, comunismo ou incitação à desordem. A Guerrilha do Araguaia (1972-1974) foi mais um capítulo desse tenebroso período.
Todos os envolvidos eram militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) fundado em 1962 a partir de uma cisão no Partido Comunista Brasileiro (PCB) e defensor de uma revolução imediata, pela via da luta armada, se fosse necessário. A partir de 1966, o PCdoB passou a enviar para o Araguaia jovens militantes das cidades. Eles tinham que aprender a viver como os camponeses, conhecer profundamente seu modo de vida e a região, além de criar laços de amizade e solidariedade com os moradores. Era fundamental, nessa estratégia, que conseguissem envolver os camponeses na luta armada. Eles comporiam a força do exército popular de libertação que o partido pretendia organizar.
Durante cerca de seis anos, os militantes circularam livremente e puderam organizar a estrutura militar da guerrilha: criaram três destacamentos e uma Comissão Militar – órgão dirigente da luta no campo –, além de diversos pontos de apoio onde estocavam alimentos, remédios e munição. Produziam croquis identificando locais onde poderiam acampar e abriram trilhas longe dos caminhos normais de passagem. Ao todo, 69 militantes do PCdoB se deslocaram para o Araguaia. Mas os planos do Partido eram muito maiores. A ideia era organizar outros destacamentos militares, criar pontos de apoio e recrutar camponeses para a formação de um Exército.
A presença de “gente estranha” na área já era de conhecimento do governo, ao menos, desde 1971. Em princípio, cogitou-se que fossem contrabandistas, “terroristas” procurados nas cidades ou até mesmo um grupo de hippies. E foi sem saber ao certo com quem lidava que o Exército organizou sua primeira campanha contra a Guerrilha do Araguaia. No dia 12 de abril de 1972, entrando por São Domingos do Araguaia, no Pará, cerca de 20 militares atacaram o “peazão”, principal Ponto de Apoio (PA) do destacamento A da guerrilha, mas não conseguiram prender ninguém nessa primeira investida pois uma parte do material foi retirada antes do ataque. Também na segunda campanha, em setembro e outubro de 1972, as Forças Armadas não tiveram sucesso. Nem poderiam: não tinham dados precisos sobre o inimigo que estavam enfrentando, não sabiam sua localização, o número real de combatentes e não tinham certeza da identidade de muitos deles. Imaginava-se até que Carlos Marighella, morto em 1969, estivesse na área.
Os fracassos iniciais do Exército motivaram ainda mais guerrilheiros, como Maurício Grabois (1912-1973), um dos fundadores do PCdoB e comandante da guerrilha, que em seu diário comemorou o acerto da estratégia no Araguaia. Enquanto isso, entre os militares, ficava evidente a necessidade de mudanças. Até então utilizavam, por exemplo, tropas de soldados fardados, muitos deles inexperientes e recrutados na própria região.
Após um ano de tentativas frustradas de eliminar os guerrilheiros, os militares iniciaram um longo trabalho de inteligência, que visava colher o maior número possível de informações antes do próximo ataque. Para a última e decisiva campanha repressiva, houve a participação da “comunidade de informações”: militares andavam descaracterizados, deixavam a barba e o cabelo crescer e circulavam disfarçados pela área – passavam-se por técnicos agrícolas, funcionários de órgãos estatais e comerciantes. Com essa “cobertura”, misturavam-se e colhiam informações junto aos moradores locais.
Outra forma recorrente de colher informações era prendendo e torturando camponeses – muitos dos quais ainda estão “desaparecidos”. Em outubro de 1973, às vésperas dos ataques finais à guerrilha, o Exército promoveu um “arrastão” e prendeu aproximadamente 300 pessoas. Alguns foram colocados em valas de três metros nas bases militares, que foram fechadas com grades de ferro. Era o “buraco do Vietnã”, uma forma de tortura que pode ter sido usada em outras áreas rurais além do Araguaia. Consistia em um buraco com uma grade de ferro por cima, onde o preso era colocado junto com animais rasteiros – como insetos (formigas, aranhas, besouros) e animais não peçonhentos, como o calango – e ali permanecia por dias, tomando sol e chuva. Sua alimentação e suas necessidades fisiológicas eram realizadas ali.
A terceira campanha militar contra a guerrilha foi um cenário de intensa brutalidade por parte do Exército. É dessa fase a maior parte dos relatos de camponeses sobre as torturas e prisões que sofreram. A violência servia não apenas para conseguir informações junto aos camponeses, mas também para intimidá-los, para que não colaborassem de nenhuma forma com os guerrilheiros. Além dos ataques físicos e psicológicos, o Exército minou seus meios de vida. Para matar a guerrilha de fome, queimava roças e alimentos estocados nos paióis, impedia o plantio e a colheita. Muitos camponeses, sem ter como sobreviver, deixaram a região. Alguns retornaram mais tarde e descobriram que suas antigas posses haviam se tornado parte de grandes fazendas.
Alguns moradores foram recrutados como guias do Exército: iam à frente, guiando os militares pela mata. Não era possível recusar-se a realizar essa atividade sem sofrer consequências. Muitos desses guias foram presos e torturados para aceitar a função.
O ataque decisivo ocorreu no Natal de 1973. É lembrado entre os militares como o “chafurdo de Natal”. Tratou-se de uma execução, pois os guerrilheiros já não ofereciam condições de resistência, não havia mais destacamentos, comissão militar ou pontos de apoio. Os poucos guerrilheiros ainda vivos tentavam se esconder na selva, maltrapilhos, sem alimentos e doentes. Em fevereiro de 1974, os militares estimavam que houvesse restado cerca de 20 guerrilheiros nessas condições, e eles foram caçados ao longo de todo o ano.
A ordem era para que não houvesse sobreviventes. Alguns guerrilheiros foram vistos presos nas bases militares e hoje integram as listas de “desaparecidos”, outros foram degolados.
Um dos guerrilheiros, em especial, alimentou diversas lendas: Osvaldão. Primeiro a chegar à região, o mineiro de Passa-quatro destoava de todos: negro, medindo 1,98m de altura, estudara engenharia na Tchecoslováquia e fora campeão de box amador pelo Fluminense. Tratava-se de um militante do PCdoB altamente treinado, comandante do destacamento A e um dos que mais aprofundaram os laços de amizade com os moradores locais. Os camponeses diziam que Osvaldão tinha o corpo fechado. Conta-se que uma patrulha do Exército o localizara numa casa e que a metralhara de modo a garantir a morte de quem estivesse lá dentro. Ao entrarem, viram apenas uma sombra no chão, mas nenhum corpo.
Osvaldão foi assassinado ao ser surpreendido descansando num barranco. Segundo a lenda local, só foi possível matá-lo porque o guia dos militares na ocasião era um conhecido macumbeiro da região, Arlindo Piauí, que teria retirado a proteção mágica de Osvaldão. Cientes das crenças populares em torno do guerrilheiro, os militares resolveram desfazer o mito: amarraram seu corpo e sobrevoaram a cidade de Xambioá para que os moradores vissem que estava morto.
Estima-se que, nas três campanhas na região, o Exército tenha empregado cerca de 10 mil homens para reprimir a Guerrilha do Araguaia. Passados mais de 40 anos, ainda é um episódio que movimenta a sociedade na luta por esclarecimentos e pela responsabilização do Estado pelos crimes cometidos.

14.006 – História – Fuga pela Revolução


Lamarca
Dezenove guerrilheiros dispostos a enfrentar a ditadura. Um campo de treinamento secreto. Cercos armados por policiais locais, PMs e homens do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Durante dois meses no começo de 1970, o Vale do Ribeira, interior paulista, foi cenário de perseguições, emboscadas, fugas, tiroteios, prisões, torturas e uma execução – até hoje presentes na memória dos moradores.
Comandados pelo capitão Carlos Lamarca (1937-1971), os homens que arriscaram suas vidas naquela região acreditavam que a revolução começaria pelo campo. Segundo eles, os trabalhadores rurais eram os mais explorados pelo sistema capitalista e os mais reprimidos em suas lutas sociais. Era preciso, então, organizar a guerrilha rural. Foi com esse objetivo que a organização Vanguarda Revolucionária Popular (VPR) deslocou-se para o Vale do Ribeira. O plano se resumia em treinar guerrilheiros. A efetiva implantação das guerrilhas rurais se daria em outros locais. Mas a descoberta da área pelas forças de repressão forçou um confronto real, e o campo de treinamento virou campo de combate, colocando à prova o objetivo que buscavam.
Participavam do treinamento três ex-militares e 16 civis. A maioria era formada por jovens militantes da VPR, vindos do movimento estudantil de São Paulo, do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. O sítio comprado ficava próximo à cidade de Jacupiranga, e inicialmente alguns militantes viveram lá se passando por lavradores, a partir do final de 1969. Organizaram-se em dois grupos: a base Carlos Roberto Zanirato e a base Eremias Delizoikov, que formavam o núcleo Carlos Marighella. Os nomes das bases e do núcleo homenageavam militantes mortos pela repressão.
A rotina era rígida, com marchas de 18 quilômetros por dia carregando mochilas de 30 quilos, exercícios de tiro, de manejo e conservação das armas. A disciplina exigia um guerrilheiro sempre pronto para o combate. Também organizaram grupos de estudo. Liam e discutiam documentos da organização e livros de autores diversos, como Karl Marx, Paul Sweezy, Adolfo Sanches, Josué de Castro, Isaac Deutscher, Che Guevara e Ernest Hemingway, além de manuais e guias de sobrevivência.
Em fevereiro de 1970, causou apreensão entre os guerrilheiros a notícia de um acidente de automóvel envolvendo o militante Mario Japa, codinome de Chizuo Osawa, que acabou preso com armas e documentos da VPR. Todos sabiam que ele estava sendo torturado na Operação Bandeirante (Oban) – um centro de informação, investigação e tortura montado pelo Exército em 1969, com o envolvimento de empresários brasileiros e até de multinacionais.
A solução encontrada pela VPR foi promover um sequestro para livrar Mario Japa da prisão. Um comando da Vanguarda juntou-se aos militantes da organização Rede Democrática (Rede) e do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), e sequestrou o cônsul japonês em São Paulo, Nobuo Okuchi. Aproveitaram para pedir também a libertação de mais quatro militantes e três crianças – filhos da prisioneira Damáris Lucena, que também era mãe de Ariston Lucena, um dos que estavam no Vale. Embora o sequestro tenha sido bem-sucedido, o cerco se apertava. Outras prisões se sucederam até que, em 17 de abril, o Centro de Informações do Exército (CIE) comunicou ao II Exército a existência do campo de treinamento de guerrilha no Vale do Ribeira.
A movimentação policial na região logo foi percebida por Lamarca, que avisou seus comandados. Do posto de vigia, acompanharam a chegada de caminhões com tropas, aviões e helicópteros fazendo voos rasantes. Antes do final de abril, já estavam completamente cercados, com todas as saídas fechadas. Decidiram não romper o cerco, pois possuíam bons mapas e conheciam bem a região. Enveredaram-se pelo mato.
Na pequena cidade de Barra do Areado, apresentaram-se à população como caçadores e alugaram um caminhão para ir até Eldorado Paulista. No entanto, foram denunciados pelo filho do dono do veículo alugado e enfrentaram um tiroteio em plena praça de Eldorado. Mesmo com um dos militantes feridos, conseguiram fugir em direção a Sete Barras. Ao chegarem às proximidades do rio Ribeira de Iguape, foram surpreendidos por um pelotão com 38 soldados. Da carroceria do caminhão, os guerrilheiros iniciaram um tiroteio contra o caminhão dos soldados da Polícia Militar, e com uma rajada de metralhadora FAL partiram o veículo dos militares em dois. Assim capturaram 18 prisioneiros, dez deles feridos.
Lamarca pediu para falar com o comandante, e propôs um acordo ao tenente Alberto Mendes Junior: aos guerrilheiros caberia cuidar dos feridos e não executar ninguém. Em contrapartida, o tenente deveria levantar o bloqueio em Sete Barras. Mendes, perante a sua tropa, compromete-se a cumprir os termos da rendição.
Os feridos foram levados para um hospital em Sete Barras e, segundo depoimentos dos soldados nos processos, mostravam-se surpresos por estarem sendo tratados com respeito. Esperavam ser fuzilados e eram socorridos, os guerrilheiros explicavam a sua luta, diziam que nada tinham contra soldados que apenas obedeciam ordens.
O tenente acompanhou os feridos e dois guerrilheiros num carro, que acabou atolando. Os guerrilheiros então deixaram os feridos com o tenente e saíram em busca de ajuda. Como não conseguiram meios para prosseguir, voltaram para a estrada, encontrando o tenente voltando do local onde o haviam deixado. Os feridos haviam sido levados por outro veículo que viera pela estrada. O tenente voltou por conta própria e garantiu que não havia bloqueio em Sete Barras. Os guerrilheiros prosseguiram na caminhada e colocaram o tenente na frente da fila indiana, alertando: “se houvesse emboscada, ele seria o primeiro a tombar.” Na entrada da cidade, porém, viram-se cercados por todos os lados. O grupo conseguiu escapar por um braço da serra, mas dois companheiros se perderam. Na confusão, aconteceu um episódio de fogo amigo: julgando saber a posição dos oponentes, soldados da Polícia Militar abriram fogo, ao que o Exército respondeu na mesma medida, dando-se então um tiroteio entre as forças da repressão.
Depois da emboscada, restavam apenas cinco guerrilheiros, que se revezavam para vigiar o tenente Mendes, levado como refém. O oficial foi julgado culpado por um tribunal revolucionário, sob a acusação de traição por ter rompido o acordo e tê-los encaminhado para uma emboscada. A decisão final foi tomada por Lamarca, Yoshitane Fugimori e Diogénes Sobrosa de Souza. Havia também o receio de que o militar denunciasse a posição do grupo. O tenente Alberto Mendes Junior foi então executado e enterrado. O tenente foi executado a coronhadas por Fugimori e Sobrosa.
Fugindo debaixo de chuva, Lamarca resolveu permanecer dentro do cerco tático. Faminto, o grupo chegou a pedir que um casal comprasse comida para eles, mas o homem foi preso e torturado pelos militares, revelando informações sobre os guerrilheiros. Decidiram, então, não mais fazer contato com as pessoas. No final de maio, conseguiram tomar um caminhão do Exército, prendendo os soldados e o sargento na carroceria. Vestidos com as roupas dos militares e de posse da senha por eles informada, passaram pela barreira da polícia e, enfim, conseguiram fugir para a capital paulista.
O conhecimento do capitão Lamarca sobre o tipo de movimentação militar empregada foi fundamental para romperem o cerco. Segundo Ariston Lucena, parte do êxito da fuga deveu-se também a Fugimori, que era um excelente mateiro e ótimo atirador, assim como Lamarca. Essas virtudes e a capacidade de fuga dos militantes povoam até hoje a memória de antigos moradores. Há até quem diga que Lamarca não morreu e que ainda pode estar por lá, em algum canto da mata.
A experiência do Vale do Ribeira reforçou a confiança dos guerrilheiros na viabilidade da luta no campo. Aqueles meses haviam mostrado a importância do empenho dos combatentes e do conhecimento local. Um pequeno grupo bem treinado “vencera” um grande contingente de soldados despreparados e no geral pouco dispostos a arriscar a vida para perseguir um grupo de guerrilheiros.
Antes das derrotas definitivas, a esquerda armada ainda sonhava alto.

13.716 – História Contemporânea – FARC


FARC
No pós-Segunda Guerra, a construção de um mundo bipolarizado pareceu traçar um conjunto de transformações que rompia os limites dos territórios nacionais. O conflito de interesses entre o bloco capitalista e comunista nos dava uma impressão de que as instituições, práticas, econômicas e, até mesmo, concepção de mundo atravessavam a bifurcação destes caminhos distintos.
Na disputa travada por Estados Unidos e União Soviética, o mundo perdia seu aspecto diverso para se curvar à ingerência das duas grandes potências. Nesse contexto, a América seria um campo de homogênea dominação do bloco capitalista. No entanto, todo esse esforço em prol do total alinhamento político nas Américas sofreu grandes resistências. A iniciativa de grupos políticos comunistas e nacionalistas frente a presença imperialista dos Estados Unidos manifestou-se em varias nações latino-americanas.
A mobilização oposicionista chegou a tal ponto que a imposição de ditaduras foi a única estratégia viável para se conter algum tipo de manifestação divergente à doutrinação da ordem bipolar. Em alguns casos, os movimentos revolucionários e as guerrilhas foram algumas vias de mobilização pela qual as oposições políticas nacionais. O caso mais famoso de ação guerrilheira conhecido foi constituído na Colômbia no final dos anos 60.
A luta das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) iniciada da mobilização de camponeses comunistas liderados por Manuel Marulanda, o Tiro Certo, estende-se até os dias de hoje. Esse grupo inconformado com a penosa situação econômica e social da Colômbia decidiu, ao longo de 40 anos de luta, controlar o território sul do país, criando esferas de poder paralelo. No entanto, é importante lembrar que a Colômbia não abriga somente esse grupo guerrilheiro. Outros grupos de orientação diversa também se instalaram no território colombiano.
Atualmente, muitos criticam as FARC como sendo um grupo de ação terrorista e sustentado pelo tráfico de drogas. A natureza combatente das FARC e a disputa entre os outros grupos paramilitares e guerrilheiros do país impedem algum tipo de julgamento preciso sobre os “verdadeiros” objetivos e práticas do grupo. No entanto ficam em evidência os seqüestros, mortes e pressões diplomáticas associadas ao grupo.
De fato, as diferenças dos grupos armados presentes na Colômbia demonstram a fraqueza das instituições políticas dentro do país. As FARC são desdobramentos de uma história política latino-americana onde há a falta de representatividade de suas instituições incitam certas parcelas da população, independente de sua orientação marxista ou conservadora, a pegarem em aramas e garantirem seus interesses.
Nos anos 80, a guerrilha tentou as vias representativas oficias com a criação da União Patriótica. Não obtendo grandes conquistas retornaram ao uso da guerrilha para sustentarem seu projeto revolucionário. No fim dos anos 90, durante o governo do presidente Pastrana, tentou-se uma negociação pacífica capaz de dar fim ao problema causado pelas mortes e o desgaste militar entre o Estado e os grupos armados.
Em 2000, os Estados Unidos decidiram interferir na questão criando um plano de cooperação com a Colômbia. O Plano Colômbia instituiu fundo de ajuda através do qual os Estados Unidos enviaria recursos e tecnologia militar contra os guerrilheiros. Ainda assim, as FARC sobrevivem hoje às pressões que rondam o seu projeto de tomada do poder na Colômbia.

9124 – Guerrilha no Brasil – Comando de Libertação Nacional


Foi uma organização guerrilheira que atuou no Brasil durante a Ditadura Militar.
No início da década de 1960, a tensão da polaridade capitalismo/socialismo provocada pela Guerra Fria se estabeleceu no Brasil trazendo graves consequências para o cotidiano do país. Após a renúncia do presidente eleito Jânio Quadros, seu vice, João Goulart, assumiu o comando para completar o mandato em vigência. O novo presidente, contudo, defendia amplas reformas de base no Brasil, com destaque para a reforma agrária. No contexto da política internacional, Jango, como era popularmente chamado, pretendia desenvolver uma política neutra, relacionando-se simultaneamente com líderes de países capitalistas e com líderes de países socialistas. Os conservadores do país logo se uniram contra o presidente, suas propostas de reforma e sua maneira de se relacionar politicamente. Jango foi acusado de alinhamento com o socialismo e o movimento de oposição cresceu até que os militares, através de um golpe, tomaram o poder, em 1964. Iniciava assim um período de repressão, o governo militar.
O autoritarismo do novo governo foi sentido logo nos primeiros momentos. Indivíduos ligados a ideologias de esquerda foram perseguidos, aprisionados e, muitas vezes, mortos. Mas isso não impediu a formação de grupos que defendiam o fim do regime militar ou mesmo que pretendiam instalar um governo socialista no Brasil. Um desses grupos de resistência foi o Comando de Libertação Nacional, também conhecido simplesmente pela sigla COLINA. Tratava-se, na verdade, de uma organização guerrilheira de extrema-esquerda com o claro objetivo de instalar um governo socialista no país.

O Comando de Libertação Nacional foi fundado em 1967, no estado de Minas Gerais, numa época em que a repressão se tornava cada vez mais intensa. Sua origem foi o resultado da fusão da Organização Revolucionária Marxista Operária (Polop), que deu origem também a várias outras organizações de esquerda, com militares que estavam contra o sistema. O COLINA seguia os ideais da Organização Latino-Americana da Solidariedade (OLAS), que era uma entidade internacional com o objetivo de estender algumas ideias do revolucionário Che Guevara, e adotava como prática táticas de guerrilha para alcançar seus objetivos. Suas ações começaram em 1968 e o grupo ficou conhecido por tentar fazer justiça à morte de Che Guevara, cujo assassino teria sido o militar boliviano Gary Prado. No início do mês de julho daquele ano, alguns revolucionários membros do COLINA assassinaram um indivíduo no Rio de Janeiro que acreditavam ser o executor de Che Guevara. João Lucas Alves, Severino Viana Colon, José Roberto Monteiro e Amílcar Baiardi, no entanto, se equivocaram e assassinaram Edward von Westernhagen, major do Exército alemão. Embora o grupo não tenha assumido a autoria do atentado, João Lucas foi preso no mês de novembro e torturado até a morte. Pouco tempo depois, Severino Viana Colon foi o segundo a morrer.

O Comando de Libertação Nacional continuou em atividade e esteve envolvido, em 1969, em outro evento de repercussão. Em janeiro daquele ano, alguns de seus militantes se envolveram em um tiroteio com a polícia civil de Minas Gerais, resultando na morte de dois policiais. A busca pelos integrantes do grupo aumentou e seus líderes foram aprisionados. De acordo com novos documentos revelados pela Comissão da Verdade, um dos dirigentes do COLINA, Murilo Pezzuti, serviu como cobaia nas aulas de tortura da Vila Militar, no Rio de Janeiro.
Muito embora as lideranças do COLINA tenham sido aprisionadas em 1969, o grupo não deixou de existir. Na verdade, os remanescentes se uniram a ex-membros da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e fundaram a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), uma das organizações de extrema-esquerda do regime militar de maior repercussão e que teve como membro o ex-marido da presidente Dilma Rousseff, por exemplo.

9103 – Guerrilha – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia


FARC-EP

Também conhecidas pelo acrônimo FARC ou FARC-EP, é uma organização de inspiração comunista, auto-proclamada guerrilha revolucionária marxista-leninista, que opera mediante táticas de guerrilha. Lutam pela implantação do socialismo na Colômbia. Apesar de não ser membro do Foro de São Paulo, que congrega partidos de esquerda da América Latina, as FARC já estiveram presentes em suas reuniões.
As FARC são consideradas uma organização terrorista pelo governo da Colômbia, pelo governo dos Estados Unidos, Canadá e pela União Europeia.Os governos de Equador, Bolívia, Brasil, Argentina e Chile não lhes aplicam esta classificação. O presidente Hugo Chávez rejeitou publicamente esta classificação em Janeiro de 2008 e apelou à Colômbia como outros governos a um reconhecimento diplomático das guerrilhas enquanto “força beligerante”, argumentando que elas estariam assim obrigadas a renunciar ao sequestro e actos de terror a fim de respeitar a Convenção de Genebra. Cuba e Venezuela adoptam o termo “insurgentes” para as FARC.
A origem das FARC remontam as disputas entre liberais e conservadores na Colômbia, retratadas pela obra de Gabriel García Márquez “Cem Anos de Solidão”. Em 1948, os liberais, com apoio dos comunistas, iniciam uma guerra civil contra o governo conservador. Após 16 anos de luta guerrilheira e a conquista de algumas reivindicações políticas, os liberais passaram a temer que a experiência cubana de 1959 se repetisse na Colômbia. Rompem com a esquerda e passam para o lado conservador.
Em 27 de maio de 1964, o governo de conservadores aliados aos liberais utilizam o exército no embate contra os camponeses rebelados, acontece o massacre de Marquetália. 48 camponeses sobreviventes fogem para as selvas e montanhas e fundam as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).
Ao longo da história do grupo guerrilho, o Partido Comunista Colombiano teve relações mais próximas ou mais distantes com as FARC. Enquanto originaram-se como um puro movimento de guerrilha, a organização já na década de 1980 envolveu-se no tráfico ilícito de entorpecentes, o que provocou a separação formal do Partido Comunista e a formação de uma estrutura política chamada Partido Comunista Colombiano Clandestino.
As FARC-EP continuam a se definir como um movimento de guerrilha. Segundo estimativas do governo colombiano, as FARC possuem entre 6000 a 8000 membros, uma queda de mais da metade dos 16 000 em 200115 (aproximadamente 20 a 30% deles são recrutas com menos de 18 anos de idade). Outras estimativas disponíveis avaliam em mais de 18 000 guerrilheiros, números que as próprias FARC reclamaram em 2007 numa entrevista com Raul Reyes.
As FARC-EP estão presentes em 15-20% do território colombiano, principalmente nas selvas do sudeste e nas planícies localizadas na base da Cordilheira dos Andes. Segundo informações do Departamento de Estado dos Estados Unidos, as FARC controlam a maior parte do refino e distribuição de cocaína dentro da Colômbia, sendo responsável por boa parte do suprimento mundial de cocaína e pelo tráfico dessa droga para os Estados Unidos.

Em 1964, temendo a radicalização da guerrilha camponesa, influenciada pela Revolução Cubana, os liberais, aliados aos Conservadores, enviam tropas ao povoado de Marquetália.
Inicialmente as FARC era composta por famílias camponeses e passa a receber crescentemente a influência do Partido Comunista Colombiano.
A depender do presidente, o governo colombiano apostou na negociação ou no confronto com as FARC-EP e outros grupos armados, obtendo relativo sucesso. Grupos como o EPL, o ERP, o Movimento Armado Quintín Lame e o M-19 depuseram armas e aceitaram os acordos de paz.
Em 1985, as FARC junto com outros grupos de esquerda integraram a União Patriótica, uma frente eleitoral orientada para a conquista de uma serie de reformas mínimas para a abertura democrática (reforma agrária, reforma urbana, democratização das forças armadas, fim da doutrina de Seguridade Nacional, respeito aos direitos humanos). Uma operação de extermínio por parte de grupos narcotraficantes e paramilitares, assim como organismos de segurança do Estado colombiano contra a UP se desenvolveu. Segundo o PCC a operação assassinou mais de 3000 militantes (entre eles os candidatos presidenciais Jaime Pardo Leal e Bernardo Jaramillo Ossa; o ex-secretario da Juventude Comunista Colombiana José Antequera; e dirigentes como Teófilo Forero e Manuel Cepeda Vargas).
No final de 1990, tropas do exército comandadas por César Garcia ignoraram as negociações de paz e atacaram a Casa Verde, sede do secretariado nacional das FARC-EP como parte da Operação Centauro II. O governo alegou falta de interesse por parte das FARC nas negociações, uma vez que facções do grupo continuavam a manter ações violentas. Em 10 de agosto de 1990, o líder e ideólogo Jacobo Arenas falece.
Em 3 de junho de 1991, reiniciam-se as negociações de paz em território neutro em Caracas e Tlaxcala, no México.
Porém a violência não cessou, com ataques de ambos os lados, até que em 1993, as negociações cessaram por falta de acordo e a coordenação das FARC se dissolveu e os grupos guerrilheiros passaram a agir de forma independente. As FARC se dividiram em 70 frentes espalhadas pelo país, com efetivo entre 7000 e 10000 membros.
Em 2007, o governo Colombiano foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos pelo assassinato de 12 investigadores de direitos humanos, mortos por paramilitares de direita na localidade de La Rochela (norte) em 1989. Segundo Michael Camilleri, que trabalhou nesse processo para o Centro de Justiça e Direito Internacional “a sentença mostra que o Estado não só carecia da vontade de confrontar os paramilitares, mas que alguns oficiais se mancomunaram com eles contra os investigadores do próprio governo”.
As FARC-EP, o maior grupo paramilitar na América do Sul, eram dirigidas por um secretariado liderado desde março de 2008 por Alfonso Cano (morto em 2011), e seis outros membros, incluindo o comandante militar Jorge Briceño, também conhecido por “Mono Jojoy”. A “face internacional” da organização era representada por um outro membro do secretariado, “Raúl Reyes”, morto durante o ataque do exército colombiano contra um campo das FARC no Equador em março de 2008. Depois da morte de Cano, Timoleón Jiménez o substituiu na liderença das FARC em 5 de novembro de 2011.
As FARC estão organizadas segundo as linhas militares e incluem diversas frentes urbanas ou células de milícia. A organização adicionou o “-EP” (Ejército del Pueblo) ao seu nome oficial durante a sua sétima conferência em 1982 como expressão da expectativa de evolução de uma guerra de guerrilha a uma acão militar convencional, esboçada nessa ocasião.

5344 – Che Guevara – Herói pode ter sido farsa


Falso Herói?

Pelo menos foi o que sugeriu uma tese levantada em 2007 e publicada pela revista Veja na edição de outubro.
“Não disparem. Sou Che. Valho mais vivo do que morto”. Em 8 de outubro de 1967 a frase foi gritada por um guerrilheiro maltrapilho e sujo nos confins da Bolívia e nunca mais foi lembrada, exceto agora. Um pedido de misericórdia não combina com a aura mitológica criada em torno de tudo o que se refere a Ernesto Che Guevara de La Sena; mas para os companheiros, apenas “El Chancho”, o porco, porque não gostava de tomar banho. A máquina de propaganda marxista elaborou um intocado mito que é lenda entre jovens de 5 continentes. Mas era um homem de carne e osso com fraquezas e adepto ao totalitarismo, segundo o depoimento de um jornalista chamado Debray que conviveu com Che na Bolívia.
Por suas convicções ideológicas Che teve seu lugar na mesma lata de lixo onde a História arremessou teóricos e práticos do Comunismo, como Lenin, Stálin, Trotsky, Mao e Fidel. Conversando com historiadores, biógrafos e antigos companheiros de Che na guerrilha e no governo cubano, o repórter tentou entender como o rosto de um apologista da violência foi parar no biquini de Gisele Bundchen, no braço de Maradona, na barriga de Mike Tyson e em pôsteres e camisetas.
Tal mito é enganoso por sustentar o avesso do que o homem foi, pensou e realizou durante a sua existência. Embora sempre disposto a eliminar a tiros os adversários, foi paradoxalmente visto como um símbolo de luta pela liberdade. O movimento que derrubou o ditador Fulgêncio Batista, em 1959, não foi uma ação comunista. Boa parte da liderança revolucionária e dos comandantes guerrilheiros tinha por objetivo a instauração da Democracia em Cuba. Surpreendidos por um golpe comunista dentro da revolução, acabaram presos, fuzilados ou deportados. Che representava a linha dura pró-soviética ao lado do irmão de Fidel, Raul Castro. Nomeado comandante da fortaleza La Cabaña, para onde eram levados os presos políticos, Che Guevara a converteu em campo de extermínio.
Nascido a 14 de maio de 1928, em uma família de esquerdistas ricos na Argentina. Se formou em Medicina, mas jamais exerceu. Viajou pela Amériica do Sul. Após terminar a faculdade saiu da Argentina para nunca mais voltar. Encontrou-se com Fidel no México em 1955 onde aprendeu técnicas de guerrilha. No ano seguinte, participou do desembarque em Cuba do pequeno contingente de revolucionários. Depois de 2 anos de combates em Sierra Maestra , Fidel tomou o poder em Havana. Che se encarregou 1º dos fuzilamentos, depois da Economia, coisa que não entendia. Com uma má administração política e econômica, a produção agrícola caiu pela metade e a indústria açucareira que era então o principal produto de exportação, entrou em colapso. Em 1963, em estado de penúria, a ilha passou a viver da mesada enviada pela então URSS. Che se tornara o crítico feroz da URSS, da qual o regime cubano dependia para sobreviver. Não por discordar do Kremlim, mas por julgar os soviéticos tímidos na promoção da revolução armada no 3º Mundo. Para se livrar dele, Fidel o mandou como delegado da Assembléia Geral das Nações Unidas em 1964. No ano seguinte, foi secretamente combater no Congo, à frente de soldados cubanos. Derrotado em campo de batalha e abatido pela diarréia, se tornaria depois uma figura patética .
Os historiadores definem sua vida como uma sequência de fracassos: como médico nunca exerceu a profissão, como ministro e embaixador não conseguiu o que queria e como guerrilheiro, foi eficiente apenas em matar por causas sem futuro. Na falta de opções, escolheu a Bolívia para a sua nova aventura guerrilheira. A missão era de todos os pontos de vista suicida. Fracassou pela falta de apoio do povo boliviano e também pela traição de seu Partido Comunista. O mito foi construído pelo fato de Guevara ao morrer ser uma celebridade internacional. A ordem de executá-lo veio de uma alta autoridade boliviana, segundo Félix Rodriguez: indo até o local, disse que lamentava, mas eram ordens superiores. “Ele ficou branco como um papel e disse: – É melhor assim, eu nunca deveria ter sido capturado vivo”. Tirou o cachimbo da boca e pediu que desse a um dos soldados. Suas últimas palavras: – Diga a Fidel que esse fracasso não significa o fim da revolução, que logo triunfará em alguma parte da América Latina. Diga a minha senhora que se case outra vez e trate de ser feliz. Avisei a um tenente armado com uma carabina m2 que a ordem já havia sido dada. Eram 13h10min quando escutei o barulho dos tiros”…

3683 – A Esquerda Política


Pré – 1964
PCB
Partido Comunista Brasileiro (1922 -):
Até meados dos anos 60, foi a principal referência da esquerda no Brasil. Sob influência soviética e contrário à luta armada, deu origem a uma série de movimentos dissidentes que se transformaram nos principais grupos guerrilheiros de combate à ditadura.
Principais nomes: Luís Carlos Prestes, Carlos Marighela e Mário Alves.
Militantes: Cerca de 1 000.
PCdoB
Partido Comunista do Brasil (1962 -):
Primeira dissidência do PCB contrária à linha pacifista. Foi o único grupo a realizar ações de guerrilha rural no país. Entre 1972 e 1974, cerca de 70 combatentes enfrentaram até 20 mil soldados na Guerrilha do Araguaia.
Principais nomes: Pedro Pomar e João Amazonas.
Militantes: Cerca de 300.
MNR
Movimento Nacionalista Revolucionário (1964–1967):
Bem articulado e estruturado em 1964, era o grupo que os militares mais temiam nos primeiros anos após o golpe.Tinha apoio de Cuba – Fidel Castro acreditava que o MNR faria a revolução socialista no Brasil.
Principais nomes: Leonel Brizola.
Militantes: Cerca de 100.
AP
Ação Popular (1962–1973):
Formada por militantes de esquerda ligados à Juventude Católica e com forte adesão dentro do movimento estudantil, apoiava as reformas de base e as lutas trabalhistas. Alguns religiosos ligados à AP cediam os mosteiros para as reuniões clandestinas dos grupos guerrilheiros.
Principais nomes: José Serra e Herbert de Souza (Betinho).
Militantes: Cerca de 400.
POLOP
Política Operária (1961-1967):
Uma das matrizes da esquerda brasileira, foi o primeiro agrupamento a se organizar como alternativa partidária ao PCB. Dava mais importância ao debate teórico e doutrinário do que à ação armada.
Principais nomes: Emir Sader, Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio.
Militantes: Cerca de 100.
1964 – 1968
Golpe de (1964)
MR8
Movimento Revolucionário 8 de Outubro (1966 -):
Serviu de abrigo a grupos menores, como a Dissidência da Guanabara, formada pelos estudantes que tiveram a idéia de seqüestrar diplomatas estrangeiros. A ação de maior sucesso envolveu o embaixador americano Charles Elbrick.
Principais nomes: Franklin Martins e Fernando Gabeira.
Militantes: Cerca de 100.
PCBR
Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (1968–1970):
Inspirado nos ideais do líder chinês Mao Tsé-tung, era formado por ex-dirigentes do PCB que acreditavam na guerrilha rural. A organização, porém, praticou apenas ações urbanas voltadas à divulgação dos ideais comunistas.
Principais nomes: Mário Alves e Jacob Gorender.
Militantes: Cerca de 100.
ALN
Ação Libertadora Nacional (1968–1974):
Estudantes universitários e ex-militantes do PCB formaram a organização mais ativa entre as que atuavam na guerrilha urbana. Suas principais ações incluíram o comando do seqüestro do embaixador dos EUA, ao lado do MR-8.
Principais nomes: Carlos Marighela, José Dirceu e Frei Beto.
Militantes: Cerca de 250.
VPR
Vanguarda Popular Revolucionária (1968–1969):
Militares cassados e ex-integrantes da Polop formaram um dos grupos de maior atividade do período. Contrário ao controle do Estado pelo Exército, o capitão desertor Lamarca roubou armas do quartel para usá-las contra a ditadura militar.
Principais nomes: Carlos Lamarca.
Militantes: Cerca de 200.
COLINA
Comando de Libertação Nacional (1967–1969):
Pequeno grupo mineiro com ramificações no Rio de Janeiro, era formado por ex-militarese ex-integrantes da Polop. Como meio de obter recursos para viabilizar a guerrilha rural, praticava assaltos a bancos e a trens pagadores.
Principais nomes: Sargento João Lucas Alves.
Militantes: Cerca de 75.
Pós – 1968
AI 0 5 (1968)
E hoje?
Com suas organizações praticamente aniquiladas pela ditadura no início dos anos 70, a maioria dos guerrilheiros abandonou a luta armada. Ao longo da década, alguns militantes aderiram ao MDB, único partido de oposição ao regime. Nos anos 80, com a anistia e a abertura política, começaram a se organizar em partidos que existem até hoje. Conheça algumas influências.
PCB = PPS
MNR + VPR = PDT
MR-8 + PCBR = PMDB
PCBR + ALAN = PT
PCdoB + AP = PCdoB
MOLIPO
Movimento de Libertação Popular (1971–1972):
Dissidência da ALN formada por militantes que fizeram treinamento de guerrilha em Cuba. Infiltrado por um espião do governo, porém, o grupo foi praticamente eliminado pouco após seus líderes retornarem ao Brasil.
Principais nomes: José Dirceu e Beth Mendes.
Militantes: Cerca de 50.
VAR-PALMARES
Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares (1969–1971):
Foi responsável pelo assalto mais lucrativo do período: o da casa de Ana Capriglione, conhecida como amante do governador de São Paulo, Adhemar de Barros. Na ação, 2,5 milhões de dólares foram roubados.
Principais nomes: Carlos Lamarca e João Lucas Alves.
Militantes: Cerca de 200.
VPR
Vanguarda Popular Revolucionária (1969–1971):
Após o assalto a Ana Capriglione, a VPR se separou da VAR-Palmares. Em 1971, a organização seqüestrou o embaixador suíço, Giovanni Bucher. Os militares se recusaram a negociar e o grupo decidiu matá-lo. Lamarca discordou e fez prevalecer sua vontade. Mas acabou abandonando a organização para militar no MR-8.
Principais nomes: Carlos Lamarca
Militantes: Cerca de 150.

Mega Personalidades – Ernesto Che Guevara



Revolucionário cubano de origem argentina – Rosário Argentina, 1928- Bolívia, 1967.
Aos 25 anos deixou a Argentina por ser contra o regime peronista. Já eraentão formado em medicina. A seguir, participou de movimentos esquerdistas em Costa Rica, Bolívia, Equador, Panamá e Peru; trabalhou na Guatemala e viajou para os EUA. Em 1956 encontrou-se no México com o advogado e revolucionário cubano Fidel Castro. Juntos lideram as guerrilhas que em 1959 derrubaram o ditador cubano Fulgêncio Batista. Uma vez instaurado o regime socialista na ilha, aderiu a cidadania cubana, exercendo os cargos de presidente do Banco Nacional e ministro da indústria. Em outubro de 1965, renunciou a cidadania e as suas funções em Cuba para se dedicar a atividades revolucionárias em outros países. Comandando um grupo de guerrilheiros na Bolívia, tentava por em prática suas teorias sobre a revolução comunista, segundo as quais a guerrilha, em condições favoráveis, era mais importante que a luta política. Em 8 ou 9 de outubro de 1967, militares bolivianos, acessorados por norte-americanos, que temiam a expansão do socialismo, liquidaram Guevara e seus homens.
Era filho de um arquiteto e se formou em medicina em Buenos Aires em 1953. Estudou a reforma agrária feita na Bolívia em 1950.
Desde 1962 defendia a idéia de que a consolidação da revolução cubana, que considerava anti-imperialista da América Latina, dependia de sua extensão a todo o continente.
Espôs suas concepções em obras como “A guerra das guerrilhas”, 1960, O socialismo e o homem em Cuba, 1965. Segundo ele, na América Latina subdesenvolvida, o plano fundamental de luta armada deve ser o campo.
A teoria do foco insurreicional teve influência em ovimentos guerrilheiros que atuaram na América Latina entre os anos 60 e 70, levando-os a agir em condições desfavoráveis e isolados da luta política popular em seus países. A impotência desses grupos e seu fracasso em enfrentar ditaduras militares, fizeram com que a teoria fosse abandonada.

Mega comentário – O socialismo de Marx, considerado como utópico, jamais foi implantado de fato em qualquer país do mundo. Por outro lado, o capitalismo, como temos acompanhado por todo o Mega Arquivo, tem aumentado a pobreza e a desigualdade social. No Brasil, o MST parece atuar na mesma linha de raciocínio que Guevara, mas não encontra apoio popular, sendo vistos apenas como opositores políticos, baderneiros, indivíduos que promovem o caos. O governo brasileiro precisa investir ainda mais na reforma agrária e buscar reduzir o nível de injustiça e desnivelamento social, para tentar manter a estabilidade e a paz.