10.997 – Novo acelerador de partículas será inaugurado em 2018, em Campinas


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Quem visita o campus do CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais), em Campinas, já pode ver no solo o traçado de uma circunferência de 235 metros de diâmetro. Não é um aeroporto para discos voadores. Nesse círculo ficará o Sirius, o novo acelerador de partículas da instituição, uma máquina de R$ 1,3 bilhão.
A maior parte será financiada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) também contribui para o projeto.
O tamanho do projeto pode não ser muito impressionante comparado aos maiores aceleradores de partículas do mundo –o LHC, na Suíça, tem 8,6 km de diâmetro– mas a máquina brasileira tem a chance de ser a melhor de sua categoria quando for inaugurada, em 2018.
Diferentemente dos aceleradores que produzem colisões entre partículas, o Sirius vai gerar raios de luz síncrotron, tipo especial de radiação. Ela é usada para obter imagens de alta definição em técnicas de análise estrutural de materiais e moléculas.
Dentro do acelerador circulam elétrons que, ao serem desviados por ímãs para seguirem a trajetória do anel, emitem radiação síncrotron pela tangente.
A radiação gerada pelo Sirius terá muitas características especiais se comparada a uma fonte de luz comum. Seu espectro será muito amplo, indo desde a luz infravermelha (de frequência baixa) até o raio X (de frequência alta), passando pelas sete cores da luz visível e pelo ultravioleta.
Outra coisa que torna especial a luz gerada pelo Sirius é sua “baixa emitância”. Isso significa que sua radiação será separada em raios distintos e estreitos, com apenas 0,5 micrômetro de largura (0,5% de um fio de cabelo). Focalizados, eles são capazes de seguir longos percursos sem se dispersar, como o laser.
“A emitância, que é medida em uma unidade chamada nanômetros-radianos [nm.rad], é o parâmetro que caracteriza a qualidade da máquina”, explica Liu Lin, uma das cientistas responsáveis pelo projeto do Sirius.
O LNLS (Laboratório Nacional de Luz Síncrotron), divisão do CNPEM encarregada do Sirius, opera desde 1997 outro acelerador, o UVX, que gera raios com emitância de 100 nm.rad em seu anel de 30 m de diâmetro. A do Sirius será de apenas 0,27 nm.rad.
A demanda por uma tecnologia melhor já existe no setor de pesquisas de empresas como a Petrobras, que lida com equipamentos de exploração e análise de rochas a serem perfuradas.
O laboratório colocará as linhas de luz à disposição de cientistas que estudam desde proteínas e fármacos até ligas metálicas, passando por análise de solo e produtos da agroindústria. Empresas privadas também podem solicitar espaço nos laboratórios, desde que paguem pelo custo do serviço.
Diferentemente do UVX, que já era uma fonte síncrotron de segunda categoria quando ficou pronta, a nova máquina pretende ser mais competitiva, com potencial real de atrair colaborações com outros países.
“O Sirius vai nascer na liderança”, diz José Roque da Silva, diretor do LNLS, que compara o projeto ao MAX IV, na Suécia, único acelerador em construção no mundo com emitância comparável à do Sirius. Ambos terão elétrons circulando com a mesma energia em seus anéis.
Segundo o cientista, foi a expertise adquirida na construção do UVX, que começou em 1987 e durou dez anos, que permitiu o projeto mais ousado agora.
Cerca de metade do custo bilionário do acelerador é o prédio que vai abrigá-lo, que requer condições muito específicas. O piso onde o anel acelerador será assentado, por exemplo, terá mais de 500 metros de circunferência, e não pode contrair imperfeições maiores do que 0,25 mm por ano, do contrário vai atrapalhar o funcionamento da máquina.
Nos próximos dois anos, porém, para que o projeto não atrase o cronograma -algo que em geral implica também um aumento de custo– será preciso obter um fluxo de verbas de R$ 300 milhões anuais. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que abarca o LNLS, havia prometido honrar o compromisso, por considerar o Sirius de importância estratégica para a pesquisa nacional. A Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), também contribui para o projeto.

10.372 – Parado há mais de cinco anos, navio da USP deve ser doado ao Uruguai


Primeiro navio brasileiro a participar de uma operação na Antártida e uma das embarcações com mais história na oceanografia nacional, o Professor W. Besnard deve virar, em breve, propriedade do Uruguai. A reitoria da USP já está analisando a doação para o governo do país vizinho.
Sem condições físicas e de segurança para navegar após ser atingido por um incêndio no fim de 2008, a embarcação, construída em 1966, está parada há mais de cinco anos no porto de Santos.
Desde então, estuda-se o que fazer com o navio que, mesmo parado, gera custos com manutenção e com sua tripulação, que permanece recebendo salário.
Em 2009, a então reitora da USP, Suely Vilela, liberou R$ 2 milhões para o conserto da embarcação. Segundo o pedido de verba feito pelo Instituto Oceanográfico, o dinheiro serviria para reparos e aquisição de equipamentos.
O montante, porém, nunca chegou a ser usado no Besnard. Segundo a assessoria de imprensa da USP, o dinheiro serviu para reformas na embarcação mais nova da USP, o Alpha Crucis, e em equipamentos para um barco menor, o Alpha Delphini.
Apesar de ter usado a verba do Prof. Besnard, o próprio Alpha Crucis também enfrenta problemas.
Em maio,revelou que o novo navio, que recebeu um investimento de cerca de R$ 23 milhões, com verbas da USP e da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), estava parado havia mais de seis meses também no porto de Santos, com problemas para voltar a realizar atividades de pesquisa.
O orçamento oficial da USP prevê gastos de mais de R$ 800 mil com as embarcações neste ano.
Entre as opções de destino do navio estava sua conversão em museu, uma doação e até mesmo um afundamento controlado, para fazer dele um recife artificial.
No entanto, o que prevaleceu foi a vontade de alguns setores, que preferiam a doação para o Uruguai. Fontes ligadas ao Instituto Oceanográfico disseram que a transferência para o Uruguai foi discutida em reunião da congregação do instituto.
A razão da escolha do país vizinho e outros pormenores técnicos não foram explicados pela USP.
Em maio, no entanto, Mahiques já havia mencionado a predileção pela doação. “Desde 2010, têm sido feitas gestões para um fim nobre para o Besnard e estamos tentando conseguir viabilizar, juridicamente, uma doação”, disse em um e-mail.
A assessoria da USP confirma que a universidade está analisando a doação para o governo do Uruguai.
“Processos desse gênero precisam passar pela aprovação das comissões do Conselho Universitário e, posteriormente, do próprio Conselho Universitário. No momento, a doação do navio está sendo analisada na Comissão de Orçamento e Patrimônio e não há prazo para conclusão do processo”, afirmou.
Apesar da concentração aparente de muita ferrugem e de outros pequenos danos no casco, a USP nega que o navio esteja abandonado.
A Prefeitura de Santos, que já disse querer ficar com o navio para transformá-lo em museu, afirmou que ainda tem interesse na embarcação e busca recursos e parcerias para viabilizar o projeto.

10.334 – Investimento anual do Brasil em pesquisa científica é superior a duas Copas


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Enquanto os gastos do Brasil com a Copa do Mundo estão em R$ 25,6 bilhões, o investimento anual do país em pesquisa científica chega a R$ 59,4 bilhões (US$ 27 bilhões), somando as iniciativas pública e privada. A comparação foi feita pela revista Nature, que traz um panorama sobre a ciência sul-americana. De acordo com a publicação, o Brasil é o líder em publicações científicas na América do Sul, mas ainda perde para outros países no impacto dessas pesquisas e na quantidade de cientistas em relação à população total.
Com 40.306 publicações em 2013, o Brasil está bem à frente do segundo colocado, a Argentina, com 9.337 artigos. “Nos últimos 20 anos, a produção científica do Brasil aumentou em mais de cinco vezes, enquanto a economia quase triplicou em termos de poder de compra. O país detém mais de dois terços das publicações da América do Sul, mas é semelhante a Argentina, Uruguai e Chile em artigos per capita”, relata Richard Van Noorden, em seu artigo para a revista. Ele observa, porém, que a quantidade de pesquisa produzida no continente pode estar subestimada pelo fato de que muitos dos periódicos em que os cientistas desses países publicam seus artigos são excluídos das bases de dados que produzem as estimativas. Apesar de o Brasil deter o maior número de publicações, o Chile tem mais patentes e a Argentina vence na proporção entre habitantes que trabalham na ciência.
Um problema enfrentando pela pesquisa sul-americana é que ela não recebe muitas citações (quando outros artigos fazem referência a um determinado estudo), que são uma forma de medir o impacto da pesquisa. A média da América do Sul, assim como a do Brasil, está abaixo da mundial.
Em termos de investimento, o Brasil é o único país do continente que destina mais de 1% de seu PIB em pesquisa e desenvolvimento. Em 2010 a cifra foi de 1,16%, enquanto o líder mundial, Israel, investiu 4,35% de seu PIB, de acordo com dados do Banco Mundial.
COLABORAÇÃO INTERNACIONAL
Questionados pela Nature sobre qual tipo de ajuda internacional traria mais benefícios à ciência, pesquisadores sul-americanos apontaram dois fatores: a acolhida de estudantes da América do Sul em laboratórios de outros continentes e visitas de cientistas estrangeiros a laboratórios sul-americanos.
Apesar do fluxo de estudantes da América do Sul para os Estados Unidos e a Europa ter aumentado nos últimos anos, o Brasil ainda deixa a desejar: em 2013, menos de 11 mil graduandos e pós-graduandos foram para os Estados Unidos, número menor do que o do Vietnã e da Turquia. A soma de todos os estudantes da América Latina e do Caribe que foram ao país corresponde a menos de um terço dos pesquisadores enviados pela China.
Em uma seleção de exemplos de excelência na pesquisa, a revista escolheu no Brasil a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que em 2013 investiu 512 milhões no financiamento de pesquisas. Criada em 1960, a agência tem um orçamento anual correspondente a 1% do total da receita tributária do Estado. A revista destaca o investimento feito em pesquisa básica, de 37% do total. Cerca de 10% vai para infraestrutura e o restante para a pesquisa aplicada. Quase um terço do total é aplicado em pesquisa médica.

10.246 – Projeto Genoma – Excesso de Otimismo?


Projeto Genoma
Projeto Genoma

Em visita ao Brasil para um congresso de biologia molecular em Foz do Iguaçu e para anunciar um acordo com a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), o médico Collins admitiu que houve exagero no otimismo com a revolução que o DNA levaria à medicina.
Reitera, contudo, que ela ainda virá, nos próximos dez anos, na forma de medicamentos projetados sob medida com base nas raras diferenças entre o código genético do paciente e o “manual de instruções” da espécie.
“O projeto certamente ocasionou uma revolução notável na pesquisa biomédica. Se você falar com qualquer estudante no Brasil ou em qualquer parte do mundo que esteja investigando biologia humana ou medicina, ele estará usando informação do genoma todo dia, e terá dificuldade em imaginar como fazíamos quando não tínhamos essa informação fundamental sobre o nosso próprio manual de instruções codificado em DNA. Esta revolução é inquestionável.
A revolução na prática médica, sempre soubemos, demoraria mais. Uma coisa é ter 3 bilhões de letras do código de DNA diante de você e outra coisa tentar entender e descobrir como diferenças na soletração podem afetar sua saúde.
Creio que pode ter havido algumas predições excessivamente otimistas sobre a velocidade com que a informação genômica transformaria a prática da medicina. Eu tentei não fazer, eu mesmo, essas predições. De vez em quando volto às minhas apresentações para ver se fui otimista demais, e acho que estamos mais ou menos no ponto certo.
Houve alguns avanços importantes. Por exemplo: nas famílias em que há alta frequência de casos de câncer de mama ou de cólon, sabemos hoje identificar os indivíduos com risco maior, e isso nos põe na situação de salvar vidas, porque permite tomar medidas.
Certamente temos a possibilidade de usar informação genômica, cada vez mais, em indivíduos que desenvolvem câncer, para tornar possível um tratamento muito mais personalizado. Se eu tiver câncer, hoje, certamente vou querer ter o DNA do meu tumor analisado para ver quais são as mutações em funcionamento que estão fazendo células boas se tornarem más e causarem a malignidade, porque essa é a melhor forma de predizer qual vai ser o prognóstico e, mais importante, definir qual vai ser a melhor opção de terapia.”