13.780 – Luzia: a vítima mais preciosa do incêndio no Museu Nacional


luzia fossil
Entre 11 mil e 8 mil anos atrás, as grutas de pedra calcária que se espalham pela região do atual município de Lagoa Santa, a cerca de 50 quilômetros de Belo Horizonte, eram frequentadas por uma gente muito especial. A mais famosa representante desse grupo é a mulher apelidada de Luzia, cujo crânio foi descoberto na década de 1970 e que é considerada o mais antigo habitante do continente americano. O fóssil foi consumido pelas chamas que tomaram o Museu Nacional na noite de ontem. “A gente não vai ter mais Luzia. Ela morreu no incêndio”, disse Kátia Bogéa, presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, ao jornal O Estado de S. Paulo.
Trata-se de uma perda descomunal, pois, para os pesquisadores brasileiros que estudam Luzia e sua “família”, não restam dúvidas: eles eram representantes de um povo ancestral que chegou à América do Sul antes dos antepassados dos índios atuais.
As pistas sobre as características únicas desses “paleoíndios” de Lagoa Santa, como são conhecidos, estão em seus crânios, dezenas dos quais já foram encontrados no município mineiro. A análise detalhada do formato da cabeça de Luzia e companhia e sua comparação com os crânios de outros povos do mundo inteiro sugerem que eles são muito mais parecidos com os de aborígenes australianos, de habitantes da Melanésia e mesmo com os dos africanos modernos. Seriam negros, portanto. Por outro lado, os indígenas brasileiros de hoje são geneticamente bem mais próximos dos povos do nordeste da Ásia, como os grupos nativos da Sibéria.
Isso significa que os primeiros seres humanos a caminhar por aqui se aventuraram numa jornada épica pelo mar, atravessando o Atlântico (se vindos da África) ou o Pacífico (se saídos da Austrália)? Provavelmente não, afirmam os cientistas que defendem o caráter único do povo de Luzia. O mais provável, segundo essa corrente, é que os paleoíndios de Lagoa Santa sejam descendentes de populações que compartilhavam ancestrais comuns com os aborígenes da Austrália, mas que acabaram migrando rumo ao norte da Ásia e chegando ao continente americano pelo estreito de Bering. Só depois de se espalharem pelas Américas é que eles teriam chegado a Lagoa Santa.
A jornada
O coordenador do grupo que defende a origem peculiar para o povo de Luzia é o bioantropólogo Walter Alves Neves, que lidera o Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP. Ele conta que, no final dos anos 1980, decidiu fazer uma análise do formato de crânios de Lagoa Santa pertencentes ao acervo de um museu de Copenhague, na Dinamarca, em parceria com um colega argentino, Héctor Puciarelli.
A hipótese ganhou mais força em 1998, quando ficou provado que Luzia tinha as mesmas características dessa amostra de crânios e que, com 11.500 anos, ela realmente era o mais antigo ser humano das Américas. Neves e sua equipe conseguiram financiamento para um grande projeto de escavações em Lagoa Santa, descobrindo vários outros crânios com a mesma morfologia “australomelanésia” e com idades um pouco mais recentes – algo entre 9.500 e 8.500 anos. Fora daquela região, curiosamente, há pouquíssimos crânios americanos tão antigos, mas Neves e seus colegas afirmam que outros exemplares, achados em lugares distantes, como o México e a Colômbia, têm morfologia que parece coincidir com a de Luzia e companhia.
Como explicar, então, a diferença entre os paleoíndios e os índios encontrados por Cabral e Colombo? Os pesquisadores acreditam que houve duas grandes ondas migratórias para o nosso continente. A primeira teria cruzado o estreito de Bering por volta de 15 mil anos atrás e corresponderia aos paleoíndios. A ideia é que eles seriam parentes relativamente próximos dos nativos australianos e melanésios, com uma morfologia craniana considerada “generalizada” -ou seja, próxima do “modelo básico” dos crânios de seus ancestrais africanos (lembre-se de que o Homo sapiens moderno evoluiu na África e depois se espalhou pelos demais continentes). Ao se expandir pela costa da Ásia de forma relativamente rápida, eles teriam mantido esse padrão craniano ancestral.
Alguns milhares de anos depois, por volta de 10 mil a.C., teria chegado às Américas uma segunda onda de povoamento humano, dessa vez formada pelos ancestrais dos índios atuais. Esse povo teria passado mais tempo nas regiões frias do nordeste da Ásia e desenvolvido a morfologia craniana tipicamente oriental, com os olhos puxados.
O que teria acontecido, então, com os paleoíndios? Eles poderiam ter se miscigenado com os recém-chegados ou guerreado com eles e perdido. Mas existe a possibilidade de que alguns grupos deles tenham sobrevivido até bem perto do presente.
Análises cranianas sugerem que os principais candidatos são os botocudos, grupo de caçadores-coletores do interior de Minas Gerais e do Espírito Santo que foram exterminados no século 19. “Está cada dia mais claro que eles são descendentes dos paleoamericanos”, afirma Neves.
Uma pista intrigante a esse respeito veio da pesquisa genética: em 2013, cientistas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) identificaram DNA típico de grupos da Polinésia em crânios de botocudos preservados no Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Os polinésios seriam parte do grande grupo de humanos com crânio “modelo básico”. “Mas isso talvez indique, também, que ocorreu de fato uma migração marítima, ideia à qual eu sempre resisti”, diz o bioantropólogo.
O DNA polinésio de alguns botocudos, na verdade, é o único indício genético que, por enquanto, parece apoiar os pesquisadores da USP. O calcanhar de aquiles da teoria é mesmo o DNA, porque praticamente todas as tribos indígenas modernas carregam genes compartilhados com populações da Sibéria. Para os críticos de Walter Neves, seria muito difícil que os paleoíndios não deixassem nenhum rastro genético em pessoas vivas hoje.
Tigres e ursos
Seja como for, o certo é que os estudos levados a cabo na região de Lagoa Santa têm ajudado a traçar um retrato fascinante de como era a vida desses primeiros americanos. A começar por um paradoxo: está comprovado que Luzia e seu povo conviveram com os últimos exemplares das feras da Era do Gelo – animais como tigres-dente-de-sabre, grandes ursos e preguiças-gigantes. As datas da última aparição desses bichos no interior mineiro giram em torno de 9.500 anos – bem depois da própria Luzia, portanto. Mas não há sinais de que os paleoíndios brasileiros comessem essas feras.
Difícil saber se esse fato tinha a ver com algum tabu ou com a simples dificuldade de capturar os animais, mas o fato é que os restos de almoços pré-históricos achados nas cavernas mineiras são de uma dieta à base de plantas e de animais de pequeno e médio porte, como porcos-do-mato, veados, tatus e lagartos. Poucos artefatos de pedra feitos pelo povo de Luzia foram encontrados por enquanto, mas há muitas lascas de quartzo nos abrigos rochosos, provavelmente restos do trabalho de produção dessas ferramentas rudimentares.
Os paleoíndios faziam pinturas e gravuras rupestres (leia mais no quadro a seguir), mas sua principal forma de arte parece ter envolvido os mortos. As mais recentes escavações em Lagoa Santa revelaram sepultamentos nos quais o crânio de uma pessoa era pintado, queimado ou usado para abrigar uma coleção de ossos de outro indivíduo. Também foram identificados casos em que os dentes de um morto acabaram sendo arrancados de sua boca e encaixados na mandíbula de outro cadáver. Os motivos desse tipo de ritual bizarro dificilmente serão esclarecidos algum dia.

13.004 – Antropologia – O Australopithecus afarensis


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É uma espécie de hominídeo extinto proposta em 1978 por Tim D. White e Donald Johanson, com base no “joelho de Johanson’s” encontrado por aquele antropólogo em Hadar, na Etiópia, em 1974. Os vestígios fósseis foram datados em 3,4 milhões de anos. O nome provém da região onde foi encontrado: a Depressão de Afar.
Até ao presente, foram já encontrados fragmentos desta espécie pertencentes a mais de 300 indivíduos, datados entre 4 e 2,7 milhões de anos, todos na região norte do Grande Vale do Rift, incluindo um esqueleto quase completo de uma fêmea adulta, que foi denominada Lucy.
Uma das características marcantes de Lucy é o tamanho de seu cérebro: 450 cm cúbicos. Um pouco maior que o cérebro de um chimpanzé moderno. O nome do fóssil encontrado é uma homenagem à música “Lucy in the Sky with Diamonds”, da banda britânica Beatles, que, segundo relatos, estaria tocando no momento das escavações e nas comemorações após a descoberta.
A 31 de março de 1994 o jornal científico Nature reportou o achado do primeiro crânio completo de um Australopithecus afarensis.
Surgiu entre 3,8 e 3,5 milhões de anos atrás, no sul da África, sendo um possível ancestral do homem. Postura bípede, ereta ou semireta, media entre 1 e 1,5 metro, possuía testa pequena e maxilar proeminente.
No dia 24 de novembro de 1974, uma descoberta no vale Awash, do centro da Etiópia, lançaria uma nova luz sobre a evolução humana. Uma equipe de paleontólogos, liderada pelo norte-americano Donald Johanson, desenterrou os restos do esqueleto de um Australopithecus afarensis fêmea, um hominídeo bípede. Ela foi nomeada Lucy em homenagem à canção dos Beatles “Lucy in the Sky of Diamonds”, que era tocada durante a celebração da descoberta da equipe de escavação. Os pesquisadores desenterraram mais de 200 ossos e fragmentos, o que representa mais de 40% do esqueleto de Lucy. Nenhum fragmento foi encontrado em duplicidade, o que indica que todos os ossos vieram de um único organismo vivo. Após uma reconstrução meticulosa do esqueleto, ficou claro que Lucy era uma mulher idosa e teria cerca de um metro de altura. Ela tinha um cérebro pequeno e, fisicamente, era parecida com um chimpanzé, com uma cabeça pequena saliente, braços longos e pernas curtas. A estrutura dos ossos nas costas e parte inferior do corpo indicam que ela era bípedes, a característica de todas as espécies pertencentes aos gêneros Australopithecus e Homo. As tentativas de datar Lucy no momento da descoberta foram inconclusivas. Apenas na década de 1990, por um processo avançado de argônio, que analisou fragmentos de areia em que Lucy foi encontrada, mostrou que ela teria vivido há 3,2 milhões de anos. Desde a descoberta de Lucy, muitos outros exemplos de Australopithecus afarensis foram descobertos, lançando luz sobre o início de hábitos e comportamentos humanos. Em 1975, uma família completa foi descoberta, provavelmente vítimas de uma catástrofe natural que matou todos ao mesmo tempo. O agrupamento era composto por jovens e velhos, homens e mulheres, mostrando a tendência da espécie em viver em pequenos grupos familiares. Novas descobertas mostram que o Australopithecus afarensis viveu na Terra por um período de cerca de 900 mil anos. Mais de três milhões de anos após sua morte, Lucy se tornou uma espécie de celebridade. Seu esqueleto foi exibido em vários museus, despertando a curiosidade de muitas pessoas. Hoje, por conta da sua extrema fragilidade, ela está em uma caixa especialmente projetada no Museu Nacional da Etiópia.

12.994 – Paleontologia – Cientistas encontram cauda de dinossauro perfeitamente preservada em âmbar


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Uma pequena parte da cauda de um dinossauro que viveu há mais de 99 milhões de anos foi encontrada por cientistas da Universidade de Geociências da China. O material estava perfeitamente preservado em âmbar, incluindo pele, ossos e até as penas que cobriam o animal.
Âmbar é uma resina fossilizada de árvores que costuma preservar alguns artefatos inestimáveis para a ciência. No filme “Jurassic Park”, de 1993, é através do fóssil de um mosquito preservado em âmbar que cientistas conseguiram clonar e reproduzir dinossauros em laboratório.
De acordo com Lida Xing, a pesquisadora que liderou o estudo e assina a pesquisa publicada na revista Current Biology (via National Geographic), a descoberta confirma a suspeita crescente de que, diferentemente do que acreditávamos até poucos anos atrás, os dinossauros tinham, sim, penas como as aves modernas.
O âmbar tem apenas 3,5 centímetros de diâmetro. Análises feitas em laboratório indicaram que a cauda pertenceu a um jovem animal do grupo dos Coelurosauria, um dinossauro com formato semelhante ao de uma galinha, mas de comportamento predatório e com até 3 metros de comprimento. É o mesmo grupo que incluía os tiranossauros.
Ainda segundo Lida Xing, o achado representa um importante avanço nos estudos sobre a evolução dos dinossauros e seu “parentesco” com as aves modernas. A amostra foi encontrada em uma mina de âmbar ao norte de Myanmar, onde acredita-se estar localizada a maior concentração de fósseis do Período Cretáceo (época datada entre 145 milhões e 66 milhões de anos atrás).
A esperança dos pesquisadores é de que, asism que o conflito interno entre o governo de Myanmar e as milícias do Estado de Kachin for resolvido, mais descobertas como essa sejam feitas, com mais cientistas tendo acesso ao local. “Talvez encontremos um dinossauro completo”.
A história toda pode acender as esperanças dos fãs de ficção-científica que sonham com um Parque dos Dinossauros no mundo real. Acontece que a “ciência” no filme de 1993, ou mesmo nos livros de Michael Crichton, é um pouco distante da realidade.
Na ficção, cientistas conseguem reconstruir os dinossauros a partir de amostras de DNA encontradas na barriga de um mosquito fossilizado em âmbar. No entanto, moléculas de DNA normalmente se desintegram com a passagem de milhões de anos, mesmo que estejam preservadas nessa resina.
Mesmo que, por sorte, cientistas consigam extrair amostras de DNA de dinossauro suficientes a partir de um fóssil desses, ainda é preciso resolver outros furos no roteiro dos filmes. Primeiro, seria preciso dar um jeito de transformar esse DNA em cromossomos. Se isso for possível, depois seria necessário encontrar algum lugar para implantá-los.
Vertebrados precisam do óvulo e do citoplasma de, no mínimo, uma espécie bem próxima na escala evolutiva para serem formados da maneira correta. E não existe, em lugar nenhum do planeta, um animal capaz de chocar o ovo de um dinossauro. Os obstáculos, portanto, são quase incontáveis.
Por enquanto, sendo assim, nem adianta ficar empolgado. A partir dessa mais recente descoberta, as chances de conseguirmos criar um Parque dos Dinossauros como o da ficção são muito próximas de zero. Mas quem sabe o que futuras descobertas nos reservam?

10.568 – Paleontologia – Descoberto fósseis do maior dinossauro do mundo


dreadnoughtus
Da cabeça até a ponta do rabo, ele tinha 85 metros. E pesava 59 toneladas, o mesmo que 16 elefantes africanos. Do alto de seus 30 metros, o Deadnoughtus é o maior dinossauro de que se tem notícias até hoje. Ele foi encontrado em 2005 numa escavação ao Sul da Argentina, na Patagônia. Mas só agora, em setembro de 2014, a equipe de paleontólogos divulgou informações sobre o gigante pré-histórico.
A ossada do Deadnoughtus – algo como “O que não tem medo de nada”, em tradução livre – estava bastante completa e muito bem conservada, o que facilitou bastante os estudos. Um osso de 6 metros da sua coxa tornou possível o cálculo de seu peso. E não tem pra mais ninguém.
Quer dizer, mais ou menos. Na verdade, não dá para ter certeza do tamanho exato do dinossauro. E tem outros gigantes na disputa pelo posto de maior dinossauro de todos os tempos. Tipo aquele que foi descoberto em maio desse ano, e que pode chegar a pesar 77 toneladas. O problema é que é raro encontrar ossadas tão conservadas e completas como a do Deadnoughtus. Então, para todos os efeitos, por enquanto, ele é o maior. Vejamos a comparação feita pelos cientistas da Universidade de Drexel:

dinozão

 

 

O Deadnoughtus é um titanossauro, um tipo de dinossauro herbívoro que viveu entre 84 e 65 milhões de anos atrás, no durante o período Cretáceo. Seu nome é baseado num navio de guerra britânico da Segunda Guerra Mundial.

7756 – Bebê mamute de 50 mil anos


O fóssil de um filhote de mamute, de 50 mil anos, poderá ser visto no Museu Zoológico de Lenigrado (ou melhor de São Petersburgo), na Ex União Soviética. Yamalochka, nome que recebeu a pequena mamute fêmea encontrada em setembro de 1988 nas margens do rio Yuribeite-Yakha, no norte da Ex-União Soviética, por um barco que navegava pela região.
Especialistas da Academia Soviética de Ciências afirmam que o bebê mamute morreu logo depois do nascimento e que o fóssil está bem preservado, com dentes e pêlos praticamente intactos. Esta foi a terceira descoberta de um fóssil de mamute neste século na União Soviética: o primeiro, chamado Berezovsky, foi encontrado em 1901 e o segundo, o bebê mamute Dima, em 1977. O achado veio trazer novas luzes sobre os antepassados da fauna naquela região e também sobre suas condições ecológicas.

6978 – Evolução-Um caçador de Fósseis


Um crânio de 3 milhões de anos comprova a existência do Australopithecus afarensis, o mais antigo ancestral da humanidade. Ficou provado que os machos eram bem maiores que as fêmeas. Essa diferença de tamanhos sugere que eram polígamos, como os gorilas, senhores de um bando de fêmeas bem menores do que eles.
Há 4 milhões de anos, a humanidade não existia. Mas uma criatura, pelo menos, trazia nos ossos aquela que seria a marca registrada do Homo sapiens, nós mesmos. O Australopithecus afarensis tinha um cérebro minúsculo. Mas andava de pé como nenhum macaco seria capaz de fazer. E os humanos fariam melhor num futuro distante. O primeiro fóssil de Australopithecus afarensis, desenterrado há 20 anos, na Etiópia, no norte da África, era uma fêmea, recebeu o apelido de Lucy. Mas faltava o crânio de um macho para que a espécie ficasse completa. Este ano, dois pesquisadores americanos anunciaram o achado: o mais completo crânio de um afarensis, já batizado o filho de Lucy, porque seu dono foi do sexo masculino. Embora bem mais alto que sua mãe 200 000 anos mais velha, ele tinha os ossos iguais aos dela. E ambos certamente pertenceram à mesma espécie.
Lucy nasceu, cresceu e teve filhos numa paisagem de fronteira, entre a floresta tropical africana e a savana de grama rasteira, arbustos e umas poucas árvores. Aí, onde é hoje a Etiópia, seu esqueleto permaneceu durante quase 4 milhões de anos, absorvendo minerais do solo até virar pedra. Assim foi encontrado, em 1974, pelo antropólogo americano Donald Johanson, atualmente no Instituto das Origens Humanas, na cidade de Berkeley, Califórnia, nos Estados Unidos.
Johanson já era um cientista respeitado, mas daí para a frente tornou-se uma celebridade. Apareceu na capa e na primeira página das principais publicações do mundo como autor de um dos maiores achados do século, no campo da Antropologia. O motivo é que Lucy era a mais antiga ancestral do homem encontrada até aquela data.
Mas havia, ainda, um outro motivo, talvez mais importante. Ela provou, pela primeira vez, que o cérebro grande não foi essencial ao aparecimento do homem. Um duro golpe para o orgulho do mais inteligente dos animais. Mas não havia contestação. Lucy tinha um volume craniano de míseros 500 centímetros cúbicos. Pouco mais de um terço do volume craniano de um homem moderno, que chega a 1 300 centímetros cúbicos.
De resto, Lucy tinha 1,05 metro de altura, e passaria facilmente por um chimpanzé. Johanson mesmo, com toda a experiência que tinha, mais tarde confessou seu engano. O primeiro osso que eu vi foi o do braço. E achei que pertencia a uma macaca. O fato é que não era, com toda a certeza. Porque Lucy sabia andar de pé, e muito bem, a estrutura de seus ossos, dos quadris para baixo, tinha a forma correta para sustentá-la em posição ereta. E foi esse jeito de andar, sem qualquer ajuda da inteligência, que transformou o afarensis num novo modelo de animal. Gerou um grande tronco que, mais tarde, abriu-se em diversas ramificações.
Os novos ramos eram variações sobre o mesmo tema: outras espécies do gênero Australopithecus que também tinham cérebros pequenos e também andavam de pé. Enfim, mais de 1 milhão de anos depois de o último afarensis desaparecer do planeta, surgiram os primeiros humanos.

6740 – Arqueologia – Os Fósseis


O estudo da pré-história fundamenta-se quase exclusivamente nos conhecimentos obtidos pela análise dos fósseis, a partir dos quais é possível deduzir dados sobre o ambiente, o clima e as migrações da flora e da fauna anteriores à evolução do homem.
Fósseis são restos de animais ou vegetais que viveram em épocas pré-históricas e que se conservaram no interior dos sedimentos que com o passar do tempo foram-se acumulando sobre eles. A definição abrange também os vestígios que sinalizam a existência de vida em tempos remotos, como pegadas, habitats e restos de alimentos. Na antiguidade a palavra fóssil (do latim fossilis, “extraído da terra”) significava toda coisa estranha encontrada numa rocha. Na acepção moderna corresponde a evidências diretas deixadas por seres que viveram antes do holoceno, há mais de dez mil anos.
O processo de fossilização consiste na transformação da matéria orgânica de um ser vivo em compostos minerais, com conservação parcial de seus caracteres morfológicos e anatômicos. Nos estudos geológicos, os fósseis são elementos fundamentais para determinar a que época correspondem as formações sedimentares onde aparecem.
Os restos fossilizados correspondem geralmente aos componentes de maior resistência do organismo em questão, muitos dos quais já estão mineralizados ainda em vida do animal ou planta. É o caso das conchas dos crustáceos, dos esqueletos dos animais e dos órgãos lignificados dos vegetais, como as fibras do tronco e dos galhos e a nervura das folhas. Há casos excepcionais em que indivíduos se conservaram totalmente, inclusive suas partes moles: insetos embutidos no âmbar, rinocerontes mumificados em asfaltos dos Cárpatos ou mamutes congelados nos gelos da Sibéria, em cujo estômago se conservavam ainda as últimas plantas que haviam ingerido.
Há fósseis de todas as dimensões, desde os colossais esqueletos de sáurios do período jurássico (que começou a cerca de 208 milhões de anos), aos microscópicos resíduos de protozoários. O processo de fossilização, que se prolonga por milhares de anos, ocorre em determinadas condições físicas e químicas. O resto orgânico do ser vivo deve estar depositado em uma área de sedimentação que não sofra grandes alterações posteriores, de modo que os componentes minerais aos poucos substituam a matéria orgânica, até que ela se transforme completamente em sílica ou carbonato de cálcio.
A classificação zoológica ou botânica dos seres vivos obedece a critérios taxionômicos, isto é, baseia-se na enumeração progressiva, do reino à espécie a que pertence o indivíduo. Mas para a paleontologia, ainda que se possa aplicar essa classificação, considera-se primordialmente o processo de mineralização sofrido pelo fóssil. De fato, fósseis foram fundamentais na validação da teoria evolucionista e permitiram estabelecer os diferentes filos, que constituem o fundamento da moderna taxionomia, ou classificação sistemática dos seres vivos, sejam estes animais ou vegetais.
A distribuição dos fósseis é tão ampla que, em alguns casos, sua acumulação chega a constituir grandes formações rochosas, como os diatomitos, as amoníticas ou as numulíticas, assim chamadas em consonância com a denominação do resto fóssil que as integra — diatomáceas, amonites ou numulites.

2764 – Cientistas encontram primo extinto dos jacarés no sul do Brasil


Fóssil encontrado no RG do Sul

Ele não era tão grande quanto o Oxalaia quilombensis, dinossauro carnívoro tupiniquim de até 14 m que ficou conhecido em março, mas vai abocanhar seu lugar na paleontologia brasileira.
O Decuriasuchus quartacolonia, primo distante dos crocodilos encontrado no Rio Grande do Sul, é o predador dessa linhagem que apresenta a mais antiga evidência de hábitos sociais, segundo pesquisadores da USP de Ribeirão Preto e da Fundação Zoobotânica de Porto Alegre.
Os responsáveis pelo achado e pela pesquisa que revelou as características do réptil afirmam que os fósseis têm 240 milhões de anos, o que os remetem ao período Triássico (entre 251 milhões e 199 milhões de anos atrás).
Os indivíduos da espécie eram quadrúpedes, mediam até 2,5 metros e tinham crânios de até 30 centímetros.
“Como foram achados dez indivíduos, nove deles amontoados, isso significa que esse grupo que viveu antes dos dinossauros tinha comportamento social, caçava em bando e podia se defender de adversários”, disse um dos pesquisadores responsáveis.
Segundo ele, o local onde os fósseis foram encontrados indica que os animais viviam em uma planície que sofria com grandes secas sazonais
A nova espécie se encaixa numa grande linhagem de répteis terrestres, parentes distantes dos jacarés, que floresceram antes dos dinos.
A descoberta aconteceu em 2001, na cidade de Dona Francisca, região de Quarta Colônia –por isso o “sobrenome” do bicho–, mas a divulgação só foi feita agora, após a comprovação de sua importância paleontológica.
Para isso, desde 2001, foram realizados os estudos para descrever formalmente o novo réptil pré-histórico.
De acordo com os pesquisadores, o nome Decuriasuchus é uma junção de duas referências: a unidade de dez soldados do Exército romano, a decúria, e o termo grego “suchus” para fazer alusão à cabeça de crocodilo.

2718-Fóssil de”dente-de-sabre” herbívoro e com molar no céu da boca


Dentes de Sabre: estratégia para afugentar os predadores

A criatura possuía dentes-de-sabre, como os famosos “tigres”, mas não tinha nada de carnívora. O resto da dentição até lembrava a dos mamíferos atuais, com uma diferença crucial: o céu da boca servia para mastigar.
Essa anatomia bucal inusitada, nunca vista antes num vertebrado, justifica o nome científico do bicho. O Tiarajudens eccentricus era, de fato, excêntrico –talvez a mais estranha das espécies que povoavam o Rio Grande do Sul há 260 milhões de anos.
Um grupo de paleontólogos está apresentando o animal ao mundo hoje, em artigo na prestigiosa revista americana “Science”.
Com 12 centímetros de comprimento e bastante afiados, os caninos parecem máquinas de matar, mas há raros casos de herbívoros com dentes desse tipo, como certos veados asiáticos.
Com base nesses exemplos, dá para traçar algumas hipóteses. Os “sabres” poderiam servir para afugentar predadores. Talvez fossem exibidos e/ou empregados durante disputas por poder e parceiros sexuais.
Esquisitices à parte, o bicho é importante por mostrar um evento evolutivo crucial: como surgiram os especialistas em devorar plantas.
“A alimentação dele envolvia algum tipo de material vegetal fibroso. A gente sabe que não era capim, porque a grama ainda não havia surgido naquela época. Talvez algo como folhas e caules”, diz Juan Carlos Cisneros, paleontólogo nascido em El Salvador, atualmente na Universidade Federal do Piauí.
Ele é o coordenador do estudo, do qual participaram cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da sul-africana Universidade do Witwatersrand.
Timidamente, Cisneros pede que não se use a palavra “réptil” para se referir ao T. eccentricus. De fato, o bicho não cabe nas classificações tradicionais que usamos para as espécies de hoje.
Embora tenha algo de lagartão (o tamanho era o de uma capivara), faz parte de um grupo de animais ligados aos avós dos mamíferos, os chamados terápsidos.
A evolução dos terápsidos foi a responsável por criar os primeiros ecossistemas terrestres com cara “moderna”, nos quais os herbívoros são maioria. E os estranhos dentes no céu da boca do T. eccentricus ajudam a documentar essa transição.
É que esses dentes apresentam formato diferenciado e padrão de desgaste característico, lembrando os molares dos mamíferos de hoje.
Permitiam processar cuidadosamente os vegetais fibrosos, extraindo deles mais nutrientes do que os dentes de répteis, que só permitem arrancar bocados da comida.
“Há lagartos hoje com dentes no palato [céu da boca], mas eles só servem para prender a comida, nunca para mastigar”, diz Cisneros.
Mas como mastigar com o céu da boca sem morder a língua?
“Boa pergunta”, ri o paleontólogo. “Achamos que os dentes de baixo, que ainda não foram achados, provavelmente estavam mais para dentro, o que evitaria isso.”
Dentes-de-sabre parecem ser o tipo de “invenção” evolutiva que aparece com alguma frequência. Só entre mamíferos que habitaram a América do Sul, há dois exemplos famosos.
O mais conhecido é o Smilodon, o dente-de-sabre por excelência (o termo “tigre” não é adequado; o bicho não é parente próximo de nenhum felino vivo e não era tigre). Sumiu há 10 mil anos e conviveu com os primeiros habitantes humanos do Brasil.
E há também uma versão marsupial (primo, portanto, dos cangurus), o Thylacosmilus, desaparecido há 3 milhões de anos.

2715-Mega Notícias – Fóssil de 525 milhões de anos é descoberto na China


Um fóssil de 525 milhões de anos descoberto na província chinesa de Yunnan contém detalhes anatômicos raros de uma criatura marinha, o Galeaplumosus abilus, que pertence ao filo dos hemicordados.
Bem preservado, o fóssil possui uma carapaça que protege partes mais delicadas como vários pares de tentáculos que foram usados para coletar alimentos –os plânctons.
A descoberta, retratada na versão on-line do “Current Biology”, pode dar indicações sobre a evolução dos vertebrados.