13.619 – Governo inglês autoriza criação de bebês com duas mães e um pai


Uma agência reguladora do governo britânico autorizou a criação, por fertilização in vitro, de bebês com duas mães e um pai . O procedimento será aplicado para impedir que mulheres com uma doença hereditária grave transmitam o problema para seus filhos.
A epilepsia mioclônica com fibras rotas vermelhas (síndrome MERRF) costuma se manifestar ainda na infância e tem consequências graves. Causa crises epiléticas, problemas de coordenação motora, surdez e perda de memória. Uma de suas características mais curiosas é que ela não é causada por uma mutação no DNA comum – o que fica dentro do núcleo das células.
Toda célula tem um componente (no jargão técnico, organela) chamado mitocôndria, que funciona como uma usina de produção de energia. Por razões que ainda não foram completamente esclarecidas pela biologia evolutiva, as mitocôndrias tem um pedacinho de DNA só para elas. São 37 genes, que produzem 14 proteínas.
É pouco perto dos 24 mil genes que ficam no núcleo da célula, mas tamanho não é documento, e as proteínas codificadas por esses 37 genes solitários também são importante para nós. A síndrome MERRF é causada justamente por um problema em um deles.
Enquanto o DNA normal, que fica no núcleo das células, é uma mistura do DNA dos dois membros do casal, a mitocôndria e seu DNA são herdados só da mãe. A mitocôndria que será passada para o bebê já está no óvulo quando o espermatozoide chega lá para fertilizá-lo.
A ideia do tratamento inédito que será aplicado na Inglaterra – duas mulheres, que preferiram se manter anônimas, serão as primeiras beneficiadas – é pegar o óvulo da mãe, o espermatozoide do pai e colocar uma mitocôndria nova, tirada de um doador sem relação com o casal. Assim, a mutação sai de campo e uma mulher doente pode ter uma criança saudável. O bebê resultante tem duas mães e um pai do ponto de vista genético. As características hereditárias, porém, vão vir só dos pais de fato – o casal que participou com seu DNA “não-mitocondrial”. Ou seja: o bebê não vai ter o nariz ou os olhos de quem doou a mitocôndria.
Embora a primeira tentativa só tenha sido aprovada agora pela Human Fertilisation and Embryology Authority (HFEA), o procedimento é permitido por lei desde 2015, após uma decisão histórica do parlamento inglês – foram 280 votos a favor, e só 48 contra. “Famílias que sabem como é cuidar de uma criança com uma doença devastadora é que tem que decidir se uma doação de mitocôndria é a opção certa”, afirmou na época Jeremy Farrar, da Universidade de Newcastle – justamente onde o procedimento será feito. A data e os demais detalhes foram mantidos em sigilo a pedido das pacientes.

12.082 – Revista “Science” elege molécula que edita DNA como o maior avanço científico de 2015


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O periódico científico Science elegeu o avanço da ciência mais importante de 2015: a CRISPR. Essa molécula possibilita que partes do genoma sejam recortadas, deletadas e substituídas como se fossem arquivos digitais de computadores para alterar o DNA de determinado organismo.
A seleção anual dos dez avanços científicos mais importantes do ano é feita por editores do periódico Science. Para os profissionais, a molécula CRISPR – possibilita que partes do genoma sejam recortadas, deletadas e substituídas como se fossem arquivos digitais de computadores para alterar o DNA de determinado organismo – foi a grande vencedora da disputa. O procedimento já foi usado na edição de genes de embriões humanos e também na criação dos primeiros macacos geneticamente modificados.
No entanto, após selecionarem os dez avanços vitoriosos, a Science pediu ajuda para seus leitores e para alguns cientistas para estabelecerem a ordem dos escolhidos. De acordo com o periódico, para os entrevistados, apenas um advento ficou acima da molécula CRISPR: o estudo científico realizado pela sonda New Horizons em Plutão.

11.298 – Mamutes podem voltar à face da Terra após experimento de sucesso de cientistas de Harvard


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Cientistas da Universidade de Harvard, nos EUA, deram um novo e bem-sucedido passo que poderá trazer os mamutes novamente à face da Terra. A técnica inclui o enxerto de sequências de DNA da espécie pré-histórica no genoma de um elefante moderno. Para isso, primeiramente, os biólogos conseguiram isolar os genes responsáveis pelos traços característicos do mamute, como o pelo longo e o orelhas enormes, entre outros.
Depois, graças a uma técnica inovadora denominada CRISPR, introduziram esses genes nas células do parente vivo mais próximo: o elefante asiático. “Agora temos células de elefante funcionando perfeitamente com o DNA de um mamute”, afirmou um dos responsáveis pelo projeto. Trata-se do primeiro passo fundamental para a possível recriação dos mamutes, o que, certamente, vai despertar uma grande polêmica na comunidade científica em relação a questões éticas. No entanto, esse tipo de estudo é, ao mesmo tempo, urgente e necessário, se considerarmos que os elefantes, tanto asiáticos como africanos, correm risco de extinção.

11.080 – Engenharia Genética – Bactérias do Bem


É uma ferramenta com milhões de anos de evolução – e que agora está ao nosso dispor. Os cientistas estão usando bactérias para curar doenças, eliminar a poluição e resolver outros problemas cabeludos. A técnica não é nova. Por exemplo: a insulina artificial, um hormônio essencial aos diabéticos, é produzida por meio de bactérias modificadas geneticamente. A diferença é que agora os cientistas estão misturando um número muito maior de genes e quase construíndo uma bactéria a partir do zero. A vantagem é que a técnica permite dar habilidades muito mais complexas a esses microorganismos. Por serem escoladas na arte de se adaptar, eles conseguiriam driblar as defesas do nosso organismo ou resistir a ambientes poluídos para cumprir o que delas se espera. As possibilidades são infinitas mas, por enquanto, nada ainda saiu dos laboratórios. Veja ao lado algumas das bactérias feitas para quebrar o nosso galho.
Mycoplasma genitalium
Origem: Plantas, humanos e animais.
Missão: Gerar hidrogênio ou eliminar gás carbônico da atmosfera.
Como: Aplicando radiação para retirar o cromossomo original da bactéria e o substituindo por um outro feito em laboratório a partir de micróbios que produzem hidrogênio. Outras variações podem consumir dióxido de carbono.
Bacillus subtilis
Origem: Solo.
Missão: Fabricar detergentes e fertilizantes agrícolas mais potentes.
Como: Novos genes fazem as bactérias produzirem grandes quantidades de biosurfactantes, substâncias capazes de tornar o óleo solúvel em água e que funcionam como um “detergente” para vazamentos. Elas também inibem o crescimento de fungos e bactérias nas plantas, tornando-se úteis em plantações.
Escherichia coli
Onde vive: Intestino humano.
Missão: Detectar a presença de explosivos. Espalhada em um terreno, ela começará a emitir luz fluorescente somente nas áreas que estiverem próximas a minas terrestres.
Como: Modificando geneticamente a bactéria, os cientistas conseguem fazê-la “piscar” quando em contato com a trinitroglicerina, composto ativo da dinamite, ou trinitrotolueno (TNT). A mesma técnica pode produzir variações capazes de detectar outras situações.Um dos possíveis usos seria medir a umidade do solo: as bactérias mudariam a coloração sempre que a terra estivesse seca demais, por exemplo.
Salmonella typhimurium
Origem: Alimentos de origem animal .
Missão: Combater tumores cancerígenos em humanos.
Como: A Salmonella se desenvolve com facilidade em tumores. Novos genes acrescentados pelos cientistas a tornariam capaz de transformar substâncias inofensivas, que podem circular em todo o corpo, em toxinas que poderiam destruir as células cancerosas. Já está em fase de teste em seres humanos.

11.064 – Falácias Anticientíficas 6 – Brincando de Deus


Brincar de Deus

Esta falácia é o corolário não-secular da falácia naturalista. Não é reconhecida como uma falácia lógica. É mais um erro na forma de pensar – a ideia que a humanidade não deve se meter onde é tradicionalmente o campo de ação da divindade, e que ao fazê-lo, estamos sendo arrogantes, imprudentes e desrespeitosos.
A preocupação é de que estejamos nos metendo a fazer coisas que estão além da nossa compreensão e controle e que o resultado é uma bagunça sem conserto. O risco é de deixar Deus furioso. As tentativas de impedir as pessoas de “brincar de Deus” são geralmente dirigidas a assuntos como controle da natalidade, aborto, eutanásia voluntária, engenharia genética e coleta de células-tronco embrionárias. No futuro, provavelmente vão dizer a mesma coisa de procedimentos de extensão radical da vida e geoengenharia.
Mas a resposta tem sido geralmente que, se não brincarmos de Deus, quem irá? Este era o ponto principal do Iluminismo europeu, e a ascensão do humanismo secular. Trabalhando com a suposição que Deus não existe (ou não interfere nos nossos assuntos), emergiu a opinião popular de que a humanidade tem a obrigação de cuidar de certos assuntos com as próprias mãos, se a intenção é realmente entender o mundo e torná-lo melhor. E, pelo uso da razão e do método científico, a humanidade tem uma chance de sucesso, ao invés de ficar à espera de alguma força sobrenatural.

10.916 – Genética – A era dos mosquitos transgênicos


Ele tem um segredo terrível, que vai destruir a sua própria espécie. Parece um conto bíblico, mas é real: é a história do OX513, um mosquito geneticamente modificado que foi criado pelo homem com a missão de extinguir o Aedes aegypti e acabar com a epidemia de dengue. Depois de criar versões transgênicas de plantas como o milho e a soja, agora a humanidade modifica o DNA de um bicho e se prepara para liberá-lo na natureza. Aqui mesmo no Brasil – onde fica a primeira fábrica de mosquitos transgênicos do mundo.
PESTE ALADA
Mosquitos são criaturas terríveis. Estima-se que eles tenham sido responsáveis por metade de todas as mortes de seres humanos ao longo da história. Ou seja, mataram mais gente do que qualquer outra coisa. Isso acontece porque, como se multiplicam rápido e em enormes quantidades, são excelentes transmissores de doenças – como a dengue, que é causada por um vírus chamado DENV. O mosquito pica uma pessoa infectada, adquire o vírus, e o espalha para outras pessoas ao picá-las também. A dengue é uma doença séria, que pode matar, e um grande problema no Brasil: em 2013, o Ministério da Saúde registrou 1,4 milhão de casos, mais que o dobro do ano anterior. Tudo culpa do Aedes aegypti. Ele é um mosquito de origem africana, que chegou ao Brasil via navios negreiros, na época do comércio de escravos. E hoje, impulsionado pela globalização, levou a dengue a mais de cem países (na década de 1970, apenas nove tinham epidemias da doença). Os números mostram que, mesmo com todos os esforços de combate e campanhas de educação e prevenção, o mosquito está ganhando a guerra.

Entra em cena o OX513A, que foi criado pela Universidade de Oxford, na Inglaterra. Ele é idêntico ao Aedes aegypti – exceto por dois genes modificados, colocados pelo homem. Um deles faz as larvas do mosquito brilharem sob uma luz especial (para que elas possam ser identificadas pelos cientistas). O outro é uma espécie de bomba-relógio, que mata os filhotes do mosquito. A ideia é que ele seja solto na natureza, se reproduza com as fêmeas de Aedes e tenha filhotes defeituosos – que morrem muito rápido, antes de chegar à idade adulta, e por isso não conseguem se reproduzir. Com o tempo, esse processo vai reduzindo a população da espécie, até extingui-la (veja no infográfico abaixo como o processo funciona). Recentemente, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, um órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia, aprovou o mosquito. E o Brasil se tornou o primeiro país do mundo a permitir a produção em grande escala do OX513A – que agora só depende de uma última liberação da Anvisa. A Oxitec, empresa criada pela Universidade de Oxford para explorar a tecnologia, acredita que isso vai ocorrer. Tanto que acaba de inaugurar uma fábrica em Campinas para produzir o mosquito.
O OX513A já foi utilizado em testes na Malásia, nas Ilhas Cayman (no Caribe) e em duas cidades brasileiras: Jacobina e Juazeiro, ambas na Bahia. Deu certo. Em Juazeiro, a população de Aedes aegypti caiu 94% após alguns meses de `tratamento¿ com os mosquitos transgênicos. Em Jacobina, 92%. As outras formas de combate, como mutirões de limpeza, campanhas educativas e visitas de agentes de saúde, continuaram sendo realizadas. “Nós não paramos nenhuma ação de controle. Adicionamos mais uma técnica”, diz a bióloga Margareth Capurro, da USP, coordenadora técnica das experiências. Há indícios de que o mosquito transgênico funciona. Mas ele também tem seu lado polêmico.
Há quatro anos, quando os mosquitos da Oxitec chegaram à Malásia para uma das primeiras rodadas de teste, surgiu uma preocupação. Quando um organismo geneticamente modificado é introduzido na natureza, seja ele uma planta ou um animal, é complicado prever tudo o que pode acontecer – e muito difícil contê-lo se alguma coisa der errado. Em tese, os mosquitos transgênicos não têm como se espalhar. Três a quatro dias depois de serem soltos, e de fazer sexo com uma fêmea, eles simplesmente morrem. Seus filhotes não conseguem crescer, e também morrem. E a história acaba aí. Mas, e se o mosquito OX513A sofresse uma mutação, e se tornasse imune ao gene letal? Afinal, é assim que a evolução funciona. Mutações são inevitáveis. “Todas as espécies agem para burlar os fatores que tentam exterminá-las”, afirma o biólogo Carlos Andrade, da Unicamp. Se o inseto transgênico conseguisse vencer o gene letal, ele poderia se reproduzir livremente – e se tornaria incontrolável. Foi essa a preocupação do grupo ambientalista inglês EcoNexus, que enviou uma carta às autoridades da Malásia. “Os [insetos] transgênicos podem não ser completamente erradicados do ecossistema, com consequências perigosas.” A Oxitec diz que não há risco. Ela estima que até 5% dos filhotes transgênicos poderão sobreviver ao gene letal, e chegar à idade adulta. Mas eles serão menores e mais fracos do que os mosquitos “selvagens”, e por isso não conseguirão se reproduzir. Mesmo se conseguirem, em tese não terão nenhuma característica que os torne mais perigosos que o Aedes comum. Além disso, como eles são criados em laboratório, seu DNA pode ser monitorado. “Os dois genes [que foram] inseridos são muito estáveis. A linhagem OX513A foi criada em 2002, e até agora teve mais de cem gerações em laboratório, sem nenhuma mudança nos genes inseridos”.
Os mosquitos machos se alimentam de frutas, e por isso não picam. Quem pica é a fêmea, que precisa de sangue humano para nutrir seus ovinhos. É ela que transmite a dengue. Por isso, as fêmeas de OX513A são separadas no próprio laboratório. Algumas são mantidas em cativeiro, para reproduzir a espécie, e as demais são mortas. Apenas os machos, que não picam, são liberados na natureza.

O processo de separação não é perfeito. Até 0,2% dos mosquitos liberados são fêmeas, que podem picar seres humanos. Não é uma quantidade insignificante. A fábrica da Oxitec em Campinas tem capacidade para produzir 500 mil mosquitos machos por semana, podendo ser ampliada para 2 milhões. Isso significa que, devido à margem de erro, mil a 4 mil fêmeas seriam liberadas a cada semana. E elas poderiam transmitir dengue. A Oxitec questiona essa possibilidade. “Para transmitir dengue, a fêmea primeiro tem de pegar dengue”, diz Sofia Pinto, supervisora de produção dos mosquitos. O ciclo da dengue, em que o mosquito pega o vírus de uma pessoa e o transmite para outra, leva cerca de dez dias. Um estudo 1 revelou que em condições ideais, de laboratório, as fêmeas de OX513A podem alcançar 16 dias de vida. Mas, segundo a Oxitec, isso não ocorre na natureza – onde os insetos transgênicos não sobrevivem mais de quatro dias. Ou seja: em tese, as fêmeas liberadas acidentalmente não teriam tempo de espalhar a doença.
Uma eventual extinção do Aedes aegypti não poderia acabar criando um desequilíbrio ecológico? “Não acredito que vamos ter efeitos negativos, porque esse mosquito é uma espécie invasora”, diz Glen Slade, diretor da Oxitec. O mosquito da dengue já chegou a ser erradicado no Brasil, na década de 1950, e só voltou nos anos 80 (vindo da Ásia). “Não existe animal que viva nos criadouros desse mosquito, como caixas d¿água e vasos de plantas. E animais como lagartixa, sapo, pássaro comem qualquer inseto que voe, não só esse mosquito”.
Apesar de todos os poréns científicos, a crítica mais forte ao inseto transgênico está relacionada a algo trivial: a quantidade de mosquitos necessária. O OX513A é fisicamente mais fraco do que o mosquito natural, e por isso tem que ganhar em número. Para que a técnica dê certo, e o transgênico consiga acasalar com as fêmeas (para gerar descendentes inférteis e acabar com a espécie), é preciso liberar uma quantidade enorme dele: dez mosquitos transgênicos para cada mosquito selvagem. Na prática isso significa que, para tratar uma área bem pequena, com apenas 10 mil habitantes, seria preciso liberar 2 milhões de mosquitos por semana durante a fase inicial de tratamento, que dura de quatro a seis meses. Isso é alvo de críticas de alguns especialistas. “Liberar milhões de mosquitos numa área de alguns quarteirões urbanos é insano. É forçar para dar certo”, diz o biólogo Carlos Fernando Andrade, da Unicamp.
O OX513A pode acabar se mostrando uma solução sofisticada demais para um problema que pode ser atacado com medidas mais simples. Talvez a vacina contra o vírus da dengue.
Seria muito mais fácil controlar a dengue com uma vacina. E ela pode estar perto de virar realidade. Num estudo 2 feito na Ásia, 10 mil crianças receberam uma vacina experimental, fabricada pelo laboratório francês Sanofi Pasteur. Entre elas, houve 56,5% menos casos de dengue. Ou seja: a vacina não é perfeita, mas parece fazer efeito. O problema é que só imuniza contra três dos quatro subtipos de vírus da dengue – e os cientistas ainda não sabem o porquê. Há outro estudo em curso, com 20 mil voluntários espalhados por Brasil, Colômbia, Honduras, México e Porto Rico.

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10.612 -Imunologia e Genética- Fiocruz testa mosquito que não transmite dengue no RJ


Fachada da sede, no RJ
Fachada da sede, no RJ

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) começou a testar uma forma inovadora de combater a dengue na cidade do Rio de Janeiro. Mosquitos modificados em laboratório foram liberados nesta manhã no bairro de Tubiacanga, na Ilha do Governador, zona norte, onde moram 3 mil pessoas. Os ovos dos mosquitos foram contaminados com a bactéria Wolbachia, encontrada em 60% dos insetos, como as drosófilas (pequenas moscas) e pernilongos. Essa bactéria atua como uma espécie de vacina para o Aedes aegypti, impedindo que o vírus da dengue se multiplique no organismo do mosquito, que deixa, assim, de transmitir a doença. É a primeira vez que essa estratégia é testada no continente americano – já há experimentos em andamento na Austrália, Vietnã e Indonésia.
A Wolbachia também atua na reprodução dos insetos. A bactéria é transmitida naturalmente para as gerações seguintes de mosquitos e o método se torna autossustentável: Aedes com Wolbachia acabam se tornando predominantes na natureza, sem que os pesquisadores precisem liberar insetos contaminados constantemente. Em localidades da Austrália, isso aconteceu em 10 semanas, em média. O líder da pesquisa no país, Luciano Moreira, explicou que a expectativa é de que, até o final do ano, toda população de Aedes aegypti seja infectada pela Wobachia e esteja livre do vírus da dengue em Tubiacanga. As liberações serão feitas por aproximadamente três ou quatro meses e vai depender dos resultados sobre a capacidade dos mosquitos com Wolbachia de se instalarem no local.
A Wolbachia é uma bactéria intracelular, que só pode ser transmitida de mãe para filho, no processo de reprodução dos mosquitos. É maior que o canal salivar do mosquito, ou seja, não sai pela saliva, meio pelo qual o homem é contaminado. Para ter certeza de que não infecta seres humanos e animais domésticos, integrantes da equipe, na Austrália, deixaram-se picar durante cinco anos por uma colônia de mosquitos com Wolbachia.
O projeto Eliminar a Dengue: Desafio Brasil foi lançado no Rio de Janeiro, em 2012. Nesses dois anos, os pesquisadores capturaram Aedes aegypti nos locais que servirão de testes, estudaram essas regiões e criaram os mosquitos contaminados em laboratório. Depois de lançados em Tubiacanga, os cientistas poderão avaliar a capacidade dos mosquitos com a bactéria se estabelecerem no ambiente e cruzarem com os demais mosquitos. Cerca de 10 mil insetos serão liberados semanalmente em Tubiacanga, por até quatro meses. Para reduzir o incômodo da população, a Secretaria Municipal de Saúde fez uma campanha para eliminar focos de criação do mosquito. Depois da Ilha do Governador, os bairros da Urca e Vila Valqueire, no Rio de Janeiro, e de Jurujuba, em Niterói, receberão os mosquitos. Estudos em larga escala para avaliar o efeito da estratégia estão previstos para ocorrer a partir de 2016.

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10.289 – Bactéria que defeca gasolina pode salvar a indústria automobilística


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O bacilo Escherichia coli é famoso no meio científico: além de estar relacionado com uma série de problemas de intoxicação alimentar, ele é geneticamente modificado com frequência para pesquisas que envolvem até combustíveis. O estudo mais atual envolvendo o organismo também parece o mais revolucionário: pesquisadores foram capazes de extrair gasolina dessas bactérias.
É isso mesmo: de acordo com uma pesquisa recente publicada por cientistas sul-coreanos, a bactéria reprogramada é capaz de “evacuar” um material de composição idêntico à gasolina derivada do petróleo e usada como combustível em carros e outros veículos.
O processo de conversão envolve, além de uma cultura da Escherichia coli, glucose ou biomassa que serão consumidos pelos organismos. Quando as bactérias consomem esses materiais, as enzimas produzidas no processo convertem o açúcar em ácidos graxos ( e, posteriormente, em hidrocarbonetos com a mesma estrutura da gasolina.
Por enquanto, o projeto está longe de ser viável para a indústria: só algumas gotas de gasolina são extraídas por hora, mas a ideia é aumentar essa produção para até 20 gramas do líquido para cada litro de cultura de bacilos.

Depois dessa, é só fazer o homem defecar dinheiro...!
Depois dessa, é só fazer o homem defecar dinheiro…!

10.018 – Criado o primeiro cromossomo totalmente sintético


Uma equipe internacional de cientistas desenvolveu o primeiro cromossomo totalmente fabricado em laboratório, o que representa um avanço fundamental na área da biologia sintética, segundo um estudo publicado na revista Science.
Os pesquisadores, liderados por Jef Boeke, da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, criaram a primeira cópia artificial de um cromossomo de levedura, fungo utilizado na fabricação de etanol, pão e cerveja. Em um estudo que contou com os esforços de cientistas nos Estados Unidos e na Europa, e que durou mais de sete anos, os cientistas cortaram, dividiram e manipularam o DNA da levedura até obterem o primeiro cromossomo fabricado integralmente em um laboratório.
Os cientistas começaram o experimento com os fragmentos disponíveis de DNA, acrescentaram esses fragmentos a outros maiores e os agregaram depois a células de levedura, de modo a produzir uma versão totalmente artificial do cromossomo.
Esta é considerada uma grande conquista dentro da biologia sintética, que visa formar organismos a partir de seus princípios mais básicos. Embora já se tivesse conseguido construir cromossomos de bactérias e vírus, esta é a primeira vez em que se cria um cromossomo para um organismo eucariótico, que são mais complexos, compostos por células com núcleos diferenciados e citoplasma organizado — nessa categoria se enquadram plantas e animais.
O primeiro cromossomo sintético pode permitir avanços na pesquisa para a produção de novos medicamentos e biocombustíveis.

9952 – A cura da burrice (?)


A baixa inteligência – burrice mesmo – é uma característica herdada geneticamente, pode ser considerada uma doença e deveria ser manipulada pela engenharia genética a ponto de ser erradicada. É o que afirmou recentemente o consagrado biólogo James Watson, um dos responsáveis pelo descobrimento da estrutura do DNA, em 1953. “Se você é realmente estúpido, então você é doente e a engenharia genética deveria ajudar seus descendentes”, disse Watson, em um documentário exibido pela televisão britânica, sugerindo ser legítimo, sim, que as pesquisas orientem seus esforços na tentativa de interferir na programação desses genes. Polemizando com a ética de boa parte da comunidade científica, ele completa, sugerindo ainda que os genes que influenciam a beleza também deveriam ser manipulados: “Tem gente que acha péssimo se fizéssemos nascer apenas garotas bonitas. Eu acharia ótimo”.

9731 – Genética – Técnica simples para criar células-tronco


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Cientistas do Japão e dos EUA descobriram uma receita que parece ridiculamente simples para fazer com que células adultas voltem a um estado semelhante ao embrionário: basta aumentar um pouco a acidez do meio onde elas estão sendo cultivadas.
Poucas horas de exposição a um meio levemente ácido (pH de 5,5, enquanto o normal da água é 6) foi suficiente para “reprogramar” células dos mais diferentes tecidos de camundongos, do sangue ao fígado, relata a equipe liderada pela japonesa Haruko Obokata e pelo americano Charles Vacanti na revista científica “Nature”.
Essa conquista é um sonho antigo dos pesquisadores que estudam a chamada diferenciação celular, ou seja, o processo que faz com que uma única célula, a do óvulo fecundado, dê origem a uma miríade de tipos celulares especializados, com forma e função próprias.
Seria necessário apenas fazer uma biópsia de pele do paciente, por exemplo, e as células da epiderme seriam transformadas, em laboratório, nos tecidos “de reposição” necessários – sem riscos de rejeição, já que, do ponto de vista genético, elas seriam idênticas ao resto do corpo do paciente.
A reprogramação de células adultas já é rotineira hoje, mas os métodos atuais exigem a inserção, no DNA dessas células, de alguns genes a mais, sabidamente ligados à versatilidade (ou “pluripotência”, como dizem os biólogos) das células embrionárias.

Isso é visto como um empecilho para o uso das células reprogramadas em pessoas, já que há o temor de que o DNA extra possa afetar a estabilidade dessas células.
Para contornar esse problema, Obokata, que trabalha no Centro Riken de Biologia do Desenvolvimento, partiu do princípio de que esse tipo de reprogramação celular parece acontecer em células de plantas e de salamandras expostas a fatores estressantes, como a acidez.
Como forma de testar a ideia, ela usou células do sangue de camundongos transgênicos, cujo DNA foi modificado com a presença da receita para a produção da GFP, substância que dá um brilho verde fluorescente aos bichos.
A receita da produção da GFP foi “colada” a um gene que só fica ativo em células embrionárias ou reprogramadas. Ou seja, a proteína só “acenderia” se esse gene também fosse “ligado”, indicando que a reprogramação tinha dado certo.
Foi o que aconteceu quando as células foram expostas à acidez. Vários testes mostraram que elas eram capazes de assumir a função dos mais diversos tecidos do organismo. De início, os cientistas tiveram problemas para multiplicá-las em laboratório, mas o uso de um “caldo” especial destinado à nutrição de células embrionárias pareceu resolver essa questão.
“Se isso funcionar em seres humanos, será a descoberta capaz de virar o jogo e disponibilizar terapias celulares que usam as células do próprio paciente como ponto de partida”, declarou Chris Mason, chefe de medicina regenerativa do University College de Londres (Reino Unido).
Essa é a próxima grande pergunta: células humanas também reagirão dessa forma? Os cientistas também querem entender outro mistério: por que outras situações estressantes que as células enfrentam, dentro e fora do laboratório, aparentemente não são suficientes para desencadear o mesmo efeito.

8412 – Engenharia genética planta anticorpos


Cientistas americanos estão tentando transformar plantas em verdadeiras usinas de anticorpos monoclonais – as proteínas criadas pela Engenharia Genética que, feito mísseis teleguiados, destroem os alvos doentes no organismo, como células cancerosas. Para fabricar os anticorpos, os cientistas injetam a célula doente em ratos, sendo porém necessárias muitas cobaias para se extrair a dose de anticorpos suficiente para um tratamento. Em plantas, seria possível a produção em massa. Da seguinte maneira: as proteínas obtidas dos ratos, em vez de serem usadas imediatamente, são implantadas em bactérias, cujo gene, por sua vez, é implantado em vegetais. Por enquanto, os pesquisadores só conseguiram que as plantas produzissem metades separadas das moléculas de anticorpos. A esperança é que a Engenharia Genética consiga unir as duas metades numa próxima geração de plantas para então a Medicina colher seus preciosos anticorpos.

7876 – Pássaro extinto de volta à vida


Esta é a façanha que a Ciência tenta agora realizar.
Há centenas de anos, o pombo-passageiro era uma das mais abundantes espécies de pássaros da América do Norte. E, em meados de 1914, devido à caça predadória, a espécie foi extinta – sua carne era muito barata (12 pássaros eram vendidos a 0,30 centavos de dólar) e suas penas eram usadas para encher colchões e travesseiros. Mas, daqui a alguns anos, talvez você possa ver um destes animais voando por aí. É que cientistas americanos querem trazer a espécie de volta a vida.
Além dos desafios tecnológicos há, claro, as questões éticas a serem consideradas. Por isso, nesta sexta-feira, dia 15 de março, cientistas se reúnem em Washington para discutir a questão, em um evento associado ao TED, o TEDxDeExtinction.
Atualmente, 1500 pássaros empalhados estão expostos em museus – e acredita-se que cada um deles tenha uma verdadeira biblioteca genética em suas patas, o que poderia fazer com que cientistas fossem capazes de restaurar seu DNA. No entanto, o material genético já viu dias melhores. Ele é facilmente contaminável por outros organismos (cada vez que alguém toca nos pássaros, pode alterar a amostra) e foi prejudicado pela ação do tempo. Por isso, recuperar os 1,5 bilhão de pares de bases de DNA não será nada simples, mesmo que, nos últimos 10 anos, as técnicas de sequenciamento de genoma tenham ficado mais sofisticadas e 500mil vezes mais eficientes.
Por isso, será necessário o uso de uma técnica similar ao que você viu em ‘Parque dos Dinossauros’. No filme, DNA de rãs foi usado para completar o código genético dos dinos. E, no caso do pombo-passageiro, o seu parente (vivo) mais próximo, o Patagioenas fasciata poderia fornecer a base genética para a reconstrução do DNA da espécie extinta.
Com esse objetivo, Ben Novak, o cientista da organização Revive&Restore (que visa promover a volta de espécies extintas à vida, usando técnicas genéticas), pediu a dezenas de museus um ‘dedo’ de pombo passageiro, para tentar iniciar o sequenciamento de seu DNA. O pedido foi negado por quase todas as instituições, com exceção do Museu Field de História Natural, em Chicago.
Agora, munido de uma amostra, ele deve sequenciar o genoma do pombo-passageiro e de seu primo contemporâneo, comparar os dois, reconstruir o DNA atentando para as diferenças entre os dos códigos genéticos. Com o material em mãos, ele deve implantar as informações em um ovo de pombo e aguardar o nascimento do primeiro exemplar da espécie renovada. O prazo para terminar o sequenciamento dos dois genomas é de um ano.
No entanto o próximo passo que iria requerer a combinação dos dois genomas não é tão simples. Existe uma tecnologia chamada de Multiplex Automated Genome Engineering que consegue fazer algo similar usando DNA de bactérias – mas o genoma de um pássaro é muito mais complexo.
E, caso o plano de Novak seja bem sucedido, o que aconteceria com os pássaros? Ele planeja abrir um santuário para a espécie, eventualmente treinando-os para voltar à natureza e à realizar a rota de migração de seus ancestrais. Ele acredita que isso traria, novamente, um equilíbrio ecológico às florestas norte-americanas.

7676 – Medicina – Engenharia Genética Contra o Nanismo


MEDICINA simbolo

A terapia gênica para o hormônio de crescimento humano (hGH) é uma metodologia bastante promissora e possui a grande vantagem de substituir todo o processo farmacêutico de produção e controle desta proteína, eliminar os inconvenientes do tratamento padrão, além de poder proporcionar uma liberação do GH de uma forma mais similar ao processo natural.O nosso grupo de pesquisa, no Centro de Biotecnologia do IPEN, desenvolve vários trabalhos ligados à terapia gênica do hormônio de crescimento humano (hGH) e murino (mGH). E, atualmente, podemos considerar como a metodologia mais promissora, utilizada pelo nosso grupo, a injeção direta de DNA plasmidial contendo o gene do hGH, seguida de eletroporação, em camundongos anões e imunodeficientes (lit/scid), cujas características são muito similares às da deficiência de GH (DGH) em humanos. Foi obtida, mediante esta metodologia, secreção contínua do hGH por pelo menos 60 dias de tratamento, e uma correção fenotípica parcial do nanismo com incremento de peso de ~30%, além de uma inclinação da curva de crescimento idêntica à do tratamento padrão com injeções diárias de hormônio de crescimento humano recombinante (r-hGH), em um ensaio subsequente de 28 dias.A proposta para o presente projeto é a realização de um ensaio (ou ensaios) de longa duração, que possa alcançar a correção fenotípica completa do nanismo neste modelo animal de deficiência isolada de GH.
A baixa estatura pode ser decorrente de vários fatores ambientais e genéticos, tais como distúrbios endócrinos, anomalias cromossômicas e doenças esqueléticas, entre outros. Foi recentemente detectado, em meninas com Síndrome de Turner, um gene candidato a ser responsável pela baixa estatura apresentada por essas pacientes, e que localiza-se na região pseudo-autossômica dos cromossomos sexuais (Xp22 e Yp11. 3), denominado SHOX (short stature homeobox-containing gene). Recentemente constatou-se que mutações nesse gene determinam baixa estatura isolada ou associada a displasias ósseas, particularmente mesomelia e deformidade de Madelung, que caracterizam a discondrosteose de Leri-Weill. O presente trabalho tem como propósito analisar o gene SHOX em três amostras de indivíduos: os que apresentam nanismo mesomélico, baixa estatura familial, ou atraso constitucional do crescimento. A análise será feita por meio de PCR (Reação em Cadeia da Polimerase), verificando-se a freqüência de microdeleções e mutações desse gene entre esses pacientes.

Pesquisa Fapesp
O grupo de pesquisa do Departamento de Bioengenharia do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares/ Comissão Nacional de Energia Nuclear de São Paulo (Ipen/ CNEN/ SP) vem trabalhando na produção e caracterização de hormônios pituitários humanos em geral e do hormônio de crescimento (hGH, em particular. Desde 1994, o referido laboratório está conveniado com a firma Hormogen Biotecnologia Imp. Exp. Ltda. O objetivo primário da Hormogen é a produção e comercialização do hGH obtido mediante técnicas de DNA recombinante em bactérias transformadas. O alto potencial social do produto já está demonstrado, sendo indispensável para o tratamento de diversas formas de nanismo e recomendado em severas condições de debilitação. Sua aplicação em casos de osteoporose, fratura óssea, queimaduras e insuficiência renal está sendo estudada e, em parte, realizada, como também estão sendo pesquisados os efeitos sobre o rejuvenescimento e o aumento da massa muscular. Esse hormônio, como praticamente todos os produtos farmacêuticos obtidos mediante essas técnicas de engenharia genética, porém, ainda não é produzido no Brasil.Com esta pesquisa procuram-se a construção de vetores de expressão que permitam um incremento industrialmente interessante na secreção periplásmica bacteriana do produto, a otimização do processo de fermentação em biorreator, incrementando simultaneamente biomassa e produção de hGH por bactéria, e o aprimoramento das etapas de purificação.
Produção
A utilização de produtos farmacêuticos obtidos pela tecnologia do DNA recombinante tornou-se uma realidade no mundo atual. O Brasil, porém, não dispõe de nenhum laboratório farmacêutico que produza fármacos por essa tecnologia. Este projeto se propõe a criar uma empresa capacitada a produzir formulações farmacêuticas obtidas por esse método. A escolha do Hormônio de Crescimento Humano (hGH) como primeiro produto, além de sua importância terapêutica, deve-se ao fato de que grande parte do processo de pesquisa encontra-se concluída – desde o isolamento do gene e sua expressão em bactéria até a purificação do produto recombinante, biologicamente ativo, em escala laboratorial. O produto desse projeto, hormônio de crescimento humano recombinante (rhGH), é um fármaco indispensável na promoção do crescimento nos casos de nanismo por deficiência de hGH. Outras aplicações terapêuticas desse produto (envelhecimento, osteoporose, recuperação de fraturas, perda de massa muscular na Aids) estão sendo pesquisadas. Todo o hGH utilizado no Brasil é importado e existe carência no mercado. Pretendem-se o scale up do processo fermentativo para escala industrial, o scale up parcial do processo de purificação com a realização dos devidos testes de pureza e a execução dos testes clínicos.

7656 – Projeto Genoma – Tirando Dúvidas


O genoma é uma versão química dos manuais do proprietário dos carros 0 km: ele traz todas as instruções necessárias para montar e fazer funcionar o seu corpo. Em maio deste ano, depois de dez anos de trabalho, a ciência identificou todas as letras desse livreto. Que não é pequeno: se fosse escrito em folhas de sulfite, teria a grossura de 200 listas telefônicas com 1 000 páginas cada uma.
Os cientistas não podem ainda ler o genoma porque, mesmo depois de achar suas letras, não dominam com fluência o idioma empregado pelas células – o quimiquês.
Ele também diz que, nesse meio tempo, o vocabulário genético certamente vai crescer e revelar dados que mudarão para sempre o nosso modo de vida.
Um gene, um pedaço de DNA, é uma instrução completa sobre o funcionamento do organismo e executa uma tarefa específica, como determinar a cor do olho ou a forma do nariz.
Mapear o genoma significa identificar milhares de substâncias pequenas que compõem o DNA. São designadas pelas letras A, C, G e T (siglas de adenina, citosina, guanina e timina)
O organismo humano tem cerca de 50 000 genes (ainda há dúvida sobre o total). Eles se compõem de 3,1 bilhões de pedaços pequenos de DNA, designados pelas letras A, C, D e T. Se fossem enfileirados, mediriam 1,5 m de comprimento.

O Mapa Genoma
Trata-se de uma espécie de guia. Como o mapeamento revelou a composição química de todos os genes, ele vai ajudar os cientistas a descobrir exatamente como os genes trabalham.
Já se conhecem quase 4 000 enfermidades associadas aos genes. Entre elas, o diabete e alguns tipos de câncer, como o da mama e o do cólon. Os médicos estão estudando centenas desses genes patogênicos para tentar corrigir os seus “defeitos” e, com isso, eliminar as doenças provocadas por eles.
Muitos males aparecem quando os genes são danificados por toxinas como o alcatrão do tabaco, ou por radiação, como sol em excesso. Esses danos poderão ser reparados. É possível até implantar genes que estimulem o crescimento dos ossos e soldar fraturas.
Desde que se encontre material genético bem preservado desses animais, seus genes poderão ser colocados em uma célula que se reproduzirá por meio da clonagem e se tornará um embrião. O filhote nascerá de uma mãe de aluguel. O que já se aprendeu com o mapeamento do genoma ajudará muito.
Clonar gente?
A experiência nunca foi feita, mas é possível. Em princípio, pode-se até congelar os genes de um cidadão e “ressuscitá-lo” após a morte. Não será a mesma pessoa: só o corpo é copiado na clonagem.
Dá para largar o álcool ou aumentar a inteligência?
Como tudo no corpo funciona sob o comando dos genes, nada impede que se implante nas células de alguém uma “ordem” que corte os vícios de beber e de fumar, ou que aprimore os dotes intelectuais de um indivíduo. O desafio será encontrar os genes exatos para a tarefa certa.

7481 – Ciência da Vida – Os telômeros podem realmente prever a sua longevidade?


O lançamento feito pela companhia Life Length em Madrid de um kit que permitiria prever qual é a sua expectativa de vida a partir do tamanho dos seus telômeros causou um frenesi internacional.
Mas será que no futuro o tamanho dos telômeros será usado para avaliar a nossa saúde? Qual é realmente o valor preditivo dos telômeros na estimativa da nossa expectativa de vida? Para responder a essas perguntas a revista Nature entrevistou a maior expert no assunto: a doutora Elizabeth Blackburn, que ganhou o prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina, em 2009, justamente por suas pesquisas em telômeros. Ela também é consultora de uma companhia – Telome Health – que estuda os telômeros e seus impactos na nossa saúde. A resposta de Maria A. Blasco e outros pesquisadores que estão na Life Length foi imediata. As duas estão em companhias concorrentes.
Os telômeros são as pontas dos nossos cromossomos, como verdadeiros protetores contra danos externos. Eles funcionam mais ou menos como aquele plástico nas pontas de um cadarço de sapato, que não deixam que o cadarço se desfie, estrague e perca a sua função. Entretanto, da mesma forma como aquele plástico acaba se estragando com o passar do tempo e você não consegue mais passar o cadarço pelos buracos do sapato ou do tênis, o telômero também se desgasta e se encurta com as divisões da célula, impedindo que ela continue a se dividir. As células-tronco, para evitar esse desgaste, contêm uma enzima especial chamada telomerase, que repara os telômeros e preserva o seu comprimento, permitindo assim que essas células tão importantes continuem a se multiplicar e manter, por exemplo, as células do sangue constantemente durante toda a nossa vida, como os glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas.

Entrevista da Nature para o ☻Mega
Nature: O telômero pode realmente predizer quanto tempo você vai viver?
Elizabeth Blackburn: Isso é uma bobagem, não? Há realmente uma conexão com a mortalidade, mas é bobagem dizer que o telômero vá prever a sua longevidade. Isso tem que ser considerado com outras informações.

P: Então o que ele pode dizer-lhe?
R: Nós e outros grupos estamos observando uma associação entre o encurtamento dos telômeros e o risco para várias doenças comuns complexas tais como doenças cardiovasculares, diabetes e alguns tipos de câncer. Estudamos também alterações psicológicas crônicas tais como depressão e “stress” pós-traumático e cada vez mais estamos observando uma associação com o encurtamento dos telômeros. Um resultado muito interessante foi observado com alterações no tamanho dos telômeros com o tempo. Pessoas que tinham uma diminuição dos telômeros num período de 2.5 anos tinham uma probabilidade 3 vezes maior de morrer de problema cardíaco durante os próximos 9 anos do que as pessoas que mantinham os telômeros com o mesmo tamanho.

P:Por que os testes medem os telômeros em glóbulos brancos?
R:Por que são células fáceis de se obter. O tamanho do telômero varia em diferentes tecidos mas geralmente seu tamanho é comparável em diferentes tecidos.

R:Poderíamos desenvolver drogas para proteger ou aumentar o tamanho dos telômeros?
R:Nosso grupo não está interessado em drogas nesse momento apesar que tenho certeza que há gente interessada nisso. Todo mundo quer uma pílula mágica, mas há um longo caminho antes de se descobrir qualquer tipo de pílula. Não é uma ideia estúpida, mas precisamos ser realistas em relação a quanto tempo isso levará.

P:Como testes de telômeros podem ser úteis em medicina?
R:Eles mostram uma associação estatística com o risco para doenças comuns como cardiopatias e diabetes. As intervenções médicas poderiam incluir medidas para ajudar as pessoas a lidar com o stress e encorajar a prática de exercícios pois novos estudos estão mostrando que eles estão associados a uma manutenção no tamanho dos telômeros. Se você fizer exercício, talvez isso possa servir como um biomarcador para avaliar o efeito do exercício.

7350 – As maiores descobertas da História da Medicina


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Transplante de órgãos
Os transplantes inicialmente se resumiam a um único órgão: o rim. Atualmente, já se é possível transplantar coração, pulmão, fígado, tecido pancreático e medula óssea. No futuro, certamente, outros órgãos também poderão ser substituídos. O sucesso dos transplantes se deve, antes de tudo, à imunologia, pela descoberta dos antígenos de histocompatilidade, e à farmacologia, pela obtenção de drogas imunossupressoras. O uso de próteses também tende a se expandir em diferentes especialidades, pela disponibilidade de materiais inertes e duráveis, incapazes de provocar reações teciduais.

Progressos cirúrgicos
Grandes progressos nos atos cirúrgicos – com destaque para a cirurgia cardíaca, a neurocirurgia e a oftalmologia – foram possíveis graças à colaboração de outras disciplinas, como a anestesiologia, a neurofisiologia, a bacteriologia e a imunologia. O coração, antes intocável, tornou-se um órgão acessível, graças à introdução da circulação extra-corpórea, que permitiu a correção das malformações congênitas, a revascularização e outros tipos de operações. Já a neurocirurgia e a oftalmologia se beneficiaram com o uso dos raios laser.

A Fecundação Artificial
A fecundação artificial do óvulo em laboratório e o implante intra-uterino do ovo fecundado são uma façanha sem paralelo na história da reprodução humana. A partir dessa descoberta, acredita-se que o caminho esteja aberto para que se possa conseguir, no futuro, o desenvolvimento do embrião fora do ventre materno. Já a clonagem de animais pela manipulação celular mostrou ser possível a clonagem de seres humanos, enquanto as células-tronco provaram seu potencial no tratamento de muitas doenças degenerativas.

A Engenharia Genética
O campo da engenharia genética deu origem a um acontecimento promissor: a determinação da estrutura do DNA – base de toda matéria viva e responsável pela transmissão do código genético. Mais tarde, reveladas as chamadas enzimas de restrição, capazes de fragmentar a molécula do DNA, tornou-se possível alterar o código genético de uma célula, introduzindo nela um segmento de DNA de outra totalmente diferente. A engenharia genética já colabora para a produção de hormônios, enzimas e vacinas, e prevê-se que sua atuação se amplie consideravelmente no futuro.

Fibro e Videoscopia
A fibroendoscopia foi um grande progresso nos métodos diagnósticos porque substituiu os então utilizados aparelhos metálicos, rígidos e cheios de limitações. Em 1958, foi publicado o primeiro trabalho sobre a utilização de fibra óptica em endoscopia, resolvendo um dos problemas aparentemente insolúveis: o da curvatura da luz. A novidade possibilitou a obtenção das imagens antes não alcançadas. Vinte anos depois, a fibroendoscopia foi superada pela videoendoscopia.

Os laboratórios desenvolveram técnicas de alta sensibilidade que contribuíram para o diagnóstico clínico. Um exemplo foi o radioimunoensaio (que depois evoluiu para o método imunoenzimático), que permitiu detectar substâncias em concentrações infinitamente pequenas nos líquidos orgânicos e nos tecidos. Algumas dessas substâncias são os hormônios, os peptídios, os neurotransmissores, os antígenos e os anticorpos. Pela descoberta do radioimunoensaio, Rosalyn Yallow recebeu o prêmio Nobel de 1974. Ela foi a segunda mulher a receber essa distinção em Fisiologia e Medicina.

Diagnóstico por Imagens
A descoberta dos raios-X, no final do século XIX, e sua aplicação com fins diagnósticos, no início do século XX, constituíram um marco importante na história da medicina. Seu sucesso levou à busca de outros métodos diagnósticos por imagens, que resultou no surgimento da ultra-sonografia, método de larga aplicação, sobretudo em obstetrícia; da tomografia computadorizada, cuja alta resolução permitiu o diagnóstico de lesões não detectáveis pelos métodos anteriores; e da ressonância nuclear magnética, capaz de gerar imagens nítidas das áreas magnetizadas, substituindo outros exames mais agressivos.
Síntese dos Hormônios
O isolamento e a determinação da estrutura química de hormônios possibilitou a síntese de grande parte deles em laboratório. Dois exemplos práticos são a composição artificial da insulina, usada no tratamento da diabetes mellitus, e da cortisona, de grande poder antiinflamatório e imunossupressor. A descoberta das vitaminas, por sua vez, revolucionou a prevenção e o tratamento das doenças resultantes de carências específicas desses elementos: escorbuto, beribéri, pelagra e raquitismo, raramente encontradas hoje em dia.
Os Antibióticos
A descoberta dos antibióticos, na primeira metade do século XX, reduziu drasticamente as taxas de mortalidade. Se até então doenças como pneumonia e febre tifóide matavam milhares de pessoas no mundo todo, elas passaram a ser controladas a partir daí. Moléstias de difícil tratamento no passado, como sífilis, tuberculose e lepra, também puderam ser curadas graças aos antibióticos. Entretanto, algumas bactérias terminaram por criar resistência à substância, o que incentivou uma busca continuada de novos tratamentos.
Vacinas
A maior contribuição da medicina à saúde foi no campo da prevenção das doenças, por meio da imunização em massa e das ações desenvolvidas sobre o meio ambiente. Doenças como tétano, difteria, coqueluche, sarampo, poliomielite, febre amarela e hepatite B já podem ser evitadas graças à existência de vacinas eficazes. Medidas voltadas para o meio ambiente, como saneamento básico, hábitos de higiene e melhoria das habitações, também contribuíram em larga escala para a elevação do nível de saúde a partir do século XX.

6926 – Genética – Verduras de laboratório, só com testes


A Agência de Proteção Ambiental dos EUA quer liberar o processo de análise de plantas criadas em laboratório, e também está presentes a aprovar pela 1ª vez um microorganismo geneticamente modificado para atuar como fertilizante. Biólogos suíços criaram em laboratórios uma mosca de 14 olhos. Cientistas americanos descobriram uma forma de manter o DNA intacto dentro do organismo para efeitos de vacinação.

Um pouco +
Engenharia genética e modificação genética são termos para o processo de manipulação dos genes num organismo, geralmente fora do processo normal reprodutivo deste. Envolvem frequentemente o isolamento, a manipulação e a introdução do DNA num chamado “corpo de prova”, geralmente para exprimir um gene. O objetivo é de introduzir novas características num ser vivo para aumentar a sua utilidade, tal como aumentando a área de uma espécie de cultivo, introduzindo uma nova característica, ou produzindo uma nova proteína ou enzima.
Exemplos são a produção de insulina humana através do uso modificado de bactérias e da produção de novos tipos de ratos como o OncoMouse (rato cancro) para pesquisa, através de reestruturamento genético. Já que uma proteína é codificada por um segmento específico de DNA chamado gene, versões futuras podem ser modificadas mudando o DNA de um gene. Uma maneira de o fazer é isolando o pedaço de DNA contendo o gene, cortando-o com precisão, e reintroduzindo o gene em um segmento de DNA diferente.
Os pesquisadores norte-americanos George W. Beadle e Edward L. Tatum, na década de 1930, demonstraram a regulação pelos genes da produção de proteínas e enzimas e a consequente intervenção nas reações dos organismos dos animais. A partir destas pesquisas, teve início o progresso de descoberta da estrutura genética humana.
Oswald Avery em 1944, pesquisando a cadeia molecular do ácido desoxirribonucleico (DNA),ou (RNA), descobriu que este é o componente cromossômico que transmite informações genéticas.
Em 1953 os ingleses Francis H. C. Crick, Maurice Wilkins e o norte-americano James D. Watson conseguiram mapear boa parte da estrutura da molécula do DNA.
Em 1961 os franceses François Jacob e Jacques Monod pesquisaram o processo de síntese de proteínas nas células bacterianas. Descobriram que o principal responsável pela síntese é o DNA, que passou então a ser o elemento central das pesquisas de engenharia genética.
Em 1972, na Universidade de Stanford, na Califórnia, o norte-americano Paul Berg ligou duas cadeias de DNA. Uma era de origem animal, a outra bacteriana. Esta foi a primeira experiência bem sucedida onde foram ligadas duas cadeias genéticas diferentes, e que é considerada por muitos autores o início da criação sintética de produtos de engenharia genética.
Em 1978, o suíço Werner Arber e os norte-americanos Daniel Nathans e Hamilton O. Smith foram laureados com o Prêmio Nobel de medicina ou fisiologia por terem isolado as enzimas de restrição, que são substâncias capazes de cindir o DNA controladamente em pontos precisos. Juntamente com a Ligase, que consegue unir fragmentos de DNA, enzimas de restrição formaram a base inicial da tecnologia.
Iniciou-se então a era da manipulação de mensagens genéticas expressas em fragmentos de seqüências que compõem o código hereditário e os nucleotídeos.
A partir deste momento a engenharia genética passou a cortar ou modificar as moléculas de DNA, utilizando enzimas específicas. As ligases, enzimas que agem para unir a cadeia fragmentada começaram a ser descobertas e sintetizadas para manipulação genética.
A introdução de fragmentos de DNA contendo genes de interesse numa célula, só culminará na reprodução da mensagem genética de tal gene, se este estiver contido num vetor de clonagem apropriado. Tais vetores contém sequências de regulação importantes para que a maquinaria celular possa “ler” e “ler corretamente” a informação contida no gene. Os vetores que são responsáveis por este processo, podem ser plasmídios, vírus e outros, também manipulados geneticamente. Como os plasmídios são sequências circulares de DNA, que se reproduzem de forma autônoma e são elementos genéticos extracromossômicos, tornaram-se portanto, ideais para a transmissão de informação genética.

6845 – Vacas transgênicas produzem leite que não causa alergia


Cientistas conseguiram criar na Nova Zelândia uma vaca transgênica cujo leite não produz uma proteína que causa alergia em bebês. Como escrevem os autores do estudo publicado na revista científica americana “PNAS”, “nos países desenvolvidos, entre 2% a 3% das crianças são alérgicas a proteínas do leite de vaca no primeiro ano de vida”.
O estudo foi feito por cinco pesquisadores da empresa estatal de pesquisa AgResearch e da Universidade de Waikato, liderados por Goetz Laible.
A proteína que causa a alergia é conhecida como BLG, sigla para beta-lactoglobulina. Ela não existe no leite humano, mas é comum no leite de vacas e ovelhas.
Deu muito trabalho chegar à bezerra transgênica cujo leite não tem BLG. Foram necessários estudos em células; depois, em um modelo genético com camundongos; e, por fim, o teste com bovinos.
Existem fórmulas “hipoalergênicas” para bebês, mas o resultado não é perfeito: o leite pode ter gosto amargo, e o custo é elevado.
Tentar tirar os genes da BLG dos bovinos também não deu certo. A equipe de Laible resolveu usar outra técnica de engenharia genética, usando a “interferência de RNA”, método que usa um dos ácidos nucléicos para inibir a ação de certos genes.
Depois dos testes com células, foram testados camundongos que foram modificados para imitar a glândula mamária de uma ovelha (onde se produz a BLG). O “micro RNA” da técnica cortou em 96% a produção da proteína BLG.
Obviamente custa mais barato fazer os testes em células e em camundongos do que ficar produzindo bezerros e bezerras. Mas, uma vez demonstrado que a coisa funcionava, o próximo passo foi partir para criar um bovino transgênico _claro, uma fêmea.
Foram clonados 57 embriões e o resultado foram cinco gestações; uma resultou em uma fêmea, mas que nasceu sem a cauda… Mas o problema parece estar ligado à técnica de clonagem, não à modificação da proteína do leite.
Apesar de ser uma mera bezerra, com o uso de hormônios foi possível fazê-la lactar.

6711 – Mamute em ‘estado perfeito’ pode permitir clonagem


Mamute, ancestral dos atuais elefantes, animal típico da última glaciação

Cientistas russos descobriram restos mortais de um mamute aparentemente em perfeito estado de conservação na Sibéria.
Os pesquisadores têm esperança de encontrar células completas, o que levou a especulações na imprensa russa sobre a possibilidade de se clonar um mamute.
No entanto, cientistas da Academia Russa de Ciências já disseram duvidar de que células vivas sejam encontradas.
O chefe da expedição à Sibéria também rapidamente desmentiu qualquer plano de clonagem, dizendo que ainda é preciso analisar melhor os despojos em laboratório.
“Ainda no local da descoberta, verificamos que as células estavam bem preservadas, o que acendeu esperanças de encontrarmos núcleos celulares completos”, afirmou Semyon Grigoriev.
No ano passado, tinham sido encontradas carcaças de mamutes, bisontes e outros animais pré-históricos no local, mas agora, a cerca de 100 metros de profundidade, foram descobertos estes tecidos adiposos, lã e até tutano de um mamute.
O material será enviado a um laboratório na Coreia do Sul para verificar se realmente há células vivas.
A maioria dos mamutes foi extinta há cerca de dez mil anos.

Um Pouco +

Eis o mito

Clonar animais extintos é possível, mas improvável, sugerem os estudos
Mesmo que DNA aparentemente intacto exista, alterações são quase irreversíveis.
Além disso, clonagem em si é arriscada; por enquanto, só sorte permitirá feito.

Devagar e sempre, a biologia molecular está chegando cada vez mais perto do sonho de recriar um animal extinto. O último feito do tipo, anunciado nesta semana, envolveu o tigre-da-tasmânia (Thylacinus cynocephalus), uma espécie de lobo marsupial da Austrália que desapareceu por causa da caça indiscriminada nos anos 1930. Pesquisadores americanos e australianos usaram tecidos do animal com um século de idade para extrair trechos do DNA do bicho. Depois, inseriram esse material genético — um regulador da formação de cartilagens — em camundongos. Após sete décadas, o DNA dos tigres-da-tasmânia voltava a funcionar. A pergunta é: dá para ir além?
Para tentar ressuscitar o animal, seria preciso primeiro obter a seqüência completa de seu material genético. Depois, bastaria “contrabandear” esse pacote de DNA para o interior do óvulo de uma espécie aparentada cujo material genético foi retirado. (O famoso demônio-da-tasmânia, que inspirou o personagem Taz, poderia desempenhar esse papel de “doador”.) O passo seguinte é fundir os dois elementos e implantar o embrião resultante numa mãe de aluguel. Algum tempo depois, teríamos um bebê-tigre-da-tasmânia redivivo.

Dificuldades
A coisa não é nem de longe tão simples assim, no entanto. O primeiro problema quase insuperável a enfrentar é a degradação natural que as moléculas de DNA sofrem logo após a morte de qualquer ser vivo, e que continua a afetar os tecidos mortos preservados em álcool ou formol nos museus (caso das amostras existentes de tigres-da-tasmânia, principalmente fetos e bichos empalhados).
Com o passar do tempo, as longas seqüências de “letras” químicas A, T, C e G (são nada menos que 3 bilhões de pares delas em genomas como o humano) tendem a se despedaçar e a perder ou ganhar átomos. Os pesquisadores estão descobrindo que essas transformações são relativamente regulares — algumas “letras” tendem mais a virar um tipo de composto do que outros –, mas probabilísticas.

O que isso significa? Que você nunca vai ter certeza absoluta de que aquele pedaço degradado de DNA era originalmente um T ou um C, por exemplo. E nem de como montar o quebra-cabeças dos fragmentos num todo correspondente ao genoma original do bicho que você quer ressuscitar. E algum grau de reconstrução sempre é necessário, porque é altamente improvável que nenhum dos genes do animal extinto tenha se degradado.

Neandertais e mamutes
O mesmo vale para outras criaturas extintas que alguém poderia desejar clonar, como os neandertais, primos da humanidade desaparecidos há 30 mil anos, ou os mamutes, desaparecidos há 10 mil anos na maior parte da Eurásia.

O problema seguinte é, claro, a mãe de aluguel e os óvulos dela. Nos três casos — mamutes, neandertais e lobos-da-tasmânia — existem parentes próximos disponíveis (elefantes asiáticos, humanos e diabos-da-tasmânia). O problema é que os óvulos, mesmo sem material genético do núcleo, carregam informações que são importantes para o desenvolvimento correto dos embriões.
Usar células maternas de uma espécie diferente pode mandar esse equilíbrio delicado para o espaço e comprometer o embrião. (Pode, não deve: mães de aluguel de espécies diferentes da do embrião já foram capazes de dar à luz sem muitos problemas.) O caso dos tigres-da-tasmânia tem um problema extra: filhotes de marsupial nascem ainda em estado quase fetal, e passam o resto de seu desenvolvimento mamando nas tetas maternas que ficam na bolsa, ou marsúpio, igual à dos cangurus. Ninguém sabe o que aconteceria se uma “mãe de aluguel” fosse induzida a amamentar os bichinhos. Pode muito bem ser que ela os coma.
Mas a clonagem em si é um obstáculo sério. Por uma série de motivos que a ciência ainda está elucidando, só uma pequena porcentagem dos embriões oriundos do processo — algo entre 1 e 100 e 1 em 200 para as espécies bem estudadas — chega a nascer. E, se nasce, tem problemas de saúde graves e morre cedo.
Por tudo isso, ainda vai ser necessário entender muito melhor as complexidades do genoma antes que seja possível tentar a clonagem de um tigre-da-tasmânia com alguma chance de sucesso. Outra discussão importantíssima, obviamente, envolve questões éticas: até que ponto é válido colocar em risco a vida de uma rara fêmea de diabo-da-tasmânia só para ver o bichinho nascer? E é certo trazer de volta ao mundo um bicho que não tem mais parentes ou potenciais parceiros reprodutivos? Não se pode esperar que a ciência, sozinha, solucione tais dilemas.