14.017 – Psiquiatria – Gênios com Transtornos Mentais


v v gogh
Vincent van Gogh, (o homem que pintava o 7) famoso por quadros como A Noite Estrelada e A Cadeira de Van Gogh, sofria de transtornos mentais. Além disso, de tanto beber absinto, ele adquiriu uma lesão no cérebro que causava ataques epilépticos. Certa vez, devido a uma crise, decepou sua própria orelha esquerda. Alguns autores afirmam que ele poderia ter transtorno bipolar, pois tinha variações constantes de humor. Suicidou-se aos 37 anos de idade.

John Nash, o matemático que inspirou o filme Uma Mente Brilhante e ganhador do Nobel de Economia, tem esquizofrenia paranoide. Ele já passou por vários hospitais psiquiátricos, sempre contra sua vontade, nos quais recebeu tratamentos com drogas antipsicóticas e injeções de insulina (que provocam períodos de coma). Gradualmente, Nash se recupera e eventualmente dá aulas de matemática na Universidade de Princeton.

O aviador, produtor de filmes e empresário Howard Hughes tinha uma estranha fobia de germes. Por causa do transtorno, ele tornou-se recluso e adquiriu o vício em codeína. Era compulsivo por higienização e obrigava seus empregados a seguirem suas ordens à risca. Para servir comida, por exemplo, eles precisavam usar luvas de papel toalha. Em certa fase, Hughes tirava toda a roupa e ficava deitado por horas em quartos escuros (que chamava de zonas higiênicas); e calçava caixas de lenços nos pés.

De acordo com alguns autores, o escritor Edgar Allan Poe, famoso por suas histórias de terror, sofria de transtorno bipolar. Ele bebia muito e certa vez escreveu uma carta descrevendo seus pensamentos suicidas.

Ernest Hemingway, ganhador de um Nobel de Literatura e um prêmio Pulitzer, tinha depressão e alcoolismo. Sua saúde mental tornou-se debilitada por causa do uso intenso de medicamentos, pelas bebedeiras, e devido a uma terapia baseada em choques elétricos, que causou perda de memória. , Assim como seu pai, seu irmão e sua irmã, Hemingway se suicidou.

tennessee-williams

Tennessee Williams, dramaturgo, autor de Um Bonde Chamado Desejo e vencedor do Prêmio Pulitzer, sofria de depressão, alcoolismo e dependência química. Seu quadro se agravou ainda mais quando, sua irmã esquizofrênica passou por uma lobotomia; e seu namorado de longa data morreu de câncer de pulmão.

O famoso compositor Ludwig Van Beethoven tinha transtorno bipolar, de acordo com autores. Quando jovem, sofreu muito com o pai – que o agredia fisicamente e o pressionava a estudar música. As surras constantes contribuíram para que ele perdesse a audição. Beethoven tinha períodos de grande excitação e energia , seguidos de momentos de extrema depressão. Para se ver livre das crises, usava drogas e álcool.

Abraham Lincoln é conhecido por seus grandes feitos como presidente dos Estados Unidos. Mas apesar do sucesso, ele era descrito como um indivíduo de tendências melancólicas. Tinha crises profundas de depressão e ficava debilitado com frequência. Alguns autores afirmam que Lincoln tentou cometer suicídio.

Isaac Newton foi um dos maiores gênios de todos os tempos. Ele inventou o cálculo, desenvolveu a Lei da Gravidade e construiu o primeiro telescópio refletor. Mas, apesar do brilhantismo, era conhecido por seus transtornos mentais. Newton era uma pessoa de difícil convivência e apresentava mudanças drásticas de humor. Alguns autores sugerem que ele tinha transtorno bipolar e esquizofrenia.

9800 – Psiquiatria – Relação da vida urbana e as doenças mentais


☻ Rumo ao post 10.000

O ser humano que vive e trabalha numa cidade poder se acometido por doenças causadas pela poluição sonora, trânsito caótico, violência urbana, lixo, empurrões e outros fatores estressantes. As pessoas são atraídas para trabalhar e viver nas cidades pela possibilidade de obterem melhores empregos e melhores “oportunidades” de trabalho.
Há cerca de 50 anos atrás, menos de um terço da população mundial vivia nas cidades, em 2012 esse número havia subido para mais da metade da população mundial. A perspectiva para o ano de 2050 indica que 70% de toda a população do mundo esteja vivendo em cidades.
O aumento da população urbana, além de gerar maior demanda nos setores de transporte, emprego e segurança, afeta diretamente nas condições de vida, do ser humano poder viver com saúde e boa expectativa. As cidades poderão deixar de ser o melhor lugar para se viver.
Segundo o Instituto Central de Saúde Mental de Mannheim, o aumento da população urbana tem sido acompanhado pelo aumento da ocorrência de distúrbios psíquicos nos cidadãos. Uma das doenças mais verificadas, a depressão, já causou o custo de 120 bilhões de euros ao ano para os governos e cidadão europeus.
Além da depressão, o estresse e o caos urbano também causam demência, ansiedade e psicose. Porém, na sociedade e no dia a dia a frequência dessas doenças são subestimadas pelo próprio doente, principalmente quando a doença está em seu estágio natural, pela sociedade e pelas empresas, afinal, quase todo mundo sente dores de cabeça, sobrecarga diária e tristeza, as doenças somente se tornam mais visíveis quando atingem níveis mais agudos.
Na Alemanha, entre os anos 2000 e 2010, o número de afastamentos médicos causados por doenças mentais dobrou. Na América do Norte, a depressão foi a principal causa dos 40% dos caos de licença médica.
No Brasil, segundo dados do Núcleo Epidemiológico da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, a ansiedade, a depressão e a dependência química são causadas diretamente pela violência urbana e falta de qualidade de vida. Os mais vulneráveis são aqueles que vivem em regiões periféricas e mais pobres de uma determinada cidade.

7297 – Pergunta ao Dr. Know: Dá pra se fingir de louco?


Sim, fazer de conta que vai mal da cabeça pode trazer vantagens. Pode render aposentadoria por invalidez ou auxílio-doença. Pode dar acesso a remédios controlados que ajudam a ser mais produtivo nos estudos e no trabalho. Ou pode evitar o julgamento por um crime, como no caso de Gigante, o mafioso. O princípio no caso penal é o seguinte: quando uma doença mental deixa a pessoa incapaz de controlar sua ação, ela se torna aquilo que o juridiquês chama de “inimputável”. “Para a lei, não importa que doença a pessoa tenha, mas o impacto dela no dia a dia”, diz um professor de psiquiatria forense do Hospital das Clínicas da USP. Mesmo que um sujeito tenha esquizofrenia grave, se ele roubar dinheiro para comprar uma blusa, não terá feito isso por causa do transtorno, mas porque queria comprar a blusa. “Ele só deixaria de responder pelo crime se a doença torná-lo incapaz de entender o que está fazendo ou de se controlar”. Assim, ele deixa de ter culpa pelo crime. A alegação de inimputabilidade é rara: segundo um estudo da Universidade da Pensilvânia, apenas 0,9% dos processos criminais parte para essa estratégia. Nesses casos, o acusado é internado em um hospital psiquiátrico.
Não existe raio-X de esquizofrenia. Mas, na prática, para enganar um psiquiatra é preciso mais do que bons talentos dramáticos. É necessária maestria como diretor, roteirista e ator.
Para desmascarar mentirosos, psiquiatras têm uma ferramenta principal: a boa e velha conversa. Eles partem para perguntas abertas. Assim, o paciente precisa relatar os sintomas com suas próprias palavras e experiências.
Na hora de detalhar a entrevista, o psiquiatra pode misturar perguntas relacionadas a transtornos opostos ou sintomas completamente improváveis (por exemplo, se vê palavras escritas surgirem quando pessoas falam). Com uma entrevista longa, é apenas uma questão de tempo para que ele se contradiga ou mostre um comportamento incoerente com as descrições.
Agora, o roteiro. Digamos que a pessoa tenha forjado um quadro de esquizofrenia a partir do que ele viu em filmes. O problema é que esse transtorno é bem diferente do que mostram os filmes. Tem sintomas “positivos” – alterações das funções normais, como alucinações e delírios – e sintomas “negativos” – diminuição das funções normais, como falta de motivação, de emoções e isolamento social. Falsários tendem a ignorar os sintomas negativos, que são menos conhecidos. E, segundo o psiquiatra Dartiu Xavier da Silveira, da Unifesp, o que confirma mesmo o diagnóstico de esquizofrenia não são vozes imaginárias ou pensamentos estranhos, mas a forma como a pessoa se vincula afetivamente com os outros. “Para conseguir imitar isso, o sujeito teria de ser digno de um Oscar.”
Na hora de simular sintomas como alucinações, surgem os problemas de atuação. Tal como o mau ator num dramalhão barato, ele acha que quanto mais bizarro o comportamento, mais convincente será. Esforça-se para parecer louco e tomar o controle da entrevista, enquanto pacientes genuínos geralmente relutam em discutir seus sintomas, afirma Phillip Resnik, professor de psiquiatria da Universidade de Cleveland. Digamos que um falsário relate ter ouvido vozes. Como eram essas vozes? Em casos psicóticos legítimos, elas são bem claras – dá até para saber se são masculinas ou femininas. Ou seja, não existe essa de “não sei” quando o psiquiatra fizer perguntas. De onde vieram? Em 88% dos casos, parecem vir de fora da cabeça, como de objetos, da parede ou do ar. O que elas dizem? Embora seja comum que a voz dê instruções, raramente elas se limitam a comandos – e normalmente o paciente evita obedecê-las, principalmente se isso trouxer perigo. Então, se vozes de dentro da cabeça tiverem mandado um acusado ir até um banco e roubar dinheiro, dificilmente um psiquiatra acreditará nelas.
Para fechar o prêmio de mau ator para o falsário, a psicose não se limita ao que a pessoa pensa. Ela influi em como a pessoa pensa. Uma pessoa em estado psicótico muda abruptamente de assunto, inventa termos, faz uma salada de palavras. Ninguém vai enganar um psiquiatra dizendo de forma clara que está confuso. E para saber as características de confusão mental na esquizofrenia e reproduzi-las é necessário mais um Oscar. Ou então passar três décadas fingindo loucura de manhã à noite. Não é qualquer um que consegue ser Vincent Gigante.

6596 – Psiquiatria – A Psicose


Em clínica psiquiátrica, dá-se o nome de psicose a uma ampla variedade de perturbações graves do comportamento que revelam a existência de profundas alterações mentais. Muitos autores identificam psicose com doença mental em sentido estrito e estudam à parte as neuroses, as psicopatias de inadaptação e as anormalidades de origem genética ou traumática.
O termo psicose designa genericamente os processos mórbidos de desintegração da personalidade, com grave desajustamento do indivíduo ao meio social. Corresponde, até certo ponto, ao conceito popular de loucura. O juízo — operação pela qual se afirma ou se nega a relação entre duas idéias, ou se aplicam os conceitos de falso e verdadeiro — é a função mental tipicamente alterada em todas as psicoses. Nos psicóticos, essa função está tão alterada que suas elaborações se tornam evidentemente absurdas, grosseiramente divergentes não só das experiências e idéias das demais pessoas, mas também daquelas que o paciente apresentava antes de adoecer. É o que se observa, por exemplo, nas idéias delirantes, sintomas dos mais caracteristicamente psicóticos: o paciente, conforme o caso, acredita-se vazio, de outro sexo, o maior pecador do mundo, culpado das guerras e revoluções, perseguido por selenitas ou marcianos, chefe de estado ou dono de fabulosos tesouros.
São também sintomas psicóticos as alucinações, ou percepções sem objeto: o doente vê animais nas paredes brancas e nuas do quarto, ouve vozes de perseguidores inexistentes e sente o sabor do veneno que seus inimigos lhe administram. Os psicóticos têm absoluta e irredutível convicção da verdade de suas irreais percepções internas. Não lhes reconhecem o caráter mórbido, ao contrário dos neuróticos, que têm exata consciência do caráter patológico de seus distúrbios e não negam flagrantemente a realidade objetiva.
Nem sempre, no entanto, as psicoses determinam caos mental flagrante ou desarrazoados tão óbvios. Certas funções podem permanecer íntegras, ao lado do juízo perturbado. A inteligência, a memória, o cabedal de conhecimentos adquiridos, por exemplo, conservam-se inalterados em alguns tipos de psicoses. Mesmo o juízo, em alguns casos, só apresenta desvarios em relação a determinados temas. Em todos os casos, existe transformação radical das relações entre o indivíduo e o mundo, de tal modo que a personalidade total se desintegra. Essa desintegração pode ser episódica ou permanente, reversível ou irreversível, progressiva ou estacionária e completa ou parcial.
Os psicóticos tornam-se incapazes, em grau maior ou menor, de ajuste social. Não podem viver sem conflito, dependência ou proteção incomuns nos grupos sociais. Tornam-se, na maioria das vezes, alienados mentais, isto é, incapazes de reger a própria pessoa e seus próprios bens, e irresponsáveis diante das leis penais.
Costuma-se dividir as psicoses em dois grupos fundamentais: orgânicas, que são as psicoses derivadas de anormalidades físicas conhecidas, embora também possam ser produto de transtornos psicológicos ou comportamentais; e funcionais, que compreendem as demais psicoses. Os partidários da abordagem psicanalítica das doenças mentais sustentam que as psicoses se devem à regressão do paciente a estados de desenvolvimento anteriores, nos quais sofreram frustrações ou perdas traumáticas que afetaram seu senso de realidade. Por essa razão, os psicóticos procurariam criar um novo mundo interior que os compensasse de alguma forma pela perda.
Psicoses orgânicas. Existem alguns estados psicóticos cuja causa orgânica é conhecida. Os mais importantes são os que correspondem à psicose senil, à que aparece por vezes nos alcoólatras crônicos e às psicoses puerperais, ou do pós-parto. A psicose senil caracteriza-se por estados de confusão mental, perda de memória e, por vezes, pela aparição de sintomas paranóicos. Costuma ser associada a fases avançadas de degeneração cerebral, provocada pela falta de irrigação sangüínea nesse órgão, que pode resultar, por sua vez, de um quadro de arteriosclerose grave.
Os alcoólatras em situação de abstinência podem sofrer tremores, estados de ansiedade e alucinações. O álcool danifica os tecidos cerebrais, o que provoca no doente uma perda de memória e das capacidades intelectuais, assim como uma progressiva deterioração da capacidade de estabelecer relações sociais normais e a manifestação da tendência a exibir condutas extravagantes e, por vezes, agressivas.
As psicoses do pós-parto são do tipo orgânico, mas tão semelhantes às psicoses funcionais que às vezes é difícil distingui-las. Contribui para aumentar essa dificuldade o fato de que um leque de perturbações orgânicas, como a ingestão de tóxicos, os traumas cerebrais, a sífilis, a epilepsia e os tumores cerebrais, podem provocar a aparição de sintomas parecidos com os da neurose. Trata-se, nesses casos, de síndromes cujo tratamento corresponde mais ao âmbito neurológico que ao psiquiátrico.

As psicoses de caráter funcional compreendem várias síndromes diferentes: a esquizofrenia, a paranóia, as psicoses afetivas e as psicoses involutivas. A esquizofrenia é a variedade mais freqüente de psicose. Caracteriza-se por um isolamento do mundo exterior, que concorre com perturbações do pensamento, da percepção do meio externo e da percepção da própria personalidade. Embora a remoção dos sintomas seja sempre possível, nos pacientes crônicos a esquizofrenia chega a produzir uma grave degenerescência geral.
A paranóia, que é por vezes considerada uma variedade da esquizofrenia, abrange a elaboração de um mundo de fantasias que é internamente coerente e lógico. É freqüente que ocorra a identificação do doente com um personagem famoso, assim como que apareça um sentimento de ameaça contínua ou perseguição.
As psicoses afetivas incluem a depressão psicótica e a psicose maníaco-depressiva. Esta caracteriza-se pela periodicidade e se manifesta sob as formas de crises, separadas por intervalos mais ou menos longos, às vezes com uma ou duas em toda a vida do paciente. Em cada intervalo entre as crises pode haver perfeita normalidade, manifestações dissimuladas da doença ou peculiaridades temperamentais mais ou menos acentuadas (temperamento ciclóide).
As crises se caracterizam por estados de intensa tonalidade afetiva, que dominam toda a vida psíquica. Há dois tipos de crises: crises maníacas (humor exaltado, com alegria exagerada ou cólera, excitação psíquica e motora); crises melancólicas (humor deprimido, tristeza, inibição psíquica e motora, auto-recriminação, tendência ao suicídio). Os dois tipos de crises sucedem-se ou combinam-se, no mesmo indivíduo, sob diversas formas — alternadas, intermitentes, circulares, mistas etc.
As psicoses involutivas às vezes são estudadas como psicoses afetivas. Aparecem em geral entre os cinqüenta e os sessenta anos sob a forma de intensa melancolia e depressão, sobretudo em mulheres, ou com sintomas paranóides.
As psicoses funcionais se manifestam em indivíduos organicamente sadios e suas causas ainda não estão bem esclarecidas ou provadas. São provavelmente determinadas por causas múltiplas e resultam de fórmulas individualizadas. Entre os fatores que exercem influência na sua gênese, apontam-se a predisposição hereditária e a constituição somatopsíquica e, de outro, as carências de todo tipo, as atmosferas emocionais e educativas inadequadas e traumatizantes (inclusive a superproteção materna) e os conflitos intensos no interior da família. Todos esses elementos foram vividos durante a infância e a adolescência, acrescidos, em muitos casos, com desencadeantes atuais, de traumatismos psíquicos ou situações externas de grave tensão. Conforme as diversas posições doutrinárias sobre quais desses fatores têm maior importância geral, as psicoses funcionais são chamadas também endógenas, hereditárias, constitucionais ou psicogênicas. Os mais prudentes preferem o termo “psicoses criptogenéticas”, ou psicoses de causas ocultas ou desconhecidas.
Tratamento. Na tentativa de ressocializar o doente psicótico, diversos meios de tratamento são utilizados de maneira conjugada, tais como a administração de psicofármacos, combinados se possível à psicoterapia e o eletrochoque no caso de psicoses agudas. Em algumas situações, como último recurso, no caso de pacientes violentos e irrecuperáveis, empregam-se técnicas de neurocirurgia. A hospitalização é quase sempre necessária, com um período de isolamento muitas vezes benéfico para o paciente, embora algumas correntes psiquiátricas defendam a permanência do paciente no ambiente familiar.

6595 – Psiquiatria – A Paranóia


Usada originalmente como sinônimo de insanidade, a palavra paranóia, no século XIX, passou a designar um distúrbio mental específico a que estão quase sempre associados delírios de grandeza e de perseguição.
Paranóia é uma doença mental que se caracteriza por um estado de delírio permanente, internamente bem estruturado, cuja aparente coerência externa resiste à argumentação lógica. Idéias delirantes são concepções falsas que o indivíduo toma repetidamente como verdadeiras e lentamente se transformam num sistema complexo, intrincado e logicamente elaborado, sem alucinações e sem desorganização da personalidade.
O mais comum dos delírios paranóides é o de perseguição, em que o indivíduo se sente prejudicado ou enganado por aqueles que o cercam. São também freqüentes os delírios de grandeza, os eróticos e os depressivos. A exagerada tendência à auto-referência é sintomática do delírio paranóide. Ela se manifesta como a interpretação dos gestos, observações e atitudes dos outros como sinais inequívocos de atitudes hostis ou insinuações contra o indivíduo. Os sinais que identificam a convicção paranóide são a disposição de aceitar as menores evidências que apóiam as idéias delirantes e a incapacidade de aceitar qualquer evidência em contrário.
O paranóico, exceto no que se refere ao delírio, apresenta inteligência normal, além de capacidade de memória e de raciocínio pleno. Em quase todos os casos, há uma predisposição constitucional para a doença, que leva a paranóias do tipo endógeno. Nas de tipo reativo, muito menos freqüentes, é dominante a influência de uma experiência anterior.

A Síndrome Paranóide
Síndrome paranóide. Quando os sintomas paranóides são leves ou surgem juntamente com outras características psicopatológicas, costuma-se usar o termo síndrome paranóide. Nas crianças, a necessidade exagerada de aprovação pode aparecer como traço paranóide do caráter, enquanto nos adultos se manifesta sob a forma de desconfiança, orgulho e falta de adaptação social. Na prática psiquiátrica contemporânea, o termo paranóia é em geral reservado aos casos extremos de delírios crônicos altamente sistematizados. Alguns psiquiatras, no entanto, põem em dúvida o conceito de paranóia como categoria de diagnóstico. Para eles, o que no passado era descrito como paranóia não passa de um tipo de esquizofrenia.

Tratamento.
É difícil e prolongado o tratamento do paranóico. A doença pode torná-lo perigoso e, em alguns casos, levá-lo à internação. As paranóias reativas ou exógenas são mais suscetíveis de tratamento do que as endógenas. Em ambas, busca-se separar o doente das circunstâncias que desencadeiam o mal. O indivíduo é então submetido à ação de psicofármacos, que permitem o acesso eficaz a uma psicoterapia.

6594 – Psiquiatria – A Neurose


A angústia que uma situação inquietante ou de perigo provoca no indivíduo é uma reação psicofísica normal. Se tal situação ameaçadora não tiver apoio na realidade, no entanto, é provável que se esteja diante de um quadro de neurose.
Neurose é um distúrbio funcional do sistema nervoso que se caracteriza por ansiedade, depressão e outros sentimentos de infelicidade demasiado profundos em relação aos fatores que os desencadeiam. Pode comprometer certas áreas da vida afetiva e das atividades do indivíduo, mas em geral não é grave a ponto de incapacitá-lo para a vida profissional, familiar etc. O neurótico, a diferença do que ocorre com o psicótico, não perde contato com a realidade. O que ocorre na neurose é uma elaboração psíquica anormal dos estímulos emocionais, do que resulta, habitualmente, uma reação desproporcionada.
As neuroses se manifestam por meio de sintomas inespecíficos e específicos. Os inespecíficos, ou acessórios, podem existir não só nas neuroses, mas também em outras doenças orgânicas ou psíquicas: depressão, hipocondria, irritabilidade, insônia, dores de cabeça, vertigens, paralisias, cegueira, convulsões etc. Apesar de acessórios, são muito freqüentes nas neuroses, e às vezes dominam o quadro clínico, de modo a mascarar ou encobrir os sintomas específicos.
Os sintomas específicos, ou essenciais, realmente típicos das neuroses, são angústia, fobias, obsessões, conversões (somatizações) e certas inibições, como a impotência sexual. Angústia é a tensa, desagradável e absorvente expectativa psicofísica de um perigo iminente, cuja fonte é imaginária, desconhecida ou exageradamente avaliada. Há gradações, que vão da simples intranqüilidade até a angústia catastrófica. A angústia é, de fato, o fenômeno básico da neurose. Os demais sintomas ou traços neuróticos devem ser considerados transformações ou disfarces da angústia: por mecanismos inconscientes, o sujeito se defende contra o surgimento ou a permanência da angústia.
Fobias, ou medos patológicos, são angústias circunstanciais, que se desencadeiam especificamente diante de animais, espaços amplos, recintos fechados, multidões etc., enquanto obsessões são idéias que, repudiadas pela consciência do sujeito como estranhas ou absurdas, tomam-na de assalto e ali se fixam torturantemente. Se o conteúdo obsessivo é um ato ou idéia de fazer algo impróprio, contrário à consciência, diz-se que há uma compulsão. Conversão é a transformação de um conflito psíquico em sintoma somático. A cegueira, por exemplo, pode manifestar-se sem que haja lesão dos centros cerebrais da visão, dos nervos ou do aparelho visual, mas apenas porque certos impulsos (ou idéias, sentimentos e lembranças a eles referidos), reprimidos pela consciência, tiveram sua energia instintiva desviada para descargas anômalas, por intermédio das estruturas orgânicas. Da mesma forma, podem originar-se paralisias, anestesias, convulsões, dores e espasmos.
Os sintomas específicos e os acessórios se mesclam, em cada caso, em proporções variáveis, bastante individualizadas. Muitas vezes, porém, certos sintomas dominam o quadro clínico de tal modo que já se pode falar em formas especiais de neurose. Quando a prevalência é dos acessórios e as queixas se referem a um determinado órgão da vida vegetativa, fala-se em organoneuroses (neurose cardíaca, neurose gástrica). Quando o quadro é dominado por sintomas específicos, têm-se as psiconeuroses: neurose de angústia, neuroses fóbicas, neurose obsessiva, histeria. A neurastenia se caracteriza, entre outras manifestações, por dor de cabeça, tontura, insônia, irritabilidade, hipocondria, astenia, intolerância a ruídos e impotência sexual.

Em alguns casos, os sintomas neuróticos se estabelecem nitidamente, a partir de certas situações externas, de tensão crônica ambiental ou de traumas emocionais, como morte de seres queridos, desastres, catástrofes, insucessos financeiros, amorosos ou sociais. A esses casos dá-se o nome de neuroses traumáticas, entre as quais se incluem as neuroses de guerra, responsáveis, depois da segunda guerra mundial, por uma série de desajustamentos sociais.
Mesmo nesses casos traumáticos ou situacionais intervém, em maior ou menor grau, a predisposição individual, fator cuja influência cresce à medida que diminui o peso dos fatores situacionais, até se chegar aos casos muito freqüentes em que os fatores externos têm valor mínimo e a neurose parece ser o destino histórico, fatal, de certos tipos de personalidade. Tal predisposição resulta da interação de fatores constitucionais e fatores vivenciais, estes adquiridos durante o desenvolvimento biopsicossocial do indivíduo. Entre tais fatores vivenciais têm importância primordial os que se referem às primeiras relações objetais (mãe e recém-nascido), às fases da evolução do instinto sexual, e às emoções vividas na constelação intrafamiliar (centralizadas no complexo de Édipo).
A exposição das causas das neuroses, dos mecanismos inconscientes de formação dos sintomas e a estruturação das personalidades predispostas são temas ainda sujeitos a controvérsias. Todas elas, porém, com raras objeções, consideram as neuroses como produzidas pela ação patogênica de conflitos emocionais. A psicanálise, doutrina elaborada por Sigmund Freud, e suas correntes derivadas (ortodoxas, dissidentes e revisionistas) foram decisivas para a descrição e o tratamento das neuroses, sem negar as contribuições de outras escolas, como a reflexologia de Pavlov e seus discípulos, predominantes na antiga União Soviética.
O tratamento das neuroses pode ser somático (com emprego de sedativos, tranqüilizantes, fisioterapia e sobretudo sonoterapia) ou psicoterápico (com sugestão, persuasão, hipnose e principalmente psicanálise e métodos terapêuticos dela derivados).

6006 – Mega Polêmica – Existem Crianças que já Nascem Más?


Embora o diagnóstico de psicopatia só possa ser feito formalmente aos 18 anos, é possível captar sinais bem antes disso. As crianças psicopatas mentem muito, são manipuladoras, impulsivas e extremamente egocêntricas. Também são cruéis. Podem queimar um cachorro ou estripar um gato. Sufocar um irmão com um travesseiro sem sentir culpa ou remorso. Tentar queimar ou explodir coisas. Mais tarde, na adolescência, podem praticar vários tipos de crime, de simples roubos a atos de violência sexual e homicídios com requintes macabros. Tudo sem que haja um motivo ou fator causador, a não ser o puro instinto. E tudo sem que os pais possam fazer muita coisa – pois estudos sugerem que a psicopatia pode ser causada por problemas estruturais no cérebro, e não pode ser anulada por uma boa educação. É como se os psicopatas já nascessem sentenciados a serem maus; suas famílias, a conviver com isso.
Algumas crianças batem nos irmãos e tiram objetos dos pais, por exemplo, mas tudo passa após uma etapa de ajuste. “Não podemos jamais concluir que crianças com distúrbios de comportamento serão psicopatas no futuro. Por isso, não se dá o diagnóstico de psicopatia antes dos 18 anos”, diz o psiquiatra forense Guido Palomba. Mas algumas crianças que apresentam esses distúrbios vão, sim, se tornar adultos psicopatas, por mais acompanhamento e tratamento que recebam.

O torturador
O americano Jason Massey tinha 9 anos quando matou o primeiro gato. Gostou. Nos anos seguintes, dissecou dezenas de outros, que pegava perto de casa. Psicopatas como ele têm uma curiosidade mórbida por animais domésticos. Espetam os olhos de tartarugas, estripam pássaros para saber o que há dentro, botam fogo num cão só para vê-lo correr. E não se horrorizam com isso. Na verdade, desfrutam do sofrimento alheio – e não se importam em carregar a imagem de sádico. Jason tinha essa fama. Um exemplo: “Na adolescência, supostamente matou o cachorro de uma garota que não quis ser sua namorada”, diz a psicóloga forense Katherine Ramsland.

Em seu diário, Jason registrou fantasias de estupros e canibalismo com mulheres. Seu ídolo era Ted Bundy, famoso psicopata americano que seduzia jovens para depois estuprá-las. Bundy matou pelo menos 30 mulheres antes de ser executado na cadeira elétrica, em 1989. Jason queria superar essa marca. Em julho de 1993, aos 20 anos de idade, foi apresentado por um amigo a Christina – de apenas 13 anos. Confessou ao amigo que gostaria de matá-la. Roubou uma arma calibre 22 e comprou munição, facas e algemas.

Poucos dias depois, Jason convenceu Christina a passear com ele de carro no meio da noite pelo interior do Texas. Christina levou junto o amigo Brian, de 14. Foi o último passeio deles. “Brian levou dois tiros. Christina foi desmembrada. Sua cabeça e suas mãos desapareceram”, conta Ramsland. A garota levou dezenas de facadas. Teve as vísceras removidas e os mamilos cortados. Jason foi julgado pelos crimes e condenado à morte por injeção letal, em 2001.
A ciência ainda tenta explicar o que está por trás de condutas tão extremas. E algumas pistas têm surgido. O médico forense Guido Palomba examinou vários indivíduos com distúrbios de comportamento. E observou uma característica peculiar nos cérebros de pessoas sádicas. “A constituição anatômica era igual à do cérebro de um epiléptico, com assimetria entre as duas metades”, diz Palomba. Isso sugere que comportamentos radicalmente violentos podem ter raiz neurológica – e genética.
os psicopatas têm uma gama de sentimentos reduzida. Não sentem ternura, amor, solidariedade ou tristeza. “Vivem num pêndulo entre duas emoções básicas: o entusiasmo (para buscar os objetivos) e a ira (quando se frustram por não realizá-los)”, diz o psiquiatra Hugo Marietan.

3372 – Psicologia – Cuidado com os “amigos da Onça”


O psicólogo Robert Hare tinha acabado de sair da faculdade, na década de 1960, quando arranjou um emprego no presídio de Vancouver. Função: atender os presos com problemas e montar diagnósticos de sanidade para pedidos de condicional. Lá conheceu o simpático Ray, um dos presos. Era um sujeito legal, contava histórias envolventes e tinha um sorriso que deixava qualquer um confortável. Como o sujeito parecia aplicado e dedicado a ter uma vida correta depois da prisão, o doutor resolveu ajudá-lo em pedidos de transferência para trabalhos melhores na cadeia, tipo a cozinha e a oficina mecânica. Os dois ficaram amigos. Mas Ray não era o que parecia. Hare descobriu que o homem usava a cozinha para produzir álcool e vender aos colegas. Os funcionários do presídio também alertaram o psicólogo dizendo que ele não tinha sido o primeiro a ser ludibriado pelo “gente boa” Ray. E que a falta de escrúpulos do preso não tinha limites. Pouco depois, Hare sentiu isso na pele: teve os freios de seu carro sabotados pelo “amigo” presidiário.
Ray não era único ali. Boa parte de seus colegas no presídio de Vancouver era formada por sujeitos alegres, comunicativos e cheios de amigos que também eram egocêntricos, sem remorso e não mudavam de atitude nem depois de semanas na solitária. Nas prateleiras sobre doenças mentais, havia várias descrições parecidas. O francês Philip Pinel, um dos pais da psiquiatria, escreveu no século 18 sobre pessoas que sofriam uma “loucura sem delírio”. Mas o primeiro estudo para valer sobre psicopatia só viria em 1941, com o livro The Mask of Sanity (“A Máscara da Sanidade”, sem tradução para o português), do psiquiatra americano Hervey Cleckley. Ele dedica a obra a um problema “conhecido, mas ignorado” e cita casos de pacientes com charme acima da média, capacidade de convencer qualquer um e ausência de remorso. Com base nesses estudos, Robert Hare passou 30 anos reunindo características comuns de pessoas assim, até montar sua escala Hare, o método para reconhecer psicopatas mais usado hoje.
Trata-se de um questionário com perguntas sobre a vida do sujeito, feito para investigar se ele tem traços de psicopatia. Seja como for, não é fácil identificar um. Psicopatas não têm crises como doentes mentais: o transtorno é constante ao longo da vida. Outras funções cerebrais, como a capacidade de raciocínio, não são afetadas. Algumas características, no entanto, são evidentes.
Segredos e mentiras
Atributo número 1: mentir. Todo mundo mente, mas psicopatas fazem isso o tempo todo, com todo mundo. Inclusive com eles mesmos. São capazes de dizer “Já saltei de pára-quedas” e, logo depois, “Nunca andei de avião”, sem achar que existe uma grande contradição aí. Espertos, não se contentam só em dizer que são neurocirurgiões, por exemplo, sem nunca ter completado o colegial: usam e abusam de termos técnicos das profissões que fingem ter. Se o sujeito finge ser advogado, manda ver nos “data venias” da vida. Se diz que estudou filosofia, vai encher o vocabulário de expressões tipo “dialética kantiana” sem fazer idéia do que isso significa. Sim, eles são profissionais da lorota.
“Depois que descobri as mentiras que ele me contou, passei um tempo me perguntando como tinha sido tão burra para acreditar naquilo”, diz a professora carioca Ana*. Há 9 anos, ela conheceu um cara incrível. Ele dizia que, com apenas 27 anos, era diretor de uma grande companhia e que, por causa disso, viajava sempre para os EUA e para a Europa. Atencioso e encantador, Cláudio era o genro que toda sogra queria ter. “Em 5 meses, a gente estava quase(casando. Então a mãe dele revelou que era tudo mentira, que o filho era doente, enganava as pessoas desde criança e passava por um tratamento psiquiátrico.”
Ana largou Cláudio e foi tocar a vida. Mas nem sempre quem passa pelas mãos de um psicopata “pacífico” tem tempo para reorganizar as coisas. Que o digam as pessoas que cruzaram o caminho de Alessandro Marques Gonçalves. Formado em direito, ele resolveu fingir que era médico. E levou esse delírio às últimas conseqüências: forjou documentos e conseguiu trabalho em 3 grandes hospitais paulistas. Enganou pacientes, chefes e até a mulher, que espera um filho dele e não fazia idéia da fraude. Desmascarado em fevereiro de 2006, Alessandro aleijou pelo menos 23 pessoas e é suspeito da morte de 3.
“Ele usa termos técnicos e fala com toda a naturalidade. Realmente parece um médico”, diz o delegado André Ricardo Hauy, de Lins, que o interrogou. “Também acha que não está fazendo nada de errado e diz, friamente, que queria fazer o bem aos pacientes.” Quando foi preso, Alessandro não escondeu a cabeça como os presos geralmente fazem: deixou-se filmar à vontade.
“O diagnóstico de transtorno anti-social depende de um exame detalhado, mas dá para perceber características de um psicopata nesse falso médico. É que, além de mentir, ele mostra ausência de culpa”, afirma o psiquiatra Antônio de Pádua Serafim, do Hospital das Clínicas de São Paulo.
E esse é um atributo-chave da mente de um psicopata: cabeça fresca. Nada deixa esses indivíduos com peso na consciência. Fazer coisas erradas, todo mundo faz. Mas o que diferencia o psicopata do “todo mundo” é que um erro não vai fazer com que ele sofra. Sempre vai ter uma desculpa: “Um cara que matou 41 garotos no Maranhão, Francisco das Chagas, disse que as vítimas queriam morrer”, conta Antônio Serafim.
Justamente por achar que não fazem nada de errado, eles repetem seus erros. “Psicopatas reincidem 3 vezes mais que criminosos comuns”, afirma Hilda Morana, que traduziu e adaptou a escala Hare para o Brasil. “Tem mais: eles acham que são imunes a punições.” E isso vale em qualquer situação. Até na hora de jogar baralho.
Foi o que mostrou o psicólogo americano Joe Newman num experimento em 1987. No laboratório, havia 4 montes de cartas. Sem que os jogadores soubessem, um deles estava cheio de cartas premiadas. Ou seja: quem escolhesse aquele monte ganhava mais dinheiro e continuava no jogo. Aos poucos, porém, a quantidade de cartas boas rareava, até que, em vez de dar vantagem, escolher aquele monte passava a dar prejuízo. Pessoas comuns que participaram da pesquisa logo perceberam a mudança e deixaram de apostar nele. Psicopatas, porém, seguiram tentando obter a recompensa anterior. “Pessoas comuns mudam de estratégia quando não obtêm recompensa”, afirma o neurocientista James Blair, autor do livro The Psychopath – Emotion and the Brain (“O Psicopata – Emoção e o Cérebro”, sem edição brasileira). “Mas crianças e adultos com tendências psicopáticas continuam a ação mesmo sendo repetidamente punidos com a perda de pontos.”
Psicopatas não aprendem com punições. Não adianta dar palmadas neles.
Além disso, psicopata que se preze se orgulha de suas mancadas. Esse sujeito pode ser o marido que trai a mulher e se gaba para os amigos. Ou coisa pior. Veja o caso do promotor de eventos Michael Alig. Querido por todos, ele difundiu a cultura clubber em Nova York, organizando festas itinerantes. E em 1996 ele matou um amigo em casa. Quando o corpo começou a feder, retalhou-o e jogou os pedaços no rio Hudson. Dias depois, em um programa de TV, Alig simplesmente descreveu o assassinato, todo pimpão. Os jornalistas acharam que era só uma brincadeira besta, claro. Dias depois, a polícia achou o corpo do amigo de Alig no rio. Ele foi condenado a 20 anos de prisão – sem perder a pose.
Isso é lugar-comum entre os psicopatas. O próprio psiquiatra Antônio Serafim está acostumado com relatos grandiosos de carnificinas: “Quando você pergunta sobre a destreza com que cometeram os crimes, eles contam detalhes dos assassinatos, cheios de orgulho.”
Zumbis
Se você estivesse indo comprar cerveja perto de casa e se desse conta que esqueceu a carteira, o que faria? Em vez de voltar para buscar dinheiro, um psicopata da Califórnia preferiu catar um pedaço de pau, bater num homem e levar o dinheiro dele. Também tem o caso de uma mulher que deixou a filha de 5 anos ser estuprada pelo namorado. Perguntada por que deixou aquilo acontecer, ela disse: “Eu não queria mais transar, então deixei que ele fosse com a minha filha.”
Eis mais um traço psicopático. “Eles tratam as pessoas como coisas”, afirma o psiquiatra Sérgio Paulo Rigonatti, do Instituto de Psiquiatria do HC. Isso acontece porque eles simplesmente não assimilam emoções. Para entender isso melhor, vamos dar um passeio pelo inferno.
Corpos decapitados, crianças esquálidas com moscas nos olhos, torturas com eletrochoque, gemidos desesperados. Só de imaginar cenas assim, a reação de pessoas comuns é ter alterações fisiológicas como acelerar as batidas do coração, intensificar a atividade cerebral e enrijecer os músculos. Em 2001, o psiquiatra Antônio Serafim colocou presos de São Paulo para assistir a cenas assim. Cada um ouvia, por um fone, sons desagradáveis, como gritos de desespero. “Os criminosos comuns tiveram reações físicas de medo”, diz ele. “Já os identificados como psicopatas não apresentaram sequer variação de batimento cardíaco.”
Mais: uma série de estudos do Instituto de Neurociência Cognitiva, nos EUA, mostrou que psicopatas têm dificuldade em nomear expressões de tristeza, medo e reprovação em imagens de rostos humanos. “Outros 3 estudos ligaram psicopatia com a falta de nojo e problemas em reconhecer qualquer tipo de emoção na voz das pessoas”, afirma Blair.
É simples: assim como daltônicos não conseguem ver cores, psicopatas são incapazes de enxergar emoções. Não as enxergam nem as sentem, pelo menos não do mesmo jeito que os outros fazem. Em vez disso, eles só teriam o que os psiquiatras chamam de proto-emoções – sensações de prazer, euforia e dor menos intensas que o normal. “Isso impede os psicopatas de se colocar no lugar dos outros”, diz Hilda Morana.
Um dos pacientes entrevistados por Hare confirma: “Quando assaltei um banco, notei que uma caixa começou a tremer e a outra vomitou em cima do dinheiro, mas não consigo entender por quê”, disse. “Na verdade, não entendo o que as pessoas querem dizer com a palavra ‘medo’ ”.
No livro No Ventre da Besta – Cartas da Prisão, o escritor americano Jack Abbott descreve com honestidade o que acontece na sua cabeça de psicopata: “Existem emoções que eu só conheço de nome. Posso imaginar que as tenho, mas na verdade nunca as senti”.
É como se eles entendessem a letra de uma canção, mas não a música. Esse jeito asséptico de ver o mundo faz com que um psicopata consiga mentir sem ficar nervoso, sacanear os outros sem sentir culpa e, em casos extremos, retalhar um corpo com o mesmo sangue-frio de quem separa as asinhas do peito de um frango assado.
Para a neurologia, a coisa é mais objetiva: os “circuitos” do cérebro de um psicopata são fisicamente diferentes dos de uma pessoa normal. Uma descoberta importante foi feita pelo neuropsiquiatra Ricardo de Oliveira-Souza e pelo neurologista Jorge Moll Neto, pesquisador do Instituto Nacional de Distúrbios Neurológicos dos EUA. Em 2000, os dois identificaram, com imagens de ressonância magnética, as partes do cérebro ativadas quando as pessoas fazem julgamentos morais. Os participantes da pesquisa tiveram o cérebro mapeado enquanto decidiam se eram certas ou erradas frases como “podemos ignorar a lei quando necessário” ou “todos têm o direito de viver”, além de outras sem julgamento moral, como “pedras são feitas de água”. A maioria dos voluntários ativou uma área bem na testa, chamada Brodmann 10, ao responder às perguntas.
E aí vem o pulo-do-gato: a dupla repetiu o estudo em 2005 com pessoas identificadas como psicopatas, e descobriu que elas ativam menos essa parte do cérebro. Daí a incompetência que os sujeitos com transtorno anti-social têm para sentir o que é certo e o que é errado. Agora, resta saber se essas deficiências vêm escritas no DNA ou se surgem depois do nascimento.
Seja nas empresas, nas ruas, ou numa casinha de sapê, nossos amigos com transtorno anti-social são tecnicamente incapazes de frear seus impulsos sacanas. Mas, para os psiquiatras, essa limitação não significa que eles não devam ser responsabilizados pelo que fazem. “Psicopatas têm plena consciência de que seus atos não são corretos”, afirma Hare. “Apenas não dão muita importância para isso.” Se cometem crimes, então, devem ir para a cadeia como os outros criminosos.
Só que até depois de presos psicopatas causam mais dores de cabeça que a média dos criminosos. Na cadeia, tendem a se transformar em líderes e agir no comando de rebeliões, por exemplo. “Mas nunca aparecem. Eles sabem como manter suas fichas limpas e acabam saindo da prisão mais cedo”, diz Antônio de Pádua Serafim.
Por conta disso, a psiquiatra forense Hilda Morana foi a Brasília em 2004 tentar convencer deputados a criar prisões especiais para psicopatas. Conseguiu fazer a idéia virar um projeto de lei, que não foi aprovado. Nas prisões brasileiras, não há procedimento de diagnóstico de psicopatia para os presos que pedem redução da pena.