13.691 – Judas: traidor ou traído?


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Notamos que vez ou outra pesquisas inéditas colocam em xeque a validade de certas histórias que não só povoam a Bíblia, mas também fundamentam a crença de milhares de seguidores do cristianismo.
No ano de 2006, uma equipe de teólogos, linguistas e historiadores financiados pela Fundação Mecenas, da Suíça, realizaram a tradução do chamado “Evangelho de Judas”. Ao fim desse trabalho, publicaram um artigo dizendo que a clássica associação de Judas à traição simplesmente não correspondia aos fatos. Na verdade, ele seria um importante elemento na execução das ações que tornariam Jesus no salvador da humanidade.
Dentro dessa nova perspectiva, Judas não teria sido um executor consciente da trama que possibilitou a prisão e o julgamento de Jesus. Nessa nova versão, o apóstolo aparece como um servo dedicado que se aproxima de um influente escriba para arquitetar o retorno seguro de Cristo à Galileia. Contudo, no momento em que beija seu mestre, acaba descobrindo que fora enganado por seus aliados e, dessa forma, viabiliza o posterior calvário do Messias.
Em contraponto a essa narrativa que concede inocência a Judas, outro grupo de historiadores argumenta que essa tradução do evangelho está cercada por erros. Um dos equívocos fundamentais, que desvalidam a versão redentora, gira em torno da tradução da palavra “daimon”. Com base na literatura platônica, este termo significaria espírito. Contudo, na literatura cristã, esse mesmo termo significa “demônio”.
Por meio dessa desambiguação, um trecho bíblico em que Jesus Cristo chama a atenção de Judas Iscariotes poderia ser traduzido das seguintes formas: “Tu, décimo terceiro demônio (ou espírito), por que te esforças tanto?”. Sem dúvida, fica clara a diferença de julgamento sobre a figura do apóstolo por meio desta única palavra. Mas afinal, seria possível dar um julgamento final sobre este debate?
Para alguns dos historiadores revisionistas, não há como definir uma posição definitiva sobre o papel exercido por Judas na biografia messiânica. Na condição de humano, ele pode assumir posições diferentes que demonstram as incertezas de quem seguia um líder questionado por muitos. A título de comparação, podemos ver que essa mesma postura vacilante pode ser notada em Pedro – o apóstolo que negou a Cristo, mas também foi um dos mais importantes pregadores da fé cristã.

11.346 – Meteorito teria mudado a história do Cristianismo, defende pesquisador


A conversão de São Paulo, um dos episódios históricos da evolução do Cristianismo, poderia ter acontecido graças a um fenômeno astrológico. É o que afirma William Hartmann, cofundador do Instituto de Ciência Planetária de Tucson, no Arizona. De acordo com seu artigo polêmico e revolucionário, no qual ele compara fragmentos bíblicos com registros astronômicos, São Paulo teria sido afetado pela visão da explosão de um meteorito. Por esse motivo, em uma viagem a Damasco, o opositor ferrenho do Cristianismo teria se convertido: a luz brilhante no céu o cegou por três dias, durante os quais acreditou ter escutado a voz de Deus, sendo, em seguida, curado pelo sacerdote Ananias em nome de Jesus, através da imposição de mãos.

Para Hartmann, o meteorito que São Paulo viu cair seria parecido com o que atingiu Cheliabisnk em 2013, o que explica o enorme impacto com que teria caído, resultando na revelação religiosa. Sem desacreditar o relato bíblico, o pesquisador pretende mostrar como um meteorito pôde ter mudado a história, já que a conversão de São Paulo, retratada por alguns dos artistas mais importantes de todos os tempos, como Michelangelo e Caravaggio, constitui um marco para o Cristianismo.

11.243 – Religião – O Dogma da Ressureição


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Disse o apóstolo Paulo, o grande disseminador das palavras de Jesus, em suas cartas aos coríntios, anotadas no Novo Testamento: “Se Cristo não foi ressuscitado, nós não temos nada para anunciar e vocês não têm nada para crer. (…) Se Cristo não foi ressuscitado, a fé que vocês têm é uma ilusão. (…) Se Cristo não ressuscitou, os que morreram crendo nele estão perdidos. (…) Se a nossa esperança em Cristo só vale para esta vida, nós somos as pessoas mais infelizes deste mundo”. A ideia da ressurreição foi a faísca do cristianismo, que então deixou de ser uma seita do Império Romano para se transformar na maior religião do planeta.
Três dias haviam se passado da morte agonizante de Jesus na cruz do Gólgota, ponto final do calvário. Era uma madrugada de domingo, Páscoa judaica. Ainda estava escuro, e Maria Madalena foi ao sepulcro ungir o corpo de Jesus com especiarias. Ao se aproximar, viu o túmulo aberto e saiu correndo para avisar os discípulos. Eles entraram e encontraram o sepulcro vazio. Apenas a mortalha que envolvia o corpo de Cristo estava lá. Maria Madalena, dizem os textos sagrados do cristianismo, permanecera distante, chorando, quando dirigiu o olhar em direção ao túmulo e avistou dois anjos, que lhe perguntaram: “Mulher, por que você está chorando?”. Ela respondeu: “Levaram embora meu Senhor e não sei onde o puseram”. Maria Madalena então olhou para trás e viu uma figura humana em pé que ela pensou se tratar do jardineiro, à qual se dirigiu: “Se o tirou daqui, diga onde o colocou e eu irei buscá-lo”. A resposta veio curta: “Maria”. Nesse momento ela reconheceu Jesus e respondeu: “Mestre”. Descrita no Evangelho de São João, essa história, tão singela quanto misteriosa, resistiu e se fortaleceu com a passagem dos milênios.
Para os cristãos, a ressurreição tem mais valor do que os sermões e os milagres de Jesus em vida. Como disse São Paulo aos coríntios, sobre ela foi erguida toda a catedral de fé do cristianismo. Sem ela, toda a esperança humana se resume aos limites da vida terrena. Com ela, a vida terrena é uma vida vicária, uma vida no lugar da verdadeira vida eterna. “Quem crê em mim, ainda que morra, viverá, e quem vive e crê em mim nunca morrerá”, disse Jesus.
Do ponto de vista do proselitismo religioso, do convencimento dos fiéis, a ressurreição é vital pela transcendência. Ela é a garantia de uma graça concedida a toda a humanidade – a da vida eterna. “Sob o aspecto antropológico da fé, a doutrina da ressurreição é a resposta à vontade mais primitiva do ser humano, a da imortalidade”, diz monsenhor Antonio Luiz Catelan Ferreira, teólogo da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. O cristianismo conquistou o paganismo romano com a promessa da vida eterna, de mãos dadas com o Cristo ressurrecto. Nas palavras do filósofo marxista alemão Ernst Bloch (1885-1977): “Não foi a moralidade do Sermão da Montanha que permitiu ao cristianismo conquistar o paganismo romano, e sim a crença de que Jesus se erguera dos mortos. Numa era em que os senadores romanos competiam para ver quem tinha mais sangue de cordeiro na própria toga – acreditando que isso evitaria a morte -, o cristianismo competia pela vida eterna, e não pela moralidade”.

10.203 – Religião – O Neopentecostalismo


Ou Terceira Onda do Pentecostalismo é uma vertente do evangelicalismo, conglomerando igrejas do movimento de Renovação Cristã. Fora do Brasil, essas igrejas são chamadas também de carismáticas, aqui esse termo é reservado a um movimento da Igreja Católica. Essa vertente toma como base ideias do Pentecostalismo e Carismatismo americanos.
O termo neopentecostalismo foi aplicado pela primeira vez na década de 1970, para as igrejas que adotaram muitas das doutrinas e práticas das igrejas pentecostais e do movimento carismático, mas não se tornaram formalmente alinhados com algum deles. Na década de 1980, C. Peter Wagner cunhou o termo Terceira Onda, afim de distinguir o tipo de espiritualidade carismática que ele defendia desde o pentecostalismo. O fenômeno parece ter sido criado a partir de uma necessidade cultural particular dentro dos Estados Unidos. Muitos grupos neopentecostais foram influenciados pela Bênção de Toronto, em meados da década de 1990, sendo ela própria um fenômeno neopentecostal que surgiu a partir do Movimento Vineyard, no Canadá.
Os fiéis neopentecostais acreditam na palavra pós-bíblica dos dons do Espírito Santo, incluindo glossolalia (falar em línguas), cura e realização de profecias. Eles praticam a imposição de mãos buscando a atuação do Espírito Santo. No entanto, uma experiência específica do batismo com o Espírito Santo não pode ser requisito para experimentar tais dons. As igrejas também pregam ensinamentos que também são comuns em igrejas neopentecostais, como a batalha espiritual (o confronto espiritual diretamente contra os demônios e outras forças malignas), a realização de maldições hereditárias, possessão maligna de corpos (o domínio demoníaco contra as pessoas, o que acaba resultando em problemas de saúde ou a incapacidade de evoluir na vida profissional e sentimental). É inclusive o foco que as igrejas neopentecostais empregam a esses ensinos e dons que as levam a ser fortemente criticadas pelos demais movimentos protestantes. Segundo os críticos, o sucesso do movimento teria seu fundamento na pulverização teológica promovida por Mary Baker Eddy e, depois, por Essek William Kenyon ao misturar o gnosticismo das religiões metafísicas com o cristianismo pentecostal.
Existem aproximadamente 19.000 denominações ou grupos neopentecostais, com aproximadamente 295 milhões de seguidores, Os princípios e práticas neopentecostais são encontrados em muitas congregações independentes, sem denominação. No Brasil, as igrejas com maior representação no movimento neopentecostal são a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Internacional da Graça de Deus, a Igreja Renascer em Cristo, a Igreja Batista Nacional, a Igreja Fonte da Vida de Adoração, a Igreja Mundial do Poder de Deus, a Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra, o Ministério Nova Jerusalém, a Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo e o Ministério Internacional da Restauração. Fazem parte ou se aproximam do Protestantismo Apostólico, que aceitam apóstolos, bispos e pastores ou missionários presidentes que norteiam o rumo de suas igrejas no País e pelo mundo. Essas igrejas realizam a prática do evangelismo midiático massivo, a maior parte delas utilizam, ou até mesmo possuem, canais de TV, rádios, jornais, editoras ou literaturas próprias e portais ou sites, participando, inclusive, de atividades comerciais como a venda de TVs por assinatura ou produtos da ideologia religiosa que suportam a corrente neopentecostal.

9492 – Jesus Cristo – O que diz a História


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Polêmica
O pesquisador americano Joseph Atwill é categórico: Jesus não passa de um mito. O personagem, suas palavras e ações fazem parte de uma elaborada narrativa inventada por aristocratas romanos, com o objetivo de pacificar os judeus — um povo envolvido em sucessivas rebeliões contra o império. Atwill apresentou suas ideias em outubro, numa conferência realizada em Londres, na Inglaterra. “Os romanos perceberam que o melhor caminho para acabar com a atividade missionária fervorosa entre os judeus era criar um sistema de crenças que competisse com o deles”, afirmou.
Joseph Atwill não é um acadêmico da área — sua formação é em ciências da computação. Ele não publicou suas pesquisas em periódicos científicos e suas ideias estão longe de ser apoiadas por seus pares. No entanto, sua teoria recebeu atenção mundial, e foi debatida entre pesquisadores, jornalistas e religiosos. Seu poder está no fato de ela ser o capítulo mais novo de uma antiga discussão — com quase 2.000 anos de idade — sobre qual é a verdade por trás de Jesus, seus feitos, milagres e mensagem.
Os acadêmicos da área — historiadores das mais prestigiadas universidades do mundo — afirmam restar poucas dúvidas sobre a questão. “Volta e meia aparecem essas hipóteses sobre Jesus ser um mito. Mas, do ponto de vista metodológico, parece bastante claro que ele realmente existiu”, diz André Chevitarese, professor do Instituto de História da UFRJ e autor dos livros Jesus Histórico – Uma Brevíssima Introdução e Cristianismos: Questões e Debates Metodológicos.
Os historiadores deixam claro que o personagem estudado por eles não é o mesmo da religião. Eles estão em busca de informações sobre o homem chamado Jesus, que viveu na Galileia há 2.000 anos e em torno do qual foi criada a maior religião do mundo. “Os historiadores não buscam um ser divino, que é impossível de quantificar, medir e avaliar. O Jesus da história é estritamente humano.
Nessa busca pelo Jesus histórico, a perspectiva dos pesquisadores lembra a de São Tomé, o apóstolo que duvidou de Cristo e exigiu provas de sua ressurreição. Do mesmo modo, os historiadores não podem acreditar cegamente no que dizem as religiões e seus líderes, mas devem embasar tudo que afirmam em evidências. Essas provas não precisam ser, necessariamente, físicas, como a descoberta de uma ossada ou um túmulo. “Se esse critério fosse adotado, 95% dos personagens históricos não seriam reconhecidos”.
Os textos mais antigos sobre Jesus datam do século I, em sua maioria escritos por seguidores do cristianismo. A exceção é Flávio Josefo, um historiador judeu que tentou escrever toda a história do povo judaico, desde o Gênesis até sua época. Ele cita Jesus, João Batista e Tiago (irmão de Jesus) como exemplos de homens que lideraram movimentos messiânicos na região da Galileia.
No século seguinte, surgem mais textos de historiadores que citam Jesus e, principalmente, o movimento iniciado por seus seguidores. “Esses dados servem para mostrar que não estamos no campo da mitologia. São autores judeus e romanos, que nunca se tornaram cristãos, e permitem afirmar de modo muito seguro que Jesus é um personagem histórico.”
Segundo a maior parte dos historiadores, Jesus não nasceu em Belém, como afirmam algumas passagens bíblicas, mas em Nazaré — uma pequena aldeia montanhosa da Galileia, cuja população era camponesa e girava em torno de 500 indivíduos. “A aldeia não tinha nenhuma relevância política, não possuía construções públicas ou sinagogas. Os escritores dos Evangelhos mudaram o lugar por razões teológicas, para que o nascimento de Cristo confirmasse algumas profecias do Antigo Testamento.”
Jesus teria nascido na pequena vila em torno do ano 4 A.C., e teria passado a maior parte de sua vida na região, sem nunca pisar em uma cidade grande. A exceção acontece quando ele entra em Jerusalém — ato que teria como consequência sua crucificação pelas autoridades romanas. Sua morte deve ter acontecido por volta dos anos 35 e 36 D.C., pouco tempo depois de João Batista também ter sido morto pelos romanos, segundo a narrativa de Flávio Josefo.
tão importante quanto quem era Jesus é o que ele dizia — foi sua mensagem poderosa que repercutiu em todo o mundo e, séculos mais tarde, deu origem às diversas vertentes religiosas. “Ele era um camponês pobre que, diante das injustiças que o mundo apresentava, defendia a instauração do Reino de Deus — um reino de justiça e fartura, sem hierarquias sociais”.
A mensagem espiritual — e messiânica— de Jesus era voltada especialmente aos judeus de seu tempo. Ela, no entanto, adquiria caráter político ao afrontar o Império Romano e setores da elite judaica. Foi justamente a força dessa mensagem, e os rebanhos que ela poderia angariar, que levaram à sua crucificação e morte. Como aconteceu muitas vezes na história, no entanto, o assassinato de Jesus não conseguiu matar suas ideias.
Nessa época o cristianismo começava a se distanciar do judaísmo em que ele estava originalmente inserido, e a se aproximar do Império Romano — o que exigiu algumas mudanças em sua mensagem. “Ao serem escritas, suas ideias começam a ser diluídas, pois vários filtros são impostos. Primeiro, Jesus é um indivíduo de fala aramaica, mas quase tudo que conhecemos sobre ele está escrito em grego.
Com o passar dos séculos, isso abriu margem para que vários teólogos interpretassem as escrituras de maneiras variadas, criando as inúmeras vertentes do cristianismo que se encontram nos dias de hoje. Assim, a depender de quem faz a homilia, Jesus pode ser visto como um personagem sagrado ou humano, santo ou falho, foco de paz ou de guerra, de fundamentalismo ou de liberdade.
É por isso que o estudo do Jesus histórico é importante. “Ele pode ajudar a colocar um freio naqueles que querem transformar pressupostos teológicos em verdades históricas”.

9490 – Bíblia – Como era a família de Jesus?


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A família de Jesus é citada em diversos pontos das escrituras, de Maria e José até seus irmãos e primos. No Evangelho de Marcos, o primeiro a ser escrito, seus parentes são mostrados de forma bastante distanciada. Em certo momento, eles tratam Jesus como maníaco, afirmando que suas atividades como pregador só poderiam ser fruto da loucura. Jesus se afasta, e passa a defender uma nova percepção de família, formada por aqueles que estão juntos dele, fazendo a vontade de Deus.
Nos outros Evangelhos, no entanto, a família é mostrada como sendo muito mais próxima do movimento de Jesus — com destaque especial para a figura de Maria, presente em momentos-chave da história. Em Atos dos Apóstolos, o livro bíblico que narra o que acontece com os discípulos após a ressurreição, a família recebe ainda mais destaque: os parentes de Cristo estão entre os principais pregadores da nova religião cristã que passa a ser construída. Dessa vez, o destaque fica para Tiago, irmão de Jesus e um dos principais líderes do cristianismo primitivo.
“Do primeiro texto, em que a família vê Jesus como um louco, ao último, onde são eles que levam adiante o cristianismo, parece haver uma contradição — mas não necessariamente. Pode ser que, com o passar do tempo, a família tenha se reaproximado de Jesus, e tomado seu lugar na Igreja”.
A citação bíblica aos irmãos de Jesus é alvo de grandes discussões entre acadêmicos e teólogos, pois pode afrontar uma das principais crenças da igreja católica: a da virgindade de Maria. Ao longo dos séculos, os teólogos católicos esboçaram possíveis explicações para isso. Uma delas diz que eles seriam, na verdade, meios-irmãos de Jesus, filhos de um primeiro casamento de José. Outra explicação afirma que o termo grego utilizado no texto bíblico original pode significar tanto primo quanto irmão, e teria havido uma confusão nas traduções.
Essa segunda interpretação também pode estar correta. “A noção de família que se apresenta no contexto do século I mediterrâneo é muito diferente da atual. Ela é uma família extensiva, onde todos os parentes orbitam em torno de uma figura masculina mais velha. Nesse ambiente, o primo pode, sim, ser um irmão.”

9489 – João Batista existiu?


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Assim como Jesus, João Batista é um personagem histórico. Segundo diversas fontes da época, ele era um importante pregador judeu que viveu na Galileia durante o século I. O tipo de movimento messiânico comandado por João e Jesus era bastante comum na época. Esmagados pelo Império Romano, os camponeses judeus eram levados a esperar pela intervenção de um salvador que fosse mudar os rumos da história. O historiador judeu Flávio Josefo cita dezenas de candidatos a messias em seus textos.
Segundo as fontes históricas, o movimento liderado por João Batista chegou a ser, por certo tempo, mais importante que o de Jesus. “O número de páginas que Josefo dedica a Batista é muito maior do que o dedicado a Jesus. O historiador narra como Herodes reconhece sua força e manda matá-lo. Isso mostra que era Batista quem realmente desafiava Roma em sua época”.
Na verdade, segundo os historiadores, Jesus pode ter sido um discípulo de João Batista — teria sido com ele que aprendeu a batizar, exorcizar e a desafiar as autoridades romanas. Acontece que, em algum momento, discípulo e mestre romperam. “As ideias dos dois eram muito diferentes. Enquanto João acreditava em preparar o caminho para um personagem divino intervir na história, Jesus dizia que essa personagem já veio, e era ele mesmo”.
Os próprios Evangelhos podem servir para mostrar o quanto João Batista era importante em seu tempo histórico. Segundo os pesquisadores, a necessidade que os evangelistas demonstram ter de citá-lo em seus textos se deve ao fato de sua memória ainda continuar forte no século I. Assim, os autores precisam mostrar que esse personagem, que até então permanecia independente do cristianismo, poderia ser amarrado à sua própria teologia. “Os cristãos tiveram a necessidade de mostrar que João Batista enxergou em Jesus o Messias. Assim, eles conseguiram demonstrar ainda mais o valor de Jesus.”

9488 – Jesus sabia ler?


Jesus demonstra saber ler em dois momentos da Bíblia. O primeiro deles acontece no Evangelho de Lucas, quando ele entra em uma sinagoga na cidade de Nazaré e começa a ler textos escritos pelo profeta Isaías. O segundo é mostrado no Evangelho de João, onde Jesus aparece escrevendo. Logo depois de intervir no apedrejamento de uma mulher — usando o conhecido desafio de “quem nunca tiver pecado que atire a primeira pedra” — ele se abaixa e começa a escrever no chão.
O problema é que ambos os trechos apresentam problemas. Não existe nenhum indício de sinagoga em Nazaré e, mais importante, o verbo grego para ler é o mesmo para memorizar — Jesus poderia simplesmente ter decorado a passagem de Isaías. Ao mesmo tempo, o trecho tirado do Evangelho de João (capitulo 8, versículo 8) é bastante discutido entre os pesquisadores. Muitos deles vêm a passagem como uma alteração tardia feita à Bíblia, adicionada já no século V.
A verdade é que as estimativas dos historiadores mostram que entre 95% e 98% da população que vivia naquela região do mediterrâneo era analfabeta. Seria natural que Jesus, um camponês pobre que nasceu e nunca saiu daquele ambiente, estivesse dentro dessa estatística.
“Na verdade, o maior incômodo com o fato de Jesus ser analfabeto vem do mundo contemporâneo. Hoje, se assume que uma liderança — politica, religiosa ou econômica — precisa ter feito até faculdade, quanto mais saber ler. Mas essa não era uma demanda dos discípulos.”

9487 – Qual era a religião de Jesus?


“Jesus nasceu judeu, viveu judeu, e morreu judeu”, responde André Cheviterese. Foi só nos séculos seguintes à sua morte que a Igreja começou a se distanciar do judaísmo e a se aproximar do Império Romano. Nesse processo, a teologia cristã vai se tornando cada vez mais arredia aos judeus, resvalando até no antissemitismo — o que transparece nos Evangelhos, principalmente no de João.
“Acho que a base para se entender isso está na tensão que é criada entre a comunidade cristã joanina [que se pretendia seguidora do apóstolo João] e a religião judaica. A partir da década de 80 do século I, seu proselitismo se torna tão agressivo que eles são expulsos das sinagogas. A partir daí, se tornam muitos hostis”, diz o pesquisador.
Assim, no Evangelho de João (capítulo 8, versículo 44), Jesus se refere aos judeus como Filhos do Diabo, adoradores de um Deus homicida e mentiroso. Do mesmo modo, a narração deixa de mostrar Jesus sendo morto de forma sumária pelos romanos. Segundo os textos, ele é assassinado a pedido dos judeus — Pôncio Pilatos até lava as mãos.
“Essas passagens não deixaram de ser repercutidas desde então, e foram usadas, inclusive, para perseguir os judeus. Por sorte, a Igreja se desviou dessa visão nas últimas décadas”, afirma o historiador.

9486 – Jesus seria casado com Maria Madalena?


Maria Madalena é uma das figuras mais importantes e disputadas de todo o cristianismo. Ela costuma ser usada como a prova de que Jesus teria apóstolos e apóstolas — o que contraria a doutrina religiosa de só permitir padres do sexo masculino. Mais que isso, ela é uma personagem central dos Evangelhos, pois é a primeira a visitar o sepulcro de Jesus e perceber que seu corpo não estava lá — e a primeira a reconhecer o Cristo ressuscitado.
Do século I ao IV, houve uma grande disputa dentro do cristianismo para decidir se mulheres poderiam ou não assumir funções de proeminência nos ritos religiosos. “No ano 591, o papa Gregório Magno proferiu uma homilia onde juntava duas personagens diferentes citadas no Evangelho de Lucas. Ele afirma que uma mulher vista como pecadora (uma prostituta) e Maria Madalena eram a mesma pessoa. Desse modo, sugere que as mulheres são demoníacas”, afirma Chevitarese.
No século XIX, a Igreja finalmente voltou atrás: Maria Madalena deixa de ser prostituta e é promovida a santa. Mesmo assim, sua imagem como pecadora continua entranhada no imaginário cristão.
Quanto às teorias que defendem seu casamento com Jesus, elas têm origem em uma passagem do Evangelho de Felipe, um dos livros apócrifos, onde os dois personagens aparecem se beijando. “Analisando esse trecho com os olhos de hoje, alguns pesquisadores enxergaram um elemento erótico na cena. Mas no mesmo evangelho Jesus beija seus apóstolos homens. Isso não tinha nada de anormal. Usar isso para afirmar que Jesus tinha um caso com Maria Madalena passa longe de fazer história.”

9485 – Jesus foi traído por Judas?


Os pesquisadores costumam concordar que Jesus foi traído e entregue por um de seus discípulos para o exército romano. Mas o traidor é desconhecido. A figura de Judas — desde seu nome até seus trejeitos — parece ter sido criada sob medida para objetivos teológicos.
“Ele é fruto de uma teologia evidentemente antijudaica. Seu nome remete a Judá, a Judeia. Suas características também vêm das caricaturas que se fazem dos judeus: ele ama o dinheiro, é traidor e ladrão. Do século 2 em diante, isso vai, de novo, ser usado como ferramenta antissemita. Quando pensado em seus efeitos de longo prazo, isso é muito cruel. É só lembrar da malhação de Judas, por exemplo”.
As próprias narrativas da morte de Judas servem como exemplo de que o personagem é mais fruto da teologia do que de história. No Evangelho de Mateus, ele se enforca. No Ato dos Apóstolos, ele tropeça, rasga a barriga e morre. E nos textos de Papias, um autor cristão contemporâneo ao Evangelho de João, ele come até explodir.

9484 – Polêmica Bíblica – Jesus foi crucificado?


Ser pregado em uma cruz era a penalidade aplicada pelos romanos aos escravos que matavam seus senhores, aos escravos que se rebelavam e aos rebeldes políticos — categoria onde Jesus poderia ser facilmente incluído. O historiador Flávio Josefo, por exemplo, cita uma cena onde milhares de judeus foram crucificados após uma rebelião em Jerusalém.
Quanto à Via Crúcis e ao julgamento, eles dificilmente seriam realizados pelo governo romano naquelas circunstâncias. Jesus foi preso em Jerusalém, na sexta-feira que antecede a Páscoa. Acontece que nessa época do ano a cidade estava lotada de judeus de todos os cantos, desde o Mediterrâneo até o Oriente Médio, vindos para as festividades. Além disso, a Páscoa judaica não é uma festa apenas religiosa, mas também política — ela celebra a passagem dos hebreus da escravidão para a liberdade.
“Nesse ambiente explosivo, é claro que as autoridades romanas não iam prender uma liderança judaica, fazer um julgamento público e colocá-lo para desfilar de forma humilhante pela cidade, arrastando uma cruz. Isso seria uma provocação desnecessária, um tiro no pé”.
Pôncio Pilatos é um personagem histórico. Os pesquisadores sabem, a partir de escavações arqueológicas da década de 1960, que ele realmente foi um procurador romano radicado na região da Judeia. Mas não existe nenhum registro dos ritos seguidos pelo personagem na Bíblia. As autoridades romanas, por exemplo, nunca se ofereceram para soltar um prisioneiro judeu, a gosto do público. “Essas passagens foram colocadas para reforçar o caráter messiânico de Jesus. Elas são baseadas em profecias do Antigo Testamento, mas sua plausibilidade histórica é zero.”

9239 – Mega Monumentos – Cristo Redentor, a estátua da fé


Cristo de Corcovado e Bahia de Guanabara RJ Brasil

A estátua veio da França para o Brasil em pedaços e só a cabeça era composta de 50 peças. Depois de encaixada a estrutura metálica, todas as partes foram revestidas de pastilhas de pedra e sabão, o mesmo material que o Aleijadinho usou para criar seus profetas.

Um gigante de pedra
Com 38 metros de altura, o equivalente a um prédio de 13 andares, a estátua pesa 1145 toneladas, somando-se a armação de concreto.
A cada 10 anos em média, o Cristo Redentor passa por uma manutenção. Para facilitar, a estátua tem uma escadaria interna e alçapões.
Foi inaugurada em 1931 e é um dos mais importantes pontos turísticos do Brasil, com cerca de 1 milhão de visitantes por ano, 70% estrangeiros.
Quando o Rio de Janeiro completou 440 anos, ele foi tombado.
Nas vésperas da comemoração do aniversário de 100 anos da independência (1922), milhares de pessoas assinaram um abaixo-assinado, pedindo a construção da estátua.
Situa-se no topo do morro do Corcovado, a 709 metros acima do nível do mar. Foi inaugurado às 19h15min do dia 12 de outubro de 1931 dia de Nossa Senhora Aparecida, depois de cerca de cinco anos de obras. Um símbolo do cristianismo, o monumento tornou-se um dos ícones mais conhecidos internacionalmente do Brasil. Dos seus 38 metros, oito estão no pedestal e trinta na estátua, a qual é a segunda maior escultura de Cristo no mundo, atrás apenas da Estátua de Cristo Rei, na Polônia.
Em uma pesquisa realizada pela revista América Economia, no ano de 2011, o Cristo Redentor foi considerado por 23,5% dos entrevistados como o maior símbolo da América Latina. A pesquisa foi feita pela internet e reuniu a opinião de 1 734 executivos de todos os países da região.

Corcovado antes da estátua
Corcovado antes da estátua

8155 – Religião – Os Anos Ocultos de Jesus


Cristo

O Novo Testamento contém 27 livros, 7 956 versículos e 138 020 palavras. E uma única referência à juventude de Jesus. O Evangelho de Lucas nos conta que, aos 12 anos, ele viajou com os pais de Nazaré a Jerusalém para celebrar o Pessach, a Páscoa judaica. Quando José e Maria retornavam a Nazaré, perceberam que Jesus tinha ficado para trás. Procuraram o garoto durante 3 dias e decidiram voltar ao Templo, onde o encontraram discutindo religião com os sacerdotes. “E todos que o ouviam se admiravam com sua inteligência” (Lucas 2:42-49).
Jesus só volta a aparecer no relato bíblico já adulto, por volta dos 30 anos, ao ser batizado no rio Jordão por João Batista. É quando o conhecemos realmente. Da infância, as Escrituras falam sobre o nascimento em Belém, a fuga com os pais para o Egito – para escapar de uma sentença de morte impetrada por Herodes, rei dos judeus – e a volta para Nazaré. Da vida adulta, o ajuntamento dos apóstolos e a pregação na Galileia, além do julgamento e da morte em Jerusalém. Mas o que aconteceu com Jesus entre os 12 e os 30 anos? Qual foi sua formação, o que moldou seu pensamento nesses 18 “anos ocultos”? Afinal, o que ele fez antes de profetizar na Galileia?
A notícia para quem deseja reconstruir o Jesus histórico é que novas análises dos Evangelhos, documentos históricos e achados arqueológicos nos dão pistas sobre a sociedade da época. E dessa forma podemos chegar mais perto de conhecer o homem de Nazaré. E entender o que passava em sua cabeça.
Aos 13 anos, Jesus celebrou o bar mitzvah, ritual que marca a maioridade religiosa do judeu. E é bem provável que ele tenha seguido a profissão de José, seu pai. Carpinteiro? Talvez não. “Em Marcos, o mais antigo dos Evangelhos, Jesus é chamado de tekton, que no grego do século 1 designava um trabalhador do tipo pedreiro, não necessariamente carpinteiro”, diz John Dominique Crossan, um dos maiores especialistas sobre o tema. Para o historiador, os autores de Mateus e Lucas, que se basearam em Marcos, parecem ter ficado constrangidos com a baixa formação de Jesus. E deram um jeito de melhorar a coisa. Mateus (13:55) diz que o pai de Jesus é que era tekton. E Lucas omitiu todo o versículo.
As mesmas passagens de Marcos e Mateus informam que Jesus tinha 4 irmãos (Tiago, José, Simão e Judas), além de irmãs (não nomeadas). Mas dá para ir mais longe a partir dessa informação. “Se os nomes dos Evangelhos estão corretos, a família de Jesus era muito orgulhosa da tradição judaica. Seus 4 irmãos tinham nomes de fundadores da nação de Israel”, diz a historiadora Paula Fredriksen, da Universidade de Boston. “Seu próprio nome em aramaico, Yeshua, recordava o homem que teria sido o braço direito de Moisés e liderado os israelitas no êxodo do Egito, mais de mil anos antes.”
Assim, a família teria pelo menos 9 pessoas, mas nem por isso era pobre. Nazaré ficava a apenas 8 km de Séforis – um grande centro comercial onde o rei Herodes, o Grande, governava a serviço de Roma. Com a morte dele, em 4 a.C., militantes judeus se revoltaram contra a ordem política. Deu errado: o general romano Varus chegou da Síria para reprimir os rebeldes. E seu amigo Gaio completou o serviço, queimando a cidade. “Homens foram mortos, mulheres estupradas e crianças escravizadas”, diz Crossan. Mas a destruição de Séforis teve um lado positivo: Herodes Antipas, filho do “o Grande”, transformou o lugar num canteiro de obras. Isso trouxe uma certa abundância de empregos para a região. Um pequeno boom econômico. Então o ambiente ao redor da família de Jesus não era de privações. “A reconstrução da cidade deve ter gerado muito trabalho para José”, diz Paula Fredriksen.
Jesus nasceu no ano da destruição da cidade, 4 a.C. Ou perto disso. O Evangelho de Mateus diz que Jesus nasceu no tempo de Herodes, o Grande (4 a.C. ou antes). Lucas coloca o nascimento na época do primeiro censo que o Império Romano promoveu na Judeia. E isso aconteceu, segundo as fontes históricas romanas, em 6 a.C. A única certeza, enfim, é que “foi por aí” que Jesus nasceu. E que o ódio contra o que os romanos tinham feito em Séforis permeava o ambiente onde ele viveu. “Não é difícil imaginar que Jesus pensou muito sobre os romanos enquanto crescia”, diz Crossan.
Na década de 20 d.C., quando Jesus estava nos seus 20 e poucos anos, o sentimento antirromano cresceu mais ainda. Pôncio Pilatos assumiu o governo da Judéia cometendo o maior pecado que poderia: desdenhar da fé dos judeus no Deus único.
Mas, em vez de se unir contra o romano, os judeus se dividiram em seitas. Os saduceus, por exemplo, eram os mais conservadores. Os fariseus eram abertos a ideias novas, como a ressurreição – quando os justos se ergueriam das tumbas para compartilhar o triunfo final de Deus. Os essênios viviam como se o fim dos tempos já tivesse começado: moravam em comunidades isoladas, que faziam refeições em conjunto seguindo estritas leis de pureza. Já os zelotes defendiam a luta armada contra os romanos.
Em qual dessas seitas Jesus se engajou na juventude? Não há consenso entre os pesquisadores. Para alguns, porém, existem semelhanças entre a dos essênios e o movimento que Jesus fundaria – ambas as comunidades viviam sem bens privados, num regime de pobreza voluntária, e chamavam Deus de “pai”. Essa hipótese ganhou força com a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, em 1947. Eles trouxeram detalhes sobre uma comunidade asceta de Qumran, que viveu no século 1 e estaria associada aos essênios. O achado ar-queológico não provou a ligação entre Jesus e essa seita. Até porque os essênios eram sujeitos reclusos, ao passo que Jesus foi pregar entre as massas da Galileia e Jerusalém.
Jesus podia não ser essênio. Mas, para alguns estudiosos, seu mentor foi.

João, o Elias
Dois dos 4 Evangelhos começam a falar de João Batista antes de mencionar Jesus. É em Marcos e João. O homem que batizaria Cristo aparece descrito como um profeta que se vestia como um homem das cavernas (“em pelos de camelo”) e que vivia abaixo de qualquer linha de pobreza traçável (“comia gafanhotos e mel silvestre”).
Para a historiadora britânica Karen Armstrong, outra grande especialista no tema, isso indica que João pode ter sido um essênio. A vocação “de esquerda” que Jesus mostraria mais tarde, inclusive, pode vir da ligação do mestre João com a “sociedade alternativa” dos essênios. “É mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus”, ele diria mais tarde.
Os Evangelhos não falam de João como mestre de Jesus. Nada disso. Ele apenas reconhece Jesus como o Messias na primeira vez que o vê. Os textos sagrados também informam que ele usava o batismo como expediente para purificar seus seguidores, que deviam confessar seus pecados e fazer votos de uma vida honesta.
Então Jesus aparece pedindo para ser batizado. Na Bíblia, esse é o primeiro momento em que vemos o Messias após aqueles 18 anos de ausência.
Depois de purificado nas águas do rio Jordão, Jesus parte para sua vida de pregação, curas e milagres. A vida que todos conhecem.
Para quem entende esse relato à luz da fé, isso basta. Mas é pouco para quem tenta montar um panorama da vida de Jesus, um retrato puramente histórico de quem, afinal, foi o homem da Galileia que sairia da vida para entrar na Bíblia como o Deus encarnado. E uma possibilidade é que Jesus tenha sido um discípulo de João Batista. Discípulo e sucessor.
As evidências: tal como João Batista, Jesus via o mundo dividido entre forças do bem e do mal. E anunciava que Deus logo interviria para acabar com o sofrimento e inaugurar uma era de bondade. Em suma: tanto um como o outro eram o que os pesquisadores chamam de “profetas apocalípticos”. E se os Evangelhos jogam tanta luz sobre João Batista (Lucas fala inclusive sobre o nascimento do profeta, assim como faz com Jesus), a possibilidade de que a relação deles tenha sido mais profunda é real.
O grande momento de João Batista na Bíblia, porém, não é o batismo de Jesus. É a sua própria morte. Morte que abriria as portas para o nosso Yeshua, o Jesus da vida real, começar o que começou.
João Batista podia se vestir com pele de animal e se alimentar de gafanhotos. Mas tinha a influência de um grande líder político. Prova disso é que morreu por ordem direta de Antipas. O Herodes júnior tinha violado o 10º mandamento da lei judaica: “Não cobiçarás a mulher do próximo”. Não só estava cobiçando como estava de casamento marcado com a ex-mulher do irmão, Felipe. João condenou a atitude do rei publicamente. E acabou executado.
Mateus deixa claro como Jesus, então já com seus 12 discípulos e em plena pregação, recebeu a notícia: “Ouvindo isto, retirou-se dali para um lugar deserto, apartado; e, sabendo-o o povo, seguiu-o a pé desde as cidades”. Logo na sequência, o Cristo emenda o maior de seus milagres. Sentido com a fome da multidão que ia atrás dele, pegou 5 pães e dois peixes (tudo o que os apóstolos tinham) e foi dividindo. Passava os pedaços aos discípulos, e os discípulos à multidão. “E os que comeram foram quase 5 mil homens, além das mulheres e crianças” (Mateus 14:21). Horas depois, no meio da madrugada, outro milagre de primeiro escalão: Jesus apareceria para os apóstolos andando sobre as águas.
Esses episódios, claro, são parte da vida conhecida de Jesus (ou da mitologia cristã, em termos técnicos). Mas deixam claro: a morte de João foi importante a ponto de ter sido seguida de dois dos grandes episódios da saga de Cristo.
O filho do pedreiro assumiria o vácuo religioso deixado pelo profeta. Agora sim: Yeshua caminharia com as próprias pernas. E começaria a virar Jesus Cristo. “Ele não só assumiu o manto de João, mas alterou sua doutrina. A diferença interessante entre João Batista e Jesus Cristo é que Jesus ergueu o manto caído de Batista e continuou seu programa mudando radicalmente sua visão”, diz Crossan.
Ele continua: “João dizia que Deus estava chegando. Mas João foi executado e Deus não veio”. Ou seja: para o pesquisador, Jesus teria ficado tão chocado ante a não-intervenção divina que mudou sua visão sobre o que o Reino de Deus significava.
“João Batista havia imaginado uma intervenção unilateral de Deus. Jesus imaginou uma cooperação bilateral: as pessoas deveriam agir em combinação com Deus para que o novo reino chegasse”, diz o pesquisador. Ou seja: não adiantaria esperar de braços cruzados. O negócio era fazer o Reino dos Céus aqui e agora. Como? Primeiro, extinguindo a violência. Mas e se alguém me der um soco, senhor? “Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra” (Lucas 6:29). Depois, amando ao próximo como a ti mesmo, ajudando ao pior inimigo se for necessário, como fez o bom samaritano da parábola famosa… Em suma, a essência da doutrina cristã.
O nascimento também é uma incógnita completa. A começar pela data de nascimento: 25 de dezembro era a data em que os romanos celebravam sua festa de solstício de inverno, a noite mais longa do ano. Não porque gostassem de noites sem fim, mas porque ela marcava o começo do fim do inverno. Praticamente todos os povos comemoram esse acontecimento desde o início da civilização – nossas festas de fim de ano, a semana entre o Natal e o Ano-Novo são um reflexo disso. O dia em que Jesus nasceu não consta na Bíblia – foi uma imposição da Igreja 5 séculos depois, para coincidir o nascimento do Messias com a festa que já acontecia mesmo – com troca de presentes e tudo.
“Na verdade, não sabemos nada histórico sobre Jesus antes de sua vida pública, já que os dois primeiros capítulos de Mateus e Lucas [os que relatam o nascimento] são basicamente parábolas, não história”, diz Crossan. De acordo com Mateus, José soube num sonho que Maria daria à luz um menino concebido pelo Espírito Santo. Quando Jesus nasce, magos surgem do Oriente e seguem uma estrela que os conduz a Jerusalém. Lá, eles ficam sabendo que o Cristo nasceu em Belém. Seguindo a estrela, os magos chegam à cidade para adorar o menino e lhe regalam com ouro, incenso e mirra. Mas Herodes fica perturbado com o nascimento e manda soldados matarem todos os bebês de até 2 anos em Belém. Assim, José foge com a família para o Egito e depois vai morar em Nazaré, na Galileia, onde Jesus é criado.
No relato de Lucas, o anjo Gabriel vai à casa de Maria, em Nazaré, e lhe avisa que daria à luz um futuro rei. E que o “Filho de Deus” se chamaria Jesus. Maria era uma virgem prometida a José, e o anjo lhe explicou que o filho seria gerado pelo Espírito Santo. Lucas diz que naquela época, “quando Quirino era governador da Síria”, um decreto do imperador Augusto obrigou os súditos a se registrar no primeiro censo do Império. Todo mundo devia retornar à cidade de origem para se alistar. Como os ancestrais de José eram de Belém, ele foi com Maria grávida para lá. Jesus nasceu em Belém pouco depois, e foi envolvido em panos na manjedoura. Lá o menino recebeu a visita de pastores e foi circuncidado aos 8 dias, para depois passar a infância em Nazaré.
“Os problemas históricos em Lucas são ainda maiores”, diz Ehrman. “Temos registros do reinado de Augusto, e em nenhum deles há referência a um censo para o qual todos teriam de se registrar retornando ao lar dos ancestrais.”
Depois que o general Pompeu invadiu a Judeia, em 63 a.C., e fez dela província do Império Romano, os profetas passaram a dizer que um rei da linhagem de Davi inauguraria o “reino de Deus”. Chamavam essa figura de “o ungido” – já que Davi e outros reis israelitas haviam sido ungidos com óleo. Os Evangelhos foram escritos em grego, o inglês da época. E em grego “ungido” é christos. O Cristo tinha que nascer em Belém. Yeshua provavelmente era de Nazaré mesmo.
Os Evangelhos, por sinal, são obra de autores desconhecidos. É apenas uma convenção dizer que foram escritos por Marcos (secretário do apóstolo Pedro), Mateus (o coletor de impostos), João (o “discípulo amado”) e Lucas (o companheiro de viagem de Paulo). Além disso, os escritores não foram testemunhas oculares.
O autor de Marcos escreveu por volta do ano 70. Mateus e Lucas, de 80. E João, no final dos 90″, diz Karen Armstrong. E claro: “Eram cristãos. Eles não estavam imunes a distorcer as histórias à luz de suas crenças”, diz Ehrman. Afinal, “evangelho” deriva da palavra grega euangélion, que significa “boas novas”. O objetivo dos autores não era escrever a biografia de Jesus, e sim propagar a nova fé. Levando isso em conta, chegamos a outra polêmica: os anos considerados como os mais conhecidos da vida de Jesus também são cheios de episódios misteriosos.
Jerusalém era o pivô do fermento espiritual judaico, e milhares de judeus iam para lá na Páscoa. Os Evangelhos nos dizem que Jesus causou um tumulto no local, destruindo as banquinhas de câmbio (que trocavam moedas estrangeiras dos romeiros por dinheiro local cobrando uma comissão), já que seria uma ofensa praticar o comércio em pleno Templo de Jerusalém, o lugar mais sagrado da Terra para os judeus. Por perturbar a ordem pública, ele foi condenado à cruz. Parece historicamente sólido, mas o episódio central do Novo Testamento também é fonte de reinterpretações.
No julgamento, por exemplo, a multidão teria pedido que Barrabás, um assassino, fosse solto em vez de Jesus – já que era “costume” da Páscoa. Esse costume, porém, não é mencionado em nenhum lugar, exceto nos Evangelhos. Além disso, Jesus pode não ter sido exatamente crucificado, mas “arvorificado”. É a teoria (controversa, é verdade) do arqueólogo Joe Zias, da Universidade Hebraica de Jerusalém. Suas pesquisas indicam que as vítimas dos romanos eram mais comumente crucificadas em árvores, pregando uma tábua de madeira no tronco para prender os braços do condenado. Seja como for, não há por que duvidar de que ele tenha sido executado. Roma usava e abusava do expediente para tentar manter o controle das regiões que conquistava.
Para esses judeus cristãos, Jesus logo retornaria para inaugurar o novo reino. O líder do grupo era Tiago, irmão de Jesus, que tinha boas relações com fariseus e essênios. E o movimento se expandiu. Quando Tiago morreu, em 62, Jerusalém vivia o auge da crise política. Em 66, romanos perseguiram os judeus com medo de uma insurgência. Os zelotes se rebelaram e conseguiram manter as tropas do Império afastadas por 4 anos. Com medo de que a rebelião judaica se espalhasse, Roma esmagou os revoltosos. Em 70, o imperador Vespasiano sitiou Jerusalém, arrasou o Templo e deixou milhares de mortos.
Para os pesquisadores, então, os textos sagrados refletem a realidade da Judeia do final do século 1 – e não a do início, a que Jesus viveu de fato. Por exemplo: Barrabás personificaria os sicários, judeus que saíam armados de punhais para matar romanos na calada da noite, como uma forma de vingança pela destruição do Templo. E que por isso mesmo eram assassinos amados pela população.
Quer dizer: Barrabás seria um personagem típico da década de 70 d.C., inserido no episódio da morte de Jesus, fato que aconteceu na década de 30 d.C, num momento em que o ódio aos romanos e o louvor a quem se dispusesse a matá-los não eram tão violentos.
A rixa com os fariseus tem lógica, já que eram competidores diretos dos judeus cristãos. “Num extremo do judaísmo estavam os saduceus, a ala mais conservadora. No outro, os essênios, a mais radical. Já os fariseus e os judeus cristãos estavam no meio. Eles lutavam pela mesma coisa: a liderança do povo, que estava entre as duas pontas”.
Não é surpresa, aliás, que os livros do Novo Testamento contenham tantas contradições entre si. “Quando os editores finais do Novo Testamento juntaram esses textos, no início da Idade Média, não se incomodaram com as discrepâncias. Jesus havia se tornado um fenômeno grande demais nas mentes dos cristãos para ser atado a uma única definição”, diz Armstrong. Os Evangelhos atribuídos a Marcos, Lucas, Mateus e João seriam finalmente selecionados para o cânon da Igreja. Dezenas de outros evangelhos ficaram de fora.

Só no século 2, quase 100 anos após a morte de Jesus, começam a aparecer relatos sobre ele no centro do Império. Um deles é uma carta do político romano Plínio ao imperador Trajano. Plínio cita pessoas conhecidas como “cristãs” que veneravam “Cristo como Deus”. Outra fonte é o historiador romano Tácito, que menciona os “cristãos (…), conhecidos assim por causa de Cristo (…), executado pelo procurador Pôncio Pilatos”. Suetônio, que escreveu pouco depois de Tácito, informa sobre uma perseguição de cristãos, “gente que havia abraçado uma nova e perniciosa superstição”. Uma “superstição” cuja mensagem convenceria cada vez mais gente, a ponto de, no século 4, o imperador romano em pessoa (Constantino, no caso) converter-se a ela. E o resto é história. Uma história que chega ao seu segundo milênio. Com 2 bilhões de seguidores.

Resumo
Antes dos 30, Jesus provavelmente teve a mesma formação religiosa dos judeus de sua época. Ou seja: seguia outro Jesus. Outro profeta.
16 anos
O jovem Yeshua (Jesus, em aramaico) tinha 4 irmãos homens e pelo menos duas irmãs mulheres. E cresceu na cidade onde nasceu: Nazaré.
20 anos
Ele pode não ter sido carpinteiro, mas pedreiro. O engano de 2 mil anos seria culpa de um erro de tradução.
28 anos
Na Bíblia, o profeta João apenas batiza Cristo. O mais provável, porém, é que ele tenha sido o grande mentor do jovem Yeshua.
33 anos
Os romanos crucificavam em massa. E também usavam árvores como base. Esse pode ter sido o cenário da morte de Jesus.

7855 – Cristianismo – Veja quem é quem


Cristo

O FUNDADOR
Jesus:
Filho de Deus, concebido por Maria, nasceu por volta de 5 a.C. e pregou exclusivamente na Palestina. Morreu na cruz em torno de 30 d.C.
A LINHA DE FRENTE
Pedro:
Era o líder dos 12 apóstolos. Pedro, que negou Jesus por três vezes, foi o primeiro papa da Igreja Católica. Dois livros do Novo Testamento (Primeira e Segunda Epístola de São Pedro) são creditados a ele. Segundo a tradição cristã, foi crucificado e morto por volta de 64 d.C. em Roma
Os apóstolos:
Além de Pedro, o grupo dos 12 apóstolos que conviveram com Jesus era formado pelos evangelistas João e Mateus, por André, irmão de Pedro, Bartolomeu, Filipe, Tomé, Tiago Maior, irmão mais velho de João, Simão, Tiago Menor e seu irmão Judas Tadeu e Judas Iscariotes. Depois da traição de Iscariotes, Matias, que havia convivido com Jesus, tomou seu lugar e passou a ser considerado do time dos 12 apóstolos
Tiago:
Identificado na Bíblia como o irmão de Jesus, é o principal líder da comunidade cristã de Jerusalém. Escreveu uma das cartas do Novo Testamento (Epístola de São Tiago). Segundo os historiadores, foi apedrejado até a morte pelos judeus por volta do ano 62 d.C.
OS EVANGELISTAS
Mateus:
Apóstolo de Cristo, é considerado o autor do primeiro dos quatro evangelhos, escrito por volta de 80 d.C., 50 anos depois da morte de Jesus. Antes de sua conversão ao cristianismo, Mateus exercia a função de coletor de impostos
João:
O mais jovem dos apóstolos escreveu o quarto evangelho. Era considerado o discípulo amado de Jesus e foi o único dos 12 apóstolos que não o abandonou na hora de sua morte. No Novo Testamento, é autor também de três epístolas e do Apocalipse
Marcos:
Também chamado de João Marcos, foi autor do segundo evangelho, escrito em Roma pouco antes do ano 60 da Era Cristã. Ele não chegou a conhecer pessoalmente Cristo e, segundo estudiosos, escreveu o evangelho a partir de informações de Pedro
Lucas:
Autor do terceiro evangelho e dos Atos dos Apóstolos, não conviveu com Jesus. Nasceu pagão e pouco se sabe sobre sua vida pessoal e conversão ao cristianismo. Muito ligado a Paulo, é identificado por este como médico
O MISSIONÁRIO
Paulo:
Um dos mais influentes personagens dos primeiros anos do cristianismo, não chegou a conhecer Jesus. Nasceu em torno de 6 d.C. e converteu-se ao cristianismo quando tinha cerca de 28 anos. Viajou por quase todo o Império Romano disseminando a palavra de Cristo e morreu decapitado por volta de 67 d.C., em Roma
GRUPO DAS MULHERES
Sabe-se muito pouco sobre o que elas fizeram, mas os estudiosos concordam que Maria Madalena, Maria de Cleófas, Marta e Joana, entre outras, tiveram um papel importante na origem do cristianismo. Nesse time, cabe destacar o papel de Maria Madalena, que é citada nos evangelhos nas passagens da crucificação e da ressurreição de Jesus

Paulo, no tempo e no espaço
O apóstolo dos gentios fez quatro viagens missionárias: conheça o percurso de cada uma delas
Tarso:
Terra natal de Paulo, era um dos mais importantes núcleos do Império Romano na Ásia. Ficava na fronteira do Ocidente e do Oriente e tinha um ar cosmopolita e multicultural
Jerusalém:
Principal centro do cristianismo, foi onde Paulo recebeu sua educação religiosa, na escola de Gamaliel. A cidade também foi sede do Concílio Apostólico (49), que liberou os neocristãos advindos do paganismo da circuncisão
Damasco:
Cidade na Síria para onde Paulo se dirigia quando teve uma visão de Jesus e converteu-se como um de seus mais ardorosos discípulos
Antióquia da Síria:
Depois de Jerusalém, foi aqui que surgiu a mais importante comunidade cristã da Antiguidade. A igreja de Antióquia era formada principalmente por pagãos convertidos, ao contrário de Jerusalém, composta quase exclusivamente por cristãos-judeus
Cesaréia:
Paulo permaneceu encarcerado nessa cidade durante dois anos, entre 58 e 60, depois que foi preso na praça do Templo, em Jerusalém. Em seguida, foi levado para Roma
Chipre:
Primeira parada de Paulo em sua viagem missionária inaugural, em 46. Era a terra natal de Barnabé, aparentemente o líder da jornada
Éfeso:
O apóstolo passou mais de dois anos em Éfeso, grande centro cultural e comercial da Ásia. Foi uma estadia mais longa do que o habitual. Provavelmente ele esteve preso por algum tempo na cidade
Filipos:
Primeira grande cidade do continente europeu visitada por Paulo, em sua segunda viagem missionária, que durou de 49 a 52. Aqui nasce a primeira comunidade cristã da Europa
Tessalônica:
Principal localidade da Macedônia, tinha uma população formada por gregos, romanos, judeus e orientais. Paulo fundou uma importante igreja no local
Atenas:
Capital cultural do mundo grego, foi visitada por Paulo durante sua segunda jornada de peregrinação. Sua pregação na cidade não foi bem recebida
Corinto:
Paulo viveu por 18 meses na cidade (do inverno de 50 ao verão de 52), que abrigava uma população de 500 mil habitantes. Foi aqui que ele escreveu a Primeira Epístola aos Tessalonicenses, considerada o mais antigo livro do Novo Testamento
Roma:
Paulo chegou preso a Roma em 60. Ficou na cidade cerca de dois anos, em prisão domiciliar. Depois de solto, deve ter ido à Espanha. Retornou à capital do império em 67, quando foi novamente preso e decapitado
Ano a ano, a vida dos apóstolo
Cerca de 5 ou 6 d.C.
Nasce em Tarso, importante cidade da Ásia Menor
20
Muda para Jerusalém para estudar na escola do rabino Gamaliel
34
Converte-se ao cristianismo
37
Faz suas primeiras pregações em Damasco. Volta a Jerusalém como cristão, mas, perseguido pelos judeus, foge para Tarso
37 a 45
Permanece em Tarso
45
Visita, a convite de Barnabé, a igreja da Antióquia, a segunda mais importante para os cristãos depois da de Jerusalém
46 a 48
Faz sua primeira viagem apostólica em companhia de Barnabé e Marcos
49
Participa do Concílio Apostólico de Jerusalém
49 a 52
Faz a segunda viagem apostólica, agora com Timóteo e Lucas
53 a 57
Faz a terceira viagem apostólica. Permanece quase três anos em Éfeso
57
É preso pelos romanos em Jerusalém
60
É enviado como prisioneiro a Roma
63
É solto por falta de provas. Parte em uma missão infrutífera à Espanha
Cerca de 67
Retorna a Roma e é preso mais uma vez. É executado por degolamento

Pregação controversa
As supostas contradições entre os ensinamentos de Cristo e de Paulo
Sobre A obediência ao Estado
O que Cristo teria dito: “Cuidarei e protegerei o fraco e aqueles que são oprimidos e todas as criaturas que sofrem injustiça.” Evangelho dos 12 Santos, Ensinamento 46:18*
O que Paulo disse: “Cada um se submeta às autoridades constituídas, pois não há autoridade que não venha de Deus, e as que existem foram estabelecidas por Ele.” Epístola aos Romanos, 13:1-3
Sobre a escravidão
O que Cristo teria dito: “Protegereis o fraco (…) Deus mandou-me ajudar os quebrantados, para proclamar a liberdade dos cativos.” Evangelho dos 12 Santos, Ensinamento 13:2
O que Paulo disse: “Servos, odedecei, com temor e tremor, em simplicidade de coração, a vossos senhores nesta vida, como a Cristo; servindo-os, não quando vigiados, para agradar a homens, mas como servos de Cristo, que põem a alma em atender à vontade de Deus.” Epístola aos Efésios, 6:5-6
Sobre a submissão feminina
O que Cristo teria dito: “Em Deus, o masculino não é sem o feminino, nem o feminino sem o masculino (…) Deus criou a espécie humana na divina imagem macho e fêmea (…) Assim, devem os nomes do Pai e da Mãe ser igualmente reverenciados.” Evangelho dos 12 Santos, Ensinamento 52:10
O que Paulo disse: “Sede submissos uns aos outros no temor de Cristo. As mulheres o sejam a seus maridos, como ao Senhor, porque o homem é cabeça da mulher, como Cristo é cabeça da Igreja e o salvador do Corpo.” Epístola aos Efésios, 5:21-23
Sobre o doutrina da salvação
O que Cristo teria dito: “Mas eis que um maior que Moisés está aqui, e Ele vos dará a mais alta Lei, ainda a perfeita Lei, e esta Lei obedecerás. (…) Aqueles que acreditam e obedecem salvarão suas almas, e aqueles que não obedecem as perderão. Pois digo a vós, a não ser que vossa justiça sobrepuje a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino do Céu.” Evangelho dos 12 Santos, Ensinamento 25:10
O que Paulo disse: “Se com tua boca confessares Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. ” Epístola aos Romanos, 10:9
* O Evangelho dos 12 Santos é um texto apócrifo do início do cristianismo, supostamente escrito pelos 12 apóstolos. Ele não é reconhecido pela Igreja.

7854 – Religião – O Homem que inventou Cristo


Apostolo Paulo

O mundo cristão não seria o mesmo sem a mensagem que São Paulo transmitiu ao Império Romano. Para conquistar fiéis, ele fez concessões que desagradaram aos discípulos de Jesus – e ainda despertam acirradas discussões entre pensadores e religiosos. Afinal, Paulo espalhou ou deturpou a palavra de Cristo?
Estamos no ano 34 da era cristã. Passaram-se poucos anos desde a crucificação de Jesus. Sua mensagem espalhou-se rapidamente por toda a Palestina e seus discípulos eram implacavelmente perseguidos, principalmente pelos judeus. Os seguidores de Jesus são acusados de heresia e traição à Lei de Moisés. Em Jerusalém, um jovem judeu chamado Saulo faz verdadeiras atrocidades com os cristãos. Persegue-os furiosamente, invade suas casas e os manda para prisão. Informado de que, a cada dia, cresce a comunidade cristã em Damasco, na Síria, pede e obtém do Sinédrio, o Supremo Tribunal da comunidade judaica de Jerusalém, cartas de recomendação aos rabinos daquela cidade, autorizando-os a caçar os hereges cristãos. Acompanhado de alguns homens, percorre a cavalo os cerca de 200 quilômetros até Damasco. Depois de sete dias de viagem, sob um sol escaldante, consegue finalmente avistar as muralhas da cidade.
Mas, de repente, uma forte luz vinda do céu incide sobre ele e assusta seu cavalo, que o joga no chão. Naquele instante, o jovem judeu ouve uma voz que diz: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”
Atônito, ele indaga: “Quem és, Senhor?” A voz responde: “Jesus, a quem tu persegues. Mas levanta-te, entra na cidade e te dirão o que deves fazer”.
O séquito de Saulo permanece mudo de espanto, sem entender de onde vem aquela voz. Saulo, por sua vez, ergue-se do chão, mas não consegue enxergar nada. Em Damasco, permanece três dias e três noites em jejum, refletindo sobre o estranho acontecimento, até ser visitado por Ananias, um discípulo de Cristo, que lhe diz: “Saulo, meu irmão, o Senhor me enviou. O mesmo que te apareceu no caminho por onde vinhas. É para que recuperes a vista e fiques repleto do Espírito Santo”. Nesse exato momento, duas escamas caem dos olhos de Saulo, que volta a ver. Em seguida, ele é batizado. Convertido, Saulo de Tarso tornou-se aquele que talvez tenha sido o mais importante difusor da palavra de Jesus: São Paulo.
O episódio acima, narrado em detalhes no livro Atos dos Apóstolos, do Novo Testamento, teria marcado radicalmente a vida de Paulo. Não é possível provar que ele tenha de fato acontecido. Os textos bíblicos são as únicas fontes disponíveis para se reconstituir a história do santo – acreditar neles é uma questão de fé. Tenha ocorrido de forma tão espetacular ou não, a conversão de Paulo mudou para sempre os rumos da religião cristã. Para muitos teólogos, Paulo foi um personagem fundamental nos primeiros anos do cristianismo. Seu trabalho de evangelização foi, em grande parte, responsável pelo caráter universal da doutrina cristã e sua mensagem, expressa em cartas enviadas às comunidades que fundava, ainda hoje é considerada o alicerce da jurisprudência, da moral e da filosofia modernas do Ocidente. Enquanto a maioria dos apóstolos que conviveram com Jesus restringiram sua pregação à Palestina, Paulo levou a palavra de Cristo para lugares distantes, como a Grécia e Roma.
Sua importância na construção da Igreja primitiva é tão grande que muitos estudiosos atribuem a ele o título de pai do cristianismo.
O termo apóstolo, no sentido de evangelizador, é freqüentemente usado para se referir a São Paulo. Não há evidências históricas, entretanto, de que ele tenha conhecido Jesus Cristo.
A influência de Paulo é indiscutível. Mas, para uma corrente de historiadores e teólogos, ele deturpou os ensinamentos de Jesus Cristo – a ponto de a mensagem cristã que sobreviveu ao longo dos séculos ter origem não em Cristo, mas em Paulo. Esses pensadores julgam ser mais correto dizer que o que existe hoje é um “paulinismo”, não um cristianismo.
“As cartas de São Paulo são uma fraude nos ensinamentos de Cristo. São comentários pessoais à parte da experiência pessoal de Cristo”, afirmou o líder pacifista indiano Mahatma Ghandi, em 1928. Opinião semelhante tem o prêmio Nobel da Paz de 1952, o alemão Albert Schweitzer, que declarou: “Paulo nos mostra com que completa indiferença a vida terrena de Jesus foi tomada”.
As principais críticas da corrente antipaulina concentram-se em pontos polêmicos das cartas do apóstolo. Nelas, entre outras coisas, Paulo defende a obediência dos cristãos ao opressivo Império Romano, bem como o pagamento de impostos, faz apologia da escravidão, legitima a submissão feminina e esboça uma doutrina da salvação distinta daquela que, segundo teólogos antipaulinos, teria sido defendida por Jesus.
Paulo: Judeu, grego e romano
Para entender melhor o papel de São Paulo na origem e construção do cristianismo é preciso voltar no tempo e acompanhar de perto sua vida. O principal relato sobre ele está presente nos Atos dos Apóstolos, livro escrito pelo evangelista Lucas, que foi também dos maiores discípulos de Paulo. Seus relatos, no entanto, não são considerados um retrato fiel dos acontecimentos. “Os Atos devem ter sido escritos cerca de 15 a 20 anos após a morte de Paulo, quando ele já poderia estar caindo no esquecimento. Lucas, então, expressa uma visão romanceada do apóstolo, transformando-o em um herói ou, mais do que isso, em um modelo de discípulo”, afirma José Bortolini, padre da Congregação Pia Sociedade de São Paulo, mestre em exegese bíblica e autor do livro Introdução a Paulo e suas Cartas. Outra fonte de informação sobre o apóstolo são as cartas (ou epístolas) escritas por ele para as comunidades cristãs que tinha fundado.
Com base nessas duas fontes, sabemos que Paulo era um judeu detentor de cidadania romana, criado em um ambiente culturalmente grego.
Ele nasceu em Tarso, na Ásia Menor, onde atualmente está a Turquia. Era uma cidade grande, com mais de 200 mil habitantes, por onde passava uma estrada que ligava a Europa à Ásia. Situada na província romana da Cilícia, a Tarso de então era predominantemente grega – um dos mais efervescentes centros de cultura do mundo helênico, chegando a rivalizar com Atenas. Mas também era cosmopolita. Abrigava um porto fluvial movimentado e se impunha como um importante pólo comercial. Suas ruas estreitas viviam apinhadas de gente e suas casas abrigavam povos de várias regiões: egípcios, bretões, gauleses, núbios e sírios – além dos judeus (como a família de Paulo), que na época já haviam se assentado em várias cidades do império.
A cidadania romana, citada nos escritos de Lucas, é um ponto controverso da biografia de Paulo. Tê-la garantia alguns privilégios, como o direito de participar das assembléias que decidiam questões sobre a vida e a organização da cidade e a isenção do pagamento de alguns impostos. Os cidadãos romanos também não podiam ser crucificados, caso fossem condenados à morte. Segundo Lucas, Paulo herdara a cidadania do pai ou do avô, que a teriam obtido por mérito ou comprado por uma volumosa quantia. Mas o apóstolo nunca se declarou romano em suas cartas.
O ano exato do nascimento de Paulo, bem como a data dos principais acontecimentos de sua vida, são, ainda hoje, motivo de controvérsia. Muitos historiadores supõem que ele tenha nascido por volta do ano 5 da era cristã. Era, portanto, alguns anos mais novo do que Jesus – cujo nascimento, segundo descobertas históricas recentes, é datado entre 6 e 4 a.C. Paulo foi educado na casa de seus pais, na sinagoga e na escola ligada a ela. Aos 15 anos, deixou Tarso e mudou-se para Jerusalém, onde matriculou-se na escola de Gamaliel, um dos sábios mais respeitados do mundo judaico. Paulo teve uma formação acadêmica de primeira – nos parâmetros atuais, algo equivalente a um doutorado em Harvard.
Nas tempos de estudante, Paulo presenciou uma situação que estaria na origem de sua “cristofobia”. Um dos alunos mais brilhantes era um jovem chamado Estêvão, um nazareno – nome dado aos que seguiam os ensinamentos de Cristo. Em uma discussão, Estêvão foi fiel a sua fé e declarou que Jesus era o messias: tal afirmação provocou a ira dos colegas, inclusive de Paulo. Pela blasfêmia, Estêvão foi levado diante do Sinédrio e condenado à morte por apedrejamento. Conforme o costume da época, as pessoas que iam apedrejar o condenado deveriam tirar suas próprias vestes e colocá-las aos pés de uma testemunha. No martírio de Estevão, a testemunha era Paulo.
A partir desse episódio, Paulo, que já era um intransigente defensor da lei e dos costumes judaicos, viu nos seguidores de Cristo uma ameaça real à sua própria religião. Foi então que passou a cultivar um ódio crescente pelos nazarenos e tornou-se um implacável perseguidor dos membros dessa seita. Depois de muito aterrorizar os cristãos de Jerusalém, decidiu agir na Síria. Foi quando aconteceu sua conversão no caminho de Damasco.
Paulo tinha cerca de 28 anos quando ocorreu seu encontro místico com Jesus. Depois de ter se tornado um fervoroso discípulo do Nazareno, viveu algum tempo na comunidade cristã damasquina, até ser expulso pelos judeus. Refugiou-se por cerca de dois anos na Arábia – território dominado pela tribo dos nabateus –, que se estendia do mar Vermelho até Damasco, margeando a Palestina pelo leste. Nesse período, estudou e refletiu sobre os ensinamentos de Cristo. Por volta do ano 37, retornou a Damasco, onde fez suas primeiras pregações. Mais uma vez, provocou a fúria da comunidade judaica e teve de deixar a cidade numa fuga cinematográfica. Como os portões da cidade estavam vigiados, ele escondeu-se num cesto que foi descido pelas muralhas. Era noite e Paulo andou por cinco horas até sentir-se a salvo. Após seis dias de caminhada, chegou a Jerusalém. Havia três anos que ele tinha deixado a cidade.
Os cristãos de Jerusalém o receberam com desconfiança. Afinal de contas, ainda estavam vivas na memória as atrocidades cometidas por Paulo. Coube a Barnabé, um ex-colega da escola de Gamaliel convertido ao cristianismo, apresentá-lo aos apóstolos. Foi nessa ocasião que aconteceu o primeiro encontro com Pedro, um dos discípulos mais próximos de Jesus. Durante 15 dias, eles permaneceram juntos. Mas não tardou para o Sinédrio saber que Paulo, agora cristianizado, havia voltado. Diante do perigo que corria em Jerusalém, Paulo mais uma vez teve de fugir: o destino foi Tarso, sua cidade natal, onde permaneceu por sete ou oito anos. Nada se sabe sobre sua vida nesse período.
Por volta de 45 d.C., convidado por Barnabé, Paulo mudou-se para Antióquia da Síria, onde a igreja dos nazarenos crescia rapidamente. Depois de Roma e Alexandria, no Egito, Antióquia era a terceira maior cidade do Império Romano. “Diferentemente do que acontecia em Jerusalém, onde os seguidores de Jesus ainda estavam ligados à lei e aos rituais judaicos, em Antióquia se respirava ar novo – lá, boa parte dos neocristãos vinha do paganismo”, afirma padre Bortolini. O termo cristão, como designação dos discípulos de Jesus, surgiu pela primeira vez nessa cidade. Esse fato reveste-se de importância porque pela primeira vez os seguidores de Jesus não são mais vistos como judeus dissidentes.
Foi de lá que Paulo – descrito em textos apócrifos como “um homem pequeno com uma grande cabeça careca” – partiu para sua primeira jornada missionária. Nessa ocasião, ele tinha cerca de 40 anos. Durante 12 anos, de 46 a 58, Paulo empreendeu quatro viagens evangelizadoras, visitando boa parte do Império Romano, que se estendia da Grã-Bretanha ao Oriente Médio, passando pelo norte da África. Eram jornadas árduas, feitas a pé ou de navio, sempre na companhia de outros discípulos. Quando viajavam por terra, seguiam pelas estradas romanas, percorrendo 30 quilômetros por dia. O perigo os espreitava, como escreve o apóstolo em uma de suas epístolas aos coríntios: “Sofri perigos nos rios, perigo por parte de ladrões, perigo por parte dos meus irmãos de raça, perigo por parte dos pagãos, perigos na cidade, perigos no deserto, perigos no mar, perigos por parte dos falsos irmãos”.
A estratégia pastoral de Paulo era bem definida. Pregava nas sinagogas, em casas e praças de grandes centros urbanos, que funcionavam como pólos irradiadores da mensagem. Ao sair, designava um líder responsável pelo rebanho. A primeira viagem, entre 46 e 48, foi feita em companhia de Barnabé e de Marcos, outro discípulo cristão, o mesmo a quem é atribuído um dos quatro evangelhos. Foram à ilha de Chipre e percorreram a Ásia Menor (veja mapa) antes de retornar a Antióquia. É a partir dessa primeira expedição que Paulo deixa de ser chamado pelo nome judeu Saulo – a mudança é narrada por Lucas no Ato dos Apóstolos, 13:9.
A segunda jornada missionária começou depois do Concílio de Jerusalém e estendeu-se até 52. O ponto alto dessa jornada foi a pregação na Europa. Pela primeira vez, a palavra de Deus deixava a Ásia e espalhava-se por um novo continente. Paulo visitou várias cidades gregas, fundando importantes núcleos cristãos. “Foi por causa dessa passagem [da Ásia para a Europa] que o cristianismo sobreviveu e se desenvolveu”, argumenta padre Bortolini. Foi também nessa jornada que Paulo escreveu, em 51, a Epístola aos Tessalonicenses, o mais antigo documento do Novo Testamento. Nas cartas paulinas, o trabalho braçal ficava por conta de escribas: Paulo as ditava e as assinava de próprio punho para autenticar o documento. A maioria delas foi escrita em grego, mesma língua usada por Paulo em suas pregações. Esse era o idioma universal, comparável ao que hoje é o inglês.
O apóstolo também se expressava em hebraico, língua da elite judaica, na qual foi escrita a maior parte dos livros do Antigo Testamento, e em aramaico, a língua materna de Jesus e corrente na camadas populares da Palestina. Mesmo sendo poliglota, o apóstolo encontrava dificuldade para se comunicar em suas peregrinações, diante da multiplicidade de línguas e dialetos daquela época. Em muitas ocasiões, recorria a intérpretes.
Em uma de suas cartas, a Epístola aos Gálatas, percebe-se a tensão existente entre Paulo e os 12 apóstolos que conviveram com Cristo. Nela, Paulo afirma que “enfrentou abertamente [Pedro, em Antióquia], porque ele se tornara digno de censura”. O motivo da briga foram dois preceitos alimentares judaicos. Pedro defendia que os neocristãos não poderiam sentar-se à mesa com gentios – seus iguais até pouco antes. Deveriam também rejeitar sobras de carnes de animais sacrificados aos deuses pagãos. Paulo discordava e teve uma acirrada discussão com Pedro.
Na terceira viagem missionária, de 53 a 57, Paulo deteve-se por três anos em Éfeso, a capital da Ásia Menor. Lá, presume-se, esteve preso por alguns meses – ao longo de sua vida, o apóstolo deve ter permanecido quatro anos atrás das grades. Durante essa jornada, coletou dinheiro para os cristãos pobres de Jerusalém. No retorno à Terra Santa, não se sabe como foi recebido por Tiago, chefe da igreja de Jerusalém. Nem Lucas nem Paulo deixam claro se ele aceitou o dinheiro “impuro” da coleta. Sabe-se apenas que foi na volta a Jerusalém que Paulo foi preso, na praça do Templo, sob a acusação de introduzir gentios na sinagoga. Os judeus estavam furiosos com a presença do pregador na cidade e, temendo por sua segurança, o tribuno romano Cláudio Lísias o encarcerou de novo. Dessa vez, foi em Cesaréia, perto de Jerusalém, onde amargou dois anos de reclusão. Eis que ele pediu para ser julgado em Roma pelo imperador – direito conferido aos cidadãos romanos.
No outono de 60, o apóstolo foi enviado à capital imperial, uma cidade com quase 1 milhão de moradores. Paulo foi saudado pela comunidade cristã e permaneceu em prisão domiciliar, vigiada por soldados. Encontrava-se com as pessoas, mas não podia sair de casa. Aproveitou esse período para transmitir a palavra de Deus. Depois de dois anos de cativeiro, seu processo foi encerrado sem uma sentença condenatória.
Pouco se sabe a respeito dos anos seguintes da vida de Paulo, já que o Novo Testamento não dá indicações do que aconteceu com ele após a prisão em Roma. Mas, segundo a tradição, acredita-se que tenha empreendido uma viagem à Espanha ou visitado as igrejas cristãs que fundara na Grécia e Ásia Menor e retornado a Roma na primavera de 67. O império era chefiado por Nero, que anos antes havia ateado fogo na cidade e jogara a culpa pelo desastre nos seguidores de Jesus. Por isso, os cristãos eram duramente perseguidos e tinham que se reunir em catacumbas para escapar da fúria insana do imperador. Quando capturados, viravam presa para as feras do Coliseu. Ao deparar com essa situação, Paulo empenhou-se em reconstruir a comunidade. Não tardou e foi preso, acusado de chefiar a seita dos nazarenos.
Na prisão, escreveu sua derradeira carta ao discípulo Timóteo, um dos líderes da igreja de Éfeso. Ele sabia que não escaparia da morte. No outono daquele ano, foi levado pelos guardas para fora da cidade e degolado. No local de seu martírio foi construída a praça Tre Fontane e perto dali, junto ao seu túmulo, erguida a basílica de São Paulo Extramuros. Diz a lenda que, no momento de sua execução, uma cega de nome Petronila aproximou-se do apóstolo e lhe ofereceu um véu para cobrir-lhe o rosto. Paulo teria devolvido o véu à mulher e, quando ela o colocou sobre os seus próprios olhos, recobrou milagrosamente a visão. A conversão de Paulo é comemorada no dia 25 de janeiro. Foi uma escolha aleatória, já que não se sabe o dia exato de sua conversão.
São Paulo é Paulo
Como a cidade de São Paulo foi fundada nesse dia, acabou recebendo o nome do santo. A festa de São Paulo é celebrada em 29 de junho, junto com a de São Pedro. Foi uma forma encontrada pela Igreja para homenagear, de uma só vez, os dois líderes máximos do cristianismo primitivo.
Cristianismo ou paulinismo?
As 13 cartas escritas por São Paulo sintetizam o pensamento do apóstolo, que viria a moldar a doutrina cristã. Elas foram redigidas entre os anos 50 e 60 e são os mais antigos documentos da história do cristianismo – os quatro evangelhos canônicos de Mateus, Marcos, Lucas e João ficaram prontos apenas entre os anos 70 e 100. A influência do apóstolo na consolidação da doutrina cristã pode ser medida pelo fato de suas epístolas representarem quase metade dos 27 livros do Novo Testamento. Com elas, dizem os estudiosos, Paulo não tinha a pretensão de formular tratados teológicos. “Elas são resultado de experiências vivenciadas pelas comunidades paulinas”, afirma o André Chevitarese. Uma corrente de biblistas defende que nem todas foram de fato escritas por Paulo – algumas teriam sido redigidas por seus discípulos após a morte do apóstolo. “Elas são muito diferentes em estilo literário e conteúdo”, afirma Pedro Vasconcellos, da PUC. Para a Igreja, no entanto, todas as cartas são de autoria de Paulo.
Se são uma rica fonte de difusão da doutrina cristã, esses documentos são também a principal causa da controvérsia sobre o apóstolo. Na opinião de Fernando Travi, líder da Igreja Essênia Brasileira, a descoberta, no século passado, de escrituras datadas dos primeiros anos do cristianismo, como os Manuscritos do Mar Morto, o Evangelho dos 12 Santos (ou da Vida Perfeita) e o Evangelho Essênio da Paz, indica que boa parte do conteúdo das cartas de Paulo está em oposição aos ensinamentos de Jesus (leia quadro na pág. 64). “Existem sérios indícios de que, como num plano de sabotagem, Paulo divulgou uma doutrina falsificada em nome do messias”, diz ele. Opinião parecida tem o pastor batista americano Edgar Jones, autor do livro Paulo: O Estranho. “Jesus de Nazaré deve ser cuidadosamente diferenciado do Jesus de Paulo. Gerações e séculos passaram até que a corrente paulina com seu forte apelo em favor do Império Romano ganhasse ascendência sobre a corrente apostólica”, diz o teólogo.
O fato é que, até o século 4, o cristianismo dividia-se em duas correntes distintas, uma liderada pelos discípulos de Paulo e outra pelos seguidores dos apóstolos de Cristo. Quando o cristianismo tornou-se a religião oficial do Império Romano, a corrente paulina saiu-se vitoriosa.
O apóstolo dos pagãos também é bombardeado por suas posições a respeito das mulheres. Na carta endereçada à comunidade cristã de Colosso, ele escreve: “Quanto às mulheres, que elas tenham roupas decentes, se enfeitem com pudor e modéstia. (…) Durante a instrução, a mulher conserve o silêncio, com toda submissão. Não permito que a mulher ensine, ou domine o homem”. Suas palavras atraem até hoje a ira das feministas, que o acusam de misoginia. Seus defensores, por outro lado, argumentam que , ao contrário, ele incentivava a participação das mulheres na vida social. “Paulo acreditou firmemente na igualdade entre os sexos e, em suas igrejas, as mulheres exerciam todos os ministérios. Alguns exegetas munidos de preconceito interpretaram erroneamente os textos paulinos”, diz Murphy-O’Connor.
Outro petardo disparado pelos críticos diz respeito à doutrina da salvação defendida por Paulo. “Paulo diz que os pecados são perdoados se a pessoa acreditar que Jesus morreu na cruz por ela. É a doutrina da salvação em que o herói derrama seu sangue e todos são perdoados por causa dele. Enquanto isso, Jesus diz: ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida’. Para Jesus, a salvação será dada àqueles que seguirem seus ensinamentos”, afirma Fernando Travi. Os defensores de Paulo discordam e afirmam que o apóstolo foi mais uma vez mal interpretado.
onservador ou radical, fiel ou não a Jesus Cristo, São Paulo foi, sem dúvida, um dos poucos evangelizadores – se não o único – a fazer o cristianismo passar da cultura semita à greco-romana, possibilitando que ela se tornasse uma religião mundial.

5532 – Religiões – Explicações para a vida e a morte


Candomblé
Culto de origem africana no Brasil (1700 d.C.), é um resumo de várias religiões trazidas pelos negros, que incorpora elementos ameríndios, do catolicismo popular e do espiritismo. Cada entidade – orixá, exu ou erê – tem suas cantigas e suas danças

Sincretismos afros
Os negros escravizados na América foram separados de suas tribos. Tradições religiosas se misturaram entre si e com a influência européia e indígena, dando origem a cultos que variam de acordo com a região. No Brasil, Xangô, Tambor de Mina e Babaçuê são alguns deles

Judaísmo
Baseado em uma história sagrada que começa com a escolha do povo por Deus, crê que, por meio desse povo, Deus beneficiará todas as nações. A Torá coincide com o Antigo Testamento cristão e muitos elementos judaicos aparecem no islamismo

Religião grega
Complexa mitologia que remonta aos 3000 a.C., influenciou todo o Mediterrâneo e sobreviveu nos cultos cristãos. Os deuses gregos tinham atributos humanos, dos excessos de Dionísio, deus do prazer, ao rigoroso ascetismo dos que buscavam a purificação

Umbanda
A umbanda é praticada em terreiros desde o início do século XX e tem caráter sincrético. O orixá, chamado santo, incorpora-se no pai ou mãe-de-santo, através dos quais fala com as pessoas

Presbiteriana
A Igreja Presbiteriana surgiu na Europa (1546 d.C.), sob inspiração calvinista. Foi muito difundida entre os primeiros missionários nas colônias norte-americanas, deixando suas influências na formação dos EUA
Cristianismo
É a religião mais difundida no mundo, com cerca de 2 bilhões de fiéis. Os cristãos crêem no caráter divino da revelação de Jesus, na existência de um Deus criador único em três pessoas. A Bíblia cristã acrescenta ao texto judaico o Novo Testamento. As primeiras igrejas surgiram como comunidades fundadas pelos apóstolos (54 d.C.)

Monoteísmos
Surgidos no último milênio a.C , influenciaram a criação dos Estados. Estabeleceram livros sagrados, códigos de leis e verdades absolutas. Baseiam-se na crença em um Deus-criador e num messias por ele enviado à Terra para conduzir os homens

Politeísmos
Pinturas e esculturas representam deuses criadores e destruidores. As religiões mesopotâmica e nórdica utilizaram a forma humana para representá-los. A babilônica foi marcada pelo culto de deuses-animais. Os deuses astecas e maias comandavam a agricultura. Os romanos cultuavam deuses de guerra e prosperidade. Na Pérsia, o masdeísmo deu origem ao primeiro monoteísmo, o zoroastrismo

Pentecostais
Surgem nos EUA, no século XX, e destacam os poderes de cura do Espírito Santo. Cristã do Brasil, Assembléia de Deus, Evangelho Quadrangular, O Brasil para Cristo e Deus é Amor são as principais igrejas pentecostais no Brasil

Protestantismo
Rompe com a hierarquia de Roma (1517 d.C.) em nome da primazia da Bíblia sobre a tradição. Luteranos, calvinistas e anglicanos crêem na salvação pela graça de Deus mediante a fé, não pelas obras

Igreja ortodoxa
Após romper com os cristãos de Roma (1054 d.C.), mantém-se fiel à mensagem primitiva do cristianismo. Valoriza a liturgia e é rigorosa nos preceitos morais

Islamismo
Considera Maomé o último dos profetas e afirma que somente a mensagem transmitida a ele por Deus se conserva intacta (622 d.C.). O Alcorão versa sobre a vida familiar, política e jurídica da comunidade. Mantém aspectos comuns com o judaísmo e o cristianismo

Catolicismo
Do núcleo fundado por Pedro em Roma, originou-se todo o cristianismo no Ocidente, que, posteriormente, foi dividido em arquidioceses, dioceses e províncias eclesiásticas, em comunhão com a Sé Romana, a partir dos anos 70 d.C.

Religião egípcia
Adoravam a figura de deuses em forma de animais (3000 a.C.). Acreditavam na vida depois da morte. Para os egípcios, o mundo surgiu de um caos oceânico que ameaçava voltar a tragá-lo

Religiões panteístas
São as mais antigas do mundo e a primeira etapa da evolução do pensamento religioso (antes de 4000 a.C). Não possuem base escrita. Deus está no sol, na lua, no vento e nas forças da natureza. Animismo, fetichismo, xamanismo e totemismo estão presentes em rituais ao ar livre, onde os antepassados são cultuados

Hare krishna
Um dos desdobramentos atuais do hinduísmo (1966 d.C.), o movimento está baseado na devoção a Vishnu ou Krishna. Praticam a repetição de mantras, que busca o fim das ansiedades mentais, o desenvolvimento da consciência e o amor puro a Deus

Espiritismo
A sobrevivência do espírito após a morte e a reencarnação são as bases da doutrina, que surgiu na França e se expandiu pelo mundo a partir da publicação de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec (1857 d.C.)

Budismo
Inspirado nos ensinamentos de Siddharta Gautama, o Buda (600 a.C.), busca a realização plena da natureza humana e a criação de uma sociedade perfeita. A existência é um ciclo contínuo de morte e renascimento, no qual vidas presentes e passadas estão interligadas

Hinduísmo
Baseado nos textos Vedas, abrange seitas e variações monoteístas e politeístas, sem um corpo único de doutrinas. Estabeleceu as bases para outras correntes religiosas com o budismo e o jainismo. É considerada a terceira fase do bramanismo

Religiões orientais
Baseadas em revelações de seres iluminados, vêem o universo como emanação de uma força suprema. Crêem em reencarnação e na evolução espiritual por meio de um esforço íntimo, que inclui meditação e controle dos impulsos e emoções

Seicho-no-ie
Criada por Masaharu Taniguchi (1930 d.C.), promove graças e curas. Crê que fatos bons ou ruins dependem da atitude mental
Rosa-cruz
Durante anos a fraternidade mística viveu em sigilo. Com a abertura (1909 d.C.), construiu uma sede mundial nos Estados Unidos e de lá irradia o conceito rosa-cruz do cosmos em cursos por correspondência e livros

Neopanteístas
Resgatam símbolos e mitos de diversas religiões, mas estabelecem a crença monista de um substância única que permeia todo o universo. Seus ensinamentos são fruto das experiências de seres elevados. Embora existam em todos os períodos históricos, tornam-se comuns a partir do século XVIII

Xintoísmo
Religião nacional do Japão, surgida por volta de 700 a.C., de origem chinesa, formou-se antes do budismo e não tem fundador, escritura sagrada ou dogmas. Os espíritos dos antepassados são como deuses tutelares da família ou do país, por isso os ritos fúnebres são importantes

5318 – Religião – Quando surgiu o batismo?


A imersão em águas para a remissão de pecados e ingresso em nova ordem religiosa é antiquissimo, e muito anterior ao próprio Cristianismo.
Vários historiadores se perdem quanto a suposta aparição da prática, não existindo ainda uma opinião definida.
Tal processo no Cristianismo é chamado de Batismo.
Mas os Romanos, Gregos Persas e Egípcios já praticavam tal ritual com a mesma finalidade.
No Judaísmo existe a prática do Micve no qual uma Mulher imerge uma vez por mês para cumprir as leis Judaicas de Tahará Hamispachat.
Seja como for tal processo no Judaísmo não tem paralelos com a imersão das outras crenças.