13.931 – História – A prostituição na Idade Média


Continuando com o bloco de História no ☻Mega Arquivo
Pecado ou necessidade? Esse era o grande dilema enfrentado pelos clérigos medievais ao se colocarem na difícil tarefa de converter a Europa bárbara e romana ao cristianismo. Sob o aspecto formal, as prostitutas infringiam um dos mais importantes tabus da Igreja ao praticarem a fornicação. Por outro lado, as demandas do mundo cotidiano reiteravam, vez após vez, que o banimento da prostituição era uma missão praticamente impossível.
Uma das justificativas mais comuns a manterem a prostituição ativa girava em torno do próprio controle de pecados observados como mais graves. O uso que os homens jovens faziam dos bordéis funcionava como meio para que as mulheres respeitáveis não fossem vítimas de sedução ardilosa e estupro. No fim das contas, seria menos grave violar os limites do corpo de uma mulher que já havia caído em pecado do que desgraçar uma casta seguidora dos princípios morais da Igreja.
O próprio Santo Agostinho advertia que o banimento da prostituição seria porta de entrada para outros pecados ainda mais controversos. Entretanto, alguns clérigos não poupavam esforços para que as prostitutas abandonassem sua vida de erros através do casamento ou ingressando na própria ordenação religiosa, na qualidade de freiras. No início da Idade Média, alguns romanos reagiam à conversão religiosa das prostitutas obrigando mulheres cristãs a tomarem o lugar da convertida.
Ao falarmos sobre o desenvolvimento de tal atividade, não podemos nos esquecer que a recorrência de tal prática está diretamente ligada aos ambientes urbanos da época. Não raro, costumava-se determinar o lugar das casas de prostituição nas ruas que levavam a palavra “rosa” no nome. Em algumas regiões, a expressão “arrancar uma rosa” fazia alusão ao ato de se servir da prostituição. Outro código de distinção comum era o uso de roupas e acessórios específicos como gorros, sinos e xales.
Uma das raras exceções conhecidas sobre essa relação entre a prostituição e as cidades aparece no Reino dos Francos, mais especificamente na dinastia carolíngia, entre os séculos VIII e IX. Em alguns feudos eram construídas as chamadas “casas das mulheres”, onde as servas se prestavam a um serviço bem distante da agricultura desenvolvida nos mansos. Similar aos dias atuais, essas “prostitutas feudais” tinham carreira curta e já eram consideradas velhas ao atingirem os trinta anos de idade.
Paralelamente, observamos que os medievais se valeram das mais variadas explicações para justificarem o fenômeno da prostituição. Alguns a relacionavam com a tendência natural que alguns têm à degradação moral, outros a ligavam à questão da miséria recorrente em alguns lugares ou à própria viabilidade econômica do ato. Em alguns casos, o concubinato impunha direitos e deveres entre uma prostituta e um terceiro interessado nos seus préstimos.

No final das contas, vemos que a prostituição medieval nos revela uma esfera que extrapolava a condição moral daquele tempo. Observando os critérios, medidas e noções sobre a “mais antiga das profissões”, vemos que a Idade Média não esteve incondicionalmente presa às supostas regras de comportamento da Igreja. É, no mínimo, instigante observar o choque entre a experiência terrena e as aspirações divinas ocorridas nesse terreno do cotidiano medieval.

13.702 – Mega Polêmica – Egoísmo é uma Defesa Biológica?


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Choque de Teorias

Muitos biólogos acreditam que somos todos seres egoístas, que buscam apenas espalhar os próprios genes e perpetuar a linhagem a que pertencemos – até em nossos atos mais benevolentes. Mas será mesmo que não existe altruísmo? Novas pesquisas mostram que a evolução pode se dar em termos bem mais caridosos do que costumamos imaginar.
É uma ironia amarga que ainda seja necessário promover campanhas contra a fome. Se você reparar bem, os hábitos sociais da espécie humana são de uma generosidade proverbial no que diz respeito à comida. Em virtualmente todas as culturas, grandes festas são acompanhadas de comilança. Estamos sempre oferecendo comida aos outros, seja na forma de um casual chiclete ou de uma recepção formal. E quem já não entrou numa daquelas ridículas disputas para pagar a conta no restaurante? O problema é saber se essas práticas sociais realmente se qualificam como exemplos de generosidade. Em inglês, um ditado muito corrente no mundo dos negócios diz que there’s no free lunch – traduzindo, “não existe almoço grátis”. Se um conhecido que você não vê há anos resolve convidá-lo para um churrasco, a desconfiança é imediata – será que ele vai pedir dinheiro emprestado?
Existe ou não almoço grátis? Esse é um dos grandes debates da biologia.
O gesto desinteressado do verdadeiro altruísmo parece ser uma impossibilidade evolutiva. Um comportamento só pode ser qualificado de altruísta se ele traz benefícios para os outros e custos para quem o pratica. Ou seja, o altruísta está diminuindo sua aptidão para favorecer a dos outros. Suas chances de sobreviver e de reproduzir são menores, enquanto todos os demais – inclusive os egoístas – levam vantagem. A longo prazo, o altruísta deveria ser levado à extinção, deixando o campinho livre para que o egoísmo grasse como erva daninha.
A luta pela sobrevivência parece favorecer mais os George Soros do que as madres Teresas. E no entanto ainda existem altruístas entre nós (ou não?). Como pode ter evoluído uma característica que parece antievolutiva? Há várias explicações. Antes de voltarmos ao almoço, é preciso remontar à história dessa discussão na biologia.
Egoísmo molecular
Para o biólogo Edward O. Wilson, da Universidade de Harvard, Estados Unidos, a evolução do altruísmo é o problema teórico central da sociobiologia, ciência que busca entender em bases biológicas o comportamento social de animais. A questão já intrigava o próprio naturalista inglês Charles Darwin, que em 1871, na obra A Origem do Homem, utilizou a seleção de grupo para explicar a evolução da moralidade humana. O comportamento moral, ensina Darwin, não traz vantagem para o indivíduo, que lucraria mais desobedecendo as regras para agir de acordo com sua vontade própria. Mas uma tribo regida por valores que enfatizem “o espírito de patriotismo, fidelidade, obediência, coragem e solidariedade” certamente será mais coesa e organizada e assim terá maiores chances de vitória na disputa por recursos naturais ou territórios com tribos menos virtuosas. A seleção natural, portanto, agiria não somente sobre indivíduos, mas também sobre grupos competidores.
Darwin, no entanto, colocava mais ênfase na seleção individual, na luta de cada um contra todos, e não desenvolveu plenamente o conceito de seleção de grupo. Na primeira metade do século 20, os cientistas usavam os diferentes níveis de seleção sem muito rigor. Recorriam ao grupo ou ao indivíduo conforme a idiossincrasia ou a conveniência ditassem. A seleção de grupo ganhou versões esquisitas. Acreditava-se até que os pássaros regulariam o número de ovos para evitar a explosão populacional, garantindo assim que todos tivessem seu quinhão de recursos naturais. A algazarra das aves em seus ninhos seria uma prova da natureza conscienciosa dessas criaturas: cantando e ouvindo suas parceiras cantar, elas conseguiriam aferir a densidade populacional da espécie. Ninguém ainda provou que as aves são capazes de conduzir essa curiosa forma de censo. Alguns ornitólogos sugerem que os pássaros na verdade diminuem o número de ovos quando há pouca comida.
Vale lembrar que Darwin montou a teoria da seleção natural sem sequer desconfiar da existência dos genes. Na primeira metade do século passado, genética e evolução foram combinadas no que os biólogos chamam de teoria sintética. E, a partir dos anos 60, uma nova revolução científica deu a primazia absoluta ao gene na luta pela sobrevivência. Essas pequenas seções do DNA são as unidades replicadoras básicas. Graças à sua habilidade ímpar de produzir cópias de si mesmos, os genes que você carrega em cada uma de suas células já estiveram presentes nos seus antepassados e serão transmitidos a seus descendentes. Você, leitor, é só um recipiente transitório. Portanto, é no interesse do gene – e não do indivíduo e muito menos do grupo – que a seleção natural opera. Os nomes fundamentais dessa corrente são os biólogos George C. Williams, da Universidade Estadual de Nova York, Estados Unidos, e William Hamilton, falecido em 2000, considerado um dos maiores teóricos da evolução de todos os tempos.
Hamilton desenvolveu o conceito de seleção de parentesco. Quando você come na casa de um parente, pode ter certeza de que esse não é um free lunch: ele já está pago em moeda genética. Nossa generosidade em relação aos parentes começa no DNA. Segundo a teoria de Hamilton, o sacrifício por um parente compensa na proporção da semelhança genética com ele. Assim, a aptidão reprodutiva de um indivíduo não se mede apenas pelo número de filhos que ele consegue ter, mas também inclui parentes próximos que carregam frações de sua carga genética. Você compartilha, por exemplo, metade dos genes com seu irmão ou irmã (na verdade, todos nós compartilhamos cerca de 90% do genoma, mas estamos considerando só os genes que variam na espécie humana). Portanto, do ponto de vista evolutivo, vale a pena se sacrificar por um irmão se o sacrifício custar a você no máximo a metade do benefício que traz a ele.
A melhor síntese da teoria talvez esteja em um gracejo do geneticista britânico J.B.S. Haldane, antecessor de Hamilton. Perguntado se daria a vida por um irmão, Haldane respondeu: “Não, mas daria por dois irmãos ou oito primos”.
Ainda mais feliz na síntese foi outro biólogo inglês – Richard Dawkins, da Universidade de Oxford, Reino Unido. Em 1976, o título do seu livro O Gene Egoísta resumiu tudo o que a biologia mais recente estava propondo. Na trilha de Williams e Hamilton, Dawkins enfatiza o papel fundamental da genética na seleção natural. Para ele, nós somos apenas “máquinas de sobrevivência”, robôs a serviço dos genes – e “nós” inclui todos os seres vivos, da bactéria ao físico quântico. A imagem do robô atraiu muita crítica. Nas edições mais recentes do livro, uma nota de Dawkins esclarece que não somos controlados pelo nosso genoma. Sempre que usamos um método contraceptivo, por exemplo, contrariamos o desígnio único do gene: fazer cópias de si mesmo.
A despeito (ou por causa) de toda polêmica, os princípios expostos em O Gene Egoísta tornaram-se, na expressão do próprio Dawkins, “ortodoxia de manual”. Ou pelo menos é assim entre os cientistas, já que o senso comum conservou idéias anteriores a Williams e Hamilton. Pergunte a um amigo – que não seja biólogo, bem entendido – como funciona a seleção natural. Provavelmente, lá pelas tantas ele vai falar em “perpetuação da espécie”. Dawkins ensina que não é isso que está realmente em causa. Exemplo cruel mas esclarecedor: quando um leão junta-se a um novo grupo de fêmeas, ele muitas vezes mata os filhotes que elas tiveram com outros machos. Ele não está minimamente interessado em perpetuar a espécie. Quer apenas que as leoas estejam devotadas exclusivamente aos seus filhotes, herdeiros de sua preciosa carga genética.
A teoria do gene egoísta pode parecer uma forma desencantada de ver o mundo vivo. Ela contradiz não só as noções mais vulgares (e simpáticas) de evolução que circulam por aí. Desafia também aquele papo new age de viver em harmonia com a natureza, de entrar em sintonia com a mãe terra. Pois é: nada disso tem sustentação na ciência de Williams, Hamilton e Dawkins. A natureza não é harmônica e guarda tantos ou mais exemplos de egoísmo quanto de altruísmo. Tome os pingüins, por exemplo. Do alto das geleiras onde se agrupam, é difícil discernir se há predadores no mar abaixo. Se fossem altruístas, cada um se ofereceria para pular primeiro e verificar se a barra está limpa. Não é o que acontece: geralmente, um pingüim empurra o outro e vê se a vítima não é atacada.
A seleção de parentesco tem sido utilizada para explicar a extraordinária organização que vemos nos chamados insetos sociais. Se a cooperação em um formigueiro ou em uma colméia parece impecável, é porque geralmente todos são filhos da mesma rainha, o que os torna geneticamente semelhantes. Quando uma abelha operária resolve colocar ovos – o que raramente ocorre –, suas colegas os destroem, pois o filho de uma “irmã” será geneticamente mais distante delas do que os filhos da rainha-mãe. No formigueiro, as coisas são mais simples: todas as operárias são estéreis. “Em muitos sentidos, nós, humanos, somos menos cooperativos do que os insetos sociais”, diz o biólogo Robert Trivers, da Universidade de Rutgers, em Nova Jersey, Estados Unidos. Mas, complementa ele, é preciso entender que são dois sistemas muito distintos: “Entre as formigas, há parentesco próximo e, em geral, muito pouco conflito interno.
Entre nós, há um sistema de altruísmo recíproco com um meio de troca – o dinheiro – que uniu o mundo inteiro em uma economia interligada, mas com muito mais conflito interno e muito menos altruísmo”.
Em 1971, Trivers formulou, com o incentivo de Hamilton, a teoria do altruísmo recíproco, que é, de forma simplificada, a idéia de que uma mão lava a outra. Para explicar esses modelos, os biólogos utilizam formulações matemáticas, valendo-se especialmente da teoria dos jogos, que elabora equações capazes de explicar o mecanismo de várias formas de disputa social (para saber mais, leia a matéria “Tudo está em jogo”, na edição de abril de 2002).
Com a reciprocidade em mente, podemos voltar ao hipotético almoço do primeiro parágrafo. Afinal, por que somos aparentemente tão generosos com comida? A sociobiologia encontra as raízes desse comportamento nos primórdios do Homo sapiens, quando ainda vivíamos em tribos de caçadores-coletores. Claro que não podemos saber como era a organização social do homem primitivo, mas algumas pistas podem ser buscadas entre os caçadores-coletores do mundo moderno. Estudos antropológicos têm revelado características comuns mesmo em culturas geograficamente afastadas, como os ache do Paraguai e os !kung do deserto de Kalahari, no sul da África. Há uma divisão sexual do trabalho: as mulheres coletam raízes e frutos; os homens saem à caça. Os vegetais obtidos pelas mulheres são geralmente consumidos somente pela família; a carne trazida pelos homens é dividida com a tribo de forma igualitária.
É a reciprocidade em prática: uma vez que o sucesso da caçada depende não somente de habilidade e esforço, mas também de sorte, é provável que mesmo um bom caçador muitas vezes termine o dia de mãos vazias. Por isso, é essencial que ele possa contar com uma porção da caça dos outros. Influi aqui também o fato de a carne ser um bem perecível. O caçador não seria capaz de comer sozinho um dos mamutes que ainda andavam por aí quando surgiu o ser humano.
Mas o que impede o Macunaíma da tribo de vadiar enquanto seus companheiros arriscam-se na caçada? E por que o bom caçador deveria dividir seu produto de forma tão equânime? Foi ele quem caçou – por que não ficaria com pedaço maior? Nesse ponto entra o sistema de recompensas e punições que reforça o altruísmo recíproco. Recusar-se a dividir carne seria quebrar a etiqueta e expor-se à vergonha pública. E o bom caçador também tem suas vantagens: é considerado o homem mais sexy da tribo. Consegue parceiras com mais facilidade, seja para o casamento, seja para casos extraconjugais.
Ecossistemas Projetados
Os modelos de seleção de parentesco e altruísmo recíproco, como se viu, abrem espaço para algumas formas de altruísmo. Mas quem faz o bem somente aos seus não é generoso – é nepotista. E podemos qualificar de altruísmo aquilo que fazemos com vistas a uma retribuição futura? Fica a sensação de que, sob a pele de cordeiro do altruísmo, vamos sempre encontrar um lobo egoísta. Aliás, é exatamente o que afirmou em 1974 o biólogo americano Michael Ghiselin: “Arranhe um altruísta, e você verá um egoísta sangrar”. A biologia, amparada pela teoria dos jogos, parece identificar um fundo de interesse em qualquer gesto desprendido. Peter Singer, filósofo norte-americano da Universidade de Princeton, conhecido por sua defesa dos direitos dos animais, certa vez argumentou que os bancos de sangue seriam uma prova de altruísmo. O sangue estocado serve igualmente a doadores e não-doadores; portanto, ninguém doa sangue com vistas a um benefício no futuro.
O biólogo Richard Alexander, da Universidade de Michigan, Estados Unidos, retrucou lembrando que olhamos com respeito o sujeito que volta de um banco de sangue com algodão e esparadrapo no braço. A retribuição vem na forma do reconhecimento social.
Mais recentemente, porém, alguns cientistas voltaram a admitir a seleção de grupo. É o que diz o biólogo David Sloan Wilson, da Universidade Estadual de Nova York: “Não há dúvida de que o preconceito contra a seleção de grupo está diminuindo, mas em um ritmo terrivelmente lento e baseado mais em fatores sociológicos do que intelectuais. A maior parte dos manuais ainda a trata como heresia, fundamentando-se em obras escritas antes de o estudante universitário médio ter nascido”. A seleção de grupo foi, para ele, uma força poderosa (mas não única) na evolução da espécie humana.
Sloan Wilson trabalhou em parceira com o filósofo Elliott Sober, da Universidade de Wisconsin, Estados Unidos, para compor Unto Others (“Para os outros”, sem tradução em português), uma defesa da seleção em “múltiplos níveis”. O livro recorda que o próprio William Hamilton, tido como o papa da seleção individual, admitiu a seleção de grupo em um trabalho de 1975. A proposta básica de Unto Others é a de que seleção individual e de grupo podem coexistir, ainda que trabalhem em sentidos opostos – daí a expressão “seleção em múltiplos níveis”. Já vimos que o altruísta, sendo o único a pagar a conta da bondade, sacrifica a própria aptidão reprodutiva em prol dos demais e portanto tende a desaparecer. Sloan Wilson e Sober demonstram matematicamente que isso é verdade apenas para a seleção individual. Uma proporção maior de altruístas pode trazer vantagens adaptativas para o grupo, que assim terá melhores chances na competição com rivais.
A seleção de grupo já foi utilizada com sucesso nas granjas. Descobriu-se que os melhores resultados são obtidos selecionando para reprodução não as galinhas que individualmente põem mais ovos, mas os grupos de galinhas mais produtivos. Mais recentemente, Wilson está utilizando esses princípios para pesquisar ecossistemas microbiais em conjunto com seu aluno William Swenson. Eles criam comunidades com bilhões de micróbios de diferentes espécies. Depois, selecionam aqueles que apresentam propriedades como, por exemplo, a capacidade de decompor lixo tóxico. Os resultados, diz Wilson, têm sido positivos e abrem a possibilidade de, no futuro, projetarmos ecossistemas inteiros. “Os experimentos levam a seleção de grupo um passo adiante, pois lidam com ecossistemas de múltiplas espécies”, diz Wilson.
“Sem dúvida, as abordagens do gene egoísta e da seleção em múltiplos níveis são equivalentes. As duas estão corretas”, diz o físico e biólogo Rob Boyd, da Universidade da Califórnia, Estados Unidos. As divergências parecem dizer respeito não aos fatos, mas à interpretação. Um exemplo é o caso da divisão da carne em tribos de caçadores-coletores. Em Unto Others, Sober e Sloan Wilson partem dos mesmos dados etnográficos, mas reformulam as perguntas. Afinal, por que surgiria um sistema de punições e retribuições para encorajar a generosidade do caçador? Os dois autores dizem que, na medida em que os atos de punir e recompensar também envolvem algum custo – embora menor do que o esforço despendido em uma caçada –, eles também poderiam ser considerados altruístas.
Para Boyd, a evolução cultural pode ser tão importante quanto a genética na evolução do altruísmo. De certo modo, ele as considera como duas forças inextrincáveis no desenvolvimento social de nossa espécie – afinal, a sofisticação lingüística que é a base da cultura humana não seria possível se a capacidade de aprender uma língua não estivesse codificada em nosso genoma. De outra parte, muitos dos mecanismos emocionais que dão base a nosso sistema moral – a culpa ou a vergonha, por exemplo – podem ter sido depurados pela seleção natural ao longo de nossa evolução como primatas sociais. Na medida em que nos agrupamos em tribos maiores, com uma divisão do trabalho mais complexa e especializada, a necessidade de cooperação extrapolou os limites da família e nos obrigou a cooperar com estranhos. Essas novas exigências sociais teriam exercido sua pressão sobre a seleção entre grupos humanos, favorecendo o surgimento da moral. “A cultura está nos genes, mas os genes também dependem da cultura”.

 

13.348 – Comportamento – O que é ser introspectivo?


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Pessoa retraida, que na maioria das vezes, fecha-se em seu mundo, deixando de interagir com o ambiente que integra e até corre o risco de tornar-se depressiva, pois na maioria das vezes, vive seu momento não dividindo nada com ninguém. Não generalizando, existem pessoas que preferem viver seu momento, pois só assim conseguem a paz que anseiam, até um momento para refletir, estar só consigo. Pessoas que preferem discutir seus problemas e anseios consigo mesma. Pessoas timidas e até em alguns momentos inseguras.
Pessoas que preferem ficar no anonimato, falam pouco, não gostam de ser notadas. Ex: Existem algumas donas de casas que preferem ser eternamente donas de casas, cuidar de seus afazeres domesticos, e não interagir com outras pessoas. Tambem existem pessoas quietas, que falam pouco, não se comprometem com nada, tudo está sempre muito bom e até aquele, que nunca sorrir, sempre seria.
Estar introspectivo é exercer a capacidade de refletir sobre sua própria condição, voltar-se para suas ações, avaliar os resultados e, com isso, poder tomar decisões, mudar caminhos ou continuar. Esse conceito deve estar ligado à capacidade de fazer uma análise íntima de suas vivências e experiências.
Entre as principais vantagens de um introspectivo, destacam-se duas: o relativo controle sobre as ações e a administração de suas consequências.
O introspectivo é um observador
Segundo a psicanalista e psicóloga Katya de Azevedo Araújo, o conceito equivocado da introspecção é comum, principalmente por que a pessoa vai permanecer isolada por um determinado período, parecer distante e estar mais observadora. “Por isso, a primeira impressão é de que se trata de tristeza ou até mesmo depressão”.
Dessa forma, é normal que os amigos mais próximos ou familiares se mostrem preocupados com o introspectivo. Mas o que deve ser levado em conta é o que pode ter desencadeado esse quadro, especialmente nas crianças.
Se o pequeno está pensativo e faz reflexões depois de ser alertado por uma professora, por exemplo, é saudável que ele busque formas de melhorar seu comportamento ou desempenho, se for o caso.
A questão pode ser motivo de preocupação se a criança não está conseguindo acompanhar a turma ou se comporta mal em sala de aula. Nesse caso, o problema é outro. Por isso, o olhar de quem está perto, o cuidado e a observação são tão importantes. O introspectivo pode se tornar alguém triste, mas é preciso enxergar bem mais além.

Ser introspectivo não é ser tímido
Um caso clássico é o da timidez, que também pode ser confundida com estados de introspecção. De acordo com Katya, a timidez pode ser reflexo da dificuldade que a pessoa tem de se relacionar. Também se apresenta a partir da incapacidade de agir, da inibição e da insegurança. “Já o introspectivo, vai ter a força e a condição de pensar sobre si”, diz Katya.
Por isso, se você percebe alguém capaz de buscar soluções e evoluir por meio da autoanálise e do silêncio, aprenda com essa pessoa. Acredite que esse quadro se traduzir em crescimento e não em preocupação.
Ao contrário do que se pode pensar, o introspectivo não necessita de ajuda psicológica, a não ser que a origem esteja em problemas bem sérios, ou se a introspecção estiver associada a algum tipo de isolamento afetivo bem importante.

O lado ruim da introspecção
Quando falamos em “desvantagens” da introspecção, logo é possível relacionar o entendimento errado por parte de outras pessoas em relação ao seu estado. O introspectivo vai passar, na maioria das vezes, a impressão de tristeza ou de alguém com problemas tão sérios que podem ser incapazes de dividir com outros de seu círculo familiar ou de amizades.
O essencial, de acordo com Katya, é aceitar que, de maneira natural, esse estado é benéfico em qualquer momento da vida, em toda idade. Ele é fundamental para traçar metas, avaliar conquistas e estratégias.

12.930 – Comportamento – Timidez é genética?


timidez
Pode ser – pesquisadores acreditam que a genética é responsável por pelo menos 20% dos casos. Nos outros 80%, a causa é ambiental (veja abaixo). Mas a timidez não é considerada doença ou defeito. Ela só se torna um problema quando foge do controle e compromete a qualidade de vida do tímido. Por exemplo: quando o sujeito se recusa a comparecer a uma entrevista de emprego por medo, inibição ou vergonha. Nesses casos, ela passa a ser chamada de fobia social ou transtorno de ansiedade social. Tanto para a timidez de origem genética quanto para a de origem ambiental há tratamento. O mais indicado é a terapia comportamental, que consiste em treinar habilidades sociais específicas, como falar em público, puxar conversa com estranhos ou olhar nos olhos do interlocutor. No caso da fobia social, o médico também costuma prescrever antidepressivos.Tudo tem conserto: 70% das crianças tímidas tendem a se tornar mais expansivas até os 7 anos

TIMIDEZ DE CAUSA GENÉTICA

Um estudo da Universidade de Maryland mostra que o problema pode vir de uma mutação no gene 5-HTT, que transporta serotonina de um neurônio para o outro. Já outra pesquisa, da Universidade de Vanderbilt, mostra que o cérebro dos acanhados tem alterações em duas áreas: a amígdala e o hipocampo. Segundo um psicólogo de Harvard, a timidez genética se manifesta já nos primeiros dias de vida

TIMIDEZ DE CAUSA AMBIENTAL

A timidez pode ser fruto da convivência com pais rigorosos, que cobram muito dos filhos, ou negligentes, que raramente os elogiam. Com baixa autoestima, as crianças ficam suscetíveis a críticas, se sentem incapazes de conquistar algo sozinhas e têm pavor de rejeição. Situações estressantes, como a separação dos pais, ou traumáticas, como abuso sexual, também podem desencadear um perfil retraído

VOCÊ É TÍMIDO?

Se você tiver três ou mais destes sintomas e eles o incomodarem, considere procurar ajuda

– Quando está em público, sente a boca seca, rubor ou palidez, falta de ar e taquicardia ou transpira muito

– Sente insegurança e vergonha

– Tem medo de rejeição

– Tem baixa autoestima

– Gesticula pouco ou quase nada

– Evita olhar nos olhos

– Fala mais baixo que o habitual

– Sai pouco de casa e pratica poucas atividades

– Demora para se enturmar com grupos

11.166 – Psicologia – Ande como alguém feliz para ser feliz


Uma pesquisa publicadano Journal of Behavior Therapy and Experimental Psychiatry afirma que para se sentir feliz, basta caminhar como uma pessoa alegre. Durante o experimento, uma série de pessoas foi testada para saber se estufar o peito e balançar os braços realmente traz mais felicidade do que passos pesados e olhares cabisbaixos.
No estudo, o grupo teve de caminhar durante 15 minutos em uma esteira enquanto alguns fatores eram analisados. Os participantes foram acompanhados por câmeras com sensores de movimento. Na frente da esteira, uma tela mostrava as ações de um medidor – que pendia à esquerda quando caminhavam “deprimidos” e à direita quando “felizes”.
À medida que os minutos iam passando, a equipe de pesquisadores pedia para que as pessoas tentassem jogar o medidor para a esquerda ou para a direita. Só que antes de começarem o teste físico, os convidados tiveram que ler uma lista de palavras positivas e negativas.
Depois da caminhada, os participantes tiveram que escrever as palavras que lembravam. O resultado mostrou que quem caminhava de maneira mais triste (seguindo a lógica de outro estudo) conseguiu lembrar mais palavras tristes; e aqueles que andaram felizes se lembraram de mais palavras positivas.
Para os pesquisadores, essa lógica está alinhada a de outros trabalhos publicados sobre o tema. Segundo tais pesquisas, andar como um líder pode aumentar as chances de se tornar um; e segurar uma caneta com os lábios pode aumentar a vontade de sorrir. Então não custa nada andar mais “animado” por aí. Vai que contagia.

10.287- Psiquiatria – O que é o Transtorno explosivo intermitente?


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Descreve uma situação onde uma pessoa, nos momentos de raiva, não consegue conter seu comportamento e acaba perdendo o controle: xinga, berra, ameaça, destrói objetos, ataca fisicamente as pessoas. Possui as seguintes características 1 :
Apesar de não premeditar, depois desses ataques percebe que exagerou nas atitudes e sente vergonha, culpa e arrependimento.
Seus ataques de raiva nada têm a ver com o uso de álcool ou de drogas.
Apesar desses comportamentos, o portador do transtorno não tem problemas sérios com a Justiça.
Geralmente, na família há pessoas que apresentam o mesmo problema.
A pessoa apresenta dificuldade para controlar o impulso agressivo, na maioria das vezes, sua reação é explosiva e sempre muito desproporcional a situação que a desencadeou. Por exemplo: uma pessoa tem uma crise de fúria, joga coisas, xinga, grita porque a fila do cinema não anda. Essas atitudes não são premeditadas, ou seja, trata-se realmente de um impulso. Os portadores relatam que, às vezes, por uma fração de segundos, tem consciência do que está por ocorrer, mas não conseguem se controlar. Descrevem que esses momentos são precedidos de excitação crescente, alto nível de tensão, palpitações, aperto no peito, pensamentos raivosos etc., que os levam a fortes impulsos de agir agressivamente.
Após o ocorrido, sentem alívio da tensão e por algum tempo, acreditam que seus comportamentos são justificáveis. Invariavelmente, quando conseguem pensar com mais calma, sentem-se genuinamente arrependidos, com vergonha, culpados, tristes e confusos. O sentimento de base para o TEI é a raiva. Devemos, porém, considerar que a raiva é uma emoção normal que pode ocasionar sentimentos como aborrecimento ou irritação, e que somente quando fora de controle, torna-se destrutiva, causando problemas nas relações pessoais, de trabalho e qualidade de vida. Os indivíduos com esse transtorno frequentemente expressam raiva intensa e inadequada (para o estresse causado pelo ambiente ou situação), ou têm dificuldade para controlar essa raiva. São constantes também o extremo sarcasmo, a persistente amargura ou explosões verbais.
A raiva frequentemente vem à tona quando uma pessoa de sua simpatia é tida por eles como negligente, omisso, indiferente ou prestes a abandoná-lo. Durante períodos de extremo estresse pode ocorrer ideação paranóide ou sintomas dissociativos transitórios (por ex., despersonalização) mas estes, em geral, têm gravidade ou duração insuficiente para indicarem um outro diagnóstico psiquiátrico. Normalmente a maioria das pessoas acometidas desse mal acha que isso é normal e nega ser doente. A negação também faz parte das doenças da mente, mas se submetidas ao exame de “mapeamento cerebral” ficarão estarrecidas com o resultado porque o exame irá denunciá-las.
O Transtorno Explosivo Intermitente se percebe naquele indivíduo que, popularmente, é descrito como tendo “pavio curto” por não conseguir resistir aos seus impulsos agressivos.Desta forma, se tornam pessoas que têm dificuldade em avaliar as consequências de seus atos e, são levados a ter comportamentos agressivos, ataques de fúria e de agressividade, tais como, ameaçar, berrar, xingar, fazer gestos obscenos,falar palavrões, desrespeitar leis de trânsito, atirar objetos, envolver-se em brigas com a família, no trabalho,nas relações sociais e destruir objetos e propriedades.No entanto, seus ataques de agressividade não são premeditados, o que faz sentirem-se responsáveis por seus atos, demonstrando arrependimento, vergonha, culpa e tristeza.
As causas podem ser biológicas e/ou psico-sociais:
Biológica: disfunção na produção de serotonina.
Psico-sociais: Essas pessoas normalmente conviveram em famílias instáveis onde as explosões verbais e os abusos físicos e emocionais eram frequentes. Muitas vezes encontram-se nesses ambientes pessoas dependentes de álcool ou drogas.O portador apresenta baixa tolerância à frustração, e dificuldade para administrar sentimentos de raiva e hostilidade, são instáveis afetivamente, pois não sabem controlar seus sentimentos e emoções. Entendem que “o mundo está contra eles” e acabam por repetir o mesmo modelo de comportamento vivenciado na infância, acreditando ser essa uma forma de restaurar a auto-estima fragilizada.
perda de controle da agressividade superior a 2 vezes por semana;
ataques de agressividade não premeditados;
desproporcionais ao evento que o desecadeou;
sentimentos de culpa, vergonha, arrependimento,depois de um certo tempo, em relação aos ataques agressivos;
presença de familiares que apresentem características semelhantes;
crises de agressividade impulsivas, repentinas;
destruição de objetos e propriedades;
comportamento precedido de sensações físicas como: forte tensão, formigamento, tremores, palpitações, aperto no peito, tensão nas costas, pressão na cabeça, pensamentos raivosos que os levam a fortes impulsos de agir agressivamente;
relatam vontade de “matar alguém” ,“necessidade de ferir ou atacar”, ou frases como “é como um pico de adrenalina” ou “como se eu estivesse com sangue nos olhos”;
sensação de alívio imediatamente após a crise.

7844 – Comportamento – Quem foi o “Pai dos Hippies”?


74.928. Essas foram, reza a lenda, as últimas palavras balbuciadas pelo espantoso Neal Cassady. Quem escutou o enigmático suspiro foi um mirrado grupo de índios tahaumaras que passava ao lado da linha férrea no ardente deserto mexicano, a 4 quilômetros da estação mais próxima, em Guanajuato, norte do México. Era a manhã de 4 de fevereiro de 1968, e os nativos evidentemente não alcançaram o significado dos algarismos que, junto com o último suspiro, derramaram-se da boca ressequida do gringo poeirento caído junto aos trilhos.
Se vivesse quatro dias mais, Neal Cassady iria comemorar seu 42º aniversário. Mas ninguém pode dizer que foi pego de surpresa pela morte – e, menos ainda, que ela não tenha sido coerente com a trajetória do falecido. Cassady morreu drogado, sozinho, (relativamente) jovem, no auto-exílio e à beira do caminho. O nobre selvagem que influenciou toda a literatura e a geração beat foi um desses personagens definitivamente maiores que a vida. Foi o frenético protagonista de On the Road, de Jack Kerouac, o “herói secreto” de Allen Ginsberg, um coquetel de James Dean com Marlon Brando e uma pitada de Maiakovski, o vagabundo celestial, o pai de todos os hippies, o patrono da delinqüência juvenil e da rebeldia sem causa, o motorista sem limites. Um genuíno herói americano.
Nascido em Salt Lake City em 8 de fevereiro de 1926, criado nos becos de Denver, Colorado, por um pai alcoólatra, Neal passou a adolescência em reformatórios lendo Nietzsche e histórias em quadrinhos (sem entender bem nenhum dos dois) e escrevendo longas, loucas cartas. Pelas vias transversas que sempre marcaram sua vida, tais cartas chegaram às mãos (e aos espíritos) de Ginsberg e Kerouac. E deflagraram uma revolução literária na América.
O vertiginoso estilo de Neal, sua torrente verbal sem pontos ou vírgulas, desatolou Kerouac do areal criativo onde ele se encontrava e o levou a escrever, em delirantes três semanas, o clássico On the Road – Pé na Estrada (1957). É o livro que transformou Cassady em personagem imortal. A vida (e a incipiente obra) do homem que Kerouac batizou no livro como Dean Moriarty também inspirou Ginsberg a criar um dos mais fulgurantes e sombrios poemas dos tempos modernos, Uivo (1956). A súbita fama tornou Neal Cassady prisioneiro da própria lenda. Mas ele ainda conseguiu incrementá-la ao partir com Ken Kesey (autor de Um Estranho no Ninho, 1962) em uma louca viagem de ônibus e de ácido, de costa a costa da América. Em meio a tantas vertigens, Neal escreveu seu único livro, parte inicial de uma autobiografia inconclusa, chamado O Primeiro Terço (lançado três anos após sua morte).
O fim da linha se deu naquela manhã de 1968. Após ingerir colossais doses de pulque, bebida fermentada feita de cacto, Cassady partiu, doidão e a pé, de Celaya, cidadezinha no meio de nada, até San Miguel de Allende, próxima a lugar nenhum, anunciando para sua jovem amante que iria contar quantos dormentes havia na linha férrea entre um vilarejo e o outro.
74.928, foi o que os tahaumaras escutaram o gringo dizer, antes que a insolação e a desolação levassem Cassady para brincar em outros campos do Senhor.

6177 – Psicologia – A Lavagem Cerebral


Apesar de não existir consenso sobre até que ponto é possível substituir convicções e comportamentos, não faltam estudos sobre o processo de lavagem cerebral. O termo passou a ser usado no Ocidente durante a Guerra da Coreia (1950-53), para descrever o comportamento de soldados americanos que, após um período capturados, voltavam defendendo os ideais comunistas dos inimigos China e Coreia do Norte. Aparentemente, não era teatro. Os soldados tinham “virado a casaca”, exibindo atitudes incompatíveis com as de antes.
Muitos daqueles prisioneiros haviam sofrido torturas físicas que tornaram sua mente vulnerável; com outros, o processo foi menos óbvio e mais sutil, envolvendo a vítima sem que ela se desse conta. Seja qual for a estratégia, é essencial o elemento-surpresa.
Isso porque somos programados para reagir imediatamente a estímulos intensos: quando um ladrão pula na sua frente ou um carro vai em sua direção, o cérebro não perde tempo com análises. O caso nem passa pelo córtex pré-frontal, responsável pelo raciocínio complexo; vai direto para áreas cerebrais menos evoluídas, que decidem rapidamente o que fazer. Ou seja, quem quiser provocar novas crenças e comportamentos em alguém precisa criar situações que exijam reações automáticas, pois nelas o processo consciente é desativado.
Pessoas que se dizem manipuladas por igrejas e cultos religiosos descrevem um programa intenso de atividades, palestras, celebrações e tarefas como distribuir panfletos, limpar o chão, fazer comida. Imersa nessa rotina, que geralmente prevê poucas horas de sono, a vítima fica tão cansada que literalmente não tem tempo para pensar sobre o que está acontecendo.

É a mesma técnica, por exemplo, daquele vendedor tagarela que o deixa confuso e faz com que você compre uma coisa de que não precisa, só para se livrar do chato. Em alguns casos, antes de iniciar o processo a pessoa já está fragilizada por alguma outra situação. “O fim de um relacionamento, um divórcio, a morte de alguém querido, até se formar na escola ou mudar de emprego pode tornar uma pessoa vulnerável, uma vez que tira o indivíduo de seu equilíbrio”, diz um psicólogo americano.
Outro exemplo: um prisioneiro de guerra, depois de enfrentar tortura e jejum, é levado para tomar banho quente e fazer uma refeição enquanto escuta alguém descrevendo as maravilhas da doutrina comunista. Com a repetição do método, ele inconscientemente passará a associar comunismo a bem-estar. Se você se lembrou do filme Laranja Mecânica (1971), clássico do diretor Stanley Kubrick, acertou na mosca.

Na história, o personagem principal é um adolescente ultraviolento que se diverte torturando e estuprando por aí. Após ser preso, ele se oferece para um tratamento experimental que promete torná-lo um ser totalmente desprovido de violência.

O tratamento consiste em submetê-lo a sensações físicas desagradáveis (náuseas muito intensas) e a imagens violentas ao mesmo tempo, forçando seu inconsciente a associar as duas coisas. No final, o personagem passa a sofrer sensações físicas insuportáveis toda vez que tem contato com ideias ou situações violentas. (O irônico efeito colateral é que o jovem também fica condicionado a vomitar quando ouve a 9ª Sinfonia de Beethoven, trilha sonora usada nos filmes da prisão.)

Esse processo não pode ser considerado lavagem cerebral, pois não muda as convicções do indivíduo. Mas é um exemplo extremo de como podemos ser condicionados a fazer relações inconscientes de sensações com ideias.
Para a escritora Kathleen Taylor, a principal arma para evitar manipulações é, basicamente, “parar e pensar nas coisas”. Sem se deixar levar pela afobação, fica fácil resistir tanto ao discurso nacionalista de um político quanto ao papo emocional de um pregador religioso.
Outro ponto importante é não subestimar a influência que o meio e a autoridade podem ter sobre nós, já medidos em experimentos clássicos de psicologia social. A necessidade de ser aceito em um grupo leva muitas vezes ao “efeito rebanho”, identificado na década de 1950 pelo psicólogo americano Solomon Asch e muito antes por quem inventou a expressão “maria-vai-com-as-outras”.

2862 – Comportamento: Viva a lei de Gérson!


Somos mesmo uma nação de egoístas, corruptos e sacanas, que só pensam em si e só querem saber de levar vantagem. Certo?
O meio-campista Gérson ficou célebre não apenas por ter sido uma das maiores estrelas do tricampeonato brasileiro em 1970, mas por ter formulado, na propaganda do cigarro Vila Rica veiculada anos depois, aquela que viria a ser conhecida como lei de Gérson: “O importante é levar vantagem em tudo, certo?” – frase dita num carregado sotaque carioca, forçando os erres até o palato ficar encharcado. Gérson tentou por muito tempo se desvencilhar da fama de patrocinador dos espertalhões, patrono dos corruptos e propagandista dos canalhas, mas não teve jeito. A lei de Gérson pegou. Sociólogos, antropólogos e a nata da intelectualidade brasileira já gastaram horas e mais horas, tinta e mais tinta, neurônios e mais neurônios para condenar nossa brasileira condição gersoniana. Somos mesmo uma nação de egoístas, corruptos e sacanas, que só pensam em si e só querem saber de levar vantagem. Certo?
Errado. No fundo, Gérson deveria ter é orgulho. Só a lei de Gérson nos salva nesta era politicamente correta, em que anão virou “verticalmente prejudicado”, pobre virou “excluído social”, débil mental virou “diferentemente capacitado” e em que nem propaganda de cigarro é mais possível fazer sem pedir desculpas em letras garrafais. O enunciado da lei de Gérson põe a nu a essência do nosso caráter sem pudor: somos um povo que gosta de levar vantagem. E daí? Alguém aí teria orgulho de fazer parte de uma nação de trouxas e otários?
Ninguém aqui vai defender um comportamento antiético ou ilegal com base no enunciado da lei de Gérson. Se ela existe, é em primeiro lugar reflexo da nossa realidade. Veja o caso das nossas empresas. Na hora de dar entrevista e aparecer na mídia, todas querem loas a sua responsabilidade social corporativa e boa cidadania. Na hora de declarar imposto, de desempatar alguma pendenga judicial ou de conseguir autorização para obras, estão todas atrás do primeiro Rocha Mattos de plantão para livrar-lhes a cara, já que, em meio à nossa barafunda legal, a propina é questão de sobrevivência e só ela faz a economia andar.
Parece que o povo brasileiro vive uma tensão entre duas forças. Por fora, a força da imagem. Em público, todos têm de ser como que sacerdotes, com comportamento impecável, retidão moral absoluta, espinha dorsal inflexível. Os políticos corruptos são condenados com virulência, qualquer deslize de executivos tem de ser punido de forma exemplar, damos a nossos filhos a impressão de que a ira divina se abaterá sobre suas menores falhas. Esse sentimento faz a fortuna e a desgraça de prefeitos, governadores e presidentes. Por dentro, porém, irrompe a força de Gérson. Ninguém agüenta essa pressão hipócrita. Todos querem o melhor para si – e que mal há de haver nisso? De posse da menor fímbria de poder, de uma tênue nesga de oportunidade, não raro transgredimos as mesmíssimas regras cuja transgressão acabamos de condenar nos outros. Julgamos, condenamos, enforcamos e esquartejamos Gérson. Mas Gérson somos nós. Eis nosso dilema.
Para que tanta hipocrisia? Nada disso precisa ser assim. A lei de Gérson muito deveria nos honrar. Basta despi-la da hipocrisia para perceber que é a esperteza nacional que faz o Brasil se destacar em meio à mediocridade reinante no planeta politicamente correto, em que tudo tem de ser igual e insosso, em que todos acham que têm direito a tudo, em que a criatividade – e a verdadeira diferença – foram banidas. Na América Latina, os argentinos choram suas tristezas frustradas num tango melancólico, enquanto nós brasileiros damos risadas de nossas sacanagens num alegre sambinha. Qual o problema se podemos ser espertos e felizes? Quem disse que ser esperto é ruim ou necessariamente antiético? Por que ter vergonha disso em vez de usar a esperteza a nosso favor?
O empreendedorismo e a criatividade do brasileiro nada mais são que expressões dessa faceta mais nobre da lei de Gérson. Afinal, empreender não é saber aproveitar oportunidades? Criar não é violar regras estabelecidas e preconcebidas? Tudo isso não é, no fundo, saber levar vantagem? Vamos largar a mão de ser bestas e incorporar com orgulho nosso lado Macunaíma. Vamos dar um basta à histeria politicamente correta que infesta a humanidade e usar nosso próprio antídoto: a boa e velha lei de Gérson.

013-Mega Memória – Além do tombo, o coice


Dois ladrões em Rondônia começaram mal o ano de 2001. Ao roubarem um carro em Porto Velho, beberam o conteúdo de 12 frascos que estavam num isopor no porta-malas. Pensaram se tratar de iogurte, mas era sangue com malária e doenças como AIDS e sífilis. Ao serem presos, souberam que haviam bebido sangue contaminado.
Acidente com fogos de artifícios na virada de ano – Na virada do milênio, a Praia de Copacabana, no RJ foi palco da maior festa de reveillon no Brasil. Ano vem, ano vai e tudo fica na mesma, mas desta vez, depois do caso Bateau Much, do qual já nos referimos, uma explosão deixou 39 feridos numa multidão de mais de 2 milhões de pessoas que assistiram ao espetáculo pirotécnico. Uma das bombas explodiu a 2 metros do chão, com o efeito devastador de uma granada. Um mecânico teve queimaduras e a traquéia perfurada. Foi medicado com pomada e liberado, morrendo depois na tarde do dia 1° no Hospital Miguel Couto. Em São Paulo, houve pancadaria, para variar. Os inquéritos policiais não deram em nada.
Corrupção Política – Fujimori “meteu a mão”
Ele se exilou no Japão há alguns anos e os peruanos tentaram lavar a roupa suja. A justiça havia rastreado 70 milhões de dólares de Montesino, ex chefe de serviço de inteligência e braço direito de Fujimori. Em 17 contas em bancos suíços e na época fugiu. Acreditava-se que esse dinheiro fosse apenas a ponta de um iceberg e que o total seja uns 500 milhões de dólares. Como vemos, o problema é geral, não apenas no Brasil.

Comportamento-De olho no planeta


Nos EUA, os prejuízos causados pelas fraudes na previdência pairam em torno de 50 a 80 bilhões de dólares anuais, desonestidade típica de vilões que se safam impunes. A atual geração de crianças são desobedientes e sem respeito, motivo: talvez a violência na TV e a permissividade. A violência doméstica é a principal causa de lesões corporais e a morte entre mulheres americanas, batendo os acidentes automobilísticos. Jovens assassinos é outro problema. E o número muito grande de horas gasto com a mídia eletrônica. O século 20 foi de melhoramentos sociais, mas foi também de metralhadora, mísseis, bomba atômica e armas químicas e bacteriológicas. A fome tem ameaçado devastar o planeta. A luta do governo americano contra a AIDS custa mais de 500 milhões de dólares por ano, ainda a principal causa da morte de homens entre 25 a 44 anos.
Capitalismo Selvagem
A UNICEF afirma: a África subsaariana sofre um holocausto financeiro. 220 milhões de pessoas vivem em pobreza absoluta e incapazes de cuidarem de suas necessidades mais básicas. Estão também 20% mais pobres do que a uma década atrás. Na educação as décadas de 1980 e 1990 foram perdidas , com a queda dos gastos por aluno e o número de matriculas nas escolas de primeiro grau. As clínicas estão fechando pela carência de profissionais e medicamentos

Comportamento – O beijo


Um juiz de Sorocaba a 90 km de SP em fevereiro de 1981 decidiu proibir o beijo na cidade. Houve um ato de protesto chamado a noite do beijo, que apesar do nome , acabou em pancadaria. O ato surgiu há milênios quando a criança após sugar o peito recebia alimentação solida pela mãe passada a boca, a maneira de certos animais e pássaros. Psiquiatras como Sigmund Freud se preocuparam em interpretar como evoluiu esse movimento. Uma de suas primeiras representações são as esculturas e murais do templo de Khajuraho, na Índia que datam do ano 2500 AC. No século 5AC, o historiador Heródoto chegou a descrever os vários tipos de beijo e seu significado entre persas e árabes. Foi relatado que quando as pessoas pertenciam ao mesmo nível social se beijavam na boca, do contrário, no rosto. Os preconceitos são antigos: o historiador grego Plutarco , conta Catão o censor, (234-149AC) cassou o mandato do senador Pretórius porque foi visto beijando a mulher em público. Mas os romanos nada tinham contra. Os japoneses antigos não se beijavam ; um chefe de polícia japonês declarou que “ o beijo é um detestável hábito europeu, que nós aqui, desejamos que não se cultive. Foi no cinema que teve sua propagação. Em 1896, numa pequena sala de projeções em Los Angeles, diante de 73 espectadores, May Irwin e John Rice beijaram-se durante 4 segundos. O filme foi boicotado e a imprensa chamou de moral de taverna, mas Hollywood insistiu. Em 1926 chegou as telas o filme Dom Juan onde o ator principal deu 191 beijos em várias atrizes, recorde ainda não superado no cinema.

Mega Massacre – Negligência no mundo desenvolvido permitiu genocídio na África


Em 1994 os presidentes Hutus de Ruanda e de Burundi foram mortos por um míssil que atingiu o avião que viajavam. Apesar da autoria do ataque ser desconhecida, o governo ruandês identificou seu inimigo e lançou uma intensa campanha de acirramento de ódio racial que culminou em 7 de abril com a conclamação da população em dizimar seus rivais étnicos, os tutsis, e os hutus moderados que se opunham ao uso da violência. Cerca de 1 milhão de pessoas foram mortas, a maioria a golpes de facões e clavas desferidos por civis. Há indícios que os principais governos mundiais sabiam da iminência do conflito, mas não tomaram providências.