10.462 -Astronomia – Em busca das mega civilizações


A hipótese é a seguinte: supercivilizações precisam de megafontes de energia para alimentar seus hiperequipamentos, ultrafamintos por eletricidade – está pensando que teletransporte, viagens no tempo e outras supertecnologias são econômicas? Não sabemos, mas provavelmente não. A regra de que não existe almoço grátis fatalmente vale para o Cosmos todo: quanto maior o desenvolvimento, maior a demanda por energia. Aí que os gastos com energia vão mesmo para a estratosfera – se escoar soja do Mato Grosso já demanda um oceano de diesel, imagina transportar matéria-prima entre um planeta e outro.
Desnecessário dizer que diesel não resolve o problema num caso desses (nem no nosso, mas essa é outra história). O jeito mais racional de obter energia nessa escala absurda, imaginam os cientistas terráqueos, é apelar para o Sol. Ou seja, explorar ao máximo a radiação emitida pela estrela-mãe do planeta em questão. Mas não, painéis solares como os conhecemos não dariam nem para o começo. Os nossos amigos de uma hipercivilização com comércio interplanetário precisariam de painéis grandes. Grandes mesmo. Mastodônticos, com centenas de milhões de quilômetros de extensão. A coisa formaria anéis em torno da estrela, como esta mandala que vemos na figura.

esferadedyson

O conceito é conhecido como Esfera de Dyson, assim batizada em homenagem ao físico e matemático britânico que primeiro apresentou o conceito, Freeman Dyson, hoje com 90 anos. Ele partiu do pressuposto de que todas as civilizações tecnológicas constantemente aumentam sua demanda por energia. Pensando em termos terráqueos, se essa tendência (que existe hoje em nossa própria civilização) continuar por tempo suficiente, chegará o dia em que precisaremos de quase 100% da energia emitida pelo Sol para mantermos nossas máquinas funcionando.
Quando essa hora chegar, a melhor solução seria construir essas instalações espaciais cosmofaraônicas em torno de nossa estrela – daria para transmitir a energia via micro-ondas, sem fio, direto do espaço para os planetas em que houver colônias. Dyson apresentou a noção num artigo publicado em 1960 na revista Science, mas a inspiração original veio da ficção científica, que já na década de 1930 falava do assunto.
Se os escritores de ficção científica e Freeman Dyson estiverem certos, e alguém lá em cima já tiver construído uma superestrutura dessas, não seria tão difícil detectar a presença de uma delas hoje mesmo, usando os melhores telescópios disponíveis aqui na Terra.
É exatamente isso que Geoff Marcy, da Universidade da Califórnia, quer procurar. “Estamos buscando estrelas que fiquem completamente escuras por um tempo e depois brilhem de novo”, diz o americano. “Essa mudança drástica no brilho aconteceria se uma civilização cobrisse sua estrela com anéis para coletar sua luz. Esperamos detectar essas esferas Dyson ao procurar por estrelas que mudem de brilho dramaticamente.”
Marcy pode se dar ao luxo de propor coisas nessa linha. Ele construiu uma reputação de cientista de primeira grandeza a partir da década de 1990, quando começou a descobrir os primeiros planetas fora do Sistema Solar. Por pouco, ele não foi o astrônomo que encontrou o primeiro mundo extrassolar, descoberto pelo grupo rival de Michel Mayor, do Observatório de Genebra, em 1995.
Marcy, contudo, foi responsável pela descoberta do primeiro sistema com múltiplos planetas e já soma mais de 110 planetas descobertos. No momento, ele trabalha na equipe do satélite Kepler, da Nasa, que já encontrou milhares de planetas-candidatos durante sua missão de observação de apenas uma pequena parte do céu. E a proposta de procurar sinais de civilizações avançadas está sendo levada a sério. Marcy recebeu um financiamento de US$ 200 mil, que estão sendo pagos entre 2013 e 2014, para procurar por elas justamente nas estrelas observadas pelo Kepler. São cerca de 160 mil estrelas monitoradas constantemente pelo telescópio orbital, mas Marcy deve se concentrar em apenas mil delas, as que pareçam mais amigáveis à existência de planetas potencialmente habitáveis (ou seja: estrelas médias, como o Sol, nem muito ofuscantes, nem muito apagadas).
Mas e se os ETs estiverem usando pulsos de laser, em vez de ondas de rádio? Essa é a segunda grande aposta de Marcy. Ele aponta que os militares americanos já estão usando cada vez mais laser, em vez de rádio, para se comunicar com suas espaçonaves. “Lasers são mais eficientes do ponto de vista energético, e eles permitem que dois grupos se comuniquem com mais privacidade”, diz o astrônomo.
Até agora, houve um sinal esquisito de laser detectado em 2009 na Austrália, mas não tiveram como confirmar sua suposta natureza artificial, porque ela não se repetiu – a exemplo do que já tinha acontecido com as buscas por sinais de rádio. Em 1977, um radiossinal com cara de artificial, formando padrões aparentemente repetidos, foi detectado em Ohio, levando o operador do radiotelescópio a anotar “Uau!” em seus relatórios. Mas o fenômeno nunca mais aconteceu de novo.
Bom, a verdade é que, se somos ruins para prever o futuro da humanidade, calcule o desafio de especular sobre o que estão fazendo civilizações alienígenas bem mais avançadas do que nós. Marcy se dá conta do tamanho do problema. “Talvez eles não transmitam ondas de rádio ou qualquer outro comprimento de onda de luz”.