14.431 – Por que as aves têm bicos em formatos diferentes?



Porque cada uma evolução para se adaptar ao tipo de alimento que consome. A disputa por comida foi o principal motor dessa adaptação, e hoje temos espécies que são altamente adequadas a uma dieta específica. Isso pode ser um problema: mudanças drásticas no meio ambiente (como as causadas pelo homem) podem alterar as fontes de alimento e causar rapidamente a extinção de uma espécie.
Apesar das diferenças no formato e no uso, todos os bicos são feitos de uma estrutura óssea com uma camada de queratina (a mesma proteína presente nas nossas unhas e cabelos).
Eles crescem continuamente conforme são desgastados, ao longo de toda a vida do pássaro. Veja como cada tipo de ave utiliza o órgão para se alimentar.
• Tipo – Filtradora
• Alimento – Crustáceos, plânctons, insetos e moluscos
• Exemplo – Flamingo
Nesse pássaro muito comum na América do Sul e na África, o órgão é amplo e possui pequenas placas que funcionam como peneiras. A água vaza e o alimento fica.
• Tipo – Insetívora
• Alimento – Insetos e larvas
• Exemplo – Pica-pau-de-topete-vermelho
Algumas espécies desse grupo têm o bico fino e reto para capturar insetos em pleno voo. Já o pica-pau, famoso por causa de sua versão em desenho animado, tem o órgão forte para penetrar o tronco das árvores e a língua comprida para papar as larvas escondidas lá dentro.
Conhecido por atacar o ninho de outras aves para comê-las, o gavião-carijó usa seu bico em forma de gancho para cortar e rasgar o corpo de suas presas.
Para alcançar as vísceras de um cadáver, o urubu desenvolveu um bico bem longo. O gancho, na ponta, não é tão eficiente quanto o do gavião: são necessários vários urubus trabalhando em grupo para rasgar a pele da “vítima”. Por isso sempre há vários em volta de uma carcaça.
Beija-flor

Essa avezinha precisa de muita energia para conseguir bater as asas 80 vezes por segundo. Por isso, alimenta-se com bastante frequência, usando seu bico longo e língua comprida para alcançar o néctar nas partes mais profundas das flores. Desse jeito, acaba colaborando com o processo de polinização.
Bem-te-vi

Pássaros onívoros comem de tudo, então precisam ter um bico com múltiplas funções. Normalmente longo e reto, ele funciona como uma pinça, facilitando na captura de minhocas, pequenas cobras, lagartos, insetos e ovos de outros pássaros.
Talha-mar
Para caçar, essa ave dá voos rasantes sobre a superfície da água, com o bico bem aberto, capturando os peixes que encontra pelo caminho.
É por isso que a parte inferior do órgão é mais comprida que a superior. O pelicano pesca de forma similar, armazenando o alimento numa bolsa próxima ao pescoço.

14.403 – Biologia – O Enigma da Migração



Os animais migram por diversas razões. Muitos fazem isso para procriar ou para encontrar alimentos. Alguns animais migram para lugares onde possam hibernar, ou repousar durante o inverno. Outros mudam de ambiente devido ao excesso de calor ou de frio, ou por causa da chuva ou da seca em certas épocas do ano.
A migração envolve percursos na água, na terra ou no ar. Muitas aves e morcegos do hemisfério Norte voam na direção sul no inverno. Certas baleias saem de regiões polares frias e nadam para águas mais quentes no inverno. Outras migrações são verticais. Por exemplo, os cervos-de-orelhas-longas do oeste dos Estados Unidos trocam as partes mais altas das montanhas por outras regiões mais baixas no inverno. Algumas minhocas fogem da superfície do solo para as profundezas do subsolo.
Os animais se deslocam algumas centenas de metros ou vários milhares de quilômetros. Rãs percorrem distâncias curtas até lagos para se reproduzir. Já a andorinha-do-mar-ártica passa o verão no polo Norte e o inverno na Antártica, viajando cerca de 18.000 quilômetros. As migrações podem ocorrer de dia ou à noite. Aves como os gansos voam durante o dia. Pardais, pequenas aves canoras e tordos viajam à noite.
Durante a migração, os animais conseguem se orientar ao longo de rotas longas e complexas. Eles usam acidentes geográficos, como rios e montanhas, para saber onde estão. Cientistas acham que muitos animais usam também a posição do Sol e das estrelas para achar seu caminho. Certos animais, como o salmão, usam o sentido do olfato.

14.395 – A Longa vida da “Galinha Verde” – Quanto vive um Papagaio?


Fonte: FAPESP


Com 35 centímetros de comprimento e peso médio de 400 gramas, o papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva) vive 60 anos, em média, e pode chegar aos 80. Uma equipe coordenada pelo biólogo brasileiro Cláudio Vianna de Mello, da Universidade de Saúde e Ciência do Oregon, nos Estados Unidos, fez o sequenciamento completo do genoma dessa ave e identificou pelo menos 300 genes que podem estar associados à sua vida longa (Current Biology, 6 de dezembro). Um deles é o Tert, que codifica uma proteína da enzima telomerase, que protege os telômeros, estruturas das extremidades dos cromossomos. A telomerase impede que os cromossomos se deteriorem durante a divisão celular e nesses papagaios seria mais ativa, retardando o envelhecimento das células. Os pesquisadores também identificaram mutações em genes associados a mecanismos de reparo no DNA, controle de proliferação celular e proteção a estresse oxidativo do sistema imune que poderiam aumentar a longevidade. O genoma do papagaio foi comparado com o de outras 30 espécies de aves, incluindo longevas, como a araracanga (Ara macao), que vive de 40 a 60 anos. O estudo sinaliza que regiões de DNA do papagaio que divergem do padrão encontrado em outras aves longevas e trechos regulatórios de genes envolvidos no desenvolvimento do cérebro poderiam estar associados ao aumento da capacidade cognitiva dessa espécie. O papagaio-verdadeiro tem um colorido único: as fêmeas adultas exibem uma plumagem vermelho-alaranjado com um fino anel externo avermelhado na íris; nos machos, de bico negro, esse detalhe é amarelo-alaranjado.

14.382 – Neurociência – Animais tem Consciência?


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A questão vai muito além da neurologia. De um ponto de vista técnico, saber se um animal tem consciência é o mesmo problema que saber se um paciente em coma ou em estado vegetativo tem consciência. Ambas são questões objetivas sobre a estrutura e a atividade do cérebro. Tudo que acontece em nossa mente tem uma correlação na atividade neural, e a consciência não é exceção. Os pesquisadores já têm inclusive um conscienciômetro, um aparelho que atribui um número ao grau de consciência de uma pessoa – enquanto a anestesiam, por exemplo −, ou indica se sofreu um dano cerebral. Com alguns ajustes, ele poderia ser utilizado com qualquer animal, o que nos daria uma medida objetiva do grau em que um animal pode sentir e sofrer.

Definir a consciência é muito difícil − como definir algo sem saber em que consiste? −, mas às vezes uma parábola funciona melhor que uma definição: consciência é aquilo que você perde ao dormir e recupera ao acordar. As dobras do edredom que nos cobre, o aroma de café que chega da cozinha, o som das buzinas que atravessa a janela. A sensação de estar vivo. E também a capacidade de sofrer, de sentir dor, as suas lembranças e a obscura previsão de seu futuro. “Não sei defini-la, mas a reconheço quando a vejo”, como disse o juiz Potter Stewart sobre a pornografia. Em espanhol, o problema é agravado pela confusão entre conciencia (conscience) e consciencia (consciousness), ou entre o significado moral e o neurológico. A confusão existe também na língua portuguesa, já que a mesma palavra, consciência, é usada para os dois sentidos.

Apesar dos problemas filosóficos colocados por sua definição, nos últimos anos os neurocientistas deram passos notáveis para a compreensão da consciência, que afetam diretamente o debate sobre o sofrimento animal. O documento de referência continua sendo a Declaração de Cambridge sobre a Consciência, acordada em 2012 por uma elite de neurocientistas nessa cidade britânica. E as pesquisas recentes reforçam seus argumentos.

Philip Low, fundador e CEO da empresa de neurodiagnóstico NeuroVigil, na Califórnia; Christof Koch, do Instituto Allen de Ciências do Cérebro, em Seattle; David Edelman, do Instituto de Neurociências de La Jolla, Califórnia, e outros neurocientistas de prestígio transmitiram uma mensagem clara na Declaração de Cambridge. Tanto em humanos como em outros animais foram identificados circuitos homólogos cuja atividade coincide com a experiência consciente. Além disso, os circuitos neuronais que se ativam enquanto uma pessoa sente uma emoção são essenciais para que um rato experimente a mesma emoção. Isso é impressionante, pois os humanos e os ratos evoluem separadamente há 200 milhões de anos. Aponta para uma origem comum dos sistemas emocionais nas fases iniciais da vida animal.

“Embora tenham ocorrido muitas atualizações na neurociência, o campo chegou há muito tempo à conclusão incorporada na Declaração de Cambridge de que pelo menos muitos animais não humanos, incluindo todos os mamíferos, têm consciência e têm capacidade de sofrer”, diz Low por correio eletrônico. Consciente de estar falando com um jornal espanhol, o neurocientista se mostra muito crítico em relação às touradas. “Outros países, como Brasil, Canadá, Colômbia, França, Índia, Nova Zelândia, Portugal e Suíça, estão se movendo para o futuro e começaram a fazer mudanças progressistas”, diz.

“Ainda é necessário muito progresso na pesquisa farmacêutica, pois essas empresas só podem patentear moléculas artificiais, que depois testam em animais”, prossegue Low. “Todos os anos, cerca de 100 milhões de vertebrados são sacrificados, mais de 40 bilhões de dólares são investidos, e 94% das moléculas falham em animais. Além disso, 98% das que são aprovadas nessa fase acabam falhando nos testes com humanos. Isso está aquém do desejado e é muito caro. Entender o papel que nosso estilo de vida, e em especial de nossa dieta, tem na saúde será tão essencial como identificar sinais precoces de doenças. As pessoas deveriam prestar mais atenção aos estudos que vinculam os lácteos e a carne vermelha ao Parkinson e ao câncer, respectivamente.”

Juan Lerma, professor de pesquisa do Instituto de Neurociências de Alicante, também afirma que os animais têm consciência, sensibilidade e capacidade de sofrer, mas aponta algumas nuances. “É preciso fugir de todo antropocentrismo”, diz. “As pessoas tendem a aplicar aos animais nossos próprios sentimentos; não faz sentido dizer que um peixe se deprime, mas isso é dito inclusive em artigos técnicos. Os camundongos do meu laboratório não estão se perguntando se têm consciência.”
“Animais não-humanos como mamíferos e aves, e vários outros, incluindo o polvo, também possuem as faculdades neurológicas que geram consciência”, declarou o grupo, na chamada Declaração de Cambridge. Minha primeira reação foi de total incredulidade. Nós realmente precisávamos de um anúncio para definir algo tão óbvio?
mesmo que não saibam quem são, eles têm consciência de sua própria dor. Sabemos, por exemplo, que ratos e galinhas sentem empatia. Eles conseguem se colocar no lugar dos bichos ao redor e sentem pena ao vê-los sofrer.
Elefantes vivenciam alegria, luto e depressão. Lamentam a perda dos amigos, assim como os cães, chimpanzés e raposas vermelhas.
Os polvos foram protegidos de pesquisas invasivas no Reino Unido bem antes dos chimpanzés, pois os cientistas já haviam reconhecido que eles são conscientes e sentem dor.
Estima-se que 25 milhões de ratos, pássaros, peixes e outros animais sejam usados todo ano em experimentos de laboratório. Muitos passam por um sofrimento terrível.
As pessoas justificam atitudes assim dizendo que vão ajudar os humanos. No entanto, mais de 90% das drogas que funcionam em animais não têm o mesmo efeito em nós. Menos de 10% delas nos ajudam de fato.
Cientistas famosos finalmente admitem que animais têm consciência.

14.371 – Biologia – O animal que consegue sobreviver sem oxigênio


bacteria sem oxigenio
Em 2010, parecia que os livros de biologia teriam de ser reescritos. No fundo do Mar Mediterrâneo, em um dos ambientes mais extremos da Terra, um grupo de pesquisadores encontrou evidências de um animal que é capaz de viver toda a sua vida sem oxigênio.
Nenhuma outra espécie animal entre o milhão de conhecidas consegue fazer isso. O oxigênio, em qualquer forma física, é considerado vital para a vida animal. Portanto, a existência dessas criaturas parece representar um furo nessa teoria, com implicações de grande repercussão para o entendimento da vida na Terra.
Os pequenos animais mediterrâneos pertencem a um grupo chamado loriciferas, uma categoria de animais tão incomum que só foi descoberta na década de 1980.
Os loriciferas têm o tamanho de uma ameba grande, não maior que um décimo de milímetro. Eles vivem em sedimentos lamacentos no fundo do mar. Porém, essa lama supostamente deveria conter algum oxigênio para permitir a respiração dos animais. A lama na Bacia Atalante no fundo do Mediterrâneo não tem.
Durante uma década, Roberto Danovaro, da Universidade Politécnica de Marche (Itália), e seus colegas se arrastaram pelas profundidades da Atalante. Ela fica a 3,5 km abaixo da superfície, cerca de 200 km da costa oeste de Creta. A parte interna da Bacia é completamente destituída de oxigênio porque os depósitos antigos de sal enterrados abaixo do solo do mar foram dissolvidos no oceano, deixando a água ainda mais densa e salgada.
A água densa não se mistura com o solo abaixo dela, geralmente rico em oxigênio, e fica presa em pedaços de solo marinho. A água livre de oxigênio está lá há mais de 50 mil anos.
Pelo fato da lama no fundo da Bacia de Atalante ser completamente desprovida de oxigênio, os pesquisadores não esperavam encontrar “formas de vida evoluídas” – o que basicamente significa animais – vivendo lá. Mas eles encontraram até três novas espécies de loriciferas que aparentemente vivem na lama.
E não é apenas com a ausência de oxigênio que esses criaturas precisam lidar. Loriciferas são cercados de sulfetos venenosos e vivem em uma água tão salgada que células normais secariam e virariam cascas.
“Quando os vimos pela primeira vez não conseguimos acreditar”, diz Danovaro. “Antes desse estudo, apenas duas espécies (de loriciferas) haviam sido descobertas no fundo do Mediterrâneo. Havia mais organismos em 10 centímetros de bacia anóxica do que no resto de todo o Mar Mediterrâneo!”
Mas a maior surpresa foi o fato de que esses minúsculos animais conseguir viver completamente sem oxigênio.
“Nós sabíamos que alguns animais, como as tênias, nematódeos parasitas, conseguem viver parte de suas vidas sem oxigênio, vivendo no intestino”, diz Danovaro. “No entanto, elas não passam seu ciclo de vida inteiro assim. Nossa descoberta contesta todos os pensamentos e suposições sobre o metabolismo dos animais”.
Ele diz que esse fato fez com que outros cientistas tivessem dificuldades para acreditar em sua descoberta. “Na verdade nem mesmo nós acreditamos de primeira. Levamos 10 anos para confirmar através de experimentos que os animais estavam realmente vivendo sem oxigênio”.
Não foi fácil colocar esses experimentos em prática. Os cientistas não conseguiam trazer os animais para a superfície porque a viagem os mataria instantaneamente. A única coisa que eles poderiam fazer era testar se havia sinais de vida animal no solo marinho.
Os testes indicaram que moléculas fluorescentes que só sobrevivem através de células vivas foram integradas aos corpos dos loriciferas. Os cientistas também usaram uma mancha que reage apenas com a presença de enzimas ativas. A mancha reagiu com os loriciferas da Bacia, mas não com os restos mortos de outros animais microscópicos encontrados no Atalante.
Além disso, alguns dos loriciferas pareciam ter ovos em seus corpos, uma sugestão de que eles estavam em fase de reprodução. Outros loriciferas foram encontrados no processo de sair da casca e entrar na fase de muda, outra indicação de que eles estavam vivos.
Por fim, os loriciferas em Atalante estavam completamente intactos e sem sinais de decomposição, diferentemente de outros animais microscópicos encontrados pelos pesquisadores no ambiente salgado e desprovido de oxigênio.
Após esse trabalho cuidadoso, Danovaro e seus colegas tornaram públicas suas descobertas: os loriciferas estavam, de fato, vivendo em um ambiente completamente sem oxigênio. Seu artigo, publicado em 2010 na revista BMC Biology, foi um fenômeno.
Mesmo assim, outros pesquisadores não ficaram convencidos. Um segundo grupo visitou o Mediterrâneo em 2011 para examinar por conta própria os loriciferas e seu ambiente incomum. Suas descobertas, publicadas em 2015, questionam a ideia de que os loriciferas realmente vivem sem oxigênio.
Joan Bernhard, da Instituição Oceanográfica de Woods Hole, em Massachisetts (EUA) liderou a segunda equipe. Ela e seus colegas coletaram amostras de lama e água da superfície logo acima das piscinas anóxicas de Atalante. Devido a dificuldades técnicas, as próprias piscinas eram densas demais para que as máquinas operadas remotamente pudessem penetrá-las.
O grupo descobriu as mesmas espécies de loriciferas descobertos por Danovaro. Mas esses loriciferas viviam em ambientes com níveis normais de oxigênio e nas camadas mais acima do sedimento acima das piscinas anóxicas, que tinham níveis baixos de oxigênio.
Quanto mais próximas das bacias de água anóxica as amostras dos pesquisadores chegavam, menos loriciferas vivos eles encontravam.
Bernhard afirma que é extremamente improvável que os loriciferas tenham se adaptado para viver tanto nas áreas completamente sem oxigênio e com muito sal e também em ambientes com muito oxigênio e níveis normais de sal.
Em vez disso, sua equipe acredita que cadáveres de loriciferas mortos poderiam ter flutuado até os sedimentos lamacentos da Bacia do Atalante, e lá eles teriam sido habitados por bactérias “violadoras de cadáveres”.
Muitas espécies de bactérias são conhecidas por sua capacidade de viver sem oxigênio e elas poderiam ter incorporado marcadores biológicos dos corpos dos loriciferas, potencialmente levando Danovaro e seus colegas a acreditar falsamente que os loriciferas estavam vivos.
No entanto, em junho de 2016, Danovaro e sua equipe voltaram a lutar contra essa hipótese alternativa. Eles dizem que o time de Bernhard não poderia ter certeza de que os loriciferas não vivem ali porque eles não apanharam amostras de lama das áreas da Bacia que estão permanentemente sem oxigênio.
O grupo de Danovaro também argumenta que, se os pequenos animais realmente estivessem mortos e habitados por bactérias, isso ficaria óbvio em um exame no microscópio. Mas os loriciferas não apresentaram sinais de decomposição por micróbios. Além disso, nenhuma bactéria foi encontrada vivendo dentro dos loriciferas e uma tinta usada para manchar um tecido vivo marcou todas as partes dos corpos dos loriciferas, não apenas das partes onde as bactérias provavelmente colonizariam um animal morto.
Por último, eles dizem que as camadas mais espessas dos depósitos de lama antiga reforçam seu argumento. “Nós pudemos provar que esses animais estavam presentes em diferentes camadas na lama”, afirma Danovaro. “Algumas das camadas tinham vários milhares de anos e, portanto, se esses animais estivessem mortos apenas sendo preservados, é um tanto improvável que os animais em uma lama de 3,000 anos fossem apenas mantidos como aqueles que vivem na superfície. A explicação mais provável é que os animais conseguem penetrar sedimentos, nadar e fazer impulso para afundar”.
Mas então por que há tamanha controvérsia sobre a possibilidade de animais viverem sem oxigênio?
Ninguém duvidaria que uma bactéria consegue viver sem oxigênio, por exemplo. Por que parece tão improvável que animais consigam fazer isso?
Para responder essas perguntas é preciso explicar por que animais como nós respiramos oxigênio, para começo de conversa. Todas as formas de vida na Terra precisam gerar energia para comer, reproduzir, crescer e se mover. Essa energia vem em forma de elétrons, as mesmas partículas negativas que são movimentadas através de fios elétricos que carregam seu laptop.
O desafio para toda a vida na Terra é o mesmo, seja um vírus, uma bactéria ou um elefante: você precisa achar uma fonte de elétrons e um lugar para despejá-los a fim de completar o ciclo.
Os animais conseguem seus elétrons através do açúcar nos alimentos ingeridos. Esses elétrons são liberados e se misturam com o oxigênio em uma série de reações químicas que acontecem dentro das células animais. Essa corrente de elétrons é o que dá energia para os corpos dos animais.
A atmosfera e os oceanos da Terra estão repletos de oxigênio e a natureza reativa do elemento significa que ele está sempre pronto para roubar elétrons. Para os animais, o oxigênio é uma escolha natural para um despejo de elétrons.
No entanto, o oxigênio nem sempre foi tão abundante como ele é hoje. Nos primórdios da Terra, a atmosfera era densa e tinha um nevoeiro de dióxido de carbono, metano e amônia. Quando a primeira faísca de vida foi iniciada, havia pouco oxigênio por ali. Na verdade, os níveis de oxigênio nos oceanos provavelmente eram muito baixos até cerca de 600 milhões de anos atrás – mais ou menos na época em que os animais apareceram pela primeira vez.
Isso significa que formas de vida mais velhas e primitivas evoluíram para usar outros elementos como seu aterro de elétrons.
Muitas dessas formas de vida, como as bactérias e as arqueias, ainda vivem sem oxigênio hoje. Elas prosperam em locais com pouco oxigênio, por exemplo na lama ou perto de aberturas geotermais. Em vez de passar elétrons para o oxigênio, algumas dessas criaturas conseguem transmitir seus elétrons para metais como ferro, o que significa que elas conseguem conduzir eletricidade com eficiência. Outras conseguem respirar enxofre ou até mesmo hidrogênio.
A única coisa em comum entre essas formas de vida independentes de oxigênio é sua simplicidade. Todos eles consistem em apenas uma célula. Até a descoberta dos loriciferas em 2010, não havia sido descoberta nenhuma forma complexa de vida capaz de viver sem oxigênio. Por quê?
De acordo com Danovaro, há duas razões principais. A primeira é que respirar oxigênio é de longe a melhor forma de gerar energia. “Complexidade e organização requerem oxigênio porque é muito mais eficiente para a produção de energia”, diz.
Quando os níveis de oxigênio aumentaram, centenas de milhões de anos atrás, foi como se um freio nas ambições evolucionistas fosse retirado. Um grupo de formas de vida chamado de “eucarióticas” – que inclui animais – tirou vantagem disso e se adaptou de forma a aproveitar ao máximo a substância em seu metabolismo e, como consequência, se tornaram mais complexos.
“A teoria é que a evolução da vida explodiu quando o oxigênio se tornou disponível na atmosfera e no oceano”, afirma Danovaro.
Mas essa é apenas parte da história. Algumas espécies de micróbios também começaram a respirar oxigênio, mas, diferentemente de animais e alguns outros eucariotas, eles não se tornaram mais complexos. Por que não?
Danovaro diz que a chave para entender o mistério está na observação da mitocôndria, as minúsculas estruturas dentro das células eucarióticas que atuam como suas usinas de energia. Dentro da mitocôndria, nutrientes e oxigênios são combinados de maneira a criar uma substância chamada ATP, a moeda universal de energia de um corpo.
As mitocôndrias podem ser encontradas em praticamente todas as células eucarióticas. Mas bactérias e arqueias não têm mitocôndrias, e essa diferença é chave.
“Quando as mitocôndrias evoluíram, elas tornaram o processo de criação de enrgia e ATP muito mais eficientes, mas elas precisam de oxigênio para fazer isso”, diz Danovaro.
Em outras palavras, a vida animal surgiu como consequência de duas questões. A primeira é que as eucarióticas ganharam mitocôndrias dentro de suas células. Então, quando os níveis de oxigênio subiram, essas mitocôndrias permitiram que outras eucarióticas se tornassem mais complexas e virassem animais.
Então como os loriciferas conseguem viver sem oxigênio e outros animais não?
“Eles são muito pequenos, do tamanho de uma ameba grande”, diz Danovaro. “O tamanho pequeno ajuda. Não funcionaria se eles fossem do tamanho de um elefante. Como eles são pequenos, sua necessidade de energia também é menor”.
Os loriciferas podem ser diferentes de outros animais em outros aspectos importantes. Eles parecem não ter as mitocôndrias que usam oxigênio e que são encontradas em outros animais. Em vez disso, elas carregam estruturas que lembram as mitocôndrias e são chamadas de hidrogenossomas.
Essas células usam prótons em vez de oxigênio como seu descarte de elétrons. Hidrogenossomas podem até ser um dos muitos tipos primitivos de mitocôndria, que evoluíram nas primeiras eucarióticas para produzir energia antes dos níveis de oxigênio na atmosfera aumentarem.
“Eu acho que o ancestral comum da eucariótica foi uma anaeróbia facultativa que conseguia viver com ou sem oxigênio, muito parecida com a E. coli, uma bactéria muito conhecida”, diz William Martin, um professor de evolução molecular da Universidade de Dusseldorf, na Alemanha.
Isso teve consequências importantes para entender como e em que condições a vida complexa apareceu pela primeira vez. As primeiras eucarióticas provavelmente evoluíram antes do oxigênio ser amplamente disponível no oceano, de forma que estruturas localizadas dentro das células e semelhantes às da mitocôndria foram capazes de se adaptar a condições com ou sem oxigênio.
Assim, conforme o oxigênio foi se tornando mais abundante, primeiro na atmosfera e depois no oceano, algumas eucariotas se adaptaram aos seus ambientes agora ricos em oxigênio e se tornaram maiores e mais complexas. Elas se tornaram animais.
Mas alguns animais – como os loriciferas – podem ter se recolhido e vivido sem oxigênio, continuando pequenos, consequentemente.
Para isso dar certo, os loriciferas devem ter mantido a capacidade herdada de seus ancestrais para viver sem oxigênio. Mas há uma alternativa: os loriciferas podem ter conquistado sua capacidade de viver sem oxigênio muito recentemente, talvez roubando genes de outras espécies em um processo conhecido como transferência horizontal de genes.
“Isso pode ser a evolução em ação, já que todas as outras espécies conhecidas de loriciferas respiram oxigênio”, diz Danovaro. “É possível que esta seja uma adaptação extrema para permitir que os loriciferas vivam em um ambiente sem competidores nem predadores”.
Por ora, a comunidade científica espera por mais evidências com a respiração presa para confirmar ou derrubar a descoberta original. “Eu acho que no momento vivemos um empate”, diz Martin. “O que precisamos é de mais amostras para um estudo aprofundado”.
Uma prova cabal seria ver os animais nadando na lama, mas, segundo Danovaro, o tamanho pequeno dos loriciferas e a dificuldade para alcançar seu ambiente dificulta esse tipo de observação.
“O animal tem um décimo de milímetro, o que exige um sistema especial, porque assim que você o coloca em um microscópio, ele morre”, diz. “A princípio, você pode extrair seu DNA, que é com o que estamos trabalhando agora, mas alguém ainda poderia dizer ‘bem, esse animal está morto’. É um longo caminho para conseguir a confirmação final, mas estamos muito otimistas”.

14.360 – A Vitamina B12


b12
A cobalamina, também conhecida como vitamina B12, tem as seguintes funções no nosso organismo:
Necessária à eritropoiese, e em parte do metabolismo dos aminoácidos e dos ácidos nucleicos;
Previne problemas cardíacos e derrame cerebral.
Segundo a organização norte-americana Food and Nutrition Board, a dose diária de vitamina B12 necessária para o organismo é de 2,4µg (microgramas) para adultos, 1,2 µg para crianças de até oito anos e 2,8 µg para gestantes e mães que amamentam.
A soja e seus derivados também possuem a cobalamina em sua constituição porém como um análogo inativo de vitamina B12 e portanto inapropriado a digestão humana. Plantas não sintetizam nem armazenam vitamina B12, sendo a principal fonte desta vitamina nos animais por síntese microbiana. A vitamina B12 apenas existe nos vegetais que possuem associação com bactérias que a produzam, o que é mais comum em criações orgânicas.
Mesmo assim, a quantidade de B12 nessa plantas cultivadas de forma orgânica é insignificante para as necessidades humanas (possivelmente devido à alimentação não natural, não crudívora, o órgão que no ser humano exerce a síntese microbiana, a apêndice ileocecal, tenha perdido grande parte das suas funções).
A alga Nori utiliza vitamina B12 em seu metabolismo, obtida através de um processo simbiótico com bactérias. No entanto, devido a presença de análogos inativos, não é considerada atualmente uma fonte confiável de B12. Apesar disto um estudo com ratos demonstrou aumento dos níveis de B-12 quando estes foram alimentados com a alga Porphyra yezoensis, indicando que esta espécie de alga contém B-12 biodisponível, pelo menos para ratos.
Quando a deficiência de B12 ocorre é geralmente devido à deficiência na produção de factor intrínseco, necessário para a absorção da cobalamina. A vitamina B12 é necessária para a formação de células vermelhas do sangue, a função neurológica e síntese de DNA. Sua deficiência pode provocar anemia perniciosa, cujos sintomas são: alterações neurológicas, progressivas e mortais se não houver tratamento; fraqueza; convulsões e dano irreversível no tecido parietal gástrico; Afta na boca. Os principais sintomas são: anemia megaloblástica, fadiga, fraqueza, constipação, perda de apetite e perda de peso.
A deficiência, quando se inicia, traz prejuízos para a cognição, levando a queixas de dificuldade de concentração, memória e atenção. Ocorre também formigamentos nas pernas e redução da propriocepção. Em casos avançados, leva à confusão mental, torpor e até o coma.

Ao contrário da crença popular, existem raros casos diagnosticados de vegetarianos com déficit de B12 por conta dos mecanismos do organismo de reaproveitá-la e mantê-la no organismo. Porém, principalmente os veganos, devem tomar cuidados especiais, especialmente gestantes, lactantes e idosos quando a necessidade é maior. Isso sugere que para sua manutenção corporal, é mais importante as questões ligadas ao metabolismo humano do que a quantidade ingerida.
Conseguir uma ingestão adequada de B12 é fácil e existem vários métodos para atender às preferências individuais. A absorção de B12 varia de cerca de 50%, se cerca de 1 micrograma ou menos dela é consumida, a cerca de 0,5% para doses de 1.000 microgramas (1 mg) ou superiores. Assim, quanto maior a freqüência de consumo de B12, maior será o montante absorvido.
O consumo de álcool, tabaco e certos medicamentos como neomicina, colchicina e ácido aminossalicílico e metformina podem contribuir para a deficiência da B12, pois causam a mal absorção desta vitamina.
Além disso, a absorção piora naturalmente com a idade.
Em caso de anemia devido a falta de B12 no organismo, é recomendável o uso de suplementos prescritos por um nutricionista ou médico, pois a dose necessária para corrigir essa deficiência não é atingida pela dieta. Injeções também são usadas por atravessar as barreiras de absorção. Existem opções de alimentos artificialmente enriquecidos, como leite de soja e cereais de algumas marcas, voltadas especialmente para os veganos. Os vários suplementos vitamínicos são de origem bacteriana.
A biodisponibilidade de vitamina B12 em seres humanos saudáveis ​​para carne bovina, carne de peixe, carne de frango e ovinos é em média 42%, 56%-89% e 61%-66%, respectivamente. Os não-vegetarianos também possuem dificuldades em obter a B12 já que o índice de deficiência em não-vegetarianos está em torno de 40% da população.
Apesar de os humanos também possuírem essas bactérias no intestino, possivelmente em quantidade reduzida, sua localização (também observável noutros seres que a possuem) é posterior à principal área de absorção (no íleo), e por isso (possivelmente pela função reduzida da apêndice ileocecal) precisamos obter a vitamina pela alimentação. Essa vitamina precisa de pouca reposição pois necessitamos apenas de pequenas quantidades, seu armazenamento é relativamente adequado e uma circulação entero-hepática muito eficiente recupera grande parte da vitamina B12 excretada na bílis.

14.353 – Origem da Vida – Teria surgido em lagos com fósforo e cálcio abundantes


origem da vida
Um novo estudo de pesquisadores da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, pode ter nos deixado mais perto de entender como a vida surgiu na Terra há milhões de anos. A pesquisa defende que os primeiros organismos surgiram em lagos onde o fósforo era abundante, segundo o artigo publicado no PNAS.

Para que a vida como a conhecemos exista, o fósforo é essencial, pois faz parte das moléculas que formam o DNA. Entretanto, o suprimento dessa substância era escasso quando os primeiros seres vivos começaram a surgir — e isso sempre intrigou os cientistas: “Há 50 anos o chamado ‘problema do fosfato [ânion de fósforo]’ atormenta os estudiosos da origem da vida”, disse Jonathan Toner, um dos estudiosos, em comunicado.
Para realizar o estudo, os pesquisadores focaram em lagos ricos em carbonatos, que se formam em ambientes secos, dentro de depressões, e que geralmente canalizam a drenagem da água ao redor. Devido às altas taxas de evaporação, o líquido desses ambientes tendem a ser mais alcalinos, ou seja, com pH mais alto.
Ambientes do tipo são encontrados nos sete continentes do planeta, mas para a pesquisa os estudiosos focaram em três localidades: o Mono Lake, nos Estados Unidos, o Lago Magadi, no Quênia, e o Lonar Lake, na Índia.
Analisando amostras de diferentes regiões dos corpos aquáticos, os pesquisadores descobriram que os lagos ricos em carbonato têm até 50 mil vezes os níveis de fósforo encontrados na água do mar, rios e outros lagos, por exemplo. Segundo os especialistas, isso sugere a existência de algum mecanismo natural que resulta esse acúmulo da substância.
Entretanto, estudar os lagos na atualidade não é o suficiente, já que os seres vivos que habitam a região alteram a composição da água. Por isso, a equipe fez testes em laboratório com água rica em carbonato, que foi misturada com diferentes substâncias químicas. Depois disso, as amostras foram analisadas e comparadas entre si para que os especialistas medissem o nível de fósforo existente.
Os cientistas observaram que, quando o cálcio estava presente na água juntamente com o carbonato, a concentração de fósforo livre era maior. De acordo com eles, isso acontece porque nesses ambientes o carbonato libera fósforo para se ligar ao cálcio livre na água, liberando o fosfato.
Dessa forma, o fosfato ficaria livre na água para se unir a outras moléculas e formar, então, as substâncias essenciais à vida. “É uma ideia direta e esse é seu apelo”, pontuou Toner. “Resolve o problema do fosfato de maneira elegante e plausível.”
Os níveis de fosfato poderiam aumentar ainda mais nos períodos de seca, conforme explicou David Catling, coautor do artigo. “Os níveis extremamente altos de fosfato nesses lagos e lagoas teriam impulsionado reações que colocariam fósforo nos blocos moleculares de RNA, proteínas e gorduras, todos necessários para manter a vida.”
Além disso, naquela época o ar era rico em dióxido de carbono, o que é essencial para a formação de carbonato na água dos lagos. “O início da Terra era um lugar vulcânico ativo, então você teria muitas rochas vulcânicas frescas reagindo com dióxido de carbono e fornecendo carbonato e fósforo aos lagos”, afirmou Toner. “A Terra primitiva poderia ter hospedado muitos lagos ricos em carbonatos, que teriam concentrações de fósforo altas o suficiente para iniciar a vida.”

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14.351 – Biologia – Os Canídeos


lobos
Canidae é uma família de mamíferos da ordem Carnivora que engloba cães, lobos, chacais, coiotes e raposas. É composto por 35 espécies distribuídas por todos os continentes com exceção da Antártica.

Os canídeos têm uma cauda longa e dentes molares adaptados para esmagar ossos. Têm quatro ou cinco dedos nas patas dianteiras, quatro nas patas traseiras, e garras não retrácteis adaptadas para tração em corrida. O tamanho é variável, bem como os hábitos sociais que podem ser gregários, como o lobo e o cachorro-vinagre, ou solitários como os coiotes e raposas. Os sentidos da audição e olfato são mais importantes que a visão. Os canídeos são predadores mas podem também ter alimentação onívora, se as condições ambientais assim o exigirem. Apesar de serem bons corredores, não são velozes como as chitas por exemplo, e caçam as presas por corridas de resistência, os canídeos são bem semelhantes com as Hienas (Crocuta crocuta) mas não apresentam nenhum parentesco com estas.
As espécies de Canidae podem ser tanto diurnas quanto noturnas e algumas podem apresentar os dois tipos de atividade. Vivem em tocas no solo ou em cavidades naturais, como aquelas encontradas sob rochas, podendo ser solitários, viverem em pares ou montarem grupos de diferentes tamanhos e com diferentes níveis de complexidade social e hierarquia. Algumas espécies apresentam comportamento nomádico, realizando grandes incursões em busca de alimentos. Várias espécies, sejam elas gregárias ou não, são territorialistas e realizam demarcação por micção repetida em marcos na periferia e no interior do território.
A estratégia de caça principal dos Canidae envolve perseguição da presa por longas distâncias, geralmente em terreno aberto, até que esta se canse e seja abatida. Quando caçando vertebrados de pequeno e médio porte, os canídeos agarram com a boca a nuca do animal e, com um movimento brusco da cabeça, partem o pescoço da presa. Se o animal apresentar maior tamanho corporal, ele pode ser imobilizado através de mordidas na região ventral, o que muitas vezes provoca rompimento do tecido e morte da presa por choque. Algumas espécies, geralmente aquelas de maior tamanho, formam grupos de caça e, com isso, conseguem abater animais maiores do que eles próprios.
Devido à sua ampla distribuição, canídeos podem ser encontrados em uma grande variedade de habitats, que engloba savanas, estepes, colinas, bosques, florestas, desertos, pântanos, regiões de transição e montanhas de até 5000 metros. As espécies que habitam ambientes extremos, como desertos, apresentam adaptações que permitem que suportem altas temperaturas e baixa disponibilidade de água.
Como parte da ordem Carnivora, canídeos são, em sua maioria, predadores generalistas,possuindo muitas vezes hábitos oportunistas. Muitas espécies apresentam dieta onívora, consumindo, além das presas que caçam, carniça, matéria vegetal e invertebrados. Espécies Neotropicais (encontradas nas Américas Central e do Sul) incluem em sua dieta artrópodes, como insetos e caranguejos, sapos, ovos, répteis, mamíferos, carniça, raízes, frutas, cana de açúcar e outras gramíneas. Dessa forma, essas espécies possuem diferentes nichos ecológicos e podem se apresentar como consumidores primários, secundários ou terciários em diferentes cadeias tróficas, também apresentando importante papel na dispersão de sementes.
Apesar de muitas serem grandes predadoras, as espécies integrantes de Canidae também podem ser presas de outros animais. Independente do seu tamanho, canídeos podem ser predados por felinos (pumas, onças, leões, leopardos, linces e tigres), cobras constritoras (sucuris, jibóias e pítons), aves de rapina, ursos, mustelídeos (texugos e carcajus), civetas, hienas, crocodilos e outros canídeos de maior tamanho, inclusive o cão-doméstico(Canis lupus familiares). São muitas vezes alvos desses animais quando ainda filhotes, mas também podem ser predados quando adultos.
Com exceção do cão-do-mato (Speothos venaticus), Canidae apresenta reprodução uma vez ao ano, com um aumento da frequência de marcações odoríferas e de vocalizações de ambos os sexos no período que antecede o cio, bem como aumento dos encontros agressivos entre os machos. O cio dura de quatro a cinco dias e, nesse período, machos e fêmeas copulam uma a duas vezes por dia, sendo que em boa parte das espécies ocorre laço copulatório (pode estar ausente ou ser muito curto no cão selvagem africano (Lycaon pictus). A gestação pode levar de cinquenta a setenta dias.
Em Canidae, é comum observar a formação de um casal monogâmico e de longa duração, estratégia pouco comum entre os mamíferos no geral. Porém, ao se observar a organização social dentro do espectro de canídeos de pequeno à grande porte, percebe-se uma grande variação na proporção dos sexos nas diferentes populações, bem como na dispersão e nos sistemas de acasalamento e criação dos recém-nascidos. Canídeos de pequeno porte (menores do que 6 kg ) tendem a apresentar em suas populações maior número de fêmeas, migração de machos, fêmeas ajudantes e poligamia, isto é, os machos possuem mais de uma parceira reprodutiva. Já em canídeos de grande porte (com exceção do lobo guará) o quadro se inverte. As populações possuem maior proporção de machos, emigração de fêmeas, machos ajudantes e poliandria, ou seja, as fêmeas possuem mais de um parceiro reprodutivo. Em espécies de tamanho intermediário, a proporção de machos e fêmeas é igual em relação à acasalamento, grupos sociais, ajudantes e migração e elas tendem a apresentar maior flexibilidade para alterar seu comportamento social e organização em resposta ao ambiente. Essa característica faz parte de um padrão encontrado nessa família em que o tamanho corporal está causalmente relacionado à taxas metabólicas e padrões de história de vida dos organismos.
O tamanho corporal também se relaciona ao tamanho dos filhotes e das ninhadas. Canídeos de grande porte possuem ninhadas maiores compostas de filhotes de menor tamanho (comparados ao tamanho materno) e, portanto mais dependentes de cuidado parental após o parto e por mais tempo. Essa relação entre tamanho da ninhada e tamanho do corpo materno é algo que não é observado em outros mamíferos.
Parâmetros ecológicos, especialmente aqueles relacionados ao tamanho e disponibilidade do alimento, podem interferir de forma significativa no tamanho da ninhada, bem como em estratégias de reprodução, o que indica que Canidae possui uma alta flexibilidade para responder à características do ambiente, podendo gerar altas taxas de variação dentro de uma mesma espécie.
A maioria dos integrantes da família Canidae são solitários e geralmente se socializam apenas na época reprodutiva com uma comunicação baseada na audição e no olfato. Nas espécies sociais a comunicação requer sistemas mais complexos, como por exemplo a visão. Cães domésticos, lobos e coiotes são capazes de utilizar combinações faciais simultâneas para comunicarem-se com outros indivíduos, diferentes das raposas que não desenvolveram tal habilidade.[9] O desenvolvimento dos sinais comunicativos entre os membros do grupo está relacionado com a coesão social.
Quanto às unidades sociais, conforme o maior ao menor grau de organização social, generalmente os lobos formam grandes alcateias, os coiotes vivem de forma solitária ou em um grupo familiar pequeno e as raposas são invariavelmente solitárias (exceto durante a época reprodutiva e durante os primeiro meses do recém-nascido). Essa variação por conta das diferenças ecológicas pode estar relacionada com o desenvolvimento dos sinais comunicativos citados anteriormente.
As alcateias são vistas como grupos familiares, ou seja, compostas por um casal de progenitores e suas crias, as quais se dispersam quando atingem a maturidade sexual. Entretanto, pode haver indivíduos não aparentados que se tornaram membros da alcateia por adoção ou por substituição de um dos progenitores. Nessa unidade social e reprodutora persiste um sistema de divisão de tarefas, em que a fêmea reprodutora cuida das crias e o macho reprodutor obtém o alimento.O comportamento de dormir em contato uns com os outros é encontrado regularmente em algumas espécies como os cães-guaxinins, raposas-orelha-de-morcego, cachorros-do-mato-vinagre, cães-selvagens-africanos, etc. Mas como a maioria das espécies são solitárias, este é um comportamento ocasional pois normalmente agem de forma independente, como encontrado em raposas vermelhas.
A forma de caça mais comum é a caça individual, eventualmente em pares, predando presas de pequeno porte. Mas há espécies que caçam de forma coletiva e cooperativa, como por exemplo os lobos, dingos, cachorro-do-mato-vinagre, cão-selvagem-africano, cão-selvagem-asiático e, ocasionalmente, em chacal-listrado.[10]

Uma curiosidade quanto à alimentação e a caça cooperativa de cães-selvagens-africanos é que também assumem um papel importante na manutenção da coesão social da matilha. Tanto os adultos como os jovens incitam repetidamente os outros indivíduos a regurgitar a carne por meio de uma postura de súplica específica derivada da súplica infantil.
Para a expressão do domínio, assim como para os momentos de ataque, o indivíduo adere postura e expressão corporal que conduzem a impressão de um maior tamanho corpóreo: o corpo é mantido rígido, há piloereção da cauda e as orelhas ficam eretas com as aberturas apontadas para frente. Esse comportamento é encontrado na maioria dos canídeos. Ao se tratar de cognição de Canidae, há um evidente destaque das pesquisas voltadas principalmente para os cães (Canis lupus familiares). Assim, a quantidade de pesquisas especificamente sobre a cognição dos outros canídeos é comparativamente escassa, com exceção dos lobos (Canis lupus) que possuem um número considerável, provavelmente por estarem vinculados ao cães por questões evolutivas e filogenéticas.Os canídeos são relativamente velozes: os cães da raça “whippet” (raça canina utilizada para corridas) atingem uma velocidade média de 55km/h, os coiotes cerca de 69km/h e as raposas vermelhas 72km/h.
Os cães, assim como a maioria dos mamíferos, possuem dentes difiodontes, ou seja, há apenas dois conjuntos de dentes durante a vida, sendo que a dentição decídua ou “dentes de leite” do filhote são perdidos e substituídos pela dentição permanente.
A família Canidae é originária do continente norte americano, tendo irradiado dessa região para o resto do mundo, salvo a Antártica.
Domesticação
A associação entre canídeos e humanos teria começado da adoção do hábito migratório caçador de lobos por grupos humanos. Isso se sustenta, por ser encontrado indício do desenvolvimento do hábito caçador migratório em grupos humanos em lugares que coincidem em ambientes habitados por matilhas de lobos.
Outro fator, além da coincidência geográfica, que também suporta tal teoria, está relacionada às dinâmicas de comportamento grupais de matilhas e de grupos de grandes primatas atuais.
Grupos de lobos demonstram comportamento, geralmente, mais cooperativo e comunitário que o observado em grupos de chimpanzés. Esses por sua vez, têm características comportamentais mais individualistas. A capacidade de caça cooperativa de grandes alvos não teria sido desenvolvida pelos grupos humanos caso esses apresentassem dinâmica semelhante aos grupos de primatas. Logo, pela observação do comportamento dos canídeos, teriam alterado hábitos e desenvolvido técnicas de caça próprias.
Dessa forma, lobos e humanos teriam passado por processo de co-evolução, alterando seus hábitos e técnicas mutuamente, e não um processo de domesticação do lobo pelo homem, como também é inferido.
Algumas poucas espécies possuem distribuição extremamente restrita, como é o caso da raposa-de-Darwin (Lycalopex fulvipes), endêmica do Chile e com a população restrita principalmente à Ilha Grande de Chiloé, e do lobo-etíope (Canis simensis), restrito à algumas regiões elevadas do continente africano.
América do Sul: 11 espécies
América Central: 3 espécies
América do Norte: 9 espécies
Europa: 4 espécies
Ásia: 12 espécies
África: 13 espécies
Oceania: 2 espécies
As zoonoses são doenças que podem ser passadas dos animais para o homem. Tendo em vista a íntima relação entre os seres humanos e espécies animais, em especial os cães domésticos (Canis lupus familiaris), buscou-se por avanços para o controle e a incidência de zoonoses. Entretanto, os números de casos de contágio permanecem altos em todos os países em desenvolvimento.
A raiva, provavelmente, é a zoonose mais conhecida na relação cães-homens, uma vez que no Brasil, em meados do século XX, a taxa de incidência de raiva humana era relativamente alta, até que em 1973 foi criado o Programa Nacional de Profilaxia da Raiva Humana visando diminuir a infecção humana através do controle nos animais domésticos e a adoção de medidas profiláticas imediatas para aqueles que tiveram contato com animais raivosos.[36] Os animais infectados apresentam alterações comportamentais, escondendo-se em lugares escuros ou demonstram grande agitação e agressividade, apresentam anorexia, irritação na região da mordedura, estimulação das vias geniturinária, ligeiro aumento da temperatura corporal, salivação abundante e, em fases agudas, convulsões generalizadas. A doença pode ser passada para o homem através de mordidas e causa angústia, cefaléia, elevação da temperatura corporal, mal-estar, anorexia, náuseas, irritabilidade, alterações sensoriais imprecisas, extrema sensibilidade à luz, alucinações e convulsões, terminando em morte, uma vez que não há cura. O controle da doença se dá pela vacinação, dos animais e dos homens.

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14.320 – Biologia – Rato, inimigo ou amigo?


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A presença dos bichos é repugnante, mas não há motivo para desespero. Afinal, há no mercado um arsenal de ratoeiras e iscas envenenadas. Depois de armar uma arapuca perfeita, você vai dormir sossegado, certo de que os intrometidos estão com as horas contadas. Doce ilusão. No dia seguinte, as armadilhas estão intocadas. Os ratos não deram nem uma mordida. Em compensação, devoraram mais um pouquinho da comida que restava, como se adivinhassem suas intenções. Esses roedores são mesmo tão inteligentes?
Bem, se os ratos fossem assim tão fáceis de derrotar, eles não seriam um dos inimigos mais antigos – e odiados – da humanidade. Segundo o zoólogo americano Anthony Barnett, já faz 10 mil anos que tentamos nos livrar deles. “Convivemos com os roedores pelo menos desde que a agricultura começou”, diz Barnett, professor emérito da Universidade Nacional da Austrália e autor do livro The Story of Rats. Depois de tanto tempo de convivência, não é de espantar que os dentuços tenham aprendido nossas manias e nossas falhas e desenvolvido truques para conviver conosco sem correr muito risco.
Mas o convívio com a humanidade não mudou só a vida dos ratos. Segundo Barnett, esses animais, na mão contrária, alteraram a história da humanidade também. Especialmente na ciência, mas não só. Os gatos, por exemplo, que na antiga mitologia egípcia alcançaram o status de divindade, só foram admitidos nas casas depois que as pessoas perceberam sua utilidade na caça aos roedores. Até na Bíblia os ratos mereceram citação. Em algumas passagens, escritas há 3 mil anos, eles são classificados como “impuros”. Os homens tementes a Deus deveriam manter distância deles.
Essa rusga histórica teve dois momentos cruciais. O primeiro deles foi a fundação das primeiras cidades, há 10 mil anos, que, desde então, propiciam uma fonte inesgotável de alimento e abrigo para os roedores. “Nós fornecemos muita comida e boas condições de sobrevivência para eles”, afirma Neide Ortêncio Garcia, do Centro de Controle de Zoonoses de São Paulo. Tanto é assim que, dos milhares de tipos de roedores nas florestas capazes de sobreviver de vegetais e insetos, as três espécies mais numerosas do mundo são aquelas que vivem nos esgotos, nos depósitos e nas ruas das cidades. São elas a ratazana (Rattus norvegicus), o rato de telhado (Rattus rattus) e o camundongo (Mus musculus).
As grandes navegações, no século XIV, selaram de vez a aliança dos bigodudos conosco. A bordo das caravelas e de outras embarcações, essas três espécies se espalharam do seu local de origem – a Eurásia – para o resto do mundo. Poucas vezes, aliás, homens e roedores estiveram tão próximos. Eles infestavam os navios, e se alimentavam da mesma comida que os marinheiros. Matá-los ajudava os tripulantes a aliviar o tédio, mas também fornecia uma boa refeição. Um dos marinheiros de Fernão de Magalhães (1480-1521) – comandante da primeira viagem ao redor do mundo – relatou que lamentava comer biscoitos que fediam a urina de rato e não conseguir nenhum desses animais para comer. “Eles provavelmente eram uma boa fonte de vitamina C e ajudavam a aliviar doenças como o escorbuto”, afirma Barnett.
Nojento é relativo: até hoje nós desfrutamos dos ratos como alimento. Os irulas, um grupo étnico do sul da Índia, capturam milhares de ratos por ano, os cozinham e os colocam como ingredientes de uma farta (mas não necessariamente deliciosa) refeição. Para quem tem estômago forte e não se preocupa com doenças, o Larousse Gastronomique, um dos mais importantes livros de culinária do mundo, traz uma receita em que ratazanas e ratos devem ser limpos, despelados, temperados com óleo e cebolas e grelhados em fogo alto.
Duro de matar
Para as pessoas de paladar tradicional, no entanto, ter ratos na despensa não significa ter um item a mais no cardápio do mês, mas apenas um problema difícil de resolver. Entre os vários truques que ratazanas e ratos de telhado desenvolveram para evitar nossos ataques, está uma habilidade especial em evitar armadilhas e devorar apenas a comida saudável. Não se trata de um sexto sentido ou de uma esperteza diabólica: eles simplesmente têm aversão a objetos novos colocados em um ambiente conhecido, uma característica que os cientistas chamam de neofobia. Como as ratoeiras e o veneno são novidades, acabam intocados. Já a comida que estava lá…
É preciso astúcia para capturar um rato. “Existem muitas estratégias para enganá-los”, uma delas é colocar pequenos alimentos inofensivos durante dias, até que os ratos se acostumem a comê-los, e só depois acrescentar veneno. Outro truque é utilizar substâncias químicas que só fazem efeito mais de cinco dias depois de ingeridas, o que impede que os animais relacionem a morte de um de seus companheiros ao alimento ingerido. As ratoeiras só funcionam com espécies menos desconfiadas, como o camundongo. “O mais eficaz é retirar a comida disponível e, com ela, as condições de sobrevivência dos roedores”.
Por que exterminar os ratos? Porque eles transmitem doenças ao ser humano. São pelo menos 55 enfermidades, segundo Normam Gratz, biólogo aposentado da Organização Mundial de Saúde (OMS), que listou doenças transmitidas direta ou indiretamente pelos rabudos. Mas ele mesmo reconhece que o número certamente é maior. Nenhuma delas teve um impacto maior que a peste negra, que começou no século 14, na Ásia, e invadiu a Europa. Uma das hipóteses afirma que, durante uma batalha, guerreiros turcos, sem conseguir romper a muralha de uma cidade na atual Ucrânia, arremessaram cadáveres contaminados para dentro dos muros. A peste, causada por bacilos transmitidos por pulgas de ratos, espalhou-se rapidamente e matou cerca de 25 milhões de europeus – um terço da população do continente naquela época.
Mas a lista de doenças graves transmitidas por roedores não termina aí. A leptospirose, por exemplo, uma infecção provocada por uma bactéria que causa febre, dores e às vezes hemorragias e morte, é transmitida pela urina de ratos. A doença infecta centenas de pessoas todo ano e é um dos maiores riscos decorrentes de enchentes. E há ainda as enfermidades causadas por hantavírus, micróbios que vivem nas secreções dos roedores e são transmitidos pelo ar. Apesar de terem sido detectadas há poucas décadas, as doenças causadas por hantavírus já se espalharam pelo mundo e têm alto índice de letalidade. “Os ratos são uma rede global e subterrânea de transmissores de doenças”, diz Bartlett.
Especialistas e entediados
Graças à diversidade existente entre elas, as três espécies de ratos adaptadas ao homem ocupam habitats diferentes e acabaram por cobrir praticamente todas as possibilidades de convívio humano: camundongos, por exemplo, preferem lugares fechados (como um armário). Ratos de telhado são encontrados normalmente no ambiente que lhes dá o nome. Já as ratazanas costumam cavar buracos no chão e possuem uma habilidade impressionante para caminhar nesses túneis.
Em seu habitat, eles são eficientes como atletas profissionais em sua especialidade. Experiências com ratos em labirintos, que já são realizadas há mais de cem anos, desde 1900, mostraram que esses animais não só são capazes de aprender os caminhos com rapidez, mas também conseguem inventar atalhos e retornar sem dificuldades para o ponto de partida. Um biólogo comparou essa habilidade à de um pianista que, depois de aprender uma peça, consegue tocá-la de trás para a frente com a mesma desenvoltura. Nessa área, a inteligência dos roedores chega a rivalizar com a humana. Cientistas fizeram experiências em que estudantes universitários e ratos precisavam achar a saída de labirintos de desenho idêntico. Os humanos perderam de lavada: os roedores não só conseguiram acertar de primeira como gravaram mais rapidamente o percurso. No entanto, o desempenho dos estudantes melhorou com o tempo e, depois de muito treino, eles conseguiram trazer o troféu para a nossa espécie. Ufa!
Não se sabe ao certo qual a origem dessa incrível noção espacial, mas alguns fatores ajudam os ratos. Um deles são os bigodes, que funcionam como órgãos sensoriais e permitem que eles achem o caminho até mesmo no escuro. Também é importante o gosto natural por explorar ambientes novos. Mesmo faminto, um rato que seja colocado em um lugar desconhecido irá explorar o ambiente inteiro antes de partir para a refeição. Ele consegue com isso aprender os caminhos, encontrar novos parceiros, água ou abrigo e também, por incrível que pareça, aliviar o tédio. Os ratos tendem a preferir situações novas. E frequentemente se enjoam de atividades repetitivas. Se treinarmos uma cobaia para acender e apagar a luz da gaiola, ela a princípio ficará acionando o interruptor apenas pela diversão da mudança. Só quando estiver cansada da brincadeira é que deixará o quarto com a luminosidade que achar adequada.
O gosto por mudanças pode ser muito útil para o aprendizado dos roedores, como mostraram algumas experiências do psicólogo canadense Donald Hebb, um dos pioneiros da psicobiologia. Ele levou alguns ratos de telhado para sua casa, onde eles poderiam brincar com suas duas filhas, uma de cinco e outra de sete anos. Depois de um dia de diversão, esses felizardos se saíram muito melhor nos testes de laboratório que os colegas que ficaram presos no tédio das gaiolas.
A inteligência e o aprendizado dos ratos também se estendem ao principal fator da sua vida: a comida. Se tiver acesso a diversos tipos de alimento, um roedor comerá um pouco de tudo e manterá uma alimentação equilibrada em calorias e nutrientes. Algumas pesquisas indicam que o ser humano também teria essa habilidade inata, mas o acesso que temos hoje a comidas muito saborosas e pouco saudáveis bagunçou nossos hábitos alimentares. Apesar de terem uma dieta saudável por instinto, os ratos também aprendem com seus ancestrais os lugares que oferecem boas refeições e identificam, pelo cheiro de outros roedores, que comidas podem ser atacadas sem problema.
Comer (quase) sem frescura
Apesar de todo o conhecimento sobre os bichos, os cientistas ainda se deparam com peculiaridades. Em um experimento, antes mesmo de o estudo começar, um grupo de pesquisadores enfrentou um dilema: as ratazanas não gostaram do alimento que lhes foi dado, uma conhecida marca de cereal matinal. O teste só foi adiante quando alguém esqueceu por ali um pedaço da embalagem do cereal. Os ratos adoraram o petisco e a experiência finalmente foi feita.
Comida é fundamental para entender a sociedade dos ratos. É a comida, ou melhor, a quantidade dela, que determina o tamanho de uma população de ratos. “Quando há muito alimento, as fêmeas procriam mais”, afirma o biólogo Luiz Eloy Pereira, do Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo. Em situações de fartura, as ratazanas têm uma gestação de apenas 22 dias, podem ter até 13 filhotes de uma só vez e engravidar novamente 21 horas depois de parir. Ou seja: em um ano, uma fêmea pode dar à luz mais de 200 felpudinhos.

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Mas a superpopulação dá origem a conflitos, e a programação biológica das ratazanas também prevê essa situação. Se o ambiente já estiver lotado e com pouca comida, o número de filhotes será menor e, em alguns casos, a fêmea poderá até devorar alguns dos que nascerem. “Ratos lutam para dominar um espaço e também as fontes de comida. São animais territoriais que não aceitam invasões”, diz Luiz Eloy. As lutas entre machos envolvem patadas, arranhões, cortes e mordidas, mas nunca levam à morte, ou ao menos não diretamente. Experiências mostram que, quando ratos são colocados no ambiente de outros, os conflitos dão origem a três grupos de machos. Os primeiros, chamados de alpha, são grandes, movem-se livremente e atacam intrusos. Os segundos, apelidados de beta evitam os alpha, mas não têm dificuldade em se alimentar e sobreviver. Já o terceiro grupo (ômega) anda e come pouco, ganha uma aparência deprimida, perde peso e, se não tiver para onde fugir, morre.
O motivo desses óbitos ainda é um mistério para os cientistas, mas acredita-se que, de alguma forma, o estresse social debilita o sistema imunológico dos roedores e os torna mais suscetíveis a infecções. Pois é. Os ratos também têm seus párias.
Seus hábitos sociais complexos e sua capacidade de aprender, de procriar e de comer de tudo fizeram dos ratos as cobaias favoritas dos cientistas ao longo do século XX. Hoje, mais de 80% das pesquisas feitas com animais envolvem roedores (incluídos aí os coelhos e os porquinhos-da-índia), originando uma demanda que criou gerações e gerações de bichos que nunca viveram fora de ambientes controlados. Resultado: os animais de laboratório são hoje bichos muito diferentes de seus parentes selvagens. A ratazana de laboratório, uma das espécies mais utilizadas, adquiriu características diferentes, como perda da neofobia – aquela desconfiança de elementos estranhos ao seu hábitat, porque isso atrapalharia muito as pesquisas.
Hoje, há ratos de todo tipo, criados por empresas especializadas em desenvolver cobaias para pesquisas específicas. Para estudos sobre hipertensão, por exemplo, há cobaias que vêm “de fábrica” com pressão alta. Em outros casos, é preciso animais muito semelhantes uns aos outros, para diminuir a variabilidade de um indivíduo para outro. Para essas ocasiões, as empresas fabricam milhares de ratos com código genético idêntico, como se fossem gêmeos múltiplos. A última novidade, anunciada no mês passado, foi o rato com controle remoto. Funciona assim: os cientistas instalaram três eletrodos no cérebro do animal, dois deles dando indicações da direção que ele deve seguir. Quando ele segue a orientação, recebe uma descarga do terceiro eletrodo, plugado a uma região que fornece sensação de prazer ao bichinho. Graças a essas pesquisas, a ciência já conseguiu, ao menos nas cobaias, vencer inúmeras enfermidades que ainda afligem os humanos, como mal de Parkinson, nanismo, obesidade e vários tipos de câncer.
Toda essa pesquisa, no entanto, ainda não foi capaz de responder à pergunta que você se faz quando se vê ludibriado pelos ratinhos do seu porão: os ratos são inteligentes ou é tudo apenas instinto? “Não existe um consenso a respeito do que é aprendizado ou inteligência em animais”, afirma Anthony Barnett. “Tudo o que podemos dizer é que muitas vezes os ratos parecem pensar de modo mais rápido e lógico que nós.”

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14.318 – Quem corre mais, bípede ou quadrúpede?


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O ser humano não trepa mais em árvores porque não precisa mais fazê-lo para sobreviver. No entanto, também não precisamos mais correr e continuamos correndo. Por quê? Conheça a teoria que diz que corremos porque ainda somos meio selvagens. De quebra, aprenda os truques dos melhores corredores do mundo animal
Quem costuma sair de casa bem cedo já deve ter notado a multidão de pessoas vestindo roupas esportivas, correndo pelas ruas para todos os lados. O hábito é tão disseminado que provavelmente você nem repare mais. Mas não deixa de ser estranho. Por que toda essa gente corre? De onde vem a satisfação de correr simplesmente por correr? E, afinal, por que a corrida é o esporte mais popular do mundo, com centenas de milhões de adeptos?
A resposta, segundo o corredor e biólogo americano Bernd Heinrich, está na natureza. Correr pode parecer supérfluo para a humanidade hoje, depois que domesticamos o cavalo e inventamos a bicicleta e o motor a explosão. Mas durante muito tempo a corrida foi fundamental para a sobrevivência humana, e essa habilidade continua inscrita em nosso código genético. “Somos todos corredores naturais, apesar de boa parte de nós ter se esquecido desse fato”, diz Heinrich, que é professor de biologia na Universidade de Vermont, nos Estados Unidos. Ele sabe do que fala. Em 1981, Heinrich venceu a ultramaratona de Chicago, nos Estados Unidos, em tempo recorde: completou os 100 quilômetros da prova em 6 horas e 38 minutos.
Curiosamente, ele atribui parte de seu sucesso às horas que passa no laboratório. Segundo ele, foi observando os animais que entendeu nosso prazer em correr e desenvolveu estratégias para melhorar sua performance como corredor. O resultado dessas observações está no livro Why We Run (“Por Que Corremos”, inédito no Brasil).
Segundo Heinrich, nossa obsessão por correr é inata. E isso seria fácil de observar. Afinal, não é preciso haver um prêmio para que crianças de qualquer idade se disponham a se alinhar e a disputar uma corrida. “É pelo prazer de correr”, diz ele. Essa disposição, segundo o professor, vem de nosso antepassado caçador. Ou seja, sempre que corremos, para ganhar uma corrida ou simplesmente para fazer exercício, estamos virtualmente de volta às savanas africanas onde nosso código genético foi forjado. “Toda corrida é como uma caçada. Terminar uma maratona, bater um recorde, fazer uma descoberta científica, criar uma grande obra de arte, todas essas tarefas são substitutas da necessidade de exibirmos as ferramentas psicológicas do predador de distância que somos”, afirma o corredor e professor.
Para entender essa herança ancestral, é preciso voltar 6 milhões de anos no tempo, até a época em que os primeiros hominídeos deixaram as árvores e começaram a vagar pelas planícies verdejantes do continente africano. Naqueles descampados, os animais viviam (e ainda vivem) em bandos, para caçar ou não serem caçados. E não foi diferente com os tataravós dos nossos tataravós. Nossos antepassados não eram supremos corredores e provavelmente compensavam essa falta de habilidade caçando em grupos. Carne havia em abundância nas planícies, mas somente para quem era capaz de alcançá-la, lutando e disputando espaço com leões, hienas, abutres e outros bandos.
E isso não bastava. Para vencer na vida, era preciso correr mais que os outros dentro do próprio bando. Entre chimpanzés e babuínos, ter acesso ao melhor pedaço de carne da presa recém-apanhada garante não só a boa alimentação e a sobrevivência. A posse da melhor carne significa mais amigos e um charme a mais para conquistar fêmeas. Significa ter filhos. Ou seja, entre nossos antepassados remotos, só os melhores corredores tinham acesso ao sexo, o que, convenhamos, é um estímulo e tanto para dar umas pernadas.

Pássaros e Antílopes
Seja para caçar búfalos ou para dar voltas e voltas no quarteirão, um dos maiores problemas para corredores de longas distâncias é como manter o corpo abastecido de combustível. No mundo animal, os bichos mais bem adaptados para vencer grandes distâncias são os pássaros migratórios, como o maçarico-das-rochas. Esses passarinhos cruzam, todo ano, milhares de quilômetros ao sabor das estações. Imagina-se que, para cumprir essa tarefa, os bichinhos tenham que estar no auge de sua forma, o que, para um ser humano, significaria estar bem magro. Engano. Seu “treinamento” para a jornada não poderia ser mais surpreendente: um regime de engorda. Os maçaricos-das-rochas, por exemplo, chegam a dobrar de peso nos dez dias que antecedem a partida – a maior parte do que ganham é gordura, que é queimada durante o vôo e usada como combustível.
Seria interessante, então, para maratonistas humanos engordarem? Com as regras atuais das corridas, claro que não. Se a prova fosse intercontinental, uma travessia de centenas de quilômetros, em que os competidores não pudessem comer nada, os atletas mais gordos teriam mais chances de vencer, com certeza. Os corredores magros disparariam na frente, mas não terminariam a prova. Uma Ferrari que não pudesse abastecer perderia uma corrida dessas para um caminhão que carregasse seu peso em combustível.
A diferença é que, nas corridas humanas tradicionais, os competidores podem comer quando e quanto quiserem durante uma prova. Ou seja, é melhor correr magro para carregar o menor peso possível. Assim, a maior parte dos corredores de elite tem no máximo 6% do peso do seu corpo constituído por gordura. Comer e beber durante o caminho tem suas desvantagens. Ultramaratonistas, que correm mais de 100 quilômetros, são obrigados a defecar e urinar durante a prova. E muitas vezes (eca!) fazem isso sem parar de correr.
A capacidade de carregar o combustível é o que diferencia um grande corredor de uma presa fácil. O antilocapra, um antílope que vive nas pradarias da América do Norte, foi considerado o melhor corredor de longa distância, em uma eleição feita pela revista britânica Nature, especializada em ciência. Esses animais atingem até 98 quilômetros por hora e podem manter essa velocidade por até meia hora, o que é impensável para humanos e outros animais.
Uma das chaves para seu desempenho é a extraordinária taxa de energia que o antilocapra consegue obter do oxigênio que respira, ou seja, sua capacidade aeróbica, que é quatro vezes maior que a de um campeão olímpico da maratona.
Só que um desempenho desses exige uma taxa de gordura baixíssima, o que reduz a resistência desses animais. Se for preciso, um antilocapra pode vencer até 50 quilômetros sem perder o pique. Mas, depois dessa distância, seu combustível se esgota.

Lições de camelo
Ao longo da evolução, os animais assumiram formas e comportamentos diversos. Mas seu metabolismo é bastante parecido. E, quando se trata de exercício prolongado, todos têm um problema em comum: o superaquecimento. Para nos exercitarmos, precisamos de alta temperatura nos músculos. Ao correr, aumentamos o metabolismo de 1,5 quilocalorias por minuto para 30 quilocalorias por minuto. Para evitar que esse excesso de calor leve à exaustão, cada animal tem sua estratégia. As abelhas se besuntam com o néctar que colhem. Alguns pássaros defecam nas próprias pernas. Nós suamos.
Ou seja: podemos continuar correndo, sem superaquecimento, enquanto tivermos fluidos suficientes para seguir suando. O detalhe é que nosso corpo tem uma capacidade limitada de armazenar água. Em busca de um modelo perfeito, Heinrich examinou o rei da secura, o animal em que todo mundo pensa quando se fala em cruzar grandes distâncias sem água: o camelo. Camelos andam freqüentemente muito além de 100 quilômetros. Viajam os 300 quilômetros entre Cairo, no Egito, e a Jordânia em dois dias. Homens também são capazes de correr 600 quilômetros em quatro dias e sobrevivem para correr ainda mais. Yiannis Kouros, um corredor grego (provavelmente o maior especialista em grandes distâncias de todos os tempos), correu 1 500 quilômetros em dez dias – uma média de 150 quilômetros por dia. Mas a comparação com o camelo é injusta, porque Kouros comeu e bebeu o quanto quis no caminho.
Por milhares de anos acreditou-se que os camelos armazenavam água no estômago. Mas não é verdade. Pesquisas recentes não encontraram nenhuma capacidade extra de estocar água no camelo. O truque do animal é outro: ele economiza a água que tem, por meio de alguns mecanismos engenhosos. O primeiro são as corcovas. Acreditava-se que elas eram uma espécie de caixa-d’água que o animal carregava para todo canto. Mas não é isso que ocorre. Compostas basicamente de gordura, elas funcionam mais como uma cesta cheia de alimento que o animal carrega nas costas e vai consumindo aos poucos. A utilidade delas na perda de água é a sombra que proporcionam e o revestimento de pêlos que as cobre, o que reduz o aquecimento do animal e evita que perca água pelo suor.
Mas o animal tem outros truques. Humanos morrem se perderem água equivalente a 12% do peso do corpo. O camelo sobrevive com perdas de até 40%. Depois de desidratado, ele pode beber até 25% do peso do corpo em água, de uma vez. Em nós, o efeito seria tóxico: as células do sangue inchariam e poderíamos até morrer se bebêssemos água em excesso.
Não bastasse tudo isso, a urina e o suor do camelo são mais concentrados, graças a mecanismos que envolvem micróbios em seu estômago. Assim, consegue se aliviar sem gastar tanta água. Se um camelo ficasse à deriva em um bote no oceano, não morreria de sede: ele pode reidratar-se tomando água salgada, o que para nós é fatal.
Segundo Heinrich, as estratégias do camelo nos dão grandes lições: 1) use uma corcova, ou seja, cubra a cabeça com chapéu e o corpo com roupas leves e soltas, para evitar perder líquidos. 2) Beba líquidos durante o caminho, mas um pouco de cada vez.

Os truques dos sapos
Sapos não são nenhum exemplo de bom deslocamento. Não correm, saltam. Eles estão longe da performance dos cangurus, que atravessam grandes distâncias em alta velocidade, graças aos saltos. Mas eles têm muito a ensinar aos corredores. Anualmente, na época do acasalamento, os sapos se reúnem aos bandos em charcos e lagoas e dão início a uma competição de coaxadas, uma atividade tão aeróbica quanto qualquer maratona. Nessa empreitada, os sapos chegam a utilizar 100% de sua capacidade aeróbica. Para se ter uma idéia, ultramaratonistas, a elite da capacidade aeróbica humana, durante as provas, utilizam 60% de seu potencial.
O risco de coaxar tão perto do limite é grande. Um ser humano que corresse acima do limite de sua capacidade aeróbica, mesmo que por poucos segundos, ficaria exausto rapidamente, graças ao acúmulo de ácido lático, que enrijece os músculos. Depois que esse mecanismo ocorre, é preciso um bom tempo de descanso, para que o ácido seja eliminado. Para um sapo, isso significaria perder a chance de copular com as fêmeas. Para um corredor, seria ir para casa antes do fim da corrida.
Assim, ao longo de milhões de anos de evolução, os sapos desenvolveram sistemas de segurança para coaxarem perto do limite mas sem ultrapassá-lo. O segredo é manter um ritmo constante, sem acelerar ou diminuir, e dar coaxadas curtas. Nem sempre isso resolve: no eterno embate que é a seleção natural, as fêmeas desenvolveram um gosto especial pelos machos que conseguem dar as coaxadas mais longas. Mas os que se apressam nessa tarefa correm o risco de acabar sem voz antes da cantada final.
É o que fazem também maratonistas e ultramaratonistas: passos curtos. Fundistas percorrem os 100 metros finais de uma prova com quase o dobro de passos com que os velocistas vencem a mesma distância. “Passos longos alcançam mais longe, mas cansam o corredor mais rapidamente”, diz Heinrich.

Por que ficar em pé?
Correr em dois pés não é exclusividade humana. Há evidências de que os dinossauros bípedes eram também velocistas, ao contrário dos grandes e lentos quadrúpedes. E há vários animais quadrúpedes que, quando precisam acelerar, usam apenas as patas posteriores. Você mesmo já deve ter enfrentado um dos campeões do reino animal em eficiência das passadas. E já deve ter percebido como é difícil alcançá-lo. Como todos os insetos, as baratas têm seis perninhas e só três tocam o solo ao mesmo tempo em deslocamento. Mas, quando precisam dar uma arrancada, as baratas mudam de tática: abrem as asas, jogam o peso do corpo para trás e se tornam bípedes, fugindo com as duas pernas traseiras.
Ou seja, nossa evolução de quadrúpedes para bípedes também deve ter algo a ver com obtenção de velocidade. Todos os bípedes que correm rápido o fazem por uma sucessão de saltos, alternando as pernas ou usando as duas de uma vez. Isso acarreta um considerável impacto nos pés e, com isso, uma grande perda de energia. Entretanto, um mecanismo desenvolveu-se para conter um pouco dessa energia.
O segredo está na anatomia dos nossos pés. Quando o calcanhar encosta no solo, o tendão-de-aquiles é esticado e, quando o pé rebate, decolando do chão sobre os dedos, o tendão estendido contrai e libera a energia armazenada. Até 40% da energia absorvida pelo impacto é retida no ligamento, para retornar ao corpo durante o próximo passo. Graças a esse design natural, correr descalço poderia melhorar nossa eficiência, desde que, claro, o solado do pé fosse forte o suficiente para resistir ao esfolamento durante longas corridas. Para aqueles que conseguem, essa é uma vantagem e tanto, como o corredor etíope Abebe Bikila, que correu e venceu descalço a maratona nas Olimpíadas de Roma, em 1960.
No nosso caso, a postura ereta trouxe vantagens além da velocidade. Apesar de a corrida sobre dois pés gastar mais energia do que com quatro, para longas distâncias era uma considerável melhora. “A eficiência de energia era sacrificada em favor da liberação das mãos para outras tarefas”, afirma Heinrich. Os primatas podiam segurar objetos e carregar os filhotes. Em pé, também, podiam enxergar mais longe.
Além disso, de pé era reduzido o calor que entrava nos corpos aquecidos pelo sol. Experiências mostram os bípedes têm uma redução de 60% na radiação solar direta sobre o corpo.
Mas com isso o topo da cabeça ficou à mercê dos raios solares. A solução para esse problema também veio com a evolução. O cérebro humano tem uma rede especial de veias que agem como radiadores para dissipar o calor. Fósseis indicam que o Australopitecus já possuía esse mecanismo, o que indica que eles sofreram grande pressão seletiva para prevenir o superaquecimento. “Nosso cabelo evoluiu assim”, diz Heinrich.
Com todo esse aparato que a natureza nos deu, não se espante se, depois de correr da chuva ou perseguir um ônibus, você sentir uma sensação de prazer. Você nasceu feito para isso.

14.311 – Austrália divulga nova imagem do extinto tigre-da-Tasmânia


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O Arquivo Nacional de Filmes e Som da Austrália (NFSA, na sigla em inglês) divugou uma gravação do que se pensa ser a última filmagem de um tilacino, também conhecido como tigre-da-Tasmânia, extinto em 1936.

Segundo Charles Feigin, biólogo de desenvolvimento evolucionário da Universidade de Melbourne, esse animal não era bem um tigre tigre. “Era uma espécie singular e bizarra”, disse o especialista à revista Nature, em 2017. O animal tinha cara e corpo de cachorro, uma bolsa para levar os filhotes, como a de cangurus, e listras — motivo por que ficou conhecido como tigre-da-tasmânia.
O animal da foto divulgada pelo NFSA é Benjamino, que morreu no zoológico australiano Hobart Beaumaris, em 7 de setembro de 1936. Pela tecnologia da época, existem poucas imagens do tilacino (menos de seis). A filmagem mais recente foi encontrada em um diário de viagem esquecido da Tasmânia e, agora, preservada digitalmente em 4K.
A gravação ocorreu no zoológico por volta de março de 1935, um ano depois da última imagem conhecida do tilacino, e mostra um tratador de animais sacudindo a gaiola do tigre-da-Tasmânia. O NFSA disse que a ação poderia ter sido realizada para provocá-lo a rugir. Benjamin morreu 18 meses depois, declarando a extinção da espécie.

Entretanto, existem relatos recentes de tilacinos na natureza. Em 2019, o Departamento de Indústrias Primárias, Parques, Água e Meio Ambiente da Tasmânia divulgou um documento apontando uma possível existência de oito exemplares da espécie. O Thylacine Awareness Group acredita que o animal ainda perambula pela Austrália continental.
Segundo Cath Temper, especialista em mamíferos do Museu da Austrália do Sul, se a espécie ainda existir, seria extraordinário. “Nunca houve um espécime de tilacino no continente”, disse à BBC em 2016. Apesar de persistir na Tasmânia até a década de 1930, acredita-se que o animal tenha sido exterminado da Austrália continental há mais de 3 mil anos.
Até os cientistas encontrarem a espécie viva ou clonarem o animal, teremos de nos contentar com as poucas imagens que existem dessas criaturas exóticas.

14.305 -Transmissão assintomática é vantagem evolutiva para Sars-CoV-2


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A rápida disseminação da Covid-19 em todo o mundo é resultado, em partes, da capacidade do novo coronavírus de permanecer em seu hospedeiro sem causar sintomas. Essa habilidade, segundo pesquisadores da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, é uma estratégia evolutiva.
A conclusão é resultado de um estudo que examinou prós e contras da transmissão silenciosa na sobrevivência a longo prazo do Sars-CoV-2. Os resultados foram compartilhados em um artigo no Proceedings of the National Academy of Sciences.
Como organismos mais complexos, os vírus podem evoluir por seleção natural, ou seja, os seres vivos mais adaptados ao ambiente têm mais facilidade para sobreviver. Isso ocorre porque novas variantes de determinada espécie surgem como resultado de mutações genéticas e, se o organismo tiver os mecanismos evolutivos adequados para sua sobrevivência, conseguirá prosperá e reproduzir, gerando descendentes com as mesmas características.
No caso de um patógeno como o novo coronavírus, demorar para causar sintomas em seu hospedeiro pode ser vantajoso. Para compreender o porquê disso, basta imaginar o cenário oposto: se um microrganismo afeta seu hospedeiro e o mata muito rapidamente, ele não tem tempo para se reproduzir e é transmitido para menos pessoas — o que, para o patógeno, é uma desvantagem.
“A evolução viral envolve uma troca entre aumentar a taxa de transmissão e manter o hospedeiro como base de transmissão”, explicou Simon Levin, um dos pesquisadores, em comunicado. “As espécies que navegam nessa troca de forma mais eficaz do que outras virão para substituir essas outras na população.”
Como bem exemplificado pela pandemia de Covid-19, uma infecção silenciosa tem vantagens a curto prazo: ela dificulta a implementação de estratégias de controle como identificação, quarentena e rastreamento de contatos. Isso permite que quem está infectado mas ainda não apresenta sintomas continue circulando por aí e disseminando o novo coronavírus.
No entanto, também existem desvantagens evolutivas para esses vírus. De acordo com os especialistas, as pessoas assintomáticas geram menos partículas infecciosas e, portanto, menos microrganismos “escapam” quando elas espirram ou falam.

Método
Para estudar o efeito da transmissão assintomática, a equipe fez modificações em um modelo matemático padrão de como uma doença se espalha pela população. O modelo divide a sociedade em setores, representando indivíduos suscetíveis, infectados e recuperados.
Os especialistas de Princeton, então, dividiram os “infectados” em dois estágios: total ou parcialmente sintomáticos e os que apresentaram todos os problemas de saúde relacionados à Covid-19. Como explicam os pesquisadores, eles não se concentraram apenas no efeito da variação dos sintomas na propagação da doença, mas também nas consequências evolutivas dessa divergência.
A equipe descobriu que estratégias evolutivas bem-sucedidas (para o vírus) surgiram quando o primeiro estágio da infecção era completamente assintomático ou o extremo oposto. Além disso, os pesquisadores concluíram que o alcance do organismo (sua capacidade de não causar nenhum sintoma e de causar sintomas máximos) poderia ser alterado por pequenas mudanças nas estratégias de controle da doença.
Esta última parte da análise indica que as estratégias de controle de doenças podem influenciar qual aspecto evolutivo será mais bem-sucedido em determinado patógeno, o que tem impactos enormes em pandemias como a do novo coronavírus. “Com base em nosso modelo, [esta estratégia evolutiva] é um ponto final evolutivo natural para certas doenças”.

14.298 – Conceitos de Biologia


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O citoplasma é a região da célula onde se encontra o núcleo e as organelas, além de outras estruturas com funções específicas. É constituído de substância fluida denominada citosol.
O modelo básico de célula que se conhece desde os primeiros estudos da citologia é composto dessas 3 estruturas: membrana, citoplasma e núcleo.
A membrana é o que delimita a substância fluida e viscosa, chamada citoplasma, onde ficam as organelas e o núcleo, que por sua vez contem o material genético (DNA e RNA).

Não devemos esquecer que nas células procariontes, típicas de bactérias e arqueas, não há núcleo e o material genético fica espalhado pelo citoplasma.

Citosol e Citoesqueleto
Atualmente, com a evolução da biologia molecular, já se sabe que o citoplasma de células eucariontes pode conter diversas estruturas com funções específicas. Desse modo, sabemos que há duas regiões no citoplasma: o citosol e o citoesqueleto.
A região que é mais fluida chamada hialoplasma, é onde ficam mergulhadas muitas estruturas membranosas chamadas organelas citoplasmáticas, além de grânulos compostos de RNA e proteínas, os ribossomos.
E na região denominada citoesqueleto, está presente uma complexa estrutura de redes formadas por microtúbulos e microfilamentos, que podem ser compostos de moléculas de proteína ou de actina (como no caso dos músculos).
Funções
No citosol acontece a maior parte das atividades celulares, sempre associado às organelas. A síntese de proteínas, por exemplo, é uma das reações mais importantes.
No processo de produção da cadeia polipeptídica, participam o ribossomo e as moléculas de DNA e RNA. Outra atividade essencial é a respiração celular que produz a energia que será utilizada pelas células do corpo, parte desse processo ocorre no citoplasma e outra parte dentro das mitocôndrias, como no Ciclo de Krebs.
Os filamentos do citoesqueleto são uma espécie de armação ou esqueleto que tem como funções dar forma à célula e permitir movimentos tanto de organelas como da célula como um todo.

Composição Química
O citoplasma é composto em grande parte por água, mas também por moléculas orgânicas, em especial macromoléculas como proteínas e enzimas. Além disso, também estão presentes lipídios e polissacarídios. As enzimas têm papel essencial catalisando diversas reações que acontecem no citosol.
A divisão celular é o processo pelo qual uma célula-mãe origina células-filhas.
Através deste processo as células unicelulares se reproduzem e as multicelulares se multiplicam.
A frequência de divisões celulares varia com o tipo e estado fisiológico de cada célula.
No organismo humano, por exemplo, algumas células estão em constante multiplicação. Um exemplo são as células da epiderme e da medula óssea, que se multiplicam para repor as células que morrem.
Entretanto, alguns tipos de células mais especializadas como os neurônios, hemácias e células musculares, nunca se dividem.

Ciclo Celular
É o período que se inicia com a origem da célula, a partir de uma divisão celular e termina quando esta se divide em duas células-filhas.
O ciclo celular é dividido em duas etapas: a interfase e a divisão celular.
Nos eucariontes existem dois tipos de divisão celular: a mitose e a meiose.
Interfase
É a fase em que a célula não está se dividindo.
É o período mais longo do ciclo celular, aproximadamente 95% do tempo.
Neste momento ocorrem diversos fatos que possibilitam a divisão celular, como: a replicação do DNA, a divisão dos centríolos e a produção de proteínas.
A interfase é subdividida em três fases: G1, S e G2.
Na fase G1, que antecede a duplicação do DNA, as células aumentam de tamanho, produzem RNA e sintetizam proteínas.
Na fase S ocorre a síntese de DNA. A quantidade de DNA no núcleo da célula é replicado. Lembre-se que replicação significa o processo de duplicação da molécula de DNA.
Antes de qualquer divisão celular há duplicação do DNA durante a interfase.
A fase G2, corresponde ao intervalo entre a síntese de DNA e a mitose. A célula continua crescendo e produzindo proteínas.

Tipos de Divisão Celular
Mitose
É o tipo de divisão celular que a célula-mãe, haploide (n) ou diploide (2n), origina 2 células-filhas com o mesmo número de cromossomos da célula-mãe.
É uma divisão equacional.
A mitose é realizada quando há reprodução assexuada.

Funções da mitose
Crescimento e regeneração de tecidos;
Cicatrização;
Formação de gametas em vegetais;
Divisões do zigoto durante o desenvolvimento embrionário.
Aprenda mais sobre a mitose e suas fases.
Meiose
É o tipo de divisão celular em que a célula mãe, sempre diploide (2n), com cromossomos duplos, origina através de duas divisões sucessivas, quatro células filhas com metade do número de cromossomos da célula mãe.

É uma divisão do tipo reducional.

Funções da Meiose
Formação dos gametas em animais;
Formação dos esporos nos vegetais.
Aprenda mais sobre a meiose e suas fases.
Saiba as diferenças entre os dois processos de divisão celular em: Mitose e Meiose.

14.287 – Biologia – O que é Netose?


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É um tipo de morte celular regulada, mediada pela a ação dos neutrófilos, as principais células fagocitárias do sistema imunológico inato. Essa morte ocorre por meio de uma das estratégias antimicrobianas dessas células, a liberação de NETs, por isso, o nome NETosis.

NETs são estruturas complexas em formato de teias, compostas de cromatina descondensada e associada a mais de 30 proteínas neutrófilas, as quais podem capturar, neutralizar e levar a morte vários microrganismos. Elas são liberadas para o meio extracelular em torno do neutrófilo e, por isso, fornecem uma barreira física que impede a disseminação microbiana e aumenta a concentração local dos antimicrobianos.
Os neutrófilos junto aos eosinófilos, basófilos e mastócitos, são leucócitos classificados como granulócitos, pois, possuem vesículas chamadas grânulos em seu citoplasma, as quais contém citocinas, receptores de membrana e proteínas de defesa contra microrganismos e células hospedeiras.

Essas células, estão presentes no sangue e são recrutadas quando há infecção nos tecidos. Após a infecção, os macrófagos e outras células residentes na região liberam citocinas inflamatórias e quimioatraentes. Tais substâncias ativam e atraem os neutrófilos para a região infectada. Eles são uma das primeiras células a chegarem nos tecidos e apresentarem resposta imune e reparo tecidual.
Os neutrófilos fagocitam os microrganismos, produzindo uma vesícula que os contém, chamada fagossomo. No citoplasma, esse fagossomo funde-se aos grânulos dos neutrófilos, o que resulta na formação de um fagolisossomo. Quando ocorre essa formação, montam-se complexos enzimáticos de proteínas transmembranas, a NADPH (nicotinamida adenina dinucleotídeo fosfato) oxidase, as quais transferem elétrons para o oxigênio molecular na célula, formando ânions superóxidos dentro do fagolisossomo. Esse ambiente oxidativo junto a fatores microbianos, inativa e mata os microrganismos fagocitados.

Quando os grânulos azurofílicos dos neutrófilos se fundem ao fagolisossomo, há o estímulo para formação dos NETs, os quais se juntam ao conteúdo oxidado, após a degranulação da vesícula, culminando em sua liberação em conjunto para o citoplasma.

Estímulos que desencadeiam a Netosis
Existem vários microrganismos relatados indutores de netose, como:

Bactérias: Escherichia coli, Shigella flexneri, Mycobacterium tuberculosis, Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes e Streptococcus pneumonia.
Vírus: HIV-1, Influenza e vírus da leucemia felina.
Fungos: Candida albicans, Candida glabrata, Aspergillus fumigatus e Aspergillus nidulans.
Parasitas: Leishmania spp., Plasmodium falciparum, Toxoplasma gondii e Eimeria bovis.
As deficiências que prejudicam a formação de NET resultam em alta suscetibilidade a infecções oportunistas em humanos e modelos de camundongos. No entanto, foi observado grande produção deles em doenças autoimunes.

Liberação de NETs rápida e lenta
Existem dois mecanismos conhecidos de libertação de NET:

1) Um mecanismo rápido, que inicia de 5 a 60 minutos após a estimulação por bactérias Staphylococcus aureus e Streptococcus pyogenes. Esse mecanismo impede uma janela de tempo em que a infecção pode se instalar, por ser mais rápido que o mecanismo chamado lento. Ele não envolve a morte celular. Assim, vesículas que contém cromatina descondensada brotam do núcleo e se acumulam próximo a membrana plasmática, quando há a degranulação do fagolisossomo, formando NETs junto a cromatina. Eles, então, são liberados para o meio externo, eliminando o patógeno sem que haja degradação completa do núcleo e a consequente morte celular do neutrófilo.

2) O outro mecanismo de liberação de NET é considerado lento em comparação ao anterior, pois dura de 2 a 4 horas após o estímulo infeccioso. A maioria dos neutrófilos realiza esse tipo de netose, culminando na morte celular. Seu mecanismo se dá da seguinte maneira: Primeiro o núcleo perde sua forma lobulada característica. Na sequência, as membranas nucleares se desintegram e a cromatina descondensa no citoplasma da célula intacta, onde se mistura com o conteúdo granular. Finalmente, a membrana plasmática se rompe e as NETs são liberadas, provocando a morte do neutrófilo.

Conclusão
A liberação de NETs e a netose são potentes mecanismos de defesa dos neutrófilos e complementam a capacidade do sistema imunológico de combater doenças infecciosas, além de restringir fisicamente os patógenos aprisionados e secundariamente para eliminá-los.

14.251 – Morcegos estão sendo mortos no Peru por medo do novo coronavírus


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Algumas pessoas no Peru estão matando morcegos com o intuito de controlar a pandemia de Covid-19, causada pelo novo coronavírus. Segundo as autoridades do país, os cidadãos estão preocupados com a possibilidade do animal transmitir a doença.
A preocupação dos peruanos se baseia na crença dos especialistas de que o novo coronavírus seja a mutação de um vírus que atinge outra espécie animal. Dentre os principais suspeitos de ser o hospedeiro original do Sars-CoV-2 estão pangolins, serpentes e morcegos — espécies comumente consumidas em Wuhan, na China, onde a doença surgiu.
As autoridades peruanas alertam para o fato de que o vírus que afeta os humanos é uma mutação do que atingia os animais, ou seja, outras espécies provavelmente não são vetores da doença. “Não devemos distorcer a situação devido à pandemia. Os morcegos não são nossos inimigos”, disse o Serviço Nacional de Florestas e Fauna Silvestre (SERFOR) do Peru em comunicado.
Agora, o SERFOR está resgatando os morcegos ameaçados: mais de 200 animais já foram removidos de regiões onde estavam expostos aos humanos e transferidos para uma caverna. Além disso, os especialistas tentam informar a população sobre a importância dessa espécie para os seres humanos. “Setenta por cento das espécies no mundo se alimentam de insetos, muitos dos quais são prejudiciais à agricultura e à nossa saúde, como mosquitos que espalham a dengue e outras doenças”, afirmam as autoridades.

14.235 – Biologia – Espécies em Extinção


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Gato-maracajá (Leopardus wiedii)
O gato-maracajá é um felino nativo da América Central e da América do Sul. Além da Floresta Amazônica, esta espécie também pode ser encontrada em outros biomas brasileiros.
O desenho de seus pelos são muito semelhantes ao da onça-pintada, tornando-se assim um alvo de caça. É um animal que está em risco de extinção, sendo classificado como vulnerável pelo Livro Vermelho da Fauna Brasileira ameaçada de extinção, publicado pelo ICMBio.

14.229 – Este pode ter sido o animal que passou o novo coronavírus para humanos


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Uma equipe de pesquisadores chineses anunciou que o pangolim, um tipo de mamífero da África e da Ásia ameaçado de extinção, pode ter sido o animal que passou o novo coronavírus para humanos. O surto da doença provavelmente se iniciou em um mercado de animais silvestres em Wuhan, na China, e desde então já infectou mais de 31 mil pessoas em todo o mundo, totalizando 638 mortes até a tarde desta sexta-feira (07/02).
O resultado vem de uma análise genética feita por cientistas da Universidade Agrícola do Sul da China em amostras de mais de mil animais selvagens. Segundo a equipe, o material genético do 2019-nCoV – o vírus que vem infectando humanos e causando sintomas respiratórios – é 99% igual ao material genético de um vírus encontrado em pangolins, o que faz desse animal o melhor candidato, até agora, a ter trazido a doença para nós.
Mas cientistas de todo o mundo vêm encarando a nova possibilidade com cautela, principalmente porque o estudo completo ainda não foi publicado – por enquanto, os chineses só divulgaram resultados gerais em uma conferência de imprensa. A equipe disse que pretende publicar os detalhes o quanto antes para ajudar no combate à doença.
Estudos anteriores haviam indicado que o novo coronavírus surgiu primeiro em morcegos – que são conhecidos por hospedarem diversos vírus sem apresentar sintomas. Mas a possibilidade de haver um hospedeiro intermediário, ou seja, um animal que pegou o vírus dos morcegos e o transmitiu para nós, é alta. Desde o início do surto, cientistas vêm buscando qual seria o responsável por essa ligação, mas a tarefa é difícil, principalmente porque, no mercado em que se acredita que a doença tenha começado, diversos animais silvestres eram vendidos, tornando a lista de candidatos grande.
Outros vírus conhecidos, do mesmo grupo do novo patógeno, seguiram caminhos parecidos. O coronavírus responsável por causar a SARS (Síndrome respiratória aguda grave), doença que surgiu na China em 2002 e matou mais de 800 pessoas, teve sua origem em morcegos, mas chegou aos humanos através do contato com mamíferos conhecidos como civetas. Já o causador da MERS (Síndrome respiratória do Oriente Médio), doença parecida com a atual que causou mortes em 2012, também surgiu em morcegos e provavelmente passou para os humanos por meio de camelos.
O pangolim é um mamífero que habita regiões da Ásia e da África e lembra visualmente um tatu. Sua carne é considerada uma iguaria em algumas regiões da Ásia – e partes do animal, como suas escamas, também são usadas em procedimentos da medicina tradicional chinesa (mesmo que não tenham efeito comprovado pela ciência). A demanda pelo animal é alta e, por isso, o pangolim é o animal mais traficado de todo o mundo, segundo a União Internacional para Conservação da Natureza e está altamente ameaçado de extinção, mesmo sendo protegido pela legislação internacional.
Um estudo anterior havia indicado que o hospedeiro intermediário do 2019-nCoV poderia ser uma espécie de cobra asiática, que foi vendida na feira onde se acredita ter originado o surto. Mas, desde a publicação dessa pesquisa, cientistas vêm contestando a tese, porque só há registros de coronavírus parecidos em aves e mamíferos, e não répteis.

A nova possibilidade também aumenta a pressão sobre o governo da China, que já há algum tempo vem sendo acusado de ser brando no combate ao tráfico de animais selvagens. Com o novo surto de coronavírus, instituições internacionais pediram que o comércio de vida selvagem acabe totalmente no país. Com isso, o governo chinês anunciou, em janeiro, uma proibição temporária da prática. Mas muitos ainda pressionam para que a legislação seja permanente.

14.215 – Biologia – Aranhas Venenosas


☻ Mega Arquivo – 32º Ano

 

armadeira

As aranhas são animais invertebrados que pertencem ao filo dos artrópodes e classe dos aracnídeos. Enquanto algumas são inofensivas, outras podem injetar veneno e representam perigo ao homem e a outros animais vertebrados.
A picada da aranha pode ocasionar vermelhidão, dor, inchaço, dor de cabeça e em casos mais graves, a morte do indivíduo. Tudo irá depender da espécie, quantidade de veneno injetado e das características corporais da vítima.
A aranha armadeira (Phoneutria sp.) é considerada a mais perigosa do mundo, sendo encontrada no Brasil. Várias espécies de aranhas-armadeiras são encontradas na América do Sul. No Brasil, é uma das aranhas que mais causam acidentes.
É uma espécie agressiva e o seu veneno em grande quantidade pode levar uma pessoa a morte. Para se ter uma ideia, apenas 0,006 mg do seu veneno é suficiente para matar um rato. E não é só, o veneno da aranha armadeira pode atuar de forma mais rápida do que o de muitas serpentes!
Já foram notificados casos de mortes de pessoas em virtude do veneno da aranha-armadeira, inclusive no Brasil. Atualmente, já existe antidoto contra o veneno desta tão perigosa aranha.
Algumas vezes a picada da aranha-marrom pode passar despercebida, até que sejam notadas alterações no local afetado, tais como: feridas, inchaço, vermelhidão e bolhas. No local da picada pode ocorrer a necrose, ou seja, a morte do tecido.
Apesar de não ser uma aranha agressiva, casos de acidentes com humanos já foram notificados. O mais comum é ser surpreendido pela presença da aranha em ambiente doméstico, onde é encontrada dentro de sapatos ou misturada na roupa de cama.
A aranha-teia-de-funil (Atrax robustus) é nativa da Austrália, o seu nome deve-se ao fato de elaborar teias que assemelham-se a funis.
O veneno da aranha-teia-de-funil é um dos mais perigosos e pode ser fatal para os humanos ao afetar o sistema nervoso. Essas aranhas são agressivas e usam as patas para se prender as suas pressas e injetar seu veneno.
A aranha-teia-de-funil já fez diversas vítimas na Austrália. Na década de 80 foi formulado um antídoto contra o veneno da aranha-teia-de-funil, a partir daí não foi registrada mais nenhuma morte relacionada a acidentes com essa aranha.
A aranha viúva-negra (Latrodectus mactans), conhecida por matar e alimentar-se do macho após a cópula, é encontrada em toda a América.
Apenas as fêmeas picam os seres humanos e causam acidentes. A picada causa dor, cãibras no local atingido e conforme o veneno se espalha pelo corpo, outros sintomas mais intensos vão surgindo. Sem a ajuda médica, a vítima pode morrer.
A aranha-rato (Missulena occatoria) é encontrada na Austrália, e o seu nome deriva do fato das mesmas cavarem tocas para servir de esconderijo dos predadores e um local seguro para guardar os seus ovos e filhotes.
Apesar de não serem agressivas, as aranhas-rato possuem um veneno poderoso, mas com poucos casos de acidentes registrados.
A aranha-de-costas-vermelha (Latrodectus hasseltii) é nativa da Austrália e introduzida em diversos locais do mundo. Ela destaca-se pela presença de faixa longitudinal vermelha na parte superior do abdômen.
Do mesmo modo que as viúvas-negras, as aranhas-de-costas-vermelhas também se alimentam dos machos após a cópula.
A sua picada causa dor intensa, seguida de sudorese, espasmos musculares, taquicardia, náuseas e vômitos. Até o momento da descoberta da vacina contra o seu veneno, a aranha-de-costas-vermelha foi responsável pela morte de algumas pessoas.
A aranha-da-areia (Sicarius sp.) recebe esse nome pois usa a areia para se camuflar, isso porque habita os desertos da África e América do Sul.
A sua picada provoca dor, necrose do tecido atingido, lesões e outras complicações, conforme o veneno se espalha pelo organismo, podendo levar a morte. Ainda não existe antídoto contra o veneno da aranha-da-areia.
Curiosidades
As aranhas podem ser seres pavorosos para algumas pessoas, as quais desenvolvem medo extremo desses animais, o que é chamado de aracnofobia.
Acredita-se que 5% da população mundial seja afetada pela aracnofobia.

viuvanegra

14.213 – Biodiversidade – Cruzamento de espécies cria novo tipo de lobo


lobo coiote
Assim como algumas pessoas não querem admitir, os lobos, confrontados com uma escassez de parceiras sexuais, não se conformaram em diminuir sua necessidade reprodutiva. Por isso, na opinião dos biólogos, os lobos que viviam no sul da província canadense de Ontário começaram, há um século ou dois, a se acasalarem com cães e coiotes. O desmatamento de florestas com fins agrícolas e a perseguição que os seres humanos faziam aos lobos, dificultaram a preservação da espécie. Mas esse mesmo desflorestamento causou a disseminação dos coiotes em áreas antes exclusivas dos lobos, além da presença de cachorros trazidos pelos agricultores.

Os cruzamentos entre espécies de animais em geral resultam em descendentes menos vigorosos e que, às vezes, não sobrevivem à mistura de raças. Mas a combinação do DNA do lobo, do coiote e do cão gerou uma exceção. Os novos animais extraordinariamente bem constituídos e em número cada vez maior espalharam-se pela região leste da América do Norte. Alguns chamam essa nova espécie de coiote oriental. Outros apelidaram o animal de “coywolf”. Qualquer que seja o nome, de acordo com o pesquisador Roland Kays da Universidade da Carolina do Norte, em Raleigh, o número de animais já superou um milhão.
A mistura de genes que criou o coywolf teve uma evolução mais rápida, com um maior número de animais e mais alterações genéticas do que seria previsível. Embora o DNA do coiote seja o dominante, em média um décimo do material genético de um coywolf é de um cão e um quarto de um lobo. A herança genética de lobos e cães, em especial de cães de grande porte como doberman e pastor alemão, beneficiou o DNA dos coywolves. Com 25 quilos ou mais, muitos coywolves têm o dobro do peso de coiotes de raça pura. Com maxilares maiores, mais músculos e um passo mais rápido, um coywolf pode derrubar um pequeno cervo. E uma matilha é capaz de matar um alce adulto.
Os cientistas e biólogos ainda discutem se o coywolf pode ser classificado como uma nova espécie. As espécies, na definição geral das categorias taxonômicas, são seres morfologicamente semelhantes e que cruzam entre si gerando descendentes. Assim, nessa linha de raciocínio, como os coywolves continuam a se acasalar com cães e lobos, eles não se classificam como uma espécie animal. Mas, dada a forma como os coywolves surgiram, nessa definição os lobos e cães também não podem ser considerados espécies diferentes porque se acasalam e, ainda em uma extensão desse raciocínio, os cães seriam espécies evolutivas dos lobos selvagens que foram sendo aos poucos domesticadas.
Na verdade, o conceito de “espécies” foi criado pelos seres humanos. E como a discussão anterior mostrou esse conceito não tem uma definição precisa. O exemplo do coywolf mostra que a evolução não é o simples processo de cruzamento de espécies descrito nos livros didáticos.

14.209 – Mega Bloco Biologia – O que é uma espécie invasora?


labrador
Os cães, talvez os primeiros animais domesticados pelo homem, possivelmente surgiram através da seleção artificial de linhagens de lobos e chacais selvagens, e hoje têm uma população mundial estimada em 400 milhões de indivíduos. Em muitos lugares, principalmente onde existem populações de vida livre, eles são uma ameaça a espécies nativas

É aquela que, oriunda de certa região, penetra e se aclimata em outra onde não era encontrada antigamente (espécie introduzida), prolifera sem controle e passa a representar ameaça para espécies nativas, para a saúde e economia humanas e/ou para o equilíbrio dos ecossistemas que vai ocupando e transformando a seu favor.
Ainda que as invasões possam acontecer de maneira natural, e de fato já aconteceram inúmeras vezes na história da Terra, as atividades e movimentações humanas vêm desempenhando, em tempos históricos, o maior papel na introdução, em praticamente todas as regiões do mundo, de espécies exóticas que se tornaram invasoras, um processo que recentemente vem se acelerando tanto que assumiu a dimensão de crise global, gerando extensas repercussões negativas no equilíbrio ecológico, na economia, na sociedade e na cultura. A invasão de relativamente poucas espécies muito adaptáveis e competitivas sobre vastas áreas do globo tende a empobrecer e homogeneizar os ecossistemas, e é um dos principais fatores em ação na atualidade para a crescente e acelerada perda de biodiversidade mundial, cujo impacto continua a ser subestimado.
Além do declínio ou extinção de espécies nativas, as invasões acarretam prejuízos em colheitas, degradação de florestas, solos e pastagens, favorecem a disseminação de doenças e pragas, e, perturbando os ciclos físicos, químicos, biológicos e climáticos, afetam todos os serviços ambientais oferecidos pela natureza, que são fundamentais para a vida humana. Com a crescente a interferência do homem nos ambientes, projeta-se que as invasões se multipliquem no futuro e, com elas, seus impactos indesejáveis.
Ao contrário de outros problemas ambientais que podem se diluir e amenizar com o tempo, as invasoras muitas vezes se tornam espécies dominantes e as consequências negativas tendem a se agravar à medida que sua adaptação se completa. O combate às invasões nem sempre é possível e, quando tentado, em regra se revela um procedimento altamente complexo, custoso e nem sempre garante bons resultados, podendo ocorrer até mesmo efeitos adversos imprevistos.
Espécie nativa: espécie que evoluiu no ambiente em questão ou que lá chegou desde épocas remotas, sem a interferência humana.

Espécie exótica: espécie que está em ambiente diferente de seu local de origem, por ação do homem (intencional ou acidental).

Exótica casual: espécie fora de seu ambiente de origem, sem a capacidade de formar população persistente.

Exótica naturalizada: espécie fora de seu ambiente de origem, capaz de formar população persistente e de conviver com a comunidade nativa sem invadir ecossistema natural ou antrópico.

Invasora: espécie exótica em ecossistema natural ou antrópico, que desenvolve altas taxas de crescimento, reprodução e dispersão.

Praga: espécie exótica ou não, indesejável no local por razões geralmente econômicas.

Superdominante: espécie nativa que se comporta como invasora, mediante desequilíbrio ambiental.
Todos os grupos taxonômicos, incluindo as plantas, os animais, os fungos e os microrganismos, têm espécies de potencial invasivo, e qualquer ecossistema pode ser afetado.
As invasões podem se dar de forma natural, através de migrações de populações, transporte de sementes pelo vento, água ou animais, e ser provocadas por alterações geográficas e climáticas, entre outros meios. A flora e a fauna da Terra variaram radicalmente ao longo de sua história de milhões de anos, adaptando-se às sempre mutantes feições do planeta. Populações se dispersaram no espaço, eliminando competidores no caminho, e espécies conheceram grande florescimento somente para serem superadas por outras mais versáteis, mais equipadas ou mais resistentes, que apareciam no cenário da ininterrupta evolução dos seres e da luta pela vida sob condições ambientais cambiantes.
No entanto, desde que o homem apareceu sobre a Terra ele vem interferindo em seu ambiente. Entre as formas de interferência está a introdução de espécies exóticas em regiões onde elas originalmente não existiam. A domesticação, desde milhares de anos atrás, de animais como o cão, o gato, o gado, e de plantas como o milho e o trigo, espécies que adquiriram elevado valor alimentício, econômico, social ou cultural para o homem, as difundiu por grandes regiões do planeta à medida que a população humana migrava, aumentava em número e expandia seus domínios. Em tempos mais recentes, os usos ornamentais, sociais, medicinais, religiosos, científicos e paisagísticos de muitas espécies as difundiu por toda parte.
Com a crescente mobilidade do ser humano, muitas outras, como os ratos e as baratas, se transportaram inadvertidamente para regiões distantes de sua origem, ocultas em veículos, cargas, bagagens e mesmo pessoas, pois deve-se incluir neste cômputo as espécies que usam o homem como hospedeiro ou veículo habitual ou eventual, sendo especialmente ilustrativo o fato de que a maior parte das invasões acontece exatamente ao longo de linhas importantes de tráfego de bens e pessoas.
Também contribui significativamente o intenso comércio internacional – legal e ilegal – de animais de estimação e plantas ornamentais exóticas, e em alguns países é a principal causa de invasões; muitos desses indivíduos fogem, espalham sementes ou acabam liberados pelos donos em ambientes que lhes são estranhos, estabelecem populações com sucesso, e passam a ser invasores, alterando os sistemas ecológicos da região.
Outros fatores antropogênicos que têm levado a invasões são o desmatamento e a degradação de áreas verdes, abrindo espaços para a penetração de espécies exóticas, e o aquecimento global, que força populações para fora de suas áreas de origem em busca de locais mais propícios à sua sobrevivência.
Por exemplo, nos últimos 30 anos 9 milhões de km² de tundra do Hemisfério Norte já foram invadidos por espécies arbóreas e arbustivas nativas das regiões temperadas, em função do rápido aquecimento da região ártica.
Todos os biomas da Terra já foram de alguma maneira prejudicados por invasões, e os impactos mais acelerados ocorrem nas florestas temperadas e tropicais, nas zonas semiáridas do Mediterrâneo, nas savanas e campos tropicais e nas águas interiores.
Os efeitos da introdução de espécies exóticas são em geral imprevisíveis, mas elas só se tornam uma ameaça significativa quando passam a ser invasoras, quando os efeitos podem ser graves e extensos. Esse fenômeno ocorre não só quando a espécie exótica encontra no novo local boas condições para sua vida e reprodução, mas acima de tudo quando não encontra inimigos naturais capazes de efetivarem sobre sua população um controle biológico, preservando o equilíbrio dos ecossistemas invadidos. Por isso, as invasoras tendem a proliferar de maneira explosiva e serem grandes transformadoras dos ambientes conquistados, alterando suas características físicas, modificando as relações entre os seres vivos e os sistemas de dominância, se tornando predadoras, interferindo nas cadeias tróficas e na química dos substratos inorgânicos, na densidade e distribuição da biomassa, no balanço energético e genético, e competindo diretamente por espaço e nutrientes com espécies residentes. Às vezes as transformações são tão profundas a ponto de inviabilizar a sobrevivência de outros seres, causando sua extinção ou deslocamento para regiões mais favoráveis, e assim obrigando as espécies expulsas a se tornarem elas mesmas invasoras de outras áreas, num efeito de cascata.
Estima-se que seja cerca de 480 mil o número das espécies introduzidas modernamente em outros locais, e destas até 30% se tornaram invasoras em pelo menos uma das regiões que as receberam, causando uma série de efeitos danosos.
A extinção ou declínio de predadores que estão no topo da cadeia alimentar, por exemplo, em geral desencadeia um efeito cascata que altera o equilíbrio ecológico de toda a região, favorecendo a proliferação intensa das espécies que eles predavam, ora livres de sua maior ameaça. Estas, por sua vez, florescendo em grande número, esgotam as populações de suas próprias presas. Tal vem sendo o caso dos grandes tubarões, dizimados pela pesca predatória, causando uma multiplicação de antigas presas como as focas e de predadores secundários como arraias e tubarões menores, e ocasionando o declínio de outras espécies das quais essas se alimentam.
Em 1994 a população de leões do Parque Nacional de Serengueti, na Tanzânia, declinou em cerca de 30% em função uma epidemia transmitida por cães domésticos que viviam no entorno da reserva.
Vários estudos relataram casos de extinção de populações inteiras de certas espécies de regiões isoladas ou insulares pela introdução de um único indivíduo de espécie exótica.
Na região de Stellenboschberg, África do Sul, as bacias de captação pluvial foram invadidas por Pinus patula e Eucalyptus grandis, causando uma redução de 52% no volume captado nas áreas invadidas por P. patula, e de 100% nas invadidas por E. grandis, e reduzindo em 30% o fornecimento de água potável para a Cidade do Cabo, o que ocorre similarmente em outras regiões num país em que a água é escassa, além de causar a extinção de muitas outras espécies.
Os excrementos corrosivos dos pombos-comuns, nativos da Europa mas encontrados em bandos em todas as grandes cidades do mundo a ponto de se tornarem uma praga urbana, são uma importante causa de degradação de monumentos históricos e estruturas humanas, além de essas aves potencialmente transmitirem doenças para as pessoas e outros animais.
A introdução do cupim Coptotermes formosanus no Havaí foi responsável por intensos danos em estruturas de madeira e gasta-se anualmente mais de 60 milhões de dólares em seu controle;[36]
A introdução de ratos Rattus norvegicus nas Ilhas Seychelles desencadeou um declínio acentuado no turismo local pelas perdas que provocou na biodiversidade insular, que constituía um dos maiores atrativos locais.
O caracol argentino Pomacea canaliculata tem sido a causa de enormes quebras de safras de arroz em vários países asiáticos, além de veicular doenças humanas.
A introdução de coelhos Oryctolagus cuniculus na Inglaterra e na Austrália. Esses coelhos, originários da Península Ibérica, foram levados da França para a Inglaterra, no século XII e, em 1778, daí para a Austrália. Eles se tornaram praga tanto na Inglaterra como na Austrália, gerando grande prejuízo por perdas agrícolas. Seu controle foi tentado por meio de sua contaminação pelo vírus da mixomatose que, embora letal à grande maioria dos indivíduos, deixou de sê-lo na medida em que foi havendo a seleção de populações do coelho resistentes ao vírus.
A abelha europeia africanizada Apis mellifera, introduzida no Brasil para pesquisa científica, e que escapou do controle dos laboratórios, espalhando-se por toda a América do Sul e Central. Essa abelha é agressiva ao ser humano e também compete por recursos com as abelhas nativas.
Segundo o Secretariado da Convenção sobre a Biodiversidade, os prejuízos econômicos causados pelas espécies invasoras em todo o mundo, na forma de perdas em colheiras, pastagens e florestas, além das despesas nos planos de combate, podem chegar a 1,4 trilhões de dólares a cada ano, equivalendo a 5% da economia mundial. Nestes custos não estão incluídos o declínio da biodiversidade e as extinções de espécies, os danos estéticos e culturais às paisagens e comunidades, e a perda de serviços ambientais, que ainda não foram bem calculados em termos econômicos e às vezes nem podem sê-lo, mas que sem dúvida são altíssimos, afetando o homem e a natureza como um todo, ameaçando a estabilidade social e política das nações, o seu crescimento econômico, e o desenvolvimento de um futuro sustentável e equitativo para todos os seres.
A gravidade da situação é tanta que já em 1996 a ONU, através da Convenção sobre a Biodiversidade, elaborada por um grande grupo de especialistas de 80 países e ratificada por 168 governos nacionais, alertou que as invasões constituem um desafio “imenso, insidioso, crescente e irreversível”.
A Convenção sobre a Biodiversidade considera a prevenção como a melhor forma de combate às invasões, mas se ela não é possível, a erradicação é a medida indicada, mas deve ser iniciada preferencialmente assim que forem notados os primeiros sinais da invasão, pois mais tarde a propagação da espécie pode ficar inteiramente fora de controle. Muitas ações de erradicação já foram empreendidas, tendo se tornado rotineiras em muitos países.
A erradicação do ratão-do-banhado das Ilhas Britânicas custou 4 milhões de dólares e oito anos de esforço. Nos Estados Unidos foi tentada a erradicação do caracol exótico Achatina fulica, uma praga agrícola e vetor de doenças, com a introdução de um outro caracol, do gênero Euglandina, que em seu habitat de origem era um inimigo natural do outro. No entanto, a espécie da qual se esperava a solução gerou mais problemas, pois não demonstrou nenhum interesse pela sua presa potencial, preferindo em vez se alimentar de espécies nativas, tornando-se ele mesmo outra praga e provocando a extinção de pelo menos sete outras espécies.
Mas, como assinala enfaticamente o consenso virtualmente unânime dos especialistas e instituições internacionais como a ONU e seus organismos afiliados, é preciso lembrar que a invasão de espécies é um fenômeno que interage com outros problemas ambientais de origem humana, como a poluição, o aquecimento global, o desmatamento, os quais se reforçam mutuamente e que, juntos, estão atualmente levando o mundo a um perigoso estado crítico, sendo previstas consequências catastróficas em escala global se continuar inalterada a tendência predatória, imediatista e irrefletida do homem de superexplorar, destruir e perturbar o ambiente.
O Brasil não é uma exceção nesse contexto. Desde o século XVII se registram casos de invasões, mas apenas há poucos anos o problema vem recebendo atenção oficial e acadêmica, e foi somente em 2005 que apareceu a primeira listagem de espécies invasoras no Brasil, compilada por uma parceria entre várias instituições e o governo federal. Essa ausência de dados dificultou e dificulta o mapeamento da situação atual e a estimativa das mudanças já provocadas, bem como o planejamento de ações de manejo e combate às invasoras.
O estudo de espécies invasoras pode ser feito por várias áreas da biologia, mas a maior parte das procuras sobre organismos invasores tem sido feita pela ecologia e pela geografia, onde a questão das invasões biológicas é especialmente importante. Embora, por volta de 1860, Charles Darwin já tivesse chamado a atenção para o crescimento explosivo das espécies invasoras, foi só em 1958 que Charles Elton, em seu livro Ecology of invasions by animals and plants, adverte para a necessidade de se conhecer melhor essas espécies e estabelecer estratégias de controle.

ratoburguer
Rattus norvegicus, uma espécie com difusão mundial que causa grandes prejuízos de vários tipos para o homem e o ambiente.