12.102 – Anjo – História e Definição


anjos
A palavra anjo pode ser definida da forma mais ampla possível, conforme a cultura que preserva sua crença. No latim angelus ou no grego angelos destaca-se o papel do ser que anuncia uma mensagem, do que se deduz que ele seria o intermediário entre o Homem e Deus. Em hebraico ele é conhecido como malak; entre os japoneses é intitulado kami; no hinduísmo é o deva; na era ancestral do Irã esta criatura é nomeada Daena ou Fravarti; Sócrates mencionava o Daimon, assim como os antigos gregos se referiam aos Gênios.
Os seres angelicais integram uma vasta hierarquia composta por três tríades. A primeira engloba os Serafins, entidades mais elevadas e íntimas do Criador, as quais irradiam a divindade em sua potência máxima e estão diante do Trono Divino, neles brilha a chama da caridade; os querubins, criaturas enigmáticas, às vezes representadas entre os antigos como figuras metade humanas, metade animais, geralmente apontadas como guardiãs do reino de Deus, plenas de Seu amor; os Tronos ou Ofanins, comumente conhecidos como ‘anciãos’, pois são associados aos 24 idosos que se lançam eternamente aos pés do Senhor, simbolizam o poder sagrado, a humildade e a purificação.
A segunda tríade compreende os príncipes do céu. Às Dominações cabe estabelecer as normas que envolvem as tarefas dos anjos que se encontram abaixo delas na hierarquia, atribuindo-lhes seus respectivos papéis e mistérios nos trabalhos da Criação; elas também comandam o rumo dos países terrenos. As Virtudes têm como função preservar a direção das estrelas para que o Universo não perca sua eterna harmonia; elas conduzem os outros seres na realização de suas missões e mantêm distantes das nações as entidades que ainda percorrem o caminho do mal; estão próximas dos heróis e são as fontes dos milagres.
As Potestades ou Potências são as representantes da ordem divina, as mensageiras da consciência humana, as tecelãs da história da humanidade e de suas memórias coletivas; nelas o Homem encontra tudo que esteja incluso nos pensamentos elevados, desde os ideais até o plano ético. Estes anjos são também os soldados do Criador, protetores dos animais e os responsáveis pela vida e pela morte.
A Terceira Tríade inclui os anjos mais próximos do Homem, e por isso mesmo aptos a orientá-los na jornada material. Os Principados estão submissos às diretrizes traçadas pelas Dominações e Potestades, as quais eles devem enviar às esferas evolutivas subalternas; portam os tradicionais símbolos da angelitude, a coroa e o cetro. Eles zelam pelos municípios, pelas nações e por toda a Natureza.
Os arcanjos ou anjos principais são muito famosos nas Escrituras Sagradas, principalmente por abrigarem os representantes mais conhecidos da Humanidade, Miguel, Rafael e Gabriel. A Igreja Ortodoxa considera mais quatro seres desta categoria, Uriel, Ituriel, Amitiel e Baliel, combatentes que se opõem aos anjos caídos, os Nefilim. Eles atuam como elos de ligação entre Principados e Anjos; são verdadeiramente os mensageiros do Senhor.
Os anjos são as entidades celestiais que estão mais perto do Homem; na escala evolutiva eles se encontram no estágio logo acima do que compete ao ser humano atravessar; em alguns momentos estes seres se revelam à Humanidade, quando são incumbidos de desígnios do Criador; textos hebraicos de tradição mística referem-se constantemente a eles, atribuindo-lhes dons sobrenaturais.
Outras tradições religiosas e culturais também concebem a existência dos anjos; cada uma tem sua própria concepção destas criaturas, distinta da cultivada pelo Cristianismo. Budistas e hindus os vêem igualmente como criaturas cheias de luz; algumas podem comer e beber, além de terem o dom de assumir vestes materiais para se manifestarem. Os islâmicos classificam estas entidades em dois grupos, o dos bons e o dos maus.

12.101 – Anjos Segundo o Espiritismo


Homem Anjo
Que haja seres dotados de todas as qualidades atribuídas aos anjos, não restam dúvidas. A revelação espírita neste ponto confirma a crença de todos os povos, fazendo-nos conhecer ao mesmo tempo a origem e natureza de tais seres.
As almas ou Espíritos são criados simples e ignorantes, isto é, sem conhecimentos nem consciência do bem e do mal, porém, aptos para adquirir o que lhes falta. O trabalho é o meio de aquisição, e o fim – que é a perfeição – é para todos o mesmo. Conseguem-no mais ou menos prontamente em virtude do livre-arbítrio e na razão direta dos seus esforços; todos têm os mesmos degraus a franquear, o mesmo trabalho a concluir. Deus não aquinhoa melhor a uns do que a outros, porquanto é justo, e, visto serem todos seus filhos, não tem predileções. Ele lhes diz: Eis a lei que deve constituir a vossa norma de conduta; ela só pode levar-vos ao fim; tudo que lhe for conforme é o bem; tudo que lhe for contrário é o mal. Tendes inteira liberdade de observar ou infringir esta lei, e assim sereis os árbitros da vossa própria sorte.
Conseguintemente, Deus não criou o mal; todas as suas leis são para o bem, e foi o homem que criou esse mal, divorciando-se dessas leis; se ele as observasse escrupulosamente, jamais se desviaria do bom caminho.
Entretanto, a alma, qual criança, é inexperiente nas primeiras fases da existência, e daí o ser falível. Não lhe dá Deus essa experiência, mas dá-lhe meios de adquiri-la. Assim, um passo em falso na senda do mal é um atraso para a alma, que, sofrendo-lhe as conseqüências, aprende à sua custa o que importa evitar. Deste modo, pouco a pouco, se desenvolve, aperfeiçoa e adianta na hierarquia espiritual até ao estado de puro Espírito ou anjo. Os anjos são, pois, as almas dos homens chegados ao grau de perfeição que a criatura comporta, fruindo em sua plenitude a prometida felicidade. Antes, porém, de atingir o grau supremo, gozam de felicidade relativa ao seu adiantamento, felicidade que consiste, não na ociosidade, mas nas funções que a Deus apraz confiar-lhes, e por cujo desempenho se sentem ditosas, tendo ainda nele um meio de progresso. (Vede 1ª Parte, cap. III, “O céu”.)
A Humanidade não se limita à Terra; habita inúmeros mundos que no Espaço circulam; já habitou os desaparecidos, e habitará os que se formarem. Tendo-a criado de toda a eternidade, Deus jamais cessa de criá-la. Muito antes que a Terra existisse e por mais remota que a suponhamos, outros mundos havia, nos quais Espíritos encarnados percorreram as mesmas fases que ora percorrem os de mais recente formação, atingindo seu fim antes mesmo que houvéramos saído das mãos do Criador. De toda a eternidade tem havido, pois, puros Espíritos ou anjos; mas, como a sua existência humana se passou num infinito passado, eis que os supomos como se tivessem sido sempre anjos de todos os tempos.
Realiza-se assim a grande lei de unidade da Criação; Deus nunca esteve inativo e sempre teve puros Espíritos, experimentados e esclarecidos, para transmissão de suas ordens e direção do Universo, desde o governo dos mundos até os mais ínfimos detalhes. Tampouco teve Deus necessidade de criar seres privilegiados, isentos de obrigações; todos, antigos e novos, adquiriram suas posições na luta e por mérito próprio; todos, enfim, são filhos de suas obras.
E, desse modo, completa-se com igualdade a soberana justiça do Criador.

Allan Kardec