14.232 – Gravidade não segura o ar ao redor da Lua


LUA
Dá para criar atmosfera artificial na Lua?
R: Não, a menos que fosse instalada uma gigantesca cúpula em volta dela. A gravidade lunar, seis vezes menor que a da Terra, não consegue prender os gases. “Todos os planetas ou satélites tendem a perder sua atmosfera aos poucos”, explica um astrônomo, do Instituto Astronômico e Geofísico da Universidade de São Paulo. O hidrogênio não se segura nem por aqui. Como é muito leve, acaba vazando para o espaço. A Terra está livre do perigo de ficar sem ar porque as plantas repõem os gases fujões.
Mas a gravidade não é o único problema. Nossa atmosfera se formou durante bilhões de anos, num processo que começou com erupções vulcânicas que trouxeram gases do interior do planeta. “Situação parecida só aconteceria na Lua com uma reação química em enorme escala, que fosse capaz de derreter as rochas subterrâneas”, imagina Damineli. Várias usinas nucleares enterradas no satélite até poderiam gerar a energia necessária para tal tarefa. Só que ninguém pensa em fazer isso. Ao menos por enquanto.

Liberdade total
Sem nada que a prenda, a atmosfera escapa.
Na Terra, os gases precisam ultrapassar a velocidade de 11 quilômetros por segundo para vencer a gravidade. Só os mais leves, como o hidrogênio, conseguem se mover tão rápido. O oxigênio (O2) e o gás carbônico (CO2) ficam presos.

Na Lua, a velocidade necessária para fugir da gravidade é muito pequena – cerca de 2 quilômetros por segundo. Por isso, qualquer gás que fosse colocado lá se perderia no espaço.

14.230 – Objeto misterioso de outra galáxia está enviando sinais a cada 16 dias


Vida-no-espaço-Vida-no-vácuo
Rajadas rápidas de rádio (FRB, da sigla em inglês) são um dos fenômenos mais misteriosos da astrofísica. São emissões de radiação na forma de ondas eletromagnéticas que carregam muita energia, vindas de algum lugar do espaço profundo. Os pulsos duram milissegundos – bem menos que um piscar de olhos –, e por isso são tão difíceis de estudar.
Para piorar, as FRBs são totalmente aleatórias. Quando conseguimos encontrar alguma, astrônomos se aventuram em teorizar sobre suas origens, mas dificilmente conseguem identificar com certeza. Na verdade, de mais de cem FRBs identificadas na história, só cinco tiveram seus pontos de origem definidos. E em nenhum dos casos o culpado exato pela emissão foi identificado com precisão.
Agora, um novo elemento apareceu para complicar ainda mais essa história: pela primeira vez, cientistas encontraram um sinal de rádio que não é aleatório, mas que obedece um ciclo temporal definido.

A emissão foi batizada como FRB 180916.J0158+65. Ela foi identificada pela primeira vez pelo radiotelescópio canadense CHIME, em 2016, e aparentemente segue um padrão de 16,35 dias. Por quatro dias, o sinal é identificado algumas vezes. Depois, ele desaparece por 12 dias. Volta a surgir nos quatro dias seguintes, e assim por diante.
Foi o que descobriu a equipe de astrônomos do estudo, que analisou os sinais por mais de um ano, entre setembro de 2018 e novembro de 2019. A pesquisa foi publicada no servidor online arXiv.org.A descoberta é única: a maioria das rajadas rápidas de rádio aparecem apenas uma vez e nunca mais se repetem. Dessa forma, estudá-las e encontrar seus locais de origem é bastante difícil. Algumas vezes, esses fenômenos até aparecem mais de uma vez – mas nunca com um intervalo definido. Nesses casos, os astrônomos até consegue mapear suas rotas e encontrar a galáxia em que elas se originaram.

Os pesquisadores ainda não sabem exatamente o porquê deste novo ciclo observado, mas dá para teorizar. E, pelo menos, não estamos totalmente no escuro: a FRB 180916.J0158+65 é um dos únicos cinco sinais que de fato conseguimos encontrar a origem, já que ela havia se repetido várias vezes após sua primeira identificação. A rajada surgiu uma galáxia espiral há 500 milhões de anos-luz da Terra – a menor distância entre todos os locais de origem de FRBs já identificados. Mais: sabemos que essa região é conhecida por ser um local de intensa formação estelar, e isso ajuda a explicar o mistério.
A periodicidade em si não é uma característica incomum no espaço. Objetos cósmicos como buraco-negros, estrelas e planetas obedecem padrões temporais em seus movimentos, por exemplo. Como as FRBs envolvem quantidades enormes de energia, é provável que elas surjam a partir de eventos extremos envolvendo buracos-negros ou estrelas.
Considerando que o local de origem do novo sinal é uma região de intensa atividade estelar, é possível que um objeto orbitando um buraco-negro seja o responsável pela emissão. Os 16,35 dias podem ser seu período orbital, por exemplo, no qual somente em quatro deles a sua posição permita que identifiquemos as rajadas de radiação. Outra possibilidade, postulada por um estudo separado, é que o sinal venha de uma estrela de nêutrons (que são remanescentes de enormes estrelas defuntas), em um sistema binário com outra estrela, muito maior que ela.
E hipóteses de todos os tipos também já foram levantadas, envolvendo inúmeros objetos e eventos do vasto catálogo cósmico, como magnetares (estrelas de nêutrons com altos valores de campo magnético), blitzars (hipotéticas colisões entre estrelas de nêutrons e buracos negros), colisões entre buracos-negros, entre outros.
Mas a verdade é que ainda não sabemos com certeza. E, nesse caso, uma outra hipótese bastante interessante encontra lugar para emergir, inclusive entre alguns cientistas: poderia a periodicidade das emissões ser fruto de atividade alienígena inteligente?
Seria algo extremamente animador para amantes de teoria da conspiração, mas a resposta é quase certamente não. Rajadas rápidas de rádio como as identificadas liberam dezenas de milhares de vezes mais energia que nosso Sol. É mais provável, então, se tratar de um fenômeno cósmico mesmo.

14.229 – Este pode ter sido o animal que passou o novo coronavírus para humanos


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Uma equipe de pesquisadores chineses anunciou que o pangolim, um tipo de mamífero da África e da Ásia ameaçado de extinção, pode ter sido o animal que passou o novo coronavírus para humanos. O surto da doença provavelmente se iniciou em um mercado de animais silvestres em Wuhan, na China, e desde então já infectou mais de 31 mil pessoas em todo o mundo, totalizando 638 mortes até a tarde desta sexta-feira (07/02).
O resultado vem de uma análise genética feita por cientistas da Universidade Agrícola do Sul da China em amostras de mais de mil animais selvagens. Segundo a equipe, o material genético do 2019-nCoV – o vírus que vem infectando humanos e causando sintomas respiratórios – é 99% igual ao material genético de um vírus encontrado em pangolins, o que faz desse animal o melhor candidato, até agora, a ter trazido a doença para nós.
Mas cientistas de todo o mundo vêm encarando a nova possibilidade com cautela, principalmente porque o estudo completo ainda não foi publicado – por enquanto, os chineses só divulgaram resultados gerais em uma conferência de imprensa. A equipe disse que pretende publicar os detalhes o quanto antes para ajudar no combate à doença.
Estudos anteriores haviam indicado que o novo coronavírus surgiu primeiro em morcegos – que são conhecidos por hospedarem diversos vírus sem apresentar sintomas. Mas a possibilidade de haver um hospedeiro intermediário, ou seja, um animal que pegou o vírus dos morcegos e o transmitiu para nós, é alta. Desde o início do surto, cientistas vêm buscando qual seria o responsável por essa ligação, mas a tarefa é difícil, principalmente porque, no mercado em que se acredita que a doença tenha começado, diversos animais silvestres eram vendidos, tornando a lista de candidatos grande.
Outros vírus conhecidos, do mesmo grupo do novo patógeno, seguiram caminhos parecidos. O coronavírus responsável por causar a SARS (Síndrome respiratória aguda grave), doença que surgiu na China em 2002 e matou mais de 800 pessoas, teve sua origem em morcegos, mas chegou aos humanos através do contato com mamíferos conhecidos como civetas. Já o causador da MERS (Síndrome respiratória do Oriente Médio), doença parecida com a atual que causou mortes em 2012, também surgiu em morcegos e provavelmente passou para os humanos por meio de camelos.
O pangolim é um mamífero que habita regiões da Ásia e da África e lembra visualmente um tatu. Sua carne é considerada uma iguaria em algumas regiões da Ásia – e partes do animal, como suas escamas, também são usadas em procedimentos da medicina tradicional chinesa (mesmo que não tenham efeito comprovado pela ciência). A demanda pelo animal é alta e, por isso, o pangolim é o animal mais traficado de todo o mundo, segundo a União Internacional para Conservação da Natureza e está altamente ameaçado de extinção, mesmo sendo protegido pela legislação internacional.
Um estudo anterior havia indicado que o hospedeiro intermediário do 2019-nCoV poderia ser uma espécie de cobra asiática, que foi vendida na feira onde se acredita ter originado o surto. Mas, desde a publicação dessa pesquisa, cientistas vêm contestando a tese, porque só há registros de coronavírus parecidos em aves e mamíferos, e não répteis.

A nova possibilidade também aumenta a pressão sobre o governo da China, que já há algum tempo vem sendo acusado de ser brando no combate ao tráfico de animais selvagens. Com o novo surto de coronavírus, instituições internacionais pediram que o comércio de vida selvagem acabe totalmente no país. Com isso, o governo chinês anunciou, em janeiro, uma proibição temporária da prática. Mas muitos ainda pressionam para que a legislação seja permanente.

14.228 – Morcegos carregam dezenas de vírus, mas são imunes a eles


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Não existe um coronavírus só. Existem vários. O nome não se refere a um vírus específico, mas a um grupo de vírus que têm características em comum e foram responsáveis por várias crises de saúde pública nas últimas décadas – o surto chinês atual é só o exemplo mais recente.
Entre 2002 e 2003, a síndrome respiratória aguda grave (que ficou conhecida pela sigla SARS) também teve epicentro na China. Foram 8 mil infectados e 800 mortos em 17 países. Era um coronavírus, parente próximo do responsável pela crise atual. Anos depois, em 2012, a Arábia Saudita parou graças à MERS (dessa vez, a sigla significava síndrome respiratória do Oriente Médio). De novo, a culpa era de um coronavírus; houve 2,5 mil vítimas, 850 fatais.
Doenças epidêmicas virais como estas costumam ser zoonoses, isto é: os agentes causadores – como vírus, bactérias, protozoários, fungos etc. – originalmente parasitavam outros animais. O advento da pecuária há aproximadamente 10 mil anos aumentou a proximidade física entre seres humanos e os bichos que nos forneciam comida, leite, ovos e companhia. Vacas, cães e galinhas carregam seus próprios micróbios, que frequentemente aprendem a infectar também o Homo sapiens. De 1.415 patógenos conhecidos, 61% foram emprestados de outras espécies.
Uma dessas espécies são os morcegos. Eles definitivamente não são mascotes, e só em raros contextos culturais se tornam comida, mas a silhueta de suas asas recortadas e dentes afiados se embrenhou firmemente no imaginário popular. A maior parte das crianças pensa que todo morcego bebe sangue; na realidade, só três dentre as mais de mil espécies são vampiras de vocação (e, para derrubar outro preconceito, só um em cada 200 espécimes é infectado pelo vírus da raiva).
A fama gótica é injusta. Os morcegos são nossos aliados em muitas atividades, e são um dos objetos de estudo mais fascinantes da biologia. Nas palavras de James Gorman no New York Times, eles “comem insetos transmissores de doenças às toneladas, e são essenciais na polinização de muitas frutas, como bananas, abacates e mangas. Além disso, são um grupo incrivelmente diverso, que perfaz cerca de um quarto do total de espécies de mamíferos”.
Os morcegos, porém, são repositórios pululantes de vírus. Ebola, Nipah, Melaka, MERS e SARS todos pegam carona neles sem afetá-los. Ainda não há provas, mas é bem provável que o coronavírus atual também tenha chegado à nossa espécie pegando carona em morcegos. Isso é possível porque o sistema imunológico desses animais tolera tais agentes infecciosos com bem mais parcimônia que o nosso e o dos demais mamíferos.
Em um artigo publicado em fevereiro de 2019 na Escola de Medicina Duke-NUS, em Singapura, um grupo com dezenas de pesquisadores identificou que a proteína NLRP3, nos morcegos, é produzida pelas células em pequena quantidade e em uma versão menos sensível que a carregada por nós. Essa proteína é uma das responsáveis por desencadear a resposta inflamatória dos mamíferos a micróbios que adentram o corpo.
Vírus não são propriamente seres vivos. É mais correto defini-los como conjuntos complexos de moléculas capazes de produzir cópias de si mesmas usando o maquinário do hospedeiro (leia mais sobre isso neste texto). Normalmente, quando um vírus sequestra nossas células, ele ativa uma resposta inflamatória violenta.
Proteínas de sinalização chamadas citocinas atraem os sentinelas do sistema imunológico para o local da invasão; o fluxo de sangue por lá aumenta para permitir que nossa polícia microscópica atenda ao chamado mais rápido, gerando vermelhidão e inchaço. Se tal procedimento é mais relaxado nos morcegos, é porque a capacidade de pegar leve com os vírus, bactérias e afins os ajuda a sobreviver – o que soa contraditório. Por que um sistema imune pregiçoso seria melhor que um pavio curto?
Temos algumas hipóteses para responder a essa pergunta. Em outro artigo, este de 2018, pesquisadores do Instituto Wuhan de Virologia, na China, explicam que os morcegos têm necessidades energéticas muito mais altas que as dos demais mamíferos. Voar, afinal, queima muitas calorias. Isso os forçou a evoluir uma bioquímica diferente para aumentar a eficácia do processamento de combustível no interior de suas células, gerando subprodutos que não são verificados no metabolismo de um ser humano, gato ou cão.
Tais subprodutos são tóxicos e danificam o DNA desses animais. Pedacinhos da molécula que guarda o material genético acabam sendo liberados no interior do organismo e chamam a atenção do sistema imunológico como se fossem – veja só, que coisa doida – vírus. Se as células de defesa do morcego ficassem em prontidão constante, ele passaria o tempo todo atiçando reações inflamatórias contra pedaços de si mesmo. Um eterno alarme falso.
Isso é algo desgastante para o corpo. De fato, muitos dos sintomas que você tem quando está doente são seu corpo tentando combater a doença, e não a doença em si. Um morcego que passasse o tempo todo em alerta máximo morreria atacado pelo próprio sistema imunológico, o que não é lá muito bom para a seleção natural.
Assim, os morcegos dedicam atenção apenas parcial aos vírus, mantendo-os sob controle sem lançar ataques de larga escala. Isso permite que eles se tornem reservatórios ideias para esses parasitas. Abrigos seguros a partir do qual eles podem pular para outros organismos.
Isso significa que devemos lutar contra morcegos? De jeito nenhum. Como já dito, eles são animais essenciais não só para várias atividades humanas como também para a manutenção de incontáveis ecossistemas. Errados estamos nós, que destruímos os habitats desses bichos – e, veja só, até comemos eles quando oportuno. Sabe-se que faz tempo que zoonoses frequentemente têm origem em morcegos. Resta tomar precauções.