13.560 – Mega Crítica – “Parlamentares dizem que a ciência é importante, mas não fazem nada”


Opinião de Ildeu de Castro Moreira, então Presidente da SBPC

Em 2018 a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) completará 70 anos. Desde a fundação, a entidade participou de bons momentos da pesquisa no Brasil, como na criação dos órgãos de fomento CNPq e do Capes. Mas foram nas horas ruins que seu papel foi mais importante, como nos 20 anos da ditadura militar, atuando em resistência à perseguição de professores, pesquisadores e estudantes.
Entre contingenciamentos, cortes e restrições orçamentárias, a previsão de investimento para 2018 é R$ 3 bilhões menor do que estava previsto para 2017. Isso mesmo depois de muita briga, que resultou em um ganho de R$ 1,2 bilhões para o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação.
Em entrevista por telefone à GALILEU, Ildeu Moreira conta como espera converter o panorama tenebroso para a ciência brasileira, e as consequências de um possível insucesso.

Trechos de uma entrevista a uma revista científica brasileira:

O senhor assumiu a presidência em um dos momentos mais difíceis para a ciência brasileira. Como está sendo essa experiência?
Está difícil mesmo. A SBPC sempre esteve envolvida na ciência, tecnologia e educação nas questões mais gerais da democracia do país, desde sua criação há 70 anos. Nesse período passamos por momentos muito difíceis, na época da ditadura, por exemplo. E esse é mais um. Nossa responsabilidade é grande, porque a SBPC tem uma tradição muito forte, uma presença na sociedade brasileira, em particular junto à comunidade científica acadêmica.

O argumento é sempre de que não tem recurso.
Estamos vivendo uma crise econômica e fiscal? É claro que a gente está vivendo uma crise. Mas países do mundo inteiro, em momentos de crise, em geral apostam mais na ciência e tecnologia como instrumento para sair dela. Aqui a gente faz o contrário. Corta as amarras da ponte e anda para trás. É um retrocesso. Tira a possibilidade de avançar. Os recursos que a gente está falando são de ordem muito inferior que as desonerações que a gente vê nos jornais todos os dias.

Esse posicionamento dúbio me parece que é porque ninguém está pensando muito a longo prazo. Pensam no máximo até outubro de 2018.
O efeito de desmontar laboratórios de pesquisa, por exemplo em epidemia, saúde pública, tem um efeito imediato. Tivemos uma resposta adequada para o zika, porque já tínhamos laboratórios. Os pesquisadores fizeram contribuições importantes para a ciência em escala mundial. Na agricultura, se hoje temos uma produtividade alta dos grãos, é porque tem ciência envolvida. O pré-sal tem quantos anos? É metade da produção de petróleo, mais de R$ 60 bilhões vem do pré-sal. Isso é real. É palpável.

Em pouquíssimos anos o impacto da ciência é gigantesco, em valores muito maiores do que estão cortando. É uma insensibilidade e falta de preocupação com a questão do país gigantesca. Os interesses que estão presidindo essas escolhas, não vou entrar na questão se é má fé ou ignorância, mas estão ameaçando profundamente a ciência brasileira. Nos últimos anos o impacto da ciência brasileiro cresceu muito. Daí você cria um potencial, construído com dinheiro público, de repente deixa desmontar. É muito difícil interpretar as razões por trás disso.

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