13.350 – Personagens – O Amigo da Onça o mais popular do humor nos anos 40 e 50


onca12

O Criador
Péricles de Andrade Maranhão, ou simplesmente Péricles como passaria a ser conhecido, foi contratado como contínuo e, aos 19 anos, já era o mais novo de uma equipe de jornalistas. Chegou a ser parceiro de Millôr Fernandes na lendária seção Pif-Paf mas foi com o Amigo da Onça que faria história. O primeiro desenho saiu na edição de 23 de outubro de 1943 e logo se tornou o mais importante e popular personagem do humor brasileiro nos anos 40 e 50. Com direito a garrafinha com seu rosto, bibelôs que decoravam de cozinhas a salas de jantar e quadrinhos com a célebre frase “Fiado, só amanhã”. Lembram disso nos bares pé-sujos da cidade? Pois é, criação de Péricles!
Péricles tinha tentado outros personagens antes, mas sem muito sucesso. Um dia lhe contaram uma piada sobre uma onça e, conta a lenda, ali mesmo sentou e desenhou um boneco. Nascia e era batizado, então, o Amigo da Onça. Com suas piadas irreverentes, sorriso irônico, jeito malandro e bigodinho (moda entre os meninos hipsters da época), o personagem estava sempre impecável em seu summer jacket branco.
Interessados em saber qual foi a piada? Dois caçadores conversam enquanto estão no acampamento…
— O que você faria se estivesse agora na selva e uma onça aparecesse bem aqui na sua frente?
— Ora, daria um tiro nela — diz o amigo.
— Mas e se você não tivesse nenhuma arma de fogo?
— Bom, então eu a mataria com meu facão
— E se você estivesse sem o facão?
— Apanharia um pedaço de pau.
— E se não tivesse nenhum pedaço de pau?
— Subiria na árvore mais próxima!
— E se não tivesse nenhuma árvore?
— Sairia correndo.
— E se você estivesse paralisado pelo medo?
Então, o outro reclama irritado:
— Mas, afinal, você é meu amigo ou amigo da onça?

Normalmente era sisudo, mas tinha um grande senso de humor. Quando menos a gente esperava ele soltava uma daquelas tiradas que fazia todo mundo rir. Sua capacidade de raciocinar e perceber as coisas era também incrível. Observador, tudo era motivo para ser transformado em charge.
Chegou a virar peça de teatro em 1988. “O Amigo da Onça” foi escrita pelos também cartunistas Chico Caruso e Nani e dirigida por Paulo Betti. O elenco contava com, entre outros, Chiquinho Brandão, Andréa Beltrão, Cristina Pereira, Sérgio Mamberti e Eliane Giardini. Chico Caruso mergulhou na pesquisa e chegou a estabelecer uma identidade com o colega humorista, revelou ao GLOBO na edição de 22 de novembro de 1987.
O humorista que sabia fazer o país rir também era triste. Tinha um temperamento sensível que o fazia extrovertido e sentimental, angustiado e insatisfeito, isso tudo ao mesmo tempo. Sua notória boemia e farra com amigos escondia um homem profundamente solitário e infeliz. E, apesar de manter uma aparência engraçada, sofria de depressão. O Amigo da Onça era sua válvula de escape e, como tantos com exacerbada sensibilidade, não conseguia lidar com seus temores e frustrações.

Triste Fim
Na tarde de 31 de dezembro de 1961, solitário, Péricles foi para casa, o apartamento 612 do Edifício Monte Claro, na Rua Barata Ribeiro 160, em Copacabana, na Zona Sul. Lá escreveu três bilhetes, um para sua mãe e o segundo: “A quem interessar possa”.
A história da vida de Péricles Maranhão terminava ali, aos 37 anos. Ele foi para a cozinha, abriu o gás do forno e, antes de fechar todas as portas e janelas com fita adesiva, pendurou o terceiro recado na porta: “Não risquem fósforos”. Foi encontrado morto com a cabeça sobre um travesseiro no chão da cozinha. Estava impecavelmente vestido com um terno de linho branco, camisa azul, gravata escura e sapatos de verniz preto. O criador à imagem e semelhança foi engolido pela criatura; o humor que criou é, entretanto, imortal.

Nota: Amigo da onça também é uma expressão popular, originada deste personagem de quadrinhos (ou banda desenhada). Usa-se essa expressão para definir a pessoa que diz ser amiga de outra mas que constantemente coloca essa outra em situação constrangedora ou vexatória.

onca11