12.618 – Experimentos usam células-tronco para criar animais com órgãos humanos


Criar porcos com órgãos humanos. Este é o objetivo de um grupo de cientistas do Instituto Salk para Estudos Biológicos, sediado na Califórnia, que atua num nascente e promissor campo que reúne modernas técnicas de edição genética e células-tronco. A ideia é sedutora, com potencial para acabar com as filas de transplante, mas enfrenta uma série de dilemas éticos. No fim do ano passado, o Instituto Nacional de Saúde (NIH, na sigla em inglês) dos EUA suspendeu a concessão de novos financiamentos para experimentos que envolvam a injeção de células-tronco humanas pluripotentes (capazes de gerar qualquer tipo de tecido) em embriões de animais em estágio inicial. Mas estudos com financiamento privado prosseguem, a legislação só proíbe que a gestação seja completa.

Em comunicado sobre a decisão, o NIH destacou que trata-se de uma “área excitante da ciência que está em rápido progresso, mas que merece considerações sobre ética e bem-estar dos animais”. Além da questão sobre o possível uso de animais para fabricar órgãos, o maior temor é com a humanização, ou seja, que o animal resultante do experimento tenha características humanas, desde um simples pelo até um maior poder cognitivo.

Nos laboratórios do Instituto Salk, Jun Wu é um dos coautores de estudo publicado na “Nature” no ano passado que comprovou a possibilidade de cultivar células humanas em embriões de camundongos. Os pesquisadores desenvolveram um novo tipo de célula-tronco, batizada como rsPSC, criada a partir de qualquer célula adulta do doador. Dessa forma, será possível produzir órgãos e tecidos para transplante sem riscos de rejeição, caso os experimentos sejam bem-sucedidos. Atualmente, a equipe trabalha com porcos.

— Estamos tentando gerar órgãos e tecidos humanos funcionais usando um porco como hospedeiro. Usamos tecnologias de edição genética para desabilitar genes no embrião que são chave para o desenvolvimento de órgãos nos porcos e células-tronco humanas para “resgatar” essa deficiência, criando um porco com órgãos humanos — contou Wu. — Nós acreditamos que uma fazenda de órgãos será viável no futuro próximo. Agora existem alguns desafios técnicos , como a eficácia e a escolha do gene correto para modificar no porco, mas achamos que isso será rapidamente superado com o avanço nos campos da edição genética e de células-tronco.

CONSEQUÊNCIAS DESCONHECIDAS
Após a preparação, o embrião é implantado no útero de uma porca hospedeira, para dar início à gestação. O desenvolvimento é interrompido ainda nas primeiras semanas, mas os pesquisadores esperam ser possível observar sinais de órgãos formados por células humanas.
O procedimento de inserção de células humanas em embriões de animais é conhecido como quimerismo, em referência à figura mítica grega de uma besta cuspidora de fogo com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente. Na ficção, a hibridização de humanos com animais foi explorada por H. G. Wells, em “A ilha do dr. Moreau”. Para Wu, essas fantasias alimentam o temor sobre o futuro dessas tecnologias.
Além do Instituto Salk, pesquisas nessa linha estão sendo realizadas em Stanford e na Universidade de Minnesota. Estimativas apontam que ao menos 20 gestações de quimeras foram realizadas nos EUA no ano passado, mas os resultados ainda não foram publicados. Em carta publicada na revista “Science” em novembro, 11 pesquisadores, a maioria de Stanford, pediram pelo fim da moratória imposta pelo NIH. Além da possibilidade de cultivar órgãos humanos em animais, estudos com quimeras podem abrir portas para outras aplicações, como o cultivo de “órgãos em miniatura” para estudar o avanço de doenças in vivo, ou para modelos de testes de novas drogas, garantindo maior segurança antes dos testes clínicos.
O brasileiro Alysson Muotri, da Universidade da Califórnia em San Diego, é um dos pioneiros na produção de quimeras. Em 2005, ele provou que neurônios humanos derivados de células-tronco pluripotentes desenvolvidos em embriões de camundongos podem ser funcionais. Seus experimentos usaram embriões em estágio avançado, com a injeção das células-tronco na região do cérebro do feto — diferente dos estudos atuais, que usam embriões em estágios iniciais, nos quais a contribuição humana pode acontecer em qualquer região do organismo.
O pesquisador ressalta a importância desse tipo de abordagem científica. A sua descoberta, por exemplo, abriu caminho para uma série de pesquisas que estão em fase de ensaio clínico para novos tratamentos médicos. Mesmo assim, ele concorda com a moratória imposta pelo NIH.
A polêmica em torno da produção de quimeras usando embriões de animais em estágio inicial ainda não chegou ao Brasil. De acordo com a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), ligada ao Conselho Nacional de Saúde, ainda não foram submetidos pedidos de análise de projetos que tratem do assunto. Mas com o avanço dos estudos nos EUA e em outros países, é provável que a discussão chegue ao país em breve.

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