11.641 – Solo de cometa é rico em tijolos precursores da vida, revela sonda


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Quase nove meses atrás, o módulo Philae realizou seu pouso num cometa. Agora, os cientistas da épica missão espacial europeia finalmente dão à luz os frutos da expedição, incluindo um relato detalhado da atribulada descida da sonda.
Em 12 de novembro do ano passado, foram duas quicadas e uma passagem de raspão pela borda de uma cratera, antes do pouso final, numa região bem acidentada do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko –”Chury”, para os íntimos.
Aliás, até mesmo esse processo de pouso “com escalas” redundou em acréscimo de dados para a missão. Graças a isso, foi possível estudar as características do solo tanto no ponto da primeira quicada como no local da descida final.
O primeiro terreno a ser tocado pelo Philae era muito mais granulado e fofo –uma camada de cerca de 25 centímetros de espessura, recobrindo um solo mais duro por baixo.
Já no local do pouso final não havia essa camada fofa –o solo era muito duro já na superfície, ajudando um dos pés da sonda a se atarrachar ao chão.
O Philae ficou preso por apenas um dos três pés, e numa inclinação diagonal que deixou apenas um dos cinco painéis solares bem exposto à luz.
Foi essa posição que acabou abreviando o tempo de operação do módulo, encerrado após pouco mais de dois dias, por exaustão das baterias.
AS PRINCIPAIS DESCOBERTAS
SUPERFÍCIE: Os terrenos variam bastante no cometa. No primeiro pouso, a superfície era mais fofa; no pouso final, bem mais dura.A temperatura diurna variava entre -183ºC e -143ºC
ESTRUTURA INTERNA: O interior do cometa parece ser bem homogêneo e pouco diferenciado, além de muito poroso (75% a 85% de vazio), como uma esponja
COMPOSIÇÃO: Muitos compostos orgânicos (que formam base da vida) foram encontrados, quatro deles até então jamais detectados num cometa
DINÂMICA: Imagens do solo revelam muitos sinais de erosão e dão pistas das rochas que compõem os objetos mais primitivos do Sistema Solar
COMPOSIÇÃO
Uma das mais intrigantes revelações dos novos estudos diz respeito à composição do solo. Ela é riquíssima em moléculas orgânicas, a base da vida na Terra, e imagina-se que os cometas possam ter tido um papel trazendo esses compostos para cá, nos primórdios da formação do Sistema Solar.
Os instrumentos Cosac e Ptolemy, instalados no Philae, tinham por objetivo estudar as substâncias presentes na superfície, por meio de coleta de amostras.
O robô não conseguiu perfurar e colher esse material, mas os instrumentos tinham um modo de operação “de garantia”, que envolvia estudar o que quer que entrasse neles passivamente, sem a coleta intencional.
Com isso, foi possível detectar 16 diferentes compostos, quatro dos quais (metil-isocianato, acetona, propionaldeído e acetamido) nunca haviam sido detectados num cometa antes.
Após a descida, o Philae também transmitiu ondas de rádio para baixo, fazendo com que elas atravessassem o interior do cometa.
Esse estudo de radar permitiu estimar a estrutura interna do objeto, que é basicamente como uma esponja –muito porosa e homogênea, com os espaços vazios respondendo por 75% a 85% do volume total.
Também foi possível estimar a proporção entre gelo e rocha presente no cometa –e há cinco vezes mais do primeiro do que do segundo.
Além desses estudos de estrutura e composição, as imagens capturadas pelas câmeras Rolis e Civa ajudaram a investigar os processos que acontecem na superfície, com evidências de erosão –esperadas, considerando o aumento de atividade conforme o cometa se aproxima do Sol, numa órbita com período de 6,5 anos.
E não será a última vez que ouviremos falar do cometa Chury. A orbitadora Rosetta –que levou o Philae até lá– segue estudando o astro, que atingirá o periélio (ponto de máxima aproximação do Sol) em 13 de agosto.
Além disso, com o aumento da radiação solar nos últimos meses, o Philae chegou a recarregar suas baterias e retomou o contato com a Rosetta.
Não está, claro, contudo, se ele poderá fazer ciência no futuro. A comunicação é irregular, dificultada pela distância que a Rosetta precisa guardar do núcleo para evitar problemas com os jatos de partículas que estão emanando do objeto.
Também não está claro que o módulo possa sobreviver à intensa atividade do periélio. De toda forma, os participantes da missão se sentem com o dever cumprido.