11.559 – Aeronáutica – A turbulência dos aviões é perigosa?


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Se você é um passageiro frequente, certamente já passou por uma turbulência.
Há algumas histórias por aí de turbuências fortes, que machucam passageiros e a tripulação. E dizem que as mudanças climáticas podem aumentar a ocorrência delas. Mas, de acordo com o Gizmodo, elas realmente não são uma grande ameaça – a não ser que você não esteja usando o cinto de segurança.
O que pode acontecer é um dano na aeronave – mas é muito raro. Um dos casos mais conhecidos aconteceu lá em 1966, quando uma turbulência ‘rasgou’ um Boeing 707 perto do Monte Fuji, no Japão. Com ventos a uma velocidade de 225 km/h, ninguém sobreviveu. Mas a engenharia das aeronaves evoluiu bastante desde lá – os cascos são mais resistentes, as asas conseguem dobrar em até 90 graus em testes e alguns aviões possuem sensores que já detectam as turbulências. Então, hoje, acidentes relacionados a turbulências são relacionados a outros fatores, como malfuncionamento ou um erro do piloto.
No máximo, e ainda assim é um evento raro, a turbulência forte faz com que os pilotos desviem da rota planejada e pousem em outro aeroporto. E, normalmente, isso é feito por risco das pessoas se machucarem dentro do avião, não porque a aeronave não aguentaria o impacto.

É difícil que um piloto entre em uma área de turbulência desavisado – quando isso acontece, normalmente é porque desviar a rota gastaria mais tempo e combustível e a turbulência não é uma preocupação tão grande.
Existe, no entanto, a turbulência de ar limpo – quando ocorre a trepidação mesmo em um tempo limpo e sem nenhum sinal do radar. Como os pilotos não prevêem a turbulência, ela pode causar alguns machucados na tripulação. Foi o que motivou um voo da American Airlines a pousar em Tóquio, em uma rota de Seul para Dallas. Por causa de uma turbulência imprevisível, bebidas quentes do serviço de bordo voaram pelo avião machucando uma dúzia de passageiros. Mas vale lembrar que esses eventos são extremamente raros.
A probabilidade de uma turbulência considerada severa é de um em milhão. E, sabendo da zona de turbulência, os pilotos fazem o possível para desviar delas. A dica é ficar sempre de cinto afivelado – mesmo se os avisos estiverem desligados.

11.558 – Aviação – Dentro de uma retífica de motores de avião


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Sediada em Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, a GE Celma já revisou quase 9 mil motores de aeronaves usando máquinas de endoscopia, de raio X, de ultrassonografia e técnicas de contraste. Agora, a empresa encara um novo desafio: fazer a manutenção do GEnx, considerada uma das turbinas mais avançadas do mundo
A GE Celma é a segunda oficina do mundo capaz de realizar a manutenção do GEnx , que tem mais de 2,8 metros de diâmetro e equipa os modelos dos Boeing 787 Dreamliner e 747-8. As turbinas serão avaliadas por um grupo de mecânicos e engenheiros que passou por três meses de treinamento nos EUA e na Escócia.
Neste ano, a GE Celma revisará mais de 360 turbinas de companhias aéreas do mundo todo. Após desembarcar no aeroporto de Viracopos, em Campinas, os motores são levados de caminhão até a empresa, onde passam por uma minuciosa inspeção inicial. Como numa endoscopia, uma pequena câmera (foto) ligada a um cabo checa o interior de tubulações à procura de avarias.
Concluída a primeira avaliação, as turbinas são desmontadas em mais de 10 mil peças. São lavadas e, para que nenhum dano escape aos olhos dos mecânicos, algumas delas são banhadas por um líquido penetrante e expostas à luz ultravioleta , conferindo trincos ou arranhados. Em alguns modelos de turbinas, 90% dos consertos são feitos na própria empresa. Ao final do processo, as peças são totalmente restauradas, voltando à sua cor original e sendo polidas em uma das máquinas instaladas dentro da oficina.
Cada peça é catalogada e tem um certificado próprio de inspeção, para que sejam reunidas novamente durante a montagem. A revisão completa dura até 65 dias e tem o custo estimado de US$ 5 milhões. Fundada em 1951 como uma fábrica de ventiladores, a Celma rumou para a indústria da aviação seis anos depois, quando foi adquirida pela Panair do Brasil. Em 1996, a General Electric (GE) tomou o controle integral da companhia, colocando-a como um dos seis centros mundiais de manutenção da GE Aviation.
Após o processo de montagem, as turbinas estão prontas para a última avaliação. A empresa conta com dois bancos de testes, em Petrópolis e na cidade do Rio de Janeiro, próximo ao aeroporto do Galeão. No teste, a turbina é fixada em um suporte semelhante à asa da aeronave e submetida a uma simulação real de voo. Por meio de um painel de dados, informações como temperatura, força e pressão são checadas pelos técnicos para que o motor seja aprovado para uso.

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11.557 – Sonhos – O que a Ciência (não) responde


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Por que algumas pessoas se lembram dos sonhos e outras não?
Para recordar é preciso acordar em meio a um sonho, e preferencialmente durante a fase REM (sigla em inglês para movimento rápido dos olhos), o último dos estágios de cada ciclo do sono. Ainda assim, ao longo de qualquer experiência onírica, a serotonina, o neuromodulador responsável pela memória, está ausente. Lembra-se mais de sonhos do fim da noite, quase amanhecer, quando a serotonina volta a ser naturalmente produzida pelo organismo.
Por que os sonhos, mesmo nem sempre sendo assustadores, costumam ser absurdos, de puro nonsense?
Com a parte do cérebro responsável pelo pensamento racional desligada durante a noite, a mente fica livre para associar memórias, sensações e experiências de maneiras muito diferentes das que ocorrem na realidade. Inexiste, portanto, ordem ou lógica. Essa sinfonia atonal ocorre fundamentalmente nas últimas fases de cada ciclo de sono.
Dá para acordar e depois continuar no mesmo sonho?
Como os sonhos são causados por uma sequência de ações neuronais padronizadas, é possível que eles se desdobrem em “capítulos”, com as mesmas memórias e áreas do cérebro sendo ativadas. É semelhante ao processo seguido pelos pesadelos recorrentes.

Por que temos pesadelos?

Esses teriam sido os primeiros tipos de sonho em seres humanos, uma adaptação evolutiva construída pela mente para enfrentar mentalmente ameaças da natureza e, assim, proteger a espécie. Crianças, com o cérebro ainda em formação, costumam ter muitos pesadelos e sofrem com os terrores noturnos — imagens ou flashes de angústia e pânico que surgem nas primeiras fases do sono.

Conseguimos treinar o cérebro para evitá-los?
Há pelo menos quinze anos médicos e psicólogos usam técnicas de sugestão e visualização para modificar pesadelos. Com treino diário e acompanhamento terapêutico, o conteúdo pode ser amenizado e até mesmo desaparecer.

Por que quase nunca morremos no sonho?
É raro, mas não impossível. Normalmente, a pessoa acorda pouco antes ou logo depois da cena fatal. Como os sonhos são uma ferramenta evolutiva para ensaiar o futuro, não haveria vantagem na simulação da própria morte. Mas, quando alguém “morre” sonhando, é comum que isso se dê durante o sono REM, momento no qual a experiência de delírio é mais fantasiosa.

É possível escolher ter um tipo determinado de sonho?
Não. Mas há um tipo que nos faz imaginar ser possível controlá-lo. É o chamado sonho lúcido, em que, na definição de um renomado pesquisador do assunto, o americano Stephen LaBerge, “sonhamos sabendo que estamos sonhando”. Nele o córtex pré-frontal, parte do cérebro responsável pela racionalização, fica ativo, ao contrário do que acontece nas versões usuais. Em torno de 20% das pessoas têm ao menos uma experiência desse tipo ao longo da vida — oito em dez pessoas, portanto, nunca conseguirão tal lucidez. Alguns indivíduos têm um nível mais alto de percepção. Seu cérebro identifica o devaneio ao perceber que os eventos não fariam sentido algum fora dele.

Os animais sonham?
Não dá para saber com certeza, pois os animais, claro, não falam. Os mamíferos têm uma fase de sono REM longa, associada à presença de sonhos. No entanto, muitas vezes, nada ocorre durante esse estágio.

Uma pessoa em estado de coma sonha?
Nessa situação não costumam existir variações cerebrais que proporcionam o sonho, como o estágio REM. Portanto, em teoria, não seria possível, nem no coma natural nem no coma induzido por medicamentos. Há, no entanto, relatos de alucinações oníricas. Essas experiências poderiam ser causadas por variações na ação dos medicamentos — seriam, então, um efeito indesejado dos remédios.

E os cegos, sonham?
Sim, só que, em vez de imagens, os cegos de nascença vivenciam sensações sonoras, gustativas, táteis e olfativas. O sentido predominante é a audição — os sonhos dos deficientes visuais costumam ser uma trilha sonora de uma imagem escura. Para quem ficou cego depois de algum tempo tendo enxergado, ainda que com extrema dificuldade, a memória visual persiste, e os sonhos ocorrem tal qual com os aptos a enxergar.

11.556 – Cientistas buscam explicações da física para existência do universo


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O Grande Colisor de Hádrons voltou à ativa em junho, esmagando partículas subatômicas com quase o dobro da energia usada para descobrir o bóson de Higgs, um marco na compreensão da composição do mundo físico.
Com o Higgs desvendado, os pesquisadores agora estão de olho em algo mais exótico: sinais de uma nova física que não só descreva o universo como também explique por que ele é do jeito que é. Quatro forças fundamentais governam a realidade, mas por que não são 3, 5 ou 17?
A matéria é constituída a partir de uma miscelânea de partículas cujas massas diferem tanto que parecem ter sido distribuídas por um deus embriagado. O próton tem 99,86% do peso do nêutron, e ambos têm mais de 1.835 vezes a massa do elétron.
Esses valores, como todos os outros que compõem a folha de especificações do universo, parecem arbitrários demais. No entanto, se fossem ligeiramente diferentes, o universo não teria dado origem à vida inteligente, segundo os cientistas.
Rejeitando a hipótese de que isso não tenha passado de um golpe de sorte, os físicos estão à procura de um princípio subjacente –uma explicação convincente para o fato de tudo ter acontecido dessa maneira específica.
Não é assim que costumamos pensar na história humana. A cada fato os caminhos se bifurcam, e só um deles leva ao futuro. Escolha um entre a infinidade de possibilidades não ocorridas e já poderíamos estar vivendo num mundo muito diferente.
No entanto, a física não funciona assim: se um número chamado alfa, que governa a força do eletromagnetismo, fosse infimamente maior ou menor, as estrelas não poderiam ter se formado, deixando um vazio sem vida.
O valor de alfa parece algarismos gerados aleatoriamente: 0,0072973525698. Um dos maiores mistérios da física, segundo o físico Richard Feynman, consiste em “um número mágico que escapa da compreensão humana”.
Outros valores, como a massa do bóson de Higgs, ou a intensidade da força que une os núcleos dos átomos, parecem calibrados com o mesmo esmero. Bastaria mexer um pouco nos ponteiros que o nosso universo talvez não existisse tal qual como ele é.
A teoria das cordas –com suas dimensões extras e geometrias que lembram biscoitos trançados– era tão hipnotizante quando ganhou proeminência, três décadas atrás, que parecia certo ser válida. Afinal, tratava-se, depois de decifrada, de uma descrição muito bem amarrada de um universo como o nosso.
Só que a teoria das cordas descambou para outra direção, prevendo uma infinidade de outros universos, cada um com uma física diferente, mas impossíveis de serem observados –com exceção do nosso.
É possível que alguns dos outros universos tenham gerado diferentes tipos de seres conscientes, feitos a partir de outra coisa que não átomos –e todos eles tão perplexos (em alguma insondável forma equivalente de perplexidade) quanto nós.

11.555 – A Volta dos Dinossauros – Especialistas encontram restos de sangue de dinossauro de 75 milhões de anos


Uma equipe de paleontólogos da Imperial College, em Londres, afirmou ter encontrado restos de células sanguíneas e colágeno de dinossauros em fósseis com 75 milhões de anos de idade. Isso aconteceu acidentalmente, quando os especialistas estavam analisando esses fragmentos fósseis no Museu de História Natural, em Londres.
“A preservação de tecidos moles em fósseis de dinossauros pode ser muito mais comum do que se pensava (…). Essa é apenas a primeira etapa da pesquisa”, explicou Susannah Maidment, coautora do estudo. Ela acrescentou que esse tipo de trabalho poderá ser fundamental para determinar o momento preciso em que os dinossauros evoluíram para um metabolismo de sangue quente.
Já são muitos os cientistas de todo o mundo que contam com a possibilidade de encontrar DNA intacto em células sanguíneas de dinossauros.

11.554 – Mega Byte – Dono do Facebook acredita que a tecnologia telepática está próxima de se tornar real


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“Um dia, eu acredito que nós vamos ser capazes de enviar pensamentos valiosos uns aos outros usando a tecnologia. Você poderá pensar em alguma coisa e seus amigos vão, imediatamente, ser capazes de experimentar o mesmo, caso você quisesse”, escreveu Zuckerberg no Townhall Q&A, divulgado em seu próprio perfil.
Para algumas pessoas, o interesse do Facebook em telepatia representará parte de um mundo novo e ousado em comunicações digitais. Para outros, será o mais recente estímulo ao fim dos tempos. A rede social poderia enfrentar questões importantes sobre segurança de dados resultantes.
“A fim de fazer isso muito bem, nosso objetivo é construir sistemas de inteligência artificial que são melhores do que os seres humanos em nossos sentidos principais, como visão, audição, etc.”, acrescentou Mark.
Zuckerberg expandiu seus pensamentos sobre inteligência artificial em uma resposta sobre como Facebook se vê daqui a uma década. “Nós estamos trabalhando nisso porque pensamos que serviços mais inteligentes serão muito mais úteis. Por exemplo, se tivéssemos computadores que pudessem entender o significado das mensagens na linha do tempo e mostrar-lhe mais coisas que você está interessado, isso seria bastante surpreendente”, escreveu ele.

11.553 – Chinês cuida de “cães” por 2 anos até perceber que eles eram, na verdade, ursos negros


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Os ursos negros asiáticos estão listados na Classe II de espécies protegidas e não são domésticos.
Wang Kaiyu, é dono de uma fazenda de bananas em Jinchang Town, perto da fronteira do Vietnã. Ele contou em uma entrevista à imprensa local, que há dois anos atrás, um vietnamita estava passando pela área com dois filhotes de cão de “boa aparência”, e Wang decidiu comprá-los.
Por dois anos, ele carinhosamente criou os “cães”, dando banho, brincando e fazendo carinho todos os dias. Wang disse que os animais eram bem-comportados, mas que a fome dos animais estava aumentando rapidamente. “Certa vez eles chegaram a invadir o galinheiro e devorar algumas das galinhas da fazenda”, contou Wang.
Um dia, Wang viu um cartaz sobre a proteção dos animais selvagens em uma exposição organizada pela polícia florestal, e ‘sua ficha’ começou a cair. O fazendeiro percebeu que tinha comprado e criado, acidentalmente, duas espécies protegidas de ursos.
Depois de ponderar muito, ele decidiu que deveria entregar os ursos à polícia florestal, em Maguan, para que eles pudessem ser realocados a um habitat adequado.
Em 30 de junho, a polícia florestal entrou em contato com a Wildlife Rescue and Rehabilitation Centre, da província de Yunnan, e os dois ursos foram enviados para uma área de preservação.

11.552 – Medicina – Caça ao Mosquito


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Em 1889, o Serviço Médico Britânico mandou uma expedição à África. Por sorte, o chefe da equipe, Ronald Ross, era, além de clínico, especialista em insetos. E talvez por isso tenha notado que as regiões onde havia malária estavam infestadas por um tipinho esquisito de mosquito, o anófeles. Como ele mesmo provou oito anos depois, o inseto carregava os quatro tipos de parasitas causadores da doença.
De lá para cá, até surgiram remédios que salvam parte dos infectados. “Mas a malária ainda mata entre 1,5 e 2,7 milhões de indivíduos por ano”, lamenta o infectologista Aafje Rietveld, da Organização Mundial da Saúde. O problema, portanto, não é remediar, é prevenir. Por isso, a esperança hoje se concentra em uma nova vacina, criada pelos brasileiros Ruth e Victor Nussenzweig, da Universidade de Nova York. Ela é a primeira que ataca o parasita em duas fases.
A malária ataca quando o homem invade a mata tropical, o endereço do anófeles. Nos anos 80, quando a mineração em Rondônia atraiu trabalhadores, ocorreram 200 000 casos nesse Estado. Hoje, com o fim das minas, eles caíram para 130 000. No Brasil, a contaminação vem diminuindo também com o uso de veneno contra o inseto. Em 1996 surgiram 450 000 infectados, 100 000 a menos que nos anos anteriores. Deles, 3% morreram. Só no Amazonas é que a malária ainda cresce. “Aqui, o governo federal investe em agricultura”, explica Wilson Alecrim, diretor do Instituto de Medicina Tropical do Amazonas. “Os trabalhadores vão para a floresta e ficam expostos”, diz.
Mas é na África que o bichinho pega. Lá estão os quatro tipos de parasitas: os plasmódios falciparum, malariae, ovale e vivax. No Brasil, ao menos não existe o malariae. Para piorar, a maio- ria dos africanos mora perto das florestas e cada um recebe em média 1 000 picadas por ano. Com o sistema de defesa acostumado aos ataques, o sujeito não desenvolve sintomas fortes, mas ajuda a contaminar outros. Pois só dentro do organismo humano o ciclo de vida do plasmódio se completa.
“O Exército americano perdeu a Guerra do Vietnã para a malária, e não para os vietnamitas”, afirma o infectologista Marcos Boulos, do Hospital das Clínicas de São Paulo e consultor do Centro Rhodia de Doenças Tropicais. Os soldados nunca tinham entrado em contato com o mal e foram presa fácil do mosquito. Como não fica bem um exército se render a um plasmódio, os americanos estão sempre atrás de mais munição.

O novo tiro de canhão é a vacina que está sendo produzida pelo Instituto de Pesquisa Walter Reed, do Exército norte-americano, em colaboração com o laboratório belga SmithKline Beecham Biologicals. A nova arma se baseia na pesquisa da dupla Ruth e Victor Nussenzweig. Os resultados por enquanto são os melhores já registrados, mas só os testes poderão comprovar a eficácia. “A dificuldade para se criar uma vacina é que o parasita está sempre se modificando”, diz Boulos, um felizardo que, em vinte anos de pesquisa de campo sobre a doença, não contraiu malária nenhuma vez. “O plasmódio sabe mudar seu disfarce e se defender muito bem do sistema imunológico dos seres humanos”.
Para desespero dos farmacêuticos, uma droga que, no início, diminui rapidamente os sintomas da malária em poucos anos torna-se ineficaz porque o plasmódio dribla o seu efeito. Foi o que aconteceu com a cloriquina, remédio desenvolvido pelo Exército americano durante a Segunda Guerra Mundial. “A partir dos anos 60, já havia plasmódios resistentes à cloriquina na América do Sul”, conta o parasitólogo brasileiro Luiz Hildebrando da Silva, que estudou a doença durante 33 anos no Instituto Pasteur, na França, e está de volta ao Brasil desde março, para atuar na Universidade de São Paulo.
Novas drogas surgiram, algumas bem recentes, mas todas acabam caindo nas armadilhas do parasita. A indústria farmacêutica tem que buscar algo muito diferente, capaz de surpreender o inimigo. Só que o investimento para desenvolver um remédio desses é altíssimo e o lucro, quase zero (veja quadro abaixo). Por isso as indústrias não se entusiasmam. E, passados 100 anos da descoberta de seu agente transmissor, a malária continua quase imbatível.

Como ele ataca
O parasita mais comum é o Plasmodium falciparum. No mosquito, antes de ir para a saliva, ele habita a parede do estômago.
Só a fêmea do anófeles gosta de beber sangue humano. E, ao enfiar o ferrão na pele da vítima, injeta o plasmódio, que cai na corrente sanguínea.
Quando caem nos vasos, os parasitas têm uma única intenção: chegar rápido ao fígado. Para isso, eles se deixam levar pela corrente do sangue.
Os plasmódios ficam 10 dias alojados dentro das células do fígado. Ali, eles se multiplicam para enfrentar a etapa seguinte.
Os parasitas saem do fígado com uma estrutura feita sob medida para invadir os glóbulos vermelhos do sangue, onde em 24 horas eles se multiplicam assustadoramente.
Durante até dois anos, os plasmódios ficam rompendo as células sanguíneas. Entre eles estão os parasitas que, sugados pelo mosquito, se reproduzem dentro do inseto e perpetuam o ciclo nefasto.
Os sintomas surgem quando o parasita arrebenta os glóbulos vermelhos. Eles são: febre alta, calafrios, tremores, dores por todo o corpo. Aí o indivíduo tanto pode morrer, na maior parte das vezes por coágulo cerebral, como reagir e se curar. Vai depender dos remédios e da resistência de cada um.

Combate
Ataque em duas frentes não deixa parasita prosseguir
Os cientistas brasileiros Ruth e Victor Nussenzweig, da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, apostaram que a vacina eficaz estaria bem na casca do inimigo. Bingo! Mas faltava alguma coisa. Pois, só com isso, a vacina era inócua quando o mal atingia o fígado. Ali, sua fórmula passava batido ou era destruída. O casal decidiu experimentar uma versão híbrida, metade proteína da casca do plasmódio e metade proteína que reveste o vírus da hepatite B. Afinal, o vírus da hepatite está acostumado a se dar bem no fígado e poderia ser o segredo do sucesso. Parece que foi mesmo: mais de 85% de 46 voluntários do Exército americano foram imunizados. “Agora estamos testando a vacina em Gâmbia, na África”, diz Ruth. “Os resultados sairão no início de 1998.”
A vacina é injetada na corrente sanguínea e prepara o organismo para ser acionado quando o mosquito jogar lá dentro os parasitas que devem ser atacados e destruídos.
A vacina induz o sistema imunológico a produzir moléculas defensoras, os anticorpos. Quando os plasmódios caem na corrente, esses defensores os atacam impiedosamente.
Mesmo assim, alguns plasmódios escapam para o fígado. Mas nem ali têm sossego. Outros anticorpos explodem as células do fígado que escondem os parasitas fujões.
O médico colombiano Manoel Patarroyo achou uma vacina que impede o ataque dos parasitas às células do sangue. Nos testes realizados até 1991 com 23 000 voluntários na Colômbia, Venezuela e Equador, os resultados foram 80% positivos. “Mas, no Brasil, sua eficiência foi quase zero”, conta o infectologista Marcos Boulos. Os parasitas da malária são mutantes como o vírus da Aids e, talvez, o parasita que aqui ataca não ataque como os de lá, sendo irreconhecível para a vacina. O Instituto Walter Reed, em Washington, procura somar outras proteínas do parasita na formulação colombiana. Eles esperam ter a sorte de achar uma proteína comum em todos os parasitas mutantes, do Brasil, da Colômbia e de outros cantos da Terra.
Depois de aplicada, a vacina fica boiando na corrente sanguínea, preparando as defesas para contra-atacar o inimigo instalado no fígado.
Quando o parasita sai do fígado e cai no sangue, milhares de anticorpos de bloqueio já estão à sua espera.
Os anticorpos formam uma barreira, impedindo a invasão das células sanguíneas e a proliiferação dos bichos.
Investida contra o namoro dos plasmódios
Uma terceira forma de vacina não protege exatamente quem a recebe, ou seja, quem contraiu um dos parasitas da malária. Pesquisada em diversos laboratórios do mundo, ela é chamada de vacina altruísta porque pretende evitar que o mal faça novas vítimas. Geralmente, ao picar alguém infectado, o mosquito suga parasitas sexuados que irão se reproduzir em seu organismo. Por isso, o que os cientistas querem é impedir o namoro de plasmódios machos e fêmeas. As fórmulas em teste funcionam como um anticoncepcional de parasitas. De todas as soluções em testes, é a menos avançada.
No sangue da vítima infectada, a vacina se finge de morta e convive pacificamente com os parasitas sem atacá-los.
O anófeles pica o indivíduo e suga parasitas, que usam seu intestino para se reproduzir. Mas, junto, vai também a vacina.
A vacina atrapalha o namoro dos parasitas e eles não conseguem se reproduzir. O ciclo da doença acaba aí.

Linhas de pesquisa
Busca-se, a partir de plantas ou moléculas já conhecidas, uma que cure a malária. Enquanto isso, o laboratório determina se o remédio será injeção, cápsula ou comprimido. No final, 90% das moléculas descobertas vão para o lixo por serem ineficientes ou tóxicas. Duração: 5 anos
Os testes começam com camundongos, que procriam rápido. Assim, é possível ver logo os efeitos do futuro remédio no organismo. A dosagem aumenta até se descobrir qual é a tóxica. Depois verifica-se o efeito em animais maiores, mais próximos do homem. Duração: 3 anos.
Os primeiros testes com seres humanos são feitos em voluntários saudáveis. O interesse é saber se o medicamento é tóxico. Determinado o grau de toxicidade, começam os testes em pacientes doentes. No total, cerca de 3 500 pessoas recebem a medicação. Duração: 4 anos
O remédio tem que ser aprovado pelo governo do país responsável pelo seu desenvolvimento. Depois disso vai para o mercado. Geralmente seu preço final é baixo porque os consumidores têm baixo poder aquisitivo. Duração: 6 meses, em média.
Drogas extraídas da planta artemísia agem dentro das células vermelhas do sangue. Mas o plasmódio tende a ficar resistente.
O remédio ruma para os glóbulos vermelhos onde o parasita se multiplica.
O novo parasita precisa de proteínas, que ele mesmo produz, para formar sua casca. Só que, antes que elas se fixem ao redor do plasmódio, o medicamento finge ser uma proteína e ocupa seu lugar. O parasita morre e a doença não avança. Mas os parasitas que sobram se tornam mais fortes.

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