10.581 – EUA – Caos no corredor da morte


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Uma máquina pressiona três seringas, nas quais há brometo de pancurônio, tiopental e cloreto de potássio. As substâncias entram na corrente sanguínea, e a pessoa perde a consciência após 30 segundos. Nos quatro minutos seguintes, sua respiração desacelera e o coração para. Óbito. Nas últimas três décadas, quase 1.200 condenados foram executados dessa forma nos EUA. Mas os laboratórios americanos e europeus que produzem o tiopental não querem mais vendê-lo para uso em execuções (argumentam que o remédio não deve ser usado para matar). E os EUA estão ficando sem drogas para aplicar a pena de morte.
Para contornar o problema, foi criado outro coquetel, que mistura o sedativo midazolam com o anestésico hidromorfona. A combinação foi usada pela primeira vez em janeiro de 2014 – e não deu muito certo. Dennis McGuire, de 54 anos, sentenciado à pena de morte por estuprar e matar uma grávida, foi o primeiro a receber a mistura. Ele agonizou por 26 minutos, sufocando e emitindo “sons estranhos”. A execução foi considerada um fracasso, pois causou sofrimento físico extremo – justamente o que os americanos queriam evitar quando adotaram a injeção letal na década de 1980. Das 539 execuções realizadas nos EUA nos últimos dez anos, 530 foram via injeção. Oito foram por eletrocussão, e uma por fuzilamento (o fuzilado foi Ronnie Lee Gardner, condenado por homicídio em Utah. Ele escolheu ser executado a tiros porque era mórmon, e acreditava que só consertaria o que havia feito se derramasse o próprio sangue).

10.580 – História ou Paranoia? – Mega Cenário: 2014 > 1914


Em tempos atuais, o comércio internacional quintuplicou, áreas de livre comércio pipocaram, o número de passageiros aéreos internacionais dobrou e a internet se expandiu de 0,1% para 36% da população mundial. A globalização cresceu de tal forma que o mundo se tornou interdependente demais para que uma guerra entre potências pareça plausível.
A última vez em que tudo parecia tão em ordem globo afora foi justamente há cem anos. No começo de 1914, o mundo vivia um auge inédito de paz e progresso. Desde o fim das Guerras Napoleônicas, em 1815, a Europa não via uma guerra de escala continental. Informações atravessavam fronteiras em tempo real pelo telefone e pelo telégrafo. O Expresso do Oriente ligava Paris a Istambul – e de lá até cantos exóticos como Bagdá e Medina, trazendo para as penteadeiras ocidentais perfumes com essências das Arábias. Os cosmopolitas londrinos, parisienses e berlinenses discutiam em mesas que serviam café brasileiro e chá indiano, frequentavam óperas com histórias vindas da Pérsia e se maravilhavam com invenções como o automóvel, o avião e o cinema.
Só que havia algo de podre no reino da paz. Esse avanço não era natural, mas extremamente político. Por trás da duradoura tranquilidade havia um xadrez estratégico chamado “equilíbrio de poder”. Toda vez que uma potência do continente dava sinal de querer brincar de Napoleão, a Grã-Bretanha, nação mais poderosa da época, apoiava as potências rivais.
Tudo funcionou bem até que, no centro da Europa, uma salada de pequenos Estados rurais decidiu se unificar. Liderados pela Prússia, eles viraram o Império Alemão. Rapidamente, formaram a maior rede ferroviária da Europa, a maior indústria siderúrgica do mundo e a maior fome por recursos naturais e mercados. Se os tempos fossem outros, a Grã-Bretanha faria de tudo para barrar a expansão alemã, que ameaçava silenciosamente tanto a França quanto a Rússia. Mas eis que veio o conto da carochinha. Quando potências conseguem assegurar seus interesses pelo livre-comércio, elas não precisam fazê-lo pela guerra. E o Império Alemão e a Grã- Bretanha eram os maiores parceiros comerciais entre si na Europa. Uma guerra só poderia atrapalhar… Pois bem. Bastou o assassinato do arquiduque austro-húngaro Francisco Ferdinando por um estudante anarquista para começar a então maior guerra da história, que matou 9 milhões de pessoas, ergueu barreiras comerciais, e gerou o embrião da Segunda Guerra, ainda mais apocalíptica. E o mais incrível é que só na década de 1990 a globalização pré-1914 seria retomada de fato.
A revista britânica The Economist recentemente identificou a charada do centenário de Primeira Guerra. Se 1914 e 2014 fossem duas partidas de xadrez, as peças dos dois tabuleiros estariam em posições assustadoramente semelhantes, com a diferença de um estar na Europa e outro estar no Oceano Pacífico. A Grã-Bretanha de então seriam os EUA de hoje – o manda-chuva econômico e militar cada vez mais enfraquecido. A nova França seria o Japão – o aliado em decadência política e econômica que não consegue mais apitar sozinho em seu quintal. E quem faz o papel do Império Alemão é, claro, a China – a potência que há poucos anos se tornou o número dois do mundo em quase tudo o que importa em geopolítica: orçamento militar e uma indústria sedenta por recursos naturais e mercados.
Tal como no início de 1914, acreditamos que o comércio internacional se tornou tão dinâmico que uma guerra mais atrapalharia do que contribuiria para os interesses das potências. Para que a China faria alguma guerra se os EUA e o Japão são seus maiores parceiros comerciais? Mas, enquanto os agentes econômicos do mundo focam nessa pergunta, a China aumentou de 1% para 10% sua fatia no orçamento militar do planeta. Ainda é um quarto do orçamento americano, mas já é mais que o triplo do japonês e não para de crescer. Agora, começou a mostrar os dentes ao Japão na disputa por algumas ilhotas que servem de pouco mais que estacionamento de gaivotas. E continua a passar a mão na cabeça da Coreia do Norte, a ditadura atômica que vive de fazer ameaças insanas.
Nada disso significa a iminência de uma Terceira Guerra Mundial, claro. Não porque as economias de EUA, China e Japão sejam interdependentes – esse mito foi assassinado junto com Francisco Ferdinando em 1914. Não. A razão está em Hiroshima. Ironicamente, nosso seguro contra um conflito global é o risco de uma hecatombe maior – o holocausto atômico. E seria completamente idiota atravessar essa linha vermelha, certo? Certo. Há cem anos, porém, a ideia de uma guerra total parecia tão estúpida quanto.

10.579 – Política – Os EUA derrubaram o presidente do Brasil?


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John Kennedy tinha um brinquedo novo. Quando os convidados chegaram, o presidente apertou um botão escondido na lateral de sua mesa, acionando um microfone ali no Salão Oval e um gravador no porão da Casa Branca. Era a estreia de uma engenhoca secreta que registrou 260 horas de conversas sigilosas.
Olha que coincidência: a primeira gravação é sobre o Brasil. Das 11h52 às 12h20 de 30 de julho de 1962, debateu-se o futuro e a fritura do presidente João Goulart. O embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon, disse que Jango estava “dando a porcaria do país de graça para os…” “…comunistas”, completou Kennedy. O assessor Richard Goodwin ressaltou: “podemos muito bem querer que os militares brasileiros tomem o poder no final do ano”. Isso quase dois anos antes do Golpe de 64.
Desde 1961, com a chocante renúncia de Jânio Quadros e a conturbada posse de Jango, as reuniões de Kennedy sobre nosso país eram monotemáticas: como impedir que o Brasil se tornasse uma gigantesca Cuba? Apesar disso, Lincoln Gordon, embaixador no Rio entre 1961 e 66, morreu em 2009, aos 96 anos, negando que os americanos teriam participado do golpe. Durante e após a ditadura, que foi até 1985, muitos pesquisadores brasileiros menosprezaram o papel dos americanos, tachando investigações nesse sentido de paranoia e teoria da conspiração. Mas documentos revelados nos últimos anos contam uma história diferente, que vai sendo revelada aos poucos.
Parte desse material ganhou destaque no documentário O Dia que Durou 21 Anos, da dupla de filho e pai Camillo e Flávio Tavares – autor de um grande livro sobre a luta contra o regime, Memórias do Esquecimento. O filme apresenta gravações e documentos oficiais e expõe justamente a articulação do governo americano e dos militares brasileiros contra Jango. Arquivos recém-abertos nos EUA estão mexendo até com obras definitivas: os quatro livros do jornalista Elio Gaspari serão reeditados levando em conta as gravações clandestinas de Kennedy e de seu sucessor Lyndon Johnson. E ainda há muito a ser revelado: Carlos Fico, historiador da UFRJ, estima que mesmo com a Lei de Acesso à Informação ainda não se analisou nem 20% dos arquivos dos órgãos de repressão brasileiros.
O vice-presidente João Goulart soube da renúncia do presidente Jânio Quadros após uma viagem oficial à China, durante uma missão extraconjugal em Cingapura. Em 2014, após 29 anos de democracia ininterrupta, seria uma surpresa se o vice não assumisse, seja quem for e esteja onde estiver. Em 1961, a regra não era tão clara. Aliás, era feita para confundir: havia eleição para presidente e também para vice. Os vencedores podiam ser de campos opostos. E, em 1960, foram: Jânio era um salvador-da-pátria de direita, Jango um para-raios de todas as tempestades à esquerda. Quando o presidente deixou o campo após sete meses, seu reserva era de outro time. E o árbitro – nesse caso, as Forças Armadas – não quis que o reserva entrasse.
Menos de um mês depois do golpe, os americanos aprovaram o envio de US$ 1 bilhão para o presidente Castello Branco, o que motivou o Banco Mundial e o FMI a também liberar recursos. Era como se já estivesse tudo acertado.
Um mês e meio antes de ser assassinado em Dallas, Kennedy chamou Lincoln Gordon ao Salão Oval e apertou o botão mais uma vez. O áudio desse encontro foi postado no site da Biblioteca Kennedy e descoberto por Elio Gaspari – parte dele estará na nova edição de A Ditadura Envergonhada. Em 7 de outubro de 1963, o presidente americano quis saber do embaixador o que fazer com seu colega brasileiro. Gordon respondeu que havia dois cenários: Jango podia abandonar o discurso esquerdista e resolver a coisa de modo pacífico. “Ou não tão pacífico: ele pode ser tirado involuntariamente.” Gordon buscou instruções: “Vamos suspender relações diplomáticas, econômicas, ajuda, todas essas coisas? Ou vamos encontrar uma maneira de fazer o que todo mundo faz?” Kennedy pega a bola e mais adiante devolve: “Acha aconselhável que façamos uma intervenção militar?” Pense naqueles 26 golpes com selo CIA de qualidade.
Gordon desaconselhou uma ação imediata. A não ser que Jango se aproximasse de “velhos amigos” como Brizola. Ficou por isso mesmo. Kennedy morreu e a bola passou para seu sucessor, Lyndon Johnson.
Atolado com a Guerra do Vietnã, Johnson repassou a bola para Thomas C. Mann, novo coordenador da Aliança para o Progresso. E bota coordenador nisso: em 18 de março de 1964 se reuniu com todas as autoridades envolvidas com a América Latina. Desse encontro saiu a Doutrina Mann: os Estados Unidos reconheceriam o governo de qualquer aliado, mesmo sob regime autoritário, contanto que continuasse anticomunista. A definição a poucos dias do golpe era um sinal claro para militares golpistas agirem com segurança, escreveu o New York Times no dia seguinte. Mann, em vez de desmentir, declarou: cada caso era um caso.
O estopim do golpe, no entanto, não veio de Washington, mas do centro do Rio de Janeiro. É lá que fica o Automóvel Clube, onde em 30 de março um Jango em chamas disse a militares aliados que “o golpe que nós desejamos é o golpe das reformas de base, tão necessárias ao nosso país”. Para Jango, as “reformas de base” eram uma bandeira; para a oposição, a aurora do Brasil Soviético. Na mesma noite, chegou a Washington um telegrama afirmando que o golpe aconteceria dentro das próximas 48 horas, partindo de São Paulo ou de Minas Gerais. Foi de Minas: na manhã seguinte, o general Olympio Mourão Filho saiu de Juiz de Fora, dando início ao movimento que derrubaria o presidente.
Só no dia seguinte Jango voou do Rio para Brasília, onde foi informado que o movimento de Minas podia ter conhecimento e o apoio dos EUA. Para muitos, esse alerta explica a falta de resistência de Jango e sua fuga para o Uruguai: ele não quis enfrentar os americanos. Americanos que nem vieram: em 1º de abril, Castello Branco avisou Gordon que as embarcações da Operação Brother Sam, que vinham do Caribe, podiam dar meia volta.
O deputado Rainieri Mazzilli assumiu a presidência interinamente. Mas quem seria o presidente militar? Costa e Silva, ligado à linha dura, quis impor seu nome. Ficou para 1967. Em 1964, deu Castello Branco – para Green, graças à influência americana. Castello tomou posse em 11 de abril, prometendo “entregar, ao iniciar-se o ano de 1966, ao meu sucessor legitimamente eleito pelo povo em eleições livres, uma nação coesa”.
Durante os 21 anos de ditadura, Lincoln Gordon a defendeu. Ignorava a censura, a tortura e celebrava o Milagre Brasileiro. Defendeu até o fim que em 1964 o Brasil estava à beira de uma revolução comunista. Nunca se soube por que foi tão fácil para os militares tomar o poder. E talvez nunca se saiba: até hoje não encontraram um gravador no porão do Kremlin.

10.578 – Clima extremo – Seca e ondas de calor em 2014


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O calor infernal nas regiões Sul e Sudeste no começo do ano parece um evento singular. Mas uma breve retrospectiva da história do planeta nos últimos anos mostra que esses episódios estão se tornando cada vez mais comuns. Pode apostar sem medo de errar: haverá outras ondas de calor tão fortes ou mais que essa ao longo das próximas décadas. Esses são os chamados eventos extremos. Nisso se enquadram a ampliação do número de furacões por temporada, as secas na Amazônia, as ondas de calor e os alagamentos, entre outros.
E aí, é claro, entram em cena aqueles que lembram que, enquanto nós estávamos sofrendo com um calor de deserto, americanos e canadenses encararam um dos invernos mais rigorosos de sua história. Chegou a fazer mais frio no Canadá do que em Marte. Onde estava o aquecimento global nessa hora?
O aumento da frequência dos eventos extremos é o principal sintoma das mudanças climáticas – que vão muito além do calor. É o que cientistas falam há anos.Pode parecer paradoxal, mas os modelos climáticos explicam como o aumento médio de temperatura da Terra leva a invernos mais rigorosos.
Sobre o Polo Norte, existe o que os cientistas chamam de vórtice polar. É um ciclone permanente que fica ali, girando. Em sua força normal, ele segura as frentes frias nessas altas latitudes. Mas, com a temperatura da Terra cada vez mais alta, existe uma tendência de que o vórtice polar se enfraqueça. Assim, as frentes frias, antes fortemente presas naquela região, se dissipam para latitudes mais baixas. E o friozão polar chega aos Estados Unidos. Mudança climática não é sinônimo puro e simples de aumento de temperatura média da Terra. Outros processos, que envolvem a possível savanização da Amazônia, o aumento dos desertos e o deslocamento das regiões mais propícias para a agricultura, também estão inclusos no pacote.
É possível atrelar cada um desses episódios, individualmente e sem sombra de dúvida, à mudança climática? Não. Fenômenos atmosféricos e de correntes marinhas têm componentes aleatórios e imprevisíveis. Por isso é possível ter flutuações de temperatura ano a ano que podem disfarçar a tendência de aquecimento.
Entender como isso, de forma geral, leva ao aumento da frequência desses eventos extremos não é complicado. Quando se tem mais energia armazenada na atmosfera, há múltiplas (e violentas) maneiras de dissipá-la. Antes dessa onda de calor desértico no verão brasileiro, podemos lembrar o furacão Catarina, que afetou a costa do sul do Brasil em 2004. Foi a primeira vez que um ciclone tropical atingiu com força nossa costa. É uma energia que não estava na atmosfera antes, mas agora está lá. Ou as chuvas e deslizamentos de terra no verão de 2011, na região serrana do Rio de Janeiro, que mataram cerca de mil pessoas – a maior tragédia natural da história do Brasil.
Aí temos a base do negócio. Entender detalhadamente – e prever quais são as tendências e modificações climáticas em cada lugar – é bem mais complicado. Uma iniciativa dedicada a investigar essa questão é o Projeto Primo, coordenado por José Marengo, climatologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “O projeto quer aprofundar os conhecimentos relacionados às mudanças climáticas e aos desastres naturais no Brasil”, diz. A ideia é compreender as variabilidades e as tendências climáticas diante de um mundo em transformação, apontando os efeitos que isso poderá ter. Um exemplo de fenômeno que exige maior investigação é justamente a onda de calor que nos assolou. Ela veio junto com um aumento de temperatura de até 3 ºC nas águas que banham a costa do Sudeste e do Sul, causado pela ausência de nuvens. O fenômeno aconteceu por conta de mudanças no padrão das correntes de ar sobre o Atlântico, que criou um bloqueio contra as frentes frias no continente. Por isso só chovia mais ao Sul, e na maior parte das vezes, no oceano. O resultado foi uma onda de calor atípica, pela intensidade e pela duração. Se os modelos climáticos estiverem certos, a tendência é que fenômenos como esse voltem a se repetir mais e mais vezes. Mesmo assim, não há como traçar a cadeia exata de eventos que liga o aquecimento global a esse episódio em particular.
Nos últimos tempos, os chamados “céticos do clima” têm apontado uma tendência à estabilização da temperatura média. Se analisarmos os últimos 15 anos, veremos flutuações ano a ano, mas sem uma curva clara de aumento. Aí mora o erro. Os pesquisadores do Painel Intergovernamental para Mudança Climática (IPCC), órgão da ONU que consolida as descobertas sobre a transformação do clima, apontam que 15 anos é um período irrelevante. A análise de dados desde o século 19 revela um aumento de temperatura cada vez mais acentuado a partir da década de 1960.
Além disso, é preciso lembrar que há um consenso crescente entre os astrônomos de que o Sol está entrando numa fase de baixíssima atividade. Cogita-se que ele esteja no mesmo patamar da época da chamada “pequena era do gelo”. Ocorrida entre 1645 e 1715, ela ficou marcada por invernos rigorosos na Europa e coincidiu com a baixa frequência de manchas solares. Ou seja, o calorão está de rachar mesmo com o Sol dando uma trégua.
Ainda não está claro como essas mudanças no ciclo de atividade solar influenciam o clima na Terra, mas é possível que o fenômeno possa ter ajudado a dar uma aplainada na tendência de aumento de temperatura.
Se o Sol estiver mesmo esfriando, trata-se de uma possível boa notícia. Com essa mãozinha de nossa estrela-mãe, talvez ganhemos algumas décadas para reduzir as emissões de gases-estufa antes que a temperatura volte a seguir a trajetória de aumento. Mas gases como CO2 permanecem pelo menos cem anos na atmosfera assim que os soltamos nela.

10.577 – Orkut – 10 Anos depois, os últimos suspiros


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A rede encerra oficialmente no dia 30 de setembro de 2014
Aos olhos de quem esteve no Orkut e acompanhou sua efervescência, ele hoje lembra uma cidade semiabandonada. A rede social que já foi a mais popular do Brasil – em 2008, chegou a 40 milhões de usuários ativos – é um amontoado de entulho: carcaças de comunidades engraçadinhas, perfis abandonados, vírus camuflados de álbuns de fotos, convites para o jogo Colheita Feliz esquecidos no tempo… Retrato de uma internet do passado.
Era a época de escrever scraps e depoimentos, de fuçar quem tinha visto seu perfil recentemente, de participar de comunidades estapafúrdias, de comemorar quando a capacidade do álbum de fotos subia para 25 imagens e de ficar amigo de perfis falsos e debochados de celebridades. Tudo isso ficou para trás. E o maior culpado não foi a concorrência, mas um problema que surgiu dentro do site: spam.
A partir de 2009, uma avalanche de publicidade invasiva devastou o Orkut. Com a popularidade da rede, muita gente passou a usá-la para outros fins. Era fácil criar perfis para as mais diversas finalidades, como divulgação de festas e outras propagandas impertinentes. E você não podia fazer nada. O Orkut não disponibilizava ferramentas para limitar sua exposição. A cada dia, mais mensagens inúteis pulavam no mural, escondendo recados dos amigos em uma lixeira colorida e pegajosa. Os convites para ganhar dinheiro fácil, entre outras tranqueiras, transformaram o Orkut nessa Chernobyl virtual.
Ele perdeu a guerra para os perfis falsos”, diz Mauricio Cid, fundador do site Não Salvo. Cid é um fruto do Orkut. Conhecido na época como C! The Space Cowboy, ele era dono de 1.024 comunidades de humor. Essas páginas cresceram e viraram celeiros de piadas na internet. Tudo ia bem até que uma reportagem do Fantástico sobre pedofilia na internet exibiu, de relance, uma das comunidades de Cid. “Era para zoar o Michael Jackson, não tinha nada a ver com o assunto”, lembra. Mesmo assim, o episódio foi o suficiente para Cid receber um e-mail do Orkut alertando que não saísse do País, pois estava sendo investigado pela Polícia Federal. Ele não foi preso, mas acabou banido do Orkut. Para continuar a zoeira, que não tinha limites, criou o Não Salvo, hoje o maior portal de humor do Brasil. O site é um dos maiores e mais bem-sucedidos exemplos de gente que debandou do Orkut, contra a vontade ou não. Cid foi um empreendedor e criou um negócio de sucesso. A maioria das pessoas, porém, apenas trocou de ferramenta para seguir a vida nas redes sociais.
Na virada da década, a vasta terra próspera do Facebook, tão limpa e civilizada, fincada e estabelecida na maioria dos países do globo, surgia convidativa no horizonte. Até então, ele servia mais para manter contato com estrangeiros. O Orkut era a rede dos brasileiros. Só que a situação mudou. Com um sistema de confirmação de identidade para evitar a proliferação de perfis falsos e spams, o Facebook (que logo seria abrasileirado para “feice”) era o futuro. Era um ambiente com mais recursos que permitiriam à rede de contatos ser, de certo modo, restrita.
Está um silêncio aqui
Dentre as funcionalidades que separam Orkut e Facebook, a timeline é a mais significativa. Graças a ela, no Facebook toda hora alguém está falando, reclamando, esperneando, corneteando, autoproclamando, vendendo, comprando, desejando, grunhindo, xingando ou recalcando. No Orkut, não. A ausência de uma linha do tempo ajuda a manter um espírito quase pacífico. Sem muita exposição, não há tanto julgamento.
A maior comunidade do Orkut ainda é a mesma dos tempos áureos: “Eu Odeio Acordar Cedo” (6.129.539 membros). Nem todos eles são ativos, por isso o número é maior até mesmo que o de usuários do Orkut no Brasil (exatos 6.009.000. No mundo todo, são 6.945.000*). Mas nem de longe a página está morta. Só no dia 24 de janeiro, aniversário de 10 anos da rede social, os membros da comunidade fizeram 391 posts em 20 tópicos. A moderadora da comunidade é Wilma Smith, 29 anos, oito de Orkut e zero de Facebook. Ela é hardcore, não quer saber da rede de Mark Zuckerberg. “Ali há excesso de exibicionismo alheio”.
O Facebook tirou o lugar do Orkut como o grande centro sociocultural da internet brasileira. Mesmo assim, hoje eles podem coexistir, pois assumiram vocações diferentes. Enquanto procurava links para encontrar Bonitinha, mas Ordinária e seguia na malfadada brincadeira de tentar beijar a pessoa de cima no mural, acompanhei outras informações no Facebook: denúncia de machismo em universidade portuguesa, reclamação da política de transporte público em Porto Alegre, notícia sobre aluguel de crianças por parte do Exército da Salvação, frase que eu duvido que seja de Luis Fernando Veríssimo… É, deve ser um alívio ter uma folga de tudo isso. Sorte do dia: no Orkut, mesmo que você tenha centenas de amigos, é possível ter um pouco de silêncio.

10.576 – Trânsito – São Paulo terá radares em 43 vias com ciclovias


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A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) anunciou que 43 vias de São Paulo terão radares para fiscalização de invasão de veículos em ciclovias e ciclofaixas. Neste domingo, um carro desgovernado invadiu a faixa segregada da Avenida Brás Leme, em Santana, na Zona Norte da capital, por volta das 9h30 da manhã, e atropelou um ciclista que passava pelo local. De acordo com a Polícia Militar, a vítima foi socorrida ao Hospital Santa Helena ainda consciente. Pelo estado do carro, o ciclista parece ter sido jogado contra o vidro frontal do veículo, que ficou estacionado na via exclusiva para bicicletas. O atropelamento ocorreu na altura do número 2.040 da via. A PM não forneceu dados do motorista nem da identidade da vítima. O caso será investigado pelo 13.º DP (Casa Verde). A fim de evitar acidentes semelhantes, radares fiscalizarão a invasão de veículos em ciclovias e ciclofaixas. Trafegar em ciclovias é infração gravíssima e resulta em sete pontos na carteira de motorista e multa de 574,62 reais. De acordo com a CET, além de fiscalizar a invasão nas faixas, os radares também serão usados para controlar a velocidade máxima permitida nos eixos onde existem espaços segregados para ciclistas. A fiscalização eletrônica será feita inicialmente nas 43 vias mapeadas, mas o número de radares “aumentará paulatinamente mediante estudos”. Em algumas vias que fazem parte do mapeamento inicial, a ciclovia está no canteiro central – o que torna rara a invasão por veículos. Porém, segundo a CET, a fiscalização eletrônica nesses locais servirá para controlar a velocidade máxima permitida, garantindo a segurança. A adoção de radares faz parte da Campanha Bicicleta Segura – Programa de Mobilidade por Bicicleta, da Secretaria Municipal de Transportes (SMT). O objetivo da campanha, segundo a CET, é “integrar a sociedade no conceito de mobilidade urbana sustentável proposto pela prefeitura”. A campanha terá foco no respeito às áreas destinadas aos ciclistas. Para isso, além de fiscalização eletrônica, as ações educativas dos orientadores de travessia serão intensificadas. Eles ficarão posicionados em cruzamentos do centro e distribuirão material educativo.