10.347 – Cinema – Uma Cleópatra Polêmica e Estonteante


Da reportagem da época

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Não foi desta vez que a saga colossal e bizarra de Cleópatra, o filme mais caro da história, chegou ao tão aguardado “the end”. As filmagens já se arrastam há três anos – e não se tem notícia de uma produção mais caótica, perdulária e escandalosa em Hollywood. Neste mês, o diretor Joseph L. Mankiewicz viajou até Paris para exibir um esboço de montagem da fita ao novo chefão dos estúdios Twentieth Century-Fox, Darryl Zanuck. O executivo ficou de cabelo em pé. Nessa primeira versão, Cleópatra é um filme confuso, irregular, monótono e excessivamente longo (sem os cortes, são insuportáveis seis horas). Zanuck é craque em consertar, na mesa de edição, as trapalhadas de alguns cineastas, transformando fitas esdrúxulas em filmes no mínimo toleráveis. Mas ele já confessou a pessoas próximas que não sabe o que fazer para dar um jeito em Cleópatra. Para Zanuck, há apenas uma certeza: cedo ou tarde, por pior que seja, o épico estrelado por Elizabeth Taylor e Richard Burton chegará às telas, pois a Fox já não pode voltar atrás num projeto com orçamento estimado em acachapantes 35 milhões de dólares. Os estúdios rivais, contudo, não estão tão certos disso – apostam que a concorrente irá à falência antes de concluir a malfadada aventura.
As últimas cenas de Cleópatra foram rodadas em julho, em locações históricas no Egito. Um mês antes, Liz Taylor enfim concluiu seu papel, nos estúdios Cinecittà, em Roma. Mankiewicz chegou tão exausto às últimas semanas da empreitada que tinha de ser carregado numa maca até o set. Desde então, é atormentado por outro desafio monumental: encontrar, entre centenas de rolos e dezenas de horas de filme, os trechos necessários para montar uma trama minimamente coerente. O problema (ou um deles) é que as filmagens jamais foram guiadas por um roteiro definitivo. O texto teve incontáveis e conflitantes versões. Em certo momento, o próprio diretor passou a escrever as cenas de madrugada para rodá-las na manhã seguinte. Não adiantou: boa parte do material é inútil. A Fox já calcula que será necessário retomar as filmagens mais uma vez para cobrir as enormes lacunas da história. Na reunião em Paris, Mankiewicz ainda tentou convencer Zanuck a dividir o épico em dois filmes de três horas cada. O executivo detestou a ideia. Para ele, o primeiro episódio não levaria ninguém aos cinemas – afinal, Liz e Burton contracenam pouco nessa parte. Ele também confessou outro temor: entre um capítulo e outro, o casal poderia desistir de seu tórrido romance clandestino fora das telas, talvez o único atrativo que ainda salve o filme nas bilheterias. Até o fechamento desta edição, a notícia em Hollywood era de que Liz e Burton ainda estavam juntos, apesar dos numerosos atritos, discussões e bebedeiras (de ambos).
O comentado namoro entre os protagonistas da película pode até atiçar a curiosidade do público e amenizar o desastre financeiro de Cleópatra quando o filme enfim chegar aos cinemas. Mas a verdade é que o caso amoroso entre a inglesa Taylor, de 30 anos, em seu terceiro casamento e mãe de três filhos, e o galês Burton, de 36, também casado e pai de duas filhas, foi uma das razões para o fiasco das filmagens. Desde o dia 22 de janeiro, quando se encontraram pela primeira vez no estúdio italiano – Burton de ressaca, Liz louca para cuidar dele –, a atração entre os dois foi evidente para todos (inclusive para o marido da atriz, o crooner Eddie Fisher, sempre junto dela no set). O flerte tornou-se o grande assunto das colunas de fofocas nas revistas e jornais americanos. Quando a coisa esquentou para valer, a produção praticamente parou. Burton, que já era um sujeito movido a elevados teores etílicos, passou a beber ainda mais para afogar a culpa pelo adultério. Abatido, prometia voltar para a mulher, Sybil, mas sempre acabava desistindo, hipnotizado pelos olhos azul-violeta da inglesinha. Liz, por sua vez, repetia uma mesma rotina: ignorava o marido para ficar com Burton e depois, arrependida, implorava por uma reconciliação. Fontes ligadas à produção dizem que ela chegou a tentar o suicídio depois de uma briga. Recentemente, porém, o casal parece ter superado seus remorsos. Ao notar que o namoro fascinava e até divertia o público, o par problemático assumiu de vez o relacionamento, abandonando os respectivos cônjuges.
O desfecho não aliviou a situação do diretor Mankiewicz. Os pombinhos famosos faziam intermináveis pausas no almoço, aproveitavam longas noitadas e sumiam por vários dias seguidos na tentativa de escapar dos paparazzi de Roma. Mankiewicz mandou um bilhete à Fox em Hollywood: “Liz e Burton não estão apenas interpretando Cleópatra e Marco Antônio”. Os executivos ficaram furiosos. A dupla era, de fato, culpada por uma fatia generosa do rombo orçamentário do filme. Mas a responsabilidade era também do próprio estúdio, que aceitou oferecer contratos nababescos aos protagonistas e perdeu o controle da produção. Elizabeth Taylor pediu, meio de brincadeira, um pagamento inédito: um milhão de dólares. Com o sucesso fabuloso de Gata em Teto de Zinco Quente, ela estava no auge, e já recebia convites demais. Para sua agradável surpresa, a Fox não disse “não” – e se propôs a negociar. Liz acabou lucrando ainda mais. Ficou assim: 750.000 dólares de cachê, 4.500 por semana para cobrir despesas pessoais e 50.000 a cada semana de atraso nas filmagens (que deveriam durar apenas quatro meses). A estrela exigiu ainda 10% da bilheteria, acomodações suntuosas, a contratação do próprio marido como assistente (por 150.000 dólares) e produção no exterior (“para pagar menos imposto”, disse).
A Fox teve de esperar Liz concluir outro filme. Depois, por causa dos Jogos Olímpicos de 1960, precisou desistir de rodar em Roma, sede das competições. A saída escolhida foi mudar a produção para o estúdio Pinewood, na Inglaterra. Naquela época, o diretor de Cleópatra ainda era Rouben Mamolian (o favorito da Fox, Alfred Hitchcock, rejeitou o convite). Mamolian seria demitido meses depois, deixando míseros dez minutos de cenas concluídas. Explica-se: em Londres, Liz dividiu seu tempo entre uma luxuosa suíte do Hotel Dorchester e o hospital – sofreu uma infecção viral, contraiu meningite e, em março último, quase morreu em função de uma pneumonia (uma traqueostomia de emergência a salvou). Um mês depois, contando com a compaixão da Academia por seu drama pessoal, levou o Oscar de melhor atriz por Disque Butterfield 8. Com o prestígio em alta, Liz avisou à Fox que gostaria de ver Cleópatra entregue ao amigo Mankiewicz. O novo diretor imediatamente tirou o projeto da Inglaterra (onde chove demais e não há, evidentemente, paisagens egípcias ou romanas), descartou os gigantescos cenários já construídos, jogou fora os dez minutos rodados por Mamolian e rasgou o roteiro anterior. A Fox já havia torrado 7 milhões de dólares e Cleópatra ainda não tinha uma cena sequer.
Liz, diva impaciente e tempestuosa, tumultua quase todos os filmes de que participa – às vezes por causa do temperamento, outras em função da saúde frágil, resultado de um perigoso cotidiano regado a álcool e remédios. Também é famosa pelos ataques violentos de gulodice, em que come até não mais poder, seguidos por regimes de quase inanição, pelos quais acaba invariavelmente no hospital. O magnetismo da atriz na tela é inegável, mas até que ponto Hollywood é capaz de chegar para alimentar a febre hedonista de Liz e do resto de sua constelação? A indústria cinematográfica americana sempre cobriu seus grandes expoentes de fortuna e adulação, mas os disparates de Cleópatra mostram que, cada vez mais, o culto ao célebre derruba todos os limites. Curiosamente, o símbolo máximo dessa era de excessos em Hollywood foi vítima indireta dos caprichos de Liz. Em junho, Marilyn Monroe foi demitida de seu último filme, Alguém Tem de Ceder, justamente por causa do buraco provocado por Cleópatra nas contas da Fox. Marilyn, que também atrasou seu filme em função de problemas de saúde e sumiços jamais explicados, acabou sendo recontratada por exigência de Dean Martin, seu par na comédia romântica. Deveria retomar as filmagens neste mês. Foi encontrada morta no início de agosto – conforme a autópsia, foi um “provável suicídio” provocado por ingestão excessiva de barbitúricos. O filme, que ficou incompleto, jamais será visto (numa das cenas, Marilyn tornou-se a primeira grande estrela de Hollywood a tomar um banho de piscina completamente nua diante das câmeras). Seu cachê seria de 100.000 dólares. Numa entrevista publicada pela revista Life cinco dias antes de sua morte, Marilyn, ícone máximo do cinema na década passada, dizia, ao comentar a súbita demissão, que a “fama é tênue”: “Ela sempre acaba indo embora, então adeus a ela”.
As coisas melhoraram pouco no Cinecittà, onde o affair entre Taylor e Burton não era o único escândalo do set. A desorganização dos americanos era tão grande que os funcionários italianos passavam meses recebendo salários sem ter o que fazer no estúdio. Os figurantes mais malandros apareciam no set, batiam cartão, saíam para fazer bicos na cidade e voltavam à noite, na hora de receber o pagamento do dia. Quando em Roma, faça como os romanos: os americanos também aplicavam seus golpes, cobrando faturas duplicadas, superfaturando pedidos e desviando rios de dinheiro dos cofres da Fox. A obra transformou-se num pesadelo para o estúdio. Em 1958, ao idealizar o projeto, a companhia pretendia usar Cleópatra justamente para recuperar suas finanças cambaleantes. O plano inicial era aproveitar um roteiro antigo, rodar tudo no próprio estúdio de Hollywood, concluir o trabalho em menos de um mês e gastar no máximo um milhão de dólares. A Fox queria usar uma atriz da casa, como Susan Hayward ou Joanne Woodward, ou uma opção relativamente barata, como Kim Novak ou as italianas Sophia Loren e Gina Lollobrigida. O produtor Walter Wanger, entretanto, bateu o pé para tirar Liz Taylor da Metro-Goldwyn-Mayer, apesar da reputação negativa da estrela nos bastidores de Hollywood.

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10.346 – ☻Mega Memória – O que aconteceu em 4 de Julho


Nascido em 4 de Julho

Nascido a 4 de julho filme
Ron Kovic (Tom Cruise) é um rapaz idealista e cheio de sonhos, que deixa a namorada (Kyra Sedgwick) e a família para ir lutar no Vietnã. Já na guerra, ele é ferido e fica paraplégico. Ao voltar aos Estados Unidos é recebido como herói, mas logo se vê confrontando com a realidade do preconceito aos deficientes físicos, mesmo aqueles considerados heróis de guerra. Ron decide então se juntar a outros para lutar pelos seus direitos, agora negados pelo país que os enviara para a guerra.

1776
• EUA: Congresso da Filadélfia aprova a Declaração de Independência das 13 colônias da União.
1830
• Argélia: Conquista do país africano pela França.
1933
• Índia: Prisão do líder pacifista Mahatma Gandhi, acusado de incitar a desobediência civil.
1942
• Estado Novo: Manifestação da União Nacional dos Estudantes contra os integralistas, no Rio.
1994
• Ruanda: Tomada da capital Kigali pela Frente Patriótica tutsi.
1997
• Espaço: Sonda não tripulada Pathfinder, dos EUA, pousa em Marte e envia imagens do planeta.

10.345 – Artes – Qual é o quadro mais caro da história?


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É Os Jogadores de Carta, do francês Paul Cézanne, que foi vendido por mais de US$ 250 milhões em 2011. A obra, feita entre 1890 e 1895, pertencia ao magnata grego George Embiricos e foi adquirida por essa “pechincha” pela família real do Catar, país que pretende virar uma referência mundial em arte. Especialistas do setor estimam que, nos últimos anos, a família real tenha gastado US$ 1,6 bilhão na aquisição de obras de arte. Especula-se, aliás, que ela tenha sido a compradora de O Grito, de Edvard Munch, outra peça que está no top cinco das mais caras da história (US$ 120 milhões) e teve o nome de seu novo dono mantido em sigilo. Os Jogadores de Carta faz parte de uma série que tem mais quatro peças espalhadas em diferentes museus: o Metropolitano de Arte de Nova York, o D’Orsay, de Paris, o Courtauld, de Londres, e a Barnes Foundation, da Filadélfia (EUA).

TAMBÉM CUSTARAM UMA FORTUNA:
N.5
Jackson Pollock
US$ 151,4 milhões

MULHER III
Willem de Kooning
US$ 148,7 milhões

RETRATO DE ADELE BLOCH-BAUER I
Gustav Klimt
US$ 146 milhões