10.012 – Mitos Sobre O Fim do Mundo


Dilúvio universal
Curiosamente, o principal mito planetário que envolve a ideia de cataclismos não está relacionado a um porvir, e sim a um passado remoto. Informações sobre um grande dilúvio universal estão presentes nos relatos sobre o Noé bíblico, na tradição mesopotâmica, conforme narrado pelo épico Gilgamesh, em quase toda a costa ocidental africana e na maioria dos povos pré-colombianos das Américas. Entre os incas, havia a tradicional história do lavrador que, ao perguntar para sua lhama por que ela estava tão triste, foi aconselhado por ela a buscar com sua família os picos das montanhas mais elevadas, pois um grande dilúvio aproximava-se. Em todas essas histórias sempre surge um líder puro e sábio que tem o papel de recomeçar a obra divina após as inundações.
A Bíblia judaico-cristã fala sobre o fim dos tempos em seus dois blocos principais, o Velho e o Novo Testamento. No primeiro, temos a figura do profeta Daniel, que marca até hoje o imaginário ocidental com seus sonhos e visões sobre o final dos tempos. Ao lado dele, o Apocalipse de João, incluído no Novo Testamento, é um dos livros mais estudados por aqueles que se preocupam com o tema. Nos dois casos, temos uma descrição da destruição do mundo que será causada pelo comportamento inadequado da humanidade.

A batalha final
Mas os cataclismos podem surgir não só por conta do comportamento dos homens. A mitologia nórdica narra a história do Ragnarok, a última batalha entre os deuses e seus inimigos. Segundo essa versão, o futuro reserva para a humanidade uma terrível era em que armas serão empunhadas e destruídas, pais lutarão contra filhos, irmãos praticarão incestos e mães abandonarão maridos para seduzir os próprios filhos. Na superfície do planeta, o mar sairá de seu leito, a terra tremerá e homens morrerão em grande número. A boa notícia é que, depois de toda essa confusão, haverá um novo começo e uma nova oportunidade para deuses e homens. Para nossa sorte, as certezas de cataclismos sinalizadas por diferentes mitologias trazem também a promessa de um mundo novo sem impurezas. O único problema é que esse novo mundo é somente para os mais afortunados. A esperança que faz parte do imaginário de muita gente ao redor do globo, há milênios, é a de figurar entre os eleitos que escaparão dos destinos trágicos reservados à humanidade. Uma esperança que se confunde com o desejo de escapar da própria morte.

Gregos e hindus chegaram à mesma conclusão: o fim está próximo
Separados por milhares de quilômetros de distância, gregos e hindus produziram, na aurora de suas civilizações, o mito das eras da humanidade. No século 8º a.C., poetas gregos falavam de uma idade de ouro, uma época em que os homens viviam em harmonia. De forma similar, a Índia produziu a noção do Krita Yuga, uma idade áurea em que a sabedoria e a virtude eram dons naturais do homem. O segundo período, a idade da prata para os gregos ou Treta Yuga para os hindus, foi marcada pelo surgimento da violência, mas ainda assim homens gozavam de pureza. Já a idade de bronze, ou Dwapara Yuga, assinalou um distanciamento entre as duas visões. Para os hindus, virtude e mal se achavam em equilíbrio. Para os gregos, as rixas entre os homens levaram a exageros e muitos foram condenados a definhar no Hades, o reino dos mortos. A idade de ferro, ou Kali Yuga, seria o momento atual. Na visão oriental, é uma era marcada pela fome e pela guerra. Para os gregos, uma época sem justiça ou virtude. Em ambas as visões, nosso destino será a autodestruição. Quem viver verá. Ou talvez não.