9152 – Cinema – Gravidade


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Solta no espaço, a astronauta Ryan Stone (interpretada por Sandra Bullock) rodopia sem parar. Sozinha, sem ter onde se segurar, ela pode ficar assim para sempre — girando em órbita da Terra, como um satélite. A cena do filme Gravidade é um retrato perfeito do movimento dos corpos no espaço. A precisão científica tem sido levantada como um dos pontos altos da produção, que é a mais vista nos Estados Unidos há duas semanas e já conseguiu acumular mais de 200 milhões de dólares de bilheteria ao redor do mundo. Ainda assim, cientistas e astrônomos encontraram alguns erros e imprecisões em sua tentativa de retratar o espaço sideral.
O filme se passa em um futuro próximo, e conta a história de dois astronautas, Ryan Stone e Matt Kowalski (George Clooney), à deriva depois de sua nave ser atingida por destroços. Os movimentos de seus corpos no espaço, e sua interação com os muitos destroços à sua volta, encantou os cientistas, que viram ali um retrato fiel e bonito da mecânica dos satélites na órbita terrestre. “Ficar em órbita é estar em queda-livre perpétua. Os objetos ainda estão presos à gravidade da Terra, que os puxa para baixo, mas eles também possuem uma velocidade lateral. Assim, eles estão sempre caindo, acompanhando a curvatura do planeta — embora pareçam estar flutuando”, diz Alexandre Cherman, astrônomo da Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro.
A beleza dessas cenas e a perfeição com que retratam o movimento dos astronautas acabou levando a uma análise mais detalhada dos aspectos científicos do filme. E ele não passou incólume. “Não se pode pensar que se trata de um documentário. Há furos”, diz Cherman. “Mas é importante destacar que o filme acerta muito mais do que erra. E alguns dos erros são claramente propositais. Sem eles, não haveria filme”.

Como disse Neil deGrasse Tyson, diretor do Planetário Hayden, em Nova York, e um dos primeiros astrônomos a procurar — e encontrar — por falhas no filme: “O que poucas pessoas parecem reconhecer é que os cientistas não se juntam para criticar filmes como Está Chovendo Hamburguer, O Homem de Aço, Transformers ou Vingadores […] Ganhar o direito de ser criticado em um nível científico é uma grande elogio.”

Filme: Logo no começo da história, os astronautas são atingidos por uma enorme nuvem de destroços. Provocada pela explosão de um satélite aposentado russo, que cria uma reação em cadeia na órbita terrestre, a nuvem dá uma volta no planeta a cada noventa minutos, causando grandes danos cada vez que encontra os personagens principais.
Fato: A quantidade de detritos na órbita terrestres é uma preocupação constante das agências espaciais. O lixo é composto do resto de satélites aposentados e pedaços de aeronaves, e se encontra principalmente na órbita terrestre baixa, onde se passa o filme.
Normalmente, os detritos não estão agrupados, mas espalhados pelo espaço. “A NASA e a Agência Espacial Europeia possuem programas de computadores que rastreiam cerca de 18.000 detritos de tamanhos maiores que 10 centímetros a cada instante, e planejam suas missões com muita segurança. A própria ISS costuma fazer manobras evasivas diversas vezes ao ano para evitar a colisão”, afirma Antônio Delson Conceição de Jesus, pesquisador da Universidade Estadual de Feira de Santana, especialista na dinâmica orbital dos detritos espaciais.
Uma chuva de detritos como a mostrada no filme, no entanto, não costuma exigir tantos cuidados, pois é um cenário extremamente improvável — mas não impossível. “Uma chuva realmente poderia acontecer a partir de uma explosão ou de uma colisão entre detritos. Neste caso, se uma atividade espacial estiver acontecendo nessa região, os resultados da chuva podem ser piores ainda do que os mostrados no filme”, diz Delson.
Gravidade também acerta ao mostrar o potencial destrutivo desse tipo de acidente. Em órbita, mesmo um pequeno parafuso como o que a astronauta Ryan Stone quase deixa escapar no começo da história pode ser extremamente perigoso. “Na órbita terrestre baixa, a velocidade de um detrito chega a mais de 12 quilômetros por segundo. Com esta velocidade um objeto pequeno pode destruir a estação ISS, se penetrar num compartimento essencial”, diz o pesquisador.
Alfonso Cuarón acerta até no tempo em que a nuvem de detritos demora a dar a volta no planeta: 90 minutos.