9138 – História – Allende, a queda de um socialista


Médico, socialista e maçom. Esse foi o perfil de um dos maiores emblemas chilenos, o ex-presidente Salvador Allende Gossens, deposto por um golpe militar em 1973. Nascido em 26 de junho de 1908, em Valparaíso, Allende veio de uma família de classe média alta. Seus pais foram o advogado Salvador Allende Castro, militante do Partido Radical, e Laura Gossens Uribe. Aos dez anos, foi levado pelo pai para o Instituto Nacional, em Santiago. Em 1920, de volta a Valparaíso, iniciou seus estudo no Liceo Eduardo de La Parra, onde conheceu Juan Demarchi, um velho anarquista italiano que teve grande influência em sua formação política. Após prestar o serviço militar em 1925, ingressou na escola de Medicina da Universidade do Chile. Lá tornou-se presidente do Centro Acadêmico e formou um grupo de discussões sobre marxismo.
Em 1929 foi incorporado à Maçonaria, no mesmo ano em que fundou, com companheiros da universidade, o grupo político Avance. No ano seguinte, então no cargo de vice-presidente da Federação dos Estudantes, acabou preso por se opor à ditadura de Carlos Ibañez del Campo. Aos 25 anos, participou da fundação do Partido Socialista e foi eleito primeiro-secretário-geral. Aliando a medicina social com a política, publicou diversos trabalhos sobre saúde pública. O primeiro mandato de deputado viria em 1937. Dois anos depois, durante o governo de Pedro Aguirre Cerda, da Frente Popular, foi nomeado Ministro da Saúde e Assistência Social. Em 1940, casou-se com Hortensia Bussi, uma professora de História e Geografia. Os dois se conheceram no dia 25 de janeiro de 1939, por ocasião do terremoto de Chillán.
Allende foi eleito senador em 1945. Manteve o cargo por 25 anos, apesar de ter disputado a presidência em 1952, 1958 e 1964. Em 1970, em sua quarta candidatura, finalmente obteve maioria nas urnas e conquistou a Presidência. Pela primeira vez na história do país, um socialista chegava ao poder democraticamente. A vitória fora obtida com o apoio de uma coalizão de partidos de esquerda, a União Popular. Quando assumiu o cargo, no dia 3 de novembro, Allende disse uma de suas frase mais célebres: “Não posso e nunca poderei esquecer que tudo o que fui e tudo o que sou eu devo ao meu partido”.

Allende chegou a ser visto, sobretudo entre os europeus, como o sinal de que era possível conciliar socialismo com democracia. O cenário doméstico era bem mais obscuro. Como recebeu apenas um terço dos votos em 1970 – sua vantagem foi de apenas 40.000 votos – Allende prometeu controlar a esquerda radical para receber o aval do Congresso, ao qual cabia decidir na falta de um vencedor majoritário. Não cumpriu a promessa. Iniciou um processo exacerbado de nacionalizações e permitiu que grupos de extrema esquerda invadissem fábricas e fazendas. O Chile viu-se engolfado pelo caos econômico e pela tensão política.
A forte oposição ao socialismo no contexto da Guerra Fria acabou por derrotar Allende. Boicotes econômicos dos Estados Unidos e financiamentos de greves gerais pela CIA foram decisivos na queda do governo da União Popular. Por fim, no dia 11 de setembro de 1973, um golpe de estado encabeçado pelo general Augusto Pinochet destituiu Allende. As imagens do bombardeio do Palácio de La Moneda, transmitidas pela televisão, ainda cintilam na memória dos que acompanharam a crise. Allende tinha escolhido Pinochet para o comando do Exército dezoito dias antes do golpe exatamente porque se tratava de um general obscuro, intelectualmente limitado e sabidamente apolítico. “Quem é Pinochet?”, perguntou o ex-presidente Eduardo Frei no dia da queda de Allende.
Às 9h10 da manhã, o presidente dirigiu suas últimas palavras à nação através da Rádio Magalhães, a única emissora de esquerda que ainda não havia sido ocupada pelos militares. Por volta das 14 horas, antes da invasão dos soldados à sede do governo, Allende, que resistia junto aos seus partidários, suicidou-se com um tiro de metralhadora. Em seu último discurso, disse: “Tenho fé no Chile e em seu destino. Outros homens superarão esse momento cinzento e amargo em que a traição pretende se impor. Fiquem sabendo que muito antes do que imaginam, novamente se abrirão as grandes alamedas por onde passa o homem livre para construir uma sociedade melhor”.

9137- Herança Indesejável – Colesterol alto pode passar de mãe para filho


Mesmo antes de pensar em engravidar, uma mulher pode influenciar no fato de seu futuro filho ter ou não problemas de colesterol na idade adulta. Essa foi a conclusão de um trabalho apresentado no Congresso Cardiovascular do Canadá. Se uma mulher tiver altas taxas de colesterol ruim (LDL) — mesmo antes da gestação — as chances de seu filho também ter altos níveis de LDL no sangue quando adulto são cinco vezes maiores do que se ela apresentar índices normais.
Os cientistas responsáveis pela pesquisa analisaram dados de três gerações de participantes do Estudo do Coração de Framingham, que começou com 5.200 homens e mulheres adultos em 1948. Ao observar as informações dos filhos e netos da primeira geração de voluntários, os pesquisadores encontraram a ligação entre o risco de ter colesterol alto dos adultos e o histórico desse mesmo problema em suas mães.
Ainda segundo os cientistas, o estilo de vida das pessoas e os conhecimentos de genética atuais não são suficientes para explicar todos os motivos que podem aumentar o nível de LDL no sangue. Agora, o próximo passo é descobrir quais são os mecanismos que tornam possível a transmissão do problema de mãe para filho.
A alta taxa de colesterol ruim pode causar uma série de problemas, como aterosclerose, infarto e derrame cerebral. A descoberta do trabalho reforça a importância de monitorar a quantidade de colesterol no organismo por meio de consultas médicas e exames, além de adotar hábitos saudáveis que ajudam a regular os níveis da substância, como a prática de exercícios físicos e uma alimentação balanceada.

9136 – América Latina – Chile: Movido a cobre e salmão


Chile
Segundo o relatório de 2006 do Banco Mundial, o Chile está na 38ª posição no ranking de nações: ostenta um Produto Interno Bruto (PIB), soma de todas as riquezas geradas pelo país, de 145,851 bilhões de dólares. Isso significa uma distribuição per capita de 8.876 dólares. A economia depende basicamente das exportações de metais, minerais, produtos industrializados e, em menor parte, de produtos agrícolas. De todo o comércio exterior, a venda de cobre é a mais significativa: em 2006, o produto rendeu ao país 32,332 bilhões de dólares, 55,63% de todo o ganho das exportações. Entre os outros itens, destacam-se o ferro, o iodo, o sal, a uva, o vinho e o salmão. O alto volume de exportações levou o país a assinar acordos comerciais com diversos países, com o Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos – seu principal parceiro.
O Chile avançou muito graças à disciplina fiscal e à estabilidade econômica e política. Graças à estabilidade, converteu-se em um país de baixo risco, o que atrai investimentos importantes. A aposta no modelo exportador também deu bons resultados. Some-se isso o fato de o governo concentrar investimentos diretos em saúde e educação e fazer parcerias com o setor privado para outras áreas, como a de obras de infra-estrutura. Por fim, instituições estáveis, como Judiciário independente, criam ambiente seguro para atrair investimentos externos.
A revolução capitalista foi quase acidental, iniciada sob a longa noite da ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990). Como a maioria dos ditadores latino-americanos, Pinochet era instintivamente um nacionalista econômico. Depois de dar algumas cabeçadas, teve a boa idéia de permitir que economistas liberais (os Chicago Boys) usassem o Chile como laboratório para substituir uma economia de inspiração européia por outra, do tipo americano. O primeiro resultado foram duas recessões brutais e o colapso financeiro no início dos anos 80.

Políticas mais pragmáticas colocaram ordem na casa mais tarde, mas a economia só decolou depois do restabelecimento da democracia, em 1990. O resultado final foi a criação de um capitalismo empreendedor, diferente do paternalismo estatal tradicional na região. No governo desde o fim da ditadura, a Concertación – a coalizão entre socialistas e democratas-cristãos que, pelas urnas, substituiu Pinochet – mantém intactos esses princípios econômicos.
A comparação dos indicadores recentes com aquelas do início de década de 1970, quando o país embarcou no socialismo de Salvador Allende, ilumina os avanços. A inflação anual caiu de 500% para 3%; a participação das estatais no PIB, de 40% para 9%; o déficit orçamentário, de – 23% para 4% (superavitário); as tarifas de importação, de 105%, em média, para 3,7%; o crescimento do PIB, negativo em 5,6%, subiu para 6,3% em 2006; a proporção de pobres na população desceu de 30% para 19% e o analfabetismo, de 11% para 4%.