7961 – Nutrição – Peixe na dieta pré-histórica


Ele pode ter entrado para o cardápio do homem há 2 milhões de anos, segundo a canadense Kathlyn Stewart, do Museu da Natureza, em Otawa. A nova data muda a visão dos antropólogos, para os quais a pesca teria surgido há apenas 50 000 anos. Mesmo sem nenhuma espinha de peixe fóssil para conferir, Kathlyn está convencida de que o Homo erectus (ancestral humano que viveu na África, há cerca de 1,8 milhão de anos) não poderia dispensar o prato. Principalmente nas estações secas, quando há escassez de frutos e caça. Ela avalia que o erectus nem precisou de elaboradas ferramentas: até hoje, algumas tribos africanas pescam com lanças ou só com as mãos.

7960 – Robô Mecânico no Espaço


A Universidade de Maryland, Estados Unidos, construía o primeiro robô consertador de satélites. É o Ranger, que foi ser lançado em 1996, para um teste no espaço. A ideia da agência espacial americana NASA era oferecer assistência técnica automatizada aos aparelhos em órbita do planeta. O robô foi manipulado por controle remoto, flutuando livremente para fazer reparos em vários pontos dos satélites avariados. Para ver como o Ranger se comportaria no espaço, os técnicos manobram um protótipo num aquário. Ali, a flutuação na água simulava a falta de gravidade.

7959 – Fórmula 1 – Vestido para passear no inferno


Há 2 décadas, o mundo inteiro assistiu pela televisão, : o carro do holandês Jos Verstappen, de Fórmula 1, parado no box, é engolido por uma bola de fogo, envolvendo o piloto e cinco mecânicos nas labaredas (foto menor). Por cerca de 12 segundos, o box da Benetton no circuito de Hockenheim, na Alemanha, transforma-se num inferno. Quando as chamas são apagadas, uma surpresa: ninguém está sequer chamuscado.

O segredo da imunidade às chamas aparece na foto maior: o uniforme que a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) obriga as equipes a usar funciona mesmo. Tanto os macacões quanto as roupas de baixo são feitos com uma fibra poliaramida de alta tecnologia, chamada Nomex. Criado no início da década de 70 pela indústria química americana Du Pont, o material tem uma estrutura especial de moléculas de carbono, que faz com que ela se queime apenas se atingir e mantiver a temperatura de 1 000 graus centígrados por mais de 8 segundos. Além disso, a fibra não libera vapores tóxicos.

7958 – Aviação Comercial – Por que são usados letras para identificar os aviões e o que significam?


As letras e números são prefixos do avião. Elas estão para a aeronave como as placas estão para o carro. O prefixo é composto de duas partes, separadas por um traço. A primeira indica o país de origem. O Brasil usa as letras PP e Pt. Nos Estados Unidos, a letra do país é N, na Inglaterra G, e na Argentina LQ e LV.
Alguns países utilizam números, como Israel, que adota o 4X. as identificações nacionais são escolhidas pelo próprio país, que precisa depois registra-la junto à Organização Internacional de Aviação Civil. Os outros signos ( que vem após o traço) são próprias de cada aparelho. Que distribui as sequências nos aviões no Brasil é o Ministério da Aeronáutica. “ a combinação de letras e números serve para identificar a aeronave em qualquer parte do mundo”, diz um engenheiro aeronáutico do Centro Técnico Aeroespacial, em São José dos Campos, São Paulo. Algumas combinações são internacionalmente proibidas,como o SOS, que é o código para pedir socorro, de modo a evitar confusão quando são faladas pelo rádio.

7957 – Pica-pau fura onde há larvas porque tem bom ouvido


O bico do pica-pau é uma estrutura dura e apropriada para furar a madeira. Já a sua língua é mole como a dos seres humanos. Mas é comum ver o pica-pau colocando a língua no buraco que acabou de abrir. Por isso, pode se ter a impressão de que ela foi usada para fazer o furo. Com a língua, o pássaro apanha as larvas e os insetos que estão embaixo da casca da arvore. Sua língua cilíndrica e comprida, tem um formato apropriado para isso. ” O pica-pau tem um ouvido muito acurado e muitas vezes é capaz de localizar as larvas pelo som, indo furar no ponto certo”, conta o biólogo Werner Bokerman, do Parque Zoológico de São Paulo.

7956 – As Estações dos Ursos


Despertada pelo sol da primavera, após mais de três meses de sono, a fêmea pela primeira vez olha a cria com atenção. O urso, um dos mais bizarros animais da face da Terra, nasce assim de uma mãe sonolenta, cujo corpo lhe serve de felpudo cobertor no início da vida, quando apenas dorme e mama. Os bichos adultos nem sequer sentem necessidade de se alimentar enquanto dura o frio e a família não sai da toca por nada. Isso porque, no inverno, o metabolismo dos ursos faz maravilhas, reciclando as substâncias do organismo, sem perder muita coisa. Mas um urso pode de repente ficar completamente alerta por causa de um ruído e até lutar com quem o despertou.
Daí seu comportamento nos meses frios ser considerado uma falsa hibernação, o que o torna um animal ainda mais peculiar. O urso não entra para o seleto clube dos hibernantes, do qual fazem parte o esquilo e o morcego, por razões que só os fisiologistas compreendem bem. Apesar de poupar energia refugiando-se em um longo sono, sua temperatura, por exemplo, não cai suficientemente para se falar em hibernação – um estado em que o organismo está fisiologicamente à beira da morte. Assim, enquanto um esquilo quase se congela ao hibernar, os termômetros marcam apenas 9 graus abaixo do normal no corpo de um urso adormecido.
Esse singular metabolismo chega a interessar cientistas que imaginam descobrir aí novas terapias para doenças humanas. É verdade que nem todo urso dorme dessa maneira. O urso-polar não imita a hibernação como seus primos de outras latitudes, pois, além de estar acostumado ao clima invariavelmente gelado dos pólos, tampouco tem problemas de abastecimento: seu prato predileto, a foca, está ao alcance das patas o ano inteiro. De fato, há ursos e ursos, cada qual com suas manias. Ocorre que a família dos ursídeos, os últimos carnívoros que surgiram na evolução das espécies, há cerca de 6 milhões de anos, se espalhou da Eurásia para todo o globo, com exceção do continente africano.
Muitos outros animais, por serem fisicamente parecidos, são confundidos com membros da família. É o caso, principalmente, do panda, que não é ursídeo mas ailuropódeo. Certamente, o pai de toda a legítima família é o Ursus spelaeus, o extinto urso das cavernas, um feroz parente dos cães. Ao se adaptar a determinados ambientes escassos em caça, porém, certos ursos perderam os caninos afiados do ancestral. Hoje se considera que os ursos são capazes de devorar um variado cardápio: de castanhas a raízes e frutas, de peixes a pequenos roedores, de mel a insetos.
Embora cada espécie tenha suas preferências, com fome qualquer urso traça o que vier. Ou seja, é um animal carnívoro, como dizem os biólogos. No entanto, é bom que se esclareça os ursos parecem não apreciar a carne humana e só atacam o homem com patadas fatais quando se sentem ameaçados. No outono, eles se tornam verdadeiros glutões e passam vinte horas por dia mastigando o que encontram pela frente. Cada adulto começa a consumir cerca de 20 mil calorias diárias, cinco vezes mais do que o habitual. “A gula, no caso, é uma excelente tática de sobrevivência”, justifica o zoólogo Rogério Ribeiro da Universidade de São Paulo, que estuda ursos entre tantos outros bichos.
No final da estação, o urso já formou uma camada de gordura de aproximadamente 15 centímetros.
Obeso após tanta comilança, o urso procura um lugar para a temporada de inverno, que nem sempre é a tradicional toca. Os zoólogos observam que parece existir um gosto individual, de forma que alguns ursos insistem em determinada escolha ano após ano, mesmo sem ser a ideal.
Desse modo, é comum um urso-pardo, na América do Norte, perambular até encontrar um canto qualquer que lhe agrade e construir ali uma espécie de ninho a céu aberto. O animal às vezes termina coberto por um lençol branco de neve, mas isso não incomoda o extravagante dorminhoco. Quando os ursos despertam com o calor da primavera, a primeira providência é recuperar a boa forma para um namoro de verão, a época do acasalamento. Na família dos ursídeos , seja qual for a espécie, os machos têm fama de amantes fiéis, capazes eventualmente de perseguir, com a ajuda do faro apuradíssimo, a fêmea com que se acasalaram em anos anteriores. Para conferir até onde ia, literalmente, o romantismo da fera, pesquisadores espanhóis vestiram um exemplar de urso-pardo com uma coleira dotada de emissores de radar, para acompanhar seus passos. Salsero (intrometido), como foi apelidado o bicho, começou a seguir a fêmea por quem se sentiu atraído.

Os filhotes, normalmente um ou dois, nascem após sete meses, já em pleno inverno. Mesmo em espécies como o urso-pardo, em que o adulto chega a pesar mais de 200 quilos, as crias são pequenas e frágeis, não ultrapassando 400 gramas na balança – daí o encanto que esses bichinhos provocam. A mãe, uma exímia professora, passa dois anos e meio ensinando os filhotes a buscar comida e a se defender. O treinamento inclui várias técnicas de caça e pesca. O estilo do acasalamento e a persistência da mãe são traços comuns a todos os ursos, como também o gosto por amplos territórios. O urso-pardo, por exemplo, se irrita quando tem companhia em seu pedaço – um espaço de 200 metros quadrados.
As espécies, porém, evoluíram com temperamentos muito diferentes. Talvez em resposta a tais diferenças, os sentimentos do homem em relação a esses animais gorduchos também variam conforme o lugar. Na América do Norte, por exemplo, a relação entre ursos e homens sempre foi das mais amistosas. Os índios americanos venderam o urso como um animal sagrado, o qual, aliás, aparece desenhado em totens e amuletos. Uma lenda indígena conta que certa vez um castor, cansado de roer os cedros dos bosques, começou a devorar a lua, até a noite ficar em completa escuridão. A grande Mãe pediu então a um corvo para capturar outra lua, colocada sobre a sua casa. A partir daí o urso ficou incumbido de cuidar que ninguém roube a lua da noite. Certas tribos americanas também acreditam que os homens são descendentes dos ursos. Os europeus, por sua vez, preferem tradicionalmente o urso na mira de uma espingarda. Os antigos romanos o descrevem como uma fera, que matava ou quebrava os braços dos soldados.

Na verdade, o urso-pardo ou Ursus arctos, com seus 2 metros de altura, agride homens apenas quando provocado. Suas duas centenas de quilos são mantidas habitualmente com uma singela dieta à base de morangos, amoras, groselhas, raízes e, claro, mel. No entanto, em épocas menos fartas, esse animal de pelugem que varia do preto ao marrom-escuro e acobreado não hesita em atacar criações de gado. Até a Idade Média, podia ser visto em todo o território europeu. Hoje, as populações de ursos-pardos se concentram nas áreas selvagens de montanhas, sobretudo na União Soviética – quem não se lembra do ursinho Micha, mascote das Olimpíadas de Moscou em 1980?
Já na América do Norte existem três espécies de ursos, das quais a dos grizzly ou Ursus horribilis tem mais de oitenta subespécies catalogadas. Com seus 3 metros de altura e quase 800 quilos, o acizentado grizzly é sem dúvida o maior carnívoro terrestre. Bem mais forte do que um leão ou um tigre, um grizzly esfomeado ataca pequenos roedores ou resolve pescar salmões. Isso mesmo: essa é uma espécie de exímios pescadores que, sobre pedras nas corredeiras, tiram os peixes da água com ágeis patadas.
O célebre urso-polar branco ou Tharlarctos maritimus habita todo o círculo polar ártico, sobre blocos flutuantes de gelo.
Na Ásia, a família também passou por modificações morfológicas importantes. Ali, os ursos-preguiças, por exemplo, também chamados Ursus ursinus, têm um beiço semelhante ao do tamanduá para abocanhar alimentos que, na Índia, onde vivem, podem encontrar com facilidade: formigas e cupins. Suas garras também são mais afiadas e compridas pelo mesmo bom motivo, pois dessa maneira os preguiças conseguem cavar a terra. O nome preguiça desse urso de pêlo curto e crespo surgiu por causa de seu modo na infância: o filhote se agarra aos ombros da mãe e dali só sai quando, com cerca de 6 meses de idade e 10 quilos, é expulso do colo pela exausta genitora.
O mais curioso dos ursos, cujos hábitos os cientistas conhecem muito pouco e cuja população nem é estimada, é o urso-de-óculos ou Tremarctos ornatus. Trata-se do único membro da família ursídea que vive na América do Sul, nos bosques que contornam a cordilheira andina e nas montanhas com mais de mil metros de altitude na região noroeste da floresta amazônica, onde o Brasil faz fronteira com o Peru. O nome desse bicho essencialmente herbívoro é devido às manchas brancas nos olhos, que causam a impressão de que está de óculos.
Desde 1973, um acordo internacional proíbe a caça aos ursos; só podem ser abatidos em legítima defesa. A medida faz sentido. Afinal, não existem mais de 10 mil ursos-pardos na Europa. O número pode não parecer alarmante, mas é. Pois esses animais, que vivem até 30 anos, começam a se reproduzir tarde. As fêmeas geram no máximo um par de filhotes e só então se acasalam novamente. Se não houver cuidado, o urso pode engrossar a já extensa lista de animais em extinção.

O sono dos ursos
Para sobreviver, um organismo quebra moléculas. O que sobra dessa operação é a uréia, uma substância que, ao se acumular no sangue, leva à morte. Mas, durante o inverno, os ursos produzem tão pouca uréia que os rins nem têm de filtrá-la como de costume. Cientistas americanos querem saber como eles conseguem a proeza. Parece que um dos segredos dos animais é obter energia exclusivamente da gordura acumulada no corpo roliço, graças à mesma substância que os faz dormir no inverno. Queimada a gordura, sobram apenas água e gás carbônico, ou seja, nenhuma uréia.
Para imitar os ursos, setenta pacientes de insuficiência renal seguiram uma dieta à base de gordura e assim dispensaram por dez dias a hemodiálise – filtração artificial do sangue que costuma ser aplicada três vezes por semana. Agora os pesquisadores querem isolar o hormônio do sono dos ursos, capaz de fazer o organismo transformar todo alimento em gordura e daí obter energia, o que reduz a produção de uréia. Com isso poderá surgir um remédio para seres humanos, os quais, dispensando o trabalho dos rins, como os ursos durante o sono, conseguirão aguardar por mais tempo o inevitável transplante.

Falsos Ursos
Afinal, o que faz de um urso um urso? Segundo o zoólogo Ladislaw Deutsch, de São Paulo, o essencial é um pré-molar pontiagudo pronto para dilacerar em vez de mastigar, o que faz dos ursos típicos carnívoros, como cães e felinos. Alguns animais, por exemplo certas focas, não têm nem essa outra característica dos ursos e, no entanto, recebem o seu nome. Mas há casos, como o do panda, em que até a presença de pré-molares engana.

Urso-panda – É tão parecido com um urso de verdade que, durante muito tempo, os próprios zoólogos o consideravam da mesma família. Estudos minuciosos provaram porém que, embora também seja carnívoro, não tem ancestrais com os ursos.
Urso-gato – Bem menor que o panda, pertence na verdade à mesma família ailuropódeo.
Urso-lavador – Também conhecido como mapache, pertence à família dos procionídeos, que talvez tenham sido aparentados com os ursos no início da evolução.
Ursos-marinhos – Por esse nome são chamadas oito espécies de focas que têm uma pelugem nas costas. Essa característica teria criado a confusão com os ursos.

As principais espécies

Nome popular : grizzly
Nome científico: Ursus horribilis
Aparência: o pêlo varia do acinzentado ao marrom;
é feroz quando provocado
Quanto mede:2,5 a 3 metros
cerca de 780 quilos
O que come: mel, insetos, roedores e frutas
Onde vive: em toda a América do Norte, especialmente na fronteira do Canadá e Estados Unidos

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Nome popular: polar
Nome científico: Tharlarctos maritimus
Aparência: o pêlo branco ou muito claro chega a cobrir as plantas das patas
Quanto mede: cerca de 1,5 metro
Quanto pesa: cerca de 400 quilos
O que come: peixes e focas
Onde vive: sobre blocos flutuantes de gelo, em todo o círculo polar ártico

Nome popular: preto
Nome científico: Enarctos americanus
Aparência: pêlo negro, corpo roliço, é o mais brincalhão de todos
Quanto mede: cerca de 1,5 metro
Quanto pesa: de 250 a 300 quilos
O que come: raízes, mel e frutas
Onde vive: na América do Norte, dos bosques californianos ao estreito de Bering

Nome popular: tibetano
Nome científico: Selenarctos thibetanus
Aparência: apresenta um mancha branca em forma de meia-lua; por isso é conhecido também como urso-de-lua
Quanto mede: 1,2 a 1,5 metro
Quanto pesa: de 100 a 125 quilos
O que come: prefere pequenos roedores, mas costuma atacar gado e comer carniça
Onde vive: na Ásia, do Irã às ilhas setentrionais do Japão, sempre em regiões altas.

Nome popular: preguiça
Nome científico: Ursus ursinus
Aparência: o focinho é mais comprido que o de outras espécies, daí também ser chamado de urso-beiçudo
Quanto mede: de 1,5 a 1,8 metro
Quanto pesa: cerca de 150 quilos
O que come: predileção por formigas e cupins
Onde vive: na Índia e no Sri Lanka

Nome popular: malaio
Nome científico: Helarctos malayanus
Aparência: pêlo escuro com uma mancha dourada no peito, devido à qual é chamado urso-sol;
é o menor de todos no Quanto mede: máximo 1 metro
Quanto pesa: cerca de 45 quilos
O que come: mel e pequenos roedores
Onde vive: no Sudeste da Ásia e na Oceania

Nome popular: urso-de-óculos
Nome científico: Tremarchos ornatus
Aparência: preto, com manchas brancas nos olhos
Quanto mede: de 1 a 1,5 metro
Quanto pesa: cerca de 140 quilos
O que come: raízes e folhas, especialmente as de palmeira
Onde vive: nas selvas que contornam a cordilheira dos Andes e na região noroeste da floresta amazônica

Nome popular: pardo
Nome científico: Ursus arctos
Aparência: o pêlo varia do marrom ao acobreado
Quanto mede: 2 metros
Quanto pesa: cerca de 200 quilos
O que come: frutas, mel, insetos e roedores
Onde vive: nas montanhas européias

Urso pardo, 500 quilos de ferocidade
Urso pardo, 500 quilos de ferocidade

7955 – Mega Polêmica – O Preço da Carne


Chineses costumam encarar qualquer coisa que se mova como um alimento à sua disposição. Eles consideram o animal um mecanismo, um objeto, cuja dor e sofrimento não nos dizem respeito. Ironicamente, os piores exemplos de maus tratos acontecem na mesma Ásia onde nasceu o budismo – a mais benevolente e avançada religião do mundo no trato com os animais.
Nos tristemente famosos “mercados de vida selvagem” asiáticos há de tudo. Mamíferos, répteis, insetos, batráquios, tudo vai para gaiolas apertadas e lotadas sem água nem comida. Qualquer foto desses mercados é um permanente festival de sangue, urina e fezes. Há mais do que cheiro ruim no ar: existe medo. E vírus de diferentes espécies novas se combinando uns com os outros.
As imagens mais chocantes registram o que esses mercados destinam aos cães. Os mesmos cães que aqui viram membros da família, ajudam cegos ou orientam equipes de salvamento. Lá, cachorros são comida. E não se deixe enganar: esses mercados chineses não existem para “matar a fome do povo”. Chineses pobres comem frango e peixe. Os cães são “iguarias” caras, assim como gatos, escorpiões, cobras, enguias etc.
Os cozinheiros acreditam que a adrenalina no sangue dos cães amacia a carne. Quanto mais sofrimento, mais apetitoso o prato. Em nome dessa carne macia, a palavra de ordem é torturar os cães até a morte. Eu já vi a foto de um pastor alemão sendo enforcado na viga de uma cozinha, sendo puxado pelos pés. Eu já testemunhei um vira-latas com as patas dianteiras amarradas para trás do corpo e desisti de imaginar o tamanho de sua dor. Assisti ao vídeo de um cão magrinho que foi mergulhado em água fervendo, retirado, teve sua pele inteirinha arrancada e ainda olhava a câmera, tremendo junto à panela onde foi cozido em vida.
A pergunta básica é: nós, humanos, temos direito a isso? Quem nos deu esse direito? Temos o direito de jogar uma lagosta viva na água fervente? Temos o direito de comer um peixe fatiado ainda vivo no seu prato num restaurante japonês? Temos o direito de prender bezerros em lugares escuros, imobilizados por toda sua curta vida, por um vitelo? Nosso paladar é tão importante assim na ordem das coisas? Um sabor diferente em nossas bocas justifica tudo?
A questão ultrapassa a esfera da ética e da civilidade. A Sars nasce no chão imundo dos mercados chineses. A doença da vaca louca – permanente ameaça na nossa pátria do churrasco – surgiu quando obrigamos o gado a se canibalizar. O terrível ebola se espalha com cada homem africano que devora nossos primos biológicos, gorilas e chimpanzés. Vírus mutantes saltam do sangue de aves para o dos homens sem defesas naturais. Segundo a revista inglesa The Economist, nada menos que 60% das doenças humanas surgidas nos últimos 20 anos têm origem em outras espécies animais. Tony McMichael, pesquisador da Universidade Nacional de Austrália, é bastante claro: “Vivemos num mundo de micróbios. Precisamos ser um pouco mais espertos no jeito como manejamos o mundo ao nosso redor.”
Mercados chineses e churrascos africanos parecem fenômenos distantes. Mas o brasileiro continua dependendo demais de alimentação animal. Temos uma churrascaria por quarteirão, e numa cidade de 12 milhões de habitantes, como São Paulo, contam-se nos dedos os restaurantes vegetarianos. E ainda temos um lobby querendo ampliar a oferta de animais nas geladeiras: avestruzes, capivaras, jacarés, tudo criado em cativeiro com carimbo do Ibama. A cada nova espécie consumida pelo homem, mais uma mistura de vírus – algumas combinações inofensivas, outras não.
Para tentar controlar essas doenças, cometemos mais brutalidade: enterramos milhões de aves vivas, afogamos gatos selvagens em piscinas de desinfetante. Provocamos o desastre e massacramos as vítimas. Temos um caminho inteligente: racionalizar, humanizar e diminuir cada vez mais o consumo de animais. Ou podemos continuar o banho de sangue. Aí, todos nós pagaremos o preço.
Quando uma borboleta bate as asas na Europa, pode iniciar um furacão no oceano Pacífico. A Sars começou em mercados chineses e chegou ao Canadá. A gripe aviária já se espalhou por diversos países asiáticos e ameaça lugares distantes como o Paquistão e a Itália. Num mundo de vôos diretos, os gritos desesperados de um cachorro chinês podem chegar um dia ao Brasil por meio de alguma nova e tenebrosa sigla.

7954 – Livro – Um outro gênio da lâmpada


Além de Thomas Alva Edison que já ostenta este título, o escritor, dramaturgo e filósofo francês Voltaire (1694-1778) foi um dos maiores pensadores de seu tempo e um dos mais prolíficos também. Ele acreditava no trabalho, ainda que seu ofício – vez ou outra – o mandasse para a Bastilha. Essa edição do Dicionário Filosófico é uma pequena, porém valiosa, mostra do conhecimento do autor mais inspirado e temido do Ancien Régime. Voltaire escreve fácil, usa a ironia e o bom-humor com uma classe invejável. Resultado: os verbetes produzidos há três séculos continuam saborosos.
Nesse pequeno compêndio dos vícios e virtudes do homem e do mundo, o autor não raro se vale de descrições certeiras e anedotas espirituosas para ilustrar alguns dos temas abordados. Um bom exemplo pode ser encontrado no verbete “Amor-próprio”.
“Um mendigo esmolava nas ruas de Madri quando um transeunte lhe perguntou: ‘O senhor não tem vergonha de se dedicar a mister tão infame, quando podia estar trabalhando?’ ‘Senhor, respondeu o mendigo, estou lhe pedindo dinheiro e não conselhos’.”
Essa é uma das obras mais acessíveis do filósofo Voltaire. O gênio iluminista, autor de mais de uma centena de volumes, bem merece o elogio de Will Durant em A História da Filosofia: “A Itália teve uma Renascença, a Alemanha uma Reforma, mas a França teve Voltaire”.