7953 – Mega Polêmica – O Império vai Cair?


Opinião de um cientista político:

Quando o império soviético desmoronou, muitos analistas internacionais pensaram que os Estados Unidos passariam a disputar o mundo com países como Japão, Rússia, Alemanha e China. Eles se enganaram. Pela primeira vez na história, uma só nação assumiu um poder muito acima das demais, uma situação que os especialistas chamam de unipolaridade. Os domínios de Carlos Magno se limitavam à Europa. Os romanos chegavam mais longe, mas conviviam com um grande império na Pérsia e um maior ainda na China. Hoje, a história é bem diferente. Os Estados Unidos gastam em defesa o mesmo que a soma dos outros 25 países mais poderosos do mundo. Em 2007, vão gastar mais que todas as demais nações juntas.
Até onde a vista alcança, nada parece deter a superpotência solitária. “Mas ela vai cair. É apenas uma questão de tempo”, diz Kenneth Waltz, professor de ciência política da Universidade de Colúmbia, Estados Unidos, e membro da Academia Americana de Artes e Ciências. Waltz é o pai do neorealismo, que parte da teoria clássica de que os países são o que importa nas relações internacionais, e não organizações, empresas, fundos ou bancos. A novidade de Waltz é estudar a lógica – ou, em suas palavras, a estrutura – que define o comportamento entre os países. Não importa muito quem esteja governando cada país, a estrutura estabelece regras que fazem a relação entre eles ser sempre parecida.
Uma dessas regras é que, por não existir nenhum governo que regule a relação entre as nações, cabe a cada uma competir para sobreviver. Quando um país poderoso começa a emergir, outros tratam de detê-lo para impedir que se torne hegemônico.

A China pode ser uma ameaça ao poder dos Estados Unidos?
Ainda não. Um dia os chineses poderão ter condições de igualar forças com os Estados Unidos, mas tudo vai depender de como os dois países vão se desenvolver nas esferas econômica, tecnológica e militar. Penso que esse equilíbrio só ocorrerá daqui a 20 ou 30 anos. Na última crise entre China e Taiwan, os Estados Unidos mandaram porta-aviões às águas chinesas e não houve nada que os orientais pudessem fazer. Foi muito impressionante do ponto de vista militar americano e muito deprimente do ponto de vista chinês.

E a União Européia?
Depois da Segunda Guerra Mundial, os países europeus deixaram de ser grandes poderes e mudaram de comportamento. Antigos provedores de segurança para outras partes do mundo, eles se tornaram consumidores de segurança. Passaram a viver à sombra das duas superpotências: Estados Unidos e União Soviética. Se a União Européia fosse uma entidade política, poderia equilibrar forças com os Estados Unidos em pouco tempo. Tem todos os recursos para isso: população, economia e tecnologia. Só o que lhe falta é existência política. Ela existe como uma sociedade economicamente cooperativa, uma união que pode administrar, proteger direitos humanos e impor uniformidade de leis, mas é incapaz de ter uma política exterior e de defesa comum.

O terror não ameaça a superpotência?
O terrorismo incomoda muito, mas não ameaça a segurança e o tecido social de um Estado forte. O Taleban destruiu dois edifícios importantes, causou danos ao Pentágono e matou algo como 3 mil pessoas. Em resposta, os Estados Unidos derrotaram e ocuparam o Afeganistão e o Iraque. A desproporção é imensa. Claro que não estamos acostumados a essas circunstâncias perigosas, por isso ficamos tão impressionados por eventos como os de 11 de setembro.
Globalização e interdependência são termos muito usados hoje, mas obscurecem a realidade. O mundo é altamente desigual. A diferença entre os países é imensa e está crescendo. Nos anos 90, cerca de 80% dos investimentos internacionais foram para os países do norte, sobretudo Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha. E os americanos buscam aumentar essa diferença. A política oficial da administração Bush é: seremos tão fortes que todos os demais vão desistir de competir conosco. As pessoas falam de integração, mas o mundo está cada vez mais desintegrado.

7952 – Homens ou Ratos? As Cobaias Humanas


Eram 400 homens doentes, todos negros. Mas, para os cientistas que os observavam, eles valiam apenas como cobaias de laboratório. Os pesquisadores sabiam qual era a doença deles. Depois de algum tempo, sabiam como curá-la. Apesar disso, negavam-se a dar o tratamento. Apenas registravam metodicamente a piora nas condições de saúde dos doentes. Enquanto isso, os homens morriam, um a um.
Coisa de campo de concentração nazista? Não exatamente. A pesquisa com 400 portadores de sífilis foi feita em Tuskegee, Alabama, Estados Unidos. Terminou em 1972, com uma denúncia da própria comunidade científica, depois de se arrastar por quatro décadas. A penicilina era indicada como tratamento básico para a sífilis desde 1943. Em 1997, o então presidente Bill Clinton pediu desculpas àquela comunidade do Alabama. O Estudo de Sífilis de Tuskegee rendeu grande parte das informações que temos hoje sobre a doença, mas é consenso que foi um grande erro. Entrou para a história como exemplo de tudo que não se deve fazer em experiências médicas com seres humanos. Isso não quer dizer que as experiências com gente tenham sido abandonadas. Claro que não, nem se pensa nisso. Na verdade, elas são cada vez mais comuns, em um número crescente de países. Da próxima vez que for ao médico, você pode até ser convidado a participar de uma.
Usam-se pessoas em pesquisa médica porque nossa tecnologia não é boa o bastante para dispensá-las – e talvez nunca venha a ser. Todos os testes existentes – em laboratório, em animais, em simulações por computador – são incapazes de dizer com precisão como agirá uma droga no corpo do Homo sapiens. “Não temos como simular todos os efeitos que poderão ocorrer no organismo”, afirma o médico diretor no Brasil da Pfizer, maior companhia farmacêutica do mundo. “Além disso, há questões como a variabilidade genética da espécie e a influência de fatores como gênero, idade e hábitos alimentares.” Em outras palavras: só sabemos se um remédio funciona e quais seus efeitos colaterais depois de testá-lo em centenas ou milhares de seres humanos. O problema é como garantir a saúde dessas pessoas.
É tranquilizador saber que as regras dos testes melhoraram muito desde a época em que qualquer um podia inventar um elixir e sair por aí vendendo. Hoje, a pessoa que aceita experimentar um candidato a remédio – chamada no jargão médico de “sujeito de pesquisa” – é cercada de cuidados e tem direitos bem definidos (embora alguns sejam motivo de briga no meio científico, como você verá a seguir). O caminho até esse ponto da história não foi curto. Ele começou a ser percorrido depois dos horrores dos campos de concentração nazistas, quando experimentos avaliavam a resistência do ser humano ao congelamento, ao afogamento, à altitude e a venenos, que normalmente levavam o “paciente” à morte. A revelação dos arquivos nazistas resultou na criação, em 1947, do Código de Nuremberg, após o julgamento dos criminosos de guerra – 27 médicos entre eles –, na cidade alemã de mesmo nome.
O Código foi um primeiro passo para tornar as pesquisas mais justas. Ele determinou princípios valiosos, vigentes até hoje: os testes só podem usar voluntários, devem ser feitos primeiro com animais e têm de parar se prejudicarem um único paciente. Parecem óbvios? Pois eles foram solenemente ignorados muitas vezes, mesmo depois da derrota nazista. Dos anos 1930 aos 60, houve de tudo um pouco: vírus da hepatite inoculado em crianças deficientes mentais, câncer provocado em idosos, cirurgias cardíacas feitas em pessoas saudáveis. Tudo em nome da ciência.
Cerca de 80 abusos do tipo, só nos Estados Unidos, foram documentados pelo anestesista Henry Beecher, professor da Universidade Harvard, morto em 1976. Quando divulgou um estudo com 22 dessas pesquisas, em 1966, Beecher mostrou ao mundo uma realidade até então comodamente escondida: o horror do uso de gente como cobaia não era exclusividade nazista.
Dois anos antes, em 1964, o Código de Nuremberg havia gerado um filhote: a Declaração de Helsinque, que lista os direitos do sujeito de pesquisa. A declaração, assinada numa Assembléia Médica Mundial, até hoje orienta médicos nos cinco continentes. Sim, nos cinco continentes. Afinal, já se foi o tempo em que os temores dos participantes de servir como cobaias eram limitados a um grupo de nações ricas, principalmente Estados Unidos, Alemanha, Suíça e Inglaterra. Esses eram e continuam sendo os países de origem de quase toda a pesquisa farmacêutica no mundo. Mas, agora, cidadãos em qualquer lugar do planeta podem ser envolvidos nos experimentos.
O que cientistas brasileiros, argentinos e de outros países pobres mais temem é que a flexibilização torne realidade uma crença popular, segundo a qual povos subdesenvolvidos servem apenas como cobaias da indústria farmacêutica.
Atualmente, há pelo menos 27 empresas farmacêuticas multinacionais fazendo testes no Brasil. Essas companhias, junto com universidades, realizaram em 2003 mais ou menos 1 200 pesquisas clínicas no país. O número de pesquisas em território nacional não pára de aumentar desde que se aprovou a Lei de Patentes, em 1996, com a qual passou-se a respeitar a propriedade intelectual de medicamentos. Cerca de 600 mil brasileiros já participam, a cada ano, de testes de potenciais remédios. “O país tem grande população, pesquisadores de padrão internacional, centros de excelência e custo relativamente baixo”, diz Flávio Vormittag, presidente da Interfarma, a associação das empresas – estrangeiras – que fazem pesquisa de novos medicamentos no Brasil.
Em princípio, receber pesquisas clínicas é bom negócio para o país. Os cientistas locais, chamados a colaborar, têm a chance de aprender. Além disso, cada povo tem características genéticas de maior ocorrência. Se os testes forem feitos apenas, digamos, na Alemanha, aumenta a chance de que efeitos colaterais só sejam detectado no Brasil com o remédio à venda.
Mas por que alguém aceitaria tomar um remédio que ninguém sabe exatamente como funciona? Na maior parte dos casos, o convite é feito pelo médico a pessoas que não obtiveram resultados com a terapia tradicional, ou cuja doença não tem tratamento eficaz. O convite não pode envolver dinheiro, porque o pagamento ao sujeito de pesquisa é proibido no Brasil (na Europa também. Já nos Estados Unidos e no Canadá é permitido e os testes são até anunciados no rádio). A idéia é que as pessoas decidam participar só pelos possíveis benefícios a sua saúde.
O médico é o responsável por mostrar o grau de segurança da pesquisa e esclarecer dúvidas do paciente. Ainda há muito o que melhorar nesse campo: os termos de consentimento redigidos no Brasil, que têm de ser assinados pelo voluntário, são bem complicados. Eles são escritos em um tecniquês difícil de entender para pessoas com menos de onze anos de escolaridade, caso da maioria da população brasileira.
Antes de decidir aceitar participar de uma experiência, o convidado tem de saber o seguinte: qualquer molécula recém-descoberta e que tenha chance de virar um novo medicamento passa por uma verdadeira odisséia antes de entrar no corpo de alguém (veja infográfico acima). Ela atravessou pelo menos três anos de testes em laboratório e em cobaias – e não apenas camundongos. Os testes pré-clínicos (ou seja, antes de chegar às pessoas) têm de envolver pelo menos três mamíferos. Essa é uma briga à parte com os defensores dos direitos dos animais, já que ninguém inventou ainda uma maneira de dispensar os bichos. Apenas parte da interação da substância com tecidos vivos pode ser simulada em computador. No final das contas, de cada 50 remédios promissores que iniciam os testes pré-clínicos, apenas um chegará ao ponto de ser testado em humanos.
As pesquisas que chegam ao Brasil já se encontram, provavelmente, na chamada Fase Três – a última antes de o remédio ir ao mercado. Mas o trabalho do cientista só acaba num momento seguinte, a Fase Quatro. É a hora de ficar atento ao que acontece no mundo real. “Há efeitos colaterais raros, que só se manifestam quando centenas de milhares de pessoas são expostas à droga”, diz o médico André Feher, diretor do laboratório Eli Lilly. Ou seja: num certo sentido, todo mundo que toma remédio é um pouco cobaia.

7951 – Mega Byte – O Frágil Mundo da Internet


Em fevereiro de 2000, um hacker conhecido pelo apelido de MafiaBoy conseguiu paralisar alguns dos maiores sites do mundo, incluindo Yahoo, Amazon e eBay, causando caos em toda a internet. O ataque mobilizou o FBI, que saiu em busca daquele que havia derrotado empresas que contam com os melhores especialistas em segurança do mundo. Parecia coisa de profissional. Acabaram prendendo um garoto canadense de 15 anos na casa de seus pais, o local de onde ele comandou o ataque. Um ataque, diga-se, de amador, segundo especialistas em computação. Foi realizado com softwares gratuitos que estão a poucos cliques de distância de qualquer um que tenha uma conexão à internet, inclusive de você.
No ano seguinte, o físico húngaro Albert Lázsló-Barabási, da Universidade de Notre Dame, em New Hampshire, Estados Unidos, mostrou na capa da revista Nature, uma das mais respeitadas publicações de ciência do mundo, que a eficiência do ataque do MafiaBoy tinha um motivo: a World Wide Web é capaz de absorver facilmente falhas aleatórias, como um site que sai do ar, mas está fadada ao desastre se tiver de enfrentar um ataque dirigido. A dificuldade está justamente em uma peculiaridade das redes descoberta por Barabási em sua simulação no computador. Alguns poucos sites (como Amazon, Yahoo e eBay) funcionam como “centros de atividade”. Há milhares de outras páginas da internet apontando para elas e milhares de pessoas tentanto acessar esses sites ao mesmo tempo. Tirar algumas delas do ar, como fez o MafiaBoy, simplesmente paralisa a rede.

O fato de a web ter essa característica coloca países como os Estados Unidos e todos os outros que são altamente conectados em uma situação de fragilidade. Um terrorista que quisesse fazer um estrago significativo no dia-a-dia dos americanos poderia tentar um ciberataque a agências governamentais e grandes empresas. Mas o contrário não teria o mesmo efeito. Os Estados Unidos pouco ganhariam com um ataque na mesma linha contra o Iraque ou o Afeganistão. Esses países não têm uma rede de computadores suficientemente conectada para serem afetados pela fragilidade da rede.
A internet e o terrorismo fazem parte das preocupações de uma ciência que se torna cada vez mais importante no mundo: a ciência das redes. Elas estão em toda parte, governando desde os relacionamentos humanos até a forma como as moléculas do nosso corpo se ligam. Usamos essas redes o tempo todo, às vezes sem perceber. Por exemplo, quando vamos a um aeroporto e subimos em um avião. Se, durante uma viagem longa, você já matou o tempo folheando uma revista de bordo, provavelmente notou uma página que contém todos os vôos da companhia aérea. Se você reparar na quantidade de linhas que conectam uma cidade a outra irá ver que a grande maioria dos aeroportos tem poucos aviões saindo ou chegando, enquanto que alguns poucos recebem uma porção de linhas, a ponto de ficar difícil entender o mapa. No caso do Brasil, são os aeroportos de São Paulo e do Rio que funcionam como centros de atividade. O Brasil provavelmente não sofreria grandes danos se meia dúzia de aeroportos de pouco movimento fechassem por um dia. Mas parar simultaneamente os do Rio e de São Paulo paralisaria todo o sistema aéreo brasileiro. O mesmo vale para virtualmente qualquer país do mundo: em todos eles há pontos estratégicos na rede aérea que, se atacados, gerariam um colapso.
A regra funciona também na sociedade, como mostrou o jornalista Malcolm Gladwell, da revista americana The New Yorker, no livro O Ponto de Desequilíbrio. Ele analisou a habilidade das pessoas de diferentes grupos sociais de criar relações pessoais e observou que cada grupo tinha algumas poucas pessoas com muitos amigos e conhecidos. Essas pessoas são os “centros de atividade”, também conhecidos como “conectores”.
Mas o que os cientistas não esperavam é que a natureza seguisse as mesmas leis das redes criadas pelos homens. “Conectores, que são nós com um número anomalamente grande de links, estão presentes em vários sistemas complexos, que vão da economia à célula”, diz Barabási em seu livro Linked (“Ligado”, inédito em português), publicado em 2003 nos Estados Unidos. O corpo humano, por exemplo, é dominado por esses centros de atividades. Possuímos algumas poucas moléculas que participam de muitas atividades. Nosso organismo é muito complicado e é claro que nem tudo dá certo nos processos químicos que nos mantêm vivos. Mas o corpo é capaz de absorver esses erros – uma célula compensa a falha de outra e você continua vivo. Agora, se algum maluco descobrisse como atacar as moléculas conectoras, que fazem parte dos centros de atividade do nosso corpo? O organismo entraria em colapso como MafiaBoy viu acontecer com a internet diante de seus olhos. Computador tem conserto fácil ou, na pior das hipóteses, pode ser substituído. Nosso corpo, não.
Como não somos computadores, estudar a interação entre cada um dos componentes das redes poderá nos trazer enormes benefícios no futuro. O caso da proteína p53 é exemplar. Ela é a responsável por garantir a ordem dentro das células do nosso corpo. Impede, por exemplo, que células se multipliquem descontroladamente, iniciando o processo que pode levar a um câncer. Cerca de 50% dos cânceres humanos têm relação com uma mutação no gene que fabrica a p53. Na célula, o desempenho quase não é afetado pela remoção acidental de uma proteína qualquer – assim como uma falha num site obscuro não traria conseqüências sérias à internet. Mas um ataque no lugar certo pode ser fatal. “A forma mais efetiva de destruir essa rede é atacar as proteínas mais conectadas. A p53 é uma delas e uma mutação nela vai interromper algumas funções básicas da célula”, dizem David Lane e Arthur Levine, os descobridores do gene.
A existência de poucos sites, moléculas e aeroportos que funcionam como centros de atividades colocou também dilemas éticos para os cientistas. Em 2001, o físico italiano Alessandro Vespignani e o espanhol Romualdo Pastor Satorras demonstraram que mesmo vírus pouco contagiosos podem se espalhar muito se a rede na qual estiverem tiver alguns centros de atividades. No mesmo ano, o sociólogo Fredrik Liljeros mostrou que a rede de relações sexuais funciona dentro desse padrão. Nela, alguns poucos têm centenas de parceiros sexuais, enquanto a maioria de nós transa só com uma ou outra pessoa, quando muito. No caso de uma doença sexualmente transmissível, são esses conectores os primeiros a serem infectados e também os responsáveis por espalhar a doença para muitas outras pessoas. Agora pense na aids. Não temos hoje remédio suficiente para tratar todos os HIV-positivos do mundo. Então o que é mais eficiente? Cuidar de mulheres grávidas ou tratar das pessoas com muitos parceiros sexuais? A resposta dura – a segunda opção é mais eficaz – foi provada matematicamente em dois artigos publicados em 2002, um por Zoltán Dezsó (aluno de doutorado de Barabási) e outro por Vespignani e Pastor Satorras. Eles mostraram que deveríamos tratar primeiro os promíscuos, pois isso derrubaria a carga de vírus deles e diminuiria a transmissibilidade, brecando a disseminação da aids.

Atores de Hollywood que já participaram de vários filmes têm mais probabilidades de fazerem novos filmes. Hoje está provado que, independentemente de ser uma rede de computadores, moléculas ou pessoas, “a popularidade atrai”. As descobertas de Barabási, Watts e seus colegas sobre redes são parte de uma revolução que vai mudar nosso entendimento do mundo. Se o século 20 foi a era em que descobrimos, entendemos e usamos as propriedades individuais de coisas tão diferentes como moléculas, aviões e sites, o 21 será a hora de estudarmos como eles se relacionam. Quem sabe redescobriremos aquilo que o filósofo grego Aristóteles disse há mais de 2 mil anos: “O todo é maior que a soma das suas partes”.

7950 – Cinema – Como funciona o set?


Cinema, a 7ª Arte
Cinema, a 7ª Arte

A cena mostra apenas um casal se beijando, mas, ao redor dos atores, há um exército de trabalhadores. A equipe que atua no set – o local em que se faz um filme – pode ser de poucas dezenas a algumas centenas de pessoas, dependendo do tamanho da produção. Um curta-metragem, por exemplo, não exige mais que 10 a 20 profissionais. Já uma superprodução como a trilogia O Senhor dos Anéis precisou de mais de 300 pessoas trabalhando nas cenas de batalha, sem contar o elenco. Fora as pessoas no set, há outras tantas que sequer põem o pé no estúdio, como o montador (o sujeito que transforma vários rolos de película no produto final), o compositor da trilha sonora e a equipe de efeitos especiais. No set, a coisa só funciona com uma rígida hierarquia: o operador de câmera, subordinado ao diretor de arte, nunca recebe ordens imediatas do diretor do filme – o chefe máximo do estúdio. É o diretor que, quando tudo e todos estão prontos para começar a filmar, dá o grito de guerra: “Luz, som, câmera, ação!”

Veja quem é quem:

Núcleo de Direção
O diretor é o chefe geral do estúdio. Seus subordinados diretos são o assistente de direção, o elenco e o continuísta – sujeito que faz a marcação nos cortes para que, por exemplo, um personagem que usa óculos não apareça sem eles quando a filmagem for retomada

Núcleo de som
O engenheiro de som controla a captação dos diálogos, do som ambiente e de efeitos sonoros. Ele trabalha com um assistente e o microfonista, responsável pela instalação dos microfones de cena

Núcleo de arte
O diretor de arte é o responsável pelo visual do filme. Sob sua batuta, trabalham o assistente de direção de arte, maquiadores, figurinistas, o cenotécnico (responsável pela construção dos cenários) e o contra-regra (que zela pela conservação dos objetos de cena)

Núcleo de fotografia
Chefiado pelo diretor de fotografia, que determina o tipo de luz a ser usada, as lentes da câmera e a qualidade da película, entre outras coisas. Ele é assistido pelo operador de câmera e seus ajudantes. Neste núcleo, ainda trabalham os maquinistas (que operam gruas e outros aparelhos) e os eletricistas

Núcleo de produção
O diretor de produção é quem cuida da parte logística do filme: cronograma, negociação com fornecedores, contratação de pessoal. Com ele, trabalham alguns produtores e seus assistentes, que vão atrás de objetos que compõem o cenário, e até um produtor de alimentação para os trabalhadores do set. Também estão neste núcleo as equipes que fotografam e filmam o making of

Elenco
São as pessoas que aparecem no produto final: atores e figurantes

7949 – Genética – Por que há tantos gatos siameses vesgos?


A alta ocorrência de estrabismo (vesguice) é uma conseqüência dos cruzamentos que resultaram no surgimento dos gatos siameses. “Quando a raça foi criada no Sião, atual Tailândia, foram selecionados involuntariamente genes que acarretaram alguns defeitos, como o estrabismo, e uma pequena falha na ponta da cauda, que pode ser em forma de L”, diz um da USP de Ribeirão Preto, especialista em gatos. O estrabismo, no caso dos gatos siameses, geralmente é convergente – os dois olhos virados para dentro. Os especialistas supõem que essa característica está relacionada ao mesmo gene causador do albinismo.
Um dos gatos mais populares do mundo, o siamês era um animal sagrado no Sião. Sua linhagem era cuidadosamente preservada e eles nunca eram vendidos, mas presenteados como forma de honrar uma pessoa. Diz a lenda que eles eram encarregados de fazer a guarda de tesouros do reino e acabaram ficando vesgos porque os vigiavam muito de perto. Os primeiros relatos sobre essa raça remontam ao ano 1350, mas foi apenas no século 19 que ela chegou ao Ocidente. O cônsul inglês Owen Gould recebeu alguns animais de presente do próprio rei do Sião, em 1884, e os levou para Londres, onde fizeram enorme sucesso numa exposição de felinos. O curioso é que, embora boa parte dos bichanos dessa raça sofra de estrabismo, só bichanos com olhos perfeitos têm valor comercial e participam de exposições.

Tricolor não é macho
Outra peculiaridade genética dos gatos é o fato de animais com pêlo de três cores – branco, amarelo e preto – quase sempre serem fêmeas. Quando um bichano tricolor dá de ser macho, ele possui três cromossomos (o normal são dois) e é estéril;

Surdez está nos olhos
Se um gato tem pêlo branco e olhos azuis, ele é portador de um gene que também o torna portador de surdez total ou parcial. Geralmente esses animais conseguem levar uma vida normal – já os filhotes de fêmeas assim dificilmente sobrevivem porque as mães não ouvem seus miados.

7948 – Um enterro espacial


Enterro em cemitério não está com nada, diriam o guru psicodélico Timothy Leary e o criador da série Jornada nas Estrelas, Gene Roddenberry. A moda agora é mandar restos mortais para o espaço, da mesma forma que esses dois.
Se depender da empresa norte-americana Celestis, em breve a Via Láctea vai ser orbitada por vários satélites recheados de restos de corpos cremados. “Pegamos carona nas missões que vão para o espaço. Vamos aonde eles estão indo”, diz o presidente da Celestis, Chan Tysor. O próximo lançamento está marcado para maio no Cazaquistão.
Para passar a eternidade dando voltas pela Terra (ou 156 anos, o tempo previsto para a viagem do satélite russo Kosmos I), os “passageiros” pagam 995 dólares para enviar 1 grama de cinzas. Sete gramas custam 5 300 dólares.
E o melhor é que esse serviço começa a ser oferecido aos brasileiros a partir de abril. E por quem entende do ramo: Celso Sepulvida, vereador e dono de funerária em São Caetano (SP). Ele será o responsável por enviar os restos tupiniquins em cápsulas até a Celestis, de onde serão mandados direto em direção às estrelas.

7947 – Barnum, o rei dos trambiqueiros


Amado por uns, odiado por outros, P.T. Barnum foi uma lenda em seu tempo. Empresário multimídia muito antes de existirem tantas mídias, Barnum chocou, entreteu e enganou o público por boa parte do século 19.
Phineas Taylor Barnum nasceu em 1810 no interior de Connecticut. Aos 25 anos foi tentar a vida em Nova York. Aceitava qualquer trabalho até descobrir que podia ganhar muito fazendo o que mais gostava: pregar peças nos outros.
A primeira grande falcatrua foi Joice Heth, uma escrava que dizia ter 161 anos. Barnum lançou-se como seu empresário e saiu em turnê exibindo “a mulher mais velha do mundo”, “ex-babá do presidente George Washington”. Sucesso total!
Quando o interesse pela escrava começou a diminuir, Barnum enviou uma carta anônima a um jornal dizendo que a velha era uma fraude. Aliás, não era humana, e sim uma máquina feita de osso de baleia e couro velho. A mentira atraiu milhares que queriam ver de perto a mulher-robô. Barnum ficou rico e aprendeu uma lição: o público gosta de ser enganado.
Barnum viajou com aberrações até 1841, quando abriu um museu de curiosidades em Nova York. Uma das peças mais famosas eram os restos mortais da “Sereia de Fiji” – na verdade um torso de macaco costurado num rabo de peixe. A fama do museu fez de Barnum uma das figuras públicas mais conhecidas da época. Um de seus personagens, o anão “General” Tom Thumb, que dançava, cantava e fazia piadas, viajou o mundo e ganhou fãs como Abraham Lincoln e a rainha Vitória, da Inglaterra.
P.T. Barnum também é conhecido como o criador do circo moderno. Em 1867 ele montou sob uma tenda um show itinerante chamado de “O Maior Espetáculo da Terra”, que sobrevive até hoje no “Ringling Bros. and Barnum & Bailey Circus”. Sua principal atração era o elefante Jumbo, apresentado como o maior do mundo. Quando o animal morreu atropelado, Barnum mandou empalhar o bicho e continuou a apresentá-lo como se nada tivesse acontecido. A moda do elefante passou, mas seu nome tornou-se sinônimo de “grande” em inglês.
Quando outros falsários se apresentaram, Barnum ultrapassou-os. George Hull, um arqueólogo que forjou a descoberta do gigante de Cardiff – supostamente um fóssil humano, na verdade uma escultura de gesso corroída por ácido – teve sua obra superada por um similar apresentado como “o verdadeiro” gigante. Ao ver as filas na porta do museu de Barnum para visitar a falsificação da falsificação, Hull disse a frase que entraria para a história como sendo de Barnum: “Nasce um trouxa a cada minuto”.
No final da vida Barnum foi prefeito de Bridgeport, Connecticut. Continuou ativo até morrer, em 1891.
O gigante de Cardiff ainda é exibido em Nova York, a 9 dólares por cabeça, enquanto a réplica de Barnum está num museu em Michigan. Algumas coisas não mudam: o público ainda gosta de ser enganado.