7228 – Conflitos – A Espionagem


Um grupo de agentes secretos de primeira linha do governo americano se reuniu num hotel de Washington para discutir o futuro da categoria. Preocupados com uma ameaça de cortes de verba pela Central Intelligence Agency (CIA), eles chegaram à conclusão de que pelo menos 20% dos profissionais da área correm risco de demissão. A saída para eles é se transferirem para a iniciativa privada. O que não é um mau negócio. As agências de detetives dos Estados Unidos recebem, em média, cerca de 900 pedidos de informações comerciais por mês. E o mercado está em franco crescimento.
Longe dos governos, o espião não é mais aquele. Seu inimigo prioritário não é o comunismo, é a empresa concorrente. Mesmo assim, ele ainda ainda tem um quê de 007. É superequipado e enfrenta uma contra-espionagem eficiente. E a sua rotina de trabalho continua bem arriscada.
A bisbilhotagem oficial também não acabou. Nem vai acabar. Apesar das ameaças, os Estados Unidos continuam gastando com espionagem cerca de 16 bilhões de dólares por ano, segundo um estudo de Steven Aftergood, da Federação de Cientistas Americanos, uma organização independente. Mas, com o encerramento da guerra fria, o fim da União Soviética e o desmoronamento dos regimes comunistas do Leste Europeu, a aplicação do dinheiro tomou outros rumos. Hoje, apenas 40% dele é destinado a xeretar a atividade dos russos, que já chegou a atrair quase 70% do total.
A aviação militar cubana derrubou dois aviões do grupo Irmãos para o Resgate (IR), que ajuda exilados cubanos em Miami. A queda dos aparelhos, que teriam invadido o espaço aéreo de Cuba, trouxe à tona mais um caso de espionagem internacional, envolvendo o suposto agente duplo Juan Pablo Roque. Ex-piloto militar cubano, Roque vivia nos Estados Unidos desde 1992 e trabalhava para o IR. No dia seguinte à queda dos aviões, ele deu entrevista à rede de TV americana CNN. Só que estava em Cuba, e dizendo que havia prevenido o FBI sobre o ataque. O FBI desmentiu, mas admitiu ter-lhe pago 6 700 dólares por informações sobre o IR. Depois disso, Roque desapareceu. Vá entender para quem ele trabalhava.
Embora ainda não tenha tido um desfecho, o caso mostra que o mundo continua cheio de gente que espiona por motivos políticos. Mas o que mais cresce é o mercado das outras modalidades de espionagem. “Nossa sociedade está cada vez mais centrada na informação. Todos espionam todos”, diz Harold Keith Melton, historiador militar americano especializado em espionagem. Escolas de detetives formam bisbilhoteiros de quinta categoria no mundo inteiro. Em geral, eles oferecem seus préstimos a gente desconfiada da fidelidade da cara-metade.
Eles ficaram com as maiores emoções (e a melhor tecnologia) da profissão. Os chamados espiões industriais vivem nas spy shops dos Estados Unidos. Nessas lojas eles encontram desde microfones disfarçados em canetas até detectores de bombas, passando por manuais antiguerrilha e carros blindados. No Brasil, coisas assim são menos comuns. Mas não é difícil achar, nas casas especializadas em produtos elétricos e eletrônicos, o famoso grampo, aparelho usado para interceptar ligações telefônicas. Basta chegar e pedir um gravador de entrevistas por telefone. Custa algo em torno de 100 reais.
A Associação Brasileira de Empresas de Vigilância e Segurança estima que as 500 maiores companhias instaladas no Brasil perdem até 17 bilhões de reais por ano em conseqüência de espionagem. Por isso, elas gastam cada vez mais em contra-espionagem. Até o começo desta década, o investimento em assessoria e equipamentos para tapar o buraco da fechadura não chegava a 20 milhões de reais ao ano. Hoje está perto dos 50 milhões. Nos Estados Unidos gasta-se quarenta vezes mais. Segundo conta Lucas Blanco, diretor de Desenvolvimento e Operações da Ensec, a maior empresa privada de sistemas de segurança do país, que tem entre seus clientes ninguém menos que a Casa da Moeda, isso ocorre porque lá quem tem um sistema de segurança eficiente pode ganhar, entre outras coisas, descontos no seguro.
Apesar de todo o cuidado, no entanto, os americanos se sentem ameaçados.“Empresas e governos estrangeiros economizam fortunas roubando projetos em fase final de desenvolvimento nos EUA”, diz o escritor Keith Melton. “A China envia estudantes para nossas universidades e algumas vezes eles voltam com produtos e idéias. Para a França, os próprios agentes de inteligência oficiais fazem o serviço.”