6594 – Psiquiatria – A Neurose


A angústia que uma situação inquietante ou de perigo provoca no indivíduo é uma reação psicofísica normal. Se tal situação ameaçadora não tiver apoio na realidade, no entanto, é provável que se esteja diante de um quadro de neurose.
Neurose é um distúrbio funcional do sistema nervoso que se caracteriza por ansiedade, depressão e outros sentimentos de infelicidade demasiado profundos em relação aos fatores que os desencadeiam. Pode comprometer certas áreas da vida afetiva e das atividades do indivíduo, mas em geral não é grave a ponto de incapacitá-lo para a vida profissional, familiar etc. O neurótico, a diferença do que ocorre com o psicótico, não perde contato com a realidade. O que ocorre na neurose é uma elaboração psíquica anormal dos estímulos emocionais, do que resulta, habitualmente, uma reação desproporcionada.
As neuroses se manifestam por meio de sintomas inespecíficos e específicos. Os inespecíficos, ou acessórios, podem existir não só nas neuroses, mas também em outras doenças orgânicas ou psíquicas: depressão, hipocondria, irritabilidade, insônia, dores de cabeça, vertigens, paralisias, cegueira, convulsões etc. Apesar de acessórios, são muito freqüentes nas neuroses, e às vezes dominam o quadro clínico, de modo a mascarar ou encobrir os sintomas específicos.
Os sintomas específicos, ou essenciais, realmente típicos das neuroses, são angústia, fobias, obsessões, conversões (somatizações) e certas inibições, como a impotência sexual. Angústia é a tensa, desagradável e absorvente expectativa psicofísica de um perigo iminente, cuja fonte é imaginária, desconhecida ou exageradamente avaliada. Há gradações, que vão da simples intranqüilidade até a angústia catastrófica. A angústia é, de fato, o fenômeno básico da neurose. Os demais sintomas ou traços neuróticos devem ser considerados transformações ou disfarces da angústia: por mecanismos inconscientes, o sujeito se defende contra o surgimento ou a permanência da angústia.
Fobias, ou medos patológicos, são angústias circunstanciais, que se desencadeiam especificamente diante de animais, espaços amplos, recintos fechados, multidões etc., enquanto obsessões são idéias que, repudiadas pela consciência do sujeito como estranhas ou absurdas, tomam-na de assalto e ali se fixam torturantemente. Se o conteúdo obsessivo é um ato ou idéia de fazer algo impróprio, contrário à consciência, diz-se que há uma compulsão. Conversão é a transformação de um conflito psíquico em sintoma somático. A cegueira, por exemplo, pode manifestar-se sem que haja lesão dos centros cerebrais da visão, dos nervos ou do aparelho visual, mas apenas porque certos impulsos (ou idéias, sentimentos e lembranças a eles referidos), reprimidos pela consciência, tiveram sua energia instintiva desviada para descargas anômalas, por intermédio das estruturas orgânicas. Da mesma forma, podem originar-se paralisias, anestesias, convulsões, dores e espasmos.
Os sintomas específicos e os acessórios se mesclam, em cada caso, em proporções variáveis, bastante individualizadas. Muitas vezes, porém, certos sintomas dominam o quadro clínico de tal modo que já se pode falar em formas especiais de neurose. Quando a prevalência é dos acessórios e as queixas se referem a um determinado órgão da vida vegetativa, fala-se em organoneuroses (neurose cardíaca, neurose gástrica). Quando o quadro é dominado por sintomas específicos, têm-se as psiconeuroses: neurose de angústia, neuroses fóbicas, neurose obsessiva, histeria. A neurastenia se caracteriza, entre outras manifestações, por dor de cabeça, tontura, insônia, irritabilidade, hipocondria, astenia, intolerância a ruídos e impotência sexual.

Em alguns casos, os sintomas neuróticos se estabelecem nitidamente, a partir de certas situações externas, de tensão crônica ambiental ou de traumas emocionais, como morte de seres queridos, desastres, catástrofes, insucessos financeiros, amorosos ou sociais. A esses casos dá-se o nome de neuroses traumáticas, entre as quais se incluem as neuroses de guerra, responsáveis, depois da segunda guerra mundial, por uma série de desajustamentos sociais.
Mesmo nesses casos traumáticos ou situacionais intervém, em maior ou menor grau, a predisposição individual, fator cuja influência cresce à medida que diminui o peso dos fatores situacionais, até se chegar aos casos muito freqüentes em que os fatores externos têm valor mínimo e a neurose parece ser o destino histórico, fatal, de certos tipos de personalidade. Tal predisposição resulta da interação de fatores constitucionais e fatores vivenciais, estes adquiridos durante o desenvolvimento biopsicossocial do indivíduo. Entre tais fatores vivenciais têm importância primordial os que se referem às primeiras relações objetais (mãe e recém-nascido), às fases da evolução do instinto sexual, e às emoções vividas na constelação intrafamiliar (centralizadas no complexo de Édipo).
A exposição das causas das neuroses, dos mecanismos inconscientes de formação dos sintomas e a estruturação das personalidades predispostas são temas ainda sujeitos a controvérsias. Todas elas, porém, com raras objeções, consideram as neuroses como produzidas pela ação patogênica de conflitos emocionais. A psicanálise, doutrina elaborada por Sigmund Freud, e suas correntes derivadas (ortodoxas, dissidentes e revisionistas) foram decisivas para a descrição e o tratamento das neuroses, sem negar as contribuições de outras escolas, como a reflexologia de Pavlov e seus discípulos, predominantes na antiga União Soviética.
O tratamento das neuroses pode ser somático (com emprego de sedativos, tranqüilizantes, fisioterapia e sobretudo sonoterapia) ou psicoterápico (com sugestão, persuasão, hipnose e principalmente psicanálise e métodos terapêuticos dela derivados).