5509 – Medicina – Freio no envelhecimento?


Nossos números impressionam. Em 1900, a expectativa média de vida do brasileiro ao nascer era de 33 anos. Hoje, é de 68, mais que o dobro. Nos Estados Unidos, saltou de 47 para 75 anos, no mesmo período.
Apesar de ser uma das mais antigas preocupações da humanidade, presente em escritos de mais de 5 000 anos, o envelhecimento só é estudado a sério, com rigor científico, há algumas décadas. E ainda não temos muitas certezas a respeito.
Um exemplo conhecido do que acontece quando envelhecemos é o que ocorre na savana africana. Quando uma leoa ataca uma manada de antílopes, a maioria dos bichos escapam dando saltos assombrosos e, no final, quem acaba nas garras dos felinos são os animais velhos, que já não conseguem acompanhar os mais novos.
Envelhecemos porque, pela lógica da seleção natural, que é como “pensa” a natureza, o que acontece com o indivíduo depois que ele gerou descendentes não faz diferença para o futuro da espécie. Assim, a perda das reservas – aquele “algo mais” para atravessar momentos difíceis – após a idade reprodutiva não prejudica a espécie. Em alguns casos, pelo contrário, a beneficia. Em ambientes onde falta alimento, quem já passou da idade fértil representa uma competição extra. Aos poucos, portanto, a natureza privilegiou as espécies cujos integrantes deixavam o palco assim que seu papel acabasse.
A espécie humana foi a primeira a reverter esse estado de coisas. Nosso corpo foi forjado há 130 000 anos, uma época em que os humanos, por mais fortes e saudáveis que fossem, morriam todos antes dos 30, vítimas de acidentes, predadores ou doenças. Mas nós domamos essas adversidades, elevando nossa expectativa de vida para muito além da idade reprodutiva. Ou seja, a degeneração que enfrentamos a partir dos 30 anos, ou, em outras palavras, o envelhecimento, nada mais é que a entrada em um período da vida para o qual a seleção natural não nos preparou.
As teorias sobre as causas do envelhecimento podem ser divididas em dois grupos: as primeiras dizem que o envelhecimento é um processo programado, que sucede o desenvolvimento embrionário e o crescimento; as outras defendem que o envelhecimento é um processo aleatório, causado por danos que vão se acumulando no organismo. Hoje, a segunda é mais aceita entre os cientistas que estudam o assunto, embora haja alguns fatos importantes que não se encaixam nela.
O número de vezes que uma célula se divide, por exemplo, é programado para cada espécie e está diretamente relacionado à longevidade. As células do camundongo, animal que vive três anos, dividem-se 15 vezes. As nossas dividem-se 50 vezes. E as da tartaruga das ilhas Galápagos, que vive 175 anos, dividem-se 110 vezes. Os cientistas já sabem que o número de divisões é determinado pelo tamanho dos telômeros, um novelo de DNA localizado na extremidade dos cromossomos e que serve como uma sola. A cada divisão, os cromossomos perdem parte do telômero, até que a sola acaba e a célula pára de se dividir e morre. Há uma enzima que evita a perda do telômero e torna a célula imortal. Seria o elixir da imortalidade? Longe disso. É ela que produz células cancerosas.
Ninguém sabe ao certo o que causa os danos à célula. Entre os vários suspeitos, os mais famosos são os radicais livres, que são moléculas altamente reativas produzidas aos bilhões dentro da célula, como resíduo tóxico da transformação da glicose em energia. Os radicais são um perigo porque reagem com qualquer molécula que encontram, modificando-a. Dentro da célula, isso significa deformações no DNA, enzimas e proteínas importantes para o seu funcionamento.
Não é possível ainda frear o envelhecimento, mas um coração enfartado ainda pode bater por anos, uma pessoa vive bem com um só pulmão e um idoso pode aumentar sua capacidade aeróbica e sua força, até o ponto de poder correr para alcançar o ônibus sem morrer fulminado. É aqui que entra em cena o estilo de vida de cada um.
Calcula-se que o estilo de vida responde por 70% da longevidade de uma pessoa. Só 30% se devem a fatores genéticos. Imagine uma pessoa de 60 anos com pneumonia. A doença compromete os pulmões e reduz o nível de oxigênio no sangue, obrigando o coração a acelerar seu ritmo para bombear mais sangue e suprir a carência de oxigênio. Se a pessoa estiver bem condicionada, ela tomará seus antibióticos e ficará curada da pneumonia. Mais lentamente do que se fosse mais jovem, mas dará conta do recado. Se ela for sedentária, porém, seu coração tem mais chance de sucumbir ao esforço extra, ter uma insuficiência cardíaca e precisar de cuidados extras.
Coma direito As escolhas alimentares, sozinhas, podem aumentar ou diminuir a vida de uma pessoa em 13 anos. E os cientistas já têm uma razoável certeza do que é uma boa dieta. A maior parte dos estudos diz que o regime mais saudável é baseado em frutas, vegetais, grãos integrais, peixe, nozes e poucas porções de carne sem gordura.
Não fume O cigarro é o primeiro fator de risco para o câncer e aumenta a incidência de doenças cardíacas, duas das principais causas de morte.
Beba com moderação Evidências sugerem que consumir uma taça de vinho por dia faz bem ao coração e às artérias. Mais que isso, porém, pode trazer complicações, principalmente ao fígado e ao cérebro.
Controle seu peso Pessoas muito magras e muito gordas vivem menos. Nas tabelas peso-altura, que indicam o peso desejável para várias estaturas, a expectativa de vida é maior para quem se mantém no centro da faixa de peso desejável. Pesquisas recentes aumentaram esse limite para até 20% acima do ponto médio.
Exercite-se Os benefícios mais conhecidos do exercício ocorrem no coração. O famoso Framingham Heart Study, que monitora, há mais de 50 anos, a saúde dos habitantes de Framingham, nos Estados Unidos, descobriu que andar uma hora por dia durante a vida adia a morte por dois anos. Outros órgãos também ganham. As incidências de diabete e de câncer no cólon caem. E o cérebro corre menos risco de falhas.
Em boa parte da literatura médica sobre envelhecimento, o limite de 120 anos aparece como sendo um dado científico. Não é. Segundo Olshansky, a origem desse número é a Bíblia. O Antigo Testamento diz que Adão viveu 930 anos, Noé alcançou os 950 anos e Matusalém, até hoje sinônimo de pessoa longeva, comemorou 969 aniversários. Mas Deus mudou as regras do jogo. Logo antes do Dilúvio, Ele disse: “Meu Espírito não irá disputar com o homem, pois ele é mortal. Seus dias serão 120 anos” (Gênesis, 6:3).
Seja qual for a origem desse suposto limite, ele já foi superado. Em 1997, a francesa Jeanne Calment morreu aos 122 anos e 164 dias e é a pessoa que, oficialmente, mais tempo viveu, quebrando inclusive o limite de 115 anos que Leonard Hayflick estipulara no início dos anos 90, em seu livro Como e Por Que Envelhecemos.
A ironia é que, a despeito da tecnologia empregada nas pesquisas, a técnica mais eficaz até hoje descoberta para retardar o envelhecimento e aumentar a longevidade foi descoberta há 70 anos e consiste, simplesmente, em passar fome. Essa técnica, chamada de restrição calórica ou subnutrição sem desnutrição, nada mais é que uma dieta de baixas calorias, correspondente a dois terços do que o animal come normalmente e suficiente apenas para manter os sistemas vitais operando. O benefício é evidente. A dieta dobrou a longevidade média de ratos e já foi testada, com sucesso, em fungos, moscas, vermes, peixes, aranhas, ratos e camundongos. Estudos em andamento em macacos rhesus mostram que os resultados serão idênticos.
Como isso ocorre? Ninguém sabe. Suspeita-se que a dieta reduz a produção de radicais livres, que nascem durante a transformação de glicose em energia dentro da célula.
O próximo passo é fazer testes em humanos, o que não vai ser fácil, porque a técnica tem menos efeito quanto mais tardiamente é adotada. Além disso, mesmo que fique comprovada, será que as pessoas se submeteriam a isso? Há indícios de que a restrição calórica causa desconforto, além, claro, de uma baita fome. Os cientistas estão agora procurando mimetizar seu efeito sem a necessidade de jejum e já há notícias promissoras. No mês passado, foi anunciada a descoberta de uma substância que impede o metabolismo da glicose, imitando o efeito de uma dieta rigorosa e enganando a célula.
Outra técnica famosa é o uso de antioxidantes, que combatem os radicais livres, impedindo-os de danificar a célula. Essas substâncias realmente existem e são conhecidas. Muitas são, inclusive, produzidas pelo organismo ou encontradas em alimentos, como as vitaminas E e C. O desafio dos cientistas é provar que doses extras de antioxidantes podem aumentar o combate aos radicais livres sem causar outros males à saúde. Até agora, a prova não surgiu, embora haja experiências de sucesso em animais como vermes.
Um dos maiores riscos das pesquisas nessa área é que as pessoas podem pensar que não têm nada a perder se usarem uma substância cuja eficácia não foi comprovada. Mas a interrupção de uma grande pesquisa sobre reposição hormonal em mulheres pelo governo dos Estados Unidos acendeu um alerta. Depois de cinco anos de reposição, concluíram os cientistas, os riscos do tratamento superaram os supostos benefícios.
A teoria da reposição hormonal tem uma boa base científica. A produção hormonal de fato cai com o avanço da idade. Mas não se sabe se isso é causa ou efeito da velhice. Preocupado com isso, o Instituto Nacional do Envelhecimento, nos Estados Unidos, emitiu o seguinte comunicado no ano passado: “Contrariamente ao rumor popular, nenhum complemento demonstrou eficácia na prevenção ou na reversão do envelhecimento”.

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