4586 – Ciência do Impossível – Falar com Animais


A comunicação homem-animal é um assunto cientificamente controverso. Entre os anos 60 e 80, alguns estudos de grande visibilidade sugeriram que ela era possível. O golfinho Peter se notabilizou ao parecer compreender regras básicas de sintaxe e gramática e até imitar o som de certas palavras em inglês. Depois veio a gorila Koko, que aparentemente entende cerca de 1 000 gestos da língua americana de sinais. Em ambos os casos, surge a mesma crítica: dificuldade de reproduzir os resultados, a maioria não publicada em revistas científicas.
Alguns especialistas concordam com a ideia defendida pelo linguista americano Noam Chomsky, segundo a qual seria inútil pesquisar a linguagem dos bichos porque só os humanos seriam dotados de tal habilidade. Assim, as cerca de 200 palavras supostamente compreendidas por Rico, cão que vem sendo estudado no Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig (Alemanha), demonstrariam apenas que ele foi bem condicionado.
Mas muitos discordam. Talvez não seja coincidência que Rico pertença à raça border collie, que ocupa o lugar mais alto no ranking de inteligência canina. De fato, quando as pesquisas se concentram na cognição animal, os resultados muitas vezes surpreendem, e habilidades que estariam na raiz da linguagem aparecem. Certos golfinhos usam um tipo especial de assobio como se fosse um nome “pessoal” para “chamar” indivíduos de seu grupo. Macacos-pregos, que certamente não são os primatas mais inteligentes, entendem o valor do dinheiro.
Investigar a linguagem animal no contexto de habilidades cognitivas mais amplas, sem querer forçá-los a falar do nosso jeito, tem se mostrado um caminho mais promissor adotado pelos cientistas, o que talvez um dia abra possibilidades de comunicação que levem em conta características e limitações de cada espécie – inclusive a nossa. Isso porque nossa linguagem tão complexa talvez seja uma limitação para entender o que os animais podem ter a nos dizer de forma aparentemente mais simples.