2960 – Administrando o tempo


Da Super para o ☻Mega

Natural x artificial
Um segundo não é a 60ª parte de 1 minuto. Desde 1967 ele foi redefinido pelo Sistema Internacional de Unidades como “a duração de 9 192 631 770 ciclos de radiação de uma transição eletrônica no átomo de césio-133”. Em 1997, um adendo: “a -273,15 °C”. Usar um átomo para medir o tempo sugere que segundos, minutos e horas estavam aí, esperando ser descobertos. Mas o tempo do relógio é tão artificial quanto recente – ainda estamos nos adaptando a ele.

Basicamente, sua mente é uma máquina de 150 mil anos que se desdobrou para acompanhar os últimos 150. Ela é do tempo dos índios pirarrãs, exemplo de pré-história em pleno século 21. Os pirarrãs, que vivem no Amazonas, não têm palavras para descrever passado e futuro, só o que aconteceu hoje. A refeição, a dança e o sono começam quando a natureza pedir. É assim que viviam os primeiros grupos humanos.

Enquanto nossos antepassados só se ocupavam de sobreviver, não havia muito estímulo para planos e memórias. Mas o domínio do ambiente permitiu que se chegasse aos sofisticados conceitos de “ontem” e “amanhã”. Os primeiros astrônomos aprenderam a medir as fases da Lua e a passagem dos anos. Relógios de sol mediam as divisões do dia, e relógios de água, ancestrais daqueles de shopping, a passagem da noite. Outras coisas que fluíam ou se consumiam, como areia, velas e incensos, também eram usados, mas “amanhecer”, “sol a pino” e “anoitecer” ainda eram horários mais confiáveis.

Só na Idade Média surgiram os primeiros relógios mecânicos. Mas não tinham ponteiros nem números: mais do que mostrar, eles “soavam” o tempo, tocando um sino na hora de rezar. Em 1656, um matemático holandês criou o primeiro relógio de pêndulo, que na virada do século, com o avanço tecnológico, já marcava até minutos com precisão. Agora era possível provar que alguém estava atrasado 15 minutos – ao menos dentro nos limites municipais.

Sim, cada cidade tinha seu horário, calibrado pelo meio-dia local. Foi o trem, um meio de transporte com hora para sair e chegar, que forçou a padronização. Levou um tempo, claro. Alguns relógios ingleses de meados do século 19 possuíam dois ponteiros de minutos: o do “horário local” e o “da ferrovia” – na verdade, o do meridiano de Greenwich, que se tornaria a hora oficial em 1880, abrindo caminho para a adoção dos fusos horários.Em menos de um século, a Revolução Industrial transformou em planilha um mundo que ainda tinha muito de pirarrã. Não é à toa que nosso cérebro às vezes tem dificuldade de acompanhar o ritmo. Mas esse processo não chegou de maneira uniforme a todas as sociedades modernas – inclusive a uma sociedadeque você conhece bem.

Agora x depois
Procrastinar é não fazer aquilo que você deveria estar fazendo – mas sem curtir essa folga. Procrastinar é diferente de matar aula para ir ao cinema: ainda que envolva evitar tarefas não prazerosas, não dá prazer. Ao contrário, é uma atividade angustiante. É esse contorcionismo mental que chama a atenção dos especialistas: você precisa muito fazer isto, mas alguma coisa dentro de você acaba desviando a sua atenção para qualquer outra coisa. A internet, claro, deixou tudo mais complicado.

Um editorial do American Journal of Psychiatry comparou: “Decepcionar-se por não conseguir realizar uma tarefa longa conectado é como fornecer doses de ópio para operários no meio do expediente e se surpreender quando isso se torna um problema”. Outro impulso a ser combatido é a gratificação imediata. Há um experimento clássico em que uma pessoa é solicitada a escolher se quer R$ 100 agora ou R$ 110 amanhã; a maioria quer R$ 100 agora. Em outro momento, a oferta é R$ 100 daqui a 30 dias ou R$ 110 daqui a 31 dias; aí, a maioria espera. Na essência, as duas ofertas são idênticas – você espera um dia a mais e ganha R$ 10 pela paciência. Na prática, fazemos escolhas melhores quando pensamos no futuro, mas não quando o dilema está na nossa cara. É por isso que a lista de filmes que você quer ver antes de morrer é repleta de clássicos, mas você sempre acaba assistindo à reprise de Se Beber, Não Case ou Mamma Mia. Da mesma forma, você planeja uma tarde de trabalho e, quando vê, a tela do computador tem trocentas abas abertas e nelas há de tudo, menos trabalho.
Enxergando ontem com olhos de hoje

Muito do que você faz tem a ver com o que já fez. Quando essa tendência é acentuada, não há margem de manobra: você acaba repetindo os mesmos acertos e erros. Quem tem foco positivo no passado reúne parentes e gosta de montar álbuns de família; na variação negativa, fica remoendo o que poderia ter sido. Para o psicólogo social Philip Zimbardo, é uma perspectiva desejável, “mas não pode ser o centro da vida de ninguém, em nenhuma idade”.

TEIMOSIA
Em vez de tentar algo novo, como trocar o coador de café por uma cafeteira, preferem manter os velhos hábitos.

NOSTALGIA
Buscam se cercar de símbolos do passado. Podem ser fotos antigas ou até produtos que consumiam na infância.

FIXAÇÃO
Evitam comidas novas, não se expõem a músicas ou filmes não familiares e têm dificuldade em cultivar novas amizades.

SEGURANÇA
Não são de correr riscos, optando pelas soluções que já conhecem. Mesmo que surjam produtos revolucionários, tendem a continuar usando os antigos.
Foco no presente
O que importa é o momento, a vida é pra ser vivida

O foco no presente é o mais comum – e ao qual é mais difícil resistir. Afinal, é nele que o ser humano viveu milhares de anos, quando tudo o que importava era chegar vivo ao fim do dia. O “presentista” é impulsivo e ansioso, sempre se divertindo ou buscando diversão. Na variação hedonista, é a alma da festa. Na fatalista, tende à depressão. Bem utilizada, é uma perspectiva ótima: por que deixar pra amanhã o que se pode curtir hoje?

SEDENTO
Impulsivos, têm mais possibilidade de se complicar com álcool e outras drogas.

SEDENTÁRIO
Pouco adeptos de exercícios, comem mal, sabotam dietas e vão pouco ao médico.

PERDULÁRIO
Gasta no que não deve e o que não tem, valorizando a satisfação do consumo imediato.

PERDIDO
Não é pontual, privilegiando a vida pessoal a compromissos.
Foco no futuro
Planejar, poupar e se conter são as prioridades

“Pode-se creditar o sucesso da civilização ocidental à orientação futura de muitas populações”, diz Philip Zimbardo. É a perspectiva que todos querem (ou ao menos sabem que deveriam) ter. Passa a ser um problema quando o olho no amanhã impede que você aproveite o hoje. Correr é importante, mas saber desacelerar é mais importante ainda.

LOGÍSTICA
Compram antes ou estocam aquilo que sabem que vão precisar.

PRECAUÇÃO
Não costumam ter surpresas – e não gostam delas. Fazem tudo para que a coisa siga conforme o plano.

POUPANÇA
Bem-sucedidos profissionalmente, cuidam das finanças e costumam estar preparados para emergências.

CONTROLE
Pesam a gratificação imediata contra os custos futuros, o que se reflete em uma alimentação mais saudável, por exemplo.

PREVENÇÃO
Pensando no futuro, tendem a ter menos vícios, dirigir mais devagar e usar camisinha. Fazem exercícios e marcam exames preventivos.
Dicas para acelerar sem perder o ritmo

Observe
Procure andar mais com quem foca o futuro. Veja como é o mundo deles. É preciso ter um exemplo próximo de alguém que cumpre metas, para acreditar que é possível.

Inverta
Reordene sua caixa de entrada de e-mails para que os mais antigos fiquem no alto da lista. Resolver o passado libera o futuro. Aliás, isso vale para muito mais coisas além de e-mail.

Distraia-se
Não precisa se punir quando estiver com a cabeça em outra coisa: vagabundagem mental é essencial para o processo criativo. Um minuto de distração pode inspirar horas de foco.

Cronometre
Subestimamos o tempo das tarefas, seja por ignorar a duração delas no passado, seja por não prever imprevistos. Descubra o tempo que as coisas duram para se planejar direito.

Evite
Aprenda a dizer “não” – saber o que não fazer é tão importante quanto saber o que fazer. Tempo é precioso: dê um pouco a si mesmo.

Pare
Agende blocos de tempo apenas para pensar nos seus dilemas – um momento sem TV, computador ou telefone, só com você. Se quiser, pode chamar de meditação.

Separe
Multitasking é mito: até computador derrapa pra fazer tarefas simultâneas. Se não for algo simples, como lavar louça e ouvir música, melhor fazer uma de cada vez.

Aliste-se
O ideal é fazer listas que você possa cumprir em um dia – uma semana já é muito tempo. Nunca coloque tarefas vagas: quanto mais específico, melhor.

Cuide-se
Exercício e dieta balanceada não aceleram só o metabolismo – eles aumentam seu foco e sua concentração, permitindo que você complete seu trabalho em menos tempo.

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