2806 – Júpiter e suas Luas


Júpiter, o maior planeta do sistema solar, não por acaso assim chamado em homenagem ao deus máximo da mitologia para os romanos. Calcula-se que Júpiter possui 70 cento de toda a matéria que gira em torno do Sol. É tão gigantesco que no seu interior caberiam folgadamente mais de mil Terras. Comparadas a tal gigante, até os planetas mais avantajados, como Urano, Netuno e Saturno — este, o segundo maior — não passam de anões.Não é de estranhar, portanto, que, quando foi formado junto com os outros planetas, há cerca de 4,5 bilhões de anos, Júpiter podia perfeitamente bem se transformar numa estrela. Se isso tivesse acontecido, os habitantes deste pequeno mundo chamado Terra , a cerca de 600 milhões de quilômetros de distância, passariam pela provavelmente desconfortável experiência de viver com dois sóis no céu e talvez nenhuma noite. Não seria uma novidade na Via Láctea, onde a maioria das estrelas é binária, ou seja, faz parte de sistemas duplos.Mas o Sol permaneceu solitário: Júpiter teria que acumular cinqüenta vezes mais massa para que a temperatura no seu interior desse início às reações de fusão nuclear que caracterizam uma estrela, e ele passasse a brilhar com luz própria.
Como isso não ocorreu, o planeta se tornou uma espécie de bola gigantesca de gases — hidrogênio, hélio, metano e amônia — que por motivos ainda não explicados pela Astronomia emite duas vezes mais energia do que recebe do Sol. Dotado de um sistema particular de dezesseis luas, Júpiter passou a ser um alvo importante das sondas espaciais. Quatro delas, as Pioneer 10 e 11 e as Voyager 1 e 2, mostraram imagens fantásticas da atmosfera multicolorida desse planeta, que lhe dão a aparência de um ovo de Páscoa achatado, pintado a mão.
Júpiter é conhecido desde a Antiguidade, por ser o segundo astro mais brilhante no céu (depois de Vênus e, naturalmente, sem contar o Sol e a Lua), podendo portanto ser localizado facilmente a olho nu. Além disso, seus satélites, todos com nomes de amigos e amantes dos deuses, foram avistados por Galileu (1564-1642) há mais de trezentos anos com uma simples luneta. Mas Barroso não se limita a observar. Ele está engajado num projeto coordenado pelo astrônomo francês Jean Arnot e com a participação de pesquisadores de várias partes do mundo que usam a técnica de fotometria rápida, ou seja, a análise das variações da intensidade de luz recebida dos satélites em intervalos de milésimos de segundo. Com esse método é possível calcular a posição das luas de Júpiter com uma precisão de 100 quilômetros — menos da metade da distância do Rio a Brazópolis.
Devido à extraordinária precisão dos seus instrumentos, a Galileo — cujo nome presta homenagem ao cientista que descobriu as luas de Júpiter — deve percorrer dez órbitas em volta do planeta. Durante quase dois anos, essa maravilha de pouco mais de 1 metro de diâmetro colecionará imagens mil vezes mais próximas e com uma resolução dezenas de vezes mais nítida do que as produzidas pelas sondas que a antecederam. Seu programa inclui ainda uma acrobacia suicida. Baseado numa experiência semelhante realizada em 1978 pela sonda Pioneer 1 em Vênus, uma parte da nave deve se separar do corpo principal e mergulhar na atmosfera de Júpiter.
Construída para resistir a pressões vinte vezes maiores que as existentes na Terra, a minissonda descerá no planeta a uma estonteante velocidade de 200 mil quilômetros por hora até que a desaceleração torne possível a abertura de um pára-quedas. Antes que seja destruída, a cápsula enviará à NASA uma série de dados sobre a estrutura física da atmosfera de Júpiter. Será um dossiê e tanto. Pois, por tudo o que se sabe, Júpiter é um planeta muito peculiar. Nele não existem montanhas, vales, vulcões ou lagos subterrâneos. Apenas um vasto oceano de gás e nuvens densas. Por causa disso, sua atmosfera mais parece com repulsiva fumaça que exala do caldeirão de uma feiticeira dos velhos contos infantis de terror.
Abraçando todo o planeta, se estendem camadas e mais camadas de nuvens de centenas de quilômetros de espessura. Como na Terra, ali as correntes de ar se deslocam dos pólos para o equador a baixas altitudes e do equador para os pólos a altitudes mais elevadas. Mas pára aí a semelhança. Em Júpiter, as faixas ascendentes são brancas e provavelmente têm em sua composição cristais de amônia. As mais profundas e quentes, de cor marrom-avermelhada, podem conter cristais de fósforo, enxofre ou, não é impossível, até mesmo alguma substância orgânica. Como tudo o que se refere a Júpiter é exagerado, sua rotação também é a mais rápida do sistema solar.
O planeta tem o diâmetro onze vezes maior que o da Terra; no entanto gira em torno do seu eixo em menos da metade do tempo.Perto do equador de Júpiter avista-se, com o auxílio de telescópios, uma das mais misteriosas peculiaridades desse carrossel climático: a Grande Mancha Vermelha, conhecida desde 1610 e cuja área é quase igual à da Terra.Esse mundo de gases deve ter no centro uma massa informe de rocha e ferro. Em volta dela, numa zona onde o calor chega a 400 graus Celsius e onde a pressão é inconcebíveis 3 milhões de vezes maior que a da atmosfera da Terra, deve existir um grande oceano derretido e escuro de hidrogênio. Nessas condições, afirmam os físicos, o hidrogênio, embora líquido, se torna um condutor elétrico como qualquer metal, com a peculiaridade de não oferecer resistência à passagem de correntes, como se fosse uma cerâmica supercondutora. O que alguns planetas têm demais, em outros não existe. Na Terra, por exemplo, sonha-se com a produção em laboratório de hidrogênio supercondutor a altas temperaturas, o que levaria a uma revolução na indústria eletrônica. Em Júpiter, o hidrogênio metálico é tão abundante que dele se origina o campo magnético do planeta, que, para variar, é também o maior do sistema solar. Além disso, recebe os vapores de enxofre ionizados na atmosfera, provenientes dos vulcões em atividade do satélite Io. Quando passar por Júpiter, a Galileo vai analisar as partículas do campo magnético e medir sua densidade e carga elétrica. Ganimedes também é uma mistura de rocha e gelo parcialmente coberta de crateras. Ali, o derramamento de lavas vulcânicas limpou uma parte da superfície, deixando áreas claras e escuras, estas últimas as mais esburacadas. Europa, um globo onde o chão é coberto de pólo a pólo com o que parece uma teia de aranha, lembra a rede de canais que os terrestres mais imaginosos pensavam ter sido construída pelos hipotéticos habitantes de Marte. Europa já foi inteirinho coberto de gelo. Hoje sua carapaça possui rachaduras, espécies de janelas que permitem a passagem da luz.Nas fotos das Voyagers podem ser vistos vulcões gelados que lançam cristais de gelo e água no céu de Europa. Por isso, cientistas da Associação Americana de Geofísica formularam a ousada hipótese de que a luz, penetrando nas rachaduras, poderia assegurar a sobrevivência de microorganismos em oceanos subterrâneos do satélite, como aqueles encontrados sob o gelo perpétuo que cobre os lagos antárticos da Terra. O mais colorido de todos os satélites de Júpiter chama-se Io e tem o tamanho da Lua terrestre. Queimado de amarelo e vermelho e salpicado de pontos negros, ou vulcões, Io já foi comparado a uma pizza descomunal. O calor gerado pela enorme força gravitacional de Júpiter, do qual está muito próximo, detona explosões de enxofre e sulfeto de enxofre do seu interior. Quando isso acontece, o material jorra dos vulcões a quilômetros de altura para depois voltar sob a forma de neve sulfúrica. Io tem atmosfera — uma raridade entre os satélites do sistema solar compartilhada apenas por Titã, de Saturno, e Tritão, de Netuno — composta de uma fina camada de dióxido de enxofre. Diante de tanto enxofre, os especialistas da NASA costumam brincar que se Io fosse realmente uma pizza teria um insuportável cheiro de ovo podre.Se os quatro grandes satélites de Júpiter fossem do tamanho de uma bola de futebol, os doze menores não passariam de um grão de areia.Quase uma estrela dotado de uma família de satélites e influenciando os astros a seu redor, Júpiter pode mesmo ser considerado um sistema solar em miniatura — se é que essa palavra pode ser aplicada a um corpo tão gigantesco.

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