2718-Fóssil de”dente-de-sabre” herbívoro e com molar no céu da boca


Dentes de Sabre: estratégia para afugentar os predadores

A criatura possuía dentes-de-sabre, como os famosos “tigres”, mas não tinha nada de carnívora. O resto da dentição até lembrava a dos mamíferos atuais, com uma diferença crucial: o céu da boca servia para mastigar.
Essa anatomia bucal inusitada, nunca vista antes num vertebrado, justifica o nome científico do bicho. O Tiarajudens eccentricus era, de fato, excêntrico –talvez a mais estranha das espécies que povoavam o Rio Grande do Sul há 260 milhões de anos.
Um grupo de paleontólogos está apresentando o animal ao mundo hoje, em artigo na prestigiosa revista americana “Science”.
Com 12 centímetros de comprimento e bastante afiados, os caninos parecem máquinas de matar, mas há raros casos de herbívoros com dentes desse tipo, como certos veados asiáticos.
Com base nesses exemplos, dá para traçar algumas hipóteses. Os “sabres” poderiam servir para afugentar predadores. Talvez fossem exibidos e/ou empregados durante disputas por poder e parceiros sexuais.
Esquisitices à parte, o bicho é importante por mostrar um evento evolutivo crucial: como surgiram os especialistas em devorar plantas.
“A alimentação dele envolvia algum tipo de material vegetal fibroso. A gente sabe que não era capim, porque a grama ainda não havia surgido naquela época. Talvez algo como folhas e caules”, diz Juan Carlos Cisneros, paleontólogo nascido em El Salvador, atualmente na Universidade Federal do Piauí.
Ele é o coordenador do estudo, do qual participaram cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da sul-africana Universidade do Witwatersrand.
Timidamente, Cisneros pede que não se use a palavra “réptil” para se referir ao T. eccentricus. De fato, o bicho não cabe nas classificações tradicionais que usamos para as espécies de hoje.
Embora tenha algo de lagartão (o tamanho era o de uma capivara), faz parte de um grupo de animais ligados aos avós dos mamíferos, os chamados terápsidos.
A evolução dos terápsidos foi a responsável por criar os primeiros ecossistemas terrestres com cara “moderna”, nos quais os herbívoros são maioria. E os estranhos dentes no céu da boca do T. eccentricus ajudam a documentar essa transição.
É que esses dentes apresentam formato diferenciado e padrão de desgaste característico, lembrando os molares dos mamíferos de hoje.
Permitiam processar cuidadosamente os vegetais fibrosos, extraindo deles mais nutrientes do que os dentes de répteis, que só permitem arrancar bocados da comida.
“Há lagartos hoje com dentes no palato [céu da boca], mas eles só servem para prender a comida, nunca para mastigar”, diz Cisneros.
Mas como mastigar com o céu da boca sem morder a língua?
“Boa pergunta”, ri o paleontólogo. “Achamos que os dentes de baixo, que ainda não foram achados, provavelmente estavam mais para dentro, o que evitaria isso.”
Dentes-de-sabre parecem ser o tipo de “invenção” evolutiva que aparece com alguma frequência. Só entre mamíferos que habitaram a América do Sul, há dois exemplos famosos.
O mais conhecido é o Smilodon, o dente-de-sabre por excelência (o termo “tigre” não é adequado; o bicho não é parente próximo de nenhum felino vivo e não era tigre). Sumiu há 10 mil anos e conviveu com os primeiros habitantes humanos do Brasil.
E há também uma versão marsupial (primo, portanto, dos cangurus), o Thylacosmilus, desaparecido há 3 milhões de anos.

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