2639-Leite que já vem com remédio


Lembra-se da Dolly, a ovelha clonada a partir de uma célula adulta que causou alvoroço em 1997? Pouca gente sabe, mas o Instituto Roslin, da Escócia, não fez o bicho só pelo prazer de ser pioneiro. A pesquisa era uma parceria com a empresa PPL Therapeutics. Como o nome diz, o negócio da empresa são remédios, e não clones. Dolly só foi gerada porque criadores de ovelhas transgênicas precisam obter de maneira mais rápida exemplares muito bons naquilo que interessa: produzir drogas no leite. Normalmente, só 5% dos animais que recebem genes estrangeiros incorporam-no ao seu DNA e, mesmo entre esses, varia muito a quantidade da substância-alvo secretada. A saída é escolher as melhores fêmeas e criar um rebanho idêntico a elas.
Por esse motivo, também foi de grande importância o nascimento de Polly, anunciado quase um ano depois. Como Dolly, era um clone, mas também um animal transgênico. A cópia carregava um gene humano que força as glândulas mamárias a produzir o fator IX de coagulação do sangue, usado no tratamento da hemofilia.
Os fabricantes de remédios estão alucinados com o transleite, que poderá reduzir muito os seus custos. As ovelhas da PPL já produzem o AAT, componente do sangue humano usado para tratamento de problemas nos pulmões, como enfisema crônico e fibrose cística. A empresa americana Genzyme garante que já teve sucesso na produção de 25 outros compostos. Um deles é a albumina humana, a proteína mais abundante no sangue, que serve principalmente para manter o seu volume. Os cirurgiões usam muita albumina e ela também é útil no tratamento de queimaduras. Hoje, consomem-se no mundo 440 toneladas por ano da substância, que é extraída do sangue de doadores.
O Brasil ainda engatinha nesse mundo de colchas de retalhos genéticos. Mas nossos cientistas dominam, há anos, uma das técnicas mais populares para introduzir DNA alheio nas células, o canhão de genes (veja o infográfico). Há, também, vários laboratórios investigando vacinas de DNA contra uma série de doenças em que a própria molécula dos genes é usada como antígeno. Um dos maiores especialistas nisso é Sérgio Costa Oliveira, chefe do Laboratório de Imunologia de Doenças Infecciosas da Universidade Federal de Minas Gerais. Ele pesquisa uma vacina genética para esquistossomose e também outras de interesse veterinário (contra brucelose e herpesvírus bovino). “Caminhamos mais devagar, talvez pela falta de recursos. Mas sabemos que lá fora essas tecnologias estão em alta total”, afirmou
A farmácia biotecnológica pode, portanto, demorar um pouco para instalar-se por aqui. Mas isso não significa que você levará muito tempo para ter contato com os seres transgênicos. É bem possível que até já tenha provado um deles. Como não há separação nem rotulação, as indústrias de batatas chips americanas – que exportam aos montes para o Brasil – não excluem a hipótese de já ter usado uma batata transgênica que mata besouros, cultivada nos Estados Unidos.

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