2406-Urbanismo-Um PAN sustentável


Logo dos Jogos Pan de 2007 no RJ

Tudo na Cidade dos Esportes, no Rio de Janeiro – que abrigou os XV Jogos Pan-Americanos -, foi projetado e construído para não causar qualquer dano ao meio ambiente
De 13 a 29 de julho de 2007, a cidade do Rio de Janeiro recebeu a segunda maior competição multiesportiva do mundo – os “XV Jogos Pan-Americanos” -, que reunirá delegações de 42 países, com atletas das mais diferentes origens, credos e culturas. E, numa época como a que vivemos, em que a preocupação com o planeta beira a paranóia, seria mais do que natural que este evento também fosse cercado de cuidados ecológicos. Afinal, este é um assunto que transcende a cor do uniforme ou a bandeira no pódio. o Pan 2007 vai contribuir para que seu impacto no ambiente seja o menor possível.

Para receber o Pan, o Rio passou por muitas obras para criar instalações que abrigam atletas e permitem a realização do evento. Mas foi a “Cidade dos Esportes”, um complexo esportivo localizado na Barra da Tijuca, a maior interferência urbana que o carioca presenciou. Lá, surgiram a “Arena Multiuso”, o “Parque Aquático Maria Lenk” e o “Velódromo do Rio”, todos distantes cerca de 5 km da Vila Pan-Americana, um conjunto de 17 prédios, com 1.480 unidades habitacionais, que será a casa dos atletas durante as competições. Como erguer novas instalações, mas reduzir o impacto ambiental dessas construções? “Desde o planejamento, a preocupação com o meio ambiente foi pauta importante na definição dos projetos”, afirma Eider Dantas, Secretário Municipal de Obras do Rio de Janeiro. Para projetar e coordenar a construção dos principais equipamentos do Pan, foram escalados os arquitetos Carlos Porto e Gilson Santos. “Uma das nossas principais diretrizes foi a economia de água”, informa Santos. Assim, os arquitetos criaram, em todas as novas instalações, reservatórios para água de chuva, que, depois de filtrada e armazenada, é utilizada para fins não-potáveis, em vasos sanitários e para irrigação, reserva técnica de incêndio e lavagem de pisos.

Outra grande obra da Prefeitura para o Pan é o moderno e arrojado “Estádio Olímpico João Havelange”, no bairro de Engenho de Dentro, com capacidade para 45 mil espectadores: ele apresenta recurso semelhante, que auxilia a irrigação periódica do grande gramado de futebol.
No “Parque Aquático Maria Lenk”, local das provas de natação, nado sincronizado e saltos ornamentais, há ainda um sistema de filtragem inovador, no qual a água utilizada para a limpeza dos filtros, que normalmente é descartada, volta a ser filtrada e a encher as piscinas. Já a idéia de utilização de energia solar se mostrou muito cara para os projetos. “Como os equipamentos serão utilizados pontualmente e não com uma freqüência diária, a longo prazo, a instalação da tecnologia para captação de energia solar se tornou inadequada na relação custo e benefício”, explica Santos.
Mas, para economizar energia elétrica, os arquitetos privilegiaram recursos que permitem a incidência de muita luz natural. O Velódromo, que abriga as provas de ciclismo e patinação de velocidade, conta com uma cobertura de telhas translúcidas que facilita a entrada de luz.
No “Parque Aquático Maria Lenk”, apenas a arquibancada é coberta e a incidência solar é direta, o que reduz gastos com iluminação artificial. Já a “Arena Multiuso” – que abriga as disputas de basquete, ginástica artística e trampolim acrobático – é completamente fechada e climatizada e a solução foi utilizar um isolante térmico em sua cobertura, para conservar o ar frio que sai dos aparelhos de ar condicionado e economizar energia.
A “Vila Pan-Americana” – que não foi construída pela Prefeitura, mas por uma construtora carioca (os apartamentos serão parte de um condomínio residencial, depois dos Jogos) – também privilegiou a ventilação e a iluminação naturais. Os prédios, projetados com pavimentos divididos em forma de pétalas, com um átrio central e uma grande clarabóia na cobertura, permitem que todos os cômodos das unidades e áreas comuns recebam a luz do sol.

Mas, talvez, uma das maiores contribuições do Pan à região da “Cidade dos Esportes” seja a construção da Unidade de Tratamento de Rio (UTR) do Arroio Fundo. O objetivo da obra é melhorar a qualidade da água do rio Arroio, que margeia a Vila Pan-Americana. A construção da UTR do Arroio vai garantir a melhoria da qualidade do curso d”água e do meio ambiente nos arredores da Vila. O método utilizado para o tratamento da água do rio, desde o local da implantação da UTR até o seu deságüe na Lagoa da Tijuca, é o Flotflux, que trata 1.800 litros de água por segundo. A tecnologia é nacional e tem sucesso comprovado em outras obras já realizadas pelo Brasil. “É o mesmo tipo de unidade utilizada no rio Tietê, em São Paulo”, informa o secretário Eider Dantas. O tratamento é realizado em etapas. Entre elas estão a retenção do lixo bruto do curso d”água com uma barreira flutuante, o acúmulo das impurezas do curso hídrico em partículas, que depois ficam em suspensão, a formação de micro-bolhas, sustentando os flocos na superfície da água, e a retirada de formações de lodo no rio. Já o tratamento de esgoto será realizado localmente, em cada instalação, e depois conduzido para a rede de esgoto da Cedae (Companhia de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro). “O esgoto, gerado em cada instalação da Cidade dos Esportes, sairá 90% tratado. A estação de tratamento da Barra da Tijuca e o interceptor submarino dão conta do despejo final”, explica Eider. O lixo terá coleta seletiva, com recipientes distribuídos nas áreas dos Jogos, destinados a cada tipo de descarte, e a Comlurb (Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio de Janeiro) encaminhará o lixo reciclável para cooperativas de catadores.

A utilização de estruturas pré-moldadas, que usam fôrmas metálicas, em vez de peças de madeira, também foi uma decisão importante nas obras do Pan”, lembra o arquiteto Gilson Santos. Por falar em madeira, ela aparece em exemplares certificados de pau-marfim, na quadra de basquete, da “Arena Multiuso”, e de pinho siberiano, na belíssima pista do “Velódromo”. Com tecnologia holandesa, a pista é feita com madeira própria para esse tipo de construção, proveniente de pinheiros de locais frios, sem poluição e que alcançam grandes alturas. As peças não apresentam umidade e sofrem torções para serem ajustadas nas curvas. A cidade do Rio ficou também mais verde para o Pan. Mais de um milhão de novas árvores nativas de Mata Atlântica e espécies ornamentais foram distribuídas pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente, em canteiros e nas encostas reflorestadas, de norte a sul da cidade. A iniciativa parte das metas estabelecidas para 2007, o Ano da Arborização. Dando boas-vindas à cidade, a Av. Brasil, junto ao Trevo das Margaridas, ganhou novos jardins, extensos gramados e 347 novas árvores. Outro eixo de passagem importante, a Rua Mário Ribeiro, no bairro da Gávea, ostenta um grupo de 29 palmeiras imperiais, com aproximadamente 5 m de altura, ao longo do trajeto que liga os bairros de Lagoa a São Conrado. A “Vila Pan-Americana” e a Av. Abelardo Bueno, na região da “Cidade dos Esportes”, ganharam 2.530 palmeiras, ipês, aroeiras, paus-brasil, entre outros exemplares nativos e espécies de restinga, que já ornamentam o “Boulevard do Pan”, caminho que leva ao “Velódromo” e ao “Parque Aquático Maria Lenk”. A Av. Rachel de Queiroz é o local do Bosque do Pan, onde, numa área de aproximadamente 680 m2, pitangueiras plantadas pelos representantes das delegações comemoram a realização do evento. Ao longo dos 30 mil m2 da avenida, outras 420 árvores e diferentes tipos de palmeiras completam a paisagem. Outro legado do evento é a implementação do Corredor Verde do Pan, unindo os maciços da Pedra Branca e Tijuca. Os plantios foram iniciados no dia 29 de junho, numa região de 40 hectares, próxima à Praça Seca, no bairro de Jacarepaguá. São espécies de Mata Atlântica, que além de reflorestar a área, integram a biodiversidade dos maciços, permitindo a circulação de animais entre as áreas. A iniciativa está também diretamente ligada às ações que pretendem diminuir os efeitos do aquecimento global, inclusive com acompanhamento e avaliação das emissões de dióxido de carbono (C02), durante os Jogos, tarefa a ser feita pela COPPE/UFRJ (Coordenação dos Programas de Pós-Graduação de Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro). “Resgatar áreas degradadas do Rio é uma das principais contribuições do Pan”, opina Gilson. “A região da Cidade dos Esportes, em termos urbanísticos, era um local abandonado e com pouco uso. O projeto das novas instalações incluiu também a reurbanização do entorno, incluindo a criação de calçadas, áreas de jardim, gramado e circulação de veículos”, completa. Para o arquiteto, agora, só resta se juntar à torcida e apostar no sucesso do evento. Já aos cariocas, cabe ainda torcer para que as boas idéias das instalações do Pan se espalhem para outras áreas da cidade, carente de uma ampla reorganização urbanística, e não se percam, após a cerimônia de encerramento.

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